Presença ou ausência do debate é um perde-perde, mas Lula
avaliou que, na segunda opção, perderia mais
“Vou fazer uma pergunta e eles vão passar meia hora batendo
em mim. Vou fazer mais outra pergunta e vai ser mais meia hora só apanhando”.
Ao final, os adversários teriam uma coleção de cortes contra si e ele, a imagem
de acuado. Foi assim que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressou a
seus principais assessores, no fim de semana, sua resistência em ir ao debate
de quinta na TV Globo. Prefere ir apenas no 2º turno, mas ainda não deu
resposta.
A campanha de Renan Santos (Missão) passou a alimentar a
expectativa de que, na ausência de Lula, seria chamado. Neste caso, a dúvida é
se o senador Flávio Bolsonaro (PL) manterá a decisão de ir, já anunciada. Pode
vir a se tornar o principal alvo, a começar por Renan, o mais agressivo da
disputa, mas perderia a oportunidade de acusar Lula de fujão.
Ausente, Lula será acusado, ainda, de
desrespeitar o direito do eleitor de se informar e tomar decisão a partir do
embate entre as ideias dos candidatos. Indo, sob a pressão de um cronômetro
incompatível com um contador de história, pode vir a perder a discreta vantagem
adquirida sobre seu principal adversário na reta final. Ou seja, é um
perde-perde, em que a ida ao debate, na sua avaliação, imporia uma perda maior.
A campanha ficará privada de um fato capaz de mudar os
ventos na reta final. A biruta agora ficará na dependência do imprevisível -
vazamentos ou deslizes. A Quaest mostrou que a soma de votos da terceira via
praticamente inviabiliza a vitória de um dos dois no 1º turno.
A rejeição de Lula e Flávio e a relativa consolidação dos
votos dos demais candidatos impede esta migração maciça. Em 2022, a terceira
via ficou aquém do que as pesquisas lhe atribuía, mas não se sabe se a opção
envergonhada por Jair Bolsonaro veio deles ou de votos em branco e nulos, que
ficaram em metade dos registrados em 2018.
Não terá sido a primeira vez que um 1º turno termina sem
debate. Na campanha de 1998, o então candidato à reeleição, Fernando Henrique
Cardoso, anunciou que só iria àqueles do 2º turno. Como a eleição terminou no
primeiro, ficou por isso mesmo. No 1º turno de 2006, foi a vez de Lula dizer
que estava fora. Hoje seu vice, Geraldo Alckmin foi o único candidato
presidencial a terminar o 2º turno com menos votos do que os obtidos no
primeiro.
Atribuiu-se à votação obtida por Alckmin no 1º turno daquela
eleição, em parte, a uma resposta à ausência de Lula nos debates, remediada no
segundo. O mesmo pode acontecer desta vez. Nem isso demoveu Lula.
A idade pesa, principalmente com o antecedente de Joe Biden
naquele fatídico 27 de junho de 2024. Gripado, o ex-presidente americano
demonstrou pouca energia, não obedeceu às marcações de tempo, fechou os olhos
em busca das palavras, fez longas pausas e se atrapalhou a ponto de dizer que
havia burlado o Medicare, programa público de saúde, orgulho democrata.
Sarcástico, mas com a beligerância sob controle, Donald Trump deixou Biden se
enrolar nas próprias pernas. Como o debate aconteceu precocemente, houve tempo
de substituí-lo pela vice, Kamala Harris, um mês depois, o que não garantiu a
vitória democrata.
Três anos mais novo que Biden, Lula tem apenas um ano a
menos que o ex-presidente naquela disputa. A dificuldade de se adaptar às
regras já marcou o desempenho em 2022, quando irritou-se com Padre Kelmon,
candidato do PTB, e hesitou ao responder a Jair Bolsonaro que o chamou de
“presidiário”.
O presidente, porém, tem seu desempenho afetado pela
conjuntura desde a estreia em disputas presidenciais. Foi num debate de 1989
que carimbou Paulo Maluf: “Quando o candidato Maluf fala em competência, é
importante o telespectador saber por que ele é competente. É porque compete,
compete, compete e nunca ganha”. Mas também foi nesta campanha que Lula se
deixou desequilibrar no último grande ato do 2º turno.
Dois dias antes, uma pesquisa Ibope trouxe Lula e Fernando
Collor de Mello em empate técnico. Naquela noite, seu adversário, o intrépido
caçador de marajás, exibiria Mirian, mãe da filha mais velha de Lula, Lurian,
acusando-o de tê-la pressionado para que a abortasse. Ele assumiu a
paternidade, pagou pensão e tinha o apoio dos avós da menina. O problema era o
impacto emocional sobre o candidato, que se recusou a falar mal da mãe de sua
filha e a deixar que ela saísse em sua defesa. Só permitiu que ficasse ao seu
lado no depoimento que gravou sobre o tema.
Lula chegou ao debate quebrado por uma viagem às 5h da manhã
da qual só retornaria à noite, como conta seu então marqueteiro, Paulo de Tarso
Santos, no livro “Lula lá e outras histórias”. Não houve preparação. O petista
conseguiu ir mal num debate em que seu adversário, filho da elite usineira de
Alagoas, disse que ele tinha um aparelho 3 em 1 (toca-fitas, toca-discos e
rádio) como ele mesmo não possuía.
Não é só a idade que pesa. Em 2016, Flávio Bolsonaro, aos 35
anos, enfrentou um debate pela Prefeitura do Rio. No segundo bloco, pediu para
o apresentador repetir uma pergunta alegando pressão baixa. Não adiantou. Sua
adversária, a médica e deputada federal Jandira Feghali (PCdoB) agarrou-o pelo
braço, veio o intervalo e o candidato foi levado a um hospital onde informou-se
que tivera intoxicação. O pai foi pra cima de Feghali: “Comunista não põe a mão
no meu filho”. O rebento ficou em quarto lugar.

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