O segundo mandato de governantes autocráticos é sempre
mais perigoso
Com Suprema Corte e Congresso governistas, não vai
adiantar chorar o leite derramado
Cientistas políticos como Steven Levitsky apontam que o
segundo mandato de governantes autocráticos é sempre mais perigoso.
Bolsonaro pai tentou um golpe à moda antiga e foi condenado
por isso; Bolsonaro filho, um pouco mais esperto, vai perdoar o pai no primeiro
dia como presidente e tentar um golpe à moda contemporânea, refundando a
Constituição.
Mal passou o primeiro turno, Flávio já cogita ampliar o
mandato do presidente, no caso, o dele.
Foi assim na Hungria com Viktor Orbán,
antes um político mediano e depois um autocrata que se embrenhou em alterar a
Constituição, em 2011, reinventando a nação, inebriado com a supermaioria que
ganhou em seu segundo mandato, eleição essa em que o tema da reforma
constitucional nem sequer esteve em pauta.
Qualquer semelhança não é mera coincidência. Os laços entre
Orbán, que ficou 16 anos no poder, e a família Bolsonaro são amplamente
documentados; com visitas mútuas, hospedagem em embaixada e apelidos afetuosos.
Flávio conhece bem o playbook autocrático, à esquerda na Venezuela de Nicolás
Maduro e à direita na Hungria de Orbán. O manual é o mesmo. Mudar a
Constituição para reduzir freios e contrapesos é um deles.
Dizem que ninguém dá a mínima para a Constituição, exceto
alguns democratas de plantão. Pois deveriam: Orbán fez uso da queda do Estado
de Direito para distribuir contratos públicos a seus amigos corruptos, algo que
deveria preocupar o empresariado; também fez seus amigos monopolizarem a
imprensa, algo que deveria preocupar o povo do doisladismo na mídia.
Se Flávio decidir fazer o que quiser com a Constituição —de
alterar regras eleitorais para favorecê-lo a acabar com casamento entre pessoas
do mesmo sexo—, quem irá pará-lo? Ninguém.
Maduro e Orbán mostraram que, com Suprema Corte e Congresso
governistas, não adianta chorar o leite derramado.
Cabe à imprensa cobrar de Flávio o que ele quer dizer com
"alterar a Constituição para democratizá-la".
Normalizar esse discurso beira o proselitismo futebolístico
de uma torcida organizada com a bola na cara do gol.

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