Diferença de 4pp mostra descompasso com o clima de já
ganhou entre bolsonaristas
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) já não faz mais campanha
presidencial, embora ainda faltem mais de duas semanas para o segundo turno.
Negocia as adesões do Centrão em troca não de votos, mas de espaços de poder
nas mesas diretoras do Congresso e do ministério. Organiza como se dará o
impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e até sinaliza para
uma costura que, em nome de acabar com a reeleição, prorrogará o próprio
mandato que disputa e adiará as eleições de 2030. Já há até especulação sobre a
divisão de cargos de segundo escalão.
Não se trata de salto alto, vai além disso.
Flávio se comporta como se o segundo turno fosse mera formalidade, e assim
também se comportam a cúpula dos partidos políticos e do próprio Judiciário:
como se a eleição presidencial de 2026 estivesse resolvida. A sensação de que
não há mais competição se fortalece por uma característica única desta eleição,
que é a virtual ausência de segundos turnos, disputados em apenas cinco Estados
(Tocantins, Acre, Amazonas, Espírito Santo e Rio Grande do Norte) e no Distrito
Federal.
A pesquisa divulgada pelo Datafolha na quinta-feira (8),
contudo, não é tão assertiva assim. Ele lidera com 49% de intenção de voto,
ante 45% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), uma diferença
relativamente apertada. Na pesquisa espontânea, sem que os nomes sejam
apresentados, Flávio obtém 46% e Lula 44%, os mesmos dois pontos percentuais de
diferença registrados nas urnas do primeiro turno. Segundo o levantamento, 46%
dizem que votarão com certeza no senador e 46% dizem que com certeza não votarão.
A chave da pesquisa que de fato confere favoritismo ao
senador está na rejeição de Lula: 49% afirmam que não votarão no presidente em
hipótese alguma e só 43% afirmam que votarão com certeza. Entre os eleitores
que se declaram não alinhados aos dois polos que dividem o país, 53% descartam
votar em Lula, 26% dizem que votariam com certeza e 20% admitem que talvez
votem.
Não há registro de viradas nas eleições presidenciais
brasileiras em segundo turno, mas há um descompasso entre a divisão do
eleitorado brasileiro e a unanimidade do mundo político de que já vivemos a era
Flávio.
Diferença de 4pp mostra descompasso com o clima de já ganhou
entre bolsonaristas
O senador tende a ganhar a eleição, mas por uma diferença de
votos pequena, provavelmente muito inferior à registrada pelo pai em 2018,
quando Jair Bolsonaro venceu Fernando Haddad por 55% a 45%. Será um segundo
turno mais parecido com os de 2014 e 2022 em que, ao contrário de agora,
Brasília não vivia a sensação de que não há nada mais em jogo.
Uma diferença como a registrada pelo Datafolha não é imune a
debates, propaganda ou algum fato novo, por mais calcificadas que estejam as
opiniões (94% dos entrevistados dizem que não mudarão o voto). Se metade dos 6%
que não são tão categóricos assim mudar a sua decisão a favor do segundo
colocado no primeiro turno, já estaria configurado um empate.
Obviamente o senador Flávio Bolsonaro não desconhece esse
fato. O gesto de sentar-se na cadeira antes da hora, mais que soberba, também é
estratégia. Apresentar-se como inexorável, inevitável, é um modo de baixar o
moral da tropa adversária. O eleitor lulista, diante do que parece se tratar de
um fato consumado, pode ficar mais tentado a ficar em casa no dia 25 e não
votar. O eleitor desmotivado e pendular também pode se mobilizar menos diante
de uma fatura que parece liquidada.
O mundo político, por outro lado, precisa fazer apostas. O
nível de acesso a um presidente muda se a aliança se der antes do segundo turno
ou depois, e os partidos do Centrão foram os que mais perderam no Congresso. O
União Brasil encolheu seis cadeiras. O PP, cinco. O Republicanos, uma. Todos
declararam apoio a Flávio nos últimos dias. A exceção foi o PSD de Gilberto
Kassab, que se posicionou pela neutralidade no primeiro instante.

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