O cenário de incerteza é menos pelo tamanho da dívida e
mais pela falta de sinalização de um ajuste fiscal do presidente e do principal
concorrente
A dívida pública brasileira não caminha para bater no muro.
Mas parece, pelos números da dívida bruta e pela intensidade do debate em torno
do tema. O Tesouro tem como rolar sua dívida, apesar de o total ter chegado a
82,5% do PIB em julho, o maior nível desde abril de 2021. Há erros técnicos que
podem ser corrigidos tornando mais barata a rolagem dos títulos. E é
fundamental dar ao investidor alguma perspectiva de que o próximo governo fará
um ajuste nas contas públicas.
O que gera este cenário de incerteza no mercado é menos o
tamanho da dívida ou sua trajetória recente, e mais a percepção de que nada
será feito para conter a continuidade da alta. O atual presidente não se
compromete com um ajuste, nem seu principal concorrente. A boa notícia é que
não é um problema impossível de ser resolvido, porém, é preciso passar um sinal
na direção correta.
O governo tem feito gestos. Eles são
insuficientes. Ontem mesmo divulgou o primeiro orçamento com superávit desde
2015. É um pequeno azul de R$ 18 bilhões, ou 0,1% do PIB, no meio de um mar
vermelho que é o endividamento público.
Uma das razões da alta dos juros cobrados nos títulos mais
longos, como NTN-B, é que a demanda caiu. Ela não caiu apenas pelo nervosismo
da conjuntura eleitoral. A grande demanda pelos papéis mais longos vinha dos
fundos de previdência, tipo VGBL, mas o governo colocou um IOF de entrada de
5%. Isso piorou a atratividade do investimento, os fundos reduziram a compra de
NTN-B e com menos demanda, os compradores exigiram juros maiores.
Outro erro foi o IOF sobre o câmbio que levanta um espectro
de controle de capitais. O governo não pensa em fazer controle de capitais, só
que em época de nervosismo e com os custos de rolagem da dívida crescendo, não
se deveria mexer com ativos dessa forma.
Uma medida impopular, mas necessária, é a desvinculação das
despesas previdenciárias do salário mínimo. O governo passado não deu aumento
algum ao salário mínimo, mas não teve coragem de desvincular. O candidato
Flávio Bolsonaro enrola quando perguntado se fará isso. E nas conversas no
mercado financeiro, ele terceiriza a função de dizer que enfrentará esse
dilema.
O governo Lula restaurou a política de aumentos reais de
salário mínimo. Faz sentido elevar os ganhos de trabalhadores da ativa e que
estão na base de renda. O problema é que ao não fazer a desvinculação, as
despesas previdenciárias cresceram em termos reais. E esses gastos já têm uma
tendência de alta natural, por razões demográficas.
A atual administração tomou decisões difíceis e acertadas na
área econômica ao longo deste terceiro mandato do presidente Lula. A Reforma
Tributária que estava rodando no vazio há 30 anos foi aprovada. Mas a força dos
lobbies reduziu seu ganho e criou novas distorções. De qualquer maneira precisa
coragem para colocar seu capital político numa reforma que mexe com os impostos
para simplificar e reduzir custos dos contribuintes apenas no futuro. Outra boa
decisão foi cobrar imposto sobre os fundos fechados e os fundos offshore.
Caminhava na direção correta ao propor o fim da isenção dos títulos
incentivados, como a LCI e a LCA. Mas foi barrado pelo Congresso. Também foi um
acerto reverter o calote nos precatórios dado no governo anterior e pagar essas
dívidas judiciais.
Mais do que fazer promessas de cortes de gastos e de mudanças de parâmetros no meio de uma eleição disputada e tensa, o governo deveria preparar uma correção de rotas após o período eleitoral, caso saia vencedor. O ministro Dario Durigan tem garantido que o ajuste ocorrerá, e que será de dois pontos percentuais do PIB, mas será preciso ouvir isso do próprio presidente.
O cenário do país nessa eleição é de imbróglio institucional entre Executivo, Supremo e Congresso. A dívida é apresentada como prova de um descontrole fiscal que não houve. Ela cresceu e piorou o perfil, apesar de o governo ter reduzido o déficit primário. A emenda Kamikaze de Bolsonaro furou o teto de gastos e o desmoralizou. A PEC da Transição de Lula foi necessária para corrigir a bomba armada deixada por Bolsonaro, mas ao ser maior do que o necessário, acabou agravando o problema deixado pelo governo anterior. A dívida não vai explodir, mas inspira cuidados. O governo pode não querer dizer agora o que fará, mas, se for eleito, é melhor que tenha um plano para enfrentar o problema.

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