sábado, 12 de outubro de 2013

21 ANOS SEM ULYSSES GUIMARÃES

Memória – Ulysses Silveira Guimarães (Itirapina, 6 de outubro de 1916 — Angra dos Reis, 12 de outubro de 1992) foi um político e advogado brasileiro que teve grande papel na oposição à ditadura militar e na luta pela redemocratização do Brasil. Morreu em um acidente aéreo de helicóptero no litoral ao largo de Angra dos Reis, sul do estado do Rio de Janeiro.
Infância e juventude
Ulysses Silveira Guimarães nasceu na vila de Itaqueri da Serra, hoje distrito do município de Itirapina, que na época era parte do município de Rio Claro, no interior paulista. Filho de Ataliba Silveira Guimarães e de dona Amélia Correa Fontes, foi casado com dona Ida de Almeida Guimarães que na época viuva já tinha dois filhos pequenos, Tito Enrique e Celina Ida.
Teve uma vida acadêmica ativa, participando do Centro Acadêmico XI de Agosto e exercendo a vice-presidência da União Nacional de Estudantes (UNE). Bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).
Vida profissional
Foi professor durante vários anos na Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, onde veio a se tornar professor titular de Direito Internacional Público. Lecionou ainda Direito Municipal na Faculdade de Direito de Itu, e Direito Constitucional na Instituição Toledo de Ensino em Bauru, onde também atuou como diretor desta instituição. Exerceu profissionalmente a advocacia, especializando-se em Direito Tributário.
No Santos Futebol Clube, Ulysses Guimarães se associou em 10 de janeiro de 1941. Em 1942, foi nomeado diretor-presidente da subsede em São Paulo do clube, cargo que voltou a ocupar em 1945.
Foi eleito deputado estadual, por São Paulo, à Constituinte de 1947, na legenda do Partido Social Democrático (PSD). A partir deste momento, não deixaria mais a política, elegendo-se deputado federal pelo Estado, por onze mandatos consecutivos, de 1951 a 1995 (não tendo terminado o último mandato). O primeiro discurso político ocorreu na década de 1940, à sombra de uma figueira no Distrito de Itaqueri da Serra, município de Itirapina, Estado de São Paulo, sua verdadeira terra natal, já que na época do nascimento todas as pessoas lá nascidas eram registradas em Rio Claro, que era então a sede do município.2 Ainda hoje, ao chegarmos em Itaqueri da Serra, deparamo-nos com diversos parentes e inesquecíveis histórias do Dr. Ulysses, como era carinhosamente chamado.
Assumiu a pasta do Ministério da Indústria e Comércio no gabinete Tancredo Neves, durante a curta experiência parlamentarista brasileira (1961-1962).
Apoiou, inicialmente, o movimento militar que, em 1964, depôs o presidente João Goulart, mas logo passou à oposição. Com a instauração do bipartidarismo (1965), filiou-se ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), do qual seria vice-presidente e, depois, presidente.
Foi presidente do Parlamento Latino-Americano, de 1967 a 1970.
Luta pela abertura política
Em 1973, lançou sua anticandidatura simbólica à Presidência da República como forma de repúdio ao regime militar,2 tendo como vice o jornalista e ex-governador de Pernambuco, Barbosa Lima Sobrinho.
Em 29 de novembro de 1976, no Plenário Tiradentes da Assembleia Legislativa de São Paulo, fundou a O.P.B. - Ordem dos Parlamentares do Brasil, uma Associação de Classe, sem vínculos partidários, religiosos ou sociais, da qual é Patrono.
À frente do partido, participou de todas as campanhas pelo retorno do país à democracia, inclusive a luta pela anistia ampla, geral e irrestrita. Com o fim do bipartidarismo (1979), o MDB converteu-se em Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), do qual seria presidente nacional.
Ativismo político
Junto com Tancredo Neves, Orestes Quércia e Franco Montoro, Ulysses liderou novas campanhas pela redemocratização, como a das eleições diretas, popularmente conhecidas pelo slogan Diretas Já.
Ulysses Guimarães quase foi o candidato a presidente da República em 1985 pelo PMDB, quando as eleições foram realizadas no colégio eleitoral. As articulações políticas da época acabaram levando à eleição de uma chapa "mista", com Tancredo Neves como candidato a presidente pelo PMDB e o candidato a vice José Sarney, ex-PDS/Frente Liberal.
Exerceu a presidência da Câmara dos Deputados em três períodos (1956-1957, 1985-1986 e 1987-1988); presidindo a Assembleia Nacional Constituinte, em 1987-1988.2 A nova Constituição, na qual Ulysses teve papel fundamental, foi promulgada em 5 de Outubro de 1988, tendo sido por ele chamada de Constituição Cidadã, pelos avanços sociais que incorporou no texto.
No ano de 1986, esteve pela última vez em Itaqueri da Serra, inaugurando o asfaltamento da rodovia vicinal que leva seu nome, ligando as cidades de Itirapina a São Pedro, prestigiando pessoalmente aquela conquista, um objetivo do então prefeito de Itirapina, João Gobbo e da então vereadora Maria Ângela de Oliveira Leite.
Em 1º de Fevereiro de 1987, tomou posse como presidente da Assembleia Nacional Constituinte, responsável por estabelecer nova Constituição democrática para o Brasil após 21 anos sob regime militar.
Como presidente da Câmara dos Deputados, Ulysses era o substituto do Presidente Sarney e assumiu várias vezes a presidência, sendo o primeiro paulista a fazê-lo desde que Ranieri Mazzilli assumira a presidência em 1964.
Devido à sua grande popularidade, candidatou-se à Presidência da República, na sigla do PMDB, nas eleições de 1989.
Os acervos do Conselho Nacional de Segurança, da Comissão Geral de Investigações (CGI) e do próprio Serviço Nacional de Informações (SNI), revelam que o então deputado Ulysses Guimarães foi alvo de investigação, mesmo no período de redemocratização do país, enquanto dirigia a Câmara e a Assembleia Nacional Constituinte e o PMDB. A avaliação registrada em 1987, afirmava que Ulysses poderia causar crise partidária entre os aliados. Um dos fatos descritos em documentos de março de 1987 é o início das negociações para a indicação do líder do partido na Constituinte sendo um dos candidatos Mário Covas, que contava com a simpatia do SNI, mas contra vontade de Ulysses.
Morte
Morreu em acidente aéreo de helicóptero, ao largo de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, em 12 de outubro de 1992, junto à esposa D. Mora, o ex-senador Severo Gomes, a esposa deste e o piloto.2 O corpo de Ulysses foi o único que nunca foi encontrado.
Texto da Wikipedia.
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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

DE TODOS OS PICARETAS

Artigo de Fernando Gabeira publicado no O Estado de S. Paulo
O intenso fim de semana na política foi um dos temas do twitter. Dois candidatos da oposição uniram forças e foram muito comentados, perdendo apenas para temas como um quadro do Programa Raul Gil (SBT). As eleições presidenciais estão chegando e cada um, de acordo com suas limitações de tempo e restrições profissionais, tem a missão de fazer alguma coisa.
Individualmente, tentei fazer o PV e Marina Silva se entenderem e o partido ser o plano B caso a Rede não conseguisse registro no TSE, o que considerava altamente provável. Achava que o campo grosseiramente definido como socioambiental precisava apresentar-se como alternativa. Ele ainda é muito fraco. Dependia de uma união interna para disputar a simpatia do conjunto da oposição. Nos meus cálculos, o campo precisaria também rever alguns de seus dogmas para sair do gueto ecológico. Um é o de se fixar só na defesa de um Código Florestal abstrato, lutando contra ruralistas, que defendem outra abstração.
Minha proposta, em primeiro lugar, é introduzir o elemento científico para definir quanto de uma área deve ser preservado e quantos metros da margem de um rio serão resguardados para protegê-lo. No caso específico dos rios, considerava que a discussão em Brasília era muito limitada e deveria contar com os comitês de bacia, que conhecem o tema e trabalham diariamente com ele. Isso no caso de comitês de bacia que trabalham e venceram a etapa do faz de conta.
O mais importante para fortalecer o campo socioambiental seria reconhecer a importância da alimentação num planeta que brevemente chegará aos 9 bilhões de habitantes. Posso discorrer muito tempo sobre a importância política desse tema, mas a Primavera Árabe e revoltas em países africanos revelam como ele pode desestabilizar governos incapazes, momentaneamente, de financiar alimentos a preços acessíveis. Dentro dessa visão planetária, não tem sentido hostilizar o agronegócio, mas sim dialogar com ele e levá-lo, quando possível, a uma convergência com as propostas de sustentabilidade.
No meu caso particular, aprendi muito sobre a realidade agrícola discutindo com ex-ministro Alysson Paulinelli, ou sobre a produção de carne ouvindo o também ex-ministro Pratini de Moraes. Não tenho medo de ser chamado de velho conciliador, desde que acrescentem o adjetivo curioso. Colocar o tema dos alimentos numa projeção ecológica não só aumenta a credibilidade da proposta, como indica pé no chão, contato com a dura realidade cotidiana.
Meus esforços para reaproximar Marina e o PV foram em vão e as razões do fracasso não cabem numa análise política. Talvez num outro suporte, um romance psicológico, conseguisse explicar o que aconteceu. Os dois lados estavam irredutíveis.
Por baixo desse esforço havia outra divergência: a necessidade de um plano B. A realidade tem desmentido minha análise de que o plano B é tão importante quanto uma capa de chuva em Bruxelas. A insistência em não tê-lo significa confiar em certos resultados que podem falhar. Não me parece oportunista um candidato a presidente que tenha planos B. Em caso de vitória, terá de se acostumar com eles.
Com os rumos da oposição já traçados, mais a escolha de reduzir candidaturas, e não ampliar o leque, como pedia minha análise, só me resta agora tentar contribuir de outra maneira, dentro de minhas limitações. Uma forma de contribuir com uma alternativa para o Brasil foi ler 1.200 páginas dos debates da chamada esquerda democrática e produzir uma síntese para a Fundação Astrojildo Pereira, do PPS.
Quando os atores são tão imprevisíveis, é importante concentrar-se no roteiro. Apesar do apelo eleitoral, não basta condenar o PT e conseguir com isso um vínculo de simpatia em escala nacional. É preciso dizer como seria o Brasil pós-PT. De que forma impulsionar o crescimento econômico, como estabelecer políticas institucionais mais respeitosas, como se situar no mundo sem arroubos bolivarianos – há muitas coisas que precisam ser definidas com clareza.
O senso comum nos garante que acompanhando e participando da política podemos transformá-la. Mas o universo político brasileiro move-se com tanta independência e autonomia que parece uma galáxia distante. O balcão de negócios está instalado com toda a franqueza. Deputados vendem emendas, votos e, agora, o próprio mandato aos partidos em competição por bancadas numerosas.
O governo do PT contempla isso tudo com a maior tranquilidade porque acha que, no fundo, a desagregação vai ajudá-lo a permanecer no poder, sua obsessão. Não importa se seu reino se transformou num pântano, o importante é sentar na cadeira presidencial, distribuir cargos, verbas, enfim, o combustível que move essa sórdida engrenagem. Os marqueteiros ensinam o caminho do coração popular. Basta reservar para a propaganda uma boa parte dos recursos.
Espionado freneticamente pelos americanos, salvo pelos médicos cubanos e marchando triunfalmente para o topo da economia mundial, apesar do pessimismo dos próprios economistas, o PT vai construindo sua fantástica narrativa. Tudo pode acontecer num país imprevisível, onde os presidentes nem se preocupam mais em fazer sentido. As respostas desconexas de Dilma são apenas a continuidade hesitante da sólida ignorância de Lula, que sonhava com uma Terra quadrada para atenuar a poluição e com um mundo mais justo onde as mães não nascessem analfabetas. Tudo isso com penteado produzido por um cabeleireiro japonês, que deve prestar também seus serviços à Coreia do Norte, a julgar pelo estilo de Kim Jong-un.
Parece ironia, mas se a oposição deixar também de fazer sentido, seja por uma tardia descoberta dos encantos da literatura ou pela recusa a analisar friamente os problemas nacionais, aí, então, estaremos perdidos. Só nos restará escolher entre o bom humor dos comediantes e o mau humor dos manifestantes, mas até neste caso um tipo de síntese conciliatória é desejável. Um bom exercício seria completar a frase: Brasil, um país de todos…
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O SUMIÇO DOS APARELHOS MÉDICOS

Por Aguirre Talento, de Fortaleza, Folha de S. Paulo
Uma auditoria do Ministério da Saúde apontou o sumiço de aparelhos médicos comprados pelo governo do Ceará para equipar um hospital em Sobral, no interior do Estado.
A unidade ficou conhecida por ter sido inaugurada em janeiro com um show de Ivete Sangalo, pelo qual o governador Cid Gomes (Pros) pagou R$ 650 mil. Menos de um mês após a inauguração, uma estrutura da fachada desabou e feriu uma pessoa.
Em vistoria feita em maio, técnicos do ministério não localizaram equipamentos orçados em R$ 819 mil, bancados com recursos federais. O relatório da auditoria pede a devolução do valor à União.
A Secretaria da Saúde do Ceará e a administração do HRN (Hospital Regional Norte, nome oficial da unidade) negam problemas e dizem que todos os equipamentos estão no hospital.
Os técnicos não localizaram 13 ventiladores pulmonares, dois aparelhos móveis de raio-X, um aparelho de anestesia e um foco cirúrgico (equipamento auxiliar para cirurgias). O relatório afirma que "os equipamentos adquiridos e identificados, em sua maioria, encontram-se sem uso" e aponta casos de aparelhos já quebrados.
A auditoria foi solicitada pelo Ministério Público Federal, que estuda entrar com ação de improbidade administrativa contra a gestão. "É grave a inauguração de um hospital sem condições de funcionamento", disse o procurador Oscar Costa Filho.
"Oficialmente esses equipamentos foram adquiridos e pagos, mas não foram localizados. De R$ 25 milhões em recursos federais aplicados no hospital [para compra de equipamentos], quase R$ 1 milhão sumiu", afirmou.
No caso dos 13 ventiladores pulmonares, os auditores inicialmente não encontraram comprovação do recebimento dos equipamentos.
Eles então questionaram o hospital a respeito, que informou que os aparelhos estavam encaixotados -apresentou 12 caixas com a parte central dos ventiladores e apenas dez com suportes. "O total de caixas apresentadas não corresponde à quantidade não localizada", diz o relatório.
Em outro momento, os técnicos relatam que não encontraram um foco cirúrgico e um aparelho de anestesia. O governo respondeu dizendo os setores do hospital em que os aparelhos estavam, mas os auditores avaliaram que a justificativa não comprovava a localização do material.
No caso dos aparelhos de raio-X, houve divergência nos registros. A auditoria não localizou dois aparelhos com o número de série que constava na nota fiscal.
O governo diz que os termos de recebimento desses equipamentos não registraram os dados iguais aos das notas fiscais de compra.
O hospital funciona com cerca de 60% da capacidade. A ala obstetrícia deve ser inaugurada no fim do mês.
OUTRO LADO
A administração do Hospital Regional Norte negou que aparelhos tenham sumido. O diretor do instituto que administra o hospital, Henrique Javi, afirmou que o local tem 60 mil m² e que os equipamentos ficam guardados em diversas salas. Ainda disse que parte dos aparelhos estava em caixas, pois o hospital estava em implantação.
"Ela [auditora] se apresentou como do ministério, foi fazendo perguntas e não esclareceu nada durante a visita. Fotografou algumas coisas, não diz que faltou e emite o relatório", disse Javi.
Segundo ele, há equipamentos sem uso, pois a unidade não opera plenamente. A Secretaria da Saúde do Ceará informou que duas novas áreas começarão a funcionar até o final deste mês.
O Ministério da Saúde afirmou que os auditores foram a todos os lugares onde um responsável técnico do hospital disse haver aparelhos. O pedido de ressarcimento, em análise pelo Fundo Nacional de Saúde, pode ser suspenso caso se comprove que os equipamentos estão lá.
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GRAVATA 'MARINEIRA'

Por Mônica Reolom, do O Estado de S. Paulo
Bem-humorado, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) afirmou em evento sobre mobilidade urbana na manhã desta quinta-feira, 10, que vestia uma gravata em homenagem a Marina Silva, recém-filiada ao PSB e possível candidata a vice-presidência na chapa liderada por Eduardo Campos. "Estou com uma gravata ‘marineira'”, disse.
Apesar de elogiar Marina, o governador foi ao evento desta manhã de carro, e não de transporte público - na quarta-feira, ele havia dito que usaria metrô ou ônibus para compromissos externos. Dias antes, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), disse que iria de ônibus "sempre que possível" da sua casa, na zona sul, para a Prefeitura, no centro. Marina Silva é ambientalista e defensora da utilização do transporte público.
Alckmin afirmou que a adesão de Marina ao PSB é de "extrema importância" para a política brasileira. "Pela sua participação no processo político eleitoral, (a filiação) eleva e fortalece a democracia", disse. O governador estava inspirado e ainda parafraseou o ex-governador de São Paulo Franco Montoro: "A pior política é a omissão". E ainda arriscou alguns versos: "Não basta viver, nós temos que conviver e participar".
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OUTROS TEMPOS

Nos últimos anos, o exagero numa disputa política bipolar, em que cada lado se considera o bem absoluto na luta contra o mal absoluto, contaminou toda a sociedade brasileira e gerou um ambiente de discórdia no qual a mais simples divergência é julgada e condenada como uma grave traição. O debate político tornou-se estéril, pois todos gritam e ninguém escuta.
Qualquer atitude, decisão ou proposta é imediatamente vista como uma reação emocional, de ataque e defesa. Se alguém tem um projeto, uma ideia, um questionamento, é porque está atacando um dos lados, "rompeu" com o outro, está se vingando.
É grave quando essa bipolaridade penetra em serviços e procedimentos que deveriam ser públicos e isentos e os fazem sucumbir ao antigo preceito antirrepublicano: aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei. Dessa forma, o regime democrático é enfraquecido por dentro.
Mas, como diz o poeta, "amanhã há de ser outro dia". Podemos recuperar a política como atividade idealista, meio de realizar utopias, ambiente de disputas leais na busca de novos consensos capazes de unir (sem ter que fundir) os ideais da nação.
É necessário que cada um, principalmente as forças que se forjaram na bipolaridade, busque um realinhamento interno e uma revisão de seus princípios. Vale o que foi dito, nos últimos dias, por uma importante liderança do PT, o governador Tarso Genro: a disputa não é em torno do passado, mas voltada para o futuro.
É necessário, também, compreender que lutar pela democracia sob uma ditadura é bem diferente de defender a democracia na democracia. Pensemos em pessoas com histórico de luta pela democracia, como a presidente Dilma. Não seria ofensivo pedir-lhe que proceda de modo democrático? A democracia, nesse caso, é pressuposto básico, não temos que agir temendo que ela nos seja negada.
Da mesma forma, talvez seja inútil esperar atitude democrática de quem depende do autoritarismo e das decisões autocráticas, pois só nesse ambiente pode prosperar sua política ou seus negócios. Porém, mesmo a estes deve-se dar o benefício da dúvida e a margem para uma mudança que é sempre possível pois, como temos visto tantas vezes, o tempo e a vida são bons professores.
De todo modo, o Brasil fez nas ruas e faz todos os dias um apelo que precisa ser escutado: recolher as armas. O tempo mudou. De nada adianta soltar os cachorros, comer o fígado e outras expressões de uma política feita com ódio. Quanto a beijar e abraçar, é bom quando é sincero.
Houve um tempo em que vivíamos insultados sob a ditadura. É hora de nos sentirmos respeitados em nossa democracia.
Artigo de Marina Silva publicado na Folha de S. Paulo. Ex-senadora, foi ministra do Meio Ambiente no governo Lula e candidata ao Planalto em 2010. Escreve às sextas na versão impressa da Página A2.
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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

VALOR À CULTURA

A participação brasileira na cerimônia de abertura da Feira do Livro de Frankfurt, na noite desta terça-feira (8), foi marcada pelo discurso do vice-presidente do Brasil, Michel Temer, dos escritores Ana Maria Machado e Luiz Ruffato, e pela inauguração do Pavilhão Brasileiro, feita pela ministra da Cultura, Marta Suplicy.
Convidado de honra em 2013, o país também foi destaque na fala dos oradores alemães, entre eles o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Guido Westerwelle, que ressaltou a parceria Brasil-Alemanha em termos econômicos e quanto a valores comuns – democráticos, de direitos humanos e culturais.
"A presença de tantos autores brasileiros aqui na cerimônia de abertura é uma prova do valor dado à cultura pelos brasileiros. E a cultura nos une", disse.
O escritor Luiz Ruffato foi bastante aplaudido ao falar na literatura como transformadora de histórias, sobretudo como meio para a transformação social. Em seguida, Ana Maria Machado, presidente da Academia Brasileira de Letras, fez um convite para que conheçam o Brasil que escreve e se escreve. Encerrando a cerimônia, Michel Temer lembrou sua infância, quando teve contato pela primeira vez com os livros, e agradeceu a Alemanha pelo convite.
A chegada do público ao Pavilhão Brasileiro foi impactante. O espaço de 2.500 m², com paredes feitas em papel acartonado corrugado, é uma grande exposição artística.
Apresenta toda a diversidade sociocultural do país, por meio de uma amostragem de momentos relevantes  nas artes plásticas e visuais, no design e na arquitetura, na música, no pensamento intelectual, na criação popular. Uma amálgama cultural que expõe suas relações com a construção da riqueza literária e da forma de ser do brasileiro.
"Esta feira acolhe pessoas muito especiais: os mais conceituados escritores do planeta, assim como os novos talentos da literatura mundial. Esta imagem de dedicação à arte me remete a Lima Barreto, um dos grandes escritores brasileiros. Em um de seus textos mais bonitos, ele diz : ‘A glória das letras só as tem, quem a elas se dá inteiramente; nelas, como no amor, só é amado quem se esquece de si inteiramente e se entrega com fé cega'. Para aqui estar, vocês correspondem à esta entrega. E é com enorme alegria que lhes damos as boas-vindas e apresentamos o nosso país", afirmou a ministra ao dar as boas-vindas ao público.
O Brasil pretende apresentar e reafirmar em seu pavilhão, o brasileiro como alguém que devora as influências externas para recriá-las.
A Feira segue até o dia 13 de outubro com a expectativa de mais de 300 mil visitantes e mais de 10 mil jornalistas de cerca de 100 países. O Brasil participa com programação cultural diversa, em 10 espaços culturais em Frankfurt, além de programação literária com cerca de 70 autores brasileiros.
Mais informações no site Brasil 13 Frankfurt Bookfair
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PESSOAS DE LUTA E PAZ

Editorial da Rede Sustentabilidade
Como todos nós temos acompanhado nos últimos dias, a coligação entre a Rede Sustentabilidade e o Partido Socialista Brasileiro (PSB) causou um grande impacto na política brasileira. Pela primeira vez, as certezas e as verdades que mais uma vez seriam apresentadas à sociedade brasileira em 2014 como inexoráveis e inabaláveis foram fragilizadas.
Nas palavras de Tarso Genro, que mesmo sendo um integrante histórico do PT teve a generosidade e a integridade intelectual para analisar este momento, o gesto de Marina alterou a lógica eleitoral do ano que vem. Disse ele: “Não será mais uma disputa entre a memória do governo Fernando Henrique Cardoso e a memória dos governos Lula e Dilma Rousseff. Será uma disputa sobre o futuro. (…) É uma mudança do padrão da disputa política”.
Não é preciso repisar a injustiça que sofremos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Uma “situação de abuso”, como bem caracterizou o ministro Gilmar Mendes. Mas não nos encolhemos diante do script que nos prepararam.
Hoje somos a Rede: reconhecida pelo stablishment político e pela sociedade brasileira como um partido de fato, embora ainda não de direito. Um partido com postura, valores e identidade a ponto de ser reconhecido pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) como um igual para constituir uma coligação.
Coligação essa que vai exigir de ambos muita firmeza, postura e sincera vontade de mudar e construir um momento de inflexão histórico no país, de estabelecer as bases de uma cultura política realmente democrática e à altura do que a sociedade está, por inúmeros meios, exigindo.
O passo inicial deste momento foi dado no calor da hora e causou entre nós desconfortos, inconformismos e críticas que precisamos acolher e debater. Mas é preciso entender, de início, as circunstâncias que nos levaram a tomar decisões em curtíssimo espaço de tempo, ouvindo quem era possível ouvir e não submetendo-as a um amplo e demorado processo interno.
É preciso entender, também, a armadilha política a que o julgamento do TSE nos levou. O que fazer? Teríamos a escolha de permanecermos isolados e enfrentar, sem meios para isso (já que não teríamos a infraestrutura de partido) a dura tarefa de disputar espaço em 2014 com as grandes máquinas partidárias, para atingir a sociedade e sensibilizá-la para os temas de uma profunda mudança política no país.
Dadas as circunstâncias, teríamos também a escolha de nos filiarmos a um partido com o objetivo de viabilizar a candidatura presidencial de Marina Silva. Mas é preciso reiterar que nosso o objetivo central nunca foi uma candidatura em si, embora ela pudesse catalisar apoios em torno de nossos valores e temas.
E a terceira possibilidade, que seria tensionar fortemente o sistema político por meio de uma aliança com força suficiente para disputar o future. E, assim, contribuir de maneira decisiva para desfazer o nó cego da política brasileira, configurado pela polarização entre PT e PSDB e todos os malefícios que ela traz, em termos de manipulação e degradação do ambiente político por meio de alianças fisiológicas, à custa do desmonte do Estado.
Fizemos uma escolha e agora é o tempo de bancá-la. Dentro da coligação, nosso papel é o de não transigir com os valores centrais do ideário e do programa da Rede para o país, e o de criarmos condições de fazê-los avançar, em conjunto com o PSB. Marina e outros membros da Rede não se filiaram como militantes do PSB, mas aceitaram esta filiação democrática e transitória como um abrigo contra a injustiça cometida no TSE.
Vamos debater intensivamente o que significará mantermos a integridade desse papel. Vamos, juntos, assumir os riscos e construir os bons resultados. Temos que continuar as tarefas de nossa organização e das bases de nosso consenso interno. Vamos continuar responsavelmente no caminho que prometemos ao país trilhar. Ele está inteiro à nossa frente. Só começamos e é preciso admitir que começamos dando uma demonstração de força ao reposicionar a discussão política no Brasil e tirá-la da inércia dos jogos de poder eleitoreiros de cartas marcadas.
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PUXADORES DE VOTOS

A correria nos cartórios eleitorais foi grande no início deste mês de outubro, o motivo é o prazo para troca e filiação partidária estabelecido pela Justiça Eleitoral que é até 5 de outubro para quem pretende disputar um cargo nas eleições de 2014.
Os partidos políticos travaram uma verdadeira operação de guerra para tentar atrair para seus partidos o maior número de famosos, celebridades, atletas, empresários e figurões da política para formar o grupo dos chamados “puxadores de votos”.  
A qualidade do filiado não importa, o que interessa aos partidos é se o correligionário é bom de voto. Quanto mais voto o partido conseguir no pleito eleitoral, maior será o fundo partidário.
O treinador e ex-jogador de vôlei da seleção brasileira Giovane Gávio filiou-se ao PSDB de Minas Gerais no dia 11 de setembro. Ele foi recebido pelo presidente nacional do partido, Aécio Neves.
A senadora Kátia Abreu (TO) se filiou ao PMDB, principal sigla da base aliada do governo Dilma. Uma das principais integrantes da bancada ruralista, ela deixa o PSD, partido fundado pelo ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab.
A ex-BBB Laisa se filiou ao PP do Rio Grande do Sul e deve tentar uma vaga na Câmara dos Deputados.
A drag queen Léo Áquila se filiou ao PSL para participar de sua terceira eleição. Em 2006 e 2010, Áquila não conseguiu se eleger deputado estadual em São Paulo.
José Roberto Arruda, ex-governador do Distrito Federal que chegou a ficar preso em 2010 acusado de participação no mensalão do DEM, se filou ao PR, a convite do deputado federal Valdemar Costa Neto, Arruda estava sem partido. Se não for barrado na lei da Ficha Limpa, Arruda deve disputar o governo do DF.
Técnico da seleção brasileira de vôlei, Bernardinho está filiado no PSDB e foi convidado pelo partido a disputar o governo do Rio de Janeiro.
O ex-senador Luís Estêvão, cassado em 2000 por ter participado de um esquema de desvio de recursos do TRT (Tribunal Regional do Trabalho), se filiou ao PRTB e convenceu o ex-governador do Distrito Federal Joaquim Roriz a também ingressar na sigla.
O ex-senador piauiense Heráclito Fortes, ex-DEM, ingressou no PSB de Eduardo Campos.
Joaquim Roriz, ex-governador do Distrito Federal, se filiou ao PRTB, do ex-senador Luís Estêvão. Em 2010, quando disputava o governo do DF, Roriz foi enquadrado na lei da Ficha Limpa.
O cantor sertanejo José Rico (à dir.), da dupla Milionário e José Rico, se filiou ao PMDB de Goiás.
O PR de Anthony Garotinho filiou o sambista Neguinho da Beija-Flor, que deverá candidatar-se a deputado federal pelo Rio de Janeiro.
O PRB de Celso Russomanno trouxe o ex-BBB Kléber Bambam, que deve tentar uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo.
O PSC de Marco Feliciano filiou o apresentador e cirurgião plástico Dr. Rey, que promete se candidatar a deputado federal. Entendi.
O cantor Belo se filiou ao PTB e deve disputar uma vaga na Câmara dos Deputados.
O PSB filiou o astronauta Marcos Pontes, mas ele disse que não pensa, por ora, em se candidatar.
O cantor Agnaldo Timóteo transferiu seu domicílio eleitoral de São Paulo para o Rio – mais uma vez – para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. Ele deve se candidatar pelo PR.
O ex-presidente Lula e o vice-presidente Michel Temer participam de ato para celebrar a filiação de Josué Gomes da Silva (à direita), filho do ex-vice-presidente José Alencar, ao PMDB. Josué pode compor chapa com o PT em Minas Gerais nas eleições de 2014, em que o atual ministro Fernando Pimentel deve sair como candidato a governador.
O jogador de vôlei Giba oficializou no dia 28 de setembro a filiação ao partido PSDB. Ele aderiu à legenda em evento realizado em Curitiba, ao lado de lideranças tucanas como o senador Aécio Neves e de Beto Richa, governador do Paraná. No evento, o jogador de 36 anos disse que não tem intenção de disputar nenhum cargo nas eleições do próximo ano. Segundo Giba, a filiação ao PSDB é uma forma de ganhar campo para brigar por projetos ligados ao esporte.
O ex-secretário da Segurança Pública de São Paulo Antonio Ferreira Pinto se filiou nesta terça-feira (1º) ao PMDB paulista.A ideia do partido é que ele seja candidato à Câmara dos Deputados. O partido considera o ex-secretário útil para participar do debate sobre segurança pública, tema sensível a Alckmin que deve ser central na campanha.
A ministra do STJ Eliana Calmon é desejada por PPS, PSB e PSDB. Por ser juíza, ela pode escolher um partido para se filiar até seis meses antes das eleições de 2014.
O PR filiou o empresário do setor sucroalcooleiro Maurilio Biagi Filho. Ele é cotado para ser vice do ministro Alexandre Padilha, que deve disputar o governo de São Paulo pelo PT.
O deputado federal Miro Teixeira (RJ, à esq.) trocou o PDT pelo Pros, sigla pela qual deverá disputar o governo do Rio de Janeiro. Ele pretendia se filiar à Rede de Marina Silva, que não obteve registro na Justiça Eleitoral.
A socialite Narcisa Tamborindeguy se filiou ao PSDB do Rio de Janeiro. A um dia do prazo final para a filiação a tempo de disputar as eleições de 2014, Narcisa se confundiu e acabou se filiando ao PSD. Meia hora depois, percebeu o erro, pediu desfiliação do partido de Kassab e ingressou na sigla tucana.
O biólogo Richard Rasmussen, que participa de um programa no SBT, se filiou ao PV e transferiu seu domicílio eleitoral para a cidade paraibana de Cabedelo.
A ex-primeira dama Rosane Collor se filiou ao PEN de Alagoas e deve se candidatar a deputada federal.
A cantora Sula Miranda se filiou ao PRB, onde deve se candidatar à deputada federal por São Paulo. O PRB composto de 85% de protestantes da Igreja Universal do Reino de Deus, por isso o partido é conhecido como o partido da Universal.
Conteúdo do UOL
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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

COISAS DE FAMÍLIA

Por Lauro Jardim, da coluna Radar Online
Dilma Rousseff havia acabado de deixar a Câmara, depois de receber a medalha Assembleia Nacional Constituinte (Leia mais em: Dilma eJoaquim), e não viu um de seus correligionários tentar roubar a cena.
José Guimarães subiu ao platô para representar seu irmão José Genoino, um dos homenageados, ao lado do notório conselheiro do CNMP Luiz Moreira (Leia mais em: Carteira da OAB sem prova e De volta).
Ao receber a medalha das mãos de Henrique Eduardo Alves, Guimarães bradou, sem a menor cerimônia:
- José Genoino dignifica a democracia e o parlamento brasileiro.
Para quem tinha um assessor parlamentar que costumava costuma andar por aí com vultuosas quantias de dólares guardadas na cueca, não surpreende a manifestação de orgulho ao irmão mensaleiro.
A propósito, Guimarães fez beicinho e cara feia quando esteve diante de Joaquim Barbosa durante a cerimônia.
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VALOR BIOGRÁFICO

Benjamin Moser, especial para a Folha de S. Paulo
Caro Caetano,
Nos EUA, quando eu era menino, havia uma campanha para prevenir acidentes na estrada. O slogan rezava: "Amigos não deixam amigos bêbados dirigir". Lembrei disso ao ler suas declarações e as de Paula Lavigne sobre biografias no Brasil. Fiquei tão chocado que me sinto obrigado a lhe dizer: amigo, pelo amor de Deus, não dirija.
Nós nos conhecemos há muitos anos, desde que ajudei a editar seu "Verdade Tropical" nos EUA. Depois, você foi maravilhoso quando lancei no Brasil a minha biografia de Clarice Lispector, escrevendo artigos e ajudando com o alcance que só você possui. Admiro você, de todo o meu coração.
E é como amigo e também biógrafo que te escrevo hoje. Sei que você sabe da importância de biografias para a divulgação de obras e a preservação da memória; e sei que você sabe quão onerosos são os obstáculos à difusão da cultura brasileira dentro do próprio Brasil, sem falar do exterior.
Fico constrangido em dizer que achei as declarações suas e da Paula, exigindo censura prévia de biografias, escandalosas, indignas de uma pessoa que tanto tem dado para a cultura do Brasil. Para o bem dessa mesma cultura, preciso dizer por quê.
Primeiro, achei esquisitíssimo músicos dizerem que biógrafos querem ficar com "fortunas". Caetano, como dizem no Brasil: fala sério. Ofereço o meu exemplo. A biografia de Clarice ficou nas listas de mais vendidos em todo o Brasil.
Mas, para chegar lá, o que foi preciso? Andei por cinco anos pela Ucrânia, pela Europa, pelos EUA, pesquisando nos arquivos e fazendo 257 entrevistas. Comprei centenas de livros. Visitei o Brasil 12 vezes.
Fiquei contente com as vendas, mas você acha que fiquei rico, depois de cinco anos de tais despesas? Faça o cálculo. A única coisa que ganhei foi a satisfação de ver o meu trabalho ajudar a pôr Clarice Lispector no lugar que merece.
Tive várias vantagens desde o início. Tive o apoio da família da Clarice. Publico em língua inglesa, em outro país. Tenho a sorte de ter dinheiro próprio. Imagine quantos escritores no Brasil reúnem essas condições: ninguém.
Mas a minha maior vantagem foi simplesmente ignorância.
Não fazia ideia das condições em que trabalham escritores e jornalistas brasileiros. Não sabia quanto não se pode dizer, num clima de medo que lembra a época de Machado de Assis, em que nada podia ofender a "Corte".
Aprendi, por exemplo, que era considerado "corajoso" escrever uma coisa que todo mundo no Brasil sabe há quase um século, que Mário de Andrade era gay. Aprendi que era até inusitado chamar uma cadeira de Sergio Bernardes de feia.
Aprendi o quanto ganham escritores, jornalistas e editores no Brasil, e quanto os seus empregos são inseguros, e como são amedrontados por ações jurídicas, como essas com que a Paula, tão bregamente, anda ameaçando.
É um tipo de censura que você talvez não reconheça por não ser a de sua época. Não obriga artistas a deixarem o país, não manda policiais aos teatros para bater nos atores. Mas que é censura, é. E muito mais eficaz do que a que existia na ditadura. Naquela época, as obras eram censuradas, mas existiam. Hoje, nem chegam a existir.
Você já parou para pensar em quantas biografias o Brasil não tem? Para só falarmos da área literária, as biografias de Mário de Andrade, de João Guimarães Rosa, de Cecília Meirelles, cadê? Onde é que ficou Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre? Você nunca se perguntou por que nunca foram feitas?
Eu queria fazer. Mas não vou. Porque o clima no Brasil, financeiro e jurídico, torna esses empreendimentos quase impossíveis. Quantos escritores brasileiros estão impedidos de escrever sobre a história do seu país, justamente por atitudes como as suas?
Por isso, também, essas declarações, de que o biógrafo faz isso só por amor ao lucro, ficam tão pouco elegantes na boca de Paula Lavigne. Toda a discussão fica em torno de nossas supostas "fortunas".
Você sabe que no Brasil existem leis contra a difamação; que um biógrafo, quando cita uma obra ainda com "copyright", tem obrigação de pagar para tal uso. Não é diferente de você cantar uma música de Roberto Carlos. Essas proteções já existem, podem ser melhoradas, talvez. Mas estamos falando de uma coisa bem diferente da coisa que você está defendendo.
De qualquer forma, essas obsessões com "fortunas" alheias fazem parte do Brasil do qual eu menos gosto. Une a tradicional inveja do vizinho com a moderna ênfase em dinheiro que transformou um livro, um disco, uma pintura em "produto cultural".
Não é questão de dinheiro, Caetano. A questão é: que tipo de país você quer deixar para os seus filhos? Minha biografia foi elogiosa, porque acredito na grandeza de Clarice. Mas liberdade de expressão não existe para proteger elogios. Disso, todo mundo gosta. A diferença entre o jornalismo e a propaganda é que o jornalismo é crítico. Não existe só para difundir as opiniões dos mais poderosos. E essa liberdade ou é absoluta, ou não existe.
Imagino, e compreendo, que você pense que está defendendo o direito dos artistas à vida privada. Mas quem vai julgar quem é artista, o que é vida privada e o que é vida pública, sobre quem, e sobre o que se pode escrever e sobre quem e, sobre quem não? Você escreve em jornal, você, como o artista deve fazer, tem se metido no debate público. José Sarney, imortal da Academia Brasileira das Letras, escreve romances. Deve ser interditada também qualquer obra crítica sobre ele, sem autorização prévia?
Não pense, Caetano, que o seu passado de censurado e de exilado o proteja de você se converter em outra coisa. Lembre que o Sarney, quando foi eleito governador do Maranhão, chegou numa onda de aprovação da esquerda. Glauber Rocha, também amigo seu, foi lá filmar aquela nova aurora.
Não seja um velho coronel, Caetano. Volte para o lado do bem. Um abraçaço do seu amigo,
Benjamin Moser.
Benjamin Moser é autor de Clarice (Cosac Naify)
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terça-feira, 8 de outubro de 2013

POLÍTICA NA VEIA

Por Dora Kramer, colunista do O Estado de S. Paulo
A narrativa da tentativa de criar um partido a tempo de concorrer por ele à eleição de 2014 não foi das melhores, mas o desfecho ante a adversidade da recusa do registro da Rede foi um lance político admirável, como há muito não se via.
Inesperado, surpreendente, competente, pragmático no melhor sentido da palavra e feito em termos decentes, o acordo entre a ex-senadora Marina Silva e o governador Eduardo Campos dá um sacode geral nos preparativos para a campanha presidencial.
É cedo para dizer se de fato muda o cenário da eleição, mas sem dúvida alguma altera o quadro de acordos e a correlação de forças nesse período pré-eleitoral. Um movimento taticamente irrepreensível mais não seja por ter subvertido o previsível.
As maneiras adotadas devolvem um pouco de altivez à atividade política por pautadas em estratégia, identificação de propósitos e definição de um objetivo claro: derrotar os atuais condôminos do poder. Muito mais legítimo que o festival de chantagens e barganhas que tem conduzido conversas entre partidos. Nesse sentido, o acordo fechado na sexta-feira à noite é um ponto fora da curva no padrão lamacento em vigor.
Mostrou que Marina não se põe acima do bem e do mal como muitas de suas atitudes ao molde de maria santíssima levam a crer. Venceu a tentação da omissão e foi ao jogo sem abrir mão da coerência. Entendeu que quem tem voto precisa saber conferir materialidade a eles para além do terreno das boas intenções.
A aliança dificulta a vida do PSDB? Sem dúvida, mas esta já não estava fácil mesmo. Tem mais a perder quem dispõe de mais e se imaginava com a vida ganha. O PT, como atesta a entrevista do marqueteiro João Santana à revista Época desta semana, fazendo pouco dos adversários da chefe, Dilma Rousseff.
Segundo ele, a presidente será reeleita no primeiro turno devido a um fenômeno denominado por Santana de "antropofagia de anões". Mais que uma precipitação, a declaração mostra-se ofensiva ao falar em "anões". Na política, o termo evoca aquele grupo que nos anos 90 tomava de assalto a Comissão de Orçamento no Congresso e foi alvo de CPI que ceifou mandatos.
Do ponto de vista das pesquisas, Marina, Campos, Aécio Neves e José Serra podem ser tidos como nanicos em face da dianteira da presidente. Mas sob o aspecto político fazem movimentos na direção do fortalecimento do campo oposicionista.
A permanência de Serra no PSDB impede a fragmentação dos eleitores fiéis ao partido. A aliança entre Marina e Campos confere substância mútua e, portanto, importância, a uma alternativa.
Ela dá a ele potencial de capital eleitoral, a chancela do "novo". Ele agrega estrutura, expectativa de financiamento, passaporte ao Nordeste, densidade no quesito confiança administrativa. Um quê de tradicionalismo às vezes ajuda na compreensão da maioria ainda pouco afeita a modernismos.
Se essa receita vai resultar em êxito, é outra história a ser contada a partir de agora pela capacidade de articulação entre os grupos que se juntam, de conquistar adesões partidárias, de construir um discurso atrativo ao eleitorado, de firmar compromissos nítidos com a sociedade.
Não se pode, entretanto, subestimar a reação do governo. O ex-presidente Lula, tido como o mais esperto entre todos os espertos, levou uma volta de dois ex-aliados. Não vai se conformar nem medir esforços no contra-ataque que, ninguém se iluda, avizinha-se dos mais pesados.
Passe livre. Na conversa de sexta-feira à noite em Brasília, Eduardo Campos assegurou a Marina que o PSB não criará obstáculos à sua desfiliação do partido quando a Rede Sustentabilidade obtiver o registro na Justiça Eleitoral.
Passadas as eleições, bem entendido, porque antes disso a nova legenda não terá condições legais de participar de coligações eleitorais.
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domingo, 6 de outubro de 2013

O PIOR PESADELO DE LULA

Realizou-se o pior pesadelo eleitoral do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Se o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), chegar ao segundo turno, terá chance de reunir toda a oposição e parte das atuais forças governistas contra a presidente Dilma Rousseff (PT).
Para Lula, Campos sempre foi o candidato mais perigoso para Dilma. Por isso, o ex-presidente ter insistido tanto para evitar a saída do PSB do governo federal. Contra sua vontade, Dilma e o PT estimularam o rompimento. Uma vez derramado o leite, Lula recomendou deixar as portas abertas para um recuo de Campos em relação à candidatura ou para um eventual apoio no segundo turno.
Agora, Campos atravessou o Rubicão. A filiação da ex-senadora Marina Silva ao PSB adensa o projeto presidencial do pernambucano, aumentando a sua chance de estar no segundo turno. Mais: ressentida em relação ao PT, atribuindo ao governo uma conspiração para vetar a criação da Rede, a ex-senadora dará a Campos uma tonalidade ainda mais oposicionista. Isso deverá ter reflexos nas alianças estaduais, afastando-o de vez do PT.
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sábado, 5 de outubro de 2013

MARINA DESEMBARCA NO PSB

Fabiano Costa e Felipe Néri, do G1, em Brasília
A ex-senadora do Acre Marina Silva assinou neste sábado (5), em evento no Hotel Nacional, em Brasília, ficha de filiação ao PSB, partido presidido pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos.
Ela afirmou que apoia a candidatura de Campos à Presidência, mas não disse se pode ser vice em uma chapa encabeçada pelo pernambucano. "Estou aqui não para pleitear candidatura, mas para apresentar junto contigo um programa para sociedade brasileira que seja capaz de alinhamento histórico e sepultar de vez a velha República", disse, dirigindo-se a Campos, que estava ao lado de Marina na cerimônia.
Após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitar na última semana o registro do partido que ela fundou, o Rede Sustentabilidade, por falta de comprovação do número de assinaturas de apoio previsto em lei, Marina havia sido convidada por outras legendas, como PPS e PEN. Este sábado era o último dia para que a ex-senadora se filiasse a algum partido - pela legislação eleitoral, quem quer concorrer nas eleições deve estar filiado ao partido um ano antes da eleição.
A aliança política entre Marina e Campos foi costurada entre a noite de sexta e a manhã deste sábado. Ainda durante a noite, Eduardo Campos desembarcou em Brasília para propor a união.
Em entrevista ao G1, um dos principais auxiliares de Marina, Bazileu Margarido, informou que ela se colocou à disposição para ser vice. Eduardo Campos e Marina aparecem nas pesquisas eleitorais como pré-candidatos à Presidência da República nas eleições do ano que vem - segundo o último levantamento do Ibope, Marina estava em segundo lugar com 16% das intenções de voto, enquanto Campos tinha 4%, em quarto lugar.
Apesar das especulações sobre a possibilidade de ela ser candidata a vice, Marina se limitou a anunciar sua filiação ao PSB. A decisão sobre como será a composição da chapa deve ser tomada no ano que vem.
Ao ser perguntado sobre se quer Marina como vice, Eduardo Campos afirmou: "Esse debate ele vai além, muito além da formação de chapa. No tempo certo vamos formar chapa para defender o conteúdo que estamos começando a discutir. [...] Vamos no tempo certo tomar a decisão ao lado de outras forças políticas que podem se somar a esse esforço. Não queremos reduzir debate entre Rede e PSB, queremos debate com a sociedade, e vamos no tempo certo tomar as decisões."
'Primeiro partido clandestino'
Em discurso na cerimônia de filiação, Marina agradeceu ao PSB por fazer aliança com a Rede, apesar de o partido não estar oficialmente criado. Após o TSE barrar o registro, a Rede terá que apresentar mais assinaturas de apoio e ainda poderá ter o registro deferido. Marina e seu grupo poderão migrar para a Rede depois.
"Somos o primeiro partido clandestino criado em plena democracia. Quero agradecer aos companheiros do PSB a chancela política e eleitoral que a Justiça eleitoral não nos deu."
Ela afirmou ainda que continuará "porta-voz" da Rede e que sua filiação ao PSB é "democrática". "Eu continuarei porta-voz da Rede Sustentabilidade. [A filiação ao PSB] É filiação democrática. Não é o mais do mesmo, não é previsivel. É o que surpreendeu. Porque a política não é só previsibilidade."
Marina citou ainda que não pretende fazer "oposição por oposição". "Achavam que já tinham nos abatido, mas estamos aqui para dizer que essa aliança não é para destruir, é para construir. Nosso objetivo não é oposição por oposição, nem situação por situação, é assumir posição."
A ex-senadora acrescentou que não entrou no PSB para participar da eleição. "Isso aqui não é Marina entrando num partido para participar da eleição. É Marina entrando num partido para chancelar o programa da Rede Sustentabilidade e, na discussão democrática, adensar o programa de candidatura que já está posta", disse.
Marina Silva relatou que, quando o TSE barrou o registro da Rede, ela própria pensou no PSB e tomou a iniciativa de procurar Campos. "Pensei 'acho que vou trabalhar plano C'. [..] Pensei 'quem é o plano C? É o Eduardo Campos, é o PSB. E por quê? [...] Primeiro porque é partido histórico, com bandeiras históricas, e no dia da fundação nos mandou carta assinada por seu presidente, antecipando esse momento que talvez só Deus sabia."
Terceira via
Segundo interlocutores, pesou na decisão o desejo comum de Eduardo Campos e Marina de construir uma "terceira via" no cenário político, que fuja da polarização entre PT e PSDB,  consolidada nas últimas eleições presidenciais. Há cerca de duas semanas, Campos anunciou que o PSB deixaria os cargos no governo federal para "ficar à vontade" para "debater" o Brasil.
Ainda pela manhã, Marina se reuniu com o presidente do PPS, Roberto Freire, para comunicar a proposta e tentar compor uma aliança. Freire, no entanto, que havia oferecido o PPS para Marina concorrer ao Planalto, não se comprometeu com o apoio e manifestou posição crítica à aliança.
Programas e partidos
No acordo entre Marina e Eduardo ficou acertada uma "convergência" dos programas partidários de cada partido. Isso inclui incorporar ao PSB propostas já preparadas pelo grupo da ex-senadora, identificada com a defesa do desenvolvimento sustentável. Foi lido no evento um documento sobre os termos da coligação - leia a íntegra no Blog do Camarotti.
Desde que teve negado o registro da Rede para concorrer em 2014, Marina recebeu convite de várias siglas, como o novato PEN e integrantes do PTB, além do próprio PPS. Agora, Marina e Campos devem buscar mais aliados para fortalecer a campanha do ano que vem.
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MORRE MIGUEL COLASUONNO

O ex-prefeito da capital paulista e ex-vereador Miguel Colasuonno morreu na sexta-feira, aos 74 anos, no Instituto do Coração de São Paulo (Incor). As causas da morte não foram divulgadas. O velório ocorreu na manhã deste sábado, no cemitério do Morumbi. O corpo foi enterrado no mesmo local por volta das 16h30.
Formado em economia pela Universidade de São Paulo, Colasuonno foi prefeito biônico da capital durante o período da Ditadura Militar por dois anos, tendo sido nomeado pelo então governador Laudo Natel. Também foi eleito vereador em 1992, ocupou o cargo de presidente da Câmara de Vereadores e foi um dos principais líderes da base de apoio ao prefeito Paulo Maluf (PP) nesse período. Foi reeleito em 1997 e apoiou o governo de Celso Pitta, mas desistiu de concorrer novamente no pleito de 2000.
O economista foi professor e diretor do Instituto de Pesquisas Econômicas (IPE), dirigiu cursos de pós-graduação da Faculdade de Economia e Administração da USP e atuou como diretor da Eletrobrás.
Do portal Terra
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DESENCANTA ULYSSES, O BRASIL PRECISA DE VOCÊ!

Hoje, 05 de Outubro, Quantas pessoas individualmente, teriam o que comemorar, inclusive Eu, mas, acima das comemorações ou lembranças alegres ou tristes desta data, Temos o acontecimento de um fato de interesse coletivo, que sempre deve prevalecer em relação às questões pessoais, por maiores ou melhores que sejam, que deve ser lembrado, não apenas pelo seu significado, suas consequências, mas, sobretudo pela expectativa que foi gerada durante anos, e que anos, do Golpe Militar, da falta dos direitos individuais, das barbáries ocorridas e ainda não colocadas às claras para toda nação, da falta de amparo legal a tantos problemas sociais, da falta da regulação de tantos procedimentos demandados pela população...
Enfim, há 25 anos, foi Promulgada e Batizada como Constituição Cidadã, pelo extraordinário Homem Público, Ulysses Guimarães, que carregou nas costas durante anos o fardo pesado na busca da liberdade e da Democracia, Sendo esquecido um ano depois pela população, quando postulou a Presidência da Republica em eleições livres e Diretas, conseguidas com grande esforço, graças a sua coragem de liderar, durante anos, este desejo nacional, onde obteve uma pequena votação, para elegerem um " caçador de Marajá " , que logo depois foi cassado por razões justas, mas pouco significativas, diante dos grandes escândalos que temos assistido nos últimos tempos.
Este Cidadão, bem como a constituição cidadã, continuam ainda sendo a esperança do povo brasileiro, Ele, que como um mistério, morreu num acidente aéreo no oceano, e seu corpo nunca foi encontrado, deve ter encantado no fundo do mar, talvez até para ser poupado, das decepções que teria se vivo estivesse, dos permanentes desrespeitos à sua obra tão importante, e Ela, a Constituição, que nem conseguiram regulamentar muito dos seus artigos até hoje, encontra-se cheia de emendas, nem sempre em benefício da população, parecendo uma colcha de retalhos.
Pois bem meus amigos, minhas amigas, as expectativas da nação brasileira não diminuíram, ao contrário, aumentaram, exatamente, por conta da falta do cumprimento dos princípios constitucionais, que terminam ferindo diretamente os anseios e necessidades da população, além de frustrarem os fundamentos éticos, morais e democráticos que todos desejamos em todo País.
Salve Ulysses Guimarães! Viva a Constituição Cidadã! A luta continua, Viva ao Povo Brasileiro! Um abraço, Joaquim Cunha.
Via Facebook , Joaquim Cunha, ex-prefeito de Gavião (BA) – Foi Presidente da Associação de Prefeitos da Região nordeste e Vice-Presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB).
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DE VOLTA À CENA POLÍTICA

Por José Fucs, de Fortaleza, da revista Época
Depois de três anos de reclusão, o ex-governador e ex-senador cearense Tasso Jereissati, ex-presidente do PSDB e uma das principais lideranças nacionais do partido, decidiu romper o silêncio. Na semana passada, ele recebeu ÉPOCA no seu escritório em Fortaleza, num edifício comercial junto ao Shopping Iguatemi, de sua propriedade. O empresário de 64 anos falou sobre política e as perspectivas eleitorais de Aécio Neves. Embora tenha afirmado em 2010, depois de perder a reeleição para o Senado, que aquela seria sua última disputa, Jereissati não descartou a possibilidade de atender a um pedido de Aécio e disputar novamente uma vaga no Congresso Nacional no ano que vem.
ÉPOCA – Em 2010, quando perdeu a reeleição para o Senado, o senhor disse que seria sua última disputa. Recentemente, o senador Aécio Neves, pré-candidato do PSDB à Presidência em 2014, afirmou que gostaria de vê-lo como candidato ao Senado ou ao governo do Estado, para puxar votos no Ceará. Sua hibernação política acabou?
Tasso Jeireissati – Com certeza, um pedido do Aécio vale muito. Tenho muita vontade de ajudá-lo e de ver uma grande mudança acontecer no país. Em política – aliás, na vida de forma geral –, aprendi uma coisa: é muito arriscado dizer que dessa água não beberei. Agora, a probabilidade de isso acontecer é muito pequena. Prefiro que surjam novos nomes. Estou convencido de que boa parte dessa geração de políticos está vencida. A política do jeito como é feita hoje no Brasil está vencida. Há um cansaço generalizado com a política tradicional, o desprezo pela opinião pública, a falta de compromisso com as ideias. Hoje, há espaço para gente nova, não necessariamente nova de idade, mas com ideias novas, que não tenha os vícios da política atual e represente uma ruptura com o que se vê por aí. A população não suporta mais o que é feito em termos de gestão pública e política no país. A grande maioria dos políticos, com honrosas exceções, é viciada em politicagem.
ÉPOCA – De certa forma, não foi isso que Lula fez quando indicou Dilma Rousseff, que nunca participara de uma eleição?
Jereissati – Só que ela não usou isso para melhorar sua administração, uma das mais equivocadas que o país já teve. Num primeiro momento, parecia que Dilma faria uma ruptura, ao menos em relação à política tradicional. No primeiro ano de governo, demitiu um ministro corrupto por mês. Só que ela fez uma espécie de carrossel. Demitiu e foi readmitindo todo mundo de volta. Acabou desempenhando o pior dos papéis, porque não tem a habilidade política do Lula. Fazer política com alguém completamente inábil é um desastre.
ÉPOCA – Em que medida Aécio é diferente desses políticos que o senhor critica?
Jereissati – O Aécio tem algumas características importantes para o futuro. Primeiro, é um homem de posições firmes, apesar de sua visão conciliadora. Nisso, ele lembra muito o Tancredo Neves, seu avô. Outra coisa que Aécio tem é indispensável no Brasil de hoje para quem quer ser presidente da República: é um senso de administração pública que dá a pessoas competentes a responsabilidade pela gestão das políticas públicas, arrasadas pelo aparelhamento e pela politicagem. Isso é fundamental para mudar o Brasil.
ÉPOCA – O PSDB não consegue vender bem suas ideias para a população. Nas últimas eleições, evitou até defender a privatização, uma bandeira do partido. O que acontece?
Jereisssati – Fizemos um erro brutal quando, equivocadamente, nos entregamos ao marqueteiro da campanha. O marqueteiro olha as pesquisas e diz: a população é contra a privatização, contra a elite, contra isso, contra aquilo e diz que temos de ser contra também. Deixamos de defender aquilo em que acreditávamos para seguir a orientação pura e simples do marqueteiro, negando nossa própria obra, nossos trunfos. A privatização do Brasil foi um marco na luta contra a corrupção. Fernando Henrique representava essa grande revolução no Brasil, a reforma do Estado. Ficamos com vergonha disso e, infelizmente, não nos demos conta na eleição seguinte. Resultado: acabamos perdendo a classe média. Agora, há um processo inverso. Ao contrário do que aconteceu quando fomos influenciados pela marquetagem, há no PSDB um orgulho do que fizemos no passado. Hoje, há uma repulsa ao que é feito, e as ruas estão aí para mostrar isso. Com certeza, há um fato novo. Se não recuperamos ainda a classe média, o certo é que o PT a perdeu.
ÉPOCA – Como anda sua relação com o ex-governador de São Paulo José Serra?
Jereissati – Em alguns momentos, tivemos divergências pontuais, principalmente quando da primeira candidatura dele à Presidência da República. Em determinado momento, o (Mário) Covas, então governador de São Paulo, me lançou como candidato a presidente. Aí nasceu, naturalmente, uma rivalidade, e o Serra, quando tem um rival, não brinca em serviço. Mas nunca lhe neguei o valor de homem público, a inteligência, a capacidade. Pegue o ministério da Dilma todinho e você não vê ninguém com capacidade e espírito público que cheguem aos pés do Serra.
ÉPOCA – Com o Bolsa Família, o Mais Médicos e o Minha Casa, Minha Vida, não fica difícil para o PSDB apresentar um projeto alternativo com apelo de massa?
Jereisssati – Existe uma percepção de que o Brasil melhorou, e tinha de melhorar. A política do Bolsa Família trouxe ganhos inegáveis. Agora, a população tem também a percepção de que a politicagem e a corrupção nunca foram tão grandes. Existe cada vez mais a consciência de que a corrupção rouba dinheiro não só do cidadão, mas corrói as bases morais do Brasil. O país hoje está mal moralmente.
ÉPOCA – Parece existir uma percepção de que o Brasil melhorou no governo do PT.
Jereisssati – A primeira parte do governo Lula foi boa. Vivemos a fase Palocci (do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci), em que o governo do PT foi surpreendentemente bom. Eu mesmo fiz vários discursos no Senado de apoio ao que acontecia. Com todas as restrições que eu fazia, Lula teve a humildade de ouvir e ser receptivo ao que era correto – e o fez muito bem. Com a crise de 2008, no entanto, houve o convencimento ideológico. Eles acreditaram que o Brasil era uma ilha de prosperidade e que essa prosperidade se devia à intervenção do Estado na Petrobras, no Banco do Brasil... A arrogância passou a compor com a visão ideológica. Houve um erro brutal de política econômica e de políticas públicas que levou o Brasil a perder uma credibilidade construída ao longo de 15 anos. Tudo isso foi por água abaixo em um ano ou dois.
ÉPOCA – A que erro de política econômica o senhor se refere?
Jereissati – Dilma é diferente de Lula. Lula tinha uma arrogância política, mas sabia que não entendia de economia e procurava ouvir. Ele tinha uma adaptabilidade muito grande, e poucos se importavam com as coisas que ele dizia e depois desdizia. Ele mesmo disse ser uma metamorfose ambulante. Dilma não. É mais ideológica, acha que sabe mais que todo mundo. Ela impôs seus pontos de vista em relação ao papel do Estado, ao intervencionismo do governo, à comunidade financeira, à livre-iniciativa, à política internacional. Só que ela não tem noção das consequências que determinados gestos podem trazer. Foi abrindo brechas que criaram feridas enormes num aspecto essencial da economia de mercado: a confiança. Os investidores querem investir onde há segurança de médio e longo prazo. Ela quebrou essa confiança. O primeiro gesto dela foi desafiar os bancos e baixar os juros na marra. Estamos voltando aos juros altos. Depois, vieram o marco regulatório do setor petrolífero, a mudança nas regras do setor energético e a mudança nas regras das concessões. No momento, ela parece ter percebido o estrago que causava na economia. A alta da inflação e as manifestações de junho mostraram que as coisas não iam bem. A maior sinalização veio da vaia no jogo do Brasil, que evidentemente ela não esperava. Ela estava com um excesso de confiança, dava bronca em todo mundo, e aquilo foi um choque para ela.
ÉPOCA – Como o senhor analisa as manifestações recentes?
Jereisssati – Elas passaram uma mensagem clara de repúdio não só ao governo, mas aos políticos e às instituições como um todo. Entendi aquilo como um alerta. Infelizmente, parece que não foi algo bem compreendido pelos políticos, porque, de lá para cá, as coisas não evoluíram muito. Ao contrário, até pioraram. É só ver o que acontece no Congresso, no governo e até na Justiça: deputado preso com mandato preservado pelos parlamentares, ministros demitidos sob acusação de corrupção pela presidente, depois renomeados por ela mesma, e até escândalos num ministério se repetindo. Os partidos viraram legendas de aluguel, hotéis de alta rotatividade. Isso sempre existiu no Brasil, mas hoje se generalizou e se institucionalizou.
ÉPOCA – Nas últimas pesquisas para a eleição de 2014, o ex-governador mineiro Aécio Neves, candidato do PSDB à presidência da República, tem aparecido em terceiro lugar, bem atrás da presidente Dilma e de Marina Silva, do Rede Solidariedade, e à frente apenas do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB. A que o senhor atribui o resultado negativo de Aécio nas pesquisas?
Tasso Jereisssati – Todos os que não foram candidatos à presidência antes aparecem mal nas primeiras pesquisas. O Lula foi candidato em todas as disputas eleitorais depois da redemocratização do país. Só não foi candidato na última eleição, em 2010, porque ele não podia concorrer. Aí, ele saía sempre na frente. A não ser no caso de alguém muito conhecido, como o Sílvio Santos, só quem já foi candidato a presidente e apareceu em cadeia nacional de televisão durante dois meses tem uma posição de destaque nas pesquisas no início da campanha. No momento, quem está aparecendo na ponta é a Dilma e a Marina, que eu gosto e admiro. Mas a Dilma é a presidente da República e a Marina já foi candidata no último pleito. O Aécio, não. O Eduardo Campos, também não. Se você incluir o nome do José Serra na pesquisa, ele vai aparecer na frente. O Ciro (Gomes), também. O (Geraldo) Alckmin, idem. Em 1994, o Fernando Henrique começou lá embaixo, com 3% ou 4%, e acabou ganhando. O Lula saiu na frente, com o Brizola logo atrás, porque eles já haviam participado da eleição anterior e eram nomes nacionais. Então, largar atrás é algo natural e esperado. O nome do Aécio é muito conhecido em Minas. Por isso, ter um governador de Minas ou de São Paulo como candidato é muito importante. Ele já sai de uma base relativamente alta.
ÉPOCA – Apesar de o ex-governador de São Paulo, José Serra, ter decidido permanecer no PSDB, o partido parece atravessar um dos piores momentos de sua história. A impressão é que o PSDB passa por um crise de identidade, talvez a maior da sua história, depois de três eleições perdidas, com disputas internas pelo controle da máquina partidária. O que teria levado o partido a essa situação?
Jereissati – Não vejo assim. O PSDB é o único partido que ainda é representado fortemente por seus ideais, como (Geraldo) Alckmin, em São Paulo, o maior estado do Brasil, que faz um governo genuinamente social democrata. É um político que nasceu e se desenvolveu dentro do PSDB. O (Antonio) Anastasia, em Minas Gerais, a segundo força eleitoral do país, é a mesma coisa. Outro governo importante: Alagoas. É um estado pequeno, mas governado por um peessedebista tradicional, o Teotônio Vilela Filho. O Pará, também, é governado por outro peessedebista tradicional, o Almir Gabriel, que foi fundador do partido quando era senador e sempre foi social democrata. Na essência do PSDB hoje, você não vê essa turma do troca troca. São PSDB originais. O partido tem poder em estados importantes. No Nordeste, especialmente, existe, sim, uma crise. Essa crise é diretamente proporcional à força do PT hoje na região. O PT hoje está se tornando o que a Arena e o PFL foram no passado. Está saindo dos grandes centros e indo para as regiões menos desenvolvidas, mais pobres e que são dependentes – não apenas as autoridades, mas a própria população – do governo federal para sobrevivência. Hoje, a população do interior do Nordeste não sobrevive sem o governo – e isso está se perpetuando, o que é mais grave. No interior dos estados nordestinos, 90% da população vivem de bolsa família, Funrural, aposentadoria e outros benefícios. O que no passado era chamado de coronelismo, clientelismo dos coronéis, que não dava vantagens diretas, mas indiretas, como os cestões básicos de alimentos na época da seca, hoje é um clientelismo no atacado, institucionalizado, que é atribuído a um único chefe, ao Lula. Para mim, ninguém pode negar o que o Bolsa Família, que é até de origem nossa, trouxe vantagem. Mas perpetuar isso é um crime no longo prazo.
ÉPOCA – Sabe-se que o senhor não mantém uma boa relação com o ex-governador de São Paulo, José Serra. O senhor fala de unidade programática no PSDB, mas tem o PSDB do Serra, do Aécio...
Jereissati – É o mesmo PSDB. Isso é muito cobrado do PSDB, mas dos outros partidos, não. O próprio PT não tem lideranças, tem correntes, que são inimigas entre si. O PMDB, então, nem se fala. Tem o PMDB do fulano, do ciclano, do beltrano. Agora, eu gostaria de deixar claro que um dos ministros que mais me ajudaram quando eu era governador do Ceará foi o Serra, que na época estava no ministério do Planejamento. Tive um apoio gigantesco do Serra. Admiro o Serra. É um talento, um homem público como poucos no Brasil. Em alguns momentos nós tivemos divergências pontuais, principalmente quando da primeira candidatura dele à presidência da República. Em determinado momento, o (Mário) Covas, então governador de São Paulo, me lançou como candidato a presidente. Aí nasceu, naturalmente, uma rivalidade, e o Serra, quando tem um rival, não brinca em serviço. Mas nunca lhe neguei o valor de homem público, a inteligência, a capacidade. O Serra sempre foi considerado entre os médicos como um dos melhores ministros da Saúde da história do país. Mais recentemente, ele cometeu o erro de não ter defendido a nossa obra na campanha, de seguir a “marquetagem” e se relançar candidato à presidência em 2010. Agora, a época não é mais dele, como digo em relação a mim mesmo. Agora, chegou a vez de outro. Eu não tenho falado com ele, mas estou muito feliz em ouvir as notícias de que está completamente confirmado que vai continuar no partido. Para mim, isso é uma grande alegria, porque ele é um quadro excepcional.
ÉPOCA – Agora, politicamente o Serra não é um agregador...
Jereissati – Eu acho que o problema do Serra foi apenas a falta de percepção de que os outros no partido têm a vez deles também.
ÉPOCA – O senhor não pensa que, em algum momento, o PSDB perdeu um pouco a identidade em razão da vinculação da imagem do partido com a elite, com o neo liberalismo? Em que momento isso desandou?
Jereissati – O PT teve uma grande infiltração na academia, na área intelectual, e conseguiu demonizar determinados termos e ligar ao PSDB às elites, até hoje. Se o Zé Dirceu (um dos fundadores e ex-presidente do PT) é condenado, é coisa das elites. Se a Rosemary (ex-secretária do escritório da presidência da República em São Paulo) é presa é coisa das elites. Se a amiga do Lula está fazendo clientelismo e politicagem e alguém descobre isso é a elite que é culpada. Acho que a coisa desanda quando o Lula se elege e adota a política do PSDB e ao mesmo tempo em que a exorcizava. As coisas começam a dar certo e a classe média começa a viver muito bem, comprando o segundo ou terceiro carro, casa de campo, essas coisas todas, e vem aquele grande momento do Brasil. Foi a grande oportunidade que tivemos. A partir daí, começamos a ter os grandes erros. O PT conquistou essa classe média e a convenceu que não se vivia tão bem no passado, em função do diabo que o Lula fez do liberalismo e da privatização.
ÉPOCA – O que o PSDB deve fazer para ter um apelo popular, para se transformar numa alternativa efetiva de poder?
Jereissati – Pode parecer um pouco demagógico, mas acho que é falando aquilo que a gente acredita. É muito melhor do que falar daquilo que a gente não tem convicção. Nós racionalizamos demais a política e o PT, principalmente o Lula, tem o grande talento de vender ilusões. Nós não temos esse talento, mas deveríamos ter pelo menos perder o poder de vender sonhos. Só o que temos é aquilo em que acreditamos. Essa é forma de voltar a ocupar o nosso lugar. Nós superestimamos o marketing, em função do sucesso do PT. O PT é um sucesso de marquetagem. Nós não conseguimos, porque estávamos vendendo coisas em que não acreditávamos e não defendendo aquilo em que acreditávamos. E nessa discussão quisemos ser muito racionais, porque é um pouco do nosso estilo. “Nunca antes na história do país”, “estou mudando a geopolítica do mundo”, “vou ensinar o Obama como se salva os bancos”, “vou ensinar a Europa como se retoma o crescimento”. O Brasil começou a acreditar nisso. Agora, com as manifestações e esse movimento todo da classe média, a ficha caiu. Nós não somos isso. Não somos riquíssimos, não temos nível de Europa, não estamos ensinando coisa nenhuma para os Estados Unidos.
ÉPOCA – Qual é a sua visão sobre a Marina?
Jereissati – Espero que a Marina seja candidata. Eu não sou advogado, não entendo muito de Direto, mas não consigo entender como um partido como o Pros, que ninguém sabe de onde saiu, o que defende, para onde vai, o que vai fazer, consegue o registro na Justiça Eleitoral, e o Rede, da Marina, não. Até dá para entender que o Solidariedade, do Paulinho, da Força Sindical, consiga, porque ele tem a máquina dos sindicatos por trás. Mas não consigo entender como um Pros consegue e a Marina, não. A Marina representa uma parte do pensamento do país, o Partido Verde, as bandeiras ecológicas. Tem um grande apoio, até entre os religiosos. O Pros ninguém sabe o suporte social que tem. Para o bem do país, espero que ela seja candidata. É bom que haja alguém como ela, que representa uma parte importante da sociedade, na disputa.
ÉPOCA – Sobre o Eduardo Campos, o que o senhor pensa?
Jereissati - Gosto muito dele. O Eduardo é uma liderança importante, tem seu valor. Está na hora de o Nordeste ter um candidato a presidente. Está na hora de gente nova, dessa nova turma entrar na disputa.
ÉPOCA – Como está encaminhada a questão do vice do Aécio?
Jereissati – Isso ainda não está encaminhado, não. Ainda tem muito chão pela frente. Vai depender muito da situação nos próximos meses. Uma coligação é importante. O DEM é um aliado natural, já no primeiro turno. O PPS era uma aliança natural, mas parece que pode se aliar com o PSB. O Solidariedade, do Paulinho, da Força, também pode se aliar conosco.
ÉPOCA – O senhor acredita que é possível fazer uma frente de oposição no segundo turno, qualquer que seja o nome – Aécio, Marina ou Eduardo?
Jereissati – Acredito que sim. O Eduardo foi maltratado demais pelo PT e pela Dilma para haver qualquer possibilidade de compor com eles no segundo turno. De novo, tudo pode acontecer na política, mas ele tem muito mais identidade conosco. Temos muita coisa em comum. Com Eduardo é muito provável, por causa disso. Com a Marina, é bem possível. Isso se a gente não for para o segundo turno contra ela, se é que ela será mesmo candidata.
ÉPOCA – Nas últimas semanas, a Dilma voltou a crescer nas pesquisas. Será que, em 2014, a oposição vai morrer na praia novamente?
Jereissati – Em política, em eleições, a gente não pode dizer nada com certeza, mas , hoje, acho quase impossível que não haja segundo turno em 2014. Primeiro, porque a economia não é mais a mesma. O nível de confiança não é mais o mesmo. A popularidade da presidente na classe média não é mais a mesma. E o desgaste do governo em função da somatória de escândalos e erros é muito grande. Não acho nem um pouco estranho que ela tenha voltado a crescer nas pesquisas. Se você der a exposição de vinte dias que a Dilma teve nos últimos na televisão para o Aécio ou mesmo para a Marina e para o Eduardo, em circunstâncias inteiramente favoráveis a ela, qualquer um deles vai lá para cima. Bote o Aécio declarando guerra aos Estados Unidos na ONU e defendendo uma política chamada de Mais Médicos, com ampla campanha nacional, expondo-o mais do que todas as empresas que fazem anúncios em televisão juntas, que vai acontecer a mesma coisa. Era até para a Dilma ter subido muito mais do que isso. O Lula no auge, com a economia bombando, foi para o segundo turno com o Alckmin. Agora, a economia está mal, o país está mal, está difícil para todo mundo, para as empresas, para a classe média, para quem vive nas grandes cidades. A economia está estagnada, a inflação, num patamar alto e temos uma presidente que, para dizer o mínimo, não tem o carisma do Lula. Então, a probabilidade de haver segundo turno – e acho que é conosco, com o PSDB – é muito grande.
ÉPOCA – Há alguns dias, o Lula disse que vai se engajar de corpo e alma na campanha. Isso não pode atrapalhar os planos da oposição?
Jereissati – Apesar de ele aparecer bem em todas as pesquisas – e é inegável que ele é muito forte e muito popular, principalmente no Nordeste –, acho que esta disputa por protagonismo do Lula faz mal à Dilma. Quanto mais ele quiser ser protagonista – e o Lula não consegue desgrudar do protagonismo totalmente – pior será para ela.
ÉPOCA – Como senhor avalia a saída dos irmãos Gomes do PSB? Qual o impacto que isso pode ter no PSB e na política local?
Jereissati – No plano nacional, não sei, mas na política local, estadual, terá muito impacto, porque é um exemplo do arrasamento dos partidos, da coroação da política de troca de partidos, de cargos, de vantagens. Cada um que se salve e o último que sair que apague a luz. A meu ver, isso consolida um cenário que se manifestou em caráter nacional, e também aqui. Ao mesmo tempo sela uma aliança da família Gomes com o PT e o governo Dilma e isola o PSDB e PMDB, que era o grande aliado do PT aqui, neste quadro aqui. Isso foi rachado no meio, porque existe um candidato derrotado ao governo do Estado e fica claro que o candidato do PMDB não vai ser o candidato do governo federal.
ÉPOCA – Como a saída dos irmãos Gomes para o Pros afeta o PSDB no Ceará?
Jereissati – Depois de ouvir o que vou dizer agora, você vai falar que eu sou o pior político que conheceu na sua vida. Nos últimos cinco dias, houve uma romaria de deputados, de candidatos a deputado, estaduais e federais, ao meu escritório, para me dizer que estão de saída do PSDB, porque foram convidados por A ou por B. Vieram me comunicar ou para ver se eu tinha possibilidade de compensar essas oportunidades, ficar dono do partido, que é o grande sonho hoje em dia. Todo mundo quer ser dono de partido, que dá direito a minutos de televisão e ao fundo partidário. Não é tão desprezível assim. A minha conclusão é que prefiro começar o partido do zero, porque na verdade eles já não são do partido, não têm nada a ver com o partido. Não estamos no poder para fazer concessões, muito menos financeiras, nem para oferecer cargos. Ninguém vai ser dono do partido também. Então é melhor começar do zero e quem sabe não aparece gente nova por aí. Por coincidência, apareceu um grupo de jovens médicos, dispostos a formar uma nova visão política e a ser candidatos.
ÉPOCA – Hoje, no campo econômico, o governo está voltando atrás em muitas coisas que fez e defendia até pouco tempo atrás. A questão da privatização é o maior exemplo. Ao longo das três últimas eleições, o PSDB foi demonizado pelo PT por defender a privatização. Agora, a Dilma quer implementar um amplo e ambicioso programa de “concessões”, uma palavra que o governo está usando para não falar em privatização. Como o senhor vê essa reviravolta?
Jereisssati – Primeiro, a Dilma insistiu, por razões ideológicas e por orgulho, em negar o que era evidente: a necessidade de investimento privado em infraestrutura, que está completamente estrangulada no país. Ela era a mãe do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento. Agora, cadê o PAC? Ninguém fala mais de PAC, que era centrado nos investimentos estatais. Não tem mais PAC 1, PAC 2, nem prestação de contas do PAC. O PAC era para ser a grande alavanca do crescimento. Só que nós tivemos um crescimento do PIB de 0,9% em 2012 e neste ano vamos ficar um pouco acima de 2% e talvez menos de 2% no ano que vem. Agora, o governo só fala em “concessões”, que na verdade é uma privatização de serviços públicos. E, mesmo nas “concessões”, é um vai e vem danado, porque a Dilma quis fixar a taxa de retorno dos investidores abaixo do que o mercado desejava. Se você determina uma taxa de retorno abaixo do que o investidor tem no mercado, ele não vai investir. É uma falta de conhecimento absoluta do que acontece na vida real. O que desmorona a confiança também é anunciar bilhões e bilhões de investimento que a gente sabe que não existem. Ele vem ao Ceará e anuncia R$ 9 bilhões de investimento. Em Alagoas, anuncia mais R$ 15 bilhões. Em Pernambuco, outros R$ 35bilhões. Esse dinheiro não existe. Isso destrói a confiança. O investidor pensa que, se ela realmente for gastar esses bilhões, a política fiscal vai para o vinagre.
ÉPOCA – A Dilma e o Lula perpetuaram aqueles instrumentos anticíclicos de estimulo à economia, que faziam sentido no auge da crise e depois não tiraram mais...
Jereissati – O (Guido) Mantega (ministro da Fazenda) dia que era uma uma política keynesiana. Mas, em vez de ver aquelas medidas como instrumentos anticíclicos, enxergaram mais como uma política contra o capitalismo, as empresas privadas e o mundo financeiro, como uma comprovação de que a intervenção do Estado na economia era verdade absoluta em política econômica. O resultado é que ela desgraçou todo um processo de confiança no Brasil, que foi construído tão duramente, ao longo das últimas décadas. Nós vamos pagar muito caro, muito tempo, por tudo isso que está aí. Não vai ser da noite para o dia que vamos resolver.
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CONSTITUIÇÃO, 25 ANOS

Cidadã é o adjetivo que, com simplicidade e realismo, define a Constituição promulgada há 25 anos, em 5 de outubro de 1988. Comandada por Ulysses Guimarães, o político que ganhou a alcunha de “tetrapresidente”, a Assembleia Nacional Constituinte, formada por 559 membros (72 senadores e 487 deputados), foi o marco da transição democrática.
Nesse quarto de século, as mudanças de governo ocorreram todas sob normalidade institucional, mesmo quando um presidente foi afastado.
O Brasil de 2013 foi às ruas usando as redes sociais como instrumento de mobilização por mais cidadania, e a liberdade de expressão se consolidou como regra do regime democrático. Esse direito, garantido em cláusula pétrea da Carta - não pode ser alterada nem por emenda -, acabou por se transformar em um dos principais valores para uma convivência harmoniosa no País.
Se a Constituição é cidadã, a Nação ainda é claudicante no quesito cidadania. Poucas iniciativas populares, como a Ficha Limpa, se transformaram em lei. Ao mesmo tempo, a Carta está pronta para enfrentar os desafios digitais que surgiram nos últimos 25 anos.
Promulgada com 250 artigos no texto-base (e mais 97 disposições transitórias), a Constituição teve, ao longo de duas décadas e meia, 48% de seus artigos alterados por emendas. Os três últimos presidentes - FHC, Lula e Dilma - editaram e editam, em média, mais de três medidas provisórias por mês. O polêmico debate das MPs durante a Constituinte assegurou, no sistema presidencialista, excesso de poder ao Executivo e acaba por gerar desarmonia entre os Poderes.
Fruto de uma construção coletiva, a Carta de 1988, ao idealizar o Estado de bem-estar social, serviu de justificativa para a elevação dos impostos. Municípios e Estados receberam mais recursos do bolo tributário, mas a descentralização dos serviços públicos não tira a discussão sobre o pacto federativo da pauta.
O adjetivo dado por Ulysses não dá conta, porém, de toda a polêmica sobre o excesso de detalhes do texto. Ainda assim, esses 25 anos não apagaram o mantra do “Sr. Diretas”, morto em 1992: “Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca.”
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