A experiência de Mandela permite entender por que vencer
uma eleição difere de reconstruir uma sociedade
Na noite de 25 de outubro, poucas horas depois de confirmada
sua vitória, Lula disse que, encerrada a eleição, já não tinha mais
adversários: precisava governar para 215 milhões de brasileiros. Ninguém era
obrigado a gostar do presidente eleito, acrescentou, mas ele teria de governar
para todos. A frase parece simples. Não é. Uma eleição termina quando os votos
são contados. As divisões que revelou não desaparecem na mesma noite.
Vencedores e vencidos continuam morando nas mesmas cidades, trabalhando lado a
lado e dependendo das mesmas instituições. O adversário derrotado continua
sendo cidadão no dia seguinte.
O que significa, então, governar para 215
milhões? A pergunta importa ainda mais porque esta eleição produziu algo que
não aparece nas planilhas de resultados. Entre os dois turnos, muita gente que
recebera com desalento o resultado de 4 de outubro voltou a agir. Estudantes
foram às ruas, redes se organizaram, pessoas procuraram amigos, parentes e
colegas, discutiram, convenceram, buscaram votos. Muitos descobriram que sua
participação podia alterar o curso de uma eleição.
Seria um enorme desperdício se essa energia se dissipasse.
Uma eleição democrática precisa terminar. A cidadania que ela despertou, não. O
desafio é preservá-la sem preservar a lógica da guerra eleitoral.
Como transformar, então, a energia de uma vitória política
em força para construir um país que continue pertencendo também aos que foram
derrotados?
Trinta e dois anos atrás, em circunstâncias
incomparavelmente mais dramáticas, Nelson Mandela enfrentou uma versão extrema
desse desafio. Após 27 anos na prisão, tomou posse como presidente da África do
Sul, em 1994. O apartheid deixara mortos, presos, exilados, famílias destruídas
e uma sociedade organizada pela segregação racial e pela exclusão da maioria
negra do poder político. Mandela tinha razões pessoais para o ressentimento e
legitimidade política suficiente para fazer dele um instrumento de poder.
Escolheu outro caminho.
Seu governo incluiu antigos adversários. F. W. de Klerk,
último presidente do regime do apartheid, tornou-se um dos vice-presidentes da
nova África do Sul. Isso não apagou as diferenças entre os dois. Mandela
continuou a confrontá-lo e a denunciar as responsabilidades da ordem que o
mantivera preso. Trabalhar juntos era uma necessidade. Sua reconciliação não
dependia de esquecer quem fizera o quê, mas de reconhecer que antigos inimigos
continuariam pertencendo ao mesmo país. Democracias precisam de adversários. O
perigo começa quando deixamos de reconhecer no adversário o direito de
pertencer à mesma comunidade política.
A África do Sul mostrou também que reconciliação não é
esquecimento. A Comissão da Verdade e Reconciliação ouviu vítimas, investigou
violações, propôs reparações e examinou pedidos de anistia. Se a memória diz de
onde viemos, a reconciliação pergunta se, sabendo disso, ainda conseguiremos
construir juntos.
Mandela compreendia, porém, que nem isso bastava. Em 1997,
afirmou que não poderia haver reconciliação sem reconstrução e desenvolvimento.
A história posterior da África do Sul transformaria a frase numa advertência.
A transição política foi extraordinária. Já a transformação
das estruturas materiais herdadas do apartheid, muito menos. Três décadas
depois, a África do Sul continua entre as sociedades mais desiguais do mundo:
seu índice de Gini – numa escala em que zero representa igualdade perfeita e 1,
desigualdade máxima – é de 0,541. O do Brasil, ele próprio profundamente
desigual, é de 0,503. A igualdade perante a lei avançou muito mais rapidamente
do que a igualdade das condições de vida.
Até onde uma sociedade consegue se reconciliar politicamente
quando aquilo que materialmente separa seus cidadãos permanece quase intacto?
Talvez uma reconciliação duradoura exija mais que tolerância. Exija
pertencimento. É aí que a frase de Lula sobre os 215 milhões deixa de ser
apenas uma declaração de boas intenções.
Democracias precisam de adversários. O perigo começa quando
deixamos de reconhecer neles o direito de pertencer à comunidade
Governar para todos não significa abandonar o programa que
venceu as eleições. Significa governar segundo um projeto sem transformar
aqueles que votaram contra ele em estrangeiros dentro do próprio país. Quando
um cidadão entra numa unidade do SUS e é atendido sem que ninguém lhe pergunte
em quem votou, há ali algo maior do que a prestação de um serviço. Quando uma
criança encontra numa escola pública professores, ciência, cultura e
oportunidades que sua família talvez não pudesse lhe oferecer, acontece algo
semelhante. O país lhes está dizendo: este país também é seu. Talvez devêssemos
pensar essas instituições também como infraestruturas de pertencimento. Isso
não exige que conservadores e progressistas concordem sobre impostos,
segurança, costumes, meio ambiente ou o papel do Estado. Uma democracia
saudável não é uma sociedade sem conflitos. É uma sociedade capaz de tê-los sem
transformar cada divergência numa guerra entre pessoas que deixaram de se
reconhecer como concidadãs.
Talvez a melhor maneira de reduzir a polarização não seja
pedir aos brasileiros que esqueçam suas diferenças, mas oferecer-lhes coisas
importantes para construir juntos. É também por isso que a mobilização do
segundo turno não deveria desaparecer. Pessoas que descobriram que sua ação
podia mudar uma eleição podem descobrir que ela também consegue mudar uma
escola, um bairro, uma cidade.
Durante muito tempo, acostumamo-nos a ouvir que o Brasil era
o “país do futuro”. A expressão de Stefan Zweig, originalmente esperançosa,
adquiriu uma ironia que seu autor certamente não imaginava: o futuro brasileiro
parecia estar sempre alguns anos adiante. Talvez esteja na hora de aposentar a
expressão. Não porque o futuro tenha finalmente chegado. Nenhum futuro chega
sozinho. Mas porque, entre os dois turnos, milhões descobriram que sua ação
podia mudar o rumo do país.
Essa experiência pode desaparecer na memória de mais uma
campanha. Ou produzir uma descoberta mais duradoura: participação não precisa
ser convocada apenas quando chega a hora de votar. Mandela mostrou que
sociedades podem escapar de destinos que pareciam inevitáveis. A África do Sul
mostrou que nenhuma vitória política termina o trabalho da história.
O país precisa preservar a energia dos que se mobilizaram
sem transformá-la em combustível para uma guerra permanente contra os que
perderam. Precisa lembrar sem fazer da memória uma prisão e governar segundo o
programa escolhido pela maioria sem transformar a minoria em estrangeira dentro
do próprio país. Governar para 215 milhões não significa imaginar que todos
passarão a pensar da mesma maneira. Significa construir um país em que possamos
discordar profundamente e continuar pertencendo ao mesmo futuro. Talvez o
Brasil deixe de ser o eterno país do futuro no dia em que compreendermos que o
futuro não é um lugar para onde estamos indo. É aquilo que 215 milhões de
brasileiros forem capazes de construir juntos.
*Professor titular aposentado da UFPE, pesquisador 1A
do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciências.
Publicado na edição n° 1438 de CartaCapital, em 11 de
novembro de 2026.

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