Eleitores decidirão o destino do país, e não só os
próximos quatro anos. O autoritarismo e o alinhamento acrítico aos EUA são
riscos que não podemos correr
Quando minha mãe nasceu, mulher não votava. O direito
eleitoral feminino é recente. O voto é novo no Brasil. Há apenas 37 anos, o
Brasil voltou a escolher livremente o presidente e os governadores, após a
longa interrupção imposta pela ditadura. Apesar de as eleições terem se tornado
rotina desde a redemocratização, não podemos perder de vista como é valioso o
direito que hoje podemos exercer. No fim deste domingo, 4 de outubro, o país
terá escolhido dois terços do Senado, toda a Câmara dos Deputados, todas as
Assembleias Legislativas e vários chefes do Executivo. A composição do Senado
definirá o perfil do Supremo Tribunal Federal que teremos. Será um Supremo
capaz de corrigir seus erros ou ele será capturado para o projeto autoritário
que um dia combateu?
Os 158 milhões de brasileiros aptos a votar
decidirão o destino do país, e não apenas nos próximos quatro anos. Um projeto
autoritário tem na sua essência o continuísmo e segue a estratégia de corroer
por dentro as instituições, até que elas percam sua força de contrapeso. Velhos
medos, que minha geração acreditou ter deixado para trás, estão vivos. O
autoritarismo é o maior deles. O intervencionismo americano recuou a meados do
século passado. Donald Trump é tão primitivo que quer da América Latina nada menos
do que a vassalagem. O alinhamento acrítico aos Estados Unidos é um risco que
um país como o Brasil não pode correr.
A suspensão do atendimento na embaixada americana na
sexta-feira, movimento seguido por consulados de outros países que pertencem ao
mesmo grupo de troca de informações de inteligência, foi dramatizado pelas
redes bolsonaristas que alimentam um clima de tensão.
Esta campanha transcorreu no inverno do nosso
descontentamento. O STF foi a instituição mais atacada no governo de Jair
Bolsonaro porque com o Supremo fraco ficaria mais fácil o plano golpista. Foi o
ponto da resistência. Esse mesmo STF minou a si próprio desta vez. De novo, o
risco maior é o democrático, mas agora o país desconfia da sua cidadela. Se a
briga fratricida dos ministros expôs o país ao perigo, toda a campanha foi
estranha. O momento mais inusitado teve Nossa Senhora Aparecida no meio da polêmica
eleitoral.
O Supremo precisa corrigir a si próprio. O Senado a ser
escolhido hoje pode ajudar a fortalecer a instituição, que tem sido
disfuncional nos últimos tempos, ou pode aproveitar as fraquezas do Supremo e
completar o golpe que ficou inacabado em 2023. Tudo o que o STF fez e falou
será usado contra ele e contra a democracia. É doloroso que os ministros não
tenham entendido a dimensão do risco que enfrentamos. Era previsível que a
campanha da extrema direita usasse como bandeira a proposta de eleger senadores
para destituir ministros do Supremo. E evidentemente, a ideia é não parar por
aí.
Eu comecei esta coluna falando de minha mãe, Mariana, e
tenho motivos para esta volta para casa quando falo de eleição. Ela nasceu em
1925 e morreu em setembro de 1989, sem conseguir dar seu voto ao Doutor
Ulysses, candidato que havia escolhido. Num dos últimos encontros que tivemos,
minha mãe estava às voltas com o recadastramento eleitoral, trabalho para o
qual ela havia se voluntariado naquele renascimento do direito do voto. Meus
pais eram cerimoniosos com o ato de votar. Ainda os vejo, descendo a rua Princesa
Isabel, vestidos com a elegância de um evento social, indo votar para
presidente, em 1960, antes que a ditadura acabasse com esse direito.
Minha neta mais velha, também Mariana, vota hoje pela
segunda vez, e levará junto seu irmão Daniel que, aos 16, estreia seu título.
Votarão na mesma zona eleitoral que o pai, Matheus. A luta do movimento
sufragista permitiu que minha mãe votasse pela primeira vez para presidente,
aos 20 anos, em 1945, no encerramento da ditadura de Vargas. Quando votei pela
primeira vez para presidente, meu filho Vladimir também votava pela primeira
vez. A minha família traz vários símbolos — e cicatrizes — de como o direito do
voto é conquista árdua. Hoje correntes de extrema direita defendem o fim do
voto feminino. Parece delírio que a vitória do movimento sufragista seja posta
em questão um século depois, mas não se deve subestimar os perigos de hoje em
dia. No livro que meu marido, Sérgio Abranches, acaba de lançar “A terceira
margem do Ipiranga” há uma frase da qual eu gosto muito. “A democracia nunca
teve vida fácil entre nós”.
Desejo um bom voto para eleitoras e eleitores.
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