Embora a ideia da extinção seja bem recebida, não chega a
empolgar a ponto de definir um voto
‘Estou chocado! Chocado ao descobrir que há jogo neste
lugar.’ No filme “Casablanca”, o capitão Renault, ele mesmo freguês da
jogatina, simula surpresa diante da “descoberta” da existência de um cassino no
Rick’s Café, e usa o pretexto para fechar o estabelecimento. Como o capitão
Renault, o presidente Lula
disse no último dia 18 estar “estarrecido” com o estrago que as bets estão
fazendo no orçamento das famílias brasileiras, mesmo tendo tido quatro anos
para perceber.
A oito dias da eleição, cabeça a cabeça com o adversário Flávio
Bolsonaro, Lula resolveu que cabe ao Estado proteger adultos de si mesmos e
determinou em Medida Provisória (MP) a proibição total das apostas on-line no
Brasil. Pela abrangência e pela pressa, a MP ameaça desorganizar mercados como
futebol e publicidade, provocar disputas judiciais bilionárias e empurrar
apostadores ao mercado clandestino dos jogos, além de elevar a já bastante
elevada insegurança jurídica no país. Lula, porém, parece apostar que o apoio
popular à proibição — superior a 70% — vá superar esses custos na eleição.
Funcionará? Até agora, nada parecido
funcionou.
Lula ampliou a isenção do IR, abriu crédito a motoristas de
aplicativo e táxi, expandiu o Minha Casa, Minha Vida e já está na segunda
edição do Desenrola. Nenhuma dessas iniciativas se traduziu em ganho eleitoral
visível. No caso do IR, a resposta do eleitor foi particularmente frustrante
para o Planalto. Uma análise da pesquisa Datafolha mostrou que, mesmo depois da
entrada em vigor da isenção, a aprovação do presidente estagnou, e sua intenção
de voto caiu na faixa de renda beneficiada.
E por que isso ocorre? Duas explicações ajudam a entender. A
primeira é de ordem econômica. Lula não se cansa de dizer, inclusive aos
assessores, que considera ser este o seu melhor governo. Tem números a seu
favor. Se as projeções para 2026 se confirmarem, o PIB terá crescido,
em média, 2,7% ao ano neste mandato. O desemprego, de 8% em 2023, caiu a 5,3%
no trimestre encerrado em julho. Nada disso, porém, impede que o brasileiro
sinta que seu dinheiro acaba antes do mês. Apenas 10% da população, segundo a
Quaest, tem a sensação de que sua capacidade de compra melhorou, e isso guarda
relação direta com o endividamento. O pagamento de dívidas já consome quase 30%
da renda das famílias. As bets agravam o aperto.
Ocorre que proibir apostas não quita dívidas — nesse
sentido, a MP é apenas uma promessa. E, no contexto em que se dá, arrisca ser
recebida com a mesma descrença que deu origem à piada que circula na internet —
segundo a qual Lula resolveu distribuir Mounjaro para
o povo perder a vontade de comer picanha.
— Do ponto de vista eleitoral, o fim das bets pode ter vindo
tarde demais para o presidente — diz o economista Maurício Moura, fundador do
Instituto Ideia.
A segunda razão para a falta de entusiasmo do eleitor com as
medidas econômicas do governo é de natureza política. Pesquisas apontam que,
mesmo entre simpatizantes de Lula, há cansaço diante da perspectiva de
continuidade dele no poder.
— Hoje, Lula não aparece como esperança de futuro, mas de
manutenção. O voto nele é o voto de quem não quer trocar o certo pelo duvidoso
— diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.
Ele afirma que, em grupos de pesquisa focados nos eleitores
independentes, embora a ideia da extinção das bets seja bem recebida, não chega
a empolgar a ponto de definir um voto.
— As pessoas estão exaustas — diz.
É esse sentimento que pode não apenas frustrar mais uma
tentativa de última hora de fazer Lula subir nas pesquisas, como tornar
realidade um dos maiores temores da campanha do presidente: o aumento da
abstenção — que, historicamente, tende a ser maior entre os eleitores mais
pobres, base eleitoral do petista.
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