O sentimento do presidente é mais de soberba que de
receio. Ele acha um absurdo estar empatado com Flávio e expor-se a ser
criticado por todos os outros candidatos que têm hoje quase traço nas
pesquisas.
O presidente Lula já teve a experiência, em outra encarnação
presidencial, de faltar a um debate da Globo às vésperas da eleição
presidencial. Foi em 2006, quando o escândalo do mensalão pôs em risco sua
reeleição. Sua cadeira ficou vazia pela primeira vez, e o efeito visual foi
grande. Além disso, os demais candidatos, especialmente o hoje seu
vice-presidente, Geraldo Alckmin, na época um dos líderes tucanos,
aproveitaram-se da situação para criticá-lo. A resposta do eleitorado foi
imediata: Alckmin obteve surpreendentes 40% dos votos no primeiro turno,
deixando tontos os petistas.
Lula entrou em depressão, desapareceu por
uns dias, depois recuperou o espaço perdido. Tanto que o candidato tucano teve
menos votos no segundo turno que no primeiro, demonstrando que o resultado
inicial fora apenas um susto. Desta vez, a diferença entre Lula e Flávio
Bolsonaro quase não existe, e sua recusa parece mais uma demonstração de
fraqueza que arrogância — na verdade, a razão da desistência. Lula considera-se
superior aos adversários, especialmente Flávio, a quem definiu assim:
— Se vocês tivessem uma dúvida entre mim e um gênio, seria
uma coisa. Mas vocês não estão fazendo essa escolha.
Não entrou na decisão de não ir ao debate, pelo menos não
conscientemente, a avaliação de que Lula está cansado, já não tão ágil quanto
antes, tem de tomar cuidado com as improvisações. Muitos dos assessores, sim,
tinham esses e outros receios, não ele. O sentimento do presidente é mais de
soberba que de receio. Ele acha um absurdo estar empatado com Flávio e expor-se
a ser criticado por todos os outros candidatos que, além de ser apoiadores do
bolsonarista no segundo turno, têm hoje quase traço nas pesquisas. Lula está
convencido de que fez um bom governo e não aguenta a ideia de que Flávio possa
enfrentá-lo de igual para igual, como se fossem equivalentes.
Bolsonaro pai, ele leva a sério, considera um líder popular
forte, embora despreze seus valores ideológicos. Mas terminar a vida política
com uma derrota para o filho do adversário será devastador psicologicamente
para Lula. E, paradoxalmente, a posição de superioridade passa ao adversário,
que se sente repentinamente fortalecido diante da fragilidade psicológica de
seu oponente. Na última vez em que Brizola disputou a Presidência da República,
terminou em quarto lugar, sem contar que antes já admitira estar abaixo de Lula
na esquerda, aceitando ser seu vice. Incomoda a Lula a possibilidade de
terminar uma carreira política brilhante com uma derrota, e logo para quem.
A recusa ao debate, pela primeira vez transmitido em horário
nobre, porém, pode levá-lo a uma derrota que não está decretada, mas é uma
probabilidade que ele poderia reduzir com uma apresentação à maior plateia
televisiva da campanha eleitoral. Dar entrevistas a blogs e podcasts de
esquerda, mesmo que com grande alcance, significa falar consigo mesmo, falar
para os seus, cujos votos já estão computados. Na televisão, os indecisos, os
independentes, os não bolsonaristas estariam à disposição de Lula. Estarão
agora à disposição de Flávio, que terá a oportunidade de se mostrar como “o
Bolsonaro que se vacinou” e não estará exposto a críticas contundentes.
As pesquisas são unânimes em mostrar um quadro de empate no
segundo turno, mas já se sabe que essa perspectiva não corresponde à realidade
das urnas. Pode dar qualquer um, desde que não surja o famoso “fato novo”, que
muito tempo reinou como definidor de quadros eleitorais. Hoje, um fato novo
surge a cada momento, banalizando os escândalos, a ponto de neutralizar seus
efeitos. A polarização congelou as posições do eleitorado, fazendo com que a
campanha mais morna e monótona dos últimos tempos teste a paciência de um
eleitor irritadiço, desconfiado, desiludido. O aumento da abstenção pode ser o
tal “fato novo”.
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