Decisões baseadas numa compreensão inadequada ou falsa da
realidade produzem consequências nefastas para a sociedade
O governo Lula e os petistas em geral padecem de uma grave
enfermidade. Desconhecem como controlar o mercado, acreditando que o Estado é
uma espécie de demiurgo que tudo pode dominar. Têm uma crença desmedida em suas
ações, como se elas obedecessem, em seus efeitos, à sua vontade. Ocorre que
decisões baseadas numa compreensão inadequada ou falsa da realidade, como se o
mercado fosse constituído por relações pessoais e não por regras impessoais,
produzem consequências nefastas para a sociedade. A política, quando bem
pensada e conduzida, deveria corresponder a ideias fundadas na racionalidade
econômica.
O mercado funciona segundo regras que
possuem uma autonomia própria, semelhante a leis que regulam os fenômenos
naturais. A política não tem o condão de dominar essas leis, embora possa
influir em seu funcionamento ou em seu mau funcionamento. E em nosso mundo, tal
modo de funcionamento não vigora em nível apenas nacional, mas também
internacional. Um evento de quebra de um grande banco na Europa ou nos EUA
afeta diretamente o sistema financeiro e logo econômico em nosso próprio país.
As pessoas e as empresas atuam nesse processo, apesar de não poderem alterar as
suas regras. Podem, isso sim, extrair lucros e dividendos, se souberem deles
bem se aproveitar, podendo igualmente padecerem prejuízos e perdas se delas se
afastarem.
O governo Lula vive numa ficção. Por exemplo, estabelece um
arcabouço fiscal para, em momento seguinte, o desobedecer, estabelecendo
exceções que seguem uma determinação jurídica e política. Dirão imediatamente
que tal exceção estaria contemplada nas regras do arcabouço, seguindo uma
determinação legal. São precatórios, despesas variadas, subsídios e
favorecimentos múltiplos que caracterizam o que chamam de política de governo.
É como se tudo que fosse legalizado dessa maneira estivesse justificado. Em consequência,
estabelece-se como regra geral a gastança desordenada como a que observamos no
processo eleitoral, como se tudo fosse possível, como se sua única consequência
fosse a vitória eleitoral, quando o que foi criado foi a desordem financeira e
econômica. Festejam a vitória desfazendo o País. É um champanhe com veneno.
Acontece que a farra ou a embriaguez paga o seu preço.
A dívida pública cresce, uma vez que segue suas próprias
regras, independentemente da decisão legal que a embasou. E para financiar a
dívida crescente, é necessário ter compradores que acreditem na capacidade de
pagamento do Estado assim endividado. Quanto menor credibilidade tiver, maior
será o juro cobrado e o crédito para empresas e pessoas, aumentando o prêmio de
risco e fazendo disparar o dólar, os juros imediatos e os de longo prazo. Logo,
o Estado terá um custo crescente para o financiamento da dívida, a taxa Selic
sofrerá suas consequências mantendo-se elevada, a inflação será pressionada e
assim por diante. De nada adianta, diante de tal quadro, simplesmente afirmar
que tudo foi legal.
Note-se o efeito imediato da vitória de Lula. Queda
vertiginosa da Bolsa, alta do dólar, juros futuros elevados e prêmios de risco
maiores. E tudo isso ocorre independentemente do que tal empresário ou
banqueiro disser, porque também ele deve necessariamente seguir as regras de
mercado, sob pena de falir. Um governo que transmite insegurança jurídica e
menospreza a economia de mercado não pode pretender que outros acreditem nas
narrativas que apresenta, a exemplo da célebre afirmação de Lula de que todo
gasto é investimento. As regras da contabilidade e da matemática vão para o
espaço.
Outro exemplo dessa encenação canhestra é a crença de que
basta uma conversa com a “Faria Lima” para que tudo volte ao normal. Lula envia
um ministro para apaziguar os seus interlocutores como se tudo estivesse,
então, resolvido. A premissa é completamente falsa, visto que relações pessoais
de ministros com lideranças empresariais e financeiras não têm a faculdade de
alterar as regras impessoais do mercado. Por mais importante que seja uma
empresa, ela não deixa de ser um agente econômico e financeiro que está
destinado a seguir as regras de mercado, sob pena de naufragar se não o fizer.
São agentes de leis e regras que os ultrapassam e sobre as quais não exercem
nenhum controle.
Claro que se poderia aduzir que o mercado é uma construção
histórica, diferente de um fenômeno natural, que poderia consequentemente ser
alterado ou revolucionado para utilizar um vocabulário esquerdizante. A
proposta seria a abolição da economia de mercado, com o Estado tudo
determinando, inclusive a vida pessoal de cidadãos tornados servos. A história
não aconselha tal opção, a menos que queiramos seguir os exemplos comunistas,
como a ex-União Soviética, Camboja, Coreia do Norte e Cuba. Sociedades miseráveis,
opressivas e liberticidas. Se essa não for a escolha, mais sábio seria seguir
as regras de uma economia livre.
Lula e o PT têm um encontro marcado com o mercado, embora
finjam que nada de grave está por vir.

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