O milhão de jovens na avenida Paulista mostrou a cara de
um novo sujeito político: os que recusam a iniquidade de nascer para o abandono
de uma sociedade cada vez mais rica e de alguns
Até os últimos minutos da apuração dos resultados eleitorais
do pleito presidencial de 25 de outubro, havia sérias dúvidas quanto a qual dos
candidatos seria o eleito para a Presidência da República. As dúvidas tinham
fundamento na comprovada eficácia aos recursos ilícitos criados e movimentados
nas últimas décadas para impedir a alternância democrática de governo.
A disputa não era e nem tem sido entre esquerda e direita.
Nem tem sido uma manifestação da luta de classes. É inútil invocar esses
chavões da história do último século para explicá-la. Aqui há cientistas
sociais que propõem essa compreensão da realidade política.
Esses marcos estão referidos a uma concepção de
temporalidade histórica de um agora de horas e minutos próprios do imediato da
sociedade de consumo e não próprios do processo histórico e político. Os de uma
sociedade que teve sua concepção de destino usurpada pelos beneficiários das
urgências da reprodução ampliada do capital. As de um capital rentista,
anticapitalista. Uma riqueza de mera reprodução do subdesenvolvimento econômico
e social.
Uma forma de reprodução da riqueza que
emergiu das profundezas da realidade para que nela não se expressem
politicamente as necessidades sociais radicais geradas pelas injustiças
sociais. As que manifestem o clamor do possível, sem cuja realização o capitalismo
privado de transformações sociais e políticas não pode se atualizar.
Nesse sentido, em todas as partes e aqui no Brasil, em
particular, antes de qualquer outra mudança social e política, as esquerdas têm
a função e a missão histórica de desbloquear o capitalismo para que ele cumpra
por sua vez sua missão de promover o desenvolvimento. Não é o comunismo que
aqui ameaça o capitalismo de destruição por inviabilizá-lo. É a direita.
Sem admitir o povo como autor da história, a sociedade
brasileira acabará se tornando caricatura da civilização, uma sociedade de
vítimas de privações descabidas e degradantes.
A insurreição eleitoral de 25 de outubro não seguiu os
cânones da polarização esquerda/direita, que expressa politicamente o bloqueio
a que me refiro. Ela deu visibilidade aos seres humanos que, das profundezas
das ocultações mencionadas, expressam as necessidades radicais do carecimento
de transformações sociais.
O milhão de jovens na avenida Paulista, em São Paulo, dias
antes do pleito, mostrou a cara juvenil desse novo sujeito político. A dos que
recusam a iniquidade de nascer para o abandono de uma sociedade cada vez mais
rica e de alguns e cada vez menos de todos. E que se descobrem membros de uma
categoria social que não é uma classe social nem agentes da luta de classes,
que se descobrem nos avós e nos velhos, nos desvalidos.
Netos que foram às urnas e levaram até nos braços os avós
para que fizessem valer no voto uma outra concepção das diferenças e das
carências sociais. E escolheram o único candidato que, por experiência
vivencial própria, tinha condições de ouvir e compreender o recado do voto
insurgente.
Seria injusto não levar em conta os agentes de mediação
dessa revolta. Que não são necessariamente petistas. O mais criativo e corajoso
deles, André Janones, evangélico, com o seu Exército de Lula. Filho de
empregada doméstica e de pai cadeirante, ele próprio foi cobrador de ônibus,
aluno de escola pública, bolsista, formou-se em direito. Sua consciência
crítica e sua prontidão para perceber o perigo das ameaças ao destino de todos
com a altamente provável condenação do povo brasileiro a um destino carneiril.
Outro sinal mais do que significativo dessa explosão de
consciência e ação é Ana Elisa Santos Silva, de 21 anos, eleita deputada
federal (MG) com bem mais de meio milhão de votos, estudante de direito, preta,
dotada de uma maravilhosa consciência crítica a respeito de nossa realidade e
de nossas injustiças. Tem grande lucidez sobre as anomalias das classificações
ideológicas que nos enganam e aprisionam. Para ela, corretamente, direita é uma
coisa, e bolsonarismo é outra. Bolsonaro e sua família de políticos se
apoderaram de um campo de expressão e ação política que é a direita. É preciso
mostrar à direita que ela é outra coisa.
Ana Elisa poderia ir adiante e mostrar aos eleitores
capturados pelo bolsonarismo que, provavelmente, a maioria deles é
conservadora, enquanto os bolsonaristas são negacionistas e reacionários. Essa
direita conservadora quer transformações sociais no marco das tradições, quer
um lugar para seus filhos e netos na história possível. Enquanto os Bolsonaros
e os bolsonaristas querem os benefícios do desenvolvimento econômico só para
eles, mesmo que à custa de ações que têm terminado em processos na Justiça.

Nenhum comentário:
Postar um comentário