sábado, 31 de outubro de 2026

VITÓRIA DE LULA E VERGONHOSA FUGA DE FLÁVIO

Editorial Revista Será?

Com uma contundente vitória eleitoral, o presidente Lula da Silva se consolida como a maior liderança popular do Brasil que permitiu aos brasileiros impedir a volta da família Bolsonaro ao poder com os riscos para a democracia. Mesmo derrotado, o senador Flávio Bolsonaro recebeu 59,8 milhões de votos, em grande parte pela atração do antilulismo e da insatisfação de parcela dos brasileiros com o terceiro mandato de Lula. O ranço autoritário do bolsonarismo não permitiu que Flávio aceitasse o resultado das urnas – confirmado pelo TSE e seu presidente, Nunes Marques, Ministro indicado por Jair Bolsonaro – nem reconhecesse a vitória de Lula, o que lhe permitiria aspirar a uma posição de líder da direita brasileira.

A decisão apressada do Ministro Alexandre de Moraes ordenando que o senador entregasse os passaportes e não saísse do Brasil precipitou os fatos, com a fuga de Flavio Bolsonaro. Os elementos que justificam a punição do Ministro ainda precisam ser esclarecidos, mas é lícito imaginar que Flávio Bolsonaro sabia que existiam denúncias que levariam à sua prisão nos primeiros dias de fevereiro quando se encerrasse sua imunidade parlamentar. Entretanto, o histórico de inimizade política de Bolsonaro e Moraes e as evidências de envolvimento dos dois com o dono do Banco Master, alimentam a narrativa de perseguição política, que os Bolsonaros adoram.

Fugindo do Brasil e publicando um ridículo manifesto em que se apresenta como o presidente eleito, Flávio Bolsonaro frustra os seus eleitores e se isola da sua base política. Quase todas as lideranças políticas de direita, mesmo vários bolsonaristas de primeira hora, reconheceram os resultados das urnas e criticaram as declarações do fugitivo. Com Jair preso e dois dos seus filhos fora do Brasil, é muito provável que o bolsonarismo desinfle e que a ultradireita perca a capacidade de aglutinação de democratas da direita e da centro-direita, capacidade demonstrada nestas eleições.

Confirmada esta hipótese, no futuro, o Brasil pode se livrar da polarização política nefasta entre o lulismo e o bolsonarismo que tem dominado a política brasileira em quase uma década. Embora Lula possa beneficiar-se da fragilidade da família Bolsonaro sem a força do bolsonarismo, tal fragilidade poderá descartar também   o apoio dos brasileiros que votaram nele apenas para livrar-se dos riscos e ameaças bolsonaristas. E assim, nós escaparíamos da armadilha política que nos tem obrigado a um posicionamento mais pela rejeição de um  dos polos do que pela efetiva afinidade política com o outro.

Brechas à gastança eleitoral têm de ser fechadas desde já

Por O Globo

Lula lançou mão de medidas eleitoreiras como nunca. Não foi o primeiro, mas deveria ser o último

A classe política precisa desde já começar a rever as brechas legais que permitem a profusão de medidas e benesses em série às vésperas de eleições. Embora haja regras contra abusos, o pleito deste ano deixou claro que não têm sido suficientes para deter o ímpeto de políticos que recorrem à caneta para conquistar votos.

O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi pródigo nessas iniciativas, especialmente neste ano. À medida que a popularidade de Lula enfrentava dificuldades, mais pacotes de bondades saíam da linha de montagem. No fim de setembro, o Palácio do Planalto chegou a anunciar uma benesse a cada quatro dias, como mostrou reportagem do GLOBO. Nunca antes houve tantas medidas populistas em ano eleitoral.

A lista é interminável: subvenção a combustíveis, múltiplas versões do Desenrola para endividados, ampliação das faixas do Minha Casa, Minha Vida para a classe média, crédito para compra de veículos por taxistas, motoristas de aplicativo e entregadores, crédito agrícola e industrial, ajuda a microempreendedores individuais (MEIs), além do reajuste de 15% no Bolsa Família a apenas 17 dias do pleito — Lula alegou não saber que ele estava sem correção. Contando financiamentos, despesas primárias e renúncias fiscais, a conta beira R$ 300 bilhões, segundo a Instituição Fiscal Independente. E outros mimos estão a caminho, caso do Pé-de-Meia para universitários e da tarifa zero no transporte coletivo aos fins de semana.

Lula não foi o primeiro a gastar sem freio às vésperas do pleito. Dilma Rousseff (PT) e Jair Bolsonaro (PL) recorreram ao mesmo expediente de modo despudorado. Em 2022, quando concorria à reeleição, Bolsonaro anunciou aumento de 50% no Auxílio Brasil. O reajuste começou a ser pago dois meses antes do primeiro turno. Na época, Lula e o PT acusaram o adversário de usar indevidamente a máquina pública. Antes disso, Dilma já torrara 3,1% do PIB para se reeleger, como mostrou estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). A prática não tem coloração partidária ou ideológica.

O uso abusivo da máquina desequilibra a disputa. O político que tem a caneta na mão leva vantagem sobre os adversários, pois pode distribuir benesses com recursos públicos para se beneficiar. Além disso, qualquer gasto tem impacto inexorável no Orçamento. Evidentemente, não se podem coibir promessas ou projetos apresentados, ao alcance de qualquer candidato. Nem medidas emergenciais justificáveis por eventos externos, como uma pandemia ou tragédia climática. Mas é preciso mais rigor para vetar o que estiver ao alcance apenas de quem tem a caneta.

O artigo 73 da Lei das Eleições já veda diversas condutas, como uso de bens públicos; ceder servidor para comitês de campanha; contratar funcionários antes da eleição; e, sobretudo, distribuir bens, valores ou benefícios em ano de eleição. Mas tais vedações são genéricas e, como se viu, não têm bastado. É preciso fechar as brechas aos abusos, e a Justiça também precisa ser mais rigorosa na interpretação das leis.

Qualquer mudança deve ser debatida com antecedência, para não sofrer contaminação do calendário eleitoral. Mas a hora de começar é agora. Se nada for feito, o descalabro poderá ser ainda pior nas próximas campanhas.

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