Democracia e Zuenir são substantivos que não apenas cabem
na mesma frase. São sinônimos
Zuenir Ventura formou gerações — sim, no plural — de
jornalistas e inspirou outras tantas — aqui, eu me incluo. Ele partiu
serenamente aos 95 anos, deixando órfãos seus filhos biológicos, Mauro e Elisa,
e uma legião de velhos amigos, colegas de ofício, fontes, leitores... A
existência longa, de quase um século, alicerçou a impressão de eternidade. O
velório, na Academia Brasileira de Letras (ABL), onde ocupava a cadeira 32,
antes ocupada por Ariano Suassuna, foi marcado por uma espécie de luto ao
quadrado. Havia tristeza, saudade pela ausência, agora física, do Mestre Zu. E
uma baita apreensão cívica pela democracia, de novo, sob ameaça.
Democracia e Zuenir são substantivos que
não apenas cabem na mesma frase. São sinônimos. O presidente da República, Luiz
Inácio Lula
da Silva, disse que o professor, jornalista e escritor “não se calou frente à
censura imposta pelo regime autoritário” e “sempre lutou pela
redemocratização”. O Instituto Vladimir Herzog (IVH) escreveu que ele foi, além
da ABL, imortal também “da imprensa brasileira, da luta democrática e da
memória deste país”. Zu e Vlado foram colegas na revista Visão, no início dos
anos 1970. Juntos reportaram o vazio cultural decorrente da ditadura. Míriam
Leitão contou que ele esteve ao lado de Clarice Herzog na luta para
responsabilizar o Estado pelo assassinato de Herzog, sob tortura, nas
dependências do DOI-Codi, em São Paulo, em outubro de 1975.
— Ao longo de mais de seis décadas de jornalismo, Zuenir
cultivou uma curiosidade incansável e um olhar atento para compreender o Brasil
em suas muitas camadas e contradições — continuou o IVH em nota.
Afonso Borges, jornalista, gestor cultural e amigo dos
Venturas, disse que a despedida de Zuenir deveria servir para restaurar neste
Brasil de institucionalidade despedaçada o conceito de ética. Eu me lembrarei
de Zuenir como o jornalista reconhecido e premiado por defender os direitos
humanos num dos países que mais matam defensores. Em 1989, recebeu o Prêmio
Vladimir Herzog, o mais respeitado da área, pela série de reportagens “O Acre
de Chico Mendes”, no Jornal do Brasil. Em 2008, ele recebeu troféu da
Organização das Nações Unidas (ONU) por ter sido um dos cinco profissionais de
imprensa que mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos no Brasil nas
três décadas anteriores.
O país é território hostil aos que defendem direitos
humanos. No ano passado, as organizações Terra de Direitos e Justiça Global
informaram no relatório “Na linha de frente” que, no biênio 2023-2024, foram
registrados 486 episódios de violência contra pessoas que atuam,
principalmente, pela proteção ao meio ambiente e pelo direito à terra. O
Conselho Indigenista Missionário (Cimi) contou, no ano passado, 1.276
investidas contra povos originários: 897 relativos à omissão e morosidade da
demarcação de territórios, 169 conflitos e 210 invasões.
A Anistia Internacional apontou em seu relatório anual “um
cenário de graves e sistemáticas violações de direitos humanos” no Brasil.
Mencionou a violência policial como ponto crítico e crescente, assassinato de
líderes indígenas, escalada de feminicídios, racismo e LGBTfobia, além das
desigualdades agravadas pela crise climática. Quatro décadas atrás, quando
pousou no Acre para apurar a morte de Chico Mendes, Zuenir trabalhava contra as
chagas que se estendem ao século XXI. Líder dos seringueiros e ativista pela
Floresta Amazônica, Chico Mendes tombou com um tiro de escopeta no peito,
disparado pelo filho de um fazendeiro, Darci Alves Pereira, a mando do pai,
Darly Alves da Silva.
Anos depois, passou temporada em Vigário Geral,
na Zona Norte carioca, para acompanhar a comunidade traumatizada com a chacina
que vitimou 21 moradores em agosto de 1993. Da imersão nasceu “Cidade partida”,
obra que ancorou o debate sobre segregação, violência urbana, desigualdade e
identidade num Rio de Janeiro que, ex-capital federal, se habituara a debater
mais o Brasil que os próprios problemas. É livro essencial para quem abraça ou
refuta a tese da urbe fraturada.
Zuenir inventariou a geração de estudantes que enfrentou a
ditadura, após a instauração do Ato Institucional Número 5, o mais brutal do
regime. “1968, o ano que não terminou” ganhou o Prêmio Jabuti, o mais
importante da literatura brasileira, e inspirou a série “Anos rebeldes”,
sucesso da TV Globo nos anos 1990.
Zuenir encarou a miséria e a brutalidade. E nos contou com
texto preciso e abordagem sensível. Nunca deixou de denunciar barbaridades.
Tampouco esvaziou-se de esperança, perdeu o brilho no olhar, tirou o sorriso
dos lábios, soltou a mão dos amigos.
Desse legado viveremos.
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