O Brasil está profunda e descabidamente atrasado em
relação à modernização da concepção de jornada de trabalho e do que é o próprio
trabalho
A descabida celeuma sobre as implicações da inteligência
artificial expressa nosso atraso social em vários campos da realidade.
Especialmente o atraso da vida em relação ao avanço rápido e multiplicativo do
conhecimento, embora não seja esse o único nem o mais grave dos nossos
descompassos.
O Brasil tem universidades de ponta, como a USP, que está
entre as 100 melhores do mundo e é a melhor da América Latina. Uma universidade
inventada na cadeia pelo jornalista Júlio de Mesquita Filho, um dos derrotados
na Revolução Constitucionalista de 1932, como universidade pública, laica e
gratuita. Ele inventou o regime de cotas: para todos os vocacionados.
Ao mesmo tempo, o Brasil está profunda e descabidamente
atrasado em relação à modernização da concepção de jornada de trabalho e do que
é o próprio trabalho.
A resistência à superação da jornada de 6
dias de trabalho para 1 de descanso é uma resistência sociologicamente
reacionária e anticapitalista. Politicamente é oportunista apesar de
antissocial. Coloca o trabalhador sob suspeita de vagabundagem e não os negociantes
sob suspeita de lucro extraordinário com a superexploração do trabalho.
Há, no próprio Congresso Nacional, setores barulhentos na
defesa de retrocessos sociais. Os que não trabalham mais representados do que
os que trabalham. Os que entendem ser a motivação oculta do trabalhador que
carece da redução da jornada de trabalho para viver a vida, a de cair na
gandaia do não trabalho. Redução que compatibilize a jornada de trabalho com o
ritmo de crescimento da riqueza. A chamada justiça social.
Os que não trabalham querem impor aos que trabalham a
punição corretiva da ideologia do cativeiro educativo que herdamos da
escravidão.
Independentemente da vinculação política e ideológica, os
membros do Congresso Nacional e os políticos em geral não trabalham. O que
fazem não é trabalho. Há uma distinção sociológica consolidada entre trabalho e
ocupação. Trabalho é a atividade produtiva de riqueza, de conversão de capital
variável em capital constante. Capitalismo é isso.
Há uma multidão crescente de pessoas ocupadas, até mesmo
atarefadas, cuja atividade não é produtiva, não cria riqueza nem individual nem
social.
É a categoria dos consumidores de riqueza social, os que
vivem à custa da riqueza criada por quem trabalha, na roça e na fábrica. A
categoria dos que ficam cansados de não trabalhar, o tipo de ocupação que pede
o dedicar-se a atividades cansativas não laborais para consumir a gordura
acumulada pelo não trabalhar.
A moderna economia teve que inventar sucedâneos de cansaço
laboral para o não trabalho, os esportes, as academias, os exercícios
programados, a indústria do cansaço provocado.
Os políticos que negam aos trabalhadores o direito social ao
tempo livre deveriam dar o exemplo e aprovar em relação a eles próprios
previamente uma lei que os libertasse do privilégio de viver à custa de quem
trabalha, a imensa maioria do povo brasileiro.
A ideologia dos poderosos sobre a função educativa do
castigo de trabalhar sem ganhar o que vale o trabalho na riqueza que cria se
dissemina em vez de encolher.
Até hoje os indígenas são tratados por muitos como
preguiçosos. As mulheres é que vão trabalhar na roça, enquanto os homens vão à
caça, supostamente “se divertir”, que é o que fazem os brancos.
Coisas da minúscula mentalidade de classe média urbana, em
que as mulheres vão à caça no supermercado e os homens é que vão penar no
trabalho pesado do computador, do balcão de comércio ou outras atividades
insalubres.
Nos países capitalistas desenvolvidos, a tendência é a
jornada ser definida pelo tempo médio de trabalho de todos, o trabalho social.
Em países civilizados a relação entre conhecimento e realidade social e
política se processa com cauteloso respeito à tradição e às prioridades sociais
da vida.
Além do que, os diferentes níveis da realidade e da
desigualdade do desenvolvimento histórico são monitorados e regulados
politicamente. Para isso serve a política e para isso deveriam servir os
políticos. Aqui, os políticos não têm da função política uma compreensão
política.
A estrutura política do país e as funções do Estado,
definidas pela Constituição, com base na democrática possibilidade da
alternância de poder, é que deve reinar nas normas e nas decisões políticas.
Aqui, nossa política é regulada pelo antidemocrático poder
pessoal ou condominial. Aqui o político faz política como se fosse o feitor de
seu latifúndio.
Temos a Constituição, mas temos também as maliciosas normas
infralegais que permitem contorná-la e violá-la. Assim, nunca sairemos do
labirinto do crescimento econômico sem desenvolvimento social.

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