A eleição não acabou, mas posso dizer que foi uma das mais
singulares da História. Assisti a algumas antes e a todas depois da
redemocratização. Uma das características de agora é a incontestável hegemonia
das redes sociais.
Ouso dizer que essa hegemonia provoca nos eleitores o mesmo
efeito que já vemos em nosso cotidiano: um déficit de atenção. Não discutimos
tópicos de programas. Saltamos de um tema para outro, e eles se sucedem com
rapidez. Nossa Senhora, “Dark Horse”, uma ou outra frase mal colocada pelos
adversários. Os problemas deixam de tratar do futuro nacional e se transformam
em simples trends.
Isso significa uma perda de conteúdo. Pouco sabemos da
política externa do candidato vitorioso no primeiro turno. Claro, sabemos que
se alinhará aos Estados Unidos. Mas isso não basta. Um país é diferente de
outro, tem interesses específicos. Quem seremos nós, além de aliados dos
americanos? Abriremos mão de nossa identidade, nos suicidaremos nos braços do
outro?
Acho inadequado o termo pacificação. Não estamos em guerra.
Mas uma tentativa, ainda que modesta, de unificar um país dividido poderia
ajudar em alguns temas que dependem de um esforço nacional. Estamos diante de
um dos mais poderosos El Niños da História. Podemos enfrentá-lo em conflito ou
ter algumas concordâncias essenciais para reduzir os estragos.
Antes mesmo do segundo turno, as tendências vingativas
aparecem aqui e ali. A expressão “sem anistia” muda de lado com uma incrível
facilidade, como se a punição fosse uma das responsabilidades dos vencedores.
O que digo aqui não significa passar pano nos erros do
Supremo. Eu mesmo fiz pressão por afirmar, um pouco antes do tempo, que era
preciso reformá-lo de ponta a ponta. Os vencedores precisarão saber que o
Brasil é um país complexo, que não é qualquer governo que consegue atender às
expectativas de nosso povo. Essa história de ficar décadas no poder é uma
ilusão. A alternância é a possibilidade mais forte. Olhem os Estados Unidos.
Trump está à beira de perder suas primeiras grandes eleições.
Os eleitores de esquerda estão fazendo um extraordinário
esforço para virar o jogo. Foram levemente minoritários no primeiro turno. Sua
dedicação é algo que aponta também para o futuro. Nem sempre os líderes
estiveram à altura de tanta energia positiva. Certamente, depois das eleições,
os eleitores se tornarão mais importantes ainda e deverão avaliar sem paixão se
a liderança, em caso de vitória ou derrota, não deveria se renovar, entendendo
por isso não apenas a atração de jovens, mas uma sacudida nas suas ideias.
A História não acaba com a ascensão da direita. Ela pode se
arrastar um pouco, mas o exemplo da Hungria está aí para mostrar como é
dinâmico o curso das coisas num país.
Não sei se verei a eleição de 2030. Dentro dos limites,
estarei aqui para lembrar como é surpreendente e rica nossa História. O diabo é
que também é algo difícil de interpretar, tão rápidas e amplas são suas
mudanças.
Artigo publicado no jornal O Globo em 13 / 10 / 2026

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