A mesma pessoa que quer ordem quer proteção social. O
mesmo eleitor que votou num lado já votou no outro
No Acre, uma mulher me contou uma cena do mercado. O filho
pequeno colocou um chocolate no carrinho. Ela teve que tirar. A criança chorou,
e ela precisou explicar que não dava para pagar tudo, que naquele mês era só o
básico. Nenhum debate na TV tem essa cena. E ela resume o Brasil que vai às
urnas no dia 4.
Nas últimas semanas, estive em Brasília, Acre, Paraná, São
Paulo, Rio de Janeiro e Nordeste. Realidades e sotaques diferentes, problemas
que mudam de nome. Mas uma palavra atravessou quase todas as conversas:
cansaço. E é esse eleitor cansado quem decidirá a disputa.
O primeiro cansaço é o do bolso. Em
Brasília, conversei com um homem que trabalha no comércio e ainda faz bico de
Uber num carro alugado para fechar o mês. Já votou em Bolsonaro. Já votou em
Lula. Agora não sabe para onde vai. Perguntei o que um candidato precisaria
dizer para ele voltar a confiar:
— Não quero ninguém salvando o mundo. Quero saber quem vai
me ajudar a salvar o dinheiro para pagar as contas no fim do mês.
No Nordeste, ouvi o reconhecimento e a cobrança na mesma
frase.
— O social chegou, a gente está incluído. Mas a gente quer
mais. Meu filho quer abrir um negócio e não encontra crédito. E as dívidas só
aumentam.
Os números confirmam. Segundo a CNC, 82% das famílias
estavam endividadas em agosto, recorde pelo sétimo mês seguido. Entre quem
ganha até três salários mínimos, quase quatro em cada dez têm conta atrasada. A
inclusão abriu a porta. Agora a favela quer entrar na sala onde se decide
crédito, investimento e oportunidade.
O segundo cansaço é o do esquecimento. A mesma mulher do
Acre foi direta:
— A política só lembra de mim na eleição.
É a frase que mais se ouve nas periferias, e a que menos se
escuta.
O terceiro é o do medo. Em São Paulo, uma mulher começou
pela segurança, mas queria também amparo social. No Rio, a conversa seguiu o
mesmo caminho:
— Do jeito que tá, quem manda aqui é a vagabundagem. Só que
não adianta mandar polícia aqui só para matar e ir embora. A gente quer direito
também.
A favela quer ordem e quer dignidade. Quer o Estado
presente, não de passagem.
E há o cansaço da própria briga. No Paraná, visitei uma
família em casa. Ali, a polarização não era tema de noticiário. Tinha dividido
os parentes. A política, que deveria organizar a vida em comum, entrou pela
porta para separar quem se ama.
Juntando essas vozes, ninguém me pediu revolução. Pediram
conta paga, lembrança fora da eleição, segurança com direitos, crédito para
empreender, família em paz. São demandas que desmontam a divisão entre esquerda
e direita. A mesma pessoa que quer ordem quer proteção social. O mesmo eleitor
que votou num lado já votou no outro.
E aqui os dois lados falham. Um fala de segurança como se
bastasse mandar polícia. O outro fala de inclusão como se ela fosse ponto de
chegada, e não de partida.
Esse eleitor também tem um poder que quase não usa. No dia
4, serão seis escolhas na urna. Quem comanda as polícias é o governador.
Deputados e senadores controlam parte importante do orçamento. A maior parte do
que aperta essa gente passa por votos que ficam longe do barulho.
O eleitor cansado não está vazio de opinião. Sabe o que
aperta. Está disponível, mas cansado de ser disputado como torcida e esquecido
como cidadão. Ele não abandonou a política. Foi a política que se afastou dele.
E, desta vez, é ele quem decidirá.

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