Na política, as duplas personalidades se desconstroem
reciprocamente. Esse processo manifestou-se tardiamente durante a campanha
eleitoral
De repente, o surpreendente resultado das eleições do
chamado primeiro turno revela aquilo que o bolsonarismo e a direita não são nem
aquilo que as esquerdas e o PT tampouco são. O processo político brasileiro, há
muito, se desenrola fora do âmbito do racional e do compreensível e longe do
que é propriamente político e a política.
Sem substância teórica e doutrinária e, portanto, sem
competência para se propor como protagonista legítima do processo histórico
brasileiro, a direita finge. Tanto finge o que é quanto o que não é.
Utilizando os meios técnicos abundantes e fáceis de
manipulação das vontades, a direita conseguiu resultados espetaculares do ponto
de vista numérico. Pessoas inexpressivas e até desconhecidas do eleitor
tradicional obtiveram votações muito acima do que é numericamente normal num
país como o Brasil.
Equipararam-se às abstenções, as grandes
campeãs de voto em nosso país. Com isso, o eleitor brasileiro confirma-se como
personagem significativo da eleição para não eleger, para não legitimar o
regime político, para desacatar as instituições.
O eleitor brasileiro há muito usa a eleição para mandar um
recado antipolítico aos políticos. A abstenção mais o voto em branco e os
ausentes são indicativos de um partido potencial, discordante e crítico, que
porém não consegue traduzir na mensagem propriamente política de mandatos de
contestação o seu não voto.
No seu comportamento antipolítico e antidemocrático, essa
parcela do eleitorado brasileiro é a presença do ausente. Essa ausência é
politicamente efetiva como renúncia a um direito, mas também como anulação
prática do direito de todos, o de se fazer representado nas instituições e no
contrato político implícito que lhe dá sentido.
Não é alienação no estrito sentido do conceito. É rudimento
de ação política como expressão não de vontade, mas de raiva, portanto, como
ação política inacabada. Que, porém, é levada a termo por aqueles que na
direção contrária dão-lhe o sentido que não deveria ter enquanto ato de
usurpação de direitos do eleitor omisso.
O que, com relutância, pode ser chamado de erro das
esquerdas tem sido o de levar a sério as armadilhas da polarização ideológica
da direita. É o erro de aceitar como desafio o que, ficou claro agora, é apenas
teatro e circo. Mas é claro que não é, na direita, engano e brincadeira.
É impossível não prestar atenção, nestes dias, no fato de
que a direita acha que política é isso mesmo. Diferente do que foi a concepção
dos eleitores paulistas que deram a Tiririca mais 1,3 milhão de votos em 2010
para a Câmara dos Deputados e o reelegeram mais três vezes. Nessa votação,
queriam dizer que todo político é um palhaço.
Neste ano de 2026, Tiririca mudou de partido e de domicílio
eleitoral para o Ceará, seu estado de origem. Recebeu míseros 5.500 votos, 0,5%
de sua votação original em São Paulo. Depois de quatro mandatos como deputado
federal, Tiririca se convenceu de que não era propriamente um palhaço na
política, mas um palhaço transformado em político. Retornou ao lugar de origem
para recriar-se como outra pessoa, metamorfoseado em político. Não foi
reconhecido. A condição de palhaço da política apossara-se dele.
Esse caso, de certo modo, lembra o filme de Roberto
Rossellini, estrelado por Vittorio De Sica, “Il generale Della Rovere”
(intitulado “De crápula a herói” no Brasil). História verdadeira do trapaceiro
Indro Montanelli, preso em Milão durante a ocupação alemã da Itália. Aliciado
para fingir-se de general Della Rovere, da Resistência, e identificá-lo, na
tortura, cuja identidade acaba assumindo e é finalmente fuzilado no lugar do
herói italiano.
Aparentemente, Tiririca entrou num processo de
ressocialização política, porém sociologicamente inviável. O político como
palhaço tinha sentido na pessoa sem identidade porque fora do lugar
institucional e da condição de cumpridor do roteiro próprio da política que
pode transformar o palhaço em político.
O pós-eleitoral mostrou aqui a dupla personalidade do novo
político brasileiro de direita. Na política, as duplas personalidades se
desconstroem reciprocamente. Esse processo manifestou-se tardiamente durante a
campanha eleitoral. Se eleito, Bolsonaro chegará ao poder completamente sem
poder, pois destituído de autenticidade. O povo brasileiro terá dúvida quanto
ao que ele diz que faz ou quer fazer e o que ele é não sendo.
Do lado das esquerdas, são elas expressão do lado oposto da
polarização: porque sem duplicidade. Historicamente, as esquerdas são oposição
mesmo no poder. Oposição ao sistema, e não oposição ao governo. Pensamento e
ação crítica em relação às contradições antissociais do poder do lucro sem
limite e sem ética.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da
Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da
Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador
Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra
as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros
livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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