A depender das decisões tomadas, Corte poderá evitar ou
acelerar interferência externa
Passadas as eleições, dois assuntos que foram empurrados
para debaixo do tapete vão pautar o Supremo Tribunal Federal. O primeiro é
decidir o que fazer com indícios de que ministros receberam vantagens indevidas
de Daniel Vorcaro. Em paralelo, Cármen Lúcia anunciou a pessoas próximas que
vai apresentar o texto de um código de ética para os integrantes do tribunal.
Hoje, a probabilidade de um código ser aprovado no tribunal
é mínima. Ainda assim, o presidente Edson Fachin insiste no projeto. A
estratégia não é teimosia, mas uma espécie de redução de danos. Para ele,
apontar desvios éticos ou indícios de cometimento de crimes dos pares não tira
credibilidade do tribunal – ao contrário, mostraria que a Corte tem mecanismos
internos capazes de resolver as próprias crises.
O tribunal provou o contrário até agora.
Além de não ter decidido o que fazer com os indícios contra Alexandre de Moraes
e a acusação a André Mendonça, cancelou sessões de julgamento do plenário
devido ao clima belicoso entre os ministros. Ao mesmo tempo, decisões
individuais ganharam destaque. Os poderes de cada ministro engoliram a
coletividade, quando deveria ser o contrário em uma Corte constitucional.
Se o Supremo seguir resistindo a cortar na própria carne,
abrirá caminho para intervenção externa. Fica cada dia mais provável o Senado
abrir processos de impeachment de integrantes do tribunal a partir de 2027. O
risco, porém, é de que os afastamentos não sejam pelos erros cometidos pelos
ministros na relação com Vorcaro, mas por revanche política, com base em
decisões jurídicas tomadas de forma legítima antes de a crise estourar.
Com a movimentação no Senado, o terreno estará fértil para
Legislativo e Executivo discutirem uma reforma do Judiciário que imponha perda
de poderes ao Supremo. Uma das propostas é retirar a competência criminal da
Corte, para dar destaque à atribuição constitucional. Talvez, a Corte precise
desinchar para recuperar a reputação, o equilíbrio e a funcionalidade.
O código de ética e a reforma do Judiciário foram incluídos
no Brasil Adiante, projeto do Estadão em formato de ciclo de debates que reuniu
especialistas, empresários e a sociedade civil para propor soluções práticas
aos principais desafios do País. O ideal seria colocar as duas ideias em
prática em tempos de calmaria, mas as últimas décadas mostraram que o cenário
perene no STF é o oposto.
Entre os ministros, a expectativa é de que a crise interna
ganhe proporções maiores nos próximos meses. Enquanto vigorar a atual
composição do tribunal, não deve haver trégua nem do grupo de Moraes nem da ala
de Mendonça.
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