quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

VEREADOR É MORTO A TIROS

O vereador Geraldo Cardoso Gerpe, do PSB, foi morto a tiros na noite dessa quarta-feira, em Magé, na Baixada Fluminense. O autor do crime está foragido.  
O vereador, conhecido como "Geraldão", foi surpreendido pelo homem armado, por volta das 22h, no estacionamento da Câmara Municipal da cidade. Ele havia descido para buscar um documento no carro.
Um policial civil que estava no local presenciou a ação e ainda trocou tiros com o assassino, que fugiu após acertar dois tiros no vereador, ferido na cabeça e no ombro.
Geraldo Cardoso Gerpe era empresário e se elegeu em 2012 com 2.316 votos.  
O vereador havia se licenciado para assumir uma das pastas da Prefeitura, mas, no ano passado, retornou ao cargo.  
Geraldão, que tinha 41 anos, vinha presidindo uma comissão especial de investigação sobre supostas irregularidades nos salários dentro da Prefeitura.  
O homem que atirou contra o vereador dentro do estacionamento teria pulado um muro para acessar o local, segundo testemunhas.
A Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense faz buscas pelo suspeito de assassinar o vereador Geraldo Cardoso Gerpe, do Partido Socialista Brasileiro, em Magé.
Mais assassinatos  
Geraldão é o quarto vereador assassinado em Magé nos últimos nove anos. Antônio Carlos da Silva Pereira, o "Tunico Pescador", do PMDB, foi morto em 2012; em 2007, a vítima foi o vereador Dejair Correia, do PDT.  
Em 2006, dois homens assassinaram o parlamentar Carlos Alberto do Carmo Souto, do PSC.
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

ALGUMA VERDADE

Artigo de Fernando Gabeira
A exigência de ouvir a verdade era ao mesmo tempo uma crítica à sucessão de mentiras do grupo de Nixon e uma aspiração de milhões de jovens americanos. O tempo passou, revolução digital no meio do caminho, e hoje é possível afirmar que o pedido de Lennon transcendeu a juventude: é um amplo desejo social.
O caso do governo Nixon contra Lennon tem relação com o Brasil de hoje. Embora incurso em outros artigos do Código Penal, o governo do PT nesses 12 anos tem a mesma recusa em aceitar a verdade. Independentemente de nuances políticas, governos ilegais não têm outro caminho senão construir uma narrativa de fuga, um cipoal de álibis. Essa incapacidade de nos dar alguma verdade parece incomodar dois quadros importantes do partido: Patrus Ananias e Jaques Wagner.
Nessa virada de ano, como se cumprissem uma promessa de réveillon, disseram: um, que o PT precisava pôr a mão na consciência; o outro, que o PT se lambuzou no poder. É uma reação tardia. Durante tanto tempo, a mão esteve no bolso dos brasileiros, estranho que só agora se desloque para a consciência. Jaques Wagner disse alguma verdade ao afirmar que o PT se lambuzou no poder. Mas o fez de forma tão hábil que parecia atenuar a culpa por ser um réu primário.
O PT teria chegado ao poder e reproduzido as práticas que condenava nos outros. Acontece que isso é apenas um fragmento da realidade. O PT, como nunca antes na História, transformou a corrupção num instrumento de governo e base para se perpetuar no poder. Fundos de pensão, estatais, empreiteiras, teles, tudo passou a ser fonte de recursos. Os aliados foram comprados no Mensalão e ganharam lugares estratégicos para saquear a Petrobras.
O PT montou um esquema que produziu fortunas. Sua passagem pelo governo, além de tornar a prática sistemática e abrangente, fez da corrupção no Brasil um tema internacional com desdobramento em várias cortes. Possivelmente, a tática dos dois quadros políticos, diante das resistências internas, é apenas uma proposta gradativa da verdade. É uma tática que só funciona quando o poder é o único a deter a realidade dos fatos. Mas hoje eles são públicos, através de dados da polícia, delações, reportagens investigativas.
A imagem que me vem à cabeça é a do colégio de freiras Stela Matutina, onde minha mãe estudou. As alunas tinham de tomar banho de camisola. Jamais se viam os corpos, apenas sombras, contornos, saliências. Eram virgens, os corpos nus eram um segredo pessoal. Mas a realidade histórica desnudou o PT. Por que revelar a varejo o que todos conhecem por atacado?
O gigantesco esquema montado pelo PT mudou a própria maneira como a sociedade vê a corrupção. Nos últimos dias do ano, a PF informou que houve um rombo de R$ 5 bilhões no Postalis. O tema desapareceu como se fosse a luz de um foguete no réveillon. Não foi adiante porque R$ 5 bilhões parecem ser uma mixaria diante das cifras gigantescas.
Um governo pode ser sincero e até meio incompetente. Mas, quando escolhe o caminho ilegal e domina o espaço político, o estímulo ao cinismo se propaga como um rastilho. Foi criado no Brasil um partido das mulheres que só tem homens e uma única mulher como presidente. Uma observadora da ONU, em entrevista sobre as Metas do Milênio, detectou essa jabuticaba. Mas o fato passou batido como o rombo do Postalis. Um sólido bloco masculino propondo um partido das mulheres e sendo reconhecido é apenas mais um dado do cotidiano. Ficou tudo um pouco desconexo, os vínculos se dissiparam, e hoje o campo da política tornou-se um obstáculo ao debate racional. Gira em torno de si mesmo. O pior é que as escolhas econômicas indicam o abismo. O PT quer produzir um vôo da galinha para se salvar nas eleições de 2016.
A galinha não consegue voar, mas eles descobriram algo para lhe dar asas: as reservas monetárias do país. Querem metade delas, cerca de US$ 174 bilhões. Falaram também que a China vai nos ajudar com empréstimos. Dois dias depois, parece que a notícia chegou lá: a bolsa chinesa desabou com relatos de queda na produção industrial. Nossos potenciais salvadores estão em dificuldades. O uso das reservas terá repercussão negativa nos mercados.
Insistir no que deu errado achando que um dia dará certo, fugir da verdade quando todos pedem um encontro com ela, é uma escolha histórica. Nixon, pelo menos, renunciou. No último momento, de alguma forma, assumiu a verdade.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 10/01/2015
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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

EMPRÉSTIMO INVESTIGADO

Além de aprofundar a investigação em torno de empréstimo de R$ 375 milhões do Banco do Nordeste (BNB) à Itaipava para a construção de uma cervejaria no interior da Bahia, o Ministério Público Federal no Ceará apura possíveis irregularidades em operação do mesmo BNB a uma empresa do ex-governador cearense Cid Gomes. Com o dinheiro recebido do banco, Gomes ergueu um galpão na sua cidade para alugá-lo. Adivinha para quem a empresa de Cid alugou o galpão? Itaipava.
Da coluna Expresso - Época
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A VOZ DA NOVA GERAÇÃO

Da IstoÉ
Uma cena marcou a 17ª edição da Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro. Durante uma sessão de autógrafos em uma tarde de setembro de 2015, mais de duas mil pessoas gritavam, choravam e se aglomeravam em um salão do Riocentro, na zona oeste da capital carioca, para chegar o mais perto possível de uma autora. A responsável pela histeria, no entanto, não era uma escritora consagrada, nem uma celebridade da televisão ou do cinema, mas sim uma curitibana de 22 anos que atende por Kéfera Buchmann. Talvez você nunca tenha ouvido esse nome, mas um teste pode comprovar a projeção que ele ganhou nos últimos meses: pergunte para qualquer pré-adolescente ou jovem entre 10 e 17 anos se ele a conhece e provavelmente nenhum dirá que não. Kéfera é a pessoa física com o maior número de seguidores no portal de vídeos YouTube no Brasil. Ela soma sete milhões de inscritos em seu canal “5inco Minutos”, onde posta semanalmente vídeos bem-humorados sobre assuntos do cotidiano. Para se ter ideia do sucesso da jovem, uma paródia que ela fez do clipe “Bang”, da cantora Anitta, atingiu o terceiro lugar entre os vídeos mais vistos no YouTube em 2015. Arrebatando multidões e faturando cifras altas, Kéfera lidera o fenômeno dos YouTubers no País, jovens que produzem vídeos para a internet falando o que pensam e estão fazendo a cabeça de milhões de adolescentes. São a voz da nova geração.
A admiração por Kéfera já ganhou ares de idolatria. Cada foto sua no Instagram ou frase no Twitter gera milhares de comentários logo após a postagem. Quando vai ao shopping ou a restaurantes, ela é reconhecida pelos fãs, que, assim como os tietes de grandes celebridades internacionais, têm até um nome de identificação: kélovers. Sua fama, no entanto, é paradoxal. Enquanto milhões a veneram, a maioria da população não faz ideia de quem ela seja. “Eu acho isso engraçado”, diz Kéfera. “O público que vê televisão pode não me conhecer, mas quem faz, diretores e atores, conhece.” Na lista dos ilustres desconhecidos brilha outro nome, o de Christian Figueiredo, 21 anos. Ele tem dois canais que somam quase sete milhões de inscritos, dois livros lançados (sendo que um deles vai virar filme) e contratos publicitários com grandes marcas. Atual garoto-propaganda de uma empresa de telefonia celular, na peça publicitária para TV o jovem aparece valendo-se da sua própria condição. “Tenho milhões de fãs nas redes sociais. Você ainda não me conhece? Tá precisando de mais internet aí, hein?” Também tem contrato de exclusividade com uma marca de refrigerantes. O tamanho do sucesso de Christian pode ser medido não só pelo número de seguidores, mas também pelas contas criadas para reverenciá-lo. Só no Facebook são 97 páginas. Para se ter idéia, um dos principais galãs globais, Cauã Reymond, tem 92. Christian tem uma equipe de 10 pessoas, entre editores, assessores, empresário, designer e advogado. Seus vídeos são um festival de caretas, tons de voz jocosos e muitas piadas, principalmente sobre relacionamentos entre meninos e meninas. “Sempre busquei ser original. É a junção do meu próprio jeito de ser com escolher temas que não costumam ser muito falados”, diz.
Assim como os outros YouTubers que aparecem nas páginas desta reportagem, Christian segue uma fórmula de ouro, segundo o diretor de parcerias de conteúdo do YouTube no Brasil, Eduardo Brandini. “É a autenticidade na forma de se comunicar. Eles têm vocação de conseguir conversar com a audiência e falam de assuntos que os públicos querem consumir e não encontram em outros lugares.” São temas essencialmente ligados à realidade dos jovens e sem os pudores que a televisão impõe. A liberdade de ter seu próprio canal permite que esses novos ídolos juvenis falem palavrão, tratem de sexo com naturalidade e bom-humor e façam piadas e brincadeiras ouvidas normalmente apenas em rodas de conversa. Falam a mesma e exata linguagem de quem os assiste. “A gente produz pensando só no nosso público. Na TV não é assim. Há muita preocupação em agradar anunciantes e se faz um conteúdo voltado pra isso”, diz Mauro Morizono Filho, 18 anos, o Japa, cujo sucesso foi uma virada em sua vida. “Sempre fui o excluído da turma, tive que mudar de escola três vezes. Sofria bullying e tive uma fase antissocial. No canal mostro meu lado doido, hiperativo e sem noção.”
A impressão de que qualquer garoto ou garota pode se filmar falando o que quiser, colocar os vídeos no YouTube e atingir milhões de views só faz aumentar a idolatria dos jovens por essas webcelebridades. Para Celso Figueiredo, doutor em comunicação e professor de mídias digitais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a nova geração se identifica porque esses ídolos são atingíveis. “Se eu admiro o Neymar, quais são as chances de eu ser como o Neymar? Se eu admiro a Kéfera, quais são as chances de eu ser como a Kéfera? Para o jovem, parece muito mais fácil ser YouTuber do que jogador de futebol”, diz. Esse foi o raciocínio do paulistano Leo Bacci, 23 anos, que começou a assistir aos YouTubers PC Siqueira (pioneiro entre os vlogueiros brasileiros), Kéfera e Christian Figueiredo e pensou que poderia fazer o mesmo. Os amigos davam risada de suas piadas e elogiavam as imitações, principalmente quando a vítima era a própria mãe. Criou o canal Bom Dia Leo em 2013 e hoje tem mais de 500 mil inscritos. O vídeo mais popular é justamente o que brinca com o dia em que a mãe lhe pediu ajuda para usar o smartphone. Fala muito sobre sexo, já gravou sobre tipos de camisinha e o dia que a menstruação da ex-namorada atrasou. Histórias de baladas e pegação também são constantes. “Trato de situações que fazem parte da vida dos garotos, mas levo para o lado engraçado”, diz.
O bom-humor faz parte de todos os canais de grande sucesso. Os assuntos e brincadeiras normalmente se limitam a amenidades do cotidiano e são claramente feitos para divertir. Não é comum ouvir desses YouTubers análises mais complexas, mesmo porque não é a isso que eles se propõem. Um ponto fora da curva é Julia Tolezano, 24 anos, a Jout Jout, que ficou bastante conhecida com um vídeo sobre relacionamentos abusivos. Ela é a mais popular entre os pós-adolescentes por tratar de temas adultos: trabalho, dinheiro, violência contra a mulher. Já filmou, por exemplo, sobre a pressão vivida por mulheres para terem filhos, entre outros temas da pauta feminista. Mas não é menos bem-humorada por isso. E apesar de seu número de seguidores não a colocar no topo da lista - no YouTube são 600 mil -, faz vídeos que reverberam nas redes. É o que se chama de “influenciadora”. Por saber o peso que suas palavras têm ao chegar ao público, diz tomar cuidado com o que fala para não ofender ninguém. “Tenho medo de fazer algum discurso de ódio que vai criar um desconforto", diz. Fora isso, não tem qualquer limitação sobre temas. “Tem dias que vai ter funk, dancinha, em outros feminismo, estupro, amamentar em público, meu pé... Eu preciso dessa liberdade.”
Com a explosão na web, os YouTubers se tornaram marcas que valem milhões. Kéfera não revela quanto fatura por mês, mas admite já ter comprado um carro e imóveis (assim mesmo, no plural) com o dinheiro que juntou até hoje. Em outubro, o site americano Social Blade chegou a calcular que ela ganha até US$ 98 mil mensais. Grande parte dessa quantia provém de contratos com marcas famosas que pagam para que ela anuncie seus produtos. Jout Jout também faz vídeos pagos, assim como outro ídolo da internet, Lucas Feuerschütte, 25 anos, o Luba. Mas Kéfera ainda é o maior fenômeno entre todos. De um ano para cá, lançou uma autobiografia, o livro “Muito Mais que 5inco Minutos” (Editora Paralela), que já vendeu mais de 300 mil cópias; criou uma loja virtual onde vende produtos com o logo do canal ou desenhos de Vilma Teresa, cachorra pug tão famosa quanto a dona; estrelou a peça “Deixa Eu te Contar”, que teve sessões em diversas capitais brasileiras; e agora deve atuar em pelo menos três filmes, um deles produzido por Daniel Filho, da Globo. Também pretende lançar o segundo livro, produtos licenciados como cadernos e chaveiros com seu rosto estampado e até uma linha de comida congelada saudável. Se você ainda acha que a febre dos YouTubers é só uma onda, é bom estar preparado para um tsunami e começar a acessar os canais das webcelebridades. Essa é a língua da nova geração.
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CONVERSA COM MATARAZZO

Marina Rossi, El País
Na entrada do escritório do vereador e líder do PSDB na Câmara de São Paulo, Andrea Matarazzo, que fica em um prédio que leva seu sobrenome, há um busto de um bisavô dele. No fundo da sala de reuniões, há um retrato de outro titio Ciccillo Matarazzo, o criador da Bienal de Arte de São Paulo. As tradições que o nome da família do pré-candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo carrega atravessam mais de um século na cidade.
A política, no entanto, não é a mais forte dessas tradições. Andrea Matarazzo diz ser o único com o sobrenome nesse segmento, ignorando deliberadamente o ex-senador Eduardo Matarazzo Suplicy. Ele diz ainda que está pronto para contrariar outra tradição neste ano, a de que o partido do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não faz prévias para escolher seus candidatos. Devem entrar na disputa com Matarazzo, prevista para ocorrer em 28 de fevereiro, os deputados Bruno Covas e Ricardo Trípoli, o senador suplente José Aníbal e o empresário João Doria, que conta com o apoio do governador paulista, Geraldo Alckmin.
Matarazzo chegou com pontualidade para esta entrevista e pouco depois se mostrou à vontade. Fez piadas com os coxinhas, a alcunha vulgar à parte da elite que se opõe ao PT, e demonstrou não ser supersticioso: "Pode me chamar de prefeito", afirmou, no meio da conversa. Se acreditasse em superstições, lembraria-se do dia em que, na véspera das eleições de 1985, FHC, então candidato à prefeitura de São Paulo pelo PMDB - na época o PSDB ainda não existia - sentou-se na cadeira do prefeito para posar para jornalistas. Foi derrotado por Jânio Quadros (PTB), que desinfetou a cadeira com uma lata de inseticida assim que empossado.
P. O também pré-candidato pelo PSDB João Doria já está fazendo campanha para as prévias. Como o senhor está articulando a sua campanha dentro do partido?
R. Estou há 25 anos no PSDB. E desde 1995, quando eu entrei no Governo Mario Covas [governador de São Paulo entre 1995 e 2001], eu venho conversando com os diretórios. É um processo contínuo de convivência, de articulação, de participação com o partido. Eu fui secretário do Covas, depois fui subprefeito da Sé, secretário de Serviços e de Subprefeituras e fui secretário de Cultura. O relacionamento com o Diretório Municipal é quase permanente.
P. Por que o senhor quer ser prefeito de São Paulo?
R. Primeiro porque eu nasci e me criei aqui. Eu tenho paixão pela cidade. E, desde que fui subprefeito, conheci uma outra São Paulo, que é a São Paulo real, dos problemas. E quanto mais eu fui conhecendo a cidade, mais eu fui me interessando também por perceber que é possível fazer uma transformação muito grande na cidade pra melhorar a vida de todos os paulistanos. A vida do paulistano é muito difícil, muito ruim. Obviamente que se você não sai do quadrilátero da avenida Paulista com a Faria Lima, a Nove de Julho e a Rebouças, você pode achar até que está numa cidade razoável. Mas se você olhar São Paulo, vai ver que está numa cidade muito desigual, onde metade da população vive em condições desumanas.
P. Se nas prévias - que acontecerão no dia 28 de fevereiro - outro candidato for eleito pelo partido, o senhor tem um plano B? Seria candidato por outro partido?
R. Não. Meu objetivo é ser prefeito de São Paulo agora em 2016.
P. Pelo PSDB?
R. Pelo PSDB. Isso uma vez concluído, eu consagro a minha carreira pública.
P. Se João Dória for eleito o candidato do partido, o senhor vai fazer campanha para ele?
R. Eu farei campanha para o PSDB com qualquer candidato que tivesse identidade com o PSDB, tanto no seu ideário, quanto na sua história.
P. Dória tem identidade com o PSDB?
R. Não sei. Não conheço o suficiente. Nunca tive convivência partidária com ele. Não posso saber.
P. O senhor sendo candidato, quem seria mais difícil para o senhor derrotar?
R. [O prefeito] Fernando Haddad (PT-SP), porque ele tem a máquina na mão, porque a chapa de vereadores do PT é muito forte, tem uma militância muito aguerrida na cidade.
P. A Marta Suplicy (PMDB-SP) não preocupa o senhor?
R. Não.
P. Pelo atual cenário dos possíveis candidatos, é possível que as eleições municipais de São Paulo sejam definidas na periferia...
R. Não acho. O eleitor vai querer ver quem consegue resolver o problema dele. O eleitor de cada lugar vai avaliar isso.
P. Mas o senhor não acha que as zonas mais nobres da cidade estão com menos problemas em relação a essa administração?
R. Não. Todos os lugares da cidade estão com muitos problemas em relação a essa administração porque a cidade está muito abandonada. A parte de zeladoria está realmente esquecida. A limpeza de bueiro, a drenagem da cidade está toda suja e por isso alaga. Chove pouco e já alaga muito. A limpeza de praça e a limpeza pública estão muito ruins. É a primeira vez que eu vejo a cidade ruim em todos os seus aspectos e em todas as suas regiões. Você pode dizer que tem um ou outro ponto [da atual administração] que pode ter agradado a uma pequena parcela da população.
P. Essa parcela da população seria a que vive em áreas mais nobres?
R. Não digo mais nobres. Os jovens de classe média do centro expandido, por exemplo. As ciclovias agradam uma parte da cidade. Mas é um programa tão malfeito, que poderia ser muito melhor, poderia ser útil para 100% das pessoas.
P. O senhor anda de bicicleta?
R. Ando de motocicleta. A ciclovia pode ser uma boa pista de caminhada também. É que se criou uma cultura aqui que não houve treinamento do ciclista. O ciclista aqui se acha intocável. Acha que pode tudo, pode passar na faixa de pedestre. Tinha que ter um treinamento para o pedestre, para o ciclista e para o motorista. Campanhas publicitárias esclarecendo, ensinando, [afinal], é um novo modal [circulando] na cidade. E hoje em dia a quantidade de pedestres é enorme. Cadê as calçadas? Estão completamente abandonadas. Falta política pública importante. O Haddad foi muito reducionista. Ele trata a cidade como se os únicos problemas de São Paulo fossem ciclovias, saquinho de supermercado – se põe ou não põe – ou se  abre ou fecha a avenida Paulista.
P. Tem algum ponto positivo nessa administração?
R. Não vejo.
P. Nenhum?
R. A criação da corregedoria. Isso foi uma boa medida. [em maio de 2013, a gestão Haddad criou a Controladoria Geral do Município (CGM) para prevenir e combater a corrupção na gestão municipal. A CGM é dividida em quatro áreas de atuação: Corregedoria Geral do Município, Ouvidoria Geral do Município, Coordenadoria de Auditoria Interna e Coordenadoria de Promoção da Integridade Pública]
P. Falando na periferia. O senhor acha que essa parcela da cidade se identificaria com o senhor?
R. Eu nunca tive problemas com isso. Acho que as pessoas se identificam com quem entende, compreende e resolve os problemas delas. Não vejo nenhum problema neste aspecto. Até porque eu sempre fui muito autêntico, nunca criei um personagem pra ir pra periferia. E para mim, sempre foi uma coisa natural. Até na minha vida empresarial, porque antigamente tínhamos fábricas na periferia. Para mim, São Paulo é uma São Paulo só, mas o que eu percebo é que o poder público olhou São Paulo de uma forma diferente: [de um lado] uma área do centro expandido que, bem ou mal levou infraestrutura para o século 20, embora não tenha chegado ao século 21; [e do outro] a periferia e seu entorno, que deixou a infraestrutura no século 19 e as pessoas vivendo nas piores condições que você dificilmente vê nas periferias de Salvador ou de cidades africanas.
P. Em uma eventual gestão do senhor, a periferia seria a prioridade?
R. Sem dúvida nenhuma. Políticas públicas voltadas para a regularização fundiária, que é coisa fundamental na cidade, e resolve não só o problema da segurança da pessoa ter o seu lote, como reduz a questão de invasões e melhora a questão de mobilidade. Porque na hora em que você tiver a zona sul regularizada, você vai ter grandes magazines, lojas, comércio e atividade econômica lá. Hoje o comércio não vai [para a periferia] porque não consegue ter o habite-se de um imóvel.
P. O senador José Serra, que te apoia dentro do seu partido, publicou um post no Facebook recentemente falando que a Paulista aberta era um absurdo, o impedia de chegar na casa de um amigo, ninguém usava... Esta política de abrir a avenida para pedestres aos domingos seria mantida em um eventual Governo do senhor?
R. Não está nas minhas prioridades. Não sei te dizer. Precisa fazer uma pesquisa com quem mora no entorno, para saber o grau de incômodo que aquilo cria no entorno. Acho que incomoda. Para quem mora por ali deve ser bem chato.
P. A Paulista é um símbolo. Há outras avenidas que têm recebido essa política.
R. Muito poucas. É tudo restrito ao centro. A Paulista está a mil metros do Parque Ibirapuera. E dentro dela tem o Parque Trianon. Do outro lado tem o Parque Buenos Aires. As calçadas têm cinco metros. Não é um problema. Quando você sai do centro expandido, vai ver que há outras regiões que não têm onde as pessoas andarem nem saírem.
P. Então essa seria uma política que o senhor levaria para a periferia?
R. Sem dúvida. Quando você vai para Cidade Tiradentes você vê que não tem nem calçada para a pessoa andar. São Paulo é muito grande. Cada região é uma região com situações muito diferentes.
P. O que o senhor acha da implantação de corredores e faixas de ônibus na cidade?
R. Prioritário. É a única coisa que pode melhorar o trânsito da cidade. Mas que infelizmente essa gestão não conseguiu fazer.
P. Por quê?
R. Não sei, porque encalharam todos os projetos. As faixas de ônibus são mais uma coisa que precisa ser bem analisada. É preciso levar em conta que São Paulo, fora do centro expandido, o comércio é todo em cima de avenidas. E o comércio é a grande atividade econômica na periferia. Então é preciso tomar um pouco de cuidado, porque quando você coloca a faixa de ônibus à direita, e proíbe estacionamento e carga e descarga, você cria um transtorno e desemprego. De novo: planejamento. É preciso ter discussão. Aqui na Câmara, você tinha o plenário cheio [nos dias de debate sobre o tema]. E não era cheio dos coxinhas. Era a periferia.
P. Quem são os coxinhas?
R. Ué, nós, os Jardins.
P. O João Doria disse que é a favor da intervenção mínima do Estado e que venderia o Pacaembu, Interlagos e o Anhembi....
R. Eu não vou comentar a visão dele.
P. Tudo bem. Mas o senhor é a favor da intervenção mínima do Estado, assim como ele?
R. Imagina. Intervenção mínima você pode ter sei lá, nos Estados Unidos, que é um país feito. Uma cidade com a desigualdade que nós temos, você vai fazer transporte de massa livre? Há linhas que simplesmente não existirão, porque não interessam a ninguém. Como as pessoas vão se virar com creche? O mercado vai regular? Isso é uma bobagem. Mas, falando do Pacaembu, é um estádio no meio de um bairro residencial. Alguém para explorar aquilo tem que fazer shows. Você vai fazer shows todos os dias no meio de um bairro residencial? O estádio do Pacaembu tem que ser o grande centro de referência de esporte da cidade.
Errata: Primeiramente, foi publicado que o busto, na entrada do prédio do escritório de Andrea Matarazzo era dele. O busto é, na verdade, de um bisavô do vereador tucano, que também chamava-se Andrea Matarazzo.
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domingo, 10 de janeiro de 2016

QUANDO A MEDICINA SE ENGANA

Da Época
Poucos momentos expõem tanto a fragilidade humana quanto sentar na frente do médico e aguardar, ansiosamente – mãos cruzadas sob a mesa, pernas irrequietas, pensamentos suspensos –, o veredicto derradeiro. Se o caso é simples, parece não haver razão para grandes preocupações. Diagnóstico dado, tratamento definido, assunto encerrado. Fica a sensação reconfortante de que reparar o corpo humano é algo objetivo como consertar um carro. Para cada situação, haveria uma conduta prevista no manual. Se o caso é um pouco mais complicado e oferece muita incerteza nos desdobramentos, apegamo-nos à crença na pretensa infalibilidade da medicina moderna. Afinal, os tratamentos nunca foram tão avançados. Nunca se pesquisou tanto. Nunca houve tantos dados sobre a eficácia das técnicas. Nunca se soube tanto sobre possíveis efeitos colaterais. Então, por que a medicina tantas vezes volta atrás e descobre, como que do nada, problemas sérios em tratamentos em que confiamos por tanto tempo?
O recente trabalho de dois médicos americanos, o clínico geral Adam Cifu e o oncologista Vinay Prasad, mostra que a crença mecanicista no funcionamento do corpo e a fé quase espiritual na medicina são grandes equívocos de expectativa dos pacientes. Eles sugerem que o conhecimento médico não progride de forma tão linear quanto gostaríamos. No dia a dia da prática médica, há uma dose incontornável e pouco mencionada de incerteza. Isso é natural em qualquer ciência biológica – organismos vivos, como nós, reagem o tempo todo, de maneira inesperada e pouco compreendida, a uma infinidade de fatores. Por isso, o canadense William Osler, considerado um dos grandes clínicos modernos, definiu a medicina como “uma ciência de incerteza e uma arte de probabilidade”. Médicos não são deuses, são humanos e, por mais preparados e dedicados que sejam, são necessariamente falíveis, como todos nós. Erram – e esses erros não raro custam vidas.
O trabalho de Cifu e Prasad expõe um tipo de erro pouco conhecido dos pacientes. Não se trata daquele erro mais óbvio, quando o médico receita remédio para uma doença que não existe – ou nem sequer descobre a doença. Trata-se do que, tecnicamente, muitas vezes nem é considerado erro: a adoção de procedimentos sem rigorosa e consistente base científica. A decisão de qual técnica cirúrgica ou qual medicamento recomendar em determinado caso é uma escolha que, por definição, comporta riscos para o paciente. Se o médico não segue a melhor ciência disponível, o paciente não recebe o melhor tratamento disponível.  O problema, para os médicos e, sobretudo, para os pacientes, é que a construção desse conhecimento científico é muito mais imperfeita do que se supõe – e do que deveria ser. Esse fato pouco explorado explica muito do nosso sofrimento nos consultórios médicos.
Uma equipe liderada pelos dois pesquisadores americanos analisou mais de 2 mil estudos sobre técnicas cirúrgicas, eficácia de medicamentos e precisão de exames. Dos 363 artigos que testavam uma prática já adotada pelos médicos nos consultórios e nos hospitais, 40% sugeriam que as técnicas não funcionavam tão bem quanto os estudos iniciais apontavam. Ou pior: ofereciam riscos maiores ou que não haviam sido contemplados a princípio. A conclusão preocupa. Depois que falhas são descobertas, pelo cruzamento de vários estudos ou pela comparação com outras técnicas, costuma ser tarde. Os procedimentos foram incorporados ao cotidiano médico e pacientes expostos a riscos desnecessários ou tratamentos ineficazes.
Para piorar a situação, médicos, como quaisquer profissionais, tendem a cultivar hábitos, preferências e rotinas. Quando um novo estudo aponta ineficácia ou risco numa certa conduta já estabelecida, os profissionais de saúde ainda podem demorar muito a abandoná-la. Isso foi mostrado num levantamento publicado no ano passado pela equipe do intensivista canadense Daniel Niven, no Jornal da Associação Médica Americana. Os pesquisadores analisaram os registros de mais de 350 mil pacientes internados em unidades de terapia intensiva (UTIs) dos Estados Unidos entre 2001 e 2012. Perceberam que, após a publicação de um estudo em 2001 sugerindo que o nível de açúcar no sangue dos pacientes deveria ser mantido rigorosamente dentro de um parâmetro, houve a adoção da prática nas UTIs. Mas o protocolo não foi deixado de lado a partir de 2009, quando uma nova pesquisa foi divulgada indicando que o controle rigoroso, na verdade, parecia associado a mais mortes – por mais estranho que possa parecer, e, por mais que ainda não haja boas explicações para essa constatação, é o que a melhor ciência diz. “Devemos pensar em ações concretas para promover o abandono de uma conduta, em vez de confiar que a informação será transmitida de maneira difusa e passiva após a publicação do estudo”, escreveram os autores.
Essas reviravoltas – quando a medicina volta atrás na indicação de procedimentos, drogas e exames – não escolhem especialidade médica nem nacionalidade. Anti-inflamatórios que entram e saem do mercado são usados por pacientes no mundo todo, como é o caso do Vioxx. Ele foi lançado em 1999 e tornou-se bem difundido – até a fabricante retirá-la do mercado, cinco anos depois, porque novos levantamentos mostraram que ele aumentava o risco de infartos e derrames. Recomendações contraditórias sobre a necessidade ou não de fazer exames para procurar tumores na próstata confundem igualmente americanos e brasileiros. A partir dos anos 1980, os médicos incentivavam os homens a medir no sangue uma proteína que poderia apontar a presença de tumores na próstata. Em 2012, um painel de especialistas americanos passou a recomendar que  não se fizesse mais o rastreamento: ele não diminuía significativamente as mortes e poderia induzir ao tratamento desnecessário de tumores não tão perigosos assim. O tratamento, esse sim, poderia causar dano permanente, como incontinência urinária e impotência sexual. A orientação de abandonar o rastreamento foi endossada no Brasil pelo Instituto Nacional de Câncer, o Inca, mas contestada pela Sociedade Brasileira de Urologia. No ano passado, um estudo mostrou que caiu o diagnóstico precoce de câncer de próstata nos Estados Unidos. Isso fez os especialistas se questionar: a recomendação contra o rastreamento teria ido longe demais, a ponto de colocar os homens em risco? Em meio ao debate científico, os pacientes se sentem inseguros. A lentidão natural da ciência parece cruel para quem precisa de respostas rápidas.
No livro Ending medical reversal (Como acabar com os reveses médicos, na tradução para o português), lançado nos Estados Unidos em setembro e sem edição no Brasil, Cifu e Prasad elencam uma coleção de exemplos como esses, capazes de tirar o sono dos pacientes – e dos médicos também (leia o quadro à página 55). “Se algum médico disser que nunca prescreveu um procedimento ou uma droga cuja indicação foi revista, está mentindo”, diz Cifu, professor da Universidade de Chicago. Ele diz que já incorreu em sua porção de revés médico ao receitar, durante a década de 1990, terapia de reposição hormonal para mulheres no período da menopausa. Em 2002, um estudo com 16 mil voluntárias mostrou que o tratamento oferecia, junto com os benefícios, um aumento gritante de perigos. Ele aumentava em 41% o risco de acidentes vasculares cerebrais, em 29% o de ataques cardíacos e em 26% o de câncer de mama. Eram números altos o suficiente para alarmar médicos como Cifu.
Parece difícil entender como práticas que podem oferecer riscos graves foram incorporadas ao repertório médico. E por que o procedimento continua a ser recomendado mesmo quando os riscos foram revelados. Nos Estados Unidos, os autores afirmam faltar regulamentação mais rigorosa. “Se a técnica não usar uma droga ou um aparelho novo, não precisa passar pela aprovação do órgão que regula medicamentos e dispositivos médicos”, diz Vinay Prasad, professor da Universidade de Ciências Médicas do Oregon. “Precisamos de uma agência médica para controlar a aprovação também de procedimentos.” No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regulamenta o uso de novas drogas e aparelhos, com base em estudos que comprovem a eficácia e afastem riscos. A responsabilidade de autorizar novos procedimentos é do Conselho Federal de Medicina (CFM), que analisa pesquisas e consensos internacionais. “Uma comissão avalia os estudos. Se as normas foram cumpridas, dá o reconhecimento científico para a técnica”, diz o médico Carlos Corrêa Lima, presidente do CFM.
Há alguns poréns. Não é raro esses estudos deixarem de revelar limites na eficácia ou todos os efeitos colaterais de uma nova técnica, exame ou medicamento. No mundo ideal, todos os estudos a embasar decisões de órgãos como o CFM deveriam ser os mais bem elaborados, com os métodos mais rigorosos e os padrões mais altos de referência. Nem sempre, contudo, estudos desse quilate estão à disposição. Esperar até que eles surjam pode significar, também, adiar a adoção de bons tratamentos.
Além disso, há a limitação natural da ciência. Por maior que seja o número de voluntários a participar de uma pesquisa, e por mais bem feito que seja o estudo, ele não conseguirá simular o mundo real. Parte dos problemas só aparecerá depois de o tratamento ser levado à população.
Um segundo tipo de problema é menos filosófico e mais fácil de resolver, caso o poder público queira enfrentá-lo. “Os fabricantes conduzem a maioria dos estudos clínicos e podem elaborá-los de maneira a favorecer o produto”, afirma Prasad. Os custos de pesquisas clínicas abrangentes são altos, difíceis de ser bancados por universidades e outras instituições independentes. A maioria delas é custeada por empresas – ou seja, os dados ficam sujeitos a interferências. Os métodos escolhidos podem não ser os melhores e os resultados apresentados podem ser selecionados, para que pareçam mais animadores.
Um levantamento divulgado em 2013 pela agência do governo alemão que avalia novas tecnologias em saúde, a IQWiG, apontou que 60% dos dados descobertos pelas empresas durante testes com drogas foram omitidos  dos artigos científicos divulgados publicamente. Ficaram de fora algumas conclusões sobre efeitos colaterais e os casos em que o tratamento não foi tão eficaz. “Os estudos são altamente financiados e os resultados divulgados duvidosos”, diz Wanderley Marques Bernardo, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
Soma-se a essas falhas o viés dos próprios periódicos científicos, publicações especializadas usadas pelos médicos para se informar. Estima-se que os estudos que trazem boas notícias têm o dobro de chance de ser aceitos para publicação. “As revistas científicas sobrevivem à custa do financiamento da indústria, não dos assinantes. A prioridade é divulgar novidades, não críticas”, afirma Bernardo, da USP. Ele coordena um projeto da Associação Médica Brasileira, chamado Diretrizes, para reunir as melhores evidências sobre procedimentos de todas as especialidades médicas. O objetivo é ajudar os profissionais a tomar decisões com base em dados confiáveis. As melhores evidências vêm de levantamentos que compilam os resultados de várias pesquisas, o que ajuda a reduzir distorções de estudos isolados.
Muitas vezes, esses levantamentos refinam o que se sabe sobre um procedimento, as indicações de uso e as contra-indicações, sem negar totalmente sua eficácia. Esse esforço só tem valia se o médico acompanhar as novidades. “O médico tem o dever de se manter atualizado”, afirma Lima, do CFM. “Fica a cargo dele a indicação do tratamento, respeitando as novas recomendações.” É o caso da terapia de reposição hormonal, citada pelo americano Cifu. A Federação  Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia recomenda a reposição hormonal para diminuir consequências do período da menopausa, desde que seja feita uma avaliação cuidadosa do histórico da paciente e dos riscos para ela. O Inca sugere que a terapia seja usada se estritamente necessária e pelo menor tempo possível, por aumentar o risco de câncer de mama.
Essa análise criteriosa antes da indicação de intervenções nem sempre é feita com o cuidado necessário. Por praticidade ou por confiança excessiva na própria experiência, muitos médicos seguem uma tática simplista – adotam uma técnica sem as restrições necessárias ou deixam de usá-la completamente. “Temos uma cultura do tudo ou nada: ou uma técnica faz bem para todo mundo ou mal para todo mundo”, afirma o reumatologista Moacyr Nobre, diretor da unidade de epidemiologia clínica do Instituto do Coração, em São Paulo. Não raramente, a balança pende para a indicação excessiva. “Há a pressão do marketing da indústria para vender drogas e aparelhos médicos como se beneficiassem a todos e não apenas a um subgrupo de pacientes”, diz Nobre.
Os stents, pequenos tubos que abrem vasos entupidos por placas de gordura, são um exemplo de superindicação. Usados desde os anos 1980, salvam um número incontável de pacientes cujo coração parou de receber sangue adequadamente. Mas o uso excessivo tornou-se um problema – e um mercado de US$ 10 bilhões por ano no mundo. Pesquisas sugerem que, em casos  de doença coronariana crônica, quando há vasos obstruídos, mas sem infarto, a colocação de stents não aumenta a expectativa de vida. “Se o médico estimular a percepção das pessoas de que o stent salva vidas nesses casos, vira uma festa”, diz o cardiologista Maurício Wajngarten, de São Paulo. “Criou-se uma cultura, em parte também por pressão dos pacientes, que estimula os médicos a sugerir mais procedimentos. Acredita-se que o melhor profissional é aquele que sugere intervenções.” Nos casos de doença coronariana crônica, os stents podem ajudar a diminuir dores no peito e aumentar a qualidade de vida dos pacientes. Mas estudos citados por Cifu e Prasad em seu livro sugerem que o desconforto acaba voltando alguns anos após o procedimento. Os autores americanos defendem uma posição radical: nessas situações, o tratamento com remédios pode ter o mesmo efeito, com menor risco. Diante de controvérsias como essas, o paciente deve pedir ao médico que apresente dados e explicações que embasem sua indicação. “Os stents se modernizam e o uso é cada vez mais específico”, diz o cardiologista Pedro Silvio Farsky. “Os novos estudos ajudam a refinar a indicação.”
Foi uma conversa franca com seu médico que fez o ortopedista Mauro Caravaggi, de 66 anos, optar por um caminho difícil, mas eficaz para seu caso – mesmo que isso significasse abrir mão da facilidade dos stents e fazer uma cirurgia complexa de revascularização de áreas do coração. Ele descobriu vasos entupidos durante um check-up de rotina – as raquetes para seus jogos de tênis habituais estavam no porta-malas do carro e um infarto, talvez, à espreita.  Caravaggi poderia colocar stents naquela hora, aproveitando-se do exame, mas o médico o aconselhou a fazer a cirurgia. A extensão da obstrução era muito grande e a anatomia dos vasos complicada. “O médico disse que eu poderia colocar stents se quisesse, mas teria de casar com uma cardiologista para ficar de plantão ao meu lado, porque eles não resolveriam o problema”, diz Caravaggi. Ele fez a cirurgia apenas alguns dias após o diagnóstico e ficou dois meses em recuperação. Hoje, três anos depois, joga tênis até quatro vezes por semana. Continua casado com sua mulher, uma dentista.
A cultura da superindicação tem suas raízes na falta de preparo de muitos profissionais de saúde. Eles não conseguem avaliar adequadamente os novos estudos e fugir de pesquisas tendenciosas. “O médico precisa ser muito aplicado para conseguir avaliar o resultado das pesquisas”, diz a pediatra Edina Koga Silva, coordenadora da pós-graduação em saúde baseada em evidências da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “É um volume muito grande de informações para filtrar e nem todos têm conhecimentos estatísticos para fazer essa análise.” Para ajudar a formar médicos mais preparados para esse tipo de avaliação, o curso de medicina da Unifesp conta com uma disciplina que ensina os princípios da medicina baseada em evidências. É essa área de estudos, criada nos Estados Unidos nos anos 1980, que impulsionou o uso de modelos estatísticos como um dos critérios para embasar a adoção de tecnologias na área da saúde.
À falta de preparo para fazer esse tipo de avaliação, soma-se a maneira viciada pela qual muitos profissionais se informam. “Muitos médicos se atualizam só em congressos e cursos patrocinados pela indústria farmacêutica e de dispositivos médicos”, afirma Miguel Cendoroglo Neto, diretor superintendente do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. “Nesses eventos, eles podem aprender uma técnica que não é a melhor, segundo os critérios da medicina baseada em evidências.” No hospital, a equipe do Projeto Coluna, que trata pacientes com problemas ortopédicos, lida diariamente com as consequências da indicação excessiva. Pacientes encaminhados por convênios médicos e com indicação prévia para operar a coluna são reavaliados por uma equipe de ortopedistas e fisioterapeutas do hospital. Em quase 60% dos casos avaliados até hoje, a equipe discordou do tratamento sugerido aos pacientes inicialmente. Indicações de cirurgias foram revertidas para sessões de fisioterapia ou para procedimentos menos invasivos. “Não sabemos se muitos médicos são mal formados ou se há realmente algum incentivo financeiro para que prescrevam intervenções caras e desnecessárias”, diz o ortopedista Mario Ferretti, gerente do projeto.
O técnico em manutenção Salvador Flores, de 60 anos, passou por três médicos que indicaram que ele fizesse um procedimento para desativar nervos na região lombar que causavam dores havia anos. A equipe do Einstein não concordou com a decisão e sugeriu sessões de fisioterapia e a aplicação localizada de uma medicação. O medicamento era tão eficaz no alívio da dor quanto a técnica sugerida inicialmente a Flores. Cada injeção não custava mais do que R$ 20, enquanto a cirurgia sairia pelo menos R$ 4 mil. As dores de Flores não desapareceram totalmente, mas agora ele leva uma vida normal. “Não tomo mais anti-inflamatórios e tenho menos limitações para fazer o meu trabalho”, diz.
O técnico em manutenção Salvador Flores, de 60 anos. Após sofrer com dores por anos, estava disposto a seguir a indicação de três médicos para desativar terminações nervosas na coluna. A aplicação de uma droga teve o mesmo efeito (Foto: Letícia Moreira/ÉPOCA)
Para quem está do outro lado da mesa no consultório, os pacientes, os reveses na medicina podem soar assustadores. São um lembrete incômodo de que a comunidade científica, a comunidade médica e as agências fiscalizadoras que zelam pela saúde do cidadão são mais falíveis do que poderíamos pensar. Há limites científicos e regulatórios a ser superados, mas os reveses são também um sinal tranquilizador. Eles indicam que nunca se pesquisou tanto nesse campo. E que nunca foi tão fundamental, mesmo em meio a tantos avanços tecnológicos, a figura do bom médico. O maior desafio para os pacientes não é escapar do vaivém da ciência e da influência dos interesses baixos, e sim encontrar quem seja capaz de fazer isso por ele.
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sábado, 9 de janeiro de 2016

OS INTERNOS DO PAVILHÃO

Da Veja
Para Marcelo Odebrecht, é mais um de seus 205 dias em prisão cautelar, situação em que aguarda o desenrolar do processo a que responde por corrupção, fraude e lavagem de dinheiro no escândalo do petrolão. Ele e os outros presos da Lava-­Jato são as estrelas do Pavilhão 6, com suas celas, em geral de 12 metros quadrados, ocupadas por três pessoas. São, portanto, 4 metros quadrados para cada uma - metragem acima dos padrões humanitários da União Europeia e aceitos no Brasil, sem os quais eles estariam sendo submetidos a tratamento degradante.
Caneca de plástico numa mão, tubo de pasta na outra, o interno 118065 tem apenas mais dois colegas de cela. Ele escova os dentes enquanto os outros dois se levantam para usar o "boi", como é chamada no dialeto da cadeia a latrina rente ao chão que fica ao lado do tanque, separada das camas por uma meia parede. Antes que o ralo café da prisão seja servido, o interno 118065 planeja seu dia: exercícios físicos, leitura e anotações.
Desde que a Operação Lava-Jato eclodiu, revelando aos brasileiros o maior esquema de corrupção da história, dezenas de empresários poderosos e alguns dos políticos mais influentes da República enfrentam uma realidade incomum. A tradição de impunidade foi trancafiada. É uma realidade sem precedentes. Marcelo Odebrecht está em companhia de outros catorze presos em sete celas de uma galeria antes reservada apenas a policiais que cometeram crimes. São grandes empresários como ele, executivos, ex-­diretores da Petrobras, lobistas, dirigentes partidários e políticos. Corruptos e corruptores. Tubarões e peixes pequenos envolvidos nos bilionários desvios de dinheiro da Petrobras durante os governos do ex-­presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff dividindo o mesmo espaço e compartilhando a mesma rotina.
O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu é o interno número 119526. Ele divide a cela 602 com o ex-deputado Luiz Argôlo. Preso há 160 dias, Dirceu fez fortuna traficando influência no petrolão. Já Argôlo era um cliente contumaz do esquema. Dirceu passa as horas mergulhado em livros, sendo o mais recente a obra que retrata os primeiros anos de governo do ex-­presidente Fernando Henrique Cardoso. Seus amigos explicam que a leitura de Diários da Presidência é uma forma de estudar os adversários tucanos. Pode até ajudar na formação de caráter, mas a motivação intelectual do ex-­ministro é outra. Dirceu lê e produz resenhas para abater os dias de pena. Condenado a sete anos e onze meses de prisão no escândalo do mensalão, ele sabe que se avizinha uma nova e pesada condenação. Aos 69 anos, o "capitão do time" de Lula intui que suas chances de absolvição são remotas. Deve passar mais um bom tempo atrás das grades. Acusado de corrupção e lavagem de dinheiro, "o cadeieiro", como ele mesmo se define, embolsou 39 milhões de reais em propinas.
Já Luiz Argôlo nunca foi muito afeito a assuntos acadêmicos. Ele até tentou, mas não conseguiu, concluir um curso de administração. Em alguns ramos do conhecimento, a prática de fato suplanta a teoria. Durante anos, ele administrou como poucos a coleta de propina. Era tão eficiente que ganhou da quadrilha um helicóptero de presente. Os 275 dias de prisão, porém, afloraram o seu lado intelectual. Em Pinhais, além de ler livros para abreviar os dias na cadeia, o ex-­deputado se dedica a um curso profissionalizante do Senai. Está aprendendo técnicas de automação. Pensando no futuro, ele se inscreveu no Enem, fez as provas e, na semana passada, aguardava ansioso o resultado. Caso tenha se classificado, a Justiça poderá autorizar sua saída da penitenciária para assistir às aulas em uma faculdade do Estado - dependendo, claro, do comportamento.
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

PROMESSAS DE ANO NOVO

Charge do Amarildo

A poupança teve a maior fuga dos últimos vinte anos, mais de R$ 53 bilhões de reais foram retirados das contas de poupança em 2015.
A inflação, grande vilã até a metade dos anos 90, começou sinalizar há dois anos que estava de volta, fechou 2015 em 10,67%.
As pedaladas fiscais que a presidente Dilma negou veementemente na campanha eleitoral de 2014, as quais são base do pedido de impeachment dela, continuaram no ano passado.
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UMA SELFIE

Olha quem sentou à mesa dos brasileiros neste fim de ano? Tirou até uma selfie com a presidente Dilma. Ela mesmo, a inflação que esteve desaparecida por algum tempo, mas, nos últimos anos iniciou seu retorno, e chega em dezembro de 2015 a 10,67%.
Charge do Casso
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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

ORDEM DE SAÍDA

O recém-eleito presidente da Argentina, Maurício Macri, está revendo a presença do país sul-americano no canal de propaganda multiestatal Telesur. O novo ministro de Comunicações e Conteúdos Públicos da Argentina, Hernán Lombardi, disse que está realizando “auditorias de choque” em todas as áreas com “resultados no prazo de 15 dias”, e assegurou que serão denunciados os programas de comunicação onde supostamente se cometeram delitos.
A informação foi divulgada no domingo (27/12) pelo ministro, conforme o site da Radio del Sur.
Há 10 anos transmitindo seu sinal sob o slogan Nosso Norte é o Sul, a Telesur é um projeto de propaganda política criado pelo líder da Revolução Bolivariana, Hugo Chávez, e pelo comandante da Revolução Cubana, Fidel Castro, e recebe apoio financeiro da Argentina, Bolívia, Cuba, Equador e Nicarágua. Seu objetivo é promover o socialismo do século XXI através de um meio que exalta as atividades dos governos socialistas. A representante do país no canal, cuja transmissão é feita na Venezuela, é Carolina Silvestre, esposa do dirigente kirchnerista Juan Carlos Dante Gullo.
Lombardi também anunciou a criação de um novo manual de estilo da mídia pública para “restaurar o objetivo dos meios de comunicação públicos que estava adormecido por trás da propaganda socialista”.
Mauricio Macri também mandou suspender imediatamente o canal de TV Senado, meio de comunicação que transmitia as sessões do Senado e algumas reuniões de comissões, que incluía entrevistas com senadores aliados de Cristina Fernández de Kirchner, um programa de notícias e um programa semanal sobre culinária.
Na quinta-feira (24/12), a polícia argentina invadiu a sede do Serviço de Comunicação Audiovisual (AFSCA), entidade encarregada de silenciar toda e qualquer mídia crítica ao regime, equivalente à Supercom do Equador. Macri ordenou o desalojamento do organismo e, por decreto, a saída de Martín Sabbatella, presidente da Afsca, cujo mandato se encerraria em 2017.
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VENDE TUDO

Gil Alessi, El País
João Doria Jr., do PSDB, quer ficar conhecido como “João dos Bairros”. Aos 58 anos de idade, o empresário, que chegou a apresentar o reality show O Aprendiz, quer ‘demitir’ o prefeito Fernando Haddad (PT) nas eleições municipais de 2016. Para assumir a cadeira do petista, e se cacifar como o nome do PSDB na disputa, Doria tenta tomar o “banho de povo” que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que a legenda precisava.
Sentado em uma das salas do edifício-sede do Grupo Doria, na zona oeste de São Paulo, vestindo uma camisa branca com o monograma azul-escuro “J. D. J” no bolso, o empresário recebeu o EL PAÍS neste final de dezembro. Além de ter afirmado que caso eleito não disputará a reeleição ("faremos quatro anos vibrantes que valerão por oito"), o pré-candidato tucano voltou a dizer que doará seu salário de prefeito para instituições do terceiro setor. Além de Doria, o vereador tucano Andrea Matarazzo também já anunciou que quer a vaga do partido para disputar a prefeitura, e o primeiro turno das prévias da legenda, que escolherão o postulante tucano para 2016, estão marcadas para 28 de fevereiro.
Pergunta. Um dos seus adversários na luta pela vaga do PSDB na disputa do ano que vem, o Andrea Matarazzo, tem uma base forte de vereadores além do apoio de caciques do partido. Ele tem a máquina da legenda a seu favor. Isso não o intimida?
Resposta. Ele tem a máquina e eu tenho o sentimento. O sentimento da militância tem sido muito fortalecido nas inúmeras visitas que fiz [aos diretórios do partido]. Nos últimos meses já foram 68 bairros, 51 diretórios, dos 58 do PSDB. Os outros sete visitarei em janeiro. Eu entendo que o Andrea é um bom candidato, que merece respeito, tanto ele quanto um eventual outro que possa vir pela frente, não está fechada essa possibilidade. Mas eu sou muito determinado, e sigo a orientação e a instrução de gastar sola de sapato, amassar barro, ir ao encontro da militância, ouvir mais do que falar, ter contato com eles... E isso está funcionando muito bem.
P. O PSDB costuma ter muita dificuldade no chamado cinturão vermelho da cidade, composto pelos bairros periféricos que tendem a dar ao PT maioria de votos…
R. Primeiro que o cinturão não é mais vermelho. Ele foi, hoje não é mais. A disruptura foi feita não por ação do PSDB, mas por ineficiência na gestão do PT. O desastre da gestão petista no Governo Federal influiu muito na ruptura desse cinturão, na decepção dessa população que vive hoje a amargura do desemprego ou a ameaça do desemprego. Esse eleitorado hoje vive a inflação, são pessoas que faziam compras no mercado com determinado valor e hoje compram menos da metade, e essa decepção rompeu o cinturão vermelho.
P. Você e o Andrea Matarazzo são empresários. Não teme que esse fato afaste esse eleitorado?
R. A Marta Suplicy [possível candidata do PMDB para a prefeitura] é tão Matarazzo quanto o Andrea. Tão Suplicy quanto a família Suplicy. E nem por isso ela é mal avaliada nas periferias. Ela é uma pessoa com um passado e uma trajetória na qual, contrariando seus dois sobrenomes, foi uma prefeita com boa penetração nas bases populares. Eu não vejo em que sobrenome ou endereço possam comprometer atitudes. E não vejo que seja preciso ter atestado de pobreza para ser bem avaliado pela população mais simples da cidade. É preciso ter propostas, e capacidade de olhar e corresponder ao voto de confiança da população.
P. Como o PSDB pode se aproximar desse eleitorado das periferias?
R. É seguir o exemplo de Mário Covas: ir ao encontro deles, estabelecer compromissos viáveis e não mentir. E buscar fazer uma gestão, quando eleito, muito próxima da população, sobretudo a mais simples e a mais sofrida da cidade. Não existe a menor possibilidade de que, caso eleito, eu seja um prefeito engravatado estacionado dentro do gabinete do Viaduto do Chá. Vai falhar quem fizer isso... Pode ter a maior sabedoria, ser o mais profundo conhecedor da cidade, se fizer isso [ficar no gabinete], vai falhar.
P. Como você avalia a gestão do prefeito Fernando Haddad?
R. Tenho uma relação republicana com o prefeito. Não somos inimigos, somos adversários. Respeito sua trajetória de vida, acadêmica principalmente, é um bom professor. Até aqui me pareceu uma pessoa honesta, com bons princípios, mas não é vocacionado para ser um bom gestor. Ele não é um gestor. É um bom professor ocupando a prefeitura de São Paulo. Como gestor ele falhou, a gestão da cidade não foi boa, e não sou eu quem diz, são as pesquisas que mostram que ele tem uma avaliação muito ruim em todas as classes: A, B, C, D e E.
P. Uma das bandeira dele foram as ciclovias. Como você avalia essa política pública de mobilidade?
R. É uma política acertada, eu vou defender a manutenção das ciclovias. O que eu tenho como crítica é que houve uma implantação acelerada, houve um açodamento nessa implantação com o objetivo de alcançar metas de quilometragem de ciclovias, e nisso vários equívocos acabaram sendo cometidos. Primeiro teve um efeito no custo, o mau planejamento sempre estabelece custos mais elevados. Depois, ciclovia e ciclofaixas colocadas em áreas onde não há ciclistas ou áreas de risco para ciclistas, pedestres, transeuntes e até usuários de outros veículos. Imaginar que em várias áreas da cidade as ciclofaixas estão pintadas em cima de calçadas... Talvez nem ele saiba, porque como ele não frequenta a periferia, ele talvez não saiba que vários quilômetros de calçadas foram pintadas como ciclofaixas. Mas o programa é bom, é uma boa iniciativa e será mantida.
P. Vários municípios e Estados do país, inclusive São Paulo, enfrentam uma grave crise fiscal, não têm dinheiro para investir. Como fazer uma boa gestão sem caixa?
R. É possível. Principalmente fazendo aquilo que o PT não sabe fazer. Não sabe e não gosta de fazer uma gestão enxuta. O PT só sabe fazer gestão gorda e com muitos recursos. Recursos lícitos e recursos ilícitos. Os lícitos são mal aplicados no setor público. Os ilícitos, que deveriam ir para o setor público, vão para o bolso de parlamentares, secretários e tesoureiros do partido, que pautam sua vida de forma irregular, corrompendo a máquina pública e a cidadania brasileira.
P. Mas de onde a Prefeitura pode tirar dinheiro para investir?
R. Eu defendo o Estado mínimo, e vou fazer isso. A Prefeitura vai vender tudo aquilo que não for essencial para a gestão pública e a assistência à população que mais precisa. Vamos começar vendendo o estádio do Pacaembu, o autódromo de Interlagos e o parque de convenções do Anhembi. Numa mostra clara e definitiva de que o Estado não pode e não deve estar onde ele não é necessário. Quem deve administrar estes locais é o setor privado. Vamos vender e vamos vender bem, por valores que representam a dimensão física dos espaços e sua importância. E vamos aplicar os recursos onde são necessários. Principalmente saúde, educação e creches.
P. Caso eleito, qual será sua primeira medida como prefeito?
R. Voltar a velocidade normal nas marginais [Haddad reduziu a velocidade máxima nas vias expressas], para dar uma declaração clara do absurdo que foi feito, da falta de consciência e de planejamento. Isso vai ser uma demonstração clara de mudança e transformação. Nas marginais, as velocidades vão voltar ao que eram antes.
P. De acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), após a implantação da medida as mortes no trânsito caíram 18,5% no primeiro semestre de 2015…
R. A razão não foi essa. A queda ocorreu fundamentalmente devido à redução sensível do número de veículos transitando nas marginais. A volta da velocidade normal será uma demonstração clara da busca da eficiência de colocar São Paulo na dimensão de uma megametrópole.
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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

SALÁRIO ATRASADO

Belo Horizonte - A gestão Fernando Pimentel (PT) só vai quitar no dia 13 o salário dos servidores de Minas relativo a dezembro, por falta de recursos em caixa. O Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público do Estado de Minas Gerais (Sindpúblicos) reclama de falta de diálogo por parte do governador. Os servidores do Executivo são os únicos com atraso nos vencimentos - os do Legislativo e do Judiciário já receberam o pagamento.
Segundo o diretor-administrativo do Sindpúblicos, Claudio Utsch, o comunicado do atraso, feito no sábado, 2, foi "desrespeitoso". "Questionamos ao sr. governador, Fernando Pimentel, sobre sua forma de dialogar com os servidores estaduais. Em uma campanha cujo slogan era 'ouvir para governar', os sindicatos não foram atendidos sequer uma vez por V. Exa. É desrespeitoso publicar uma nota em um sábado a tarde, em meio um feriado nacional, avisando os servidores sobre o atraso no pagamento", afirma o sindicalista, também em nota. Segundo a assessoria do Estado, o governo não falará mais sobre o assunto.
No comunicado do dia 2, a informação era que "tal situação (o atraso) se deve às dificuldades financeiras ora enfrentadas pelo Estado de Minas Gerais, que registrou, sobretudo em 2015, forte redução da arrecadação de ICMS, tal como o restante dos estados brasileiros". O texto diz ainda que "como tem feito desde o início da gestão, o governo continuará levando ao conhecimento da sociedade mineira, com total transparência, a situação orçamentária do Estado de Minas Gerais e as medidas que se fizerem necessárias para seu melhor enfrentamento. E, assim, conta com a compreensão de todos diante do grande desafio em curso, enfrentado por todo o país, para regularização das finanças estaduais".
A alteração para o dia 13 tem como objetivo esperar a entrada no caixa do estado da primeira das três partes mensais do ICMS -o principal imposto dos estados-, o que normalmente acontece no dia 10. Os rumores de que o estado poderia atrasar o pagamento dos salários tiveram início no final do ano passado. Houve dúvidas inclusive sobre a possibilidade de que o problema já ocorresse em relação ao 13o, que só foi depositado no dia 22 de dezembro. Conforme legislação estadual, o benefício, em Minas, tem que ser pago até 31 de dezembro. Na iniciativa privada, o valor, caso a empresa faça a opção pelo repasse em parcelas, precisa chegar ao trabalhador em 30 de novembro, a primeira, e 20 de dezembro, a segunda. Em caso de depósito de uma só vez, o pagamento deve ocorrer em 10 de dezembro.
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FIM DO BOLSA EMPRESÁRIO

Depois de despejar R$ 362 bilhões até 2014 em empréstimos subsidiados do BNDES para a compra de máquinas e equipamentos, o governo encerrou o PSI (Programa de Sustentação de Investimentos) no final do ano passado com uma conta para pagar de pelo menos R$ 214 bilhões.
A maior parte desse valor (R$ 184 bilhões) entrará na contabilidade da União como dívida pública.
O restante (R$ 30 bilhões) terá de ser coberto pelo Tesouro até 2041 para compensar a diferença entre os juros pagos pelo BNDES à União na captação dos recursos (mais elevados) e as taxas cobradas dos tomadores dos empréstimos (abaixo da inflação).
Conhecido ironicamente como "Bolsa Empresário", o PSI não ofereceu à economia um estímulo à altura dos desembolsos realizados desde 2009, quando o programa foi criado para ajudar a tirar o país da crise global.
Os benefícios foram pontuais em alguns setores e maiores para grandes empresas, que normalmente têm acesso a outras fontes de financiamento.
Por meio da Lei de Acesso à Informação, a Folha obteve as planilhas de quase 1 milhão de empréstimos do PSI, que liberou R$ 362,3 bilhões, entre 2009 e 2014, cobrando juros abaixo da inflação. Os dados de 2015 ainda não foram fechados.
A análise deste material revelou que 1% dos 315 mil beneficiados concentrou 56% dos empréstimos, cerca de R$ 203 bilhões. Desse grupo só fizeram parte grandes empresas e até empresários.
Um universo ainda mais restrito desse grupo, com as 31 maiores empresas, ficou com R$ 54 bilhões. Para eles, os juros foram ainda mais baixos e os prazos para pagar mais elásticos.
A campeã individual de crédito foi a Petrobras, maior empresa do país, que pegou quase R$ 4 bilhões. No momento em que a estatal foi forçada pelo governo a manter o preço da gasolina abaixo do valor real, a companhia tomou R$ 1 bilhão com juros de 3% ao ano para pagar em 10 anos, começando só após o segundo ano (carência).
Uma centena de grandes empresários, a maioria do agronegócio, também recorreu ao PSI. Entre eles está Erai Maggi. Conhecido como o "rei da soja", ele conseguiu R$ 297,6 milhões. A ex-prefeita de Campos de Júlio (MT), Claides Masutti também está na lista. Ela perdeu o cargo recentemente por distribuir churrasco a eleitores.
CONTROVÉRSIA
Economistas divergem sobre a política de juros subsidiados. Uns a defendem como forma de estimular a indústria e o crescimento nacional. Outros afirmam que ela agrava as contas públicas.
A análise dos dados macroeconômicos mostrou que o aumento dos empréstimos do PSI não significou um crescimento proporcional de benefícios para a economia.
Existe pouca relação entre os recursos liberados pelo programa e a geração de emprego, renda e até o investimento dos tomadores.
"O subsídio infla artificialmente o retorno de um investimento. Se ele for suficientemente alto, qualquer projeto de investimento torna-se viável. Mesmo aqueles que não deveriam ser financiados", diz Vinicius Carrasco, economista da PUC-RJ.
Para as empresas, o PSI permitiu antecipar investimentos. O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega chegou a defender o programa no Congresso. Disse que, sem ele, a recessão atual seria mais grave.
Já para Carlos Oberto da Costa, fazendeiro de Unaí (MG), que tomou R$ 26 milhões no BNDES, ninguém precisa de subsídio. "A gente precisa é de juro adequado."
DÍVIDA
O governo nunca teve dinheiro para financiar o PSI. Para levantar os recursos, vendeu títulos públicos na praça pagando até 14,5% (Selic). Esse dinheiro foi repassado ao BNDES a uma taxa que variou entre 5% e 7% (TJLP). Só essa diferença de juros deu R$ 184 bilhões de defasagem, no final de 2014.
Mas o governo decidiu que, em vez de pagarem pelo menos o mesmo que o BNDES, as empresas tomadoras de empréstimos teriam juros de até 2,5%. O Tesouro teria então de cobrir essa diferença, fazendo a "equalização".
Por praticamente quatro anos, no entanto, o governo ficou sem pagar a equalização ao BNDES, um atraso conhecido como "pedalada". Só no final de 2015, quitou cerca de R$ 30 bilhões.
Restam ainda outros R$ 30 bilhões a serem pagos até 2041. O valor pode aumentar, dependendo dos juros até lá.
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

LUTANDO CONTRA SI PRÓPRIO

Artigo de Fernando Gabeira
Tenho alguns escrúpulos, escrevendo sobre o Rio. Faz pouco tempo que disputei duas eleições com o grupo no poder. Temo parecer parcial, ou complacente, com medo de ser parcial. Mas vivo aqui. A situação se complicou. Estamos no ano de um grande evento internacional. As Olimpíadas foram conquistadas num momento de euforia com o crescimento. A ideia era projetar o Brasil como um poderoso país emergente.
As chances de vitória nas eleições de 2010 eram quase nulas. Aproveitei para tocar em alguns temas essenciais. Um deles, a precariedade de nosso sistema de saúde pública. Entrei em muitos hospitais, as vezes sem autorização. Expus uma situação dramática. Na época, as UPAS surgiram como uma alternativa. Só restava lembrar que não eram uma solução para todo o problema, como por exemplo as pessoas jogadas em macas, esperando meses por uma operação. Nem resolviam, por exemplo, a grande falta de neurocirurgiões tão necessárias em vítimas de acidentes.
Outro tema essencial dizia: fugir da dependência do petróleo. A experiência dos que confiaram era desalentadora. O caminho teria sido usar os royalties para criar alternativas. Vieram juntos, praticamente, a crise econômica e o escândalo na Petrobras. A crise atinge a todos da mesma maneira. Mas o declínio da Petrobras e dos negócios na sua órbita atinge diretamente o Rio. Para não falar de outro dado desfavorável: a queda do preço internacional do petróleo. Chegamos assim ao ano das Olimpíadas, acossados pela crise e empobrecidos com o declínio da Petrobras.
O grupo no poder contou sempre com seus aliados no Planalto. É a algo perverso mas é real no Brasil: o governo sempre ajuda mais quem o apoia. Mas o governo também entrou em parafuso. Seu poder de ajudar os amigos decaiu. Só em novembro, produziu um déficit de R$ 21,3 bilhões. Não terá mais fôlego. O Brasil optou pelas Olimpíadas disposto a mostrar o seu vigor como país, queria que todos vissem o despertar de uma força mundial. Aconteceu um desencontro. O tempo passou, e o momento de nos mostrarmos ao mundo coincide com a maior crise das últimas décadas.
Vale uma discussão franca entre eles, os que estão no poder, sobre como realizar uma Olimpíada não com as fantasias do passado, mas com a dura realidade de agora. É uma discussão que interessa a todos. O sofrimento das pessoas que buscam emergências ou cirurgias é intolerável. O sistema de saúde pública está em colapso.
O Instituto Estadual do Cérebro, dirigido pelo Dr. Paulo Niemeyer, não pode fechar. É essencial aos habitantes do Rio e importante até para milhares de atletas que vêm competir. Como conciliar tantas necessidades? As Olimpíadas são uma questão nacional. Quando está em jogo a imagem do país, todos podem perder ou ganhar. Quando circulam notícias negativas sobre o Brasil nem sempre se faz distinção entre governo e povo: é o país.
A Baía de Guanabara está sendo criticada por atletas estrangeiros. Mais um caso antigo. Desde 1980 faço programas do tipo SOS Baia. Em 92, houve um alento do Banco Mundial. E a Baía continua suja, apesar da Copa do Mundo. E agora, torna-se mais visível ainda nos testes olímpicos.
A essa altura, as Olimpíadas são irreversíveis. Podem até trazer oxigênio para a combalida economia do Rio. Mas precisam ser discutidas e repensadas nas novas circunstâncias.Não existe o precedente de um país que faça as Olimpíadas numa crise como a do Brasil. No entanto, o país conseguiu realizar a Rio 92 com um presidente já cambaleante. Collor caiu em seguida. Se acontecer algo com Dilma, os observadores estrangeiros vão concluir que derrubamos presidentes, mas sempre com uma monumental festa de despedida.
Os Jogos Olímpicos têm uma dinâmica e uma engrenagem próprias e são medidos, principalmente, pela eficácia de sua realização. Inebriados em seus sonhos de poder, os que os trouxeram para cá, não contavam com as trapaças do tempo e, na verdade, nos legam um delicado problema para 2016.
O ano se acabou com as pessoas sofrendo nas portas fechadas das emergências. Tocou o alarme. O Brasil não pode ser o favorito na modalidade salto maior que as pernas. Outro dia, filmei um cartaz que vi no chão de um pátio dos bombeiros em Lençóis: “não se esqueça de ligar o fio terra”. É um um voto de ano novo. Se o mundo político e o governo se deslocam do chão, os choques são inevitáveis. Alguns passam da carga máxima suportável, como foi o caso no Rio.
Não será um ano fácil. Viveremos grandes tensões, sobretudo porque quem está no poder quer continuar tocando o barco, apesar dos visíveis sinais de fracasso. Para viver esse tempo é preciso acreditar que não criamos problemas insolúveis, em termos históricos. Há saídas. Não estão no governo, mas na sociedade. Pelo menos, viveremos um ano em que o verbo superar será conjugado até a exaustão pelos atletas mundiais. Nem todos sabem que o país em que os jogos se realizam também precisa superar-se. Tomara que nos inspirem.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 03/01/2016
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MARATONA NO ESCURO

Artigo de Fernando Gabeira
O ano que começa hoje não é dos mais promissores. É um desses em que você diz “feliz ano-novo”, mas reconhece que é apenas uma maneira de dizer: as chances são escassas.
O ano velho terminou com uma vitória do governo no Supremo. Alguns consideram a salvação de Dilma. Se estivesse na UTI e fosse salvo por gente usando frases em latim, desconfiaria. Na penumbra do quarto pode soar como uma extrema-unção. Mais complexo, o impeachment dará tempo a ela para respirar. Resta saber o que fará com essa dose extra de oxigênio.
A troca de ministros na economia nos confunde. Caiu Joaquim Levy, subiu Nelson Barbosa. O discurso é de continuidade e o mercado parece não confiar nele. Já as forças que defendem Dilma parecem confiar no que diz o novo ministro e lamentam seu discurso. Com a manobra Dilma descontentou, simultaneamente, quem a apoia e quem a rejeita.
Indiferente às opiniões, a realidade marcha no ritmo implacável da lama de Mariana.
Crescem a inflação e o desemprego, Estados e municípios começam a dar sinais de quebradeira. Aqui, no Rio de Janeiro, a crise eclodiu na saúde, atingindo os mais pobres num momento de vulnerabilidade, buscando socorro médico nas emergências.
Este é o ano da Olimpíada. O colapso do sistema de saúde o inaugura. A festa foi programada num momento de euforia com o Brasil e com o petróleo. De lá para cá veio a a crise econômica. No caso específico do Rio, vieram o petrolão, com a ruína da Petrobrás, e as quedas no preço internacional do petróleo.
Em 2010 tive a oportunidade de mostrar a fragilidade da saúde pública no Rio, visitando hospitais, com ou sem autorização do governo. Incompetência e corrupção se entrelaçavam e os governantes escaparam com as UPAs, algumas replicadas ao longo do País como uma grande saída . Todos sabiam que não eram em si a solução.
No momento em que optaram pela Olimpíada no Rio, os governantes queriam projetar o poder de um Brasil emergente. Havia dinheiro e empreiteiras para tudo. Grande parte desse dinheiro já foi gasta. Impossível reverter o processo. O realmente necessário, no entanto, não foi procurado: a resposta a como tocar a Olimpíada num momento de crise profunda; e como evitar que o Estado se desintegrasse, num campo essencial como o da saúde.
Jamais neguei o potencial de uma Olimpíada para o turismo e a economia brasileira. Menos ainda seu papel de projetar um soft power, uma cultura e um estilo de vida do País. Mas um evento dessa magnitude pode revelar exatamente o contrário do que pretendem os políticos. Ele dramatiza a nossa fragilidade. A Baía de Guanabara está sendo projetada pelos atletas que treinam nela como um espaço imundo e perigoso.
Num ano em que os esportes olímpicos se preparam para grandes recordes, nas ruas do Rio vivem-se modalidades mais sinistras: parto na calçada, chacina de adolescentes. O governo do Rio encostou-se no petróleo e na aliança com Dilma. O petróleo caiu, Dilma apenas respira. Foi tudo vivido como se os royalties fossem crescentes e eternos.
Entramos no ano da Olimpíada com uma retaguarda problemática, manchas comprometedoras em nosso traje de gala. E somos os anfitriões.
Esse é um dos nós de 2016. Assim como os outros, já estava rolando no ano velho, mas agora o Rio passa a ser uma agenda internacional. Não apenas o Rio, mas o Brasil.
Não é fácil atrair a atenção do mundo, com esperanças de projetar poder, num Estado atingido pela combinação da crise com o escândalo na Petrobrás. Como realizar a Olimpíada despojado da visão delirante do passado, respeitando as condições reais, sem humilhar uma população vulnerável, que depende do serviço público de saúde?
A Olimpíada ficou um pouco deslocada, como se ela se desenrolasse num mundo à parte, blindado contra a crise.
De um ponto de vista político, é preciso reconsiderar tudo. A imagem de um país esbanjando progresso ficou no passado. A pergunta que todos farão é esta: como se faz Olimpíada num país em recessão, com milhões de desempregados e emergências, universidades, hospitais de ponta, como um moderno hospital do cérebro, fechados por falta de grana?
Foi um projeto nacional de grupo dominante. Dilma terá de buscar também essa resposta, aproveitando os momentos em que respira.
A qualquer instante pode voltar a asfixia paralisante. E a Olimpíada está aí. O Brasil será o foco de interesse internacional num dos momentos mais difíceis de sua História.
Sempre se começa um ano com festas e promessas. Só depois examinamos os desafios que nos esperam. A Olimpíada é, ao mesmo tempo, uma grande festa e um desafio.
Nadamos pelados na maré alta e quando ela baixa convidamos todos a nos olhar. É uma das operações de risco em 2016.
É o ano que concentrará o maior banco de dados sobre a corrupção no Brasil. Inúmeros depoimentos virão, novas investigações serão feitas, a história secreta do poder vai sendo escrita pela Operação Lava Jato e outras da Polícia Federal.
Nunca as engrenagens e os mecanismos do sistema político ficaram tão claras. O volume de dados, a claridade, tudo isso tem um poder de combustão incalculável, ao longo do ano.
Ano de imprevisíveis eleições municipais. Até que ponto a crise nacional não influirá nelas? Até que ponto a ruína das prefeituras não vai produzir maciças alternâncias? Como o resultado de todo esse enigma influenciará de novo a crise nacional?
Ano de eleição, costuma ser ano de gastança. Um governo que apenas respira, precisa produzir um novo voo de galinha na economia, uma nova ilusão de crescimento. Mas a galinha está alquebrada e precisa de um ano sabático.
O Brasil pode terminar 2016 mais pobre, como preveem os economistas. O consolo é prever que cada vez o País saberá mais, cada vez acumula mais elementos para ousar a mudança.
Artigo publicado no Estadão em 01/01/2016
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sábado, 2 de janeiro de 2016

AS PEDALADAS E A DEMOCRACIA

Editorial de O Estado de S.Paulo
Diante da evidência de que as pedaladas fiscais praticadas pela presidente Dilma Rousseff configuram crime de responsabilidade fiscal – o parecer unânime do Tribunal de Contas da União (TCU) não dá margens a qualquer tipo de dúvida quanto a isso –, vem surgindo uma tentativa canhestra de desqualificar o pedido de impeachment da presidente da República atualmente em análise pelo Congresso Nacional. Reconhece-se o descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal, ou seja, admite-se o crime, mas procura-se tratá-lo como algo menor, incapaz de servir de fundamento para o impeachment.
Ao tratar as pedaladas fiscais como mero pecadilho, essa enviesada argumentação quer fazer crer que a retirada da presidente eleita pelo povo com base no argumento de crime de responsabilidade fiscal seria um castigo desproporcional. Vende-se a ideia de que se trata de uma punição severa demais para um simples escorregão, e que o precedente acarretaria séria instabilidade para os futuros governantes. O impeachment, afirmam os defensores dessa tese, deveria ser usado apenas em casos “graves”, como o fechamento do Congresso pelo Exército por ordem presidencial.
Tal argumentação cai por terra, no entanto, quando se analisam os fatos e a lei. A presidente Dilma Rousseff não é acusada de um mero descuido na gestão fiscal. O fundamento jurídico para o impeachment é a prática voluntária e reiterada de atos que ferem a Lei de Responsabilidade Fiscal.
A defesa da presidente Dilma apresentada no TCU comprova sua plena consciência a respeito das pedaladas fiscais, fato esse corroborado por seus discursos. Ela não diz que não “pedalou”. Ela insiste em dizer, à revelia da lei, que podia e devia “pedalar”.
O descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal está longe de ser um “crime menor”. Afinal, refere-se ao modo como os governantes devem gerir o dinheiro público. Dizer que as pedaladas fiscais não têm muita importância é o mesmo que defender uma gestão arbitrária dos recursos públicos, à revelia da lei. Além dos graves danos causados à economia do País – basta ver a atual recessão brasileira –, uma política fiscal irresponsável fere a democracia.
Aqui está um dos sofismas da frágil argumentação a favor da presidente Dilma Rousseff. O pedido de impeachment baseado juridicamente nas pedaladas fiscais seria uma tentativa de fazer prevalecer uma lei “burocrática” – a Lei de Responsabilidade Fiscal – sobre a vontade popular manifestada nas urnas em 2014. Ora, tal disjuntiva é absolutamente falsa.
As pedaladas fiscais significam uma gestão antidemocrática do dinheiro público – e aí reside a sua gravidade. O respeito à Lei de Responsabilidade Fiscal não é um detalhe contábil. Trata-se da garantia de que a gestão do dinheiro público se submete ao crivo democrático.
E é contra isso que a presidente Dilma se rebela. Desejaria poder fazer o que bem entende com o dinheiro público. Isso não é nada democrático. Não basta que o governante não ponha dinheiro público em seu próprio bolso, é preciso gastá-lo respeitando a voz popular expressa na lei.
Também é pernicioso o argumento de que o impeachment com base nas pedaladas fiscais trará instabilidade ao sistema político. É o contrário. Será uma mensagem muito clara a todos os políticos de que o cargo público deve ser exercido de acordo com a lei.
A sociedade já deixou evidente que não quer uma estabilidade institucional de fachada, mantida à custa de esconder os ilícitos embaixo do tapete. A estabilidade alcançada por meio da impunidade é uma falsa estabilidade.
Não pode prosperar a tentativa de matizar os efeitos da lei com vistas a tolerar certo grau de ilicitude na vida pública. Isso é antidemocrático. Essa foi a grande lição para o Brasil quando – desproporcionalmente, diriam os defensores da Dilma – o presidente Fernando Collor sofreu o impeachment por causa de um Fiat Elba. Foi uma vitória da lei, foi uma vitória da democracia.
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