Lula 4 dá fôlego à democracia, mas extrema direita não
foi embora com Flávio
Um governo apenas de normalização institucional é muito
pouco contra ameaças que nos assombram
Será indispensável manter mobilização social e ousadia
para emparedar bolsonarismo
[RESUMO] Triunfo histórico de Lula merece ser
celebrado pelos defensores da democracia, mas não podemos nos enganar sobre a
gravidade da situação. O voto bolsonarista segue crescendo, consolidou domínio
no Congresso e por pouco não leva a Presidência, impulsionado pela
desintegração social em todo o mundo após 50 anos de neoliberalismo. Reverter
esse quadro exigirá do governo federal preservar ao longo dos próximos quatro
anos o senso de urgência descoberto no segundo turno, começando a se preparar
para 2030 desde já.
Com uma inédita virada no segundo turno, Luiz
Inácio Lula da Silva ganhou um inédito quarto mandato como presidente
naquela que foi, sem dúvida, a eleição mais dramática da história do país.
Mais uma vez, a democracia brasileira respira aliviada após
escapar
por um triz do maior risco por que passou desde o fim da ditadura militar. Mas
se o retorno de Lula há quatro anos pareceu ser interpretado por muitos
como sinal de que a ameaça fora definitivamente derrotada, é preciso desta vez
levar muito a sério o que as urnas indicam: ela não apenas não foi embora, como
segue crescendo.
Embora o salto à frente de Flávio
Bolsonaro no primeiro turno não fosse esperado, tudo mais nos resultados
daquele dia não deveria ser surpresa.
Malgrado a derrota na disputa presidencial de 2022, o voto
bolsonarista continuou se ampliando e capilarizando desde 2018, conforme se
pôde observar nas três últimas eleições, com
a consolidação de sua presença no Congresso, nos governos e legislativos
estaduais, nas prefeituras e câmaras de vereadores.
Em vez de uma virada de maré, o triunfo de Lula quatro anos
atrás foi a recaptura do último bastião que ainda não estava plenamente nas
mãos da extrema direita.
Se aquela eleição viu um dos melhores presidentes da
história do Brasil bater o pior por uma margem mínima, 2026 obrigou Lula a
correr atrás do resultado contra um candidato que não é o político mais
expressivo nem de sua própria família —e o reconduziu ao governo para quatro
anos sob o cerco permanente de um adversário hostil e empoderado.
Nas últimas semanas, um termo circulou para caracterizar
esse cenário: haveria uma revolução de
extrema direita em curso no país. Por um lado, tratar-se-ia de uma revolução
cultural, visível, por exemplo, no avanço de todo um universo de valores e
referências associados ao agronegócio ao longo da fronteira agrícola em
expansão no interior do Brasil.
Uma revolução cultural também no modo como a extrema direita
soube dar forma aos desejos e frustrações dos atletas da
viração nas cidades grandes e médias: motoboys, motoristas de aplicativo,
aspirantes a influencers e outros trabalhadores em situação permanente de sub e
multiemprego que se identificam com a promessa de um mundo em que menos
regulação e impostos possam impulsionar seus voos pessoais.
Revolução cultural, finalmente, no
crescimento das igrejas evangélicas nas periferias e na ascensão dos empreendedores políticos: influenciadores digitais que
fizeram da agitação de extrema direita uma carreira lucrativa e que, em muitos
casos, lograram converter em votações estrondosas seu considerável capital
midiático.
Mas o termo se justificaria sobretudo porque é a extrema
direita que tem sabido melhor do que ninguém encarnar um desejo de ruptura que
paira no ar há algum tempo —uma mistura de desencanto com as promessas da
democracia e da modernidade, indiferença a instituições vistas como elitistas e
corruptas, um sentimento de que as coisas não podem seguir como estão e uma
dificuldade profunda de imaginar como elas poderiam ser diferentes.
Trata-se de uma revolta que acaba por ser extremamente conformista, na medida em que não se traduz em
projetos coletivos de combate à explosão da concentração de poder econômico e
político das últimas décadas, mas na aposta em figuras que prometem um ambiente
mais desregulado de competição de todos contra todos. Isso, contudo, não a
torna menos urgente para quem adere a ela.
Revolução ou Aceleração?
Todos os elementos dessa análise estão corretos —e, no
entanto, a palavra "revolução" não deixa de causar ruído. Não porque
ela seja privilégio exclusivo da esquerda ou porque tenha um conteúdo
determinado, mas porque falta à ascensão da extrema direita uma característica
que parece essencial ao conceito: a de ir a contrapelo do atual estado de
coisas.
Em cada um dos pontos acima, é possível dizer que o sucesso
da extrema direita vem menos de sua capacidade de andar na contramão da
história e mais de sua aptidão para navegar os ventos favoráveis das quase duas
décadas de crise permanente que vieram na esteira da debacle financeira de
2008.
A internalização do empreendedorismo de si mesmo —aquilo que
Verónica Gago chamou de "neoliberalismo desde baixo"— não é um fenômeno
recente, mas o resultado cumulativo de cinco décadas de reformas neoliberais
que reformataram o mundo em que vivemos.
O advento da plataformização e das redes digitais contribuiu
para acelerar este processo, bem como o da colonização da política pela
economia da atenção que fez
crescer exponencialmente o poder das big techs, inclusive aquele de intervir
diretamente em eleições, ao mesmo tempo que abria aos empreendedores
políticos um mercado gigante de instrumentalização da raiva, do ressentimento e
do ódio.
Neste processo, também as igrejas evangélicas funcionaram
menos como inovadoras do que como organismos especialmente adaptados a um novo
mundo que se formava.
Ocupando espaços deixados pela ausência do Estado e pela
retirada da Igreja Católica de áreas mais pobres, elas ofereciam apoio a
indivíduos expostos a condições cada vez mais hostis e uma mensagem adequada às
circunstâncias, de esforço e salvação individuais.
Durante um tempo, os desejos despertados por essa
reformatação da vida social e da subjetividade puderam se projetar em cenários
de expansão: a globalização e a abertura ao capital internacional, bolhas
especulativas como a da internet e a do mercado imobiliário. Com o estouro
desta última, a situação mudou no mundo todo.
No Brasil, o fim
do ciclo das commodities em 2015 fez com que mesmo alguns dos pilares do
sucesso petista se voltassem contra o partido. Em 2026, o voto bolsonarista
cresceu no Nordeste junto com a fronteira de um agronegócio que, desde 2018, se
realinhou à extrema direita.
A expansão do crédito, que possibilitou a "inclusão
pelo consumo" no início do século, virou endividamento em massa e fez com
que a melhora dos indicadores macroeconômicos do terceiro governo Lula não se
traduzisse na vida de muita gente.
Também a promoção do empreendedorismo popular, parte
importante do repertório lulista nos tempos de prosperidade, virou-se
contra o PT quando as condições mudaram. Não apenas a culpa pela piora
recaiu sobre o partido, como este perdeu a batalha discursiva em torno de quais
haviam sido as causas dos tempos de vacas gordas.
Em vez de as políticas redistributivas serem percebidas como
aquilo que aquecera o mercado interno e tornara possível empreender, elas
viraram as vilãs que tiravam dos busca-vidas para dar a quem não queria
trabalhar.

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