Imaginação pútrida do presidente deixa os EUA expostos a
vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos
Algo ruim vai nos acontecer como resultado disso
Donald Trump
é um ser humano tão horrível que até escrever sobre ele parece degradante. Que
presidente menosprezaria seu antecessor diante do líder da China da maneira
como Trump zombou de Joe Biden, que agora sofre de câncer, ao apontar que um
quadro com a imagem de uma caneta automática estava pendurado na Casa Branca no
lugar do retrato de Biden?
Infelizmente, porém, quando alguém tão moralmente deformado
quanto Trump —cujo primeiro secretário de Estado o chamou de
"idiota"— assume tanto poder sem qualquer controle no alvorecer da
Era da Inteligência
Artificial, não se pode ignorá-lo.
Porque, neste momento, Trump está deixando os Estados
Unidos expostos a vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos.
Algo ruim vai nos acontecer como resultado disso. Nós e nossos filhos pagaremos
por isso, e não apenas na hora de abastecer o carro.
Comecemos pelo vírus digital que está à
solta. Recentemente, OpenAI, Anthropic,
Meta e Google revelaram, todas elas, incidentes nos quais seus modelos de
inteligência artificial escaparam ao controle e saíram por aí invadindo outros
sistemas de computador —incluindo um site do governo australiano, a plataforma
Hugging Face e sites do Departamento de Comércio e da Comissão de Valores
Mobiliários americana.
Lembrem-se: esses são sistemas de IA ainda na infância;
estão de fraldas e ainda não foram potencializados pelo treinamento completo de
si mesmos, que os levará a deixar para trás seus projetistas humanos.
E lembrem-se também de que as histórias acima dizem respeito
ao que os mocinhos estão fazendo. Converse com qualquer grande especialista em
cibersegurança de uma grande empresa americana e você ficará aterrorizado com
as histórias sobre o que os bandidos estão fazendo com modelos menores de IA
que conseguiram obter, dos quais foram retirados os mecanismos de controle.
O Relatório Global de Ameaças da CrowdStrike afirmou que os
ataques de "adversários habilitados por IA" aumentaram 89% em 2025 na
comparação com o ano anterior, segundo a revista Infosecurity Magazine, em
fevereiro —e o ritmo disparou desde então.
Mas não tenham medo, porque nosso presidente, que nem sequer
usa email, disse às Nações Unidas na semana passada que sabe que nossos temores
em relação à segurança da IA são fraudulentos. Ele se referiu às
"mesmas pessoas que disseram que todos estaríamos mortos em 12 anos por
causa do aquecimento global". E acrescentou: "E ninguém morreu. São
as mesmas pessoas que agora dizem que a IA vai nos matar a todos".
Milhares de pessoas morreram em catástrofes agravadas pelas
mudanças climáticas na última década, e só na imaginação pútrida de Trump
alguém disse: "Senhor, todos estaremos mortos em 12 anos".
Trump e seu partido —assim como os magnatas da tecnologia
da IA que, na prática, pagaram a eles para que não interfiram em seu setor—
deveriam rezar para que a "surpresa de outubro" nas próximas eleições
legislativas de meio de mandato não seja um grande evento destrutivo envolvendo
IA.
Se for, é melhor que tenham suas espaçonaves prontas para
levá-los a outro planeta, onde possam viver para sempre, porque este evento
talvez transforme suas existências em um inferno.
Essa ameaça da IA não é uma farsa (assim como a ameaça
climática não é uma farsa, como Trump saberia se algum dia consultasse o
site da Nasa de seu próprio governo). A única farsa é Trump, que certa vez
sugeriu que injetar água sanitária poderia ser uma boa maneira de se livrar da
Covid-19, achar que sabe alguma coisa sobre IA ou mudanças climáticas —ou água
sanitária.
Gostaria que a única ameaça que a ignorância desenfreada de
Trump representasse para nós fosse um vírus de IA. Infelizmente, na semana
passada, Apoorva Mandavilli, minha colega do New York Times, noticiou que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças
(CDC), por muito tempo considerados "líderes globais incontestáveis em
saúde pública", foram tão sistematicamente desmantelados pelo secretário
de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., que agora são "um esqueleto do que já foi
uma potência".
Não apenas o quadro de funcionários do CDC foi reduzido em
cerca de 30%, como, segundo Mandavilli, citando funcionários atuais e antigos,
"as mudanças prejudicaram a capacidade do CDC de responder a surtos,
enquanto o sarampo
se espalha dentro do país, e o ebola, no exterior, e de emitir orientações
oportunas sobre vacinação à medida que a queda das temperaturas dá início à
temporada de doenças respiratórias. Divisões inteiras foram fechadas, incluindo
equipes que trabalhavam com tabagismo, violência sexual, abuso infantil e
quedas entre idosos".
O jornal The Guardian publicou uma reportagem sobre a disseminação do surto de
sarampo na Pensilvânia, que já ultrapassou 900 casos. O médico John Goldman,
especialista em doenças infecciosas do Centro Médico da Universidade de
Pittsburgh, disse que, entre 1992 e 2026, não havia visto um único caso,
segundo o Guardian. Agora, "estamos vendo pelo menos um por dia".
E acrescentou: "Nunca na minha vida pensei que voltaria
a ver sarampo". Esse é um exemplo de como a negligência de Trump está
ajudando a disseminar vírus biológicos de verdade.
Mas não se esqueçam também do vírus antidiplomático, que
igualmente está minando nossas forças. O que seria isso? Uma reportagem do jornal israelense Haaretz, assinada por seu
especialista em assuntos do Oriente Médio,
Zvi Bar’el, descreveu como a incompetência diplomática do governo Trump e a
malevolência do gabinete do primeiro-ministro israelense, Binyamin
Netanyahu, se combinaram para paralisar o plano de paz de 20 pontos de
Trump para a Faixa de Gaza.
Assim, os civis palestinos, muitos deles vivendo em
edifícios destruídos pela guerra —um dos quais desabou em 16 de setembro,
matando pelo menos 21 pessoas, incluindo 11 crianças—, continuam em condições
de absoluta miséria.
Quando Trump lançou seu tão
alardeado Conselho da Paz e se tornou seu presidente, os países
participantes prometeram US$ 17 bilhões para Gaza. Mas, "até onde se sabe,
menos de US$ 300 milhões foram transferidos", informou Bar’el.
Além disso, a força internacional de estabilização prevista
no plano de paz ainda não foi criada. A força policial palestina que
deveria substituir o Hamas, sob a
supervisão de um governo tecnocrático palestino, deveria receber treinamento no
Egito,
"mas Israel
está impedindo que seus integrantes deixem Gaza", segundo Bar’el.
Aprendi ao longo dos anos que a diplomacia também funciona
como um vírus, de maneira benéfica ou prejudicial: quanto mais sucesso você
tem, mais respeito conquista; quanto mais respeito conquista, mais sucesso
obtém. No sentido inverso, quanto mais fracassos acumula, menos os aliados
confiam em se juntar a você, o que leva a mais fracassos.
Um exemplo: entre março e outubro de 1991, o secretário de
Estado James Baker fez oito viagens diplomáticas ao Oriente Médio para
organizar a Conferência de Paz de Madri —a primeira entre Israel, a Organização
para a Libertação da Palestina e vários Estados árabes. Acompanhei as oito
viagens com ele, como correspondente diplomático do NYT. Ele fracassou nas sete
primeiras, mas Baker não desistiu e conseguiu realizar a conferência na oitava.
Mostrem-me uma única iniciativa diplomática que o governo
Trump tenha desenvolvido desde o cessar-fogo em Gaza, que Trump deixou
definhar. É como se tudo o que lhe importasse fosse a manchete sobre a
assinatura do acordo, após a qual ele declarou, espantosamente, em 13 de
outubro do ano passado: "Juntos, conseguimos o que todos diziam ser
impossível. Finalmente temos paz no Oriente Médio".
Isso, sim, é o que chamo de uma verdadeira farsa.
Não há um acompanhamento enérgico e concentrado porque não
existem linhas claras de autoridade. Temos Thomas Barrack, enviado especial
para Síria e Iraque e embaixador na Turquia, fazendo suas próprias declarações
sobre políticas. Temos Massad Fares Boulos, sogro de Tiffany, filha de Trump,
atuando como assessor sênior do presidente para assuntos árabes e do Oriente
Médio. Temos Jared Kushner e Steve Witkoff, que atuam em tempo parcial. Temos
vários subsecretários de Estado e de Defesa. E temos Trump em suas redes
sociais. (Alguém ainda vai transformar isso em um musical!)
O que não temos é um secretário de Estado como Baker, que se
concentre incansavelmente em mobilizar o poder dos Estados Unidos e que faça
viagem após viagem, até cumprir a missão.
A única coisa que Trump acompanha incansavelmente é a
perseguição à imprensa. No último sábado, depois de ser obrigado por um juiz a
permitir que repórteres
da CNN voltassem à Casa Branca, após Trump tê-los banido ilegalmente porque
a cobertura da emissora não era bajuladora o suficiente, o presidente ainda
assim impediu que a CNN o acompanhasse no Air Force One para assistir a uma
partida de futebol americano no Tennessee.
Quando se trata de denunciar a imprensa, Trump tem foco
absoluto. Mas, ao lidar com os vírus digitais, biológicos e diplomáticos que
enfraquecem o sistema imunológico nacional, nem tanto —para nosso enorme risco.
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