Prêmio é o inalcançável brinquedo supremo que o
presidente dos Estados Unidos cobiça de forma obsessiva, por todos os meios
Bom mesmo foi encerrar a semana de nervosia política no
Brasil com a notícia do Nobel da Paz concedido à jurista sul-africana
Navanethem Pillay. Ponto para o Comitê Norueguês, que neste ano acertou na
premiação. Das cinco categorias existentes há 125 anos (às que foi acrescentada
Economia em 1968), o Nobel da Paz é certamente o mais prestigioso, universal e,
por isso mesmo, polêmico dos prêmios — qualquer cidadão em qualquer canto do
planeta sabe o que é paz ou tem uma concepção para paz.
Contrariando a norma, a laureada deste ano
não pôde ser informada da premiação antes do anúncio oficial em Oslo — Pillay
participava de um fórum internacional de juristas na Alemanha quando a
notícia lhe chegou por meio de aplausos na sala. Ela estava onde mesmo, na
Alemanha? Em Nuremberg! Justo em Nuremberg! Ali, entre 1945 e 1949, ocorreram
os históricos julgamentos dos principais responsáveis pelo Holocausto e demais
atrocidades nazistas cometidas na Segunda Guerra Mundial. A coincidência não
escapou à jurista:
— Neste local os aplausos de vocês têm um significado
enorme.
Como se sabe, foi dos tribunais de Nuremberg que nasceram os
fundamentos do Direito Internacional defendidos a vida toda por Navi Pillay. A
laureada se revelou à vontade diante da notoriedade instantânea. Taí uma mulher
sem medo de se mostrar feliz.
— Se vocês me aplaudirem um pouquinho mais, dividirei o
prêmio com Trump — brincou com a imprensa.
Foi uma estocada fulminante. Um Nobel da Paz é o
inalcançável brinquedo supremo que o presidente dos Estados Unidos
cobiça de forma obsessiva, por todos os meios. Trump já se autodeclarou
merecedor da honraria várias vezes. No ano passado, chegou a induzir a líder
oposicionista venezuelana María
Corina Machado a dedicar-lhe a láurea recebida em Oslo. Também já aceitou
como ersatz um constrangedor Prêmio da Paz da Fifa,
inventado por Gianni Infantino, e tentou gabaritar-se assinando nove tratados
de paz entre nações supostamente em conflito. Tudo humilhantemente inútil. Sem
falar nos 12 milhões de coroas suecas (equivalentes a R$ 6,2 milhões) que vêm
com a medalha de ouro do Nobel e teimam em escapar-lhe das mãos.
Acachapante, para Donald Trump,
é a biografia da nova laureada, filha de motorista de ônibus de origem indiana
nascida em Durban. Primeira mulher não branca a integrar a Corte Suprema do
país recém-saído do apartheid, Navi Pillay começou a carreira defendendo
ativistas negros como Nelson Mandela e chega aos 85 anos com estatura e fôlego
invejáveis. Como juíza do Tribunal Penal Internacional (TPI), presidiu o
histórico julgamento do genocídio em Ruanda na virada do
século. Hoje atua como juíza ad hoc na Corte Internacional de Justiça, da ONU,
que analisa a acusação de genocídio por parte da República de Mianmar contra a
minoria rohingya.
Foi na qualidade de alta comissária da ONU para Direitos
Humanos entre 2008 e 2014 que a laureada atravessou de forma irreversível a
linha vermelha jurídica mais polêmica do Pós-Guerra. Coube a Pillay liderar a
comissão de investigação que concluiu, em 2025, pelo uso do termo “genocídio”
para definir as ações militares de Israel contra a população palestina de Gaza. Uma decisão
sem volta que exigiu visão, determinação e independência.
— Foi prestado tributo à minha coragem — declarou a jurista
referindo-se aos termos do Nobel. — Mas por que você precisaria de coragem para
falar a verdade?
Resposta: porque as instituições que sustentam a lei
internacional se encontram sob imensa pressão, sanções e ataques. Poucas horas
depois do anúncio do Nobel, o governo Trump acusou o confronto. Não diretamente
com Pillay, mas com o TPI, que, em 21 de novembro de 2024, emitira mandados de
prisão contra o premier israelense, Benjamin
Netanyahu, seu ex-ministro da Defesa Yoav Gallant e o comandante do Hamas,
Mohammed Deif. Todos por suspeita de crimes de guerra e crimes contra a
humanidade em Gaza e, no caso de Deif, no massacre do 7 de outubro de 2023 em
Israel.
— Nós baniremos transações com esse tribunal rebelde,
cortando seus recursos e incapacitando suas operações — diz a nota do
Departamento de Estado. — Ou o TPI acabará com suas ameaças, ou nós acabaremos
com o TPI.
Soa mais fácil do que acabar com a guerra na Ucrânia ou estancar
o aniquilamento da vida palestina em Gaza — a menos que haja países, líderes ou
juristas como Navi Pillay decididos a lhe barrar o caminho.

Nenhum comentário:
Postar um comentário