sábado, 14 de novembro de 2015

RINDO DA NOSSA CARA

Da IstoÉ
No Congresso brasileiro, jamais um personagem denunciado na Justiça e sufocado por provas irrefutáveis durou tanto quanto Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A despeito das abundantes evidências de corrupção contra ele, o presidente da Câmara se mantém no poder. Enquanto transforma o posto numa bastilha inexpugnável, Cunha desfia seu rosário de mentiras como se zombasse da população e dos próprios colegas. O peemedebista mantém indefectível fleuma ao apresentar versões mirabolantes e inverossímeis numa tentativa desesperada de convencer a todos que não faltou com a verdade, quando negou ser dono de contas polpudas na Suíça. A última e mais inacreditável historinha contada pelo presidente da Câmara reza que ele fez, na década de 80, 37 viagens à África para vender carne enlatada. O périplo aconteceu em um período de dois anos, época em que Cunha também teria comercializado arroz e feijão, e incluiu passagens por países que sequer existem mais, como é o caso do Zaire. Teria vindo daí, segundo ele, parte de sua fortuna depositada fora do País.
Óbvio. Trata-se de uma versão que não pára em pé. Como a desculpa que ele invoca de um incrível depósito feito no exterior por um parlamentar já falecido, o ex-deputado do PMDB mineiro Fernando Diniz. Segundo Cunha, foram os repasses do colega morto que ajudaram a rechear suas contas na Suíça. O lobista João Augusto Henriques, preso na Operação Lava Jato, diz que o depósito teria sido ordenado por Felipe Diniz, filho do ex-deputado. O conto da carochinha desmoronou como um castelo de cartas na última semana, depois de Diniz negar tudo em depoimento à Procuradoria-Geral da República. Não foi a primeira, nem a segunda, muito menos a terceira vez que Cunha seria desmoralizado. Em março, Cunha protagonizou cenas teatrais ao ir à CPI da Petrobras, de surpresa, para negar que tivesse contas não declaradas no exterior. De lá para cá, pelo menos sete (leia quadro) versões apresentadas por ele caíram por terra. Foram desmentidas de maneira cabal. Embora Cunha pareça não ligar muito para isso, nada como a teimosia dos fatos, diria o escritor americano, Mark Twain. Como se sabe, a mentira é o pecado que mais leva a cassações por quebra de decoro no Congresso. Por isso, não dá para Cunha brincar por muito tempo de “Catch Me If You Can (Pegue-me se for capaz)” – comédia dramática baseada na vida do falsário Frank Abagnale Jr. Por terem sido pegos na mentira, caíram lá atrás ACM, Jader Barbalho, José Roberto Arruda e Renan Calheiros. Um experiente parlamentar do PMDB resumiu assim o funcionamento da Casa: “No Congresso é assim, você pode matar, mas não pode mentir. Se o parlamentar matar alguém e for perguntado sobre isso em uma CPI e ele disser que matou, não é cassado, pois caberá fazer sua defesa nos tribunais. Agora, se ele mentir e ficar comprovado, aí pode perder o mandato”.
Enquanto ainda ocupa a cadeira mais importante da Câmara, Cunha age como se, no íntimo, produzisse gostosas gargalhadas. Como interpretar de outra maneira, que não de modo jocoso e ultrajante, a iniciativa do parlamentar carioca de registrar um Porsche Cayenne S, ano 2013, avaliado em R$ 429 mil, em nome da empresa Jesus.com? Como não tratar como pilhéria ou afronta ao eleitor a ideia do deputado de usar o e-mail ‘sacocheio@’ para tratar de assuntos relativos a propinas? Em julho, ao ser indagado se não temia ser o próximo alvo da Lava Jato, Cunha ousou zombar até da Polícia Federal: “A porta da minha casa está aberta, podem ir a hora que quiserem. Eu acordo seis horas. De preferência, não cheguem antes para não me acordarem”.
Não é de hoje que o peemedebista tenta fazer troça da cara do povo. Em 1989, Cunha foi alçado à presidência da Telerj, depois de ser o homem do cofre do comitê de campanha de Collor no Rio de Janeiro. Terminou exonerado em razão de um esquema de superfaturamento identificado num contrato da estatal com uma empresa que recebeu aditivo de US$ 92 milhões. Em 2000, quando ocupava presidência da Companhia Estadual de Habitação do Rio, ressurgiu no noticiário policial acusado de assinar contratos sem licitação e favorecer empresas fantasmas. Cinco anos depois, virou uma das estrelas da CPI dos Correios, por conta de sua ligação com o doleiro Lucio Funaro, cujo esquema com corretoras esteve relacionado ao rombo de R$ 309 milhões do fundo de pensão carioca Prece. Funaro era quem bancava o aluguel de um luxuoso flat para Cunha em Brasília. A união rendeu frutos. Em 2007, indicado por Cunha para presidir Furnas, o ex-prefeito Luiz Paulo Conde encalacrou-se num negócio rumoroso. Pouco depois da posse de Conde, Furnas abriu mão da compra de um lote de ações por R$ 6,9 milhões. Oito meses mais tarde adquiriu o mesmo pacote, de outra empresa, por R$ 80 milhões. A empresa contemplada foi a companhia Serra da Carioca II, do Grupo Gallway. Quem dirigia o grupo? Lucio Funaro, operador de Cunha.
Por ora, o peemedebista sobrevive com o apoio de 13 partidos e do próprio PT, com o qual celebrou um acordão mês passado em que a moeda de troca foi postergar a decisão sobre o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Na semana passada, num movimento indecoroso, Cunha articulou a renúncia do deputado federal Wladimir Costa (SD-PA) à vaga no Conselho de Ética, foro em que será julgado em breve, para ceder lugar ao seu aliado de primeiríssima hora, Paulinho da Força (SD-SP). Porém, por mais que suas manobras protelatórias surtam algum efeito imediato, seu destino já está praticamente selado. O que irá salvá-lo do cadafalso este ano é a proximidade com o recesso parlamentar, marcado para 17 de dezembro. Cunha trabalha nos bastidores para adiar o desfecho do processo de cassação para depois de abril de 2016. Deve ser bem sucedido na empreitada. Mas sua saída do cargo já é considerada na Câmara um fato consumado. Cedo ou tarde, ele será apeado do poder, dizem representantes da maioria dos partidos. Para parlamentares ouvidos por ISTOÉ, Cunha agora paga um preço alto por ter achado que poderia prolongar o jogo duplo por meio do qual tentou agradar governo e oposição. “Quem com muitas pedras mexe, uma hora vê uma delas caindo sobre sua cabeça”, disse o líder do PSDB no Senado, Cassio Cunha Lima (PB). “Ele achou que daria conta. Contratou a Kroll nas investigações da CPI da Petrobras, declarou sigilo para os resultados das apurações, nomeou sub-relatores de sua confiança para a Comissão. Pensou que se sustentaria, pois tinha nas mãos um governo frágil e ameaçado, e avançou nas pautas conservadoras para tentar obter apoio popular. Mas agora está ficando cada vez mais insustentável sua situação”, avaliou o deputado Ivan Valente (PSOL-SP).
Na quarta-feira 11, Cunha foi abandonado à própria sorte pelos tucanos. Conforme apurou ISTOÉ, a gota d’água teria sido a entrevista concedida pelo parlamentar ao “Jornal da Globo”, na noite de sexta-feira 6. Após a apresentação do telejornal, os tucanos passaram o fim de semana trocando telefonemas e concluíram que os argumentos de defesa eram extremamente frágeis e incapazes de convencer a opinião pública. Ciente da necessidade de não se associar ao fracasso de Cunha, o presidente da legenda, senador Aécio Neves (MG), determinou então que a bancada na Câmara retirasse publicamente o apoio a ele. Pode ser o começo do fim.
Bookmark and Share

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

TIRO NO PÉ

Integrantes do governo da presidente Dilma Rousseff criticaram, nesta quarta-feira (11), a divulgação de uma cartilha em que o PT ataca o juiz Sérgio Moro e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes, além de condenar, nominalmente, procuradores e delegados envolvidos na Operação Lava Jato.
Entre ministros do governo, o documento foi apontado como "um tiro no pé", uma vez que o desdobramento das investigações depende desses agentes. Petistas ligados ao governo chegam a lembrar que uma ação de busca e apreensão na casa de Luiz Cláudio, filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ocorrera depois de o instituto Lula entrar com uma representação contra um procurador da República.
Coordenador do setorial jurídico do PT, o advogado Marco Aurélio Carvalho reagiu às críticas de integrantes do governo. Questionado sobre o documento, Marco Aurélio afirma que a "militância recebeu com alegria e entusiamo a publicação da cartilha". Segundo ele, essa era a manifestação que os militantes do PT esperavam.
Questionado sobre a reação do governo, ele afirmou que o partido tem que responder ao que chamou de "politização do Judiciário e judicialização da política".
"O partido sempre deu sustentação às demandas do governo. Está na hora de o governo dar sustentação às demandas do partido", disse.
No governo, a avaliação é que a cartilha acende o espírito de corpo na Polícia Federal, no Ministério Público e no Judiciário.
A elaboração do documento nasceu a pedido de Lula, no fim de junho deste ano. Seguindo orientação do ex-presidente, o PT criou um grupo de trabalho encarregado de produzir um documento que servisse de munição aos militantes.
Carlos Henrique Árabe e Monica Valente foram designados para coordenar sua redação. Antes da divulgação, o texto, de 34 páginas, foi submetido ao instituto Lula.
A publicação do documento –repleto de ataques à imprensa– ocorreu um dia depois de o titular de Secretaria de Comunicação de Governo, Edinho Silva, se reunir em São Paulo com o comando das organizações Globo.
Segundo Árabe, o conteúdo do texto foi aprovado pela Executiva Nacional do PT. O documento passará por uma revisão apenas para aprimorar seu acesso via internet. A cartilha está sendo enviada pela presidência do PT a vereadores e deputados estaduais.
Para integrantes do governo, foi um erro confeccionar o documento no momento em que o Judiciário decidirá sobre aplicação de multa ao PT para ressarcimento aos cofres públicos dos recursos que teriam sido desviados na Operação Lava Jato.
O nome de Moro é, por exemplo, citado 19 vezes. "Todos os ex-dirigentes da Petrobras investigados na 'Operação Lava Jato' eram altos funcionários da estatal no governo FHC. Mas, como diz o juiz Sergio Moro, 'isso não vem ao caso'", acusa o texto que será publicado do site do partido.
Gilmar Mendes é mencionado quatro vezes: "As manobras e declarações antipetistas de Mendes, incompatíveis com a imparcialidade e o recato exigidos de um juiz, não são capazes de mudar a realidade: quem escancarou a influência do poder econômico na vida política brasileira foi o governo do PSDB, o mesmo que corrompeu o Congresso para introduzir a reeleição", diz.
O texto acusa ainda a procuradoria de engavetar casos referentes à máfia dos trens em São Paulo. "Se não tivesse sido investigado fora do Brasil, esse caso também seria jogado para debaixo do tapete. Com auxílio do procurador Rodrigo de Grandis, o processo estava engavetado".
A cartilha aborda a relação de Moro com a ministra Rosa Weber. "Moro foi assistente de Rosa Weber na AP 470 ('Mensalão')", diz.
O texto diz ainda que "o juiz Sergio Moro e sua 'equipe' de delegados da PF e procuradores do MPF [Ministério Público Federal] do Paraná fazem de tudo (até mesmo anistiar criminosos confessos) para atingir o PT".
Igor Romário de Paula é acusado de usar as redes sociais durante a campanha eleitoral de 2014 em favor do senador Aécio Neves (MG), candidato do PSDB.
A cartilha condena o procurador do Ministério Público Federal Deltan Dallagnol. Diz que Dallagnol fez uma "pregação" em uma igreja evangélica contra o governo.
A cartilha reserva um capítulo só para os ataques à mídia, incluindo textos de blogueiros contra empresas de comunicação.
Árabe explica que, ao citar os delegados e procuradores, o PT deseja que se afastem do caso.
Ao falar do que chama de "vícios da Lava Jato", o PT cita a "condenação sem provas do companheiro João Vaccari Neto". O petista já foi condenado a 15 anos de prisão e é réu em outros dois processos na Lava Jato, acusado de ter intermediado propina para o partido resultante de contratos na Petrobras.
"No fim da linha está o objetivo de cassar o registro do partido, como ocorreu em 1947 com o antigo PCB", diz o texto da cartilha petista.
Do UOL
Bookmark and Share

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

UM FIM DE SEMANA EM PARIS

O juiz Roger Vinicius Pires de Camargo Oliveira, da 3ª Vara da Fazenda Pública de Curitiba (Paraná), deu 20 dias, a partir de terça-feira (10), para que o governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), justifique a estadia de um fim de semana em Paris, em uma viagem realizada para Rússia, China e França, no mês passado. A comitiva do governador, segundo a Folha de S.Paulo, teria se hospedado em um hotel 5 estrelas da capital francesa, sem uma missão oficial para o período.
Além de conceder uma justificativa formal para a parada de dois dias em Paris, o governador terá que esclarecer uma série de informações: os comprovantes de pagamentos das despesas e os de que membros da comitiva restituíram ao erário, o nome dos membros da comitiva internacional e suas respectivas funções e a agenda de compromissos realizados, entre outras.
Por meio de nota, a Procuradoria Geral do Estado do Paraná afirmou ainda não ter sido notificada da decisão e que vai se manifestar após tomar conhecimento do teor da ação. "De antemão, o governo do Estado reafirma que a agenda da missão comercial na China, Rússia e França foi transparente e pública, podendo ser acompanhada pela página oficial do governo do Estado na internet. Todas as informações que vierem a ser requeridas serão repassadas de imediato a partir da recepção da notificação", diz a nota.
Realizada em outubro, a viagem oficial passou por China, Rússia e França para apresentar o Paraná com o propósito de trazer investimentos estrangeiros ao Estado. Os membros da comitiva viajaram em uma sexta-feira e permaneceram na capital francesa até a segunda-feira pela manhã. Na época, a justificativa foi uma "parada técnica" em razão da necessidade de conexões para chegar à China.
Do UOL
Bookmark and Share

EMPREGADOS FANTASMAS

Um grupo de funcionários da Assembleia Legislativa de São Paulo não comparece ao trabalho, mas continua recebendo salários normalmente.

Somados, os 'funcionários fantasmas' custam mais de R$ 41 mil por mês aos cofres públicos.

A reportagem do SBT visitou os trabalhadores durante o horário do expediente da Assembleia e os registrou em segundos empregos ou em casa.

O presidente da Assembleia Legislativa de SP, Fernando Capez, afirmou que empregados que tomam tais atitudes devem ser demitidos. Reportagem exibida no SBT Brasil.
Bookmark and Share

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

CALENDÁRIO ELEITORAL

A reforma eleitoral promovida neste ano alterou de maneira significativa e profunda o calendário das eleições, inclusive com a redução do tempo de campanha.
Dentre as principais mudanças no Calendário, estão:
Filiação partidária
Quem quiser concorrer no próximo ano, deve se filiar a um partido político até o dia 2 de abril de 2016, ou seja, seis meses antes da data das eleições. Pela regra anterior, para disputar uma eleição, o cidadão precisava estar filiado a um partido político um ano antes do pleito.
Convenções partidárias
As convenções para a escolha dos candidatos pelos partidos e a deliberação sobre coligações devem ocorrer de 20 de julho a 5 de agosto de 2016. O prazo antigo estipulava que as convenções partidárias deveriam acontecer de 10 a 30 de junho do ano da eleição.
Registro de candidatos
Os pedidos de registro de candidatos devem ser apresentados pelos partidos políticos e coligações ao respectivo cartório eleitoral até as 19h do dia 15 de agosto de 2016. Pela regra passada, esse prazo terminava às 19h do dia 5 de julho.
Propaganda eleitoral
A resolução do calendário das eleições de 2016 incorpora, ainda, outras alterações produzidas pela reforma eleitoral, como a redução da campanha eleitoral de 90 para 45 dias, começando em 16 de agosto. O período de propaganda dos candidatos no rádio e na TV também foi diminuído de 45 para 35 dias, tendo início em 26 de agosto, em primeiro turno.
Bookmark and Share

terça-feira, 10 de novembro de 2015

DEBANDADA DA POUPANÇA

O volume de saques da poupança superou o de depósitos em 3,26 bilhões de reais em outubro, segundo dados divulgados nesta sexta-feira pelo Banco Central. Desde janeiro, o total resgatado da aplicação soma de 57,05 bilhões de reais. Nos dois casos, tratam-se dos maiores volumes de retiradas para os períodos desde 1995, quando o BC começou a compilar as informações.
Até 2015, o pior outubro para a caderneta havia sido o de 2000. Naquele ano, o resultado ficou negativo em 1,40 bilhão de reais. O resultado deste ano até agora também é significativo: pela primeira vez desde 2003 se vê um volume de resgates maior do que o de aplicações em todos os meses de um ano de janeiro a outubro.
O mês com o maior volume de retiradas neste ano foi março, com 11,4 bilhões de reais. Esse volume também é o maior para um só mês desde o início da série histórica, segundo as estatísticas do BC.
Com o resultado de outubro, o saldo total da poupança ficou em 644,84 bilhões de reais, já incluindo os rendimentos do período, de 4,06 bilhões de reais. Os depósitos na caderneta somaram 151,32 bilhões de reais em outubro, e as retiradas, 154,59 bilhões de reais.
Em evento sobre educação financeira promovido pelo Banco Central, o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Murilo Portugal, disse nesta quinta-feira que é preciso estimular a poupança, um hábito que não é muito disseminado no país. "Mas isso só tem êxito se as pessoas virem razão concreta para trocar o consumo atual pelo futuro", disse.
Baixa remuneração - A fuga da poupança tem ocorrido, entre outros motivos, porque, com a recessão econômica, sobram menos recursos dos trabalhadores para investimentos. Além disso, com um cenário de juros e dólar altos, outros investimentos tornam-se mais atrativos. A remuneração da poupança é formada por uma taxa fixa de 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR) - esse cálculo vale para quando a taxa básica de juros (Selic) está acima de 8,5% ao ano. A Selic está hoje em 14,25% ao ano.
Por causa da sangria da poupança ocorrida desde o início do ano, o setor imobiliário passou a reclamar de falta de recursos para financiamentos de casas e apartamentos. Para minimizar esse quadro, o BC decidiu, em maio, liberar os bancos para usar 22,5 bilhões de reais dos chamados depósitos compulsórios, recursos da poupança que são obrigados a manter no BC. Com o aval do Banco Central, os recursos podem ser redirecionados para operações de financiamento habitacional e rural.
Via Veja, com Estadão Conteúdo 
Bookmark and Share

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

CEDO DEMAIS PARA ESQUECER

Artigo de Fernando Gabeira
Circulou nas redes sociais um texto atribuído ao milionário Beto Sicupira no qual ele pedia aos empresários que não se discutisse mais a crise, nem se falasse de Dilma e Cunha. É preciso tocar os negócios, Dilma e Cunha não trabalham na empresa. Ouvido pela imprensa, Sucupira não confirmou nem desmentiu seu texto. Escrito por um milionário ou alguém mais pobre, o conselho para ignorar esta camada da realidade lembrou-me o caso dos nativos da Tasmânia, contado por John Gray em seu livro “Cachorros de palha”.
Os nativos da Tasmânia viviam mais simplesmente que os aborígenes da Austrália, dos quais se isolaram com a elevação do nível do mar cerca de 10 mil anos atrás.
Perderam a habilidade de tecer, pescar e fazer fogo. E quando os navios de colonos europeus chegaram, em 1772, incapazes de processar uma imagem para a qual nada os havia preparado, voltaram às suas vidas, como se nada tivesse acontecido.
Eles foram dizimados. Sua pele era vendida, e as mulheres eram obrigadas a carregar a cabeça cortada de seus maridos amarradas em seu pescoço.
“Quando morreu o último macho tasmaniano, a sepultura foi aberta pelo Dr. George Stockell, um membro da Sociedade Real da Tasmânia, que fez uma bolsa para fumo com sua pele”, conta John Gray.
Não corremos riscos tão dramáticos, se optarmos pelo distanciamento. No entanto, corremos risco. Nesse início de crise, o desemprego cresceu, três milhões de famílias foram ejetadas da classe média, e cresce a violência nas cidades.
Numa única semana ficamos sabendo que quatro estrelas do PT movimentaram R$ 300 milhões em suas contas, que o líder proletário sozinho recebeu uma fortuna em suas viagens, nas quais exigia um menu de travesseiros.
Estamos sendo investigados em, pelo menos três países. No Peru, José Dirceu teria comprado autoridades; em Portugal o PT teria levado € 50 milhões em propinas, e no Paraguai realizamos uma obra superfaturada ligada à Usina de Itaipu.
Entregue à máfia político-burocrática, o Brasil não vai apenas ser sugado até o último vintém. O país pode se tornar uma imensa plataforma para assaltos no exterior.
Sobreviveremos como as favelas dominadas pelo tráfico ou pela milícia. Deixaremos de ser conhecidos pelo futebol e o carnaval. A picaretagem será nossa modalidade, na olimpíada universal do crime.
Quem trabalha muito tem pouco tempo para se informar ou protestar. Nesse aspecto, o texto atribuído ao milionário até que faz sentido: é preciso continuar trabalhando, apesar de Dilma e Cunha.
No entanto, vivemos uma situação de emergência. Saquearam o país, arruinaram a Petrobras, vendem medidas provisórias no Planalto, vendem-se jabutis para medidas provisórias na Câmara, venderão, se puderem, a última árvore de nossa floresta, a última gota de nossas nascentes.
Não importa para eles que o país entre em parafuso. Muitos têm contas na Suíça, outros, como um deputado do PT, ganham apartamentos em Miami.
Para as grandes fortunas, esse vendaval é apenas uma brisa. No entanto, é devastador para os todos que vivem, modestamente, de seu trabalho.
Como deixar Dilma de lado, depois de utilizar o dinheiro público como quis, pedalando em nome dos pobres e canalizando o dinheiro para as grandes empresas? Como esquecer o maior escândalo da História e não relacioná-lo à milionária campanha do PT? Como acordar todas as manhãs sabendo que a Câmara é uma piscina cheia de ratos, cujo presidente é um gângster com contas na Suíça?
Assim como as pessoas, os países precisam de vez em quando se olhar no espelho. No momento, o Brasil não consegue fazer esse gesto. Quando há perigo de vida, como nas favelas dominadas por tráfico ou milícia, é prudente seguir trabalhando, conversar o mínimo possível, esperar que a mudança venha de cima.
Francamente, não há grande perigo em resistir à quadrilha política que domina o Brasil. Uma burocrata saiu espetando manifestantes com uma agulha, um professor ameaça levar os reacionários ao paredão e fuzilá-los com uma espingarda. Claro, sempre podem nos chamar de reacionários, vendidos, elite branca, fascistas. Quando criança, a gente simplesmente cruzava os dedos e isolava: tudo o que você falar está me ajudando. Uma agulha pelas costas, uma espingarda velha não são forte elementos de dissuasão. O obstáculo real está nas dúvidas sobre o futuro? O que virá depois? Se aparecer uma simples fresta no horizonte, a multidão passará por ela.
Os nativos da Tasmânia não tinham informações, sequer conseguiam processá-las. Nós sabemos de tudo, consumimos notícias instantâneas. De uma certa maneira, nossa pele está em jogo.
Seria um prazer deixar de pensar em Dilma e Cunha, concentrar no árduo trabalho cotidiano. Não enquanto estiverem lá, dando as cartas. Ainda que falsas, são as cartas do poder.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 08/11/2015 
Bookmark and Share

domingo, 8 de novembro de 2015

MEMÓRIAS DA SALVAÇÃO

Artigo de Fernando Gabeira
Outro dia, escrevendo sobre o comício das diretas em Caruaru, lembrei-me de que no palanque estavam Collor e Lula, entre outros. Naquele momento não poderia prever ainda a importância que ambos teriam no processo democrático. Collor, o caçador de marajás, preparava sua cruzada contra a corrupção. Lula, encarnando a esquerda, falava de ética na política. Ambos os projetos, destinados a combater a corrupção, foram tragados por ela, sem distinção ideológica.
Leio no New York Times que dois políticos do Estado de Albany serão julgados nos próximos dias: Dean Skelos e Sheldon Silver. As acusações soam familiares: enriquecimento ilícito, propinas mascaradas em doações legais, parentes envolvidos. A matéria diz que a cultura da corrupção em Albany será julgada com os dois políticos. Acredito que sim, mas acho difícil suprimir uma cultura apenas com um veredicto.
Albany ainda tem uma pressão corretiva nacional. No caso brasileiro, não se trata apenas da cultura de um Estado da Federação: é de todo um país.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conseguiu administrar a corrupção em seu governo, no sentido de que não evitou os escândalos; mas realizou seus objetivos. Ele próprio, porém, admite um problema sistêmico, a julgar pela sugestão que fez a Dilma e Lula numa viagem à África do Sul. Argumentando com a rejeição popular ao processo político tradicional, propôs uma urgente mudança.
Hoje, confrontados com todo o material que a Operação Lava Jato e outras investigações revelaram, estamos diante de uma situação singular: corrupção alarmante e grave crise econômica.
Diante da inflação e do desemprego crescente, que afetam todos nós, os políticos responsáveis acham que é preciso conversar, buscar uma saída antes que tudo seja engolfado por uma crise social. No entanto, nenhuma conversa, por mais produtiva que seja, pode deixar de lado que a cultura da corrupção está sendo julgada no Brasil. O veredicto final não resolverá o problema, mas certamente será um passo decisivo, tão importante para completar a democracia brasileira como foi aquele momento na década de 1980, quando lutávamos por eleições presidenciais diretas.
Embora a corrupção fosse tema de Collor em 1988 e de Lula em 2002, a revolução nas comunicações, a presença da internet, o avanço dos órgãos investigativos, a cooperação internacional, tudo isso converge agora para fortalecer a transparência. E enfraquecer os salvadores.
Diante da experiência fracassada de Collor e do PT, talvez fosse oportuno refletir sobre a frase de Cioran: a certeza de que não existe salvação é uma forma de salvação, é mesmo a salvação. As pesquisas, todavia, indicam um ângulo favorável aos salvadores. O PT é naturalmente rejeitado pela maioria, mas os opositores também registram altos índices negativos. Uma terceira força, vinda de fora, teoricamente, poderia derrotar a todos.
Na minha opinião, os políticos estão sendo julgados por todos esses anos de democratização, mas também, e sobretudo, por como se comportam no momento em que escândalos e crise econômica se entrelaçam.
Um exemplo da luta contra a cultura da corrupção se dá em torno de um instrumento legal, a delação premiada. É apenas uma lei que reduz penas se a pessoa disser a verdade e reparar seu crime, no caso, devolvendo o dinheiro.
Dilma combateu a delação premiada com uma emoção de esquerda. Lembrou-se dos que delataram os militantes nos anos de chumbo. Suprimiu um pequeno detalhe: que foram torturados para dizer a verdade.
Lula chamou a delação premiada de mentira premiada. Responde com uma piada nervosa diante de tantas evidências de que os depoimentos são verdadeiros. Ignorou que a Lava Jato, com 33 delações premiadas e três acordos de leniência, devolveu R$ 2,4 bilhões ao País.
Existe nas ruas uma certa hesitação em colaborar com a polícia. As expressões alcaguete e dedo-duro têm uma conotação negativa. Tiradentes, com a figura parecida com a de Cristo, teve seu Judas em Joaquim Silvério dos Reis. Para quem vê a democracia apenas como uma etapa é fácil confundir a polícia com repressão política; afinal, todas as instituições visam a preservar o sistema.
Com um viés de esquerda, foi possível transitar de uma luta pela ética na política para defesa da cultura da corrupção. Os empresários querem business as usual, as figuras que sobraram do palanque das diretas ainda devem ter conversas necessárias e a própria crise econômica pode ser superada num par de anos. Mas a sociedade, além das aflições da crise econômica, sente-se lesada por um governo quadrilheiro, desapontada com uma oposição hesitante.
A fratura não se fechará enquanto o problema em torno do crime e castigo não for resolvido. Isso pode consolidar os laços da sociedade com as instituições e, quem sabe, capacitá-la a empurrar os políticos para a frente, apesar deles.
Das diretas para cá o clima se degradou. Hoje vemos Lula movimentando fortunas na conta bancária, casa de campo, tríplex, exigindo menu de travesseiro. Ninguém imagina que tudo aquilo daria tanto dinheiro aos salvadores: Collor com seus carros de luxo, Lula faturando milhões com suas aulas magnas e, no fundo, a sirene do camburão.
Collor e o PT são dois momentos do processo. Seu fracasso precisa ser levado em conta na tentativa de recomeçar. Mais do que discursos e promessas e uma certa ingenuidade diante da fraqueza humana, será importante a transparência, apoiada em novas leis e no fortalecimento das instituições que investigam o poder político.
O governo elegeu-se com verba de corrupção, descumpriu a Lei de Responsabilidade Fiscal, manteve um esquema de rapina na Petrobrás. Enquanto estiver no poder, o relógio do recomeço está desligado. Não adianta tocar para a frente, como se não tivesse acontecido. Nem mantê-lo desligado até 2018. Não se para o tempo. No máximo, é possível ganhar horas com o fuso horário, como o deputado do PT que virou dono de um apartamento em Miami.
Artigo publicado no Estadão em 06/11/2015
Bookmark and Share

sábado, 7 de novembro de 2015

A PRIMAVERA DAS MULHERES

Da Época
Natasha Mosley é uma adolescente de 15 anos. Quando caminha pelas ruas da Zona Sul do Rio de Janeiro, onde mora, atrai olhares. Isso a incomoda. Aluna da Escola Parque, no bairro da Gávea, ela diz sentir medo quando ouve uma cantada na rua, mesmo aquelas que aos olhares de mulheres mais velhas possam parecer inocentes. “Uma pessoa que não me conhece não tem o direito de dizer certas coisas para mim. Tenho vontade de reagir, de dizer que não quero ouvir aquilo, mas fico com medo. Se um menino da escola me cantar, posso dizer para ele que aquilo não me agrada porque estamos em igualdade de condições. Mas na rua, de um desconhecido, não posso fazer nada. Isso me oprime.”
A violência de uma cantada indesejada parece pequena diante de casos como o da bailarina Ana Carolina de Souza Vieira, de 30 anos, assassinada em São Paulo por um ex-namorado ciumento, Anderson Rodrigues Leitão, de 27 anos. Ou diante das agressões verbais sofridas pela jornalista Leka Peres no Facebook e via WhatsApp depois de criticar a decoração da lanchonete The Dog Haüs, no Itaim, em São Paulo – um quadro na parede trazia os dizeres: “Guys: no shirts, no service. Girls: no shirts, free drinks” (“Homens: sem camisa, sem serviço. Garotas: sem camisa, bebidas grátis”). Ou ainda diante da aprovação em uma comissão da Câmara dos Deputados do projeto de lei que dificulta ainda mais que vítimas de violência sexual possam interromper a gravidez.
Todos esses casos, do mais leve ao mais extremo, têm no entanto algo em comum: são inaceitáveis – e as mulheres, de todas as idades e gerações, não estão mais dispostas a contemporizar. Nos últimos dias, uma onda de protestos femininos varreu o país, nas ruas e nas redes sociais, numa espécie de Primavera das Mulheres, um “no pasarán”a uma cultura que, muitas vezes, vê as vítimas como culpadas pelas agressões sofridas. A rede foi-se formando aos poucos, com ativistas como as mulheres que estão nesta reportagem, até arregimentar multidões que saem às ruas, como a que aparece na capa de ÉPOCA desta semana.
O estopim para a mobilização feminina, que já vinha se desenhando nas escolas, universidades e locais de trabalho, veio no mês passado, quando mensagens de teor sexual a respeito de uma menina de 12 anos ganharam as redes sociais. O Brasil se chocou com a brutalidade das ofensas contra Valentina, a participante do programa de TV MasterChef Júnior. A indignação fez com que milhares de mulheres de todas as idades se sentissem livres para relatar nas redes sociais situações em que se sentiram humilhadas, subjugadas por homens que se achavam no direito de persegui-las, tocá-las, ofendê-las e, em casos mais graves, estuprá-las. Sob a hashtag primeiroassedio, a campanha trouxe à luz histórias havia anos mantidas em segredo por mulheres que se sentiam envergonhadas, como se tivessem culpa de ataques a caminho do trabalho, na volta da escola, no metrô, numa festa de família.
No coro de Valentinas estão mulheres como a jornalista paulistana Juliana de Faria, de 30 anos. Há dois anos à frente do grupo Think Olga, espaço virtual para discutir questões femininas, Juliana ajudou a criar condições para que agressões cotidianas sejam finalmente encaradas pela sociedade como inaceitáveis. É do Think Olga a campanha #primeiroassedio e o movimento Chega de Fiu-Fiu, que começou com uma pesquisa sobre as cantadas que as mulheres ouvem nas ruas. Das 8 mil entrevistadas, 99,6% relataram já ter passado por situações constrangedoras. Assim como Juliana, Natasha e outras mulheres retratadas nesta reportagem, milhares delas estão construindo as bases do que pode ser chamado não de um novo feminismo, mas de uma onda revigorada da luta pelos direitos das mulheres. “Hoje a feminista está no cotidiano, não é mais aquela com o sutiã na mão, como era vista antigamente”, diz a antropóloga Debora Diniz, professora da Universidade de Brasília (UnB). O feminismo ficou pop, como diz a historiadora Margareth Rago, da Universidade Estadual de Campinas.
Trecho da reportagem de Cristina Grillo, Graziele Oliveira e Marcela Buscatto, da revista Época desta semana que já está nas bancas.
Bookmark and Share

AS MULHERES DIZEM NÃO

Da IstoÉ
As frases da página anterior foram entoadas em gritos menos graves do que os ouvidos em outras manifestações. Dessa vez, a imensa maioria das pessoas que caminhou pela Avenida Paulista até a Praça da Sé, no centro de São Paulo, na sexta-feira 30, era de mulheres. Foi um movimento político, dirigido ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e seu infame projeto de lei que limita o acesso da mulher estuprada ao aborto – hoje garantido por lei – e a obriga a passar por uma delegacia. Mas o ato, que também aconteceu em outros estados do País e teve manifestantes de todas as idades, contemplava mais. Elas falaram sobre assédio sexual, racismo, intolerância, machismo. E partilharam tudo nas redes sociais, um palanque tão importante atualmente quanto a praça pública. Na mesma semana, a atriz Taís Araújo deu uma demonstração de coragem ao denunciar as ofensas raciais sofridas na rede. “Há uma confluência de fatores que está fazendo o grito das mulheres emergir da maneira como estamos vendo”, afirma a historiadora Margareth Rago, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista em história do feminismo. “Vivemos um momento de crise política e um avanço do conservadorismo, notamos um retrocesso de valores e muita intolerância, que estão mexendo em conquistas que estavam garantidas, como é o caso do PL do Cunha. Para reagir, elas estão se organizando para ter mais visibilidade.” Elas estão dizendo não.
“Há uma nova geração de mulheres lutando não somente para ampliar direitos, mas para garantir o legado dos movimentos feministas”, diz Clara Araújo, vice-coordenadora do núcleo de estudos sobre desigualdade e relações de gênero da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). As manifestações coletivas acontecem em convergência com uma nova postura individual, à medida que mais mulheres tomam conhecimento de seus direitos e se sentem seguras para reclamar. Nesse sentido, as redes sociais possibilitaram a construção de um novo diálogo e tem um papel fund≠≠amental nessa nova postura feminina. “Elas são um elemento de mobilização que estimula as mulheres, pois permite a troca de ideias e opiniões”, diz Clara, da UERJ. A organização em rede favorece a integração e viabiliza outras formas de participação. “A internet possibilita um conhecimento muito mais amplo sobre o que está acontecendo.” A pesquisadora explica ainda que, no Brasil, o índice de associativismo é considerado baixo, apesar de estar aumentando, inclusive entre mulheres, e as redes sociais conseguem alterar esse cenário. Outro aspecto importante é que elas podem observar nitidamente as desigualdades do cotidiano no relato de colegas e potencializar o discurso - o que explica o êxito da campanha #primeiroassedio, em que relataram na internet a primeira vez em que sofreram abuso. Nas redes sociais há uma infinidade de páginas feministas, perfis pessoais que falam das relações de poder entre os gêneros e grupos privados de ajuda entre mulheres e meninas que pedem conselhos em casos de violência e estupro. A própria manifestação citada no começo desta reportagem foi organizada pelo Facebook.
Com tanta informação tão fácil de ser encontrada, não é de se espantar que as garotas tenham contato com a pauta das lutas femininas cada vez mais cedo. A militância é tanta que há coletivos feministas, grupos típicos de universidades, já nas escolas. E o protaganismo jovem rende frutos concretos: na terça-feira 3 foi lançado o aplicativo para celular Sai Pra Lá, criado pela estudante Catharina Doria, 17 anos, e que permite registrar os assédios sofridos diariamente. A estudante Victoria Lima Dorta, 16 anos, conheceu o feminismo no ano passado por páginas no Facebook e diz ter se identificado com o movimento porque começou a observar que sofria com as mesmas situações que os textos on-line mostravam. “Abriu os meus olhos para o quanto a sociedade trata as mulheres como objetos dos homens, como não temos direito nem sobre nossos corpos e como a desigualdade de gênero é gritante”, diz. “Também me ajudou a entender um pouco melhor outros tipos de opressão como racismo, homofobia e transfobia.”
As mulheres negras, que historicamente são alvo de racismo e discriminação, têm seu próprio protagonismo na luta por direitos. Prova que as batalhas dessa parcela da população ocorrem todos os dias são as recentes injúrias raciais sofridas pela atriz Taís Araújo nas redes sociais. Na internet, foi ofendida com comentários preconceituosos desde o sábado 31. Ela se manifestou publicamente e o caso foi investigado pela Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática do Rio de Janeiro. Em julho deste ano, a jornalista Maria Júlia Coutinho também foi alvo de internautas racistas. “A luta das mulheres negras vem desde o período da escravidão, quando, mesmo sob muito sofrimento, elas conseguiram chegar a determinados espaços”, diz Maria das Dores do Rosário Almeida, integrante da Articulação de Mulheres Negras do Brasil. Hoje, elas aceitam o corpo, o cabelo, as características físicas de uma forma muito melhor.” Segundo Maria das Dores, apesar de ainda existir uma grande invisibilidade em diversos aspectos, as redes sociais ajudam a revelar o racismo diário. “Taís foi atrás de seu direito e denunciou. Em geral, muitas ainda ficam no anonimato por falta de informação e por medo.” Mas, segundo a militante, nos últimos dez anos aumentou 50% o número de mulheres que se sentem estimuladas a denunciar. “Há um ranço da escravidão que as redes sociais tem nos ajudado a derrubar.”
Contemplar problemas que dizem respeito a diferentes grupos sociais é um dos pontos mais importantes do feminismo atualmente. A luta pelo fim de qualquer manifestação de intolerância vem de um esforço em acabar com pensamentos binários. Mulheres que exigem ser ouvidas não aceitam uma divisão da sociedade baseada em gêneros, entre homem e mulher, sendo um mais forte do que o outro. “É um pensamento autoritário”, afirma Margareth Rago, da Universidade de Campinas (Unicamp). Mas é principalmente pela crítica ao padrão da dominância masculina que alguns homens têm posturas reativas. Na semana passada, páginas no Facebook que falam sobre direitos e lutas das mulheres foram derrubadas. Entre elas a da YouTuber Jout Jout, que recentemente gravou um vídeo orientando as garotas a fazerem um escândalo sempre que assediadas. Além disso, feministas que se expressam publicamente têm sofrido ameaças e ofensas. Parece ser uma reação à emergência de discussões nas redes sociais, movida também pelo tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), sobre a persistência da violência contra a mulher, em 25 de outubro. “Há, sim, uma reação, por verem esse avanço das discussões como uma ameaça à posição privilegiada que ocupam socialmente”, afirma a socióloga Tica Moreno, da Sempreviva Organização Feminista.
No cenário político, essa reação surgiu em forma de projeto de lei. No dia 21 de outubro, foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados o PL 5069/2013, de autoria do presidente da casa, Eduardo Cunha, que dificulta o caminho da vítima de violência sexual que procura o atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS). “É a normatização do tratamento desumanizado e discriminatório contra a mulher”, diz Silvia Chakian de Toledo Santos, coordenadora do Grupo Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Ministério Público de São Paulo. O projeto, explica, exige que a mulher faça exame de corpo de delito para que seja comprovado que ela foi vítima de violência sexual e, com isso, tenha acesso ao medicamento. “Quem trabalha na área sabe que nem todas as violências deixam vestígios que possam ser comprovados com laudos”, diz Silvia. Além disso, o documento cria uma condicionante pela qual, para ter acesso ao sistema de saúde, a mulher deve acionar o sistema da Justiça Criminal antes. “É inaceitável já que nem toda mulher suporta a dor de denunciar seu agressor. Muitos abusos ocorrem dentro de casa e o ônus do processo criminal seria um fardo.” O projeto criminaliza ainda a conduta de agentes que, eventualmente, forneçam qualquer orientação à vítima que de alguma forma a induza ao aborto. O PL segue agora para votação no Plenário da Câmara, mas não sem protestos.
Com manifestações nas ruas, nas redes sociais e com uma mudança de postura nas situações cotidianas, não há mais como calar a luta feminina. Se depender delas, o PL de Eduardo Cunha não passa, muito menos ele continua no cargo que ocupa atualmente. Outras manifestações já estão agendadas pela derrubada do projeto. “O desafio agora é que outros movimentos sociais possam incorporar em suas agendas as discussões do universo feminino: questões ligadas ao controle do corpo e da sexualidade da mulher”, afirma a socióloga Tica Moreno. “A história mostra que as mulheres estão sempre à frente da resistência no conservadorismo. É um movimento que precisa ser reconhecido.” E, ao que parece, se surgirem outros empecilhos para se alcançar a tolerância e a igualdade de direitos, elas vão gritar, mais uma vez.
Reportagem de Camila Brandalise e Fabíola Perez, da revista IstoÉ desta semana.
Bookmark and Share

A PRAGA QUE ATORMENTA

Da Veja
A ironia é involuntária: o programa que infernizou a vida de milhares de brasileiros na semana passada chama-se Simples Doméstico. Cerca de 1 milhão de cidadãos tentaram acessar o portal eSocial para gerar um boleto com impostos e contribuições relativos ao seu empregado doméstico, mas nada foi simples. Com um software que não funciona, o eSocial tornou-se o mais recente pesadelo promovido pela burocracia nacional. Milhares de cidadãos tentaram cinco, dez, quinze vezes, e nada. Ficaram plantados na frente do computador de madrugada, e nada. Perderam horas de sono, de trabalho, de lazer, e nada. O sistema devolvia diversas gentilezas ­­- "deu erro", "está fora do ar", "senha errada", "tente mais tarde" -, menos o maldito boleto.
O desastre do eSocial ofereceu a milhares de cidadãos uma pequena mostra do massacre diário enfrentado pelos brasileiros que dão emprego, empreendem, criam empresas, fazem negócios. Brasileiros que, de certo modo, precisam gerar um boleto do eSocial quase todos os dias. Por isso, tornou-se óbvio dizer que os empresários e empreendedores são heróis nacionais. Eles navegam diariamente num oceano de burocracia - softwares que não funcionam, leis que mudam a toda hora, tributos que têm troca de alíquota, regras que não servem para nada - e frequentam com infeliz assiduidade o templo da burocracia nacional, os cartórios. Nesse ambiente hostil, muitos ainda conseguem inovar e crescer.
Na cola da lambança do eSocial, VEJA quis saber como é a vida dos empreendedores que, apesar de tudo, têm sucesso. A revista teve acesso exclusivo a uma pesquisa inédita sobre um tipo especial de empresa. São companhias de alto crescimento ou, na expressão em inglês, scale-ups - palavra que confere um contraste com a denominação das empresas iniciantes, as start-ups. Nos últimos três anos, as scale-ups aumentaram em pelo menos 20% seu número de empregados ou sua receita, a cada ano. No Brasil, existem cerca de 35 000 scale-­ups. Elas representam menos de 1% do total das companhias brasileiras, mas criaram 3,3 milhões dos 5,6 milhões de empregos gerados de 2010 a 2012. Ou seja: de cada dez novos postos de trabalho, seis foram ofertados por uma scale-up.
Para fazer a pesquisa, a Endeavor, organização de apoio ao empreendedorismo com atuação internacional, resolveu deixar de lado os conhecidos dados nacionais e desceu à realidade das cidades, que é onde as empresas efetivamente existem e atuam. Escolheu as cidades que concentram o maior número de scale-ups, excluindo as situadas em regiões metropolitanas. Com esse critério, chegou a 32 municípios em 22 estados. Além de Brasília, são 21 capitais de estado e dez cidades do interior - quatro em São Paulo, duas em Santa Catarina, duas no Paraná, uma no Rio Grande do Sul e uma em Minas Gerais.
Nelas, os pesquisadores levantaram dados sobre o tempo que se leva para abrir uma empresa, regularizar um imóvel, aprovar um projeto arquitetônico e fazer uma ligação de energia elétrica, coisas que o empreendedor tem de enfrentar em algum momento. Conferiram também a alíquota média do IPTU, a alíquota do ICMS e os incentivos fiscais concedidos, além das dificuldades práticas para recolher tributos, da frequência com que são editados novos decretos tributários e do congestionamento de processos no tribunal de Justiça do estado. Mesmo sem o tormento de gerar um boleto no eSocial, esperava-se um resultado ruim. Mas o resultado foi aterrador. A burocracia parece calibrada para punir as empresas na hora em que elas mais crescem.
Trecho da reportagem da revista Veja desta semana que já está nas bancas.
Bookmark and Share

O BRASIL ESTÁ SEM COMANDO

Por Débora Bergamasco, IstoÉ
Atualmente um dos políticos mais próximos do vice Michel Temer, o presidente da Fundação Ulysses Guimarães, Moreira Franco, concluiu na semana passada a redação do documento “Uma Ponte para o Futuro”, em que propõe medidas para tirar o Brasil da crise. O texto que será discutido no congresso nacional da legenda, no próximo dia 17, gerou polêmica por conter duras críticas ao governo no momento em que setores do PMDB defendem o rompimento com o Palácio do Planalto.
A contundência do material deu margem à seguinte elucubração no meio político: seria o documento um clássico programa de governo, com vistas à disputa presidencial em 2018, ou um conjunto de propostas para serem implementadas já, em caso de impeachment de Dilma, cujo grande beneficiário seria o vice Michel Temer? Em entrevista à ISTOÉ, Moreira Franco negou que haja uma conspiração em curso contra Dilma. “Não existe conspiração em ‘on’ só em ‘off’. E nós só falamos em ‘on’ ”, afirmou ele.
Segundo ele, “quem tem patrocinado este debate (do impeachment) é a Presidência da República”. “Porque a primeira pessoa a falar sobre impeachment quando estava na Rússia foi a presidente”, lembrou. O PMDB, acrescenta ele, apenas formulou propostas “urgentes” para o País. “Essa letargia já foi longe demais”, lamentou. Para o peemedebista, o timão (leme) está solto. “Ninguém tem o timão firme (...) e sem um comando firme, não há possibilidade de avançarmos”.   
ISTOÉ - O documento “Uma Ponte para o Futuro”, que diz que o governo “cometeu excessos”, representa a opinião de quem? Da cúpula do PMDB?
MOREIRA FRANCO - Espero que represente a opinião da sociedade. Queremos unir. O documento foi feito ouvindo muita gente dentro e fora do partido. Está sendo amplamente distribuído entre os diretórios e estamos estimulando o debate. No dia 17, quando as pessoas se encontrarem no congresso, vão expressar seus pontos de vista.
ISTOÉ - Representa a opinião do presidente do partido e vice-presidente da República, Michel Temer?
MOREIRA FRANCO - Para nós, é mais importante representar o partido, não vou “fulanizar”. Você está com o vício da “fulanização”. É claro que vai representar. Não só a dele como a minha também.
ISTOÉ - É um documento bastante crítico à atual situação do Brasil. Isso cria mais arestas entre o PT e o PMDB, já que o seu partido é acusado de não ser tão aliado quanto o PT gostaria?
MOREIRA FRANCO - Olha aqui, o PMDB acha que o PT não é tão aliado como deveria ser. Mas o problema principal para este quadro que estamos vivendo é termos um caminho e formarmos uma maioria em torno dele. Essa discussão não é para agradar nem desagradar quem quer que seja. É para nós cumprirmos o papel que o PMDB sempre cumpriu, de apresentar uma alternativa. Evidentemente, não agrada a todo mundo, mas se consolida como um esforço político de atender uma maioria.
ISTOÉ - Por ser tão crítico, não parece um documento de quem está na oposição?
MOREIRA FRANCO - Ah, se a oposição tivesse tido essa manifestação, talvez as coisas estivessem melhores.
ISTOÉ - E o que está fazendo a oposição?
MOREIRA FRANCO - Pergunte ao governo. Quem sabe da oposição é o governo. Hoje, o PMDB está preocupado com a nação, com a sociedade. Não se pode continuar assim, temos que ter o sentido da urgência. Essa letargia já foi longe demais.
ISTOÉ - O que o significa “esta letargia já foi longe demais”?
MOREIRA FRANCO - Que não dá mais para continuar do jeito que está. Veja as declarações de economistas, empresários. O Abílio Diniz disse que o Bra­sil está em liquidação. E é uma verdade. Temos urgência.
ISTOÉ - A presidente Dilma Rousseff tem força política para fazer isso?
MOREIRA FRANCO - Agora é a hora de firmar o leme. E no Brasil de hoje, o timão está solto, ninguém tem o timão firme. O esforço que o PMDB faz com esta proposta é exatamente o de convocar, de tentar reunificar o País, que está muito dividido. Sem um comando firme, não há possibilidade de avançarmos. Então, o momento que nós estamos vivendo é o de criar as condições para segurar este timão e levar o País para frente.
ISTOÉ - O vice-presidente, Michel Temer, teria pulso firme o suficiente?
MOREIRA FRANCO - Eu só não respondo a esta pergunta, porque ela vai ser mal interpretada, vão dizer que eu estou querendo cantar a música do Roberto Carlos. E não é o nosso objetivo.
ISTOÉ - Qual música do Roberto Carlos?
MOREIRA FRANCO - “Esse Cara Sou Eu” (risos). Ou, no caso, “esse cara é ele”. Já houve uma escorregada em casca de banana nesta área, não terá outra, porque nosso objetivo é ter uma ponte para o futuro, definindo uma política para tirar o Brasil da crise.
ISTOÉ - Essa discussão não pode levar a interpretações de que o PMDB quer se colocar como o partido capaz de reunificar o Brasil?
MOREIRA FRANCO - Não, não mudou nada. Temos compromisso com o Brasil. Vamos apresentar nossas propostas sem nenhum sentido de provocação.
ISTOÉ - O PMDB está no comando da vice-presidência da República há cinco anos e de lá para cá vem ocupando vários ministérios do governo. O seu partido não tem responsabilidade pela crise pela qual o País passa?
MOREIRA FRANCO - A crise decorre de medidas de natureza de política econômica que foram tomadas.  Nós nunca participamos dessa. Nunca fomos nem chamados nem ouvidos. Tanto em 2010 quanto agora, apresentamos propostas de políticas econômicas que não foram consideradas. Muitas delas estão neste documento.
ISTOÉ - E por que não foram consideradas?
MOREIRA FRANCO - Não pergunte a mim, pergunte a quem não as considerou. Sobre a questão de haver “conspiração”, eu acho isso extremamente curioso porque é como se fosse possível conspirar em “on”. Não existe conspiração em “on”, você só conspira em “off”.Tanto eu quanto o Michel Temer dizemos a todos os jornalistas que só falamos em “on”, nunca em “off”.
ISTOÉ - Conspiração pode, eventualmente, se dar não com jornalistas, mas entre vocês, políticos.
MOREIRA FRANCO - Tanto ele, quanto eu, quando falamos no jornal, falamos de política. Imprensa é uma ferramenta pela qual se faz política, que se alimenta dela e alimenta a política.
ISTOÉ - Quando o vice, Michel Temer, estava à frente da articulação política do governo, surgiram rumores de que ele e o PMDB conspiravam para derrubar a presidente, Dilma Rousseff. A que o sr. atribuiu isso? Tentativa de enfraquecer o vice?
MOREIRA FRANCO - Talvez. Mas isso passou. Da nossa parte, passou e sem mágoas. Chegou numa certa hora em que o Temer disse: “Chega, eu já cumpri minha parte, estou fora da articulação”. Ele constatou as dificuldades. Isso é água passada. Isso não nos motiva nenhum tipo de atitude ou de posicionamento. Enquanto achávamos que era possível, ninguém perseverou mais que o Michel Temer. Quando ele achou que não dava mais para continuar no comando da articulação política, pegou a trouxa dele e foi embora.
ISTOÉ - Uma recomposição do governo com a base aliada ainda é possível?
MOREIRA FRANCO - Tem políticos brasileiros de muito talento intelectual que fazem palestras e ganham muito dinheiro, como os ex-presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso. Se eu soubesse responder a essa pergunta certamente estaria na mesma faixa salarial que os dois.
ISTOÉ - O sr. participou do governo. Quais as maiores dificuldades como ministro?
MOREIRA FRANCO - Já fui prefeito, deputado federal, governador, ministro, vice-presidente da Caixa Econômica Federal, presidente da Fundação Ulysses Guimarães. Tenho como regras não andar com tropa de ocupação e, quando eu saio, eu fecho a porta e parto para uma nova experiência. Toda minha reflexão é aqui na Fundação. Porque o povo brasileiro e o empreendedor brasileiro estão com a língua de fora.
ISTOÉ - O ex-presidente Lula diz que ele e sua família estão sendo perseguidos. O sr. acha o mesmo em relação a integrantes do PMDB?
MOREIRA FRANCO - Creio que a politização dessas investigações tem sido excessiva. Mas precisamos deixar que essas investigações andem, cheguem a consequências, como chegou o mensalão, mas temos que ter uma proposta para tirar o Brasil da crise. Se não, vai ser uma tristeza você ter milhões de brasileiros desempregados, sem perspectivas, com a fome batendo à porta, a violência crescendo e algumas pessoas na cadeia. É bom as pessoas estarem na cadeia para afirmar que nós não temos ambiente que não seja transparente, que os criminosos sejam punidos, mas com um País crescendo, gerando emprego, renda e com  pessoas cheias de esperança.
ISTOÉ - Mas ele seria expulso?
MOREIRA FRANCO - Nós não julgamos, as investigações são feitas pelos órgãos competentes e nós vamos esperar o resultado deste processo. Tanto para nós, quanto para todos os brasileiros.
ISTOÉ - Se houver um processo de impeachment contra a presidente Dilma, qual será o posicionamento do PMDB?
MOREIRA FRANCO - Impeachment é uma coisa muito séria e está sendo tratada de forma muito trivial. Quem tem patrocinado este debate é a Presidência da República. Porque a primeira pessoa a falar sobre impeachment quando estava na Rússia foi a presidente. E os ministros do Planalto, reiteradamente, falam disso. A única novidade foi a introdução do impeachment do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. A força bruta quer transformar como caminho para resolver a crise a questão de quem vai ser “impichado” primeiro. O governo faz as coisas para evitar seu impeachment, ou para estimular o impeachment do Eduardo Cunha. E dizem que ele faz o contrário. Eu prefiro discutir este documento, porque é ele que vai criar possibilidades de você ter um leme seguro.
ISTOÉ - E a Agenda Brasil, ideia de seu colega de partido presidente do Senado, Renan Calheiros?
MOREIRA FRANCO - Acho que foi uma ótima ideia.
ISTOÉ - Não saiu do papel.
MOREIRA FRANCO - Na política já é uma grande coisa você colocar no papel. E acho que quando está no papel e não acontece nada, isso gera dificuldades políticas. É claro que esse programa que estamos debatendo, se não gerar nada, vai ser um problema político. A expectativa nossa é que ele gere conseqüências. O Brasil precisa, tem urgência.
ISTOÉ - Está na hora de o partido voltar a ter candidato próprio a presidente?
MOREIRA FRANCO - Claro. Sempre falamos isso. Mas ter candidato é fácil. Difícil é ter candidatura. Com estrutura eleitoral que sustente uma campanha. Pressupõe máquina, programa, alianças. Não é só o candidato, mas um conjunto de ações políticas com conteúdo, representatividade, necessários para viabilizar o candidato.
Bookmark and Share

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

MORRE BENI VERAS

Morreu na manhã desta sexta-feira (6), o ex-governador do Ceará Beni Veras. Internado há cerca de 15 dias no Hospital Monte Klinikim, em Fortaleza, o político sofria de problemas relacionados ao coração. Ele tinha 80 anos.
Nascido em agosto de 1935 na cidade de Crateús, no interior do Ceará, Benedito Clayton Veras Alcântara foi vice-governador de Tasso Jereissati (PSDB) e assumiu o governo quando o titular desvinculou-se do cargo para disputar uma vaga no Senado Federal.
Graduado em Administração, com especialização em Marketing, Beni também foi diplomado pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, em Problemas de Desenvolvimento Econômico.
Além de atuar na política cearense, Beni Veras também ocupou cargo de Ministro de Estado Chefe da Secretaria de Planejamento, Orçamento e Coordenação da Presidência da República entre 1994 e 1995, no Governo Itamar Franco.
Bookmark and Share

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

CONDENADO

O fazendeiro e ex-prefeto de Unaí (a 600 km de Belo Horizonte, em Minas Gerais) Antério Mânica, 60, foi condenado, nesta quinta-feira (5) a 100 anos de prisão pela morte de três auditores fiscais e de um motorista do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O júri ocorreu na sede da Justiça Federal, em Belo Horizonte.
O crime aconteceu em janeiro de 2004 e ficou conhecido como a chacina de Unaí. O Ministério Público Federal acusou o ex-prefeito de ter sido um dos mandantes dos crimes.
O juiz federal Murilo de Almeida descontou o período de prisão provisória de 26 dias já cumpridos pelo réu, que deverá cumprir 99 anos, onze meses e quatro dias de reclusão. No entanto, o período de prisão no Brasil não pode ultrapassar 30 anos, de acordo com o Código Penal - na prática, a pena deve ficar em torno de 17 anos. A sentença foi lida às 23h15.
O magistrado permitiu ao ex-prefeito, por ser réu primário, recorrer da decisão em liberdade, mas impediu que ele saia do país e entregue seu passaporte à Justiça em 24 horas.
Durante o julgamento, o delator da chacina, o produtor rural Hugo Alves Pimenta, disse não ter presenciado a suposta participação do ex-prefeito nos crimes e que ouviu a informação de terceiros. No caso de Norberto Mânica, irmão de Antério e também condenado a 100 anos de prisão pelas mortes, Pimenta o apontou como o mandante das mortes. O produtor rural fez um acordo de delação premiada e vai a júri no dia 10 deste mês.
O ex-prefeito, durante interrogatório na tarde desta quinta-feira, disse que a inclusão do seu nome no processo era um "grande equivoco do Ministério Público". O advogado Marcelo Leonardo, que defende o ex-prefeito, havia dito disse que não existiam provas no processo da participação do cliente no caso e afirmou, após o julgamento, que vai recorrer da decisão.
Na semana passada, o empresário cerealista José Alberto de Castro também foi condenado pela acusação de ter exercido o papel de intermediário na contratação dos executores dos assassinatos e pegou uma pena de 96 anos, 10 meses e 15 dias de cadeia.
As mortes ocorreram na manhã de 28 de janeiro de 2004, na zona rural de Unaí. Os auditores fiscais Nélson José da Silva, João Batista Lage e Eratóstenes de Almeida Gonçalves e o motorista do Ministério do Trabalho e Emprego Ailton Pereira de Oliveira foram assassinados a tiros em uma estrada vicinal enquanto fiscalizavam denúncias de trabalho escravo em fazendas da região. Após os crimes, Antério Mânica elegeu-se prefeito da cidade mineira pelo PSDB por dois mandatos (2005 a 2012).
Outros três réus foram condenados pela Justiça Federal em 2013 pela morte dos auditores fiscais. Apontados como pistoleiros e executores dos assassinatos, Rogério Allan Rocha Rios foi condenado a 94 anos de prisão e Willian Gomes de Miranda recebeu uma pena de 56 anos. Erinaldo de Vasconcelos Silva, que delatou os outros dois e confessou participação nas mortes, foi beneficiado por uma delação premiada e apenado com 76 anos e 20 dias de prisão. Ao todo, o processo tinha nove réus, mas Francisco Elder Pinheiro, acusado de ter intermediado o crime, morreu no início de 2013.
Do UOL
Bookmark and Share

ZERO VEZES ZERO

Artigo de J. R. Guzzo, publicado na edição impressa de Veja
Tem alguém aí? Os brasileiros bem que gostariam de estar fazendo essa pergunta, no momento, a tudo o que pode ser descrito como “governo” e a todos cuja ocupação conhecida, fixada em lei e paga em tarifa cheia pela população, é governar a República Federativa do Brasil. Está mais do que na hora de perguntar, pois, olhando para o que acontece, em vez de olhar para o que se fala, daria para jurar que não — não há ninguém no local de trabalho, realmente, ou se há é como se não houvesse, pois com toda a certeza ninguém está fazendo absolutamente nada que preste, ou que sirva a algum propósito útil. O que existe o tempo todo, e é só isso que existe praticamente desde que a presidente Dilma Rousseff começou esse seu desventurado segundo mandato, é uma coisa chamada “impeachment”. Dilma fica ou vai embora? Não se cuida de nenhuma outra questão na vida pública de hoje — o país foi levado por ela, por seu partido e pelo que mais existe em torno de ambos à situação inédita de ter um governo cuja única ação visível é brigar para continuar sendo governo, ou seja, para não ser deposto. Enquanto isso, não governa coisa nenhuma. Esquisito, não é? Governos existem para governar, com os seus programas, objetivos e interesses; se não fazem nada disso, são apenas uma conta de zero vezes zero. O que temos, então? Um processo de impeachment contra um governo que não existe — o que, pensando bem, talvez fosse mais um excelente motivo para lhe apresentar sua carta de demissão.
Não é preciso nenhum diploma de ciência política para verificar a quantidade e o volume das aberrações que o abandono da obrigação de governar, por parte da presidente e seu enxame de ministros e quase ministros, vem causando nos últimos dez meses. Basta prestar um pouco de atenção aos fatos que entram e saem quietamente do noticiário, e que no Brasil de hoje não conseguem nem o seu modesto 1 minuto de fama — no país do impeachment, nada parece capaz de impressionar os que mandam e os que obedecem na vida pública, e qualquer disparate acaba sendo recebido como a coisa mais normal do mundo. O ministro dos Transportes, por exemplo, revelou algum tempo atrás que não tem um tostão furado para tapar buracos nas estradas em 2015. Não é que o governo deixará de fazer novas rodovias de primeira classe, ou mesmo de segunda ou terceira, como o país necessita com a máxima das urgências: está sem dinheiro para fazer o mínimo indispensável. Vai arrecadar até o fim do ano mais de 1,3 trilhão em impostos federais, mas já avisou que não sobrou nada nessa pilha de dinheiro para tapar um único e miserável buraco nos 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território nacional. Ficamos assim, então: ao longo deste ano de 2015 inteirinho, o Ministério dos Transportes não terá servido rigorosamente para coisa alguma. No Ministério da Saúde, o ponto alto da atuação do último ministro foi dizer, em sua derradeira entrevista, antes de ser posto na rua por telefone, que a saúde brasileira está “em colapso”. Segundo ele próprio, é “a pior situação em 25 anos de SUS”. Isso mesmo: após treze anos de governo Lula/Dilma/PT, sua ex-Excelência nos informa que a saúde brasileira está “em colapso”. Algum problema? O contribuinte foi também avisado de que uma troca de radares nos aeroportos está suspensa, porque o governo não paga ao fornecedor. E o dinheiro que o cidadão já lhe pagou para saldar essa despesa? Vai saber — e talvez nem fosse necessário, em primeiro lugar, trocar radar algum.
Para qualquer lado que se olhe, é por aí que vai essa procissão. Diante da própria falência, o governo prometeu cortar despesas “na carne”. Após nove meses de cálculos sem pé nem cabeça, ficaram de cortar 200 milhões de reais, ou 100 vezes menos do que uma empresa privada como a Volkswagen faturou em 2014; com sorte, daria para pagar 24 horas de juros da dívida pública. Mas nem isso o governo conseguiu — continua com tolerância zero para qualquer redução no seu desperdício. Dos 25 000 empregos que pode eliminar a qualquer momento, anunciou que cortaria 1 000; não cortou nem um. Permanece imóvel como uma catedral, também, perante os piores números da inflação nos últimos treze anos, ou a maré de desemprego que está causando sete demissões por minuto. A presidente da República diz que o governo não governa a Petrobras, a maior empresa estatal brasileira, cada vez mais enterrada num abismo sem precedentes de roubalheira; acha que não existe “nenhuma denúncia de corrupção” contra o seu governo. Que governo?
Não tem ninguém lá.
Bookmark and Share

RETRATADO COMO PRESIDIÁRIO

Lula irritou-se com a capa da edição mais recente de Veja. Foi retratado com vestes de presidiário. Na montagem, as listas pretas do uniforme foram substituídas por nomes de pessoas ligadas a Lula que se encontram sob investigação da Polícia Federal e da Procuradoria da República. O morubixaba do PT decidiu processar a revista por “danos morais”. Seus advogados protocolaram a ação no Foro Regional de Pinheiros, na capital paulista.

Sustentam na petição que “não há nenhuma ação penal em curso no país contra o ex-presidente.” Por isso, consideram que a imagem de um Lula presidiário “não possui qualquer lastro na realidade fática ou jurídica.” Os advogados tacham a imagem de “falsa e ofensiva”. E chamam a capa de “sórdida mentira.”
Bookmark and Share

DESPACHO DE MACUMBA

A Polícia Federal encontrou, em julho, na Casa da Dinda, do senador Fernando Collor (PTB-AL), um “despacho de macumba” contra o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e Fábio George, considerado “homem-forte” de Janot no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). A informação é do colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo.
“Numa mesa, os agentes encontraram uma foto do conselho do CNMP com os rostos de Janot e de George assinalados num círculo feito a caneta. Acima da foto, numa folha de papel com o timbre do Senado, os nomes de vários orixás: Iemanjá, Elegbara, Oxalá, Ogum, entre outros”, relata o jornalista (veja a íntegra da nota no Globo).
Em seu livro, Tudo o que vi e vivi, Rosane Malta, ex-mulher de Collor, contou detalhes do envolvimento do ex-presidente com magia negra. Segundo ela, Collor participava de rituais com matança de animais, como búfalos, bodes, macacos e galinhas, para ganhar as eleições. A ex-primeira-dama relata que até defuntos e fetos humanos foram usados em bruxarias para tirar a candidatura à Presidência do apresentador Silvio Santos. O senador nunca comentou o teor do livro da ex-mulher, com quem rompeu de maneira litigiosa.
Briga com Janot
Um dos parlamentares investigados pela Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), Collor já ofendeu publicamente o procurador-geral da República, a quem acusa de perseguição. O senador já chamou Janot de “filho da puta”, “sujeitinho à toa”, “fascista da pior extração” e “sujeito ressacado sem eira nem beira”. O petebista também sem sucesso barrar a recondução do procurador-geral ao cargo.
Na semana passada, o ministro Teori Zavascki, liberou a devolução dos carros de luxo de Collor que haviam sido apreendidos pela Polícia Federal em julho durante as investigações da Lava Jato. Entre os veículos que voltaram para a Casa da Dinda, estavam um Lamborghini, um Bentley, um Range Rover e uma Ferrari. A suspeita é que esses carros tenham sido comprados com dinheiro de propina, o que o senador nega veementemente.
“Lembra-se daquela operação espetaculosa, com potentes helicópteros e dezenas de viaturas ostensivas, que ocorreu três meses atrás, em Brasília, para apreender veículos pertencentes ao senador Collor? Pois bem, eles estão de volta à garagem do seu proprietário, por determinação do STF”, comemorou Collor ao postar um vídeo nas redes sociais mostrando o retorno da frota de luxo à sua residência.
Bookmark and Share

JÁ VALI

Charge do Genildo
Bookmark and Share

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

AH! QUE SAUDADE ME DÁ

Em 4 de novembro de 2003, Rachel de Queiroz fazia sua última viagem. Raquel, a pioneira cearense – primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras, 1977 – conhecida pelas belas histórias contadas em suas obras, o carinho que tinha pelas palavras, seja nas crônicas, nas peças de teatro ou nos romances, ela era uma mulher à frente do seu tempo. Até na politica Rachel de Queiroz enveredou e teve uma vida intensa.
A consagrada carreira de escritora e jornalista, parte dos brasileiros já conhece, mas, na política é desconhecida pela maioria da população brasileira. Rachel se tornou membro do Partido Comunista ao lado de amigos de sua geração, uma turma politizada e ‘comunizada”, como relatou ela na autobiografia Tantos Anos, de 1998. Foi presa duas vezes.
Em 1931, após passar dois meses no Rio de Janeiro – tinha ido receber o Prêmio Graça Aranha, dado a O Quinze – Rachel volta ao Ceará, com credenciais do Partido Comunista, já politizada e com a missão de promover e reorganizar o Bloco Operário e Camponês, movimento político o qual ela tinha participado.
Rachel passou a fazer parte do Partido Comunista, mesmo sem ter feito uma ficha, assinado alguma ata. Aliás, não se podia deixar nenhum rastro de papéis, livros ou qualquer tipo de documento, a polícia era brutal e se pegasse algum vestígio, levava todos para a cadeia: às pessoas e os papéis. Com a chegada de Getúlio Vargas ao Rio, a polícia ficou mais feroz.
Em 1937, com a decretação do Estado Novo de Getúlio Vargas, os livros de Rachel de Queiroz foram proibidos e, num fato marcante, várias de suas obras acabaram queimadas em praça pública em Salvador (BA), junto a livros de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, todos classificados de subversivos.
O desligamento do Partido Comunista aconteceu após ela ver censurado pelo próprio Partido o romance João Miguel. No romance, João Miguel, ‘campesino’ bêbado, matava outro ‘campesino’. O aviso: só permitiria a publicação da obra, se Rachel fizesse as modificações apontadas pelo presidente do Partido Comunista. Segundo o Partido, a trama era carregada de preconceitos contra a classe operária.
Jamais se curvou as imposições feitas a sua obra, Rachel de Queiroz não aceitou as tais modificações exigidas pelo Partido Comunista, pegou o original que tinha datilografado e saiu em disparada, como relatado por ela no capítulo O Rompimento, da autobiografia Tantos Anos.
Em sua obra Caminho de Pedras (1937), Rachel trata desse momento político que viveu no Partido Comunista, porque fazer política na década de 20, ser comunista era muito perigoso. A ideia de comunismo era distorcida e alguém que ousasse se apresentar como comunista pagaria um preço alto, até com a própria vida.
Foi numa noite cheia de estrelas, dormindo em sua rede que Rachel de Queiroz faleceu, em sua casa no Rio de Janeiro, em 4 de novembro de 2003.
Bookmark and Share

terça-feira, 3 de novembro de 2015

CONSELHO DE ÉTICA

Charge do Izânio
Bookmark and Share

IRONIA DO DESTINO

Parece brincadeira, mas o prefeito de Codó, Zito Rolim, quase se deu mal ao sofrer um acidente automobilístico na madrugada desta segunda-feira, (02/11), por volta das 4h, na ponte (que não existe) na zona rural do município.
No momento em que aconteceu o acidente quem dirigia o carro era o próprio prefeito e teria sido provocado por conta da baixa visibilidade da estrada, com muita poeira provocada por outros veículos que estavam na frente e o mesmo não conseguiu ver que a estrada estava sem a ponte e veio a despencar bueiro abaixo.
O prefeito estava acompanhado de um amigo. Os dois tiveram apenas ferimentos leves.
Será que agora a ponte vai ser feita?
Bookmark and Share

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE

Bookmark and Share

MORRE FRED THOMPSON

Morreu neste domingo (1), aos 73 anos, o ex-senador republicano do Tennessee e ator de Hollywood, Fred Thompson. Segundo a família, ele lutava contra um linfoma. Seu último mandato no Senado terminou em 2003 e na TV ele interpretou o promotor do distrito de Nova York Arthur Branch no seriado policial "Law & Order".
"É com o coração pesado e profundo sentimento de pesar que partilhamos o falecimento do nosso irmão, marido, pai e avô, que morreu pacificamente em Nashville cercado por sua família", disse a família em um comunicado.
Na política, Thompson ganhou notoriedade como conselheiro minoritário para o Comitê de Watergate, no Senado, que investigava o escândalo que levou à renúncia do presidente Richard Nixon em 1974.
Nas artes, seu primeiro papel no cinema foi em 1985 no filme "Marie". Depois, Thompson apareceu em filmes como "Duro de Matar 2" e "Na linha de fogo", frequentemente representando políticos ou figuras de autoridade. Em 2007 interpretou o ex-presidente dos Estados Unidos Ulysses S. Grant no filme para televisão "Enterre meu Coração na Curva do Rio".
Do G1, em São Paulo
Bookmark and Share

domingo, 1 de novembro de 2015

NÃO É NADA DO QUE VOCÊ PENSA

Artigo de Fernando Gabeira
De novo na estrada, recomeça a temporada de TV. Felizmente. Antes de voltar ao trabalho cotidiano, passei por São Paulo, no Brazil Summit, da revista “The Economist”. A pergunta principal no meu painel era essa: Dilma cai ou não? A tendência, no painel de que participei, foi prever que as coisas devem continuar como estão: os agentes políticos, sobretudo a oposição, não parecem muito interessados, preferem o desgaste progressivo do governo.
Na linguagem de perdas e ganhos, há uma tendência a achar também que os custos do impeachment podem ser maiores do que manter o status quo. Num quadro de crise como o nosso, todos são cautelosos em prever o futuro. Da minha parte, procurei tocar em alguns elementos dinâmicos: desemprego, movimentos de protesto e investigações da Lava-Jato e Zelotes.
Como a pergunta sobre a sobrevivência de Dilma vem desde o principio do ano, tentei também responder à pergunta: ela está conseguindo? Alguns elementos negativos permanecem: baixa popularidade, base instável no Congresso e incapacidade de articular um real ajuste na economia.
Caio na estrada com uma nova operação policial se destacando: a Zelotes. No programa matinal da CBN, disse que a operação estava convergindo com a Lava-Jato. Mas o tempo em rádio é curto. Parecem tratar de temas diferentes, mas convergem, no momento, para o mesmo alvo: Lula. A Lava-Jato revelou o papel de seu amigo Bumlai. Ele teria recebido R$ 2 milhões do lobista Fernando Baiano, com o argumento de que iria pagar despesas da nora de Lula.
Bumlai apareceu numa entrevista pouco convincente. Disse que pediu dinheiro emprestado ao lobista. Lobista não empresta assim, todos sabemos.
E disse que estranhava a existência de um crachá no Palácio do Planalto permitindo seu acesso irrestrito. “Por que o crachá não estava comigo?” Bumlai deveria saber que é mais seguro um documento na portaria do que um ambulante crachá irrestrito do Palácio. No episódio da Zelotes, a compra da Medida Provisória 471 em favor de alguns produtores de carro acabou atingindo a empresa esportiva de outro filho de Lula.
Sem ter nenhum vínculo com o setor, a empresa lobista destinou ao filho de Lula, segundo a polícia, R$ 2,4 milhões para um trabalho de marketing esportivo. Secretário de Lula, Gilberto Carvalho disse que o lobista era um velho amigo do presidente e poderia ter usado essa amizade em seu favor, sem que Lula soubesse.
Lula disse a mesma coisa sobre Bumlai: é possível que tenha usado meu nome sem meu conhecimento. Voltamos ao “eu não sabia” de 2005. Só que agora, as evidências são muito fortes. Bumlai era uma pessoa especial, não há informação sobre outro crachá desse tipo em toda a República. Como Lula iria ignorar a presença de um lobista no curso da medida provisória se ele fez reuniões com Gilberto Carvalho e era amigo de longa data do ex-presidente?
Trabalho com o que leio nos jornais e blogs. Neles é possível conhecer a acusação e intuir a linha de defesa. O que me parece convergir nas operações Lava-Jato e Zelotes é o fato de que recolheram evidências o bastante para que os episódios não fossem negados. O caminho da defesa é reinterpretar dados conhecidos. Algo como: aconteceu, mas não é bem isso que vocês estão pensando. Quantas vezes em romances, novelas e até programas humorísticos alguém, instintivamente, se defende com o “não é bem isso que você está pensando”? De um modo geral, com raras exceções, costuma ser exatamente o que você está pensando. Com todos os fatos, desde a Lava-Jato até a mais recente Zelotes, o país está diante de um conjunto de acusações muito sólido. Se a onipresença da corrupção não pesar nos fatores para afastar um governo, ela coloca, pelo menos, a questão primordial, que independe de ritmos: Dilma deve cair?
No papel de analista, não preciso responder a isso. Como indivíduo, respondo sim, ao lado de milhões de outras pessoas. Se o país negociar com esse turbilhão de fatos degradantes e apenas seguir em frente como se nada tivesse acontecido, o preço a pagar, embora irredutível a números , será um grande desencanto. A tática de deixar Dilma sangrar até 2018 pode ser perigosa: os próprios vampiros perigam chegar exangues, após três anos de vacilação. E um cenário possível é a vitória de alguém de fora do sistema político. Como já aconteceu em alguns países, recentemente com a eleição do humorista Jimmy Morales, na Guatemala.
Tivemos essa experiência com Collor. Talvez tenha nos vacinado. Em crises passadas, os mais importantes políticos do Brasil se reuniam buscando uma saída, pensando também na sobrevivência da espécie. Agora, nem isso. Navegamos nas brumas. Dilma não consegue governar, a sociedade não consegue derrubá-la. E esse jogo não pode ser 1 a 1. Todos perdemos. Talvez ela e Eduardo Cunha sintam-se vitoriosos apenas por sobreviver. O Brasil merece mais do que uma vida apenas vegetativa.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 01/11/2015
Bookmark and Share