domingo, 4 de agosto de 2019

CONFLITO DE INTERESSES

Merval Pereira, O GLOBO
O combate à corrupção e ao crime organizado, que se intensificou no país com a Operação Lava-Jato, entra agora, cinco anos depois, talvez na sua mais sensível etapa. Como aconteceu na Itália das Mãos Limpas, interesses diversos se uniram para tentar colocar limites à ação dos procuradores de Curitiba.
Uns com o intuito precípuo de não serem alcançados, ou conseguirem a anulação das condenações, outros preocupados com supostas transgressões legais praticadas no que um dos seus mais contundentes adversários, o ministro do Supremo Gilmar Mendes, chama de “o Direito de Curitiba”. Muitos, usando a segunda razão como escusa para atingir o primeiro objetivo.
Essa disputa de poder tem também o hoje ministro Sergio Moro na alça de mira, e como em todas as etapas há conflitos de interesses, surgem paradoxos inevitáveis. Apoiador declarado da Operação Lava-Jato, o que explicitou ao convidar Moro para seu Ministério, o presidente Bolsonaro acaba de dar novas cores à crise institucional em processo com a decisão de mudar o presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Roberto Leonel, indicado por Moro quando o órgão era subordinado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Moro pediu para ficar com o Coaf na montagem do novo Ministério, órgão considerado imprescindível para o combate a crimes de colarinho branco e formação de quadrilha. Derrotado no Congresso, que transferiu o Coaf para a Fazenda, Moro terá nova derrota com a mudança de seu indicado, e pelas razões que se sabe.
A garantia de Bolsonaro de que nada mudaria no Coaf começa a desmoronar, e a pressão sobre o ministro Paulo Guedes coloca em xeque os outrora chamados superministros. Bolsonaro não gostou das críticas que Leonel fez à decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, de suspender as investigações baseadas em informações do Coaf sem autorização da Justiça.
A medida foi tomada a pedido da defesa de Flávio Bolsonaro, que está sendo investigado dentro de um processo que abrange diversos deputados e funcionários da Assembleia Legislativa do Rio.
São conflitos de interesse que interferem nas investigações sobre corrupção, obstáculos paralelos aos que estão sendo colocados no caminho da Operação Lava-Jato pelo Congresso, que reluta em aprovar o projeto anticrime de Moro, e também pelo Supremo.
A decisão de requisitar os diálogos, áudios e vídeos hackeados que servem de base para as reportagens do site The Intercept Brasil, que coordena a divulgação por outros veículos, teve objetivos distintos, embora tenham saído logo no primeiro dia de funcionamento do STF depois do recesso do Judiciário.
O ministro Luiz Fux, provocado por uma ação do PDT, era obrigado a atuar. E o fez com o objetivo de preservar as provas para saber, inclusive, a origem delas para aferição da ilicitude. O ministro Alexandre de Moraes se baseou em publicação na “Folha de S. Paulo” para requisitar as provas integrais dentro do inquérito que preside no Supremo sobre fake news.
Implicitamente, está dando valor às provas conseguidas ilegalmente pelos hackers, embora não possa usá-las para acusar ninguém, especialmente o procurador Deltan Dallagnol, coordenador do Ministério Público da Lava-Jato em Curitiba.
Enquanto alguns esperam que do inquérito do Supremo surjam elementos para acusá-lo mesmo sem utilizar as provas, consideradas imprestáveis, outros ministros acham que ele não precisa ser afastado. Teria perdido já a legitimidade para exercer a função.
Os diversos atores dessa disputa de poder usam as armas de que dispõem para constranger adversários. O ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Bruno Dantas, muito ligado a Gilmar Mendes, deu 15 dias para que a Receita Federal detalhe as investigações dos últimos cinco anos que envolvam autoridades de Legislativo, Executivo e Judiciário.
A Associação Nacional dos Procuradores teve o apoio da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, no pedido para que o Supremo suspenda o inquérito que apura supostas ofensas aos ministros do STF. Que ela considerou um “tribunal de exceção”.
“Não há como imaginar situação mais comprometedora da imparcialidade e neutralidade dos julgadores, princípios constitucionais que inspiram o sistema acusatório”, define Dodge. A mesma acusação que ministros do Supremo e a defesa dos acusados fazem a Moro, Dallagnol e aos demais procuradores de Curitiba.
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DOENTE DE BRASIL

Eliane Brum, EL PAÍS
Jair Bolsonaro é um perverso. Não um louco, nomeação injusta (e preconceituosa) com os efetivamente loucos, grande parte deles incapaz de produzir mal a um outro. O presidente do Brasil é perverso, um tipo de gente que só mantém os dentes (temporariamente, pelo menos) longe de quem é do seu sangue ou de quem abana o rabo para as suas ideias. Enquanto estiver abanando o rabo – se parar, será também mastigado. Um tipo de gente sem limites, que não se preocupa em colocar outras pessoas em risco de morte, mesmo que sejam funcionários públicos a serviço do Estado, como os fiscais do IBAMA, nem se importa em mentir descaradamente sobre os números produzidos pelas próprias instituições governamentais desde que isso lhe convenha, como tem feito com as estatísticas alarmantes do desmatamento da Amazônia. O Brasil está nas mãos deste perverso, que reúne ao seu redor outros perversos e alguns oportunistas. Submetidos a um cotidiano dominado pela autoverdade, fenômeno que converte a verdade numa escolha pessoal, e portanto destrói a possibilidade da verdade, os brasileiros têm adoecido. Adoecimento mental, que resulta também em queda de imunidade e sintomas físicos, já que o corpo é um só.
É desta ordem os relatos que tenho recolhido nos últimos meses junto a psicanalistas e psiquiatras, e também a médicos da clínica geral, medicina interna e cardiologia, onde as pessoas desembarcam queixando-se de taquicardia, tontura e falta de ar. Um destes médicos, cardiologista, confessou-se exausto, porque mais da metade da sua clínica, atualmente, corresponde a queixas sem relação com problemas do coração, o órgão, e, sim, com ansiedade extrema e/ou depressão. Está trabalhando mais, em consultas mais longas, e inseguro sobre como lidar com algo para o qual não se sente preparado.
O fenômeno começou a ser notado nos consultórios nos últimos anos de polarização política, que dividiu famílias, destruiu amizades e corroeu as relações em todos os espaços da vida, ao mesmo tempo em que a crise econômica se agravava, o desemprego aumentava e as condições de trabalho se deterioravam. Acirrou-se enormemente a partir da campanha eleitoral baseada no incitamento à violência produzida por Jair Bolsonaro em 2018. Com um presidente que, desde janeiro, governa a partir da administração do ódio, não dá sinais de arrefecer. Pelo contrário. A percepção é de crescimento do número de pessoas que se dizem “doentes”, sem saber como buscar a cura.
Vou insistir, mais uma vez, neste espaço, que precisamos chamar as coisas pelo nome. Não apenas porque é o mais correto a fazer, mas porque essa é uma forma de resistir ao adoecimento. Não é do “jogo democrático” ter um homem como Jair Bolsonaro na presidência. Tanto como não havia “normalidade” alguma em ter Adolf Hitler no comando da Alemanha. Não dá para tratar o que vivemos como algo que pode ser apenas gerido, porque não há como gerir a perversão. Ou o que mais precisa ser feito ou dito por Bolsonaro para perceber que não há gestão possível de um perverso no poder? Bolsonaro não é “autêntico”. Bolsonaro é um mentiroso.
Podemos – e devemos – discutir como chegamos a ter um presidente que usa, como estratégia, a guerra contra todos que não são ele mesmo e o seu clã. Como chegamos a ter um presidente que mente sistematicamente sobre tudo. Podemos – e devemos discutir – como chegamos a ter um antipresidente. Assim como podemos – e devemos – perceber que a experiência brasileira está inserida num fenômeno global, que se reproduz, com particularidades próprias, em diferentes países.
Esse esforço de entendimento do processo, de interpretação dos fatos e de produção de memória é insubstituível. Mas é necessário também responder ao que está nos adoecendo agora, antes que nos mate.
Em 10 de julho, o psiquiatra Fernando Tenório escreveu um post no Facebook que viralizou e foi replicado em vários grupos de Whatsapp. Aqui, um trecho: “Acabei de atender a um homem de 45 anos, negro, sem escolaridade. Nos últimos cinco anos, viu seus colegas de setor serem demitidos um a um e ele passou a acumular as funções de todos. Disse-me que nem reclamou por medo de ser o próximo da fila. Tem sintomas de esgotamento que descambam para ansiedade. Qual o diagnóstico para isso? Brasil. Adoeceu de Brasil. Se eu tivesse algum poder iria sugerir ao DSM (o manual de transtornos mentais da psiquiatria) esse novo diagnóstico. Adoecer de Brasil é a mais prevalente das doenças. Entrei agora na Internet e vi que a reforma da previdência corre para ser aprovada sem sustos. O povo, adoecido de Brasil, permanece inerte. Vai trabalhar sem direito a aposentadoria até morrer de Brasil”.
Não há normalidade nem jogo democrático quando um perverso governa a partir da administração do ódio e da mentira
Alagoano da pequena Maribondo, Fernando Tenório fez residência e atuou na rede pública de saúde mental do Rio de Janeiro. Atualmente, mantém consultório na capital fluminense e atende trabalhadores de um sindicato do setor hoteleiro. O psiquiatra me conta, por telefone, que cresceu muito o número de pessoas que chegavam ao seu consultório com sintomas como taquicardia, desmaios na rua, sinais de esgotamento corporal, dores de cabeça frequentes, sentimentos depressivos. Eram pessoas que estavam objetiva e subjetivamente esgotadas pela precarização das condições de trabalho, como jornada excessiva, acúmulo de funções, metas impossíveis de cumprir, falta de perspectivas de mudança, insegurança extrema. Tinham um “trabalho de merda” e, ao mesmo tempo, medo de perder o “trabalho de merda”, como testemunharam acontecer com vários colegas.
O psiquiatra diz que ele mesmo se descobriu adoecido meses atrás. “Fiquei muito mal, porque me senti quase um traficante de drogas legais. Estava tratando uma crise, que é social, no indivíduo. E, de certo modo, ao dar medicamentos, estava tornando essa pessoa apta a sofrer mais, porque a jogava de volta ao trabalho.” Na sua avaliação, o adoecimento está relacionado à precarização do mundo do trabalho nos últimos anos, acentuada pela reforma trabalhista aprovada em 2017, e foi agravado com a ascensão de um governo “que declarou guerra ao seu povo”. “O Brasil hoje é tóxico”, afirma.
Após a publicação do post, Tenório sentiu ainda mais o nível da toxicidade cotidiana do país: recebeu xingamentos e ameaças. Um dos agressores lembrou que sua filha, cuja foto viu em uma rede social, um dia poderia ser estuprada. A menina é um bebê de menos de 2 anos.
“Tóxico” é palavra de uso frequente de brasileiros ao relatarem o sentimento de viver em um país onde já não conseguem respirar. Na constatação de que o governo Bolsonaro já aprovou 290 agrotóxicos em apenas sete meses, o envenenamento ganha uma outra camada. É como se os corpos fossem um objeto atacado por todos os lados. País que ultrapassou a possibilidade das metáforas, a toxicidade do Brasil abrange todas as acepções.
Cresce nos consultórios os casos de depressão provocados e alimentados pelo contexto político e social
Mas que adoecimento é este que Tenório chama de “doente de Brasil”? Um psicanalista que prefere não se identificar por temer represálias explica que aumentou muito nos consultórios os quadros depressivos provocados pelo momento vivido pelo Brasil, em que especialmente pessoas ligadas à esquerda, mas não necessariamente ao PT, sentem uma total perda de sentido e horizonte. “Para a psiquiatria, a depressão é a tristeza sem contexto. Ou seja, ela é relacionada à estrutura psíquica de cada pessoa, às fundações e alicerces construídos na infância”, explica. “O que temos vivido hoje nos consultórios é o aumento da depressão com contexto, esta que não tem a ver com a estrutura do indivíduo e que nem vai melhorar no divã. Esta em que o uso de medicamentos só vai servir para obscurecer o esclarecimento das questões. Esta que só pode ser sanada por mudanças sociais.”
O rompimento dos laços, como a divisão das famílias provocada pela polarização política, tornou as pessoas ainda mais sujeitas ao adoecimento mental e com menos ferramentas para lidar com ele. Como disse um filósofo, ninguém deixa de dormir porque está tendo uma guerra no outro lado do mundo, com exceção daqueles que vivem a guerra. Com isso, ele queria dizer que as pessoas perdiam o sono muito mais por pequenas dores e preocupações comezinhas com as quais se identificavam, como as relacionadas à família e ao mundo dos afetos, do que por enormes barbáries que ocorriam no outro lado do mundo.
O que os brasileiros testemunharam foi uma inversão: a política, que sempre foi algo do campo público, invadiu o campo privado, passando a ser um fator íntimo, um fator primeiro de identificação. Dias atrás uma amiga presenciou uma conversa em que duas garotas decidiam quais os critérios para dividir apartamento com uma outra. “Não suportaria dividir com uma petista”, disse uma delas. Essa conversa, exceto no caso de militantes mais radicais, dificilmente aconteceria anos atrás: ninguém costumava perguntar qual era a orientação política antes de dividir a casa com alguém.
A eleição, que costumava ser um acontecimento pontual, da esfera pública, tornou-se algo crucial na esfera privada. Do mesmo modo, o inverso também aconteceu. Questões íntimas, como a orientação sexual de cada um, como o que acontece na cama de cada um, passaram a ser discutidas publicamente. Esse fenômeno atingiu fortemente laços que cada um considerava incondicionais, como os familiares, laços com os quais se contava para enfrentar a dureza da vida. E acentuou ainda mais os quadros depressivos e persecutórios, aumentando ansiedade e angústia, corroendo a saúde.
O sofrimento é agravado pela constatação de que as instituições não barram a violência do governo e do governante
Uma psicanalista de São Paulo, que também prefere não se identificar, acredita que o adoecimento do Brasil de 2019 expressa a radicalização da impotência. As pessoas, hoje, não sabem como reagir à quebra do pacto civilizatório representada pela eleição de uma figura violenta como Bolsonaro, que não só prega a violência como violenta a população todos os dias, seja por atos, seja por aliar-se a grupos criminosos, como faz com desmatadores e grileiros na Amazônia, seja por mentir compulsivamente. Não sabem, também, como parar essa força que as atropela e esmaga. Sentem como se aquilo que as está atacando fosse “imparável”, porque percebem que já não podem contar com as instituições – constatação gravíssima para a vida em sociedade. E então passam a sentir-se como reféns – e, seguidamente, a atuar como reféns.
“Como reagimos à violência de alguém como Bolsonaro, que faz e diz o que quer, sem que seja impedido pelas instituições?”, questiona. “Toda a nossa experiência dá conta de que a vida em sociedade é regulada por instâncias que vão determinar o que pode e o que não pode, que têm o poder de impedir a quebra do pacto civilizatório, este pacto que permite que a gente possa conviver. Nesta experiência de que há um regulador, se uma pessoa é racista, ela vai ser processada – e não virar presidente do país. O que vivemos agora, com Bolsonaro, é a quebra de qualquer regulação. E isso tem um enorme impacto sobre a vida subjetiva. Ninguém sabe como reagir a isso, como viver numa realidade em que o presidente pode mentir e pode até mesmo inventar uma realidade que não corresponde aos fatos.”
A documentação das experiências de autoritarismo em diferentes épocas e países costuma relatar o sofrimento físico e psíquico das vítimas, mas geralmente em condições explícitas. Como, por exemplo, um judeu num campo de concentração nazista. Ou uma das mulheres torturadas no Doi-Codi, em São Paulo, durante a ditadura militar do Brasil (1964-1985). Perceber essa violência explícita como violência é imediato. O que a experiência autoritária do bolsonarismo tem demonstrado é o quanto pode ser difícil resistir (também) à violência do cotidiano, aquela que se infiltra nos dias, nos pequenos gestos, na paralisia que vira um modo de ser, nas covardias que deixamos de questionar.
O cotidiano de exceção tem se infiltrado e realizado em milhões de pequenos gestos de autocensura, silêncio e ausência no Brasil
Há milhares, talvez milhões de pequenos gestos de conformação acontecendo neste exato momento no Brasil. Em silêncio. Pequenos movimentos de autocensura, ausências nem sempre percebidas. Uma autora me conta que conseguiu manter seu livro no catálogo da editora sem usar a palavra gênero…. para falar de gênero e sexualidade. Uma diretora me diz que vestiu os corpos de suas atrizes, até então nuas, numa peça de teatro. A professora de uma das mais importantes universidades públicas do país me relata que muitos colegas já deixaram de analisar determinados temas em salas de aula por medo do “poder de polícia” dos alunos, que têm gravado as aulas e se comportado de forma ainda mais violenta que a polícia formal. Um curador de eventos preferiu não fazer o evento. Mudou de assunto. Outro deixou de convidar uma pensadora que certamente levaria bolsocrentes para a sua porta. Nunca saberemos o que poderia acontecer, porque o acontecimento foi impedido para não sofrer o risco de ser impedido.
Há tantos que já preferem “não comentar”. Ou que dizem, simpaticamente: “me deixa fora dessa”. É também assim que o autoritarismo se infiltra, ou é principalmente assim que o autoritarismo se infiltra. E é também assim que se adoece uma população por aquilo que ela já tem medo de fazer, porque antecipa o gesto do opressor e se cala antes de ser calada. E em breve talvez tenha medo também de sussurrar dentro de casa, num mundo em que os aparelhos tecnológicos podem ser usados para a vigilância. Chega o dia em que o próprio pensamento se torna uma doença autoimune. É assim também que o autoritarismo vence antes mesmo de vencer.
Um dos sintomas do cotidiano de exceção que vivemos é a colonização de nossas mentes. Mesmo pessoas que viveram a ditadura militar não têm recordação de algum momento da sua vida em que tenham pensado todos os dias no presidente da República. Bolsonaro administra o horror dos dias, com suas violências e mentiras, de um modo que o torna onipresente. Faça o teste: quantas horas você consegue ficar sem pensar em Bolsonaro, sem citar uma bestialidade de Bolsonaro? É isso o autoritarismo. Mas sobre isso poucos falam.
Bolsonaro encarna a vanguarda messiânica-apocalíptica do mundo
Se Bolsonaro encarna a vanguarda messiânica-apocalítica do mundo, é preciso sublinhar que os brasileiros não estão sós. Um amigo estrangeiro me conta que, desde que Donald Trump assumiu, a primeira coisa que ele faz ao acordar é conferir qual é a barbaridade que o presidente americano escreveu no Twitter, porque sente que isso afeta diretamente a vida dele. E afeta.
Mario Corso, psicanalista e escritor gaúcho, aponta que não é possível pensar no que ele chama de “ethos depressivo” deste momento fora do contexto do Ocidente. “Veja o Reino Unido. O novo primeiro-ministro (referindo-se ao pró-Brexit Boris Johnson) é um palhaço. E eles já tiveram Churchill!”, exemplifica. “O problema, no Brasil, é que além de toda a crise global, elegemos um cretino para presidente”, diz o psicanalista. “O que assusta é que não há freios para impedi-lo. E, assim, ele segue atacando os mais frágeis. Como Bolsonaro é covarde, ele não engrossa com os maiores que ele.”
Boris Johnson não chega a ser um Donald Trump. E nem Donald Trump chega a ser um Jair Bolsonaro. Mas a diferença maior está na qualidade da democracia. Tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, as instituições têm conseguido exercer o seu papel. No Brasil, não chega a ser perda total – ou não bastou (ainda) “um cabo e um soldado” para fechar o STF, como sugeriu o futuro possível embaixador do país nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro, o garoto zerotrês. Mas a precariedade – e com frequência a omissão – das instituições – quando não conivência – são evidentes. “Enquanto Bolsonaro não consegue uma ditadura total, porque isso ele quer, mas ainda não conseguiu, ele antecipa a ditadura pelas palavras”, diz Corso. “Bolsonaro usa aquilo que você definiu como autoverdade para antecipar a ditadura. Os fatos não importam, o que ‘eu’ digo é o que é.”
“A guerra acontece quando a palavra, como mediadora, se extinguiu”
Para Rinaldo Voltolini, professor de psicanálise da Universidade de São Paulo, a autoverdade é a amputação da palavra no sentido pleno. “Este é um grande disparador do sofrimento das pessoas, ao constatarem que estão fora no nível mais importante. Não é que você está fora porque não tem uma casa ou um carro, hoje você está fora das possibilidades de leitura do mundo. O que você diz não tem valor, não tem sentido, não tem significado. É como se, de repente, você já não tivesse lugar na gramática”, diz o psicanalista. “O que é a guerra? A guerra acontece quando a palavra, como mediadora, se extinguiu. Isso acontece entre duas pessoas, entre países. Sem a mediação da palavra, se passa diretamente ao ato violento”.
A autoverdade, como escrevi neste espaço, determinou a eleição de Bolsonaro. E seguiu moldando sua forma de governar pela guerra, o que implica a destruição da palavra. Assim, desde o início do governo, Bolsonaro tem chamado os órgãos oficiais de mentirosos sempre que não gosta do resultado das pesquisas. Como quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostrou que o número de desempregados tinha aumentado no seu governo.
Nos últimos dias, porém, o antipresidente levou a perversão da verdade, esta que torna a verdade uma escolha pessoal, à radicalidade. Decidiu que a jornalista Míriam Leitão não foi torturada – e ela foi. Insinuou que o pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil teria sido executado pela esquerda, quando ele desapareceu por obra de agentes do Estado na ditadura militar. Decidiu que ninguém mais passa fome no Brasil – o que é desmentido não só pelas estatísticas como pela experiência cotidiana dos brasileiros. Decidiu que os dados que apontaram a explosão do desmatamento na Amazônia, produzidos pelo conceituado Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, eram mentirosos. Isso porque apenas no mês de julho de 2019 foi destruída uma área de floresta maior do que a cidade de São Paulo, e o índice de desmatamento foi três vezes maiores do que em julho do ano passado. E Bolsonaro decidiu ainda que “só os veganos que comem vegetais” se importam com o meio ambiente.
Bolsonaro controla o cotidiano porque fora de controle. Bolsonaro domina o noticiário porque criou um discurso que não precisa estar ancorado nos fatos. A verdade, para Bolsonaro, é a que ele quer que seja. Assim, além da palavra, Bolsonaro destrói a democracia ao usar o poder que conquistou pelo voto para destruir não só direitos conquistados em décadas e todo o sistema de proteção do meio ambiente, mas também para destruir a possibilidade da verdade.
O que vivemos não é mal-estar, mas horror
“Narrar a história é sempre o primeiro ato de dominação. Não é por acaso que Bolsonaro quer adulterar a história. A história da ditadura é construída por muitos documentos, é uma produção coletiva. Mas ele decide que aconteceu outra coisa e não apresenta nenhum documento para comprovar o que diz”, analisa Voltolini. “Não é que estamos vivendo o mal-estar na civilização. Isso sempre houve. A questão é que, para ter mal-estar é preciso civilização. E hoje, o que está em jogo, é a própria civilização. Isso não é da ordem do mal-estar, mas da ordem do horror.”
Como enfrentar o horror? Como barrar o adoecimento provocado pela destruição da palavra como mediadora? Como resistir a um cotidiano em que a verdade é destruída dia após dia pela figura máxima do poder republicano? Rinaldo Voltolini lembra um diálogo entre Albert Einstein e Sigmund Freud. Quando Einstein pergunta a Freud como seria possível deter o processo que leva à guerra, Freud responde que tudo o que favorece a cultura combate a guerra.
Os bolsonaristas sabem disso e por isso estão atacando a cultura e a educação. A cultura não é algo distante nem algo que pertence às elites, mas sim aquilo que nos faz humanos. Cultura é a palavra que nos apalavra. Precisamos recuperar a palavra como mediadora em todos os cantos onde houver gente. E fazer isso coletivamente, conjugando o nós, reamarrando os laços para fazer comunidade. O único jeito de lutar pelo comum é criando o comum – em comum.
É preciso dizer: não vai ficar mais fácil. Não estamos mais lutando pela democracia. Estamos lutando pela civilização.
*Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas
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RECORDANDO PADRE PALHANO

Hoje, 4 de agosto, dia que se comemora o Dia Do Padre, o blog Sou Chocolate e Não Desisto relembra a trajetória política de Padre Palhano de Sabóia.
Após a renúncia a Prefeitura de Sobral, o Deputado Pe. Palhano tentou vôos mais altos, representando Sobral e o Ceará em Brasília.
Todavia, com a morte de seu maior opositor, Coronel Chico Monte em 16 de março de 1961, Padre José Palhano de Sabóia não detivera a oportunidade de disputar diretamente uma eleição contra o velho coronel. Apesar de, ter realizado uma administração singela frente ao Paço Municipal, o Padre piloto, disputa a eleição de 1962, como candidato forte da Região Norte do Estado.
No pleito citado, o Prefeito Padre, enfrentaria uma dupla missão; eleger-se ao Congresso Nacional, e “fazer” seu sucessor. Esse lançara Jerônimo de Medeiros Prado – UDN- e a oposição expunha ao crivo dos sobralenses, o mais novo desafeto de José Palhano, seu ex-amigo Cesário Barreto. Este vencera as eleições municipais com 8471 sufrágios, derrotando o candidato do Prefeito-candidato Padre Palhano de Sabóia. (RIBEIRO: 2001: 25)
No entanto, apesar do dissabor de não eleger seu sucessor, Padre Palhano, estabelecia o fim da Era Montista, elegendo-se Deputado Federal com significativa votação. Foram 7842 sufrágios, mais até que a votação dos candidatos de oposição juntos. Francisco Adeodato com 3438 e Marcelo Sanford com 2562 votos.
Desta feita, com sua vitória a Deputado Federal, ele passou de líder local á liderança nacional, pondo fim a “liderança” do velho coronel, e doravante, principiando uma nova era política em Sobral.
A partir do fim da “Era montista”, Sobral vivenciava novos ares políticos e chegaria ao fim o período do coronelismo tradicional na cidade. O município deixava de viver sob a égide de um chefe político com todos os pressupostos de coronel tradicional – o título, as práticas políticas, o voto de cabresto, clientelismo, intimidação do eleitorado, truculência e comando político de apenas um sujeito-, essas são as principais características de um legítimo coronel tradicional.
Senão, o coronel Chico Monte detinha toda essa identidade coronelística supracitada e ainda, perdurava no poder com as práticas políticas discutidas, e, como fala Lustosa da Costa; esse fora o “o último dos coronéis”. Entretanto, o coronelismo não findou, apenas se adequou as novas perspectivas e contexto político e social cedendo margem ao “o Novo Coronel”, este não mais tendo as características e identidade de Chico Monte, mas, representa-se nos sujeitos da modernidade; o Coronel advogado, médico, empresário, engenheiro, padre, ou seja, de fato ainda há os coronéis na Nova Era (PARENTE: 2000:388).
Não obstante, a vitória de Padre Palhano de Sabóia em 1958 e 1962, derrotando a facção montista, constitui um marco na História política de Sobral visto que, desde então nenhum outro grupo partidário conseguiria permanecer no poder local por mais de dois mandatos. Fato esse ocorrendo apenas duas vezes em toda a segunda metade do século XX. Primeiro com um dos liderados de Padre Palhano, em 1972 José Parente Prado que vencera com 13529 votos, o candidato do grupo dos Barretos, Carlos Alberto Arruda que perdera com 11331 sufrágios. Esse também, apoiado pelo Padre político, elegera José Euclides Ferreira Gomes Júnior com 15079 votos, que vencera o “inimigo gratuito de Palhano” - Palhano se referia assim ao candidato derrotado-, Cesário Barreto que obteve 14658 votos.
Outrossim, no segundo caso, o mesmo, José Prado, Prefeito de Sobral de 1989-1992, elegera seu sucessor, Ricardo Barreto Lima em 1992, numa união inesperada das facções de Prados com Barretos principiada em 1989, em oposição a facção dos Ferreira Gomes, vencendo, José Pimentel Gomes.
Desta feita, conforme discutido já nesse trabalho, após Padre Palhano por fim ao coronelismo tradicional, não se teria em Sobral a mesma experiência de poder do velho coronel, no século XX. Este apenas seria superado no século seguinte, com o advento da “Era cidista”.
Contudo, o personagem central da discussão proposta nesse trabalho, configura-se como o “divisor de águas” na História e memória da cidade. Haja visto, as reminiscências e salto no recorte histórico que se faz necessário na discussão proposta, afim de que se possa estabelecer boa compreensão das teses propostas nesse trabalho. Desta feita, observa-se o quanto a presença e influência na memória política de Sobral de Padre Palhano, estabelecendo assim um aspecto simbólico dum vir-a-ser antes e depois de José Palhano de Sabóia.
Todavia, com o advento do Golpe Militar, era cessado o período democrático no Brasil, e com a conivência dos militares, a oposição consegue reunir documentos que resultariam na cassação de Padre Palhano quando Deputado Federal. A documentação era referente ao período em que o mesmo, exercia as funções de Prefeito.
O sucessor, do Padre piloto, Cesário Barreto ao assumir o Paço, fizera auditoria na Prefeitura e elaborara documento que comprovaria uma série de irregularidades de seu sucessor. Essa documentação fora formulada como dossiê publicado com o seguinte título: “A verdade sobre a administração Palhano”. A referida publicação pressupõe possível descalabro, pífia gestão e desagravo ao gestor Padre Palhano (LIMA: 1963).
A medida que, era estabelecido o golpe militar, dispondo de dois parentes militares, o Prefeito Cesário Barreto, consegue que o Deputado Federal Padre Palhano de Sabóia seja cassado, tanto o mandato como os direitos políticos em razão das acusações impetradas e apresentadas pelo seu ex-amigo, então Prefeito Cesário Barreto.
José Palhano, então ex-deputado, anos depois em 4 de outubro de 1967 apresentara documentação, que comprovaria sua inocência quanto as acusações que resultara na perda de seu mandato, intitulado “Em busca da Verdade” (SABÓIA: 1967), apresentado pelo Deputado Federal Osíris Pontes, que expôs defesa no Congresso Nacional das acusações impetradas pelo Prefeito Cesário Barreto.
Contudo, não mais valeria muito a comprovação de sua inocência e absolvição das denúncias. Haja visto, que sua trajetória política já havia sido abortada precocemente e fortemente comprometido suas aspirações políticas, por tal razão, não mais tivera oportunidade de ocupar novos cargos políticos.
Entretanto, José Palhano atribuía as duras posições contrárias pelos seus opositores, o motivo de que “descobriram na minha pessoa uma ameaça de provável futuro competidor”. Desta feita, apontamos três principais características que simbolizam a derrocada do príncipe do clero sobralense, são: a morte de D. José Tupinambá, uma oposição implacável e o advento do golpe militar.
Visto isso, com sua perda de mandato e desaparecimento da vida pública, ao menos de forma direta em cargo eletivo, o Padre cassado, não pode alcançar destaque como coronel tradicional, de mesma identidade e características semelhantes ao coronel Chico Monte. Assim, esse não fora um coronel de fato, mas sim, o algoz e responsável pelo Fim do Coronelismo Tradicional em Sobral.
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"MICHELLE, ENCOLHI OS MINISTROS"

José Roberto de Toledo, PIAUÍ
Os tutores não tutelam mais. Nem Paulo Guedes, nem Sergio Moro, tampouco os generais. Jair Bolsonaro tomou posse em 1º de janeiro, mas só se emancipou como presidente em junho. Foram quase seis meses até que o empossado tomasse posse do Palácio e da Esplanada. 
O lento processo de emancipação culminou no mês passado. Foi numa noite de domingo, a do vazamento das conversas nas quais Moro rasga a toga e comanda os acusadores da Lava Jato, que o presidente começou a se livrar das últimas amarras. Avançou demitindo o general Santos Cruz da Secretaria de Governo e consolidou seu poder fritando em público o presidente do BNDES sem avisar o chefe da vítima, o ministro Guedes.
Desde então, Bolsonaro mostrou, repetidamente, quem manda. O capitão demitiu o general sem dar-lhe quaisquer explicações, atropelou o Posto Ipiranga na reforma da Previdência tentando emplacar uma exceção para os policiais e beneficiou-se do desgaste público de Moro, seu mais próximo concorrente em 2022. Bolsonaro cresceu enquanto seus pretensos tutores encolheram. Quem não era minion está ficando. Dentre os miniaturizados, a competição é dura para ver quem perdeu mais massa crítica, mas o general Augusto Heleno seria protagonista na versão brasiliense da comédia intitulada “Michelle, encolhi os ministros”. 
Quando não está fazendo papel de figurante em live presidencial pelo Facebook, o titular do Gabinete de Segurança Institucional, o GSI, perpetra frases que emulam o conhecimento aritmético do seu chefe: “Esses índices de desmatamento são manipulados. Se você somar os percentuais que já anunciaram até hoje de desmatamento na Amazônia, a Amazônia seria um deserto”. 
A frase soa especialmente chocante para quem acreditava que o ex-comandante das forças das Nações Unidas no Haiti fosse o cão de guarda plantado no Palácio do Planalto pelo generalato para corrigir rumos, não apenas palavras mal-pronunciadas pelo presidente. A convivência diária com Bolsonaro parece ter surtido mais efeitos em Heleno do que o contrário. A frase sobre o desmatamento amazônico pressupõe que o ministro somou taxas de crescimento como se fossem números absolutos, e concluiu, equivocadamente, que elas superavam 100% da floresta.
Pode ter sido blague, ou outra tentativa de desqualificar o que resta de técnico e científico no governo. Afinal, basta começar por “I” de instituto que o bolsonarismo transforma em alvo: Inpe, IBGE, Ibama. Até instituições privadas, como o Ibope, sofrem campanha permanente de descrédito. Fato é que o general não perde chance de demonstrar seu senso de humor peculiar. Quando um sargento da Aeronáutica foi preso pela polícia espanhola com 39kg de cocaína na mala que trouxera dentro de um avião da comitiva de Bolsonaro, Heleno eximiu-se de responsabilidade pela falha de segurança fazendo piada: “Só se fôssemos videntes, se o GSI tivesse bola de cristal”.
Fossem mesmo adivinhos, talvez os militares pensassem duas vezes antes de aderir ao governo Bolsonaro.
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O ESPELHO NÃO MENTE

Demétrio Magnoli, Folha de S.Paulo       
Jair Bolsonaro e o PT desnudaram-se, quase simultaneamente, em fiéis autorretratos. No Brasil, o presidente asqueroso festejou uma ditadura do passado, comemorando o assassinato de Estado de Fernando Santa Cruz, pai do presidente da OAB. Horas antes, em Caracas, na reunião do Foro de São Paulo, representantes do partido de Lula festejaram uma ditadura do presente que já tem, em Fernando Albán e no capitão Rafael Acosta, seus próprios Santa Cruz. Tão diferentes, tão iguais: quando se olham no espelho, cada um vê, refletida, a imagem do outro.
“O presidente da OAB declarou guerra à gestão Bolsonaro, protegendo criminosos contra o governo. Assim como os terroristas comunistas haviam declarado guerra aos governos militares. E não há guerra sem que haja efeitos colaterais.” Na carta raivosa de um bolsonarista, emergem os signos de uma lógica compartilhada: a política como guerra permanente, o impulso do extermínio físico do “inimigo”.
Troque as senhas ocas de um discurso ritual —“terroristas comunistas” por “agentes do imperialismo”, “governos militares” por “poder bolivariano”— e, mágica!, agora quem fala é Mônica Valente, a representante oficial petista no ato de solidariedade a Nicolás Maduro. Quando Bolsonaro ergue um brinde aos torturadores do DOI-Codi, como ignorar o brinde petista aos seviciadores do Sebin? Almas gêmeas: Bolsonaro inveja a tortura que, por um acidente da história, não infligiu; o PT inveja a tortura que, por um acaso da geografia, não aplicou.
A guerra pode ser interpretada como continuação da política (Clausewitz), mas o inverso só é verdadeiro nas ditaduras. Nas democracias, o pluralismo assenta-se na crença de que ninguém —nenhuma corrente política— possui o monopólio da verdade ou da virtude. Daí, as convicções democráticas de que a oposição cumpre papel positivo, apontando alternativas às ações do governo, e de que a crítica veiculada pela imprensa ajuda a limitar o exercício excessivo do poder pelas autoridades. Bolsonaro, como antes dele o PT, abomina o pluralismo —e o suprimiria, se pudesse.
Os populismos nascem no chão da democracia, pelo voto popular, mas desencadeiam insurreições autoritárias que almejam destruí-la. “Nós” contra “eles”: o “inimigo do povo”, na narrativa do PT, converte-se no “inimigo da pátria”, na versão de Bolsonaro. Quem não recordou, ao ouvir Bolsonaro sobre Glenn Greenwald, as palavras de Lula sobre Larry Rohter? De uma pulsão exterminista à outra, giramos em círculos sem sair do lugar.
Pepe Mujica descobriu que o regime de Maduro “é uma ditadura, nada além disso”. O raio esclarecedor tocou-o, finalmente, com a publicação do relatório da ex-presidente chilena Michelle Bachelet, alta comissária da ONU para direitos humanos, que descreve as prisões arbitrárias, as torturas e os assassinatos extrajudiciais cometidos sistematicamente na Venezuela. Mas, para interditar a hipótese de repúdio diplomático uruguaio à tirania chavista, o líder da facção dos ex-tupamaros na aliança governista acrescentou que ela, a ditadura, “pertence a eles”, os venezuelanos.
À luz da democracia, o adendo tático de Mujica está errado. As ditaduras, inclusive as “estrangeiras” e as “do passado”, pertencem a todos nós. Isso é o que está escrito nas leis nacionais e nos tratados internacionais de direitos humanos. Os corpos mortos, mutilados, de Albán e do capitão Acosta, assim como o cadáver desaparecido de Fernando Santa Cruz e de tantos outros, são parte de nós, da aventura humana no mundo. Hoje, no Brasil, são algo mais: pertencem ao presente e demarcam uma encruzilhada civilizatória.
As celebrações paralelas do terror de Estado —a do PT, em Caracas; a de Bolsonaro, em Brasília— explicitam projetos políticos simétricos. Inimigos-irmãos, eles se merecem. Nós os merecemos?
Demétrio Magnoli, sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial”. É doutor em geografia humana pela USP.
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FUMAÇA IDEOLÓGICA

Editorial Folha de S.Paulo
Discutida há quase dois meses pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a proposta de liberação da maconha para fins medicinais tem encontrado no ministro da Cidadania, Osmar Terra, uma oposição marcada pelo preconceito e pela desinformação.
Em sua mais recente tentativa de desqualificar o debate, Terra, um proibicionista radical no tocante às drogas, questionou a competência da Anvisa para deliberar sobre o tema, afirmando que o fato constituiria caso único entre os países. 
“Essa é uma ação regulada pelo Congresso, e em alguns poucos lugares pelo Judiciário”, pontificou. “É a primeira vez no mundo, isso que a Anvisa está tentando fazer.”
A esse respeito, cumpre esclarecer que a deliberação da agência não se ampara necessariamente no exemplo internacional, mas no ordenamento jurídico do país.
A responsabilidade do órgão sanitário no estabelecimento de regras sobre o tema é garantido pela chamada Lei de Drogas (11.343), de 2006, e pelo decreto 5.912, do mesmo ano, que regulou o diploma. 
A primeira prevê a possibilidade de a União autorizar o cultivo da erva “para fins medicinais e científicos, em local e prazo predeterminados, mediante fiscalização”, ao passo que o segundo determina que essa tarefa caberá ao Ministério da Saúde, ao qual está vinculada a agência reguladora.
Como se não bastasse, Terra ainda procurou turvar a discussão, misturando de maneira falaciosa a liberação da cânabis medicinal com a legalização do uso recreativo da substância —isso, sim, matéria para decisão do Congresso.
Em sua cruzada, o ministro desconsidera não apenas as fartas evidências dos efeitos terapêuticos da maconha e seus derivados, utilizados hoje em diversos tratamentos, como as dificuldades burocráticas e os custos elevados que pacientes  enfrentam para importar medicamentos à base dessas substâncias.
A proposta da Anvisa busca justamente atenuar esse quadro, propondo regras voltadas ao plantio para pesquisa e produção de remédios, bem como ao registro e ao controle desses produtos.
Com sua fumaça ideológica, Terra contamina um debate que deveria ser baseado tão somente na ciência e no interesse público.
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EXIBIÇÃO DE FORÇA

Editorial Folha de S.Paulo
Encerrado o recesso de julho, os ministros do Supremo Tribunal Federal aproveitaram a volta ao trabalho para fazer uma esmagadora demonstração de seu poder.
Em sua primeira sessão plenária, nesta quinta (1º), deram um duro recado ao governo Jair Bolsonaro (PSL) em meio a uma discussão sobre tentativa de mudança da competência para demarcações de terras indígenas.
Coube ao decano do tribunal, ministro Celso de Mello, transmitir a mensagem, acusando o presidente da República de transgredir o princípio da separação dos Poderes ao reeditar uma medida que já fora rejeitada pelo Congresso.
Em outro movimento, o ministro Alexandre de Moraes mandou suspender investigações da Receita Federal que atingiram mais de uma centena de contribuintes, incluindo dois integrantes do Supremo.
O ministro também ordenou o afastamento de dois auditores fiscais acusados de violar o sigilo dos investigados e cometer outras infrações de caráter administrativo.
No fim da tarde, o ministro Luiz Fux mandou a Polícia Federal preservar as provas obtidas nas investigações sobre ataques de hackers a telefones celulares de autoridades. 
Fux determinou que sejam enviadas ao seu gabinete cópias do inquérito e de todo o material obtido até agora pela polícia, incluindo as mensagens vazadas de procuradores da Operação Lava Jato.
O ministro tomou a decisão como relator de ação movida pelo PDT para evitar que provas colhidas pelos investigadores sejam destruídas como sugeriu o ministro da Justiça, Sergio Moro.
À noite, em novo despacho, Alexandre de Moraes ordenou que a Polícia Federal também enviasse cópias do inquérito e das mensagens para o seu gabinete, e fixou um prazo de 48 horas.
Moraes atuou na condição de relator de um inquérito sigiloso aberto pelo STF em março para investigar notícias falsas e ameaças a seus integrantes —e aproveitou para prorrogá-lo por mais 180 dias.
O efeito prático da desconcertante sequência de decisões foi transferir da primeira instância da Justiça Federal para o STF o controle sobre o andamento das investigações sobre as mensagens vazadas.
Mas elas também serviram para expor as divisões existentes no tribunal, em grande parte um reflexo das divergências entre os ministros sobre a atuação da Lava Jato.
Alguns integrantes, como Fux, aparecem nos diálogos obtidos pelo The Intercept Brasil como aliados dos procuradores. Outros, como o presidente da corte, Dias Toffoli, estiveram na mira dos investigadores, como noticiou esta Folha.
Caberá ao tribunal encontrar o caminho para evitar que interesses pessoais se sobreponham à sua missão principal de guardião das regras do jogo democrático.
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sábado, 3 de agosto de 2019

JAIR DESMENTIU BOLSONARO

Rubens Valente, Folha de S.Paulo

“Governarei para todos”, disse o presidente na diplomação em 10 de dezembro de 2018, no TSE. “Construirei uma sociedade sem discriminação ou divisão”, repetiu na posse, em 1º de janeiro.

Quem percorrer os 964 compromissos da agenda de Jair Bolsonaro em audiências, almoços e jantares da posse na Presidência até esta sexta-feira (2) embarcará numa viagem lisérgica por cultos evangélicos, jogos de futebol, expoentes da bancada da bala, o cantor Amado Batista e o locutor de rodeios Cuiabano Lima. E empresários, muitos e riquíssimos empresários e seus poderosos grupos de pressão.

Também perceberá para quem Bolsonaro governa. Ele recebeu altos executivos das multinacionais Exxon e Shell, mas nenhum representante dos petroleiros brasileiros contrário à venda dos ativos da Petrobras. Falou várias vezes com ruralistas, mas com nenhum porta-voz legítimo dos sem-terra, quilombolas ou indígenas (fez só uma live com um grupo de índios sem representatividade, levados ao Planalto por ruralistas).

Bolsonaro não manteve audiência com nenhum representante reconhecido da comunidade LGBTQ, mas teve oito encontros com pastores evangélicos. Também participou de um certo Ato de Consagração do Brasil a Jesus Cristo por Meio do Imaculado Coração de Maria.

No Rio, Bolsonaro foi à formatura de paraquedistas do Exército, mas não recebeu em audiência nenhuma organização dos milhares de cariocas das comunidades carentes que sofrem com milícias, narcotraficantes e execuções extrajudiciais. No Planalto, não teve audiência com líderes sem-teto, ambientalistas, cientistas, antropólogos, escritores, professores e cineastas de relevo, embora tenha recebido um grupo identificado como “Youtubers de Direita”.

A agenda comprova que aquele Bolsonaro estadista nunca passou de uma ficção. O verdadeiro Jair, parcial, sectário e divisionista, governa só para um lado do Brasil desde o primeiro dia.
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INCONTINÊNCIA VERBAL

Da Folha de S.Paulo

FHC critica ‘incontinência verbal’ de Bolsonaro e contesta fala sobre ditadura

SÃO PAULO – O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) criticou nesta quarta-feira (31) a “incontinência verbal” de Jair Bolsonaro (PSL) e somou-se à onda de repúdio contra o presidente pelas afirmações sobre o pai do presidente nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz.

Em uma rede social, o tucano escreveu que Bolsonaro “despreza os limites do bom senso por sua incontinência verbal”.

“Contraria documentos oficiais sobre o pai do presidente da OAB e dá vazão a rompantes autoritários. Prejuízo para ele e para o Brasil: gostemos ou não foi eleito. O que diz repercute e afeta nossa credibilidade”, afirmou FHC.

Um dia antes, no mesmo perfil, o ex-presidente fez um apelo por sensatez e razão, “diante da barbárie do presente”, sem mencionar pontos específicos.

Desde que Bolsonaro chegou à Presidência, FHC tem feito comentários negativos sobre o atual presidente. Em abril, disse que o governo era pior do que ele esperava e não tinha feito nada até aquela altura. Em janeiro, declarou-se de oposição ao atual ocupante do Planalto.

Mais cedo, nesta quarta, Bolsonaro disse que não quebrou o decoro ao dizer que poderia explicar ao presidente da OAB como o pai dele desapareceu durante a ditadura militar (1964-1985). A declaração de dois dias atrás provocou uma série de repercussões entre políticos e entidades.

“Não tem quebra de decoro. Quem age desta maneira perde o argumento”, afirmou o presidente em Brasília. Capitão reformado do Exército, ele defende a atuação dos militares na ditadura e, para se contrapor a setores da esquerda, tem dito que “não pode valer um lado só da história”.

Como mostrou a Folha, documentos oficiais desmontam a versão de Bolsonaro sobre a morte de Fernando Santa Cruz. O presidente disse que o servidor público foi morto por militantes de esquerda, mas a tese contraria toda a série de relatórios produzidos pela própria ditadura sobre Fernando.

O ativista político desapareceu em fevereiro de 1974, após ter sido preso junto de um amigo chamado Eduardo Collier por agentes do DOI-Codi, órgão de repressão do regime militar, no Rio.

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos emitiu no último dia 24 um atestado de óbito de Santa Cruz, no qual informa que ele morreu em 1974 de forma “violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985”.

Colega de partido de FHC, o governador João Doria também se posicionou contra as declarações de Bolsonaro e disse ser “inaceitável que um presidente da República se manifeste da forma que se manifestou em relação ao pai do presidente da OAB”.

“Foi uma declaração infeliz”, afirmou Doria na segunda-feira (29). O gesto foi interpretado como um sinal de afastamento do tucano em relação a Bolsonaro, mas o governador negou isso no dia seguinte. Ele falou que mantém boas relações com o presidente e não torce “pelo tropeço” dele.
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ALERTA CONTRA O AUTORITARISMO

Bernardo Mello Franco, O GLOBO

Inadmissível, perigoso, inaceitável. Os adjetivos foram usados ontem por Celso de Mello, o ministro mais antigo do Supremo. Ele se referia ao comportamento
de Jair Bolsonaro no poder.

A Corte discutia a canetada presidencial que voltou a retirar da Funai a demarcação de terras indígenas. Bolsonaro atropelou o Congresso e reeditou uma medida provisória que já havia sido derrubada. Uma manobra de “agressiva inconstitucionalidade”, definiu a ministra Cármen Lúcia.

Os ministros condenaram o truque por unanimidade. Último afalar, Celso afirmou que o presidente cometeu uma “inaceitável transgressão à autoridades up remada Constituição”. “Uma inadmissível e perigosa transgressão ao princípio fundamental da separação dos Poderes”, enfatizou.

O decano criticou a ditadura militar, sempre louvada pelo presidente. Ele lembrou que um governo que não se submete às lei sé incompatível coma democracia. “Parece ainda haver, na intimidade do poder, um resíduo de indisfarçável autoritarismo”, afirmou.

O ministro reforçou um alerta repetido por muitas vozes desde a campanha. O regime democrático e as liberdades civis podem sofrer uma “imperceptível erosão, destruindo-se lenta e progressivamente”. É o que acontece quando governos de vocação autocrática não se submetem à Constituição e às leis.

Bolsonaro tem seguido o manual dos populistas modernos. Governa por decretos, hostiliza o Congresso e tenta jogar seus seguidores contra os tribunais, os órgãos de controle e a imprensa.

Ao condenar ameaças de “controle hegemônico do aparelho de Estado por um dos Poderes”, Celso indicou que o Supremo está disposto a barrar uma escalada autoritária. Resta ver se ele fala por todos os colegas.
————
Com a nomeação de viúvas da ditadura, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos deixa de merecer este nome. Deveria ser rebatizada como Comissão do Acobertamento.
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DALLAGNOL NO ALVO

Merval Pereira,  O GLOBO

A ideia de retirar da Operação Lava-Jato o coordenador dos procuradores de Curitiba, Deltan Dallagnol, abortada até o momento, surgiu logo na manhã de quinta-feira, quando os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, atual presidente, e Gilmar Mendes leram novos diálogos atribuídos aos procuradores.

Tratavam de investigação sobre os ministros e suas mulheres. No dia anterior, os dois haviam recebido um resumo das conversas a serem publicadas pela “Folha de S. Paulo”, e não quiseram se manifestar. Mas quando leram a íntegra da reportagem, combinaram que alguma coisa deveria ser feita.

Toffoli pretendia soltar uma nota oficial, primeiro exigindo o afastamento de Dallagnol, versão que abandonou por outra, mais genérica, defendendo as prerrogativas do Supremo. Um procurador de primeira instância não pode investigar um ministro do STF.

Gilmar reagiu a seu estilo. Chamou os procuradores de gangsters numa entrevista ao chegar à sede do Supremo, “o rabo abanando o cachorro”, como gosta dizer. Por ele, uma nota de repúdio teria que ser dada, mas colegas convenceram os dois de que o melhor seria não fazer comentários, inclusive para não dar mais publicidade aos fatos e para proteger suas mulheres.

Ficou combinado que o decano Celso de Mello pediria apalavra na primeira sessão da reabertura dos trabalhos e faria uma declaração de protesto. Em vez disso, preferiram ações práticas. O ministro Luiz Fux proibiu que as provas fossem destruídas e requisitou cópias de todos os diálogos, áudios e vídeos apreendidos pela Polícia Federal.

O ministro Alexandre de Moraes, relator de uma controversa investigação sobre fake news no âmbito do Supremo, determinada por Dias Toffoli muito antes do hackeamento das conversas entre Moro e Dallagnol, também requisitou todas as provas à Polícia Federal.

Nenhuma das medidas, aparentemente, se referia ao caso dos dois ministros investigados, mas à noite ficou-se sabendo que Alexandre de Moraes, para requisitar as provas, utilizou como base a reportagem da “Folha de S.Paulo”. Disse que havia “indícios de investigação ilícita contra ministros” da Corte.

O que revelou o objetivo oculto das providências do STF, já intuído por todos. A tentativa de estancara sangria das supostas revelações restou inócua devido ao despacho oficial de Alexandre de Moraes.

Os procuradores de Curitiba soltaram uma nota mais uma vez não reconhecendo a veracidade dos diálogos, e negando que tivessem tentado investigar ministros do STF. Afirmaram que enviaram tudo relacionado a eles à Procuradora-Geral da República, órgão que tem o poder de investigar ministros do Supremo.

Dada a repercussão do caso, o desejo de reação a Dallagnol, que havia sido contido num primeiro momento, voltou a prosperar. Vários ministros estão convencidos da veracidade dos diálogos, inclusive por relatos anteriores de abusos que estariam acontecendo em Curitiba.

Ontem pela manhã, retoma ramas discussões sob remedidas para afastar o coordenador dos procuradores de Curitiba da Operação Lava-Jato. Chegou-se a aventara possibilidade de o ministro Alexandre de Moraes fazer com Dallgnol om esmoque já fizera com dois fiscais da Receita, que foram afastados da função por terem investigado as declarações do ministro Gilmar Mendes e sua mulher. Mas são situações funcionais não comparáveis

No começo da tarde, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, soltou uma nota negando que estivesse sendo pressionada a punir o procurador Dallagnol, e esclarecendo que ele, por ser inamovível pela Constituição, só sairia da Lava-Jato se e quando quisesse. Deltan Dallagnol é o promotor natural dos casos da Operação Lava-Jato, definiu Dodge.

Apesar disso, há quem considere no STF que Dallagnol pode ser punido devido a vários processos que correm no Conselho Nacional do Ministério Público. Há uma pressão grande para que o próprio Ministério Público decida a questão, mesmo porque não há condições de usar as provas ilegais como base de uma punição.

Mas, no decorrer do processo aberto no STF sobre fake news, podem surgir provas legais nos depoimentos que confirmem os diálogos. O fato é que a chance de vazamento desses diálogos agora aumentou muito, pois, além do Intercept Brasil, haverá cópias com a Polícia Federal e com dois ministros do STF, Luiz Fux e Alexandre de Moraes.
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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

A ESTRATÉGIA DO INSULTO

Bernardo Mello Franco, O GLOBO
Donald Trump escolheu um novo alvo para despejar sua ira: o deputado Elijah Cummings, do Partido Democrata. Em tuítes raivosos, o presidente chamou o oposicionista de corrupto e inoperante. Ele também descreveu seu distrito eleitoral, de maioria negra, como um lugar “repugnante” e “infestado de ratos”.
Na terça-feira, Trump foi questionado sobre a estratégia por trás dos insultos. Ele negou que a baixaria seja calculada. “Não tenho estratégia. Zero estratégia”, disse, antes de embarcar no helicóptero presidencial.
Na mesma terça, Jair Bolsonaro deu entrevista à repórter Jussara Soares. Ela perguntou se suas declarações agressivas são calculadas. Ele jurou que não. “Sou assim mesmo. Não tem estratégia”, respondeu.
Trump e Bolsonaro têm pavio curto e sofrem de incontinência verbal. No entanto, seria ingenuidade pensar que fazem tudo de improviso. Os dois farejaram o potencial da ofensa como arma política. Na era das redes sociais, perceberam que o insulto rende cliques e votos.
Nos EUA, a estratégia de Trump já deixou de ser segredo. O republicano aposta na divisão do país e no clima de confronto permanente. Com isso, mantém sua base mobilizada e estimula os conservadores a irem às urnas.
Antes de mirar em Cummings, o presidente torpedeou quatro deputadas que também representam minorias. Seu objetivo é claro: inflamar os eleitores brancos da América profunda, que têm pesadelos com as mudanças trazidas pela imigração.
Bolsonaro é um veterano da indústria do ódio. Sempre apostou no radicalismo para se eleger deputado. No passado, o discurso sectário o mantinha isolado no baixo clero do Congresso. No Brasil de 2018, ajudou a botá-lo na Presidência.
Pela lógica da política tradicional, o capitão já deveria ter recolhido as armas. Ele tem optado pela estratégia oposta, na tentativa de agradar os seguidores mais fanáticos. O bolsonarista-raiz é fiel: está disposto a fechar os olhos para todas as trapalhadas do governo, desde que seu líder continue a esbravejar contra o comunismo.
Se essa turma somar 30% do eleitorado em 2022, o presidente já garante uma vaga no segundo turno.
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quinta-feira, 1 de agosto de 2019

A POLÍTICA DA RAIVA

Editorial O Estado de S.Paulo

O destampatório de Jair Bolsonaro nos últimos dias – especialmente virulento mesmo para os padrões do presidente – contribui para ampliar o seu isolamento político. Afinal, grande parte do eleitorado que sufragou o nome de Bolsonaro nas urnas no ano passado não o fez para que ele, uma vez na Presidência, passasse seus dias a alimentar violentos antagonismos com diversos setores da sociedade, dificultando consideravelmente a governabilidade. Mesmo entre os políticos que se elegeram na onda do bolsonarismo já há os que procuram manter uma distância prudente do presidente, pois temem ser identificados com a irresponsabilidade que tem caracterizado o comportamento de Bolsonaro.

Se entusiasmam os devotos mais fiéis da seita bolsonarista, as diatribes do presidente colaboram para anuviar ainda mais o sombrio horizonte político e econômico do País. O homem encarregado pelas urnas de dirigir os destinos nacionais choca diariamente a maioria dos brasileiros com declarações absurdas, baseadas em nada além de devaneios e despejadas sem qualquer respeito pelas normas da democracia e mesmo da civilidade. Tal comportamento irrefletido torna imprevisível tudo o que emana do gabinete presidencial. Hoje, sob esse comando irracional, é impossível dizer para onde vai o País.

Não à toa, as forças políticas no Congresso há algum tempo parecem se organizar para fazer avançar as reformas das quais o Brasil depende para evitar o colapso fiscal e ter alguma chance de retomar o crescimento econômico. Para o setor produtivo, o mais importante no momento é que o País reencontre o caminho da recuperação, colocando em segundo plano o destempero do presidente Bolsonaro, por mais infame que seja em algumas ocasiões.

Não é possível conceber, contudo, que um governo possa continuar indefinidamente na dependência dos humores do Congresso e, muito menos, da instabilidade emocional do presidente, que a cada dia se mostra menos preparado para o cargo que exerce. E esse despreparo não se manifesta apenas por sua patente e muitas vezes assumida ignorância a respeito dos principais desafios da administração do País. O maior sinal de que Bolsonaro não é vocacionado para a Presidência da República é sua incapacidade de aceitar os limites institucionais do regime democrático.

Em mais de uma ocasião, Bolsonaro agiu como se sua vontade pessoal fosse superior à Constituição, assinando decretos e medidas provisórias eivadas de ilegalidades. O presidente parece considerar que sua eleição transformou automaticamente em lei suas promessas de campanha e seus arroubos retóricos, bastando somente traduzi-los em linguagem jurídica.

Os bolsonaristas mais radicais, contudo, acreditam que Bolsonaro foi eleito justamente para questionar os pilares do sistema democrático, que para eles está inteiramente corrompido. Nessa campanha de saneamento nacional vale tudo, inclusive fraudar o passado, como fez recentemente o presidente ao atribuir a morte de Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, um dissidente do regime militar, ao grupo de esquerda do qual ele fazia parte, embora o próprio Estado brasileiro admita, em documentos oficiais, que esse dissidente desapareceu depois de ter sido preso pela polícia política.

Para Bolsonaro, contudo, esses documentos são, simplesmente, “balela”. O presidente segue assim o padrão de duvidar de tudo o que contraria sua visão de mundo, mesmo que tenha sido produzido por autoridades de dentro de seu próprio governo ou por especialistas sem qualquer vinculação partidária.

Assim, o presidente Bolsonaro tenta usar sua autoridade de chefe de Estado para transformar em letra morta a base factual da história brasileira, o que tornaria legítima qualquer opinião acerca do passado, mesmo as mais estapafúrdias e aquelas que se prestam a alimentar laivos liberticidas. Esse lamentável episódio não foi apenas um ataque isolado à memória de um dissidente político, mas uma demonstração cabal de que Bolsonaro não se sente constrangido por nenhuma das normas de convivência democrática. Um governo com esse espírito, que não respeita o passado, não anuncia um bom futuro.

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O PODER CONTRA A LIBERDADE

Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo
Os ataques do presidente da República a reportagens que apontam suspeitas de conduta indevida em trocas de mensagens entre membros do Ministério Público Federal e representantes do Judiciário por ocasião do julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostram um sinal – mais um – da mentalidade antidemocrática no poder. No sábado, o chefe de Estado afirmou que o jornalista Glenn Greenwald – o principal repórter na série de revelações que flagram os protagonistas da condenação do presidente Lula, no bojo da Operação Lava Jato, em conversas, no mínimo, impróprias – poderia “pegara uma cana aqui, no Brasil”. A frase é um despautério. É também esdrúxula, estapafúrdia e extravagante, pois o presidente, que não exerce cargo em chefatura de polícia nem enverga toga, não tem incumbência nem atribuição para tomar decisões judiciais.
Está em marcha mais uma saraivada de ataques – infundados – à imprensa, à liberdade de expressão e ao direito à informação, de que todo cidadão é titular. Os fundamentos da democracia correm perigo. Fiquemos atentos.
As reportagens que enfureceram o Planalto – pois o então juiz da Lava Jato, Sergio Moro, é hoje ministro da Justiça, representando o papel de lastro moral do Planalto – começaram a ser publicadas pelo Intercept, site jornalístico de Greenwald. Os diálogos reproduzidos apontaram indícios de direcionamento indevido do Ministério Público pelo Poder Judiciário e falta de imparcialidade do juiz. Em seguida, em parcerias com a redação do Intercept, outros órgãos de imprensa, como a revista Veja e o jornal Folha de S.Paulo, entraram na história e veicularam novas notícias. Todas bombásticas e péssimas para o ministro da Justiça.
A reação inicial dos que tiveram seus diálogos vazados reforçou a impressão geral de que o material é autêntico. As autoridades flagradas não disseram que os registros são falsos, apenas levantaram a hipótese de que alguns trechos poderiam ter sido “editados”. Enquanto isso, repórteres de outras redações confirmavam que reconheciam nas transcrições mensagens que eles, repórteres, efetivamente trocaram com as autoridades implicadas no escândalo. Mais provas se somaram para atestar a veracidade das reportagens.
O governo, acuado, contra-atacou com uma operação policial espetaculosa – na linha de muitas daquelas que marcaram a Operação Lava Jato – para prender os hackers que teriam abastecido as reportagens. A intenção é jogar no descrédito as revelações feitas até aqui pelos repórteres e que, se confirmadas, apontam vícios de partidarismo na sentença que condenou o ex-presidente Lula.
Ao alardear que haveria um hacker no meio do caminho do Intercept, o governo pretende desacreditar o trabalho jornalístico realizado até agora. Cabem aqui duas perguntas. A primeira: se ficar provado que o material em que se baseiam as reportagens foi obtido de modo ilegal, as revelações das reportagens deverão ser descartadas pela opinião pública? A segunda, de escopo mais geral: a origem ilícita de uma informação invalida o conteúdo de uma apuração jornalística?
A resposta é não. Não para a primeira pergunta e não para a segunda. O jornalismo se abastece das fissuras que se abrem no poder. Recolhe as notícias das inconfidências, dos lapsos, dos atos falhos, das traições e de falhas de segurança nos sistemas que guardam sigilos de operações confidenciais. Uma notícia é, sempre, a publicação de um dado que deveria ter ficado escondido em algum lugar (do poder). E é só assim que a imprensa funciona como um serviço público de fiscalização do poder na democracia. Funciona porque alguém no poder erra ou se trai – e porque a democracia garante aos jornalistas o direito publicar o que obtêm de boa-fé e que seja de interesse público. Portanto, uma informação de origem suspeita pode ter valor jornalístico.
Jornalistas, por evidente, não dispõem de autorização para praticar crimes: não podem contratar arapongas para ouvir telefonemas alheios, nem podem violar as fronteiras da privacidade de quem quer que seja. Mas jornalistas têm, sim, licença para receber informações que, lá atrás, podem ter sido obtidas ilegalmente. Não é só. Depois de avaliar que essas são de interesse público e depois de checar a veracidade dos relatos, jornalistas têm, mais que o direito, o dever de publicá-las – para o bem do Estado de Direito. A cultura política no Brasil tem enorme dificuldade de entender essa questão, mas é assim que é.
Em 2009 este jornal deu um furo de reportagem noticiando que as provas do Enem daquele ano tinham vazado. A revelação só foi possível porque a repórter Renata Cafardo viu as questões roubadas. Em 1974 o então presidente americano Richard Nixon teve de renunciar em consequência do escândalo de Watergate, o qual só se tornou conhecido porque dois jovens repórteres do jornal The Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, investigaram a história. A fonte primordial de Woodward, identificada algumas décadas depois, era William Mark Felt, o número dois do FBI na época, que estava falando o que não podia nem devia. Em 1971 documentos do Pentágono (Pentagon papers) dando conta da irresponsabilidade do governo americano de seguir com a Guerra do Vietnã foram entregues à imprensa por Daniel Ellsberg, que tinha trabalhado para o governo e não poderia contar o que contou.
O fato de Felt e Ellsberg terem traído seus chefes não invalidou o que as reportagens mostraram. O fato de haver, talvez, um hacker no meio do caminho das reportagens sobre os diálogos impróprios da Lava Jato não torna o escândalo menos escandaloso. Se houve invasão ilegal dos celulares dos procuradores, isso, claro, deve ser investigado pela polícia, mas as conversas suspeitíssimas agora noticiadas continuam sendo de interesse público. As autoridades ainda devem explicação. Querer calar a imprensa ou intimidar jornalistas – que têm direito constitucional ao sigilo da fonte – são condutas inaceitáveis que traem tentações autoritárias.
*Jornalista, é professor da Eca-USP
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OFENSORES E OFENDIDOS

Contardo Calligaris, Folha de S.Paulo
Viajei pelo sul da França e fiz uma romaria por lugares emblemáticos para meus pensamentos atuais. 
Nos últimos tempos, leio muito sobre a história do cristianismo. Tento recuperar o tempo perdido, pois acabo de descobrir que a versão na qual acreditava até ontem era falsa. 
Cresci convencido de que o cristianismo fora uma religião perseguida —ou seja, os cristãos, embora todos
generosos como Cristo, teriam sido caçados e massacrados pelos pagãos, que não gostavam dessa nova religião porque ela dava dignidade e importância aos humildes.
A história que descubro é outra: o paganismo era tolerante e aberto à convivência dos deuses de todos. Roma, como se sabe, nunca impunha seus deuses aos povos conquistados —por sabedoria prática (venerem quem quiserem, contanto que paguem os impostos) e, mais ainda, porque o paganismo é por essência plural: se meu vizinho venera um deus que cura rinite, vou incluí-lo em minhas preces, sobretudo no inverno. 
Ao contrário disso, o Deus cristão era exclusivista (você não terá outro deus fora de mim) e missionário (“amar” o próximo significava convertê-lo, afastá-lo de seus deuses).
Missionarismo com exclusivismo é uma receita que leva qualquer um para intolerância e violência extremas. Foi o caso do cristianismo, do islã e do comunismo.
Nas últimas horas da tarde, Toulouse, rosa escuro por causa dos tijolos com os quais todo o centro foi construído, pega fogo. A própria beleza da cidade parece lembrar assim, ao fim de cada dia de sol, o
suplício dos que lá foram queimados na fogueira, vítimas da intolerância religiosa.
Visitei Toulouse pela primeira vez 30 anos atrás, com meu amigo Jean Bergès, tolosano. Foi ele quem me mostrou a praça du Salin, onde, em 1616, foi torturado e queimado Giulio Cesare Vanini, um filósofo, nascido na Puglia (hoje Itália), de quem é difícil dizer se foi supliciado por suas ideias (que contêm pitadas de panteísmo e materialismo) ou pela liberdade de seus costumes sexuais. 
Em 2007, até que enfim, foi colocada uma placa na praça du Salin, em memória de Vanini e dos “pensadores precursores das Luzes, vítimas do obscurantismo, que estudaram ou ensinaram em Toulouse” (a lista inclui Giordano Bruno).
Bem antes de Vanini, Toulouse foi a capital dos cátaros, contra os quais, no século 13, o papa Inocêncio 3° desencadeou uma cruzada genocida. 
Ficou famosa a frase de seu delegado quando, a entrar em Béziers, os soldados lhe perguntaram como eles reconheceriam os cátaros (visto que na cidade também havia cristãos papistas): “Matem a todos”, ele disse. “Deus reconhecerá os seus.” É difícil dizer melhor a indiferença pela vida concreta (dos outros) que é produzida pela crença num além.
Como os gnósticos dos primeiros séculos, os cátaros acreditavam que se chega a Deus pela razão e pelo conhecimento, não pela fé. Também, embora cristãos, acreditavam na existência de dois deuses, um mau, o “demiurgo” (responsável pelo mundo material), e um bom, o deus das almas.
Mas a vida concreta dos cátaros era bem comportada. Eles viviam ansiosos por se reencarnar cada vez mais longe da carne e perto do espírito.
Esse não era o caso de Vanini em 1600 —ele era, ao mesmo tempo, um espírito livre e um libertino.
Sentei na praça do Capitólio com amigos que não via há anos. Eles davam notícias do movimento e do pensamento libertinos na França de hoje. Evocaram Vanini, justamente, para explicar algo que lhes parecia óbvio: para eles, sem a libertinagem sexual dos séculos 17 e 18, as Luzes sequer apareceriam na história do Ocidente —ou seja, a liberdade nos costumes sexuais teria sido (e ainda seria) a condição da liberdade do pensamento.
Me lembrei de que Diderot, no começo de “O Sobrinho de Rameau”, escreveu que ele gostava de deixar sua mente vaguear, entregue à sua própria “libertinagem”, e acrescentou que seus pensamentos eram suas “rameiras”.
Nessa altura da conversa, do outro lado da praça, um pequeno grupo de jovens começou uma pregação por megafone que nos prometia que seríamos salvos se só deixarmos Jesus nos amar. 
Se a comunidade libertina tolosana começasse uma orgia na praça do Capitólio, isso ofenderia algum maluco, que logo poderia chamar a polícia. Entendo e respeito. 
Agora, eu me senti ofendido ao ser objeto de proselitismo missionário —bem no centro de Toulouse, onde a religião já mostrou toda a boçalidade da qual é capaz.
Contardo Calligaris
Psicanalista, autor de “Hello, Brasil!” e criador da série PSI (HBO).
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O DIABO EM CRISE

Flávia Boggio, Folha de S.Paulo
O elevador panorâmico desce pelo subsolo em direção ao gabinete mais profundo. Kesabel, o assessor, passa pelas salas com o pior da humanidade —criminosos, banqueiros, despachantes e pessoas que colocam a faca suja de sardela na manteiga. Ele bate na porta e entra no gabinete de seu chefe, o rei das trevas, o Diabo.
“Estamos com ótimos trabalhos na Terra, Vossa Alteza. Conseguimos a liberação da caça às baleias no Japão. Coreia do Norte voltou a disparar mísseis no Pacífico. E o regente André Rieu anunciou mais uma turnê mundial”, comemora Kesabel. O demônio ouve desinteressado, enquanto folheia o livro “Cozinhando com Soja”.
O assessor continua: “Queria destacar as ações no Brasil. Nossos agentes elegeram um presidente que, há pouco mais de 200 dias, causa estragos diários”. O Diabo fica confuso. Tenta se lembrar dos últimos trabalhos que fez pelo Brasil. 
Passa por represa de Itaipu, Sarney, reforma do Maracanã e a coreografia do impeachment. Não, não havia recrutado aquele homem.
O assessor replica: “Pois ele liberou 290 agrotóxicos. Tem veneno que deixa cego, sangra pelos poros e extermina milhões de abelhas”. O Pai-do-Mal calculou: “Extinção das abelhas acabaria com a humanidade. Como não pensei nisso antes?”.
“Tem mais”, continua Kesabel. “Só nesta semana, ele incentivou a invasão de terras indígenas, o trabalho infantil, o trabalho escravo, questionou a CNH, a cadeirinha das crianças e as mortes na ditadura.” “Eu nunca vi tanta diarreia pela boca. Seria um concorrente?”, indaga o capeta.
“Se for, é dos bons. Até a fome no Brasil ele disse que é mentira.” O demônio se enfurece: “Eu inventei a fome. Quinze pessoas morrem por dia no país graças a mim”. O assessor relativiza: “Parece que ele não liga muito para morte, chefe. Nem ele nem a turma dele, uns tais de ‘cidadãos de bem’”.
O Diabo se preocupa: “Onde foi que erramos?”. “Eu disse que você deveria ter acreditado nas redes sociais”, relembra o assessor. 
“Como eu iria imaginar que os humanos gostariam de ver fotos de viagem? Ficamos para trás, Kesabel”, choraminga o demônio, enquanto acaricia Cérbero, seu cachorro de três cabeças.
Flávia Boggio
Roteirista de séries de ficção e do núcleo de humor da Globo, escreveu para programas como o 'Lady Night'.
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