A fuga de Flávio
Bolsonaro e o rescaldo emocional da campanha ocuparam a cena pós-eleitoral.
Mas não devem sobreviver por muitos dias. Ao se intitular “presidente eleito”
do Brasil, Flávio repetiu aquele venezuelano, Juan Guaidó,
que também se declarou presidente e saiu pelo mundo para cair num profundo
esquecimento. Flávio terá menos fôlego ainda, porque as eleições brasileiras
gozam de crédito internacional muito grande.
No front interno, as constantes ameaças de demissão
dos petistas porque votaram em Lula são uma espécie de assédio eleitoral
retardado e não devem vingar. A temperatura baixará com o tempo. O que deve
surgir com muita força no horizonte é uma discussão concreta sobre a política
econômica do novo governo. Isso, sim, diz respeito ao futuro e merece reflexão
positiva.
A expectativa de um ajuste fiscal severo deve se frustrar.
Lula nunca prometeu isso na campanha e, baseado num discurso que fez na Espanha, suponho
que não acredita em tal caminho. Muitos observadores consideram que o declínio
da social-democracia na Europa aconteceu exatamente porque ela se rendeu aos
argumentos neoliberais nesse campo, abrindo enorme espaço ao populismo de
direita.
No caso brasileiro, um ajuste muito severo pode ser
entendido como estelionato eleitoral, abrindo espaço à oposição de direita e,
ao mesmo tempo, desencantando os eleitores de esquerda.
Mas a falta de uma política econômica bem-sucedida pode
suscitar forte inflação, com duros reflexos para os mais vulneráveis. Isso
abalaria a esperança de milhares de eleitores que votaram precisamente na
esperança de proteção aos mais pobres.
Que alternativa resta? Um ajuste fiscal que não prejudique
os pobres. Não é fácil, embora seja possível enxugar a máquina do Estado e
obter alguns recursos dessa decisão. Lula se mostrou interessado na comunicação
digital. Está a um passo, portanto, de se abrir à ideia de um Estado
inteligente, em que, com menos recursos, é possível manter um bom nível de
eficácia.
Mas o enxugamento da máquina não basta. A equação é complexa
e não repetirei algumas medidas conhecidas, como o fim dos supersalários,
porque, apesar de necessário, não resolve. Não tenho condições de oferecer uma
saída para o problema. Assim como não tinha no período de inflação intensa,
resolvido com a formulação do Plano Real.
As condições são diferentes, o partido no poder é outro,
mas, certamente, capaz de unir seus economistas para encontrar uma saída
original, fugindo assim da decadência vivida pela social-democracia e dos
ataques da oposição de direita.
O Brasil é o tipo de país complexo e criativo que pode
encontrar soluções internacionalmente inéditas. No caso do combate ao controle
das redes pela direita, teve grande êxito e exportou seu modelo para outros
partidos de esquerda.
A questão econômica é um desafio específico. O capitalismo é
um sistema muito difícil de cavalgar. Os grupos no poder são constantemente
sacudidos e costumam perder as eleições. Lula foi salvo pela mobilização no
segundo turno e pelo medo da volta dos Bolsonaros.
Artigo publicado no jornal O Globo em 03 / 11 / 2026

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