Artigo de Fernando Gabeira
Os dois fatos da semana no Brasil, o massacre de Suzano e a prisão dos matadores de Marielle Franco, inspiram posições firmes. Mas, vistos de perto, são na verdade uma espécie de areia movediça. Na verdade, a imagem que tenho é de um nevoeiro. Como tantas coisas na vida, precisamos navegar nele com cuidado, pois não temos ainda a visão completa da cena.
No caso de Suzano, falou-se na influência dos games? Mas temos poucas pesquisas nesse campo, e não indicam isto até agora. Bullying? Também se fala muito, mas cravar que a causa é bullying, de certa forma, é culpar as vítimas.
Assim como nos Estados Unidos, certamente haverá um debate sobre controle de armas. E os argumentos aqui parecem os de Trump, que aconselha aos professores uma arma de fogo.
O momento ainda é de velar os mortos e buscar o maior número de informações sobre os atiradores. O que se pode obter também, como nos Estados Unidos, é uma espécie de perfil dos criminosos e um inventário de traços comuns entre eles.
O caso Marielle também é um nevoeiro. Fiz um programa de TV sobre o tema, fui ao território das milícias em Gardênia Azul e Rio das Pedras. Confiava no caminho do delegado Giniton Lages, embora não o tenha entrevistado. Conheci Giniton como delegado de Homicídios na Baixada. Eu trabalhava num programa sobre a série de assassinatos de vereadores do interior, mortes que escaparam do radar da grande imprensa.
Alguns foram mortos pelas milícias, depois de serem eleitos por elas. Giniton parecia um conhecedor da ação e das táticas milicianas. Enquanto o visitei, ele conseguiu desmontar um grupo que roubava a Petrobras, não com propinas e superfaturamento, mas na veia: desviava o petróleo dos dutos para vendê-lo na Baixada.
Acontece que, no meio do caso Marielle, Raul Jungmann denunciou que as investigações estavam sendo bloqueadas. Raquel Dodge se mexeu, a própria Polícia Federal decidiu investigar as próprias apuracões da polícia do Rio.
Não pretendo ver muito no nevoeiro. Mas a grande esperança que tinha era no trabalho tecnológico. Por mais planejado que fosse o crime, dificilmente conseguiria despistar a teia de câmeras e o exame da rede telefônica naquele lugar, naquelas horas.
A verdade é que mesmo esse detalhe foi pensado por eles. Compraram um aparelho para neutralizar essas pesquisas que dependem do cruzamento de dados. Mas não funcionou. O telefone de Ronnie Lessa foi detectado dentro do Cobalt no cenário do crime.
Isso pode ser uma ajuda no nevoeiro. Fala-se em delação premiada dos criminosos. Não creio. Confio no mesmo difícil caminho de cruzar ligações, vasculhar contas bancárias, detectar relações comerciais. Ronnie tinha casas caras, carros e barco. A delação premiada, nesse caso, é a lei do menor esforço.
Certamente, existem muitas escaramuças para tornar o nevoeiro mais denso, inclusive a plantação de falsas testemunhas. O ideal seria preservar o caminho tecnológico dessas sabotagens internas.
Será preciso desvendar em toda a sua extensão o chamado Escritório do Crime. Não creio que a fórmula seja decisiva para evitar os assassinatos mercenários. Mas pelo menos joga esse tipo de crime numa fase anterior e desorganizada, reduz sua capacidade.
O atirador Ronnie Lessa morava no mesmo condomínio do presidente Bolsonaro. A promotora afirmou que isto é irrelevante, pois não temos controle sobre a vizinhança. Acho indiscutível esse argumento. Vizinhos são vizinhos. Mas, do ponto de vista da segurança institucional, é preciso mais curiosidade sobre os vizinhos de um presidente que já foi vítima de atentado.
Ronnie é um grande matador, passou por explosões, tiroteios, tinha explosivos na sua casa e importou 117 fuzis, que valem em torno de US$ 1 milhão.
Da varanda de sua casa, ele podia ver a janela do quarto da filha do presidente. Meu argumento é risível para os que estão mergulhados na luta ideológica. Dirão: o perfil do criminoso era o de um grande inimigo da esquerda, jamais faria mal a Bolsonaro.
Entra aí a pequena divergência. Ele é visto como um matador ideológico. Mas, na verdade, é também um matador profissional. Na primeira condição, é inofensivo; na segunda, um perigo como vizinho do presidente de qualquer país no mundo.
Essa vizinhança, independentemente de qualquer ilação, é um dado político no Rio. A cidade é um campo minado.
Pelo menos, houve uma vitória sobre a tese do crime perfeito no caso Marielle. Do ponto de vista criminal, é um estímulo para que o método científico e tecnológico seja mais usado no Brasil. Aqui no Rio, ainda navegamos num nevoeiro. Tudo o que temos agora é o fio da meada, um pequeno rastro de luz.
Artigo publicado no jonral O Globo em 18/03/2019
segunda-feira, 18 de março de 2019
ASSOPRANDO VELINHAS
Hoje é dia de parabenizar a querida senadora, Marta Suplicy. Marta Teresa Smith de Vasconcelos, nasceu em São Paulo, 18 de março de 1945.
Formada em psicologia, Marta apresentou vários programa na tv brasileira, se destacou em seu primeiro programa, o TV Mulher da Rede Globo na década de 80.
Ex-deputada federal - 1995 /1999 - foi prefeita de São Paulo - 2001 / 2005 - e ministra do Turismo - 2007 /2008. Em 2010 foi eleita senadora, primeira mulher a representar São Paulo no Senado.
Perseverante e determinada, Marta Suplicy representa a força da mulher na política brasileira e sua contribuição tem sido de valor imensurável para uma sociedade mais justa e igualitária.
Parabéns, Marta!
Recomendo - O blog Sou Chocolate e Não Desisto recomenda a leitura do livro de Marta Suplicy Minha vida de prefeita - o que São Paulo me ensinou.
Formada em psicologia, Marta apresentou vários programa na tv brasileira, se destacou em seu primeiro programa, o TV Mulher da Rede Globo na década de 80.
Ex-deputada federal - 1995 /1999 - foi prefeita de São Paulo - 2001 / 2005 - e ministra do Turismo - 2007 /2008. Em 2010 foi eleita senadora, primeira mulher a representar São Paulo no Senado.
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Parabéns, Marta!
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domingo, 17 de março de 2019
UMA DÉCADA SEM CLODOVIL
Do Estadão
Em 17 de março de 2009, há exatamente 10 anos, morria o apresentador, estilista e deputado federal Clodovil Hernandes. Conhecido por sua personalidade forte, seus comentários ácidos e seu frequente envolvimento em polêmicas, Clodovil conquistou uma legião de fãs e outra de desafetos ao longo da carreira.
O estilista passou por quase todas as emissoras de TV aberta no Brasil, algumas das quais nem existem mais. Dono de uma personalidade forte, dificilmente conseguia se manter na mesma emissora por muito tempo - e colecionava inimigos por onde passava.
Na Globo, por exemplo, tinha desafetos com Marília Gabriela. Na RedeTV!, chegou a chamar Luisa Mell, então namorada de um diretor da emissora, de 'Rita Cadillac do futuro'. Na Band, fez críticas a Adriane Galisteu, envolvida com o patrocínio de seu programa.
"Comecei a fazer televisão com 20 anos. Fiz muito programa vespertino com a Janete Coutinho, aquelas mulheres, na Tupi. Fiz muitas vezes a Rede Record, que era o máximo à época, e tal, muitas entrevistas", afirmava Clodovil, em vida. "Saí brigado de todas as emissoras que trabalhei, mas é porque eu, burramente, defendia os interesses do proprietário", justificava.
Foi em 1977, no extinto 8 ou 800, da Globo, apresentado por Paulo Gracindo, que Clodovil teve uma de suas primeiras participações marcantes na televisão brasileira.
No programa, exibido nas noites de domingo, os participantes precisavam responder perguntas sobre um tema ou personalidade em busca do prêmio máximo de 800 mil cruzeiros. Clodovil escolheu Dona Beija, figura brasileira do século 19. E saiu vitorioso.
TV Mulher com Marília Gabriela (Globo)
Desde a estreia do TV Mulher, em 1980, até o ano de 1982, Clodovil possuía um quadro no programa em que dava dicas de estilo, desenhava modelitos e entrevistava nomes conhecidos do mundo da moda.
Posteriormente, ele passou também a ler cartas de telespectadoras para aconselhá-las sobre quais roupas usar em determinadas ocasiões.
O primeiro programa solo de Clodovil (Band)
Em 21 de março de 1983, às 21h, foi ao ar o primeiro programa solo de Clodovil, levando seu nome, na Bandeirantes.
"O público exigiu minha volta. Foram nove meses de conversação, até que eu me decidisse a fazer o programa, cuja proposta é levar ao público uma coisa bem brasileira", afirmava o apresentador, que estava longe das telas havia quase um ano.
No programa, Clodovil cantava, dançava e conversava com diversas personalidades sobre os mais variados temas.
Rede Manchete e a polêmica com Ulysses Guimarães
Em 23 de janeiro de 1984, Clodovil estreou na Rede Manchete, emissora que havia sido fundada há menos de um ano. Seu primeiro trabalho no canal foi participando do Manchete Shopping Show, divulgado como "um programa de atualidades, serviços e informação dirigido à mulher moderna [...]Um encontro diário com colunistas, gente famosa e convidados especiais".
Em 1985, apresentou o De Mulher para Mulher, exibido nas tardes da emissora. No ano seguinte, veio Clô Para Os Íntimos, investindo no formato ao qual já estava acostumado.
No programa, o apresentador conseguiu a presença de inúmeras personalidades da época, como Fernanda Montenegro, Myrian Rios, Luiz Carlos Barreto, Augusto Boal, Malcolm Roberts e Elizeth Cardoso.
Em 1988, porém, uma indisposição com o então presidente da Assembleia Nacional Constituinte realizada no Brasil, Ulysses Guimarães, custou seu cargo na emissora.
"Quando falei naquela época na televisão: 'Escuta aqui, isso é uma constituinte ou uma prostituinte?', o Ulysses Guimarães ligou pra Manchete e disse assim: "Tire esse viado filho de uma p*** do ar hoje!", relembrou Clodovil anos depois.
Retorno à Manchete
Em junho de 1992, Clodovil foi chamado para um retorno à Manchete. Pouco depois, em 13 de julho, estreou o Clodovil Abre O Jogo.
Com o bordão "Olhe para a tela da verdade e me diz", o programa era vendido bem ao estilo do apresentador: "Talk-show é talk-show. Mas sob o comando de Clodovil, é algo mais. É jogo aberto. Nada de meias palavras. Muito sincero e sempre surpreendente, o que Clodovil diz para as lentes faz da sua TV uma tela da verdade".
"Vocês querem que eu ponha o dedo nas feridas, mas não estou gostando muito desse papo de mandar abrir o jogo. Lavar roupa suja no meu programa? Vai virar O Povo na TV, é?", questionava à sua equipe durante as primeiras gravações.
A atração contava também com o pianista Ronaldo Pelicano, chamado de "Paixão" por Clodovil. Ele, porém, não gostava muito do apelido: "Não que eu ache chato, mas isso precisa ser reconversado, porque não quero ser apenas o 'Paixão do Clodovil'".
Com o programa gravado, Clodovil não escondia seu desapontamento com o fato: "Eu preferia que fosse ao vivo. Imagine se na vida real a gente para de repente para arrumar a luz?"
No primeiro semestre de 1993, Clodovil deixou novamente a emissora, e não poupou críticas. "Pior do que eu estava na Manchete? Cortaram os telefones por falta de pagamento, cheguei a fazer programa sem plateia porque não havia dinheiro para pagar os ônibus que traziam o público e nem o lanche".
A saída de Clodovil se deu em meio a uma disputa judicial sobre o canal, na qual a gestão de Hamilton de Lucas de Oliveira foi obrigada a devolver a emissora para Adolfo Bloch. Clodovil reclamava uma dívida de 115 mil dólares, à época.
"Que mal fiz para o pessoal da Manchete para eles me tratarem assim? [...] É o segundo calote que levo. No primeiro, me puseram na rua sem nada. E depois estamparam na capa da [revista] Amiga que eu estava com aids. Eles usam a desgraça para ganhar dinheiro".
Clodovil Abre o Jogo na Rede OM / CNT
Em 23 de maio de 1993, Clodovil estreou na Rede OM, que pouco depois passaria a se chamar CNT (Central Nacional de Televisão), rede que chegou a contar com o locutor Galvão Bueno em sua equipe de contratados naquela época.
O nome de seu programa continuou como Clodovil Abre o Jogo. Além disso, também passou a apresentar um programa semanal, o Em Noite de Gala.
Clodovil afirmava que, mesmo com "várias" propostas de SBT, Record e Bandeirantes, havia optado pela emissora por conta do pedido de uma antiga cliente sua, a mãe de José Carlos Martinez, dono da rede - além, é claro, de uma proposta financeira mais vantajosa. "A emissora é pequena porque não tem grandes estrelas", dizia.
Em janeiro de 1994, enquanto fazia uma viagem a Paris, a emissora trocou toda a equipe de produção de seu programa. Em novembro daquele mesmo ano, chegou ao fim o contrato de Clodovil na CNT. A emissora entrou com uma ação pedindo rescisão por justa causa por "desrespeito à hierarquia e sucessivos desentendimentos com a casa".
"Ele gerou tanta confusão que acabou tornando insustentável a sua permanência. Chegava tarde para as gravações e não era raro vê-lo destratar técnicos ou mesmo convidados", afirmava José Carlos Martinez à época.
O ponto final foi uma entrevista com Adriane Galisteu. Nela, Clodovil questionou se Ayrton Senna, que havia sido seu namorado até a sua morte, meses antes, seria gay. "A ofensa a um ídolo nacional não podia ser tolerada", justificava Martinez.
Clodovil, por sua vez, alegava que a demissão era uma retaliação contra suas reclamações por salários atrasados, estimados entre mais de R$ 100 mil, incluindo cachês publicitários. O apresentador chegou a dar uma entrevista ao jornal O Globo criticando a direção da emissora cerca de três semanas antes de ser despedido. "Nunca deixamos de pagar religiosamente o salário de R$ 40 mil", garantia Martinez.
Clodovil com Bala na Agulha na Rede Mulher
Em agosto de 1995, Clodovil foi contratado pela Rede Mulher para apresentar o Clodovil com Bala na Agulha, com formato elaborado por Eduardo Sidney, ex-redator da Escolinha do Professor Raimundo.
A expectativa dos diretores da rede, à época, um canal acessível apenas para quem tivesse TV a cabo ou antena parabólica, o que reduzia bastante o alcance de seus programas, era que o nome de Clodovil impulsionasse a audiência. "O fato de poucos assistirem não me impede de manter a qualidade", afirmava.
No programa, Clodovil fazia entrevistas e falava sobre moda e temas polêmicos. Seus atritos com o canal começaram antes mesmo de sua contratação. O então superintendente da Rede Mulher, Percival Palesel, chegou a anunciar sua estreia. Clodovil, porém, negava a existência de um contrato: "Por enquanto é tudo conversa. Sou um produto caro".
Clodovil conseguia levar seus programas a conquistar até três pontos de audiência na contagem da época, o que era significativo, uma vez que a emissora estava acostumada ao 'traço'.
Além disso, nomes importantes toparam lhe dar entrevistas na Rede Mulher, como Fernanda Montenegro e o então jogador de futebol Edmundo.
"Não tive problemas na Rede Mulher, mas eu era muita areia para o caminhãozinho deles", afirmou Clodovil após sua saída da emissora, na qual passou cerca de seis meses.
Flores, porém, foram o estopim para sua saída. Assustada com o valor da nota da conta de uma floricultura, a direção da emissora exigiu que Clodovil realizasse o pagamento de seu próprio bolso, o que foi negado. Na sequência, a relação que já não vinha bem, chegou ao fim.
Mesmo assim, o canal continuou exibindo reprises da atração durante algum tempo, o que fez com que alguns telespectadores sequer soubessem de sua saída.
Clodovil e seus Retratos: de volta à CNT
Dois anos depois, em 29 de julho de 1996, ele retornou à emissora para apresentar o Retratos, alegando ter refletido sobre sua forma de conduzir entrevistas: "É provável que tenha afastado algumas pessoas. Eu aprendi que ser temido não significa o mesmo que ser respeitado".
A proposta era que o programa trouxesse o estilista desenhando algumas criações de improviso enquanto falasse sobre temas ligados ao universo feminino, além de contar com entrevistados.
Clodovil queria que a estreia contasse com uma entrevista bombástica de PC Farias, tesoureiro do então presidente Fernando Collor que acabou morrendo poucas semanas antes de uma possível gravação.
O apresentador pretendia conquistar a confiança de Farias com a ajuda de um amigo em comum entre os dois, cogitando até mesmo realizar a gravação em Alagoas e não abordar processos criminais durante a conversa.
"O carma dele era horrível. Ter a energia do inconsciente coletivo de todo um País contra você não é brincadeira", dizia Clodovil após a morte do tesoureiro.
Retorno à Band por três meses: polêmica com Adriane Galisteu
Em janeiro de 1998, passou um período isolado em Ubatuba e chegou a afirmar que "só voltaria à TV se fosse na tela da Globo". Meses depois, já estava negociando com a CNT, mas acabou fechando com a Band em agosto, para a apresentação do Clodovil Soft.
Afastado da TV havia quase um ano, Clodovil tinha perdido cerca de 10 quilos. "Cansei de ficar esperando e fui falar com o Johnny Saad (então vice-presidente da Band)", afirmava sobre o contrato de dois anos.
Inicialmente com o vespertino Clodovil Soft, que estreou em 24 de agosto almejava voos maiores com um programa em horário nobre: "À tarde, a gente ganha fama. À noite, prestígio".
Além disso, nomes importantes toparam lhe dar entrevistas na Rede Mulher, como Fernanda Montenegro e o então jogador de futebol Edmundo.
"Não tive problemas na Rede Mulher, mas eu era muita areia para o caminhãozinho deles", afirmou Clodovil após sua saída da emissora, na qual passou cerca de seis meses.
Flores, porém, foram o estopim para sua saída. Assustada com o valor da nota da conta de uma floricultura, a direção da emissora exigiu que Clodovil realizasse o pagamento de seu próprio bolso, o que foi negado. Na sequência, a relação que já não vinha bem, chegou ao fim.
Mesmo assim, o canal continuou exibindo reprises da atração durante algum tempo, o que fez com que alguns telespectadores sequer soubessem de sua saída.
Clodovil e seus Retratos: de volta à CNT
Dois anos depois, em 29 de julho de 1996, ele retornou à emissora para apresentar o Retratos, alegando ter refletido sobre sua forma de conduzir entrevistas: "É provável que tenha afastado algumas pessoas. Eu aprendi que ser temido não significa o mesmo que ser respeitado".
A proposta era que o programa trouxesse o estilista desenhando algumas criações de improviso enquanto falasse sobre temas ligados ao universo feminino, além de contar com entrevistados.
Clodovil queria que a estreia contasse com uma entrevista bombástica de PC Farias, tesoureiro do então presidente Fernando Collor que acabou morrendo poucas semanas antes de uma possível gravação.
O apresentador pretendia conquistar a confiança de Farias com a ajuda de um amigo em comum entre os dois, cogitando até mesmo realizar a gravação em Alagoas e não abordar processos criminais durante a conversa.
"O carma dele era horrível. Ter a energia do inconsciente coletivo de todo um País contra você não é brincadeira", dizia Clodovil após a morte do tesoureiro.
Retorno à Band por três meses: polêmica com Adriane Galisteu
Em janeiro de 1998, passou um período isolado em Ubatuba e chegou a afirmar que "só voltaria à TV se fosse na tela da Globo". Meses depois, já estava negociando com a CNT, mas acabou fechando com a Band em agosto, para a apresentação do Clodovil Soft.
Afastado da TV havia quase um ano, Clodovil tinha perdido cerca de 10 quilos. "Cansei de ficar esperando e fui falar com o Johnny Saad (então vice-presidente da Band)", afirmava sobre o contrato de dois anos.
Inicialmente com o vespertino Clodovil Soft, que estreou em 24 de agosto almejava voos maiores com um programa em horário nobre: "À tarde, a gente ganha fama. À noite, prestígio".
O programa contava com a presença da personagem Mamãe Mídia (Lourdes Rosa), sua 'secretária', além de um ajudante de palco e um bizarro fantoche de uma câmera de vídeo afeminada chamada Pink Pintosa - talvez uma tentativa de entrar no embalo do sucesso de Louro José, de Ana Maria Braga, e de Xaropinho, do Ratinho.
orém, em novembro, o clima mudou. Ao receber Roberto Justus, então noivo de Adriane Galisteu, Clodovil sugeriu que ela "iria cair de paraquedas nas joias da futura sogra". O detalhe é que uma sopa vendida por Galisteu era a principal patrocinadora do programa.
A Band alegou que Clodovil foi "ofensivo a um patrocinador" e encerrou a atração. Clodovil, à época, afirmava que a Band se recusava a pagar os custos de sua demissão e ameaçou levar o caso à Justiça.
Volta à Rede Mulher e briga com Edir Macedo
Em 1999, o apresentador retornou à Rede Mulher à frente do Clodovil. A ideia era recriar um clima inspirado na praia de Ubatuba, onde morava, semelhante à Ilha da Fantasia (seriado da década de 1960).
"A primeira coisa que pergunto é se a entrevista é com você ou sobre você. Receberei todo tipo de pessoa", planejava o apresentador, que garantia que deixaria seus convidados à vontade.
Para fechar os programas, o jargão: "Fale qualquer coisa que sempre teve vontade, mas nunca teve coragem."
O Clodovil, que ia ao ar diariamente às 21h50, estreou em 22 de março daquele ano, mas durou menos de um mês. Em 15 abril, a emissora foi adquirida pela Rede Família, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, que também é proprietário da Record TV.
Os novos donos pareceram não ter gostado muito da imagem de Clodovil ligada ao canal, o que gerou desavenças. Em 19 de abril, o apresentador foi demitido. "Edir Macedo me processou por difamação, mas ganhei. Ele recorreu e vou ganhar de novo, a não ser que o processo caia nas mãos de um juiz comprado. Quero mandar um recado para esse senhor", criticava Clodovil em entrevista a Luciana Gimenez na RedeTV! em setembro de 2002.
"Sr. Edir Macedo, vou responder pela minha vida diante de Deus e o senhor também. Eu só quero ver como o senhor vai se comportar por ter vendido o nome de Deus em benefício próprio. Nem que passasse fome trabalharia na Record. Minha forma de encarar Deus é diferente da deles. Não tenho uma misericórdia fingida. Vender religião com uma proposta comercial por trás, em nome de Deus, é o que eles fazem", criticava, de forma incisiva.
Anos depois, Clodovil falou sobre sua saída da emissora em entrevista a Xuxa Meneghel: "Fui mandado embora da Rede Mulher porque a Igreja Universal comprou a emissora, achou que eu não era conveniente pro comportamento da igreja e me mandou embora no mesmo dia. Mas, claro, mostrou todos os programas que estavam gravados, né? Porque aí era questão de dinheiro e isso é uma outra história..."
Gravação de piloto no SBT
Pouco depois, em maio de 1999, Clodovil chegou a gravar o piloto de um programa no SBT. A emissora pretendia criar o TeleShow, semelhante ao Vídeo Show, da Globo, mostrando os bastidores da casa com apresentação de Márcia Golschmidt, Otávio Mesquita, Marcelo Augusto e Sonia Abrão. A ideia, porém, não foi para a frente.
"O quadro do Clodovil será um dos principais. Ele já pensou em alguns sofás vermelhos para cenário, onde vai fazer suas entrevistas", afirmou Sonia Abrão ao Estado, à época.
Segundo a Folha, ele teria exigido um camarim separado dos outros apresentadores durante uma gravação.
Em 2001, Clodovil esteve entre os principais nomes pedidos pelo público para participar da 2ª edição da Casa dos Artistas no SBT, mas não chegou a participar do reality.
'Passeio' pela Globo
Em entrevista ao Estado, em 2003, Clodovil falou sobre a emissora: "A grande verdade é que todo artista quer trabalhar na Globo. Pensei bem e concluí que o meu talento é meu título de nobreza e eu sou eu em qualquer lugar."
Anos antes, em agosto de 1999, Clodovil deu um "passeio" pela rede Globo e participou de diversos programas da casa, apesar de não ter sido contratado. Para o Zorra Total, gravou o quadro Rosto a Rosto, exibido em 14 de agosto, no qual era entrevistado por Alberto Roberto, clássico personagem de Chico Anysio. Ele ainda participou do quadro Fernandinho e Ofélia, estrelado por Lucio Mauro e Cláudia Rodrigues, que foi ao ar em 4 de setembro.
Não foi a primeira vez que Chico e Clô se encontraram na TV. Onze anos antes, em 1988, ele participou de esquetes do Chico Anysio Show, quando foi 'entrevistado' pela personagem Neide Taubaté.
No Domingão do Faustão que foi ao ar em 8 de agosto, conversou ao vivo com o apresentador durante quase uma hora.
Segundo a edição da Istoé Gente de 21 de fevereiro de 2000, os dois apresentadores eram amigos. "Há um ano, ele [Faustão] soube que Clodovil enfrentava uma fase financeira difícil e não hesitou. Mandou imediatamente um buquê de flores ao estilista, algumas notas graúdas presas por um grampo de ouro, que, somadas, chegavam a R$ 40 mil, e um cartão escrito à mão: 'Não é dinheiro. É um presente de um amigo.'"
Anos depois, Clodovil ainda fez uma participação na novela O Clone, exibida entre 2001 e 2002, em que aparecia com seu cachorrinho no colo durante a inauguração de uma boate na trama.
Frente e Verso: mais um retorno de Clodovil à CNT
Em março de 2000, a CNT / Gazeta pretendia contar com o apresentador, conforme afirmava Silvio Alimari, criador do programa Mulheres e superintendente-geral da Gazeta: "Queremos o Clodovil conosco. As negociações com ele estão bastante adiantadas."
No mesmo ano, Clodovil ainda chegou a apresentar um prêmio ao lado de Max Fivelinha no VMB da MTV.
A expectativa era de que seu programa estreasse ainda em dezembro, mas foi adiado para janeiro de 2001, quando foi ao ar o Frente e Verso, exibidos às terças e quartas-feiras, às 22h. A convidada de seu primeiro programa foi Vera Loyola com sua cadela, Pepezinha.
Questionado se sentia falta de estar em uma grande emissora, Clodovil era contraditório: "Não tenho saudade de nada. Para que serve estar em uma emissora com uma audiência enorme se ninguém está interessado no que eu estou dizendo? É claro que eu queria estar em uma emissora maior. Mas não me chamam. Outro dia fui ao Domingão do Faustão e dei um ibope de mais de 40 pontos. Ainda assim, ninguém me chamou para voltar", complementava.
Mulheres
Em 1º de maio de 2001, Clodovil passou a apresentar o Mulheres, da TV Gazeta, ao lado de Cristina Rocha, com quem apresentou o programa até fevereiro de 2002. No início de setembro de 2002, foi demitido da emissora, que, à ocasião, dispensou mais da metade de seus artistas.
Dias depois, Clodovil foi cotado para apresentar o Bom Dia Mulher na RedeTV!. Porém, antes de a possibilidade se concretizar, participou do Falando Francamente e, em entrevista a Sonia Abrão, insinuou que não queria dividir a apresentação do programa com Solange Frazão e Solange Couto.
Irritada com as declarações, a direção da RedeTV! encerrou as negociações, que já contava até com um pré-contrato assinado com o apresentador. Elas foram retomadas posteriormente, e, um ano depois, as coisas foram diferentes.
A Casa É Sua e a chegada de Ofrásia
Cerca de um ano depois, em novembro de 2003, o apresentador fechou contrato com o canal, substituindo Leonor Corrêa, irmã de Faustão, no A Casa É Sua. "O público está cansado daquela porcaria que se tornou a TV à tarde. A programação vespertina estava cheirando mal, só explorando a violência, crimes, escândalos. Não venham me dizer que os programas mostram a realidade. Toda casa tem esgoto e privada, mas também tem sala, dormitório, living e jardim. Mas o que a gente enfatiza é o esgoto. É gente que não vê a beleza, por isso que as pessoas aceitaram bem meu programa", afirmava à época.
Entre os quadros do programa estavam o Hora das Flores, em que oferecia um arranjo de flores a uma personalidade, o Moda & Estilo, o Fuxico na Cozinha e o De Frente com o Espelho. Foi no A Casa É Sua que Clodovil passou a conviver com sua fiel escudeira Ofrásia (Vida Vlatt).
Em seus primeiros momentos no canal, o apresentador continuava ferino, como sempre. "É um entra e sai nesse estúdio, parece a Rua Direita" e "Gente, eles fazem cara de retardado, é a APAE aqui?" foram algumas das frases ditas por ele durante as gravações.
"Me perguntaram se eu já não tinha loucos demais na emissora. O que eu espero é que o Clodovil lute por audiência. Admitiremos qualquer posicionamento dele, desde que ele demonstre garra ao trabalho", afirmava o então vice-presidente da RedeTV!, Marcelo Carvalho.
Na RedeTV!, Clodovil ficou marcado por uma briga com os integrantes do programa Pânico, por quem se dizia perseguido.
Em 29 de março de 2004, outro fato inusitado: após se atrapalhar com uma tesoura e fazer um corte profundo em seu dedo durante o programa ao vivo, Clodovil sumiu de cena durante uma hora para ir até um hospital, levar três pontos e, em seguida, retornar elegantemente ao ar.
Em 14 de janeiro de 2005, Clodovil foi demitido por meio de um fax enviado pela direção da emissora. Desta vez, ele havia chamado a apresentadora Luisa Mell, à época namorada de Amilcare Dallevo Jr., presidente da emissora, de "Rita Cadillac do futuro".
À época, o comentário não chegou a ir ao ar, já que seu programa era pré-gravado.
Em 2008, Clodovil disse ter saudades do período que passou na emissora: "Foi quase um ano de alegria. Eu ia com alegria pra televisão, uma vontade de chegar logo na emissora. Fui posto pra fora de lá por uma amante de uma das pessoas de lá, fazer o quê?"
Por Excelência, o último programa de Clodovil
Em 2007, já como deputado federal, Clodovil apresentou seu último programa na TV, o Por Excelência.
Após sofrer um AVC, porém, acabou se afastando das gravações e teve seu contrato rescindido pela emissora, "tendo em vista o período em que o apresentador absteve-se de gravar o programa".
"Seu impedimento permanente, por mais de um mês e meio, causado pela enfermidade a qual foi acometido, importou na rescisão contratual", informou comunicado divulgado pela TVJB, à época.
As imitações de Clodovil na TV
Por conta de sua personalidade forte, era comum ver humoristas imitando o jeito de Clodovil. Durante sua participação no Domingão do Faustão, em 1999, o apresentador falou sobre o tema. "Primeiro, pra ser imitado, é preciso que a gente exista. Um Zé Mané qualquer por aí não será imitado, ninguém nem sabe que ele existe. Me sinto reverenciado toda vez que os artistas me imitam, ou melhor, tentam me imitar".
E prosseguiu: "Toda pessoa que faz uma caricatura, faz com tintas fortes. É preciso que seja assim, porque, se não, não tem graça. Se fosse idêntico... Mas queria que vocês soubessem que tenho um lema de vida: exijo que as pessoas riam comigo, mas que não riam de mim."
Porém, nem sempre tudo foram flores. Clodovil já teve divergências com humoristas que o imitavam ao longo da vida, como Wellington Muniz, o Ceará, do Pânico, e Agildo Ribeiro, que criou o personagem Clô Clô em Planeta dos Homens.
Clodovil chegou a entrar na Justiça após Agildo aparecer interpretando o personagem em um comercial de TV, em novembro de 1981. No ano seguinte, em 23 de maio, o Fantástico promoveu um encontro para fazer as pazes entre os dois.
"Não me dou com o personagem, a caricatura do Clodovil, que é uma coisa bem triste, né? Mas me dou com o Agildo. Engraçado é você, o outro [imitação] é triste", afirmou o estilista ao comediante, à época.
Diversos outros nomes também chegaram a imitar Clodovil na TV, como Tom Cavalcante, Zé Américo, Pedro Manso e Diego Varejon. Relembre alguns abaixo:
Em 17 de março de 2009, há exatamente 10 anos, morria o apresentador, estilista e deputado federal Clodovil Hernandes. Conhecido por sua personalidade forte, seus comentários ácidos e seu frequente envolvimento em polêmicas, Clodovil conquistou uma legião de fãs e outra de desafetos ao longo da carreira.
O estilista passou por quase todas as emissoras de TV aberta no Brasil, algumas das quais nem existem mais. Dono de uma personalidade forte, dificilmente conseguia se manter na mesma emissora por muito tempo - e colecionava inimigos por onde passava.
Na Globo, por exemplo, tinha desafetos com Marília Gabriela. Na RedeTV!, chegou a chamar Luisa Mell, então namorada de um diretor da emissora, de 'Rita Cadillac do futuro'. Na Band, fez críticas a Adriane Galisteu, envolvida com o patrocínio de seu programa.
"Comecei a fazer televisão com 20 anos. Fiz muito programa vespertino com a Janete Coutinho, aquelas mulheres, na Tupi. Fiz muitas vezes a Rede Record, que era o máximo à época, e tal, muitas entrevistas", afirmava Clodovil, em vida. "Saí brigado de todas as emissoras que trabalhei, mas é porque eu, burramente, defendia os interesses do proprietário", justificava.
Foi em 1977, no extinto 8 ou 800, da Globo, apresentado por Paulo Gracindo, que Clodovil teve uma de suas primeiras participações marcantes na televisão brasileira.
No programa, exibido nas noites de domingo, os participantes precisavam responder perguntas sobre um tema ou personalidade em busca do prêmio máximo de 800 mil cruzeiros. Clodovil escolheu Dona Beija, figura brasileira do século 19. E saiu vitorioso.
TV Mulher com Marília Gabriela (Globo)
Desde a estreia do TV Mulher, em 1980, até o ano de 1982, Clodovil possuía um quadro no programa em que dava dicas de estilo, desenhava modelitos e entrevistava nomes conhecidos do mundo da moda.
Posteriormente, ele passou também a ler cartas de telespectadoras para aconselhá-las sobre quais roupas usar em determinadas ocasiões.
O primeiro programa solo de Clodovil (Band)
Em 21 de março de 1983, às 21h, foi ao ar o primeiro programa solo de Clodovil, levando seu nome, na Bandeirantes.
"O público exigiu minha volta. Foram nove meses de conversação, até que eu me decidisse a fazer o programa, cuja proposta é levar ao público uma coisa bem brasileira", afirmava o apresentador, que estava longe das telas havia quase um ano.
No programa, Clodovil cantava, dançava e conversava com diversas personalidades sobre os mais variados temas.
Rede Manchete e a polêmica com Ulysses Guimarães
Em 23 de janeiro de 1984, Clodovil estreou na Rede Manchete, emissora que havia sido fundada há menos de um ano. Seu primeiro trabalho no canal foi participando do Manchete Shopping Show, divulgado como "um programa de atualidades, serviços e informação dirigido à mulher moderna [...]Um encontro diário com colunistas, gente famosa e convidados especiais".
Em 1985, apresentou o De Mulher para Mulher, exibido nas tardes da emissora. No ano seguinte, veio Clô Para Os Íntimos, investindo no formato ao qual já estava acostumado.
No programa, o apresentador conseguiu a presença de inúmeras personalidades da época, como Fernanda Montenegro, Myrian Rios, Luiz Carlos Barreto, Augusto Boal, Malcolm Roberts e Elizeth Cardoso.
Em 1988, porém, uma indisposição com o então presidente da Assembleia Nacional Constituinte realizada no Brasil, Ulysses Guimarães, custou seu cargo na emissora.
"Quando falei naquela época na televisão: 'Escuta aqui, isso é uma constituinte ou uma prostituinte?', o Ulysses Guimarães ligou pra Manchete e disse assim: "Tire esse viado filho de uma p*** do ar hoje!", relembrou Clodovil anos depois.
Retorno à Manchete
Em junho de 1992, Clodovil foi chamado para um retorno à Manchete. Pouco depois, em 13 de julho, estreou o Clodovil Abre O Jogo.
Com o bordão "Olhe para a tela da verdade e me diz", o programa era vendido bem ao estilo do apresentador: "Talk-show é talk-show. Mas sob o comando de Clodovil, é algo mais. É jogo aberto. Nada de meias palavras. Muito sincero e sempre surpreendente, o que Clodovil diz para as lentes faz da sua TV uma tela da verdade".
"Vocês querem que eu ponha o dedo nas feridas, mas não estou gostando muito desse papo de mandar abrir o jogo. Lavar roupa suja no meu programa? Vai virar O Povo na TV, é?", questionava à sua equipe durante as primeiras gravações.
A atração contava também com o pianista Ronaldo Pelicano, chamado de "Paixão" por Clodovil. Ele, porém, não gostava muito do apelido: "Não que eu ache chato, mas isso precisa ser reconversado, porque não quero ser apenas o 'Paixão do Clodovil'".
Com o programa gravado, Clodovil não escondia seu desapontamento com o fato: "Eu preferia que fosse ao vivo. Imagine se na vida real a gente para de repente para arrumar a luz?"
No primeiro semestre de 1993, Clodovil deixou novamente a emissora, e não poupou críticas. "Pior do que eu estava na Manchete? Cortaram os telefones por falta de pagamento, cheguei a fazer programa sem plateia porque não havia dinheiro para pagar os ônibus que traziam o público e nem o lanche".
A saída de Clodovil se deu em meio a uma disputa judicial sobre o canal, na qual a gestão de Hamilton de Lucas de Oliveira foi obrigada a devolver a emissora para Adolfo Bloch. Clodovil reclamava uma dívida de 115 mil dólares, à época.
"Que mal fiz para o pessoal da Manchete para eles me tratarem assim? [...] É o segundo calote que levo. No primeiro, me puseram na rua sem nada. E depois estamparam na capa da [revista] Amiga que eu estava com aids. Eles usam a desgraça para ganhar dinheiro".
Clodovil Abre o Jogo na Rede OM / CNT
Em 23 de maio de 1993, Clodovil estreou na Rede OM, que pouco depois passaria a se chamar CNT (Central Nacional de Televisão), rede que chegou a contar com o locutor Galvão Bueno em sua equipe de contratados naquela época.
O nome de seu programa continuou como Clodovil Abre o Jogo. Além disso, também passou a apresentar um programa semanal, o Em Noite de Gala.
Clodovil afirmava que, mesmo com "várias" propostas de SBT, Record e Bandeirantes, havia optado pela emissora por conta do pedido de uma antiga cliente sua, a mãe de José Carlos Martinez, dono da rede - além, é claro, de uma proposta financeira mais vantajosa. "A emissora é pequena porque não tem grandes estrelas", dizia.
Em janeiro de 1994, enquanto fazia uma viagem a Paris, a emissora trocou toda a equipe de produção de seu programa. Em novembro daquele mesmo ano, chegou ao fim o contrato de Clodovil na CNT. A emissora entrou com uma ação pedindo rescisão por justa causa por "desrespeito à hierarquia e sucessivos desentendimentos com a casa".
"Ele gerou tanta confusão que acabou tornando insustentável a sua permanência. Chegava tarde para as gravações e não era raro vê-lo destratar técnicos ou mesmo convidados", afirmava José Carlos Martinez à época.
O ponto final foi uma entrevista com Adriane Galisteu. Nela, Clodovil questionou se Ayrton Senna, que havia sido seu namorado até a sua morte, meses antes, seria gay. "A ofensa a um ídolo nacional não podia ser tolerada", justificava Martinez.
Clodovil, por sua vez, alegava que a demissão era uma retaliação contra suas reclamações por salários atrasados, estimados entre mais de R$ 100 mil, incluindo cachês publicitários. O apresentador chegou a dar uma entrevista ao jornal O Globo criticando a direção da emissora cerca de três semanas antes de ser despedido. "Nunca deixamos de pagar religiosamente o salário de R$ 40 mil", garantia Martinez.
Clodovil com Bala na Agulha na Rede Mulher
Em agosto de 1995, Clodovil foi contratado pela Rede Mulher para apresentar o Clodovil com Bala na Agulha, com formato elaborado por Eduardo Sidney, ex-redator da Escolinha do Professor Raimundo.
A expectativa dos diretores da rede, à época, um canal acessível apenas para quem tivesse TV a cabo ou antena parabólica, o que reduzia bastante o alcance de seus programas, era que o nome de Clodovil impulsionasse a audiência. "O fato de poucos assistirem não me impede de manter a qualidade", afirmava.
No programa, Clodovil fazia entrevistas e falava sobre moda e temas polêmicos. Seus atritos com o canal começaram antes mesmo de sua contratação. O então superintendente da Rede Mulher, Percival Palesel, chegou a anunciar sua estreia. Clodovil, porém, negava a existência de um contrato: "Por enquanto é tudo conversa. Sou um produto caro".
Clodovil conseguia levar seus programas a conquistar até três pontos de audiência na contagem da época, o que era significativo, uma vez que a emissora estava acostumada ao 'traço'.
Além disso, nomes importantes toparam lhe dar entrevistas na Rede Mulher, como Fernanda Montenegro e o então jogador de futebol Edmundo.
"Não tive problemas na Rede Mulher, mas eu era muita areia para o caminhãozinho deles", afirmou Clodovil após sua saída da emissora, na qual passou cerca de seis meses.
Flores, porém, foram o estopim para sua saída. Assustada com o valor da nota da conta de uma floricultura, a direção da emissora exigiu que Clodovil realizasse o pagamento de seu próprio bolso, o que foi negado. Na sequência, a relação que já não vinha bem, chegou ao fim.
Mesmo assim, o canal continuou exibindo reprises da atração durante algum tempo, o que fez com que alguns telespectadores sequer soubessem de sua saída.
Clodovil e seus Retratos: de volta à CNT
Dois anos depois, em 29 de julho de 1996, ele retornou à emissora para apresentar o Retratos, alegando ter refletido sobre sua forma de conduzir entrevistas: "É provável que tenha afastado algumas pessoas. Eu aprendi que ser temido não significa o mesmo que ser respeitado".
A proposta era que o programa trouxesse o estilista desenhando algumas criações de improviso enquanto falasse sobre temas ligados ao universo feminino, além de contar com entrevistados.
Clodovil queria que a estreia contasse com uma entrevista bombástica de PC Farias, tesoureiro do então presidente Fernando Collor que acabou morrendo poucas semanas antes de uma possível gravação.
O apresentador pretendia conquistar a confiança de Farias com a ajuda de um amigo em comum entre os dois, cogitando até mesmo realizar a gravação em Alagoas e não abordar processos criminais durante a conversa.
"O carma dele era horrível. Ter a energia do inconsciente coletivo de todo um País contra você não é brincadeira", dizia Clodovil após a morte do tesoureiro.
Retorno à Band por três meses: polêmica com Adriane Galisteu
Em janeiro de 1998, passou um período isolado em Ubatuba e chegou a afirmar que "só voltaria à TV se fosse na tela da Globo". Meses depois, já estava negociando com a CNT, mas acabou fechando com a Band em agosto, para a apresentação do Clodovil Soft.
Afastado da TV havia quase um ano, Clodovil tinha perdido cerca de 10 quilos. "Cansei de ficar esperando e fui falar com o Johnny Saad (então vice-presidente da Band)", afirmava sobre o contrato de dois anos.
Inicialmente com o vespertino Clodovil Soft, que estreou em 24 de agosto almejava voos maiores com um programa em horário nobre: "À tarde, a gente ganha fama. À noite, prestígio".
Além disso, nomes importantes toparam lhe dar entrevistas na Rede Mulher, como Fernanda Montenegro e o então jogador de futebol Edmundo.
"Não tive problemas na Rede Mulher, mas eu era muita areia para o caminhãozinho deles", afirmou Clodovil após sua saída da emissora, na qual passou cerca de seis meses.
Flores, porém, foram o estopim para sua saída. Assustada com o valor da nota da conta de uma floricultura, a direção da emissora exigiu que Clodovil realizasse o pagamento de seu próprio bolso, o que foi negado. Na sequência, a relação que já não vinha bem, chegou ao fim.
Mesmo assim, o canal continuou exibindo reprises da atração durante algum tempo, o que fez com que alguns telespectadores sequer soubessem de sua saída.
Clodovil e seus Retratos: de volta à CNT
Dois anos depois, em 29 de julho de 1996, ele retornou à emissora para apresentar o Retratos, alegando ter refletido sobre sua forma de conduzir entrevistas: "É provável que tenha afastado algumas pessoas. Eu aprendi que ser temido não significa o mesmo que ser respeitado".
A proposta era que o programa trouxesse o estilista desenhando algumas criações de improviso enquanto falasse sobre temas ligados ao universo feminino, além de contar com entrevistados.
Clodovil queria que a estreia contasse com uma entrevista bombástica de PC Farias, tesoureiro do então presidente Fernando Collor que acabou morrendo poucas semanas antes de uma possível gravação.
O apresentador pretendia conquistar a confiança de Farias com a ajuda de um amigo em comum entre os dois, cogitando até mesmo realizar a gravação em Alagoas e não abordar processos criminais durante a conversa.
"O carma dele era horrível. Ter a energia do inconsciente coletivo de todo um País contra você não é brincadeira", dizia Clodovil após a morte do tesoureiro.
Retorno à Band por três meses: polêmica com Adriane Galisteu
Em janeiro de 1998, passou um período isolado em Ubatuba e chegou a afirmar que "só voltaria à TV se fosse na tela da Globo". Meses depois, já estava negociando com a CNT, mas acabou fechando com a Band em agosto, para a apresentação do Clodovil Soft.
Afastado da TV havia quase um ano, Clodovil tinha perdido cerca de 10 quilos. "Cansei de ficar esperando e fui falar com o Johnny Saad (então vice-presidente da Band)", afirmava sobre o contrato de dois anos.
Inicialmente com o vespertino Clodovil Soft, que estreou em 24 de agosto almejava voos maiores com um programa em horário nobre: "À tarde, a gente ganha fama. À noite, prestígio".
O programa contava com a presença da personagem Mamãe Mídia (Lourdes Rosa), sua 'secretária', além de um ajudante de palco e um bizarro fantoche de uma câmera de vídeo afeminada chamada Pink Pintosa - talvez uma tentativa de entrar no embalo do sucesso de Louro José, de Ana Maria Braga, e de Xaropinho, do Ratinho.
orém, em novembro, o clima mudou. Ao receber Roberto Justus, então noivo de Adriane Galisteu, Clodovil sugeriu que ela "iria cair de paraquedas nas joias da futura sogra". O detalhe é que uma sopa vendida por Galisteu era a principal patrocinadora do programa.
A Band alegou que Clodovil foi "ofensivo a um patrocinador" e encerrou a atração. Clodovil, à época, afirmava que a Band se recusava a pagar os custos de sua demissão e ameaçou levar o caso à Justiça.
Volta à Rede Mulher e briga com Edir Macedo
Em 1999, o apresentador retornou à Rede Mulher à frente do Clodovil. A ideia era recriar um clima inspirado na praia de Ubatuba, onde morava, semelhante à Ilha da Fantasia (seriado da década de 1960).
"A primeira coisa que pergunto é se a entrevista é com você ou sobre você. Receberei todo tipo de pessoa", planejava o apresentador, que garantia que deixaria seus convidados à vontade.
Para fechar os programas, o jargão: "Fale qualquer coisa que sempre teve vontade, mas nunca teve coragem."
O Clodovil, que ia ao ar diariamente às 21h50, estreou em 22 de março daquele ano, mas durou menos de um mês. Em 15 abril, a emissora foi adquirida pela Rede Família, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, que também é proprietário da Record TV.
Os novos donos pareceram não ter gostado muito da imagem de Clodovil ligada ao canal, o que gerou desavenças. Em 19 de abril, o apresentador foi demitido. "Edir Macedo me processou por difamação, mas ganhei. Ele recorreu e vou ganhar de novo, a não ser que o processo caia nas mãos de um juiz comprado. Quero mandar um recado para esse senhor", criticava Clodovil em entrevista a Luciana Gimenez na RedeTV! em setembro de 2002.
"Sr. Edir Macedo, vou responder pela minha vida diante de Deus e o senhor também. Eu só quero ver como o senhor vai se comportar por ter vendido o nome de Deus em benefício próprio. Nem que passasse fome trabalharia na Record. Minha forma de encarar Deus é diferente da deles. Não tenho uma misericórdia fingida. Vender religião com uma proposta comercial por trás, em nome de Deus, é o que eles fazem", criticava, de forma incisiva.
Anos depois, Clodovil falou sobre sua saída da emissora em entrevista a Xuxa Meneghel: "Fui mandado embora da Rede Mulher porque a Igreja Universal comprou a emissora, achou que eu não era conveniente pro comportamento da igreja e me mandou embora no mesmo dia. Mas, claro, mostrou todos os programas que estavam gravados, né? Porque aí era questão de dinheiro e isso é uma outra história..."
Gravação de piloto no SBT
Pouco depois, em maio de 1999, Clodovil chegou a gravar o piloto de um programa no SBT. A emissora pretendia criar o TeleShow, semelhante ao Vídeo Show, da Globo, mostrando os bastidores da casa com apresentação de Márcia Golschmidt, Otávio Mesquita, Marcelo Augusto e Sonia Abrão. A ideia, porém, não foi para a frente.
"O quadro do Clodovil será um dos principais. Ele já pensou em alguns sofás vermelhos para cenário, onde vai fazer suas entrevistas", afirmou Sonia Abrão ao Estado, à época.
Segundo a Folha, ele teria exigido um camarim separado dos outros apresentadores durante uma gravação.
Em 2001, Clodovil esteve entre os principais nomes pedidos pelo público para participar da 2ª edição da Casa dos Artistas no SBT, mas não chegou a participar do reality.
'Passeio' pela Globo
Em entrevista ao Estado, em 2003, Clodovil falou sobre a emissora: "A grande verdade é que todo artista quer trabalhar na Globo. Pensei bem e concluí que o meu talento é meu título de nobreza e eu sou eu em qualquer lugar."
Anos antes, em agosto de 1999, Clodovil deu um "passeio" pela rede Globo e participou de diversos programas da casa, apesar de não ter sido contratado. Para o Zorra Total, gravou o quadro Rosto a Rosto, exibido em 14 de agosto, no qual era entrevistado por Alberto Roberto, clássico personagem de Chico Anysio. Ele ainda participou do quadro Fernandinho e Ofélia, estrelado por Lucio Mauro e Cláudia Rodrigues, que foi ao ar em 4 de setembro.
Não foi a primeira vez que Chico e Clô se encontraram na TV. Onze anos antes, em 1988, ele participou de esquetes do Chico Anysio Show, quando foi 'entrevistado' pela personagem Neide Taubaté.
No Domingão do Faustão que foi ao ar em 8 de agosto, conversou ao vivo com o apresentador durante quase uma hora.
Segundo a edição da Istoé Gente de 21 de fevereiro de 2000, os dois apresentadores eram amigos. "Há um ano, ele [Faustão] soube que Clodovil enfrentava uma fase financeira difícil e não hesitou. Mandou imediatamente um buquê de flores ao estilista, algumas notas graúdas presas por um grampo de ouro, que, somadas, chegavam a R$ 40 mil, e um cartão escrito à mão: 'Não é dinheiro. É um presente de um amigo.'"
Anos depois, Clodovil ainda fez uma participação na novela O Clone, exibida entre 2001 e 2002, em que aparecia com seu cachorrinho no colo durante a inauguração de uma boate na trama.
Frente e Verso: mais um retorno de Clodovil à CNT
Em março de 2000, a CNT / Gazeta pretendia contar com o apresentador, conforme afirmava Silvio Alimari, criador do programa Mulheres e superintendente-geral da Gazeta: "Queremos o Clodovil conosco. As negociações com ele estão bastante adiantadas."
No mesmo ano, Clodovil ainda chegou a apresentar um prêmio ao lado de Max Fivelinha no VMB da MTV.
A expectativa era de que seu programa estreasse ainda em dezembro, mas foi adiado para janeiro de 2001, quando foi ao ar o Frente e Verso, exibidos às terças e quartas-feiras, às 22h. A convidada de seu primeiro programa foi Vera Loyola com sua cadela, Pepezinha.
Questionado se sentia falta de estar em uma grande emissora, Clodovil era contraditório: "Não tenho saudade de nada. Para que serve estar em uma emissora com uma audiência enorme se ninguém está interessado no que eu estou dizendo? É claro que eu queria estar em uma emissora maior. Mas não me chamam. Outro dia fui ao Domingão do Faustão e dei um ibope de mais de 40 pontos. Ainda assim, ninguém me chamou para voltar", complementava.
Mulheres
Em 1º de maio de 2001, Clodovil passou a apresentar o Mulheres, da TV Gazeta, ao lado de Cristina Rocha, com quem apresentou o programa até fevereiro de 2002. No início de setembro de 2002, foi demitido da emissora, que, à ocasião, dispensou mais da metade de seus artistas.
Dias depois, Clodovil foi cotado para apresentar o Bom Dia Mulher na RedeTV!. Porém, antes de a possibilidade se concretizar, participou do Falando Francamente e, em entrevista a Sonia Abrão, insinuou que não queria dividir a apresentação do programa com Solange Frazão e Solange Couto.
Irritada com as declarações, a direção da RedeTV! encerrou as negociações, que já contava até com um pré-contrato assinado com o apresentador. Elas foram retomadas posteriormente, e, um ano depois, as coisas foram diferentes.
A Casa É Sua e a chegada de Ofrásia
Cerca de um ano depois, em novembro de 2003, o apresentador fechou contrato com o canal, substituindo Leonor Corrêa, irmã de Faustão, no A Casa É Sua. "O público está cansado daquela porcaria que se tornou a TV à tarde. A programação vespertina estava cheirando mal, só explorando a violência, crimes, escândalos. Não venham me dizer que os programas mostram a realidade. Toda casa tem esgoto e privada, mas também tem sala, dormitório, living e jardim. Mas o que a gente enfatiza é o esgoto. É gente que não vê a beleza, por isso que as pessoas aceitaram bem meu programa", afirmava à época.
Entre os quadros do programa estavam o Hora das Flores, em que oferecia um arranjo de flores a uma personalidade, o Moda & Estilo, o Fuxico na Cozinha e o De Frente com o Espelho. Foi no A Casa É Sua que Clodovil passou a conviver com sua fiel escudeira Ofrásia (Vida Vlatt).
Em seus primeiros momentos no canal, o apresentador continuava ferino, como sempre. "É um entra e sai nesse estúdio, parece a Rua Direita" e "Gente, eles fazem cara de retardado, é a APAE aqui?" foram algumas das frases ditas por ele durante as gravações.
"Me perguntaram se eu já não tinha loucos demais na emissora. O que eu espero é que o Clodovil lute por audiência. Admitiremos qualquer posicionamento dele, desde que ele demonstre garra ao trabalho", afirmava o então vice-presidente da RedeTV!, Marcelo Carvalho.
Na RedeTV!, Clodovil ficou marcado por uma briga com os integrantes do programa Pânico, por quem se dizia perseguido.
Em 29 de março de 2004, outro fato inusitado: após se atrapalhar com uma tesoura e fazer um corte profundo em seu dedo durante o programa ao vivo, Clodovil sumiu de cena durante uma hora para ir até um hospital, levar três pontos e, em seguida, retornar elegantemente ao ar.
Em 14 de janeiro de 2005, Clodovil foi demitido por meio de um fax enviado pela direção da emissora. Desta vez, ele havia chamado a apresentadora Luisa Mell, à época namorada de Amilcare Dallevo Jr., presidente da emissora, de "Rita Cadillac do futuro".
À época, o comentário não chegou a ir ao ar, já que seu programa era pré-gravado.
Em 2008, Clodovil disse ter saudades do período que passou na emissora: "Foi quase um ano de alegria. Eu ia com alegria pra televisão, uma vontade de chegar logo na emissora. Fui posto pra fora de lá por uma amante de uma das pessoas de lá, fazer o quê?"
Por Excelência, o último programa de Clodovil
Em 2007, já como deputado federal, Clodovil apresentou seu último programa na TV, o Por Excelência.
Após sofrer um AVC, porém, acabou se afastando das gravações e teve seu contrato rescindido pela emissora, "tendo em vista o período em que o apresentador absteve-se de gravar o programa".
"Seu impedimento permanente, por mais de um mês e meio, causado pela enfermidade a qual foi acometido, importou na rescisão contratual", informou comunicado divulgado pela TVJB, à época.
As imitações de Clodovil na TV
Por conta de sua personalidade forte, era comum ver humoristas imitando o jeito de Clodovil. Durante sua participação no Domingão do Faustão, em 1999, o apresentador falou sobre o tema. "Primeiro, pra ser imitado, é preciso que a gente exista. Um Zé Mané qualquer por aí não será imitado, ninguém nem sabe que ele existe. Me sinto reverenciado toda vez que os artistas me imitam, ou melhor, tentam me imitar".
E prosseguiu: "Toda pessoa que faz uma caricatura, faz com tintas fortes. É preciso que seja assim, porque, se não, não tem graça. Se fosse idêntico... Mas queria que vocês soubessem que tenho um lema de vida: exijo que as pessoas riam comigo, mas que não riam de mim."
Porém, nem sempre tudo foram flores. Clodovil já teve divergências com humoristas que o imitavam ao longo da vida, como Wellington Muniz, o Ceará, do Pânico, e Agildo Ribeiro, que criou o personagem Clô Clô em Planeta dos Homens.
Clodovil chegou a entrar na Justiça após Agildo aparecer interpretando o personagem em um comercial de TV, em novembro de 1981. No ano seguinte, em 23 de maio, o Fantástico promoveu um encontro para fazer as pazes entre os dois.
"Não me dou com o personagem, a caricatura do Clodovil, que é uma coisa bem triste, né? Mas me dou com o Agildo. Engraçado é você, o outro [imitação] é triste", afirmou o estilista ao comediante, à época.
Diversos outros nomes também chegaram a imitar Clodovil na TV, como Tom Cavalcante, Zé Américo, Pedro Manso e Diego Varejon. Relembre alguns abaixo:
sábado, 16 de março de 2019
O PRESIDENTE INSEGURO
José Roberto de Toledo, PIAUÍ
Quem assegura o presidente? Jair Bolsonaro mandou demitir a suplente de uma comissão de segundo escalão para provar que ainda manda. Ilona Szabó havia sido nomeada horas antes por Sérgio Moro para um cargo simbólico, sem poder nem salário. Daria aparência de diversidade a um governo que – como o episódio provou – se preocupa mais com as redes antissociais do que com a sociedade. Mas bastou uma campanha contra ela no Twitter para Bolsonaro ignorar seus conselheiros, desmoralizar Moro e mandar o ministro demiti-la. Queimou, assim, mais um punhado de fichas de seu declinante cacife político – e sem ganhar nada com isso: nenhum voto a mais no Congresso, nenhum simpatizante que já não fosse convertido.
Não, não foi apenas uma demissão. Foi ato de quem carece de autoafirmação. O presidente agiu em defesa da própria autoridade, numa tentativa de impor a aceitação de seu poder por quem o cerca. É atitude de quem se acha fragilizado ou de quem busca se libertar de algum tipo de tutela. Qual governante faz isso com dois meses no cargo? E pela segunda vez em poucas semanas? Sim, porque a demissão de Szabó tem a mesma matriz que levou à defenestração precoce do ministro Gustavo Bebianno.
Nos áudios de WhatsApp da conversa que ele disse não ter tido com o ministro, ouve-se Bolsonaro invocar o próprio cargo – “como presidente da República” – para mandar Bebianno cancelar um encontro e uma viagem também desimportantes. Como se precisasse lembrar a si próprio e aos subordinados quem é quem.
Tanto uma quanto outra demissão nasceram da paranoia antiesquerdista de Bolsonaro e família. Da necessidade de perseguir inimigos reais ou imaginários para afirmar a própria identidade. Mas, se fosse só isso, a reação intempestiva do presidente seria acalmada por conselhos temperados de assessores mais experientes e racionais. Sua intransigência mesmo quando confrontado com o desgaste que imporia ao próprio governo é sinal de que a insegurança presidencial tem causa mais complexa.
Talvez Bolsonaro precise de episódios assim para perceber-se empoderado. Enquanto o agora único superministro Paulo Guedes comanda a reforma da Previdência, enquanto o vice Hamilton Mourão se junta aos demais presidentes sul-americanos para tentar evitar um conflito armado na Venezuela, Bolsonaro vai ao hospital, participa de cerimônias decorativas ou mofa no palácio. Demitir civis desimportantes é uma compensação.
Os generais que avalizaram a chegada de Bolsonaro à Presidência devem estar se perguntando quantos outros surtos libertários do presidente eles terão que administrar daqui pra frente. Quem será o próximo sacrificado para assegurar ao chefe que ele é respeitado, que manda, que faz e acontece? E essa próxima vítima vestirá terno, toga ou farda?
Além de tornar evidentes as fragilidades do governo, a demissão forçada de Szabó escancarou a passividade de Moro diante do clã Bolsonaro. O subministro já parecia titubeante ao ter que investigar os laranjas do PSL e as conexões milicianas. Agora, desautorizado publicamente pelo presidente, optou pelo cargo à própria autoridade. Deu mais um passo do laranjal ao bananal.
Aonde tudo isso vai dar? Já está dando. Em apenas um mês, Bolsonaro perdeu dez pontos de popularidade. Uma pesquisa feita no fim de janeiro e que nunca chegou a ser divulgada dava 67% de aprovação ao presidente. A da CNT, feita um mês depois, apontou 57%. Significa que Bolsonaro ainda tem a aprovação da maioria, mas está gastando à toa e rápido demais o estoque de boa vontade dos brasileiros. E faz isso antes de um momento crítico, quando precisará de popularidade para convencer deputados e senadores das mudanças que quer fazer no sistema de aposentadorias e pensões.
Como tubarões que sentem uma gota de sangue no mar, os congressistas perceberam a fragilidade do governo, impuseram uma derrota simbólica revogando um decreto presidencial e estão exigindo contrapartida em cargos e emendas ao orçamento. Já os grupos de pressão e lobbies corporativos vão cobrar sua parte em exceções e privilégios na reforma da Previdência. As demissões autoafirmativas de Bolsonaro custam caro. E, a se repetirem, custarão muito mais. Quem segura o presidente?
Quem assegura o presidente? Jair Bolsonaro mandou demitir a suplente de uma comissão de segundo escalão para provar que ainda manda. Ilona Szabó havia sido nomeada horas antes por Sérgio Moro para um cargo simbólico, sem poder nem salário. Daria aparência de diversidade a um governo que – como o episódio provou – se preocupa mais com as redes antissociais do que com a sociedade. Mas bastou uma campanha contra ela no Twitter para Bolsonaro ignorar seus conselheiros, desmoralizar Moro e mandar o ministro demiti-la. Queimou, assim, mais um punhado de fichas de seu declinante cacife político – e sem ganhar nada com isso: nenhum voto a mais no Congresso, nenhum simpatizante que já não fosse convertido.
Não, não foi apenas uma demissão. Foi ato de quem carece de autoafirmação. O presidente agiu em defesa da própria autoridade, numa tentativa de impor a aceitação de seu poder por quem o cerca. É atitude de quem se acha fragilizado ou de quem busca se libertar de algum tipo de tutela. Qual governante faz isso com dois meses no cargo? E pela segunda vez em poucas semanas? Sim, porque a demissão de Szabó tem a mesma matriz que levou à defenestração precoce do ministro Gustavo Bebianno.
Nos áudios de WhatsApp da conversa que ele disse não ter tido com o ministro, ouve-se Bolsonaro invocar o próprio cargo – “como presidente da República” – para mandar Bebianno cancelar um encontro e uma viagem também desimportantes. Como se precisasse lembrar a si próprio e aos subordinados quem é quem.
Tanto uma quanto outra demissão nasceram da paranoia antiesquerdista de Bolsonaro e família. Da necessidade de perseguir inimigos reais ou imaginários para afirmar a própria identidade. Mas, se fosse só isso, a reação intempestiva do presidente seria acalmada por conselhos temperados de assessores mais experientes e racionais. Sua intransigência mesmo quando confrontado com o desgaste que imporia ao próprio governo é sinal de que a insegurança presidencial tem causa mais complexa.
Talvez Bolsonaro precise de episódios assim para perceber-se empoderado. Enquanto o agora único superministro Paulo Guedes comanda a reforma da Previdência, enquanto o vice Hamilton Mourão se junta aos demais presidentes sul-americanos para tentar evitar um conflito armado na Venezuela, Bolsonaro vai ao hospital, participa de cerimônias decorativas ou mofa no palácio. Demitir civis desimportantes é uma compensação.
Os generais que avalizaram a chegada de Bolsonaro à Presidência devem estar se perguntando quantos outros surtos libertários do presidente eles terão que administrar daqui pra frente. Quem será o próximo sacrificado para assegurar ao chefe que ele é respeitado, que manda, que faz e acontece? E essa próxima vítima vestirá terno, toga ou farda?
Além de tornar evidentes as fragilidades do governo, a demissão forçada de Szabó escancarou a passividade de Moro diante do clã Bolsonaro. O subministro já parecia titubeante ao ter que investigar os laranjas do PSL e as conexões milicianas. Agora, desautorizado publicamente pelo presidente, optou pelo cargo à própria autoridade. Deu mais um passo do laranjal ao bananal.
Aonde tudo isso vai dar? Já está dando. Em apenas um mês, Bolsonaro perdeu dez pontos de popularidade. Uma pesquisa feita no fim de janeiro e que nunca chegou a ser divulgada dava 67% de aprovação ao presidente. A da CNT, feita um mês depois, apontou 57%. Significa que Bolsonaro ainda tem a aprovação da maioria, mas está gastando à toa e rápido demais o estoque de boa vontade dos brasileiros. E faz isso antes de um momento crítico, quando precisará de popularidade para convencer deputados e senadores das mudanças que quer fazer no sistema de aposentadorias e pensões.
Como tubarões que sentem uma gota de sangue no mar, os congressistas perceberam a fragilidade do governo, impuseram uma derrota simbólica revogando um decreto presidencial e estão exigindo contrapartida em cargos e emendas ao orçamento. Já os grupos de pressão e lobbies corporativos vão cobrar sua parte em exceções e privilégios na reforma da Previdência. As demissões autoafirmativas de Bolsonaro custam caro. E, a se repetirem, custarão muito mais. Quem segura o presidente?
PROPOSTA ESDRÚXULA
Novato no Congresso Nacional, o deputado federal pelo Ceará Heitor Freire (PSL) protocolou, na quarta-feira (13/3), um requerimento sugerindo ao presidente da República a criação da "Secretaria Especial de Desesquerdização da Administração Pública".
No texto apresentado pelo gabinete de Heitor, é citado o "aparelhamento gradual do Estado realizado por militantes de esquerda e seus sindicalistas", além de consequências como "o rombo escancarado dos cofres públicos" e o caos desde a economia até a "nossa juventude, envenenada pelo comunismo e pela famigerada ideologia de gênero".
A proposta, como o deputado reiterou, "não é para indicar cargos, é só para monitorar e fiscalizar". O texto detalha que a secretaria seria "destinada a realizar um amplo controle, fiscalização, identificação, mapeamento, monitoramento, com consequente sugestão de exoneração por decisão do Presidente da República". Integrantes da pasta teriam a função de indicar possíveis nomes que valessem uma demissão por reproduzir ideias da esquerda.
Heitor justifica que, para integrar o governo de Jair Bolsonaro, é necessária, em primeiro lugar, a ideologia alinhada à administração federal. "Precisa ser de direita conservador, antes de ser analisado o nível técnico. Se não fizer isso, Bolsonaro não vai conseguir governar", explica.
O deputado defende que ainda há servidores camuflados no governo. O texto cita que "são frequentes as denúncias de todo o país que nos chegam sobre os "técnicos" que mudaram seu discurso" para permanecer em seus cargos. Questionado pelo Estadão a respeito de exemplos, Heitor citou os ministérios do Meio Ambiente, Direitos Humanos, Casa Civil e órgãos federais, especialmente bancos. "Acho que o ICMBIO (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) é o que mais tem", afirmou.
No mesmo dia em que o deputado protocolou o documento, o Estado divulgou que o Ministério do Meio Ambiente, comandado por Ricardo Salles, havia orientado funcionários do ICMBio e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) a não se posicionarem diretamente à imprensa. Solicitações de posicionamento deveriam ser encaminhadas ao Ministério.
Heitor Freire ainda não conversou sobre a proposta com o presidente Jair Bolsonaro, do mesmo partido que ele, e nem com demais candidatos. "Vou pedir agenda com o presidente e com o secretário de governo e vou fazer uma apresentação e mostrar a importância. É uma das principais pautas, urgentíssima", defendeu.
Para comandar a secretaria, ele defende que algum dos "bons nomes de direita e conservadores do PSL e de alunos do professor Olavo de Carvalho" seriam essenciais. "Eu mesmo até deixaria meu mandato para assumir", afirmou. A pasta, para ele, seria ligada diretamente à presidência ou à Casa Civil, do ministro Onyx Lorenzoni.
Um dia após a posse do novo governo, Lorenzoni anunciou que iria exonerar funcionários para "despetizar" o Brasil. No dia 3 de janeiro, 320 comissionados e servidores foram demitidos sob o pretexto de manter somente funcionários que se identifiquem com a "centro-direita".
Da Agência Estado
No texto apresentado pelo gabinete de Heitor, é citado o "aparelhamento gradual do Estado realizado por militantes de esquerda e seus sindicalistas", além de consequências como "o rombo escancarado dos cofres públicos" e o caos desde a economia até a "nossa juventude, envenenada pelo comunismo e pela famigerada ideologia de gênero".
A proposta, como o deputado reiterou, "não é para indicar cargos, é só para monitorar e fiscalizar". O texto detalha que a secretaria seria "destinada a realizar um amplo controle, fiscalização, identificação, mapeamento, monitoramento, com consequente sugestão de exoneração por decisão do Presidente da República". Integrantes da pasta teriam a função de indicar possíveis nomes que valessem uma demissão por reproduzir ideias da esquerda.
Heitor justifica que, para integrar o governo de Jair Bolsonaro, é necessária, em primeiro lugar, a ideologia alinhada à administração federal. "Precisa ser de direita conservador, antes de ser analisado o nível técnico. Se não fizer isso, Bolsonaro não vai conseguir governar", explica.
O deputado defende que ainda há servidores camuflados no governo. O texto cita que "são frequentes as denúncias de todo o país que nos chegam sobre os "técnicos" que mudaram seu discurso" para permanecer em seus cargos. Questionado pelo Estadão a respeito de exemplos, Heitor citou os ministérios do Meio Ambiente, Direitos Humanos, Casa Civil e órgãos federais, especialmente bancos. "Acho que o ICMBIO (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) é o que mais tem", afirmou.
No mesmo dia em que o deputado protocolou o documento, o Estado divulgou que o Ministério do Meio Ambiente, comandado por Ricardo Salles, havia orientado funcionários do ICMBio e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) a não se posicionarem diretamente à imprensa. Solicitações de posicionamento deveriam ser encaminhadas ao Ministério.
Heitor Freire ainda não conversou sobre a proposta com o presidente Jair Bolsonaro, do mesmo partido que ele, e nem com demais candidatos. "Vou pedir agenda com o presidente e com o secretário de governo e vou fazer uma apresentação e mostrar a importância. É uma das principais pautas, urgentíssima", defendeu.
Para comandar a secretaria, ele defende que algum dos "bons nomes de direita e conservadores do PSL e de alunos do professor Olavo de Carvalho" seriam essenciais. "Eu mesmo até deixaria meu mandato para assumir", afirmou. A pasta, para ele, seria ligada diretamente à presidência ou à Casa Civil, do ministro Onyx Lorenzoni.
Um dia após a posse do novo governo, Lorenzoni anunciou que iria exonerar funcionários para "despetizar" o Brasil. No dia 3 de janeiro, 320 comissionados e servidores foram demitidos sob o pretexto de manter somente funcionários que se identifiquem com a "centro-direita".
Da Agência Estado
A ANTIRREVOLUÇÃO DOS COSTUMES
Da ISTOÉ
Os progressos humanos já deixaram claro que não ter medo do conhecimento é a chave para que tudo avance. Foi um enorme salto quando a humanidade descobriu que a peste que devastou países no século 14 não era um castigo mandado por Deus, mas uma doença causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida ao homem por pulgas infectadas. Assim como foi bastante libertador para as mulheres contarem com a pílula anticoncepcional, a partir de 1960, dispondo finalmente de um meio eficaz de evitar a gravidez. O lançamento da pílula deu início à uma revolução sexual que ecoa até hoje e que tem como legado indiscutível ter tirado a discussão da sexualidade do porão e a levado para a sala de jantar. Ficou mais fácil falar de sexo e de tudo o que está associado a ele, inclusive da necessidade de prevenção das doenças que podem ser transmitidas durante o ato.
E isso é muito bom. Menos, ao que parece, para o presidente Jair Bolsonaro e parte de sua trupe de ministros. Comandando uma espécie de antirrevolução dos costumes em todas as áreas, o presidente determinou ao primeiro escalão do governo a implementação de uma série de ações com o intuito de fazer deslanchar uma pauta ultraconservadora, incluindo a questão de educação sexual – na verdade, uma deseducação. Parece uma obsessão e é isso que tem norteado a maioria das iniciativas nos primeiros meses de mandato. Também é o que embala a retórica presidencial não raro utilizada como uma espécie de válvula de escape. Toda vez que surge algo na imprensa capaz de constrangê-lo, o presidente ou mesmo algum ministro saca da cartola uma ideia, em geral polêmica, que possa promover o que chamam de guinada cultural. Não se trata de estelionato eleitoral, uma vez que boa parte da população o elegeu em nome justamente da promessa do cavalo de pau na agenda dos costumes. E é por isso que a estratégia mobiliza a militância nas redes, orienta os debates mais acalorados e, ao fim e ao cabo, tira o foco do que é essencial. O problema, no entanto, é maior do que simplesmente eclipsar o que deveria estar à luz do sol. Reside no fato de que muitas das medidas constituem retrocessos impensáveis.
Por falta de informação, a cobertura vacinal contra o HPV, vírus sexualmente transmissível, é baixa
Por exemplo, nos últimos dias, Bolsonaro determinou que sejam feitas mudanças nas cadernetas de vacinação para adolescentes distribuídas pelo Ministério da Saúde. Ele não gostou das páginas que explicam as transformações nas anatomias feminina e masculina ao longo da adolescência e muito menos das que apresentavam como colocar a camisinha para homens e a camisinha para mulheres. No entender de Bolsonaro, as imagens “não caem bem para meninos e meninas terem acesso”. O presidente fez o anúncio por rede social e disse ter sido alertado para o conteúdo por uma senhora, eleitora sua, que havia lhe enviado as figuras.
Autocuidado e prevenção
Assim, por sugestão de alguém que o País não conhece e que provavelmente ainda está na era em que sexo era pecado, o presidente da República botou abaixo dois anos de trabalho. Foi o tempo que levou para que especialistas, pais e adolescentes discutissem a questão a fundo e produzissem uma caderneta informativa e atraente para o público alvo. O Ministério da Saúde irá fazer as alterações pedida. Por enquanto, a que está no site é a que Bolsonaro quer apagar.
É lamentável que um retrocesso dessa natureza tenha ocorrido. Há décadas o mundo tenta tornar as informações sobre sexo mais acessíveis, coisa que se tornou ainda mais urgente depois da Aids. “Informação previne, e não o contrário”, afirma a bióloga Luisa Villa, chefe do Laboratório de Inovação do Instituto do Câncer de São Paulo. Sem falar de sexo, sem explicar a anatomia, como fazer com que o adolescente entenda o seu corpo? Como incentivá-lo a se proteger se ele não tem informação do que ocorre durante o ato sexual?
Essa é uma verdade aplicada a todas as áreas. Porém, o governo Bolsonaro parece atuar em bloco contra ela. Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, por exemplo, insiste em retratar um mundo no qual, como ela mesma diz, menino veste azul e menina veste rosa. Há tempos isso não existe mais, e a liberdade de escolha do gênero e da opção sexual é uma das conquistas mais celebradas deste século. No entanto, Damares defende estereótipos ultrapassados. Na semana passada, durante uma fala sobre o Dia Internacional da Mulher, a ministra disse que os homens precisam respeitar as mulheres — o que é verdade — e fazer gentilezas como oferecer flores e abrir a porta do carro.
Não se está aqui condenando homens que fazem isso e tampouco mulheres que gostam de receber esses agrados. O que se critica é a insistência de uma ministra de Estado em algo nostálgico e estigmatizante quando a realidade da brasileira é bem mais dura do que não ter a porta do carro aberta para ela. Estão aí os dados de feminicídio para provar: só em 2018, 53 mulheres foram mortas porque eram mulheres. É o enfrentamento dessas questões que deve ser levado adiante por uma pessoa em sua posição, não o reforço de uma concepção de mundo que parece ter parado na década de 1950.
É essa impressão que se tem quando são analisadas várias ações bolsonaristas. No caso do ministro da Educação, Ricardo Vélez, às vezes parece que o mundo parou na década de 1970. Sua ordem para que os estudantes hasteassem a bandeira brasileira e cantassem o hino nacional no primeiro dia de aula determinava, na verdade, a implantação de uma prática comum durante os governos da ditadura. “A lei que mandava as crianças cantarem o Hino Nacional nas escolas públicas é de 1971”, lembra a educadora Cláudia Costin, fundadora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais na Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. “Não há problema em cantar o hino. O problema é mandar que tudo fosse gravado, tornar-se um slogan do governo”, afirma.
Bolsonaro e seus dois ministros, na verdade, parecem sentir saudades do tempo em que a revolução dos costumes ainda provocava efeitos tímidos. A insistência em tirar das escolas aulas de educação sexual remete à era dos colégios onde o assunto era simplesmente proibido. Um equívoco que a história já corrigiu, mostrando, cientificamente, os benefícios de colocar o tema em sala de aula. “Vamos pensar em evidências científicas, e não em crenças. Não há relação cientifica do tema com homossexualismo ou pedofilia. Não há como uma pessoa fazer da outra homossexual”, explica Claudia. É a ciência falando. E a ciência está no século 21, ao lado dos avanços e não dos retrocessos.
O sexo, segundo Bolsonaro
Mesmo antes de publicar o vídeo do “golden shower” no Twitter durante o Carnaval, o presidente Jair Bolsonaro demonstrava uma visão enviesada do sexo, principalmente da sexualidade alheia. Ele parece ver transgressão em tudo, toma manifestações isoladas como uma tendência geral de depravação e tem sempre como alvo principal de seus ataques os gays. Bolsonaro tem certeza que hoje há uma grande conspiração da esquerda na área de educação para induzir as crianças ao homossexualismo. É uma espécie de ideia fixa. Em poucas palavras, o que o presidente diz é que ativistas do movimento LGBT querem ensinar nas escolas as crianças como ser gay. No mundo imaginário de Bolsonaro há qualquer momento um professor pode tirar da manga uma cartilha com instruções para a prática do sexo anal ou com imagens de beijos entre duas mulheres. É isso que ele diz querer combater. O esforço de educadores para tornar a sociedade mais tolerante é visto como uma iniciativa libidinosa levada a cabo por pedófilos e gente traiçoeira.
Uma publicação que incomoda especialmente o presidente é “Aparelho Sexual e Cia — um guia inusitado para crianças descoladas”, livro francês escrito por Hélene Bruller e ilustrado pelo cartunista suíço Zep, editado pela Companhia das Letras. Seu conteúdo é destinado à orientação sexual de jovens de 11 a 15 anos. A obra trata com um tom bem humorado de assuntos relacionados à sexualidade adolescente e envolve questões básicas como o nascimento de bebês e os dilemas da puberdade. Há anos, Bolsonaro combate esse livro como um exemplo de deformação moral. Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro tentou transformá-lo num símbolo da conspiração homossexual ao mostrá-lo no Jornal Nacional. Para Bolsonaro, a obra é um conjunto de atrocidades e integra o fantasioso “kit gay”. “A minha briga é com o kit gay. Não quero que crianças de seis anos de idade tenham acesso ao kit gay. Você quer que se ensine crianças de seis anos de idade que o menino deve enfiar o piu-piu no bumbum de outro homem?”. Segundo o presidente, o livro “estimula as crianças precocemente para o sexo e, além disso, escancara as portas da pedofilia”. Bolsonaro tem aversão à educação sexual nas escolas. Nos últimos anos, se dedicou a atacar o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, lançado em 2009, que, segundo o presidente, usa o público LGBT para difundir nas escolas questões que os pais não querem para seus filhos.
O presidente dizia que o plano criava cotas para professores homossexuais “Aqui é mais importante colocar na cabeça do menino que ele não é menino e da menina que ela não é menina, como foi aplicado na prova do Enem”, afirma. “Há uma minoria de ativistas homossexuais que ganham dinheiro com isso, se atocaiam, fazem uma emboscada no pessoal de primeiro grau. Os pais deixam seus filhos na escola e lá eles vão ter aula de homossexualismo. A título de combater a homofobia as crianças vão ser presas para pedófilos.”
“Informação previne, e não o contrário. É nosso dever informar sobre o uso correto da camisinha” Luisa Villa, bióloga
Bolsonaro deveria ser menos intolerante. Para alguém que declarou ter feito sexo com animais, em especial com galinhas soa estranho falar em combater a sexualização precoce. “Ir atrás de galinha no galinheiro todo mundo ia. Entendeu? Alguns mais malandros pegavam na jumentinha, na bezerrinha. Naquele tempo não havia mulher”, disse ele em uma entrevista ao programa CQC, em 2017. Ou seja, com galinha pode, mas com o amiguinho nem pensar.
“Como esse livro (Aparelho Sexual & Cia) está para crianças de seis, sete anos, eu posso falar que ninguém vai ficar com vergonha. Um menino com um pintão enorme aqui no livro, eles se beijam etc. Para que serve isso aqui? Para deformar o caráter das criancinhas”
“Eu não deixaria um filho meu, de cinco anos de idade, ir brincar na casa de outro menino da mesma idade que tenha sido adotado por um casal gay”
“Qual é o pai que tem orgulho de ter um filho gay? Não tem. Ele convive e deve respeitar. Agora, eu nunca vi um baile de debutante patrocinado por esses pais”
“Eles querem estimular a pedofilia. Eles querem sensualizar as crianças precocemente. É uma esculhambação o que fazem com a educação no Brasil”
“Olha, homofobia não existe. Não é por que o cara faz sexo com o seu órgão excretor que vai ser melhor do que os outros”
Os progressos humanos já deixaram claro que não ter medo do conhecimento é a chave para que tudo avance. Foi um enorme salto quando a humanidade descobriu que a peste que devastou países no século 14 não era um castigo mandado por Deus, mas uma doença causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida ao homem por pulgas infectadas. Assim como foi bastante libertador para as mulheres contarem com a pílula anticoncepcional, a partir de 1960, dispondo finalmente de um meio eficaz de evitar a gravidez. O lançamento da pílula deu início à uma revolução sexual que ecoa até hoje e que tem como legado indiscutível ter tirado a discussão da sexualidade do porão e a levado para a sala de jantar. Ficou mais fácil falar de sexo e de tudo o que está associado a ele, inclusive da necessidade de prevenção das doenças que podem ser transmitidas durante o ato.
E isso é muito bom. Menos, ao que parece, para o presidente Jair Bolsonaro e parte de sua trupe de ministros. Comandando uma espécie de antirrevolução dos costumes em todas as áreas, o presidente determinou ao primeiro escalão do governo a implementação de uma série de ações com o intuito de fazer deslanchar uma pauta ultraconservadora, incluindo a questão de educação sexual – na verdade, uma deseducação. Parece uma obsessão e é isso que tem norteado a maioria das iniciativas nos primeiros meses de mandato. Também é o que embala a retórica presidencial não raro utilizada como uma espécie de válvula de escape. Toda vez que surge algo na imprensa capaz de constrangê-lo, o presidente ou mesmo algum ministro saca da cartola uma ideia, em geral polêmica, que possa promover o que chamam de guinada cultural. Não se trata de estelionato eleitoral, uma vez que boa parte da população o elegeu em nome justamente da promessa do cavalo de pau na agenda dos costumes. E é por isso que a estratégia mobiliza a militância nas redes, orienta os debates mais acalorados e, ao fim e ao cabo, tira o foco do que é essencial. O problema, no entanto, é maior do que simplesmente eclipsar o que deveria estar à luz do sol. Reside no fato de que muitas das medidas constituem retrocessos impensáveis.
Por falta de informação, a cobertura vacinal contra o HPV, vírus sexualmente transmissível, é baixa
Por exemplo, nos últimos dias, Bolsonaro determinou que sejam feitas mudanças nas cadernetas de vacinação para adolescentes distribuídas pelo Ministério da Saúde. Ele não gostou das páginas que explicam as transformações nas anatomias feminina e masculina ao longo da adolescência e muito menos das que apresentavam como colocar a camisinha para homens e a camisinha para mulheres. No entender de Bolsonaro, as imagens “não caem bem para meninos e meninas terem acesso”. O presidente fez o anúncio por rede social e disse ter sido alertado para o conteúdo por uma senhora, eleitora sua, que havia lhe enviado as figuras.
Autocuidado e prevenção
Assim, por sugestão de alguém que o País não conhece e que provavelmente ainda está na era em que sexo era pecado, o presidente da República botou abaixo dois anos de trabalho. Foi o tempo que levou para que especialistas, pais e adolescentes discutissem a questão a fundo e produzissem uma caderneta informativa e atraente para o público alvo. O Ministério da Saúde irá fazer as alterações pedida. Por enquanto, a que está no site é a que Bolsonaro quer apagar.
É lamentável que um retrocesso dessa natureza tenha ocorrido. Há décadas o mundo tenta tornar as informações sobre sexo mais acessíveis, coisa que se tornou ainda mais urgente depois da Aids. “Informação previne, e não o contrário”, afirma a bióloga Luisa Villa, chefe do Laboratório de Inovação do Instituto do Câncer de São Paulo. Sem falar de sexo, sem explicar a anatomia, como fazer com que o adolescente entenda o seu corpo? Como incentivá-lo a se proteger se ele não tem informação do que ocorre durante o ato sexual?
Essa é uma verdade aplicada a todas as áreas. Porém, o governo Bolsonaro parece atuar em bloco contra ela. Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, por exemplo, insiste em retratar um mundo no qual, como ela mesma diz, menino veste azul e menina veste rosa. Há tempos isso não existe mais, e a liberdade de escolha do gênero e da opção sexual é uma das conquistas mais celebradas deste século. No entanto, Damares defende estereótipos ultrapassados. Na semana passada, durante uma fala sobre o Dia Internacional da Mulher, a ministra disse que os homens precisam respeitar as mulheres — o que é verdade — e fazer gentilezas como oferecer flores e abrir a porta do carro.
Não se está aqui condenando homens que fazem isso e tampouco mulheres que gostam de receber esses agrados. O que se critica é a insistência de uma ministra de Estado em algo nostálgico e estigmatizante quando a realidade da brasileira é bem mais dura do que não ter a porta do carro aberta para ela. Estão aí os dados de feminicídio para provar: só em 2018, 53 mulheres foram mortas porque eram mulheres. É o enfrentamento dessas questões que deve ser levado adiante por uma pessoa em sua posição, não o reforço de uma concepção de mundo que parece ter parado na década de 1950.
É essa impressão que se tem quando são analisadas várias ações bolsonaristas. No caso do ministro da Educação, Ricardo Vélez, às vezes parece que o mundo parou na década de 1970. Sua ordem para que os estudantes hasteassem a bandeira brasileira e cantassem o hino nacional no primeiro dia de aula determinava, na verdade, a implantação de uma prática comum durante os governos da ditadura. “A lei que mandava as crianças cantarem o Hino Nacional nas escolas públicas é de 1971”, lembra a educadora Cláudia Costin, fundadora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais na Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. “Não há problema em cantar o hino. O problema é mandar que tudo fosse gravado, tornar-se um slogan do governo”, afirma.
Bolsonaro e seus dois ministros, na verdade, parecem sentir saudades do tempo em que a revolução dos costumes ainda provocava efeitos tímidos. A insistência em tirar das escolas aulas de educação sexual remete à era dos colégios onde o assunto era simplesmente proibido. Um equívoco que a história já corrigiu, mostrando, cientificamente, os benefícios de colocar o tema em sala de aula. “Vamos pensar em evidências científicas, e não em crenças. Não há relação cientifica do tema com homossexualismo ou pedofilia. Não há como uma pessoa fazer da outra homossexual”, explica Claudia. É a ciência falando. E a ciência está no século 21, ao lado dos avanços e não dos retrocessos.
O sexo, segundo Bolsonaro
Mesmo antes de publicar o vídeo do “golden shower” no Twitter durante o Carnaval, o presidente Jair Bolsonaro demonstrava uma visão enviesada do sexo, principalmente da sexualidade alheia. Ele parece ver transgressão em tudo, toma manifestações isoladas como uma tendência geral de depravação e tem sempre como alvo principal de seus ataques os gays. Bolsonaro tem certeza que hoje há uma grande conspiração da esquerda na área de educação para induzir as crianças ao homossexualismo. É uma espécie de ideia fixa. Em poucas palavras, o que o presidente diz é que ativistas do movimento LGBT querem ensinar nas escolas as crianças como ser gay. No mundo imaginário de Bolsonaro há qualquer momento um professor pode tirar da manga uma cartilha com instruções para a prática do sexo anal ou com imagens de beijos entre duas mulheres. É isso que ele diz querer combater. O esforço de educadores para tornar a sociedade mais tolerante é visto como uma iniciativa libidinosa levada a cabo por pedófilos e gente traiçoeira.
Uma publicação que incomoda especialmente o presidente é “Aparelho Sexual e Cia — um guia inusitado para crianças descoladas”, livro francês escrito por Hélene Bruller e ilustrado pelo cartunista suíço Zep, editado pela Companhia das Letras. Seu conteúdo é destinado à orientação sexual de jovens de 11 a 15 anos. A obra trata com um tom bem humorado de assuntos relacionados à sexualidade adolescente e envolve questões básicas como o nascimento de bebês e os dilemas da puberdade. Há anos, Bolsonaro combate esse livro como um exemplo de deformação moral. Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro tentou transformá-lo num símbolo da conspiração homossexual ao mostrá-lo no Jornal Nacional. Para Bolsonaro, a obra é um conjunto de atrocidades e integra o fantasioso “kit gay”. “A minha briga é com o kit gay. Não quero que crianças de seis anos de idade tenham acesso ao kit gay. Você quer que se ensine crianças de seis anos de idade que o menino deve enfiar o piu-piu no bumbum de outro homem?”. Segundo o presidente, o livro “estimula as crianças precocemente para o sexo e, além disso, escancara as portas da pedofilia”. Bolsonaro tem aversão à educação sexual nas escolas. Nos últimos anos, se dedicou a atacar o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, lançado em 2009, que, segundo o presidente, usa o público LGBT para difundir nas escolas questões que os pais não querem para seus filhos.
O presidente dizia que o plano criava cotas para professores homossexuais “Aqui é mais importante colocar na cabeça do menino que ele não é menino e da menina que ela não é menina, como foi aplicado na prova do Enem”, afirma. “Há uma minoria de ativistas homossexuais que ganham dinheiro com isso, se atocaiam, fazem uma emboscada no pessoal de primeiro grau. Os pais deixam seus filhos na escola e lá eles vão ter aula de homossexualismo. A título de combater a homofobia as crianças vão ser presas para pedófilos.”
“Informação previne, e não o contrário. É nosso dever informar sobre o uso correto da camisinha” Luisa Villa, bióloga
Bolsonaro deveria ser menos intolerante. Para alguém que declarou ter feito sexo com animais, em especial com galinhas soa estranho falar em combater a sexualização precoce. “Ir atrás de galinha no galinheiro todo mundo ia. Entendeu? Alguns mais malandros pegavam na jumentinha, na bezerrinha. Naquele tempo não havia mulher”, disse ele em uma entrevista ao programa CQC, em 2017. Ou seja, com galinha pode, mas com o amiguinho nem pensar.
“Como esse livro (Aparelho Sexual & Cia) está para crianças de seis, sete anos, eu posso falar que ninguém vai ficar com vergonha. Um menino com um pintão enorme aqui no livro, eles se beijam etc. Para que serve isso aqui? Para deformar o caráter das criancinhas”
“Eu não deixaria um filho meu, de cinco anos de idade, ir brincar na casa de outro menino da mesma idade que tenha sido adotado por um casal gay”
“Qual é o pai que tem orgulho de ter um filho gay? Não tem. Ele convive e deve respeitar. Agora, eu nunca vi um baile de debutante patrocinado por esses pais”
“Eles querem estimular a pedofilia. Eles querem sensualizar as crianças precocemente. É uma esculhambação o que fazem com a educação no Brasil”
“Olha, homofobia não existe. Não é por que o cara faz sexo com o seu órgão excretor que vai ser melhor do que os outros”
BOLSONARO: PROIBIDÃO PARA MENORES E MAIORES
Xico Sá, EL PAÍS
Não precisamos recorrer a seriados chiques e distópicos, como abestalhadamente já fez este cronista. Nem citar os Black Mirrors ou South Parks da vida. O buraco, a cratera, o rombo simbólico é mais embaixo. Bolsonaroé típico personagem da pornochanchada brasileira, o cinema popular dos anos 1970-80, não por coincidência a época de um Brasil idealizado pelo capitão-presidente nos seus micro-sermões nostálgicos e patrióticos.
Machão caricato, boçal -usou o auxílio-moradia “pra comer gente”-, homofóbico, eterno espírito de baixo clero, cristão de araque etc. Caberia em vários filmes do gênero. Inclusive no clássico Histórias que nossas babás não contavam (1979), dirigido por Oswaldo de Oliveira, uma paródia de Branca de Neve e os Sete Anões. Bolsonaro faria o caçador. Óbvio que prefiro o mitológico Costinha no papel. E Deus salve, para todo sempre, a Adele Fátima, magnífica atuação.
Perigoso para menores, sob pena de um Brasil sem futuro, o moralista militar da reserva é igualmente proibidão para maiores de 60 anos. Imagina se depender da bondade da turma de Paulo Guedes (todo-poderoso ministro da Economia) e se for pobre, como a massa maior do país. Vixe. Pode ter que escapar fedendo com 400 mirréis para remediar o irremediável custo das receitas e caldos de uma velhice sem sustança.
O capitão da reserva, com a sua denúncia moral rasa e o fastio para governar, se enquadra em outra característica atribuída ao ciclo da pornochanchada: distrair os fanáticos eleitores para evitar questões graves da realidade do país. Nada como um carnavalesco post pornô para desviar dos escândalos do Queiroz e do laranjal do partido que o conduziu, generosamente com dinheiro público, ao Palácio do Planalto.
Ao situar o presidente como personagem elementar de tal safra cinematográfica, longe desse escriba a intenção de diminuir a importância do movimento que começou no Rio de Janeiro e teve a Boca do Lixo paulistana como sua Hollywood. Sou fã e confesso em público, sem vergonha, a minha devoção. É que a pornochanchada é quase o lugar (óbvio) de fala do Bolsonaro, entende? Sabe a última do capitão? A antologia completa está inteira nesse ciclo do cinema tupiniquim, incluindo no pacote a paranoia diante dos “comunistas”, temática presente nas películas dos anos 1970.
Para entender o Brasil deste período, recomendo, além de rebobinar as velhas fitas de VHS no inconsciente, assistir ao documentário Histórias que nosso cinema (não) contava (2018), dirigido por Fernanda Pessoa. O filmaço passou por algumas poucas salas no Brasil (que pena, merecia cartaz permanente pelo seu caráter pedagógico, paulofreiriano, talvez) e é fácil de encontrar nos serviços de streaming.
Cinema é montagem. E a diretora, na companhia de Luiz Cruz, o montador do longa-metragem, sabem disso. Pesquisa profunda qual a garganta daquele outro clássico norte-americano (Deep Throat, 1972), o filme não é carente de voz em OFF ou de entrevistados para narrar um mundo de coisas. Bastou a sabedoria de editar falas & falocentrismos, cenas e obscenidades que dão conta de um país que já mudou muito, mas foi buscar no reino da pornochanchada, nas eleições do ano passado, o seu comandante em marcha-ré.
Pessoa e Cruz enfileiram 27 longas para contar sobre o cinemão do período da Ditadura Militar. E agora José? (Tortura do Sexo), dirigido por Ody Fraga é exemplar, com cenas que reúnem os castigos dos porões e um possível erotismo de dar um nó no cabeção do doutor Freud. Doideiras que só a pornochanchada, não o Cinema Novo ou cult decifravam.
Tem o Silvio de Abreu com Árvore dos Sexos (1977) e Cada Um Dá o Que Tem(1975), fita que dirige com Adriano Stuart e John Herbert. Reparo na vida e obra de Sílvio de Abreu. Tanta tv, tanto cinema, tanto teatro... Em todas as funções possíveis: roteirista, ator, supervisor de núcleos dramáticos etc etc. Sério candidato a um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos. Repare na biografia desse homem. Além de tudo, dirigiu o maior elogio ao freudianismo de todos os tempo, Mulher Objeto (1981), com Helena Ramos (palmas eternas) e Nuno Leal Maia —sim, Nuno fabuloso também em O bem dotado, o homem de Itu(direção José Miziara, 1978).
O filme da Pessoa é um delírio sem fim para a minha geração, mas creio que seja mais importante ainda para quem desconhece o ciclo da pornochanchada e agora se vê desgovernado pelo capitão-presidente. Se senti falta de um Walter Hugo Khouri, nosso Antonioni da Móoca, matei a saudade da Sandra Bréa (1952-2000), tem lindeza maior no cosmo? Senti falta pelo universo que sugere, mas é polêmico situar o Khouri neste ciclo, talvez não lhe pertença.
Em compensação, a ficção científica A Super Fêmea (Anibal Massaini Neto, 1973), com Vera Fischer, é um nirvana. Que documentário rico sobre um período idem. Pena que, na vida real, só nos sobrou este caricato capitão-presidente enquanto obscuro objeto do resquício autoritário. “Noooossa!”, exclamaria o grande Costinha, com sua imoral bocarra. “Tás brincando?!”, completaria a mesma humorística figura.
Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Catecismo de devoções, intimidades & pornografias” (editora do bispo), entre outros livros. É comentarista do programa “Redação Sportv”.
Não precisamos recorrer a seriados chiques e distópicos, como abestalhadamente já fez este cronista. Nem citar os Black Mirrors ou South Parks da vida. O buraco, a cratera, o rombo simbólico é mais embaixo. Bolsonaroé típico personagem da pornochanchada brasileira, o cinema popular dos anos 1970-80, não por coincidência a época de um Brasil idealizado pelo capitão-presidente nos seus micro-sermões nostálgicos e patrióticos.
Machão caricato, boçal -usou o auxílio-moradia “pra comer gente”-, homofóbico, eterno espírito de baixo clero, cristão de araque etc. Caberia em vários filmes do gênero. Inclusive no clássico Histórias que nossas babás não contavam (1979), dirigido por Oswaldo de Oliveira, uma paródia de Branca de Neve e os Sete Anões. Bolsonaro faria o caçador. Óbvio que prefiro o mitológico Costinha no papel. E Deus salve, para todo sempre, a Adele Fátima, magnífica atuação.
Perigoso para menores, sob pena de um Brasil sem futuro, o moralista militar da reserva é igualmente proibidão para maiores de 60 anos. Imagina se depender da bondade da turma de Paulo Guedes (todo-poderoso ministro da Economia) e se for pobre, como a massa maior do país. Vixe. Pode ter que escapar fedendo com 400 mirréis para remediar o irremediável custo das receitas e caldos de uma velhice sem sustança.
O capitão da reserva, com a sua denúncia moral rasa e o fastio para governar, se enquadra em outra característica atribuída ao ciclo da pornochanchada: distrair os fanáticos eleitores para evitar questões graves da realidade do país. Nada como um carnavalesco post pornô para desviar dos escândalos do Queiroz e do laranjal do partido que o conduziu, generosamente com dinheiro público, ao Palácio do Planalto.
Ao situar o presidente como personagem elementar de tal safra cinematográfica, longe desse escriba a intenção de diminuir a importância do movimento que começou no Rio de Janeiro e teve a Boca do Lixo paulistana como sua Hollywood. Sou fã e confesso em público, sem vergonha, a minha devoção. É que a pornochanchada é quase o lugar (óbvio) de fala do Bolsonaro, entende? Sabe a última do capitão? A antologia completa está inteira nesse ciclo do cinema tupiniquim, incluindo no pacote a paranoia diante dos “comunistas”, temática presente nas películas dos anos 1970.
Para entender o Brasil deste período, recomendo, além de rebobinar as velhas fitas de VHS no inconsciente, assistir ao documentário Histórias que nosso cinema (não) contava (2018), dirigido por Fernanda Pessoa. O filmaço passou por algumas poucas salas no Brasil (que pena, merecia cartaz permanente pelo seu caráter pedagógico, paulofreiriano, talvez) e é fácil de encontrar nos serviços de streaming.
Cinema é montagem. E a diretora, na companhia de Luiz Cruz, o montador do longa-metragem, sabem disso. Pesquisa profunda qual a garganta daquele outro clássico norte-americano (Deep Throat, 1972), o filme não é carente de voz em OFF ou de entrevistados para narrar um mundo de coisas. Bastou a sabedoria de editar falas & falocentrismos, cenas e obscenidades que dão conta de um país que já mudou muito, mas foi buscar no reino da pornochanchada, nas eleições do ano passado, o seu comandante em marcha-ré.
Pessoa e Cruz enfileiram 27 longas para contar sobre o cinemão do período da Ditadura Militar. E agora José? (Tortura do Sexo), dirigido por Ody Fraga é exemplar, com cenas que reúnem os castigos dos porões e um possível erotismo de dar um nó no cabeção do doutor Freud. Doideiras que só a pornochanchada, não o Cinema Novo ou cult decifravam.
Tem o Silvio de Abreu com Árvore dos Sexos (1977) e Cada Um Dá o Que Tem(1975), fita que dirige com Adriano Stuart e John Herbert. Reparo na vida e obra de Sílvio de Abreu. Tanta tv, tanto cinema, tanto teatro... Em todas as funções possíveis: roteirista, ator, supervisor de núcleos dramáticos etc etc. Sério candidato a um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos. Repare na biografia desse homem. Além de tudo, dirigiu o maior elogio ao freudianismo de todos os tempo, Mulher Objeto (1981), com Helena Ramos (palmas eternas) e Nuno Leal Maia —sim, Nuno fabuloso também em O bem dotado, o homem de Itu(direção José Miziara, 1978).
O filme da Pessoa é um delírio sem fim para a minha geração, mas creio que seja mais importante ainda para quem desconhece o ciclo da pornochanchada e agora se vê desgovernado pelo capitão-presidente. Se senti falta de um Walter Hugo Khouri, nosso Antonioni da Móoca, matei a saudade da Sandra Bréa (1952-2000), tem lindeza maior no cosmo? Senti falta pelo universo que sugere, mas é polêmico situar o Khouri neste ciclo, talvez não lhe pertença.
Em compensação, a ficção científica A Super Fêmea (Anibal Massaini Neto, 1973), com Vera Fischer, é um nirvana. Que documentário rico sobre um período idem. Pena que, na vida real, só nos sobrou este caricato capitão-presidente enquanto obscuro objeto do resquício autoritário. “Noooossa!”, exclamaria o grande Costinha, com sua imoral bocarra. “Tás brincando?!”, completaria a mesma humorística figura.
Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Catecismo de devoções, intimidades & pornografias” (editora do bispo), entre outros livros. É comentarista do programa “Redação Sportv”.
terça-feira, 12 de março de 2019
O FIM DA PICADA NO CARNAVAL
Artigo de Fernando Gabeira
Passei o carnaval entre Juazeiro, na Bahia, e Juazeiro do Norte, no Ceará. De Juazeiro a Juazeiro. Uma bela viagem, sugestão do fotógrafo Orlando Brito.
Apesar da intensidade do trabalho, tentei acompanhar o carnaval brasileiro. Confesso que, nessa época, pouco tenho a ler nos jornais. Não me levem a mal, mas falam de pessoas que não conheço, fazendo confissões que não me interessam. Sou um pouco fora do ar em certos temas do show business.
Sinto-me como se estivesse nos versos de Manuel Bandeira: “Lá a existência é uma aventura/ De tal modo inconsequente/ Que Joana a Louca de Espanha/ Rainha e falsa demente/ Vem a ser contraparente/ Da nora que nunca tive.”
Nas noites do sertão, foi possível ler a análise que Milan Kundera faz do romance “A montanha mágica”, de Thomas Mann.
Tem tudo a ver com uma certa decadência no ar; baixarias, memes sobre dependência química, falta de compaixão com avô que perde o neto.
O livro de Thomas Mann é sobre o confronto de ideias. Brilhantes intelectuais terminam querendo se matar. Os outros personagens também mergulham num clima de irritação e agressividade.
O que o autor parece revelar é que o confronto de ideias é apenas uma máscara que esconde as emoções irracionais e violentas.
Kundera afirma sobre “A montanha mágica”: “É um grande romance de ideias mas ao mesmo tempo uma terrível dúvida sobre as ideias, um grande adeus à época que acreditou nas ideias e na sua faculdade de dirigirem o mundo.”
O romance se passa nas vésperas da Primeira Guerra. Depois disso, vieram o fascismo, o nazismo e o comunismo, que, no fundo, afirmam a mensagem da “Montanha mágica”, que se desenrola em Davos, na Suíça.
Envolto nesse clima de desalento com o poder das forças obscuras e irracionais, chego ao Rio para seguir as notícias sobre o aumento da violência, um tema importante para nós e sempre muito destacado na imprensa internacional. Só aí soube do vídeo lançado na rede por Bolsonaro.
Foi um desastre para nossa imagem internacional. Felizmente, alguns jornalistas se solidarizaram com o povo brasileiro, a vítima principal desse gesto desvairado. Na verdade, o presidente usa a mesma tática da imprensa sensacionalista: isola um fato escabroso, mostra-o nos detalhes e tempera com uma lição de moral, para atenuar a culpa da curiosidade mórbida. Mas nem a imprensa sensacionalista mostraria o que Bolsonaro mostrou.
Nas reflexões que fiz aqui sobre jornalismo, afirmei que era falsa a afirmação que isto é mostrar a verdade. Na minha opinião, isto é mascarar a verdade. Estamos mais próximos dela quando avaliamos o todo, e não apenas as partes.
O Brasil é surpreendente, mas jamais pensei numa situação dessas: um presidente da República postar um vídeo pornográfico e perguntar por golden shower no tuíte seguinte.
Suponhamos que fosse um presidente conservador querendo combater pela moralidade. Que visão pedagógica é essa? Se é a visão de Bolsonaro, podemos esperar nas aulas de Moral Cívica um departamento de sadomasoquismo; outro, de sexo grupal. Seria preciso mostrar as cenas para dizer que as condena?
Tenho procurado fazer uma oposição construtiva. Tive uma boa convivência com Bolsonaro, nos últimos mandatos; respeito seus eleitores e quero que o Brasil saia dessa crise. Continuo querendo isso, mas o quadro fica mais claro para mim.
Existe um governo tomando conta do governo. Sua tarefa é evitar os desvarios, sobretudo na política externa. Li que cuidará também da família do presidente. Agora, terá de cuidar de Bolsonaro.
Não é confortável, numa democracia, que um núcleo militar tenha esse poder. Será preciso que o próprio Congresso perceba a importância do momento e procure estar à altura. Os militares não são atores únicos numa democracia. Isso é apenas outra bobagem de Bolsonaro.
Que se faça um trânsito seguro até 2022, quando então poderemos reequilibrar os poderes. Prever cenário no Brasil demanda coragem. Construí-lo, mais ainda.
Considero a divulgação do vídeo um marco na história do governo Bolsonaro. E na minha cabeça: nunca um presidente fez isso. É a transposição de um limite válido para todos na vida pública. Certamente, pagará um preço. No mínimo, a vigilância maior de uma força-tarefa destinada a evitar que tente de novo suicídios políticos.
Artigo publicado no jornal O Globo em 11/03/2019
Passei o carnaval entre Juazeiro, na Bahia, e Juazeiro do Norte, no Ceará. De Juazeiro a Juazeiro. Uma bela viagem, sugestão do fotógrafo Orlando Brito.
Apesar da intensidade do trabalho, tentei acompanhar o carnaval brasileiro. Confesso que, nessa época, pouco tenho a ler nos jornais. Não me levem a mal, mas falam de pessoas que não conheço, fazendo confissões que não me interessam. Sou um pouco fora do ar em certos temas do show business.
Sinto-me como se estivesse nos versos de Manuel Bandeira: “Lá a existência é uma aventura/ De tal modo inconsequente/ Que Joana a Louca de Espanha/ Rainha e falsa demente/ Vem a ser contraparente/ Da nora que nunca tive.”
Nas noites do sertão, foi possível ler a análise que Milan Kundera faz do romance “A montanha mágica”, de Thomas Mann.
Tem tudo a ver com uma certa decadência no ar; baixarias, memes sobre dependência química, falta de compaixão com avô que perde o neto.
O livro de Thomas Mann é sobre o confronto de ideias. Brilhantes intelectuais terminam querendo se matar. Os outros personagens também mergulham num clima de irritação e agressividade.
O que o autor parece revelar é que o confronto de ideias é apenas uma máscara que esconde as emoções irracionais e violentas.
Kundera afirma sobre “A montanha mágica”: “É um grande romance de ideias mas ao mesmo tempo uma terrível dúvida sobre as ideias, um grande adeus à época que acreditou nas ideias e na sua faculdade de dirigirem o mundo.”
O romance se passa nas vésperas da Primeira Guerra. Depois disso, vieram o fascismo, o nazismo e o comunismo, que, no fundo, afirmam a mensagem da “Montanha mágica”, que se desenrola em Davos, na Suíça.
Envolto nesse clima de desalento com o poder das forças obscuras e irracionais, chego ao Rio para seguir as notícias sobre o aumento da violência, um tema importante para nós e sempre muito destacado na imprensa internacional. Só aí soube do vídeo lançado na rede por Bolsonaro.
Foi um desastre para nossa imagem internacional. Felizmente, alguns jornalistas se solidarizaram com o povo brasileiro, a vítima principal desse gesto desvairado. Na verdade, o presidente usa a mesma tática da imprensa sensacionalista: isola um fato escabroso, mostra-o nos detalhes e tempera com uma lição de moral, para atenuar a culpa da curiosidade mórbida. Mas nem a imprensa sensacionalista mostraria o que Bolsonaro mostrou.
Nas reflexões que fiz aqui sobre jornalismo, afirmei que era falsa a afirmação que isto é mostrar a verdade. Na minha opinião, isto é mascarar a verdade. Estamos mais próximos dela quando avaliamos o todo, e não apenas as partes.
O Brasil é surpreendente, mas jamais pensei numa situação dessas: um presidente da República postar um vídeo pornográfico e perguntar por golden shower no tuíte seguinte.
Suponhamos que fosse um presidente conservador querendo combater pela moralidade. Que visão pedagógica é essa? Se é a visão de Bolsonaro, podemos esperar nas aulas de Moral Cívica um departamento de sadomasoquismo; outro, de sexo grupal. Seria preciso mostrar as cenas para dizer que as condena?
Tenho procurado fazer uma oposição construtiva. Tive uma boa convivência com Bolsonaro, nos últimos mandatos; respeito seus eleitores e quero que o Brasil saia dessa crise. Continuo querendo isso, mas o quadro fica mais claro para mim.
Existe um governo tomando conta do governo. Sua tarefa é evitar os desvarios, sobretudo na política externa. Li que cuidará também da família do presidente. Agora, terá de cuidar de Bolsonaro.
Não é confortável, numa democracia, que um núcleo militar tenha esse poder. Será preciso que o próprio Congresso perceba a importância do momento e procure estar à altura. Os militares não são atores únicos numa democracia. Isso é apenas outra bobagem de Bolsonaro.
Que se faça um trânsito seguro até 2022, quando então poderemos reequilibrar os poderes. Prever cenário no Brasil demanda coragem. Construí-lo, mais ainda.
Considero a divulgação do vídeo um marco na história do governo Bolsonaro. E na minha cabeça: nunca um presidente fez isso. É a transposição de um limite válido para todos na vida pública. Certamente, pagará um preço. No mínimo, a vigilância maior de uma força-tarefa destinada a evitar que tente de novo suicídios políticos.
Artigo publicado no jornal O Globo em 11/03/2019
domingo, 10 de março de 2019
CONQUISTA FEMININA AMEAÇADA
Da Folha de S.Paulo
Candidaturas de laranjas levam Congresso a propor fim de
cota para mulheres
A revelação do esquema
de candidaturas femininas de fachada simplesmente para que partidos
atingissem o percentual mínimo de candidatas trouxe de volta ao Congresso a
discussão sobre a cota de vagas para mulheres nas eleições.
No primeiro mês de trabalho do Legislativo foram
apresentados dois projetos que levam em consideração o desvio de recursos a
partir de candidaturas de laranjas.
O primeiro acaba com o Fundo Especial de Financiamento de
Campanha, o chamado fundo eleitoral. O outro, da semana passada, extingue o
percentual mínimo de candidatas.
Se aprovados até outubro, podem já valer para as eleições
municipais de 2020.
Desde 2009, mulheres precisam ser 30% das candidaturas
registradas por um partido.
Além disso, no ano passado, o TSE (Tribunal Superior
Eleitoral) decidiu que as legendas deverão reservar pelo menos 30% dos recursos
do fundo eleitoral para financiar candidaturas femininas. O mesmo percentual passou
a ser considerado em relação ao tempo de propaganda eleitoral no rádio e na TV.
No entanto, como a Folha mostrou em
reportagens neste ano, partidos usaram mulheres como candidatas laranjas nas
últimas eleições.
Uma das siglas que adotou a prática foi o PSL, partido do
presidente Jair Bolsonaro, eleito com o discurso de ética e fim da corrupção.
Diante das denúncias, Gustavo Bebianno, que presidiu o
partido na época das eleições, foi
demitido do cargo de ministro da Secretaria-Geral, e o ministro do
Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, teve sua manutenção no cargo questionada
por aliados do governo.
Reportagem da Folha publicada em 4 de
fevereiro revelou que Álvaro Antônio, deputado federal mais votado em Minas
Gerais, patrocinou
um esquema de quatro candidaturas de laranjas, todas abastecidas com verba
pública do PSL. O caso é investigado pela Polícia Federal e pelo Ministério
Público do estado e levou o ministro a reivindicar no STF (Supremo Tribunal
Federal) foro especial —o que foi negado.
"No momento em que se estabeleceu o percentual de 30%
para as mulheres, está claro agora que acabaram sendo conduzidos recursos para
mulheres sem grande potencial eleitoral que servissem justamente de
guarda-chuva para as campanhas dos marmanjos", afirma Major Olímpio (SP),
líder do PSL no Senado e presidente da legenda em São Paulo.
Ele é autor do projeto que acaba com o fundo eleitoral.
Hoje, os candidatos recebem recursos desse fundo, do fundo partidário e de
doações de pessoas físicas.
Olímpio diz que a obrigatoriedade da cota gera candidaturas
sem consistência, "simplesmente para preencher um vazio".
"[Para] Cada mulher que você não consegue nos 30%, você
está perdendo candidatura masculina. É comum os partidos falarem 'oh, cara, eu
quero legenda para ser candidato num partido'. 'Então, me arrume mais duas
mulheres'", afirma.
Já o projeto que acaba com a cota de mulheres foi
apresentado pelo senador Angelo Coronel (PSD-BA). Ele justifica que a
participação feminina nas últimas eleições não se mostrou diferente do patamar
histórico.
No ano passado, o número de mulheres registradas pelos
partidos ficou próximo ao mínimo exigido por lei —30,7% dos pedidos de registro
para a disputa aos cargos de deputado estadual e 31,59% para as vagas de
deputado federal.
"Parto do princípio que as mulheres querem ter
igualdade com os homens. Se querem igualdade, não precisa ter cota",
afirma Coronel.
No Congresso, há mulheres que concordam com ele.
"Sou contra qualquer tipo de estipulação de cotas, seja
para questões de raça, de opção sexual, de gênero. Penso que as cotas, antes de
incluir, excluem, são preconceituosas", afirma Selma Arruda (PSL-MT).
"Se não temos mulheres suficientes porque elas não se
interessam ainda, por questão cultural, de entrar na política, não será impondo
cotas que nós vamos conseguir", afirma a parlamentar de Mato Grosso,
estado que elegeu apenas uma senadora —ela— e uma deputada federal.
Atualmente, apenas 12 dos 81 senadores são mulheres, 15%. Na
Câmara, são 77 deputadas e 436 deputados (15%).
O líder do Solidariedade na Casa, deputado Augusto Coutinho
(PE), que comanda uma bancada com duas mulheres e 13 homens, também se diz
contra as cotas. "É mais um desses puxadinhos brasileiros que só criam
problema."
"No mundo ideal a gente não precisaria de cota para
absolutamente nada. Meu sonho é que nós não precisemos de cotas para que as
mulheres tenham espaço na política brasileira", afirma a deputada
Joice Hasselmann (PSL-SP), líder
do governo no Congresso e presidente do PSL Mulher.
Para o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), é
preciso aprovar um projeto de lei que regulamente a distribuição de recursos do
fundo eleitoral, sem alterar o percentual destinado às mulheres.
"O problema foi aprovar sem o Legislativo. O que
precisamos é ter uma lei que deixe clara a regra da distribuição dos recursos
sem mudar os 30% das mulheres", afirma.
A possibilidade de acabar com a cota foi considerada absurda
por alguns parlamentares de ambos os gêneros, que criticam o fato de se usar as
candidaturas de laranjas como pretexto para retroagir na legislação em vigor.
"O problema é o crime, não o princípio. A reserva de
vagas é um princípio para garantir a paridade da participação feminina nas
eleições", afirma o líder da minoria no Senado, Randolfe Rodrigues
(Rede-AP).
"É uma desculpa de quem nunca admitiu mulher na política para retroceder e fazer o que eles querem, a nossa exclusão do cenário", diz a senadora Eliziane Gama (PPS-MA).
"É uma desculpa de quem nunca admitiu mulher na política para retroceder e fazer o que eles querem, a nossa exclusão do cenário", diz a senadora Eliziane Gama (PPS-MA).
"O que falta é fiscalização, investigação, punição para
quem faz. E não retirar um direito conquistado, que foi muito difícil
conseguir", afirma a líder do PP no Senado, Daniella Ribeiro (PB).
sábado, 9 de março de 2019
VENEZUELA INSPIRA CUIDADOS
Artigo de Fernando Gabeira
Fui quatro vezes à fronteira com a Venezuela. A última jornada, entrega de caminhões com comida e remédio, acompanhei de longe. A sensação que tenho é de que algumas pessoas superestimaram a possibilidade da queda imediata de Maduro. Esperam um nocaute numa luta que só poderia ser ganha por pontos. E de certa forma a luta foi ganha. A violência contra os manifestantes e o incêndio dos caminhões contribuíram para isolar um pouco mais o ditador bolivariano.
Numa luta ganha por pontos, o vencedor também sofre alguns golpes. O grupo de países que apoiou Juan Guaidó utilizou um grande símbolo, que é a ajuda humanitária, mas parece ter-se esquecido de que outras crises surgem constantemente no mundo. E um dos princípios da ajuda humanitária é exatamente não usá-la para proselitismo político.
Se entendi bem os informes acerca da reunião sobre a Venezuela na Colômbia, havia uma divergência latente entre a posição brasileira e a norte-americana. Creio que essa divergência pode ser encontrada numa frase que os americanos usam com frequência: todas as opções para derrubar Maduro estão sobre a mesa. A julgar pelo general Hamilton Mourão, que representou o Brasil, há pelo menos uma opção que não nos interessa: a intervenção militar.
Há muitas razões para o Brasil descartar essa hipótese. Uma delas é o fato de termos uma fronteira comum e uma série de questões que precisam ser resolvidas bilateralmente. Um clima de guerra poderia atrair milhares de novos refugiados. Apesar do indiscutível poderio militar dos EUA e das forças bem equipadas da Colômbia, a vitória rápida na Venezuela não é tão previsível.
O centro de todas as táticas, no momento, é tentar descolar as Forças Armadas venezuelanas da ditadura de Maduro. Daí a insistência nas promessas de anistia e o apelo aos oficiais para que pensem no futuro. No entanto, a resistência a uma intervenção militar não surgiria apenas nas Forças Armadas. Há os paramilitares organizados por Maduro e possivelmente orientados pelos cubanos. E há uma polícia política que só teria a perder com a queda do regime.
Mesmo entre os militares há os que parecem imunes a qualquer proposta de anistia. São os generais que ocupam postos no governo e obtêm neles grandes vantagens financeiras. Podem até achar interessante a ideia de uma velhice tranquila. Mas dificilmente se disporão a perder os ganhos materiais que recebem de Maduro em troca de apoio.
É um caminho complicado. Guaidó definiu-o bem, afirmando que a ditadura não cairá por si própria. Não só Maduro pode refugiar-se no seu bunker em Miraflores, como existem centenas de pessoas dispostas a se imolar pelo socialismo do século 21.
O general Mourão também disse algo que me parece correto: a Venezuela não consegue sozinha se livrar desse esquema de dominação. Se Maduro não renuncia, a intervenção militar é inviável e a Venezuela não pode resolver a parada sozinha, o que nos resta como alternativa?
Guaidó marcou nova manifestação para amanhã. Ele, que parece ter capturado a simpatia de grande parte do povo, seguirá nesse caminho. Mas sabemos que nem sempre as manifestações se mantêm quando não conseguem resultados práticos. Elas tendem a refluir com o tempo, para reaparecer adiante, às vezes com mais força.
Articular a pressão interna e externa parece-me no momento a melhor saída, ainda que tome mais tempo. O sofrimento do povo venezuelano é um dado que leva muitos ao desejo de rapidez e nocaute.
Nem sempre soluções fulminantes são as menos dolorosas. Há outras ditaduras no mundo. Algumas são tratadas pela comunidade internacional com certa tolerância. Não só a Arábia Saudita, como a Coreia do Norte são objeto de táticas diferentes dos EUA. Há nisso tudo outra questão delicada: combinar com os russos. E os chineses. Ambos financiam a Venezuela e possivelmente têm sua dívida paga com petróleo. Assim como é necessário tranquilizar os militares com anistia, seria preciso convencer os russos e chineses de que não terão perdas econômicas com a mudança.
Não sei qual é a posição de Guaidó sobre isso. Mas como seu objetivo é conduzir a transição para a democracia, realizar eleições, não só ele, como outros atores da oposição vão precisar se manifestar sobre isso. Naturalmente, Maduro e a cúpula do governo podem também ser alcançados por uma política de anistia e retirada segura da Venezuela.
Imagino como algumas pessoas podem torcer o nariz para essas hipóteses. Combinar com os russos? Deixar Maduro escapar do país? São as contingências de uma vitória por pontos, diferente de simples nocaute.
Supor um caminho mais radical e de curta duração pode trazer sérias consequências, e não só as sangrentas de uma guerra no continente. São também as constantes decepções das pessoas que acreditam que um regime comunista, apoiado pelos cubanos, vai deixar a cena, refugiando-se numa embaixada ou pura e simplesmente partindo num avião de carreira.
Não creio que o Brasil deva temer uma posição moderada. Afinal, embora exista um esforço muito amplo para derrubar Maduro, as consequências do processo violento vão ser mais sentidas nos países vizinhos. Outro dia, em Pacaraima, segui uma ambulância militar venezuelana. Quando chegou a Boa Vista foi direto para o Hospital Geral e desembarcou um jovem soldado que precisava de ajuda.
Isso me fez pensar. Se até os militares cruzam a fronteira em busca de ajuda médica, qual o papel de Roraima num cenário de guerra? Volta e meia há apagões em Boa Vista. A energia vem da Venezuela. Estamos prontos para substituí-la?
O próprio Maduro, ao condenar a ajuda humanitária, de certa forma poupou o Brasil. Disse que tinha dinheiro para comprar nossa carne, nosso arroz e nosso leite em pó. Não é verdade, mas é uma nuance. E, em política, nuance conta. Ele não ignora que o Brasil quer derrubá-lo. Mas distingue o método dos adversários.
Artigo publicado no Estadão em 08/03/2019
Fui quatro vezes à fronteira com a Venezuela. A última jornada, entrega de caminhões com comida e remédio, acompanhei de longe. A sensação que tenho é de que algumas pessoas superestimaram a possibilidade da queda imediata de Maduro. Esperam um nocaute numa luta que só poderia ser ganha por pontos. E de certa forma a luta foi ganha. A violência contra os manifestantes e o incêndio dos caminhões contribuíram para isolar um pouco mais o ditador bolivariano.
Numa luta ganha por pontos, o vencedor também sofre alguns golpes. O grupo de países que apoiou Juan Guaidó utilizou um grande símbolo, que é a ajuda humanitária, mas parece ter-se esquecido de que outras crises surgem constantemente no mundo. E um dos princípios da ajuda humanitária é exatamente não usá-la para proselitismo político.
Se entendi bem os informes acerca da reunião sobre a Venezuela na Colômbia, havia uma divergência latente entre a posição brasileira e a norte-americana. Creio que essa divergência pode ser encontrada numa frase que os americanos usam com frequência: todas as opções para derrubar Maduro estão sobre a mesa. A julgar pelo general Hamilton Mourão, que representou o Brasil, há pelo menos uma opção que não nos interessa: a intervenção militar.
Há muitas razões para o Brasil descartar essa hipótese. Uma delas é o fato de termos uma fronteira comum e uma série de questões que precisam ser resolvidas bilateralmente. Um clima de guerra poderia atrair milhares de novos refugiados. Apesar do indiscutível poderio militar dos EUA e das forças bem equipadas da Colômbia, a vitória rápida na Venezuela não é tão previsível.
O centro de todas as táticas, no momento, é tentar descolar as Forças Armadas venezuelanas da ditadura de Maduro. Daí a insistência nas promessas de anistia e o apelo aos oficiais para que pensem no futuro. No entanto, a resistência a uma intervenção militar não surgiria apenas nas Forças Armadas. Há os paramilitares organizados por Maduro e possivelmente orientados pelos cubanos. E há uma polícia política que só teria a perder com a queda do regime.
Mesmo entre os militares há os que parecem imunes a qualquer proposta de anistia. São os generais que ocupam postos no governo e obtêm neles grandes vantagens financeiras. Podem até achar interessante a ideia de uma velhice tranquila. Mas dificilmente se disporão a perder os ganhos materiais que recebem de Maduro em troca de apoio.
É um caminho complicado. Guaidó definiu-o bem, afirmando que a ditadura não cairá por si própria. Não só Maduro pode refugiar-se no seu bunker em Miraflores, como existem centenas de pessoas dispostas a se imolar pelo socialismo do século 21.
O general Mourão também disse algo que me parece correto: a Venezuela não consegue sozinha se livrar desse esquema de dominação. Se Maduro não renuncia, a intervenção militar é inviável e a Venezuela não pode resolver a parada sozinha, o que nos resta como alternativa?
Guaidó marcou nova manifestação para amanhã. Ele, que parece ter capturado a simpatia de grande parte do povo, seguirá nesse caminho. Mas sabemos que nem sempre as manifestações se mantêm quando não conseguem resultados práticos. Elas tendem a refluir com o tempo, para reaparecer adiante, às vezes com mais força.
Articular a pressão interna e externa parece-me no momento a melhor saída, ainda que tome mais tempo. O sofrimento do povo venezuelano é um dado que leva muitos ao desejo de rapidez e nocaute.
Nem sempre soluções fulminantes são as menos dolorosas. Há outras ditaduras no mundo. Algumas são tratadas pela comunidade internacional com certa tolerância. Não só a Arábia Saudita, como a Coreia do Norte são objeto de táticas diferentes dos EUA. Há nisso tudo outra questão delicada: combinar com os russos. E os chineses. Ambos financiam a Venezuela e possivelmente têm sua dívida paga com petróleo. Assim como é necessário tranquilizar os militares com anistia, seria preciso convencer os russos e chineses de que não terão perdas econômicas com a mudança.
Não sei qual é a posição de Guaidó sobre isso. Mas como seu objetivo é conduzir a transição para a democracia, realizar eleições, não só ele, como outros atores da oposição vão precisar se manifestar sobre isso. Naturalmente, Maduro e a cúpula do governo podem também ser alcançados por uma política de anistia e retirada segura da Venezuela.
Imagino como algumas pessoas podem torcer o nariz para essas hipóteses. Combinar com os russos? Deixar Maduro escapar do país? São as contingências de uma vitória por pontos, diferente de simples nocaute.
Supor um caminho mais radical e de curta duração pode trazer sérias consequências, e não só as sangrentas de uma guerra no continente. São também as constantes decepções das pessoas que acreditam que um regime comunista, apoiado pelos cubanos, vai deixar a cena, refugiando-se numa embaixada ou pura e simplesmente partindo num avião de carreira.
Não creio que o Brasil deva temer uma posição moderada. Afinal, embora exista um esforço muito amplo para derrubar Maduro, as consequências do processo violento vão ser mais sentidas nos países vizinhos. Outro dia, em Pacaraima, segui uma ambulância militar venezuelana. Quando chegou a Boa Vista foi direto para o Hospital Geral e desembarcou um jovem soldado que precisava de ajuda.
Isso me fez pensar. Se até os militares cruzam a fronteira em busca de ajuda médica, qual o papel de Roraima num cenário de guerra? Volta e meia há apagões em Boa Vista. A energia vem da Venezuela. Estamos prontos para substituí-la?
O próprio Maduro, ao condenar a ajuda humanitária, de certa forma poupou o Brasil. Disse que tinha dinheiro para comprar nossa carne, nosso arroz e nosso leite em pó. Não é verdade, mas é uma nuance. E, em política, nuance conta. Ele não ignora que o Brasil quer derrubá-lo. Mas distingue o método dos adversários.
Artigo publicado no Estadão em 08/03/2019
quinta-feira, 7 de março de 2019
RECORDANDO LUIS CARLOS PRESTES
Há exatos 29 anos morria Luís Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança”. Nascido em Porto Alegre, em 3 de janeiro de 1898. Prestes faleceu em 7 de março de 1990, no Rio de Janeiro. Luiz Carlos Prestes foi militar, líder político e um dos maiores revolucionários brasileiro.
Filho de Antonio Pereira Prestes, capitão do exército, e de Leocádia Felizardo Prestes, professora primária. Com o pai morto durante sua infância, Prestes recebeu influência marcante da educação da mãe na composição de sua personalidade.
Levou vida pobre, sendo educado em casa pela mãe, depois entrando para o Colégio Militar em 1909. Concluídos os estudos neste, segue na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, atual Academia Militar das Agulhas Negras, contribuindo com o sustento da família com o seu soldo. Aluno brilhante, chegaria à patente de segundo-tenente.
Ao tomar conhecimento das "cartas falsas" atribuídas a Artur Bernardes, começa a envolver-se em questões políticas, dedicando-se ao combate ao futuro presidente que estava sendo programado pelos militares. Já como capitão, lidera o foco da primeira revolta tenentista na região das Missões, em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul. Suas metas eram o combate à oligarquia, estabelecimento do voto secreto, e convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.
Ao unir-se a um contingente paulista de militares revoltosos em Foz do Iguaçu, rompendo as linhas de defesa do governo, Prestes passa a liderar tal grupo que como outros de militares revoltosos, entre eles Miguel Costa, resolvem fazer oposição armada ao governo.
O grupo formado no Paraná logo seria batizado de Coluna Miguel Costa-Prestes (popularmente Coluna Prestes), que ao longo de dois anos e cinco meses percorreu, com 1500 homens cerca de 25000 km no interior do país, passando por (na época) 13 estados brasileiros.
Desgastados, os remanescentes da Coluna Prestes iriam buscar asilo na vizinha Bolívia. Deslocando-se à Argentina, é neste país, ao dedicar-se a leituras das mais diversas, é que surgirá no militar Prestes a convicção da eficácia das ideias marxista-leninistas.
Em 1931 já é comunista convicto, viajando para a União Soviética, retornando ao Brasil em 1934 com a esposa, Olga Benário, judia alemã, membro do partido comunista alemão. Os dois, sob o comando da facção Aliança Nacional Libertadora, ligada ao Partido Comunista Brasileiro, comandaria o fracassado golpe de 1935 conhecido como "Intentona Comunista", que visava derrubar o governo de Getúlio Vargas.
Prestes foi preso, sendo que sua mulher, grávida, foi deportada e entregue à Guestapo (a polícia política da Alemanha nazista), morrendo em 1942 em um campo de concentração.
Solto em meio ao processo de redemocratização, o "Cavaleiro da Esperança" elege-se senador pelo PCB em 1945, para logo ver a cassação do registro de seu partido sob a administração Dutra, em 1947.
Além disso, decretou-se sua prisão preventiva, o que o forçou a entrar para a clandestinidade. Sua prisão seria revogada em 1958 pelo presidente Kubitschek, mas, com o Golpe Militar de 1964, novamente torna-se um clandestino. Deixa o Brasil novamente rumo à União Soviética em 1971, voltando com a anistia decretada em 1979, sendo que a partir daí, passa a se distanciar do PCB, deixando a secretaria-geral do partido em 1983, cargo que ocupou por décadas.
Crendo que o PCB desviara-se do ideal marxista, seu novo partido será o PDT, legenda sob a qual pedirá votos a Brizola e a Lula nas eleições de 1989.
Com informações do InforEscola
Entre tantos livros escritos sobre a vida de Luís Carlos Prestes, o blog Sou Chocolate e Não Desisto recomenda a leitura da recente biografia Luís Carlos Prestes – Um revolucionário entre dois mundos, de Daniel Aarão Reis.
Filho de Antonio Pereira Prestes, capitão do exército, e de Leocádia Felizardo Prestes, professora primária. Com o pai morto durante sua infância, Prestes recebeu influência marcante da educação da mãe na composição de sua personalidade.
Levou vida pobre, sendo educado em casa pela mãe, depois entrando para o Colégio Militar em 1909. Concluídos os estudos neste, segue na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, atual Academia Militar das Agulhas Negras, contribuindo com o sustento da família com o seu soldo. Aluno brilhante, chegaria à patente de segundo-tenente.
Ao tomar conhecimento das "cartas falsas" atribuídas a Artur Bernardes, começa a envolver-se em questões políticas, dedicando-se ao combate ao futuro presidente que estava sendo programado pelos militares. Já como capitão, lidera o foco da primeira revolta tenentista na região das Missões, em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul. Suas metas eram o combate à oligarquia, estabelecimento do voto secreto, e convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.
Ao unir-se a um contingente paulista de militares revoltosos em Foz do Iguaçu, rompendo as linhas de defesa do governo, Prestes passa a liderar tal grupo que como outros de militares revoltosos, entre eles Miguel Costa, resolvem fazer oposição armada ao governo.
O grupo formado no Paraná logo seria batizado de Coluna Miguel Costa-Prestes (popularmente Coluna Prestes), que ao longo de dois anos e cinco meses percorreu, com 1500 homens cerca de 25000 km no interior do país, passando por (na época) 13 estados brasileiros.
Desgastados, os remanescentes da Coluna Prestes iriam buscar asilo na vizinha Bolívia. Deslocando-se à Argentina, é neste país, ao dedicar-se a leituras das mais diversas, é que surgirá no militar Prestes a convicção da eficácia das ideias marxista-leninistas.
Em 1931 já é comunista convicto, viajando para a União Soviética, retornando ao Brasil em 1934 com a esposa, Olga Benário, judia alemã, membro do partido comunista alemão. Os dois, sob o comando da facção Aliança Nacional Libertadora, ligada ao Partido Comunista Brasileiro, comandaria o fracassado golpe de 1935 conhecido como "Intentona Comunista", que visava derrubar o governo de Getúlio Vargas.
Prestes foi preso, sendo que sua mulher, grávida, foi deportada e entregue à Guestapo (a polícia política da Alemanha nazista), morrendo em 1942 em um campo de concentração.
Solto em meio ao processo de redemocratização, o "Cavaleiro da Esperança" elege-se senador pelo PCB em 1945, para logo ver a cassação do registro de seu partido sob a administração Dutra, em 1947.
Além disso, decretou-se sua prisão preventiva, o que o forçou a entrar para a clandestinidade. Sua prisão seria revogada em 1958 pelo presidente Kubitschek, mas, com o Golpe Militar de 1964, novamente torna-se um clandestino. Deixa o Brasil novamente rumo à União Soviética em 1971, voltando com a anistia decretada em 1979, sendo que a partir daí, passa a se distanciar do PCB, deixando a secretaria-geral do partido em 1983, cargo que ocupou por décadas.
Crendo que o PCB desviara-se do ideal marxista, seu novo partido será o PDT, legenda sob a qual pedirá votos a Brizola e a Lula nas eleições de 1989.
Com informações do InforEscola
Entre tantos livros escritos sobre a vida de Luís Carlos Prestes, o blog Sou Chocolate e Não Desisto recomenda a leitura da recente biografia Luís Carlos Prestes – Um revolucionário entre dois mundos, de Daniel Aarão Reis.
terça-feira, 5 de março de 2019
CRIVELLA FOGE DO CARNAVAL MANIPULANDO FANTASIAS
Do Blog do Josias
Marcelo Crivella (PRB), o prefeito do Rio de Janeiro, não
sabe o que é o Carnaval, não distingue escola de samba de bloco de sujos e não
aprendeu a separar a cadeira de governante do púlpito do pastor. Ou sabe tudo
isso e decidiu manipular fantasias para proteger-se da realidade que dá à
euforia dos foliões um significado de desafogo na existência árida de quem,
mesmo vivendo sem dinheiro, é obrigado a pagar o salário de um prefeito dado à
embromação.
Entrevistado pela Folha, Crivella foi submetido a uma
pergunta clara como água de bica: Por que o senhor não participa da entrega da
chave ao Rei Momo? Refugiou-se atrás de uma pilha de interrogações: "…A
vida inteira os prefeitos entregaram a chave da cidade. Melhorou o nosso nível
no Ideb [índice de qualidade da educação]? A desfavelização? Por que eu tenho
que dar a chave?" E o repórter, de bate-pronto: A tradição?
Crivella sambou na maionese: "A cidade do Rio de
Janeiro é o epicentro do Brasil de corrupção e violência. Só vamos vencer essa
crise com mudanças de costumes. Não cabe mais aos líderes políticos uma
dimensão folclórica, carnavalesca do cargo público. Temos que voltar, os homens
públicos, a gostar das coisas simples, a dar valor à solidariedade, à
humildade, à confiança e à austeridade."
Ora, quem transformou o Rio num antro de corrupção foram os
piratas que sambaram dentro dos cofres públicos, não os passistas da Marquês de
Sapucaí. O que levou à crise moral foram os maus costumes do bloco de sujos da
política, não os bons hábitos de quem segue a Banda de Ipanema.
Violência? Ai, ai, ai… Esse álibi já havia sido utilizado
por Crivella para fugir do Carnaval passado. Em 2018, o prefeito veiculou nas
redes um vídeo postado na Alemanha. Nele, declarou: "Estamos trabalhando
muito, pegando muita informação para saber o que é mais moderno em termos de
vigilância, em termos de VANT [veículo aéreo não tripulado], em termos de
drone, em termos de informação via satélite, enfim, o que a gente puder para
melhorar a questão da segurança no Rio de Janeiro." Não há vestígio de
tais modernidades no Rio. O discurso era alegórico.
De resto, não
dignifica os votos que recebeu um político que comanda a cidade do Carnaval sem
notar que a "dimensão carnavalesca do cargo" que ocupa se confunde
com a economia do município. Carnaval potencializa o turismo, um outro nome
para consumo, empregos e impostos. Compreende-se que o prefeito, bispo
licenciado da igreja Universal, seja doente do pé. Mas não é aceitável que seja
ruim da cabeça.
Para explicar seu desapreço pelo Carnaval, Crivella afirmou
que "as pessoas precisam entender" que ele é "um homem
evangélico cuja origem é essa." Heimm?!?!? "Tenho minhas convicções
da minha consciência e coração." Cabe perguntar: Alguém obrigou o pastor
evangélico a disputar a prefeitura do Rio, espécie de Éden mundial da folia
pagã?
Foi por livre e espontânea vontade que Crivella, ao disputar
as eleições, assegurou que sua condição de bispo não o impediria de prestigiar o
Carnaval (reveja abaixo um comentário feito pelo repórter no calor da abertura
das urnas municipais de 2016). Desde então, o prefeito foge dos compromissos
carnavalescos, inclusive os orçamentários. Contribui com sua omissão para
consolidar o Carnaval como a única festa que consola o brasileiro dos seus
infortúnios —da falta de emprego às mentiras dos políticos.
Vai disputar novamente a prefeitura?, indagou o repórter da
Folha. E Crivella: "Sem a menor dúvida, estarei firme e forte para
disputar a eleição. Tenho certeza que até lá vamos ter realizado muito
mais." Como se vê, não é que Crivella deteste o Carnaval. A questão é que,
no seu caso, a folia não termina na Quarta-feira de Cinzas. E tem outro nome:
reeleição.
Ao declarar-se
candidato à reeleição na mesma entrevista em que ofende a inteligência dos
amantes do Carnaval, Crivella parece rir por dentro, enquanto entoa Zé Ketti
mentalmente: "Quanto riso, oh! / Quanta alegria / Mais de mil palhaços no
salão." Por sorte, havia noutros carnavais marchinhas para todo gosto.
Um dos bailes frequentados por cariocas elegantes
contemporâneos de Zé Ketti era o High Life, na Glória. Ali, por vezes, os
foliões tinham a sensação de ter entrado, por engano, num templo religioso. A
certa altura, a multidão entoava, com devoção: "Maior é Deus no céu e nada
mais! / A falsidade no mundo é muito grande, / Por isso ele na Terra não volta
mais." De repente, a batucada estancava. E os foliões, em uníssono:
"Só Deus é maior!"
BALCÃO DE NEGÓCIOS
Da Reuters
Governo pode negociar mil cargos de 2º escalão por apoio à
Previdência
O governo do presidente Jair
Bolsonaro discute com parlamentares a possibilidade de nomear mais
de mil cargos de segundo escalão nos Estados como forma de ajudar o Executivo a
garantir votos para aprovar a reforma da Previdência, afirmou à Reuters o secretário
Especial para a Câmara dos Deputados, Carlos Manato.
As nomeações para o segundo escalão, disse Manato, estão
suspensas por ordem do presidente até o retorno dele, que está hospitalizado
desde o fim de janeiro recuperando-se da terceira cirurgia em razão do atentado
à faca ainda na campanha eleitoral. Nesta terça-feira, o ministro da Economia,
Paulo Guedes, recebeu o texto final da reforma e que deverá ser apresentado ao
presidente.
Por outro lado, um relatório com a lista das sugestões dos
parlamentares para os cargos será apresentada em breve ao presidente para que
ele e os ministros das respectivas áreas decidam sobre as nomeações.
Segundo Manato, o presidente e os ministros vão avaliar
primeiro se os cargos são estratégicos e, por isso, não passíveis de entrarem
na negociação com deputados e senadores.
Se na “peneira” o cargo for considerado apto para a
indicação de parlamentares, completou o secretário, os nomes terão de passar
pelos seguintes critérios: ter perfil técnico, ser ficha limpa e possuir
experiência para o cargo. Na lista dos pleitos, constam cargos do Dnit, Funasa,
Ibama, Incra, Correios, Receita Federal, Polícia Federal, Polícia Rodoviária
Federal, superintendências da Agricultura, Conab e Geap.
Manato, que foi deputado por quatro mandatos, afirmou que a
grande maioria das indicações é de funcionários de carreira, não de livre
nomeação. Ele destacou que as nomeações, ao lado da discussão das emendas
parlamentares, em parte atribuição também da Casa Civil, contribui para a
criação de um ambiente favorável para tentar se aprovar a reforma da
Previdência.
“Os deputados gostam de mostrar poder se esse pacote todo
ajuda (o governo)”, disse Manato, cuja secretaria faz parte da Casa Civil. Ele
avaliou que quer os deputados focados na discussão do mérito da reforma sem
poder alegar outras razões para não analisar a Previdência. “Por que (o
parlamentar) vai reclamar do governo?”, questionou.
Manato disse não considerar essa forma como o tradicional
“toma lá, dá cá”, forma de se fazer política rechaçada por Bolsonaro desde a
campanha. “Não tem isso de toma lá, dá cá. São pessoas técnicas”, defendeu ele,
que atualmente é filiado ao PSL, partido de Bolsonaro.
Após o veto do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ),
de liberar uma sala para o governo despachar, o secretário tenta garantir que o
seu partido garanta uma sala para atender diretamente as demandas dos deputados
dentro do Congresso.
Dificuldades
“Estamos ainda montando o segundo escalão. Não está sendo
fácil”, disse à Reuters o assessor especial da Casa Civil Abelardo Lupion,
ex-deputado federal que teve seis mandatos e também envolvido nas negociações
dos cargos. Segundo ele, tem sido difícil convencer pessoas a topar assumir os
cargos e deixar sua vida profissional.
Ainda assim, Lupion disse que toda a equipe da Casa Civil
que trata de relações com o Congresso –com cerca de 10 pessoas, boa parte de
ex-parlamentares– está “muito otimista” com a estratégia para garantir a
aprovação da reforma. Ele não quis precisar quantos votos o governo teria –é
preciso o apoio de pelo menos 308 dos 513 deputados para passar a Previdência
no plenário da Câmara em dois turnos de votação.
O assessor especial afirmou que o trabalho que está sendo
feito é para não se “destruir” a relação com os deputados após a votação da
reforma diante do delicado tema. Ele destacou que ainda haverá conversas com
governadores e até com dirigentes de partidos em busca de apoio para a
Previdência.
“Está sendo feita uma coisa para não errar, não errar a
mão”, disse, ao considerar ser possível votar a reforma na Câmara e no Senado
até julho.
RUÍDO E CONSTRANGIMENTO
Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo
A inteligência de conselhos, debates e reuniões é ouvir ideias novas, contrapor visões diferentes, abrir alas ao contraditório e buscar consensos para a melhor decisão. Por definição, eles são incompatíveis com o pensamento único – que é o oposto da inteligência. Então, por que o governo desidrata os conselhos e desconvida uma cientista política respeitada para um deles?
Uma das qualidades do presidente Jair Bolsonaro – que Michel Temer tinha e Dilma Rousseff, definitivamente, não tinha – é saber ouvir e ter a humildade, ou a grandeza, de mudar de opinião. O problema é que ele inverte o processo: em vez de ouvir, debater (e ampliar o leque de opiniões) antes de chegar a um consenso, ele anuncia e depois vai ouvir, debater e chegar a um consenso.
Isso gera ruídos e constrangimentos. Nesses dois meses de governo, eles não foram poucos. Aliás, já começaram na transição, com o anúncio, e depois o “desanúncio”, da fusão dos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente. Ministros e assessores primeiro intuíram, e depois concluíram, que é preciso muita atenção ao que o presidente diz ou divulga pelas redes sociais, para poder apagar os incêndios rapidamente.
Quem primeiro teve a coragem de corrigir Bolsonaro em público, para neutralizar reações negativas, foi o secretário especial da Receita Federal, Marcos Cintra, que negou a intenção, anunciada informalmente pelo presidente, de aumentar o IOF e mexer no IR.
Na mesma ocasião, o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, teve de fazer um contorcionismo verbal para corrigir a informação do presidente de que a idade mínima na reforma da Previdência seria de 57 anos para mulheres e 62 para homens. Segundo Onyx, a ideia tinha “muita força”, mas a proposta ainda não estava fechada. E não estava mesmo, como se viu no anúncio oficial de 62 e 65 anos.
O mais desembaraçado para desmentir uma afirmação de Bolsonaro foi o ministro do GSI, Augusto Heleno, um general da reserva que joga vôlei e tem jogo de cintura. Depois de Bolsonaro dizer, e o chanceler Ernesto Araújo confirmar, que o Brasil poderia ceder território para uma base militar americana, Heleno deu uma entrevista definitiva: “Fizeram um auê por nada. Não tem nada disso”. Nunca mais se falou em base militar.
O último desmentido partiu do vice-presidente Hamilton Mourão, cada dia mais político, mais cuidadoso. Bolsonaro tinha admitido reduzir a idade mínima das mulheres para 60 anos na reforma e desistir de pagar só R$ 400 para miseráveis. A área econômica reagiu, o mercado sacolejou e lá se foi o vice reduzir tudo a um “mal-entendido”.
Em vez de enxugar ou extinguir conselhos, o presidente anda precisando do contrário: um conselho para monitorar suas manifestações públicas, seja sobre bases, seja sobre a “nova Previdência”, seja sobre imposto, seja sobre o que for. Como já disse Onyx Lorenzoni, qualquer coisa que o presidente disser, ou tuitar, tem “muita força”. Logo, toda prudência é necessária, todo cuidado é pouco.
Louve-se, novamente, a capacidade de Bolsonaro de recuar quando necessário, mas buscar consensos e segurança antes de falar, e não depois, evita dissabores e constrangimentos. Em outras palavras, “é melhor prevenir do que remediar”.
Educação. Segundo o presidente, pelo Twitter, o Brasil gasta mais em Educação em relação ao PIB do que a média de países desenvolvidos (cerca de R$ 130 bilhões em 2016) e ocupa as últimas posições do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Um escândalo! Mas isso não se combate com ideologia, teologia e fantasmas. O setor precisa mesmo é de administração: planejamento, ações, qualificação e, eventualmente, punições.
A inteligência de conselhos, debates e reuniões é ouvir ideias novas, contrapor visões diferentes, abrir alas ao contraditório e buscar consensos para a melhor decisão. Por definição, eles são incompatíveis com o pensamento único – que é o oposto da inteligência. Então, por que o governo desidrata os conselhos e desconvida uma cientista política respeitada para um deles?
Uma das qualidades do presidente Jair Bolsonaro – que Michel Temer tinha e Dilma Rousseff, definitivamente, não tinha – é saber ouvir e ter a humildade, ou a grandeza, de mudar de opinião. O problema é que ele inverte o processo: em vez de ouvir, debater (e ampliar o leque de opiniões) antes de chegar a um consenso, ele anuncia e depois vai ouvir, debater e chegar a um consenso.
Isso gera ruídos e constrangimentos. Nesses dois meses de governo, eles não foram poucos. Aliás, já começaram na transição, com o anúncio, e depois o “desanúncio”, da fusão dos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente. Ministros e assessores primeiro intuíram, e depois concluíram, que é preciso muita atenção ao que o presidente diz ou divulga pelas redes sociais, para poder apagar os incêndios rapidamente.
Quem primeiro teve a coragem de corrigir Bolsonaro em público, para neutralizar reações negativas, foi o secretário especial da Receita Federal, Marcos Cintra, que negou a intenção, anunciada informalmente pelo presidente, de aumentar o IOF e mexer no IR.
Na mesma ocasião, o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, teve de fazer um contorcionismo verbal para corrigir a informação do presidente de que a idade mínima na reforma da Previdência seria de 57 anos para mulheres e 62 para homens. Segundo Onyx, a ideia tinha “muita força”, mas a proposta ainda não estava fechada. E não estava mesmo, como se viu no anúncio oficial de 62 e 65 anos.
O mais desembaraçado para desmentir uma afirmação de Bolsonaro foi o ministro do GSI, Augusto Heleno, um general da reserva que joga vôlei e tem jogo de cintura. Depois de Bolsonaro dizer, e o chanceler Ernesto Araújo confirmar, que o Brasil poderia ceder território para uma base militar americana, Heleno deu uma entrevista definitiva: “Fizeram um auê por nada. Não tem nada disso”. Nunca mais se falou em base militar.
O último desmentido partiu do vice-presidente Hamilton Mourão, cada dia mais político, mais cuidadoso. Bolsonaro tinha admitido reduzir a idade mínima das mulheres para 60 anos na reforma e desistir de pagar só R$ 400 para miseráveis. A área econômica reagiu, o mercado sacolejou e lá se foi o vice reduzir tudo a um “mal-entendido”.
Em vez de enxugar ou extinguir conselhos, o presidente anda precisando do contrário: um conselho para monitorar suas manifestações públicas, seja sobre bases, seja sobre a “nova Previdência”, seja sobre imposto, seja sobre o que for. Como já disse Onyx Lorenzoni, qualquer coisa que o presidente disser, ou tuitar, tem “muita força”. Logo, toda prudência é necessária, todo cuidado é pouco.
Louve-se, novamente, a capacidade de Bolsonaro de recuar quando necessário, mas buscar consensos e segurança antes de falar, e não depois, evita dissabores e constrangimentos. Em outras palavras, “é melhor prevenir do que remediar”.
Educação. Segundo o presidente, pelo Twitter, o Brasil gasta mais em Educação em relação ao PIB do que a média de países desenvolvidos (cerca de R$ 130 bilhões em 2016) e ocupa as últimas posições do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Um escândalo! Mas isso não se combate com ideologia, teologia e fantasmas. O setor precisa mesmo é de administração: planejamento, ações, qualificação e, eventualmente, punições.
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