Lula esperou levar um susto para captar e se render à
mensagem do desejo do eleitorado pela mudança
Agora é difícil a tarefa de em 15 dias convencer a
maioria sobre o que não foi feito em vários mandatos
As primeiras
pesquisas da campanha rumo ao segundo turno confirmam a vantagem de Flávio
Bolsonaro (PL)
sobre Luiz Inácio
da Silva (PT), mas não registram uma dianteira correspondente à série de
fatos positivos que marcaram a semana do candidato de oposição.
O vencedor da etapa inicial viveu dias de celebração aos
acertos e atração de apoios políticos que, embora não signifiquem
necessariamente votos, sinalizam expectativa de poder. Já o perdedor teve
frustradas as tentativas de conquista de alianças, precisou se ocupar dos erros
e da reorientação de rota.
Ainda assim, a distância de quatro ou cinco
pontos dos votos válidos mostra empate na margem de erro e, portanto, a disputa
está em aberto. Em tese.
Na prática, o senador está com a faca e o queijo, enquanto o
presidente conta com o esforço da superação diante do susto. Flávio tem a seu
favor as condições objetivas do espírito do tempo antipetista. Lula aposta no
fator subjetivo do grau de receio do eleitorado de entregar o país a um
Bolsonaro.
Ambas as campanhas captaram a mensagem da mudança. A
diferença é que os oposicionistas conseguiram transformar a demanda em diálogo
eficaz com o eleitor. Já os governistas só perceberam isso sob
o impacto da derrota.
O diagnóstico tardio resultou num corre de última hora que
agora tem duas semanas para inverter o quadro ou se render às evidências. Como,
em 15 dias, convencer as pessoas de que o governo será capaz de fazer o que não
fez em vários mandatos?
De repente, o PT se converte à
autocrítica, presta reverência ao contingente de insatisfeitos até então
menosprezado, se dispõe a reconhecer o desdém aos problemas substantivos da
população em nome da exaltação de um passado que passou e convoca a sociedade a
acreditar que daqui para frente tudo será diferente.
Lula está diante de uma improbabilidade, mas não de uma
impossibilidade. Vai depender do uso do capital que ainda lhe resta depois de
desperdiçá-lo falando de si no lugar de ouvir o país.

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