Seus erros e acertos viraram erros e acertos do Supremo
A crise no Supremo precisa ser enfrentada com o afastamento
do ministro Alexandre
de Moraes. Desde a abertura do inquérito das fake news, o STF conferiu
poderes demais a um indivíduo para atuar em defesa da instituição. Seus erros e
acertos na condução do processo viraram erros e acertos da Corte.
Agora, é preciso que suspeitas sobre má conduta em sua vida
profissional não virem suspeitas sobre má conduta da instituição — e
comprometam a legitimidade das condenações dos atos antidemocráticos. É preciso
afastar Moraes para salvar o Supremo — e para salvar a democracia.
A concentração de poderes foi a saída que a
Corte encontrou para reagir aos movimentos antidemocráticos, diante da inação
da Procuradoria-Geral da República. A abertura de inquérito de ofício e a
mistura de papéis pela Corte — ao mesmo tempo vítima, investigadora e juiz —
criaram um vício de origem.
Os vícios de origem talvez tenham sido a saída possível
diante das circunstâncias. Mas o desgaste desse momento fundacional precisaria
ter sido compensado com uma atuação técnica e equilibrada. Não foi o que
aconteceu. Moraes mudou o entendimento sobre como lidar com conteúdos ilícitos
nas redes, bloqueou perfis e canais inteiros — praticando censura prévia.
Aplicou contra os investigados uma política de mano dura que produziu sentenças
desproporcionais. Além disso, o inquérito teve muita dificuldade de provar os
vínculos do golpismo de Bolsonaro e dos generais com o vandalismo do 8 de
Janeiro.
A acusação contra Bolsonaro precisou do 8 de Janeiro para
dar materialidade à trama golpista e, diante das fracas evidências que ligavam
uma coisa à outra, acabou forçando a conexão — a um custo alto de legitimidade
pública. Até hoje, a maioria dos brasileiros não considera o 8 de Janeiro uma
tentativa de golpe de Estado — percepção que alcança até parcela expressiva dos
eleitores de Lula.
O resultado foi que o Supremo perdeu legitimidade e foi
estigmatizado como uma Corte injusta e parcial. Os erros de Moraes tornaram-se
os erros da instituição — não apenas por associação, mas também porque a Corte
formalmente os endossou. Moraes recebeu poderes extraordinários porque o STF
considerou extraordinária a ameaça à democracia. A situação exigia também um
extraordinário padrão de confiança pública.
O Brasil não estava preparado para a contestação
antidemocrática dos anos 2021-2023. O arranjo improvisado naquele período
concedeu poderes demais a um só indivíduo e tornou indistinguível sua ação
pessoal da ação institucional. Agora, uma séria suspeita sobre sua conduta
funcional pode contaminar a Corte e consumir o que ainda lhe resta de
legitimidade.
O escritório da mulher do ministro fechou com o Master um
contrato de R$ 130 milhões, assinado dias depois de um almoço de Moraes com
Vorcaro em Campos do Jordão. A minuta do contrato parece ter sido editada pelo
próprio ministro. Depois de assinado o contrato, o banqueiro lhe pediu que
“reforçasse” sua posição com o diretor-geral da PF e o procurador-geral da
República. Na véspera da prisão, perguntou se deveria fugir do país. Nada disso
ainda está provado — mas juiz não precisa ser condenado para perder a
autoridade moral de julgar.
A esta altura, não importa se o timing da revelação das
conversas entre Moraes e Vorcaro tem motivação eleitoral. O relatório já foi
tornado público, e seu conteúdo torna a permanência do ministro insustentável.
O Supremo tem a chance de agir por iniciativa própria.
Fachin prometeu anunciar as medidas cabíveis “no tempo devido e sem
precipitação”. Esse tempo devido, porém, está em descompasso com o tempo da
crise. A cada dia de inação, mais as suspeitas sobre Moraes transbordam para a
instituição.
Se a reação seguir o padrão adotado na crise de Toffoli — um
acordo entre os 11 para poupá-lo —, a Corte não terá defendido Moraes, terá se
implicado no escândalo. Nesse caso, não restará à sociedade outra saída que não
pressionar o Senado pelo impeachment. É uma saída traumática e muito exposta à
captura pelos adversários da democracia liberal. A responsabilidade por termos
de recorrer a ela será inteiramente do Supremo.

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