domingo, 1 de janeiro de 2023

PT É QUEM SOBROU PARA RESOLVER VELHOS PROBLEMAS E OS CRIADOS POR BOLSONARO

Celso Rocha de Barros*, Folha de S. Paulo

Com Lula no Planalto, partido criado nos anos 80 terá agora como um dos desafios reorganizar a democracia brasileira

O Partido dos Trabalhadores é o maior vencedor de eleições presidenciais da história do Brasil. Ganhou 5 das 8 eleições da Nova República. Ficou em segundo lugar em todas as que perdeu. Esteve em todos os segundos turnos.

Os outros dois maiores vencedores, o velho PSD (1945-1964) e o PSDB, somados, venceram 4 vezes.

Entre os partidos que disputaram com o PT até hoje, dois acabaram (o PRN de Collor e o PSL de Bolsonaro). O PSDB, maior rival dos petistas, é hoje uma sombra do que já foi: perdeu as fortalezas de São Paulo e Minas Gerais para direitistas mais radicais e sua bancada no Congresso tem o mesmo tamanho da do PSOL.

Depois de 1989, quando o PT iniciou seu processo de moderação programática, o partido só perdeu eleições presidenciais para o Plano Real, uma imensa realização tucana; e quando Sergio Moro, em um julgamento irregular, impediu Lula de concorrer em 2018.

A capacidade de sobrevivência do PT é ainda mais impressionante tendo em conta o tamanho da crise que atingiu o partido em 2015-2018.

A Lava Jato atingiu em cheio a direção do partido. Os erros de política econômica dos dois anos anteriores cobraram seu preço. Dilma Rousseff sofreu impeachment. O partido foi massacrado nas eleições municipais de 2016, perdendo mais da metade de suas prefeituras. Em 2018, Lula foi preso.

Parecia óbvio que o PSDB venceria a eleição presidencial daquele ano, e talvez uma outra força de esquerda, como PSOL, PDT ou a Rede Sustentabilidade, tomasse o lugar do PT na liderança da esquerda brasileira.

Quatro anos depois, Lula subirá a rampa do Planalto neste domingo (1º) como o primeiro brasileiro a derrotar um presidente que concorria à reeleição.

Não há dúvida de que o PT tem muito a agradecer à direita brasileira por sua ressurreição. Do impeachment de Dilma ao não impeachment de Bolsonaro, é difícil encontrar uma boa decisão da direita brasileira nos últimos oito anos.

Além disso, como primeiro partido brasileiro criado fora do Estado, o PT tem uma base em movimentos sociais e uma militância que lhe permitem sobreviver bem na oposição, como teve que fazer nos últimos anos.

E sobretudo: em um país desigual como o Brasil, seria surpreendente se o eleitorado, em eleições majoritárias, não votasse no partido da redistribuição de renda.

Por outro lado, se os petistas se mostraram competentes em se organizar fora do Estado e na luta por redistribuição, sempre puderam contar com instituições que evoluíam na direção certa, tornando-se cada vez mais parecidas com as de democracias estáveis.

O PT e os movimentos sociais que o sustentavam puderam se organizar de maneira crescentemente livre à medida que a transição democrática progrediu nos anos 80.

Quando Lula assumiu a Presidência em 2003, sucedeu um governo indiscutivelmente democrata, que havia conseguido reestabelecer um mínimo de funcionalidade para o capitalismo brasileiro. Até hoje, foi a única transição pacífica entre esquerda e direita de nossa história.

O PT foi importantíssimo na construção da democracia brasileira, mas o PMDB e sua dissidência tucana entregaram grande parte do "instituições funcionando" que permitiu ao PT colocar em prática seu programa.

Nos últimos anos, Jair Bolsonaro desorganizou grande parte dessas conquistas da democracia. Foram anos de caos institucional e guerra entre os Poderes, de sucessivas tentativas de golpe por parte do presidente da República, de deterioração moral no debate público, de desmonte de políticas públicas que todos já considerávamos permanentes, como a política de vacinação.

Nomes de generais voltaram a frequentar o noticiário político, um sinal evidente de regressão ao nível de país vagabundo.

Bolsonaro mudou a Constituição três meses antes da eleição para poder gastar mais dinheiro durante a campanha.

Dias antes da posse, um terrorista bolsonarista foi preso tentando explodir o aeroporto de Brasília. Graças ao bolsonarismo, o Brasil é muito pior em 2022 do que era em 2003, quando Lula assumiu a Presidência pela primeira vez.

Isto é, dessa vez o PT não vai poder apenas implementar suas políticas públicas preferidas. Vai ter que reorganizar a democracia brasileira. Quando o PMDB fez isso nos anos 80, acabou perdendo sua identidade ideológica e fracassando na gestão da economia. O PT vai saber fazer melhor?

Ao contrário do que diz boa parte dos analistas, os sinais emitidos por Haddad sobre a gestão econômica são bons. Mas os desafios são muito grandes.

Desde que a ditadura quebrou o Brasil no começo dos anos 80, nunca mais tivemos bons índices de crescimento. O crescimento mais rápido dos dois governos de Lula foram, em boa parte, consequência do superciclo das commodities, que não deve se repetir agora.

A economia brasileira precisa ser bastante reformada para tornar-se capaz de competir globalmente. O novo governo petista vai saber encaminhar esse processo sem gerar efeitos sociais adversos? Ninguém conseguiu até agora.

Nos últimos anos, enquanto Bolsonaro tentava destruir a democracia, um outro processo ocorria paralelamente –e com mais sucesso: a recomposição da classe política após o choque da Lava Jato.

Esse processo teve momentos positivos, como a reforma política de 2017 e o reforço do financiamento público de campanha, velha bandeira petista. Com o financiamento público, a corrupção ao menos se tornou opcional para os políticos brasileiros que querem se eleger.

Mas o pós-Lava Jato também teve momentos trágicos, como o desmonte dos mecanismos de combate à corrupção, acelerado por Bolsonaro.

Com presidentes abalados por escândalos e crises, o Congresso alterou o processo orçamentário para tomar poder da Presidência, o que ameaça a funcionalidade do sistema.

Justamente os setores mais fisiológicos do centrão saíram fortalecidos da crise da Lava Jato, porque a disputa presidencial tornava os escândalos do PT e do PSDB mais visíveis.

O que Lula vai conseguir fazer com o que sobrou da classe política? Que mecanismos de combate à corrupção podem ser implementados para que o fim da Lava Jato não se torne um vale-tudo que já deixe encomendado o próximo levante populista?

Finalmente, o que Lula vai fazer com a classe que ajudou a criar, com o que já foi chamado de "Nova Classe Média" mas que é, no fundo, uma classe trabalhadora não miserável?

Muita gente dessa turma votou em Bolsonaro em 2022. O que é possível fazer para que tenham empregos melhores, digamos, na indústria? Ou para que os empregos que têm, digamos, como entregadores de comida, lhes ofereçam condições melhores de trabalho?

O que é possível fazer pelos brasileiros pobres que pretendem se estabelecer como empreendedores? Como garantir programas de formação profissional que de fato gerem aumento de renda, como o Senai que Lula frequentou na juventude?

Além das tarefas de governo, como ficará a autoimagem do PT nos próximos anos, quando terá que se posicionar como líder de uma federação de centro-esquerda?

Na prática, o PT funcionou nas últimas décadas como o grande partido social-democrata da América Latina. Mas o debate interno do partido nunca acompanhou esse processo.

Que ideias os intelectuais petistas criarão para dar conta do novo cenário? O que saberão aproveitar de outras tradições de pensamento? Que diálogo o PT estabelecerá com a esquerda mundial?

O PT não foi criado em 1980 para realizar as tarefas que agora tem diante de si. Na crise política que já vai completar dez anos, o PT caiu primeiro. Entretanto, em 2023, é o último cara em pé. É quem sobrou para começar a resolver tanto os velhos problemas que Bolsonaro não teve interesse em resolver quanto os novos problemas que Bolsonaro criou.

Torço sinceramente para que o PT consiga ao menos dar início a essa reconstrução. Torço para que, daqui a quatro anos, ou o PT vença de novo, por ter sido bem-sucedido, ou dê lugar a uma centro-direita expurgada de bolsonaristas, algo que jamais teria condições de aparecer sem a vitória de Lula em 2022.

Torço, enfim, para que o primeiro experimento de partido brasileiro criado fora do Estado, uma das experiências social-democratas mais interessantes do sul global, sobreviva aos enormes desafios dos próximos anos.

*Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra), autor de "PT, uma História" e colunista da Folha

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O FRACASSO DE BOLSONARO

Bruno Boghossian, Folha de S. Paulo

Bolsonaro teve ampliação de poder como único projeto (e fracassou)

Depois de governo ruinoso, ele terá que enfrentar o futuro sem cargo pela primeira vez em décadas

Por quatro anos, Jair Bolsonaro se dedicou a um único projeto: permanecer no cargo com poderes ampliados. Em sua chorosa despedida do governo, o presidente em fuga se viu obrigado a fazer uma melancólica admissão de seu fracasso.

O ciclo de Bolsonaro tem a marca de um político que deixou de lado o papel de governante para trabalhar pela própria autoridade. Ele ignorou funções básicas da administração do país para transformar a máquina pública numa ferramenta a favor de seus desejos.

Bolsonaro só se interessou pela gestão da economia quando precisou evitar a deterioração de seu poder e ganhar sobrevida na disputa eleitoral. Levou adiante a política de armas porque pretendia intimidar opositores e só insistiu num discurso de liberdade para justificar seus delírios autoritários.

Apeado da cadeira pelo voto e sem força para executar um golpe, Bolsonaro perdeu seu principal propósito. O silêncio de quase dois meses após a derrota na eleição foi o reflexo desse processo de esvaziamento. O discurso no penúltimo dia do ano foi o reconhecimento de que o poder finalmente escaparia de suas mãos.

No pronunciamento de sexta (30), Bolsonaro se esforçou para descrever o baque como uma injustiça. Coloriu um governo de bons resultados (como se o eleitor tivesse errado ao negar a reeleição) e atribuiu a derrota a perseguições (como se as leis não valessem para o político poderoso que ele gostaria de ser).

Bolsonaro ainda confessou ter vivido o desespero que só acomete os políticos mais apegados à cadeira. Sem deixar margem para muitas dúvidas, ele praticamente assumiu que procurou o caminho para um golpe, mas percebeu que não teria apoio e decidiu bater em retirada.

A sede de poder custou ao país um governo ruinoso, o cultivo do ressentimento e a consolidação do autoritarismo como corrente política de massa. Bolsonaro deixa esse legado, mas terá que enfrentar o futuro sem um cargo público pela primeira vez em décadas.

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O DESASTRE BATE À PORTA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Livro enumera mega-ameaças à nossa espreita

Se você ficou patologicamente animado com o fim do governo Bolsonaro e a chegada de uma administração não extremista, um bom antídoto literário é "Megathreats" (mega-ameaças), de Nouriel Roubini.

Ainda que tenhamos escapado por um triz (1,8 ponto percentual dos votos) do pior, o Brasil é só um pedaço não muito importante de um mundo bastante interconectado que está, na visão do autor, profundamente encrencado.

Nos dez primeiros capítulos, Roubini identifica dez problemas e mostra por que são mega-ameaças. No caso de vários deles, como mudança climática, crises de endividamento, estagflação, guerra fria EUA-China, os perigos são mais ou menos autoevidentes, o que não impede Roubini de descrever, com riqueza de detalhes, algumas das piores implicações.

Há itens, como o avanço da inteligência artificial, a desglobalização e a redução das taxas de natalidade, que muitos aplaudiriam, mas o autor mostra que eles podem ter efeitos bastante perversos sobre a organização econômica e a vida das pessoas.

Se você está começando a sentir-se deprimido, ainda não viu nada. Roubini reserva o penúltimo capítulo para mostrar como cada uma dessas ameaças pode alimentar outra, formando círculos viciosos que nos levariam à miséria. Numa espécie de concessão ao otimismo arrancada a fórceps, ele afirma, no último capítulo, que, se formos extremamente competentes no gerenciamento desses problemas —uma hipótese que ele considera remota—, o desastre que nos aguarda nos próximos anos será apenas moderado.

Roubini, para quem não conhece, é provavelmente o mais pessimista dos economistas em atividade. Seu apelido é Dr. Doom (apocalipse). O problema é que, de vez em quando, suas previsões se confirmam, como foi o caso da crise financeira de 2008. E pessimistas não precisam estar certos mais do que 10% das vezes para que já valha a pena ouvir o que eles têm a dizer.

Feliz Ano Novo a todos.

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RECONSTRUÇÃO PESSOAL

Muniz Sodré*, Folha de S. Paulo

Eleição não é vitória partidária, e sim do voto contrário a um caráter negativo e favorável a outro

Suprema autoridade judiciária desculpou-se ao presidente eleito por não lhe ter permitido, quando ainda em detenção, despedir-se do irmão morto. Não foi gesto institucional, mas pessoal. Na melhor das hipóteses, repercussão moral de recomendação recente do papa Francisco sobre "vigilância do coração".

Entidade nenhuma é agente moral, isso é apanágio de pessoas, como salienta o linguista e ativista Noam Chomsky.

O mesmo juízo aplica-se a partido político: um programa de melhor distribuição de justiça social ou de retidão de conduta não lhe atribui disposição de alma. Instituições podem guiar-se por princípios equitativos, mas são constituídas por pessoas, às quais cabe agência moral.

Isso não implica individualismo, enquanto autonomia de uma isolada "dignidade moral" frente à sociedade, e sim prevalência de qualidades pessoais, de valores humanos para além da máquina social. Pessoa é o indivíduo considerado em seu revestimento moral, portanto, naquilo que o torna sensível à coexistência de um outro. Saber que alguém tem o direito de comparecer a um funeral, e ainda assim impedi-lo, é um fato de pessoa, do invólucro dos atributos de caráter.

A corrosão da democracia acoplada à corrosão do caráter na sociedade incivil demanda atenção ao fenômeno, que perpassa até empresas, obrigando-as a remanejar regras utilitaristas, com vistas a responsabilidade social e compliance. Amplia-se o campo ético da pessoa. É ilustrativo o caso atual do Twitter: o poder da organização mostra-se subitamente afetado pela superexposição negativa do caráter do novo dono, competência técnica à parte.

Não se trata de verdade última do sujeito, mas de reconstrução pessoal, assim como se faz reengenharia empresarial ou retrofit arquitetônico. Nenhum delírio de marketing motivacional: é algo posto em prática nas novas gerações, em estilos de vida que modulam a personalidade.

Está em pauta, aliás, o modo "goblin" de ser, jeito autoindulgente e desleixado dos jovens pós-pandêmicos, que não é uma mutação identitária, mas novo "look" pessoal de classe média.

Por um lado, pessoa e imagem respiram na atmosfera da mídia, sem exigências de caráter. Por outro, reflorescem na cena política, na medida em que o esvaziamento da representação parlamentar abre-se para populismos, assim como para o confronto de qualificações morais relevantes. Frente Democrática, sim, para repelir o extremismo.

Mas a eleição presidencial não é vitória partidária, e sim do voto popular contrário a um caráter negativo e favorável a outro, que se compromete a resgatar os miseráveis da miséria. Logicamente, é também um ato de esperança na reconstrução das velhas práticas.

*Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de "A Sociedade Incivil" e "Pensar Nagô".

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LULA TOMA POSSE COM A RESPONSABILIDADE DE REFORÇAR A DEMOCRACIA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Em um país dividido e com profundos problemas sociais, presidente assume a responsabilidade de reforçar a democracia

Apesar de todas as tensões — e ainda as teremos por um tempo —, a vida do país mudou da água para o vinho desde 30 de outubro, quando foi eleito Luiz Inácio Lula da Silva, que assumirá a Presidência da República neste domingo de Ano-Novo. Faz parte do jogo a má vontade com Lula de formadores de opinião e de integrantes da elite econômica, cuja maioria apoiou e votou no presidente Jair Bolsonaro.

Entretanto, a justa comparação não é com suas expectativas, diante dos quatro anos de retrocesso político, obscurantismo, negacionismo e disparates; é entre um governante cuja reeleição nos levaria para um “regime iliberal”, na linha de Orban (Hungria), Putin (Rússia), Erdogan (Turquia) e outros presidentes autoritários, e o ambiente democrático proporcionado pela simples vitória de Lula, com apoio das forças democráticas do país.

Porque a elite econômica e a maioria da classe média, majoritariamente, apostaram na reeleição de Bolsonaro? Na verdade, apesar das suas grosserias e ignorância em relação aos principais problemas do país, com o ministro Paulo Guedes na Economia e o grupo de generais que o apoia, Bolsonaro representava um projeto de enxugamento do Estado brasileiro por uma via autoritária, para o qual a democracia representativa, principalmente a Constituição de 1988 e o equilíbrio entre os Poderes, seria um obstáculo intransponível.

Estado reinventado

Existe uma corrida mundial para reinventar o Estado, em razão da globalização e das grandes mudanças tecnológicas e nas cadeias produtivas mundiais, nas quais a vocação natural do Brasil é ser um grande produtor de commodities agrícolas e minerais.

Reinventar o Estado numa ordem democrática é complicado, por isso mesmo, os modelos autoritários da China e de Cingapura são novos paradigmas de modernização, principalmente para os países da periferia. Nosso passado não ajuda, porque tivemos dois grandes ciclos de modernização por via autoritária, a ditadura Vargas (1930 a 1945) e o regime militar (1964 a 1985).

As três grandes experiências de modernização por uma via democrática da nossa história republicana foram limitadas e, por isso, não são devidamente valorizadas: o período de vigência do Convênio de Taubaté, entre 1906 e 1929, que levaria os produtores paulistas a apostar na industrialização e, não, no patrimonialismo, como em outros estados; o governo de Juscelino Kubitscheck, que jogou a autoestima do país para cima e nos deixou como legado a indústria automotiva e Brasília; e o governo de Fernando Henrique Cardoso, que estabilizou a moeda com o Plano Real e fez a grande reforma patrimonial do Estado brasileiro.

Quem não valoriza esses períodos da forma devida é a esquerda brasileira, prisioneira de velhos conceitos anti-imperialistas e nacional desenvolvimentistas. Em grande parte, todos os ciclos autoritários que vivemos e os quatro anos de Bolsonaro foram consequências da falta de alternativas democráticas para os novos ciclos de modernização. Na Revolução de 1930, jogamos a democracia fora com a água da bacia; em 1964, JK e Ulysses Guimarães foram empurrados para o lado dos golpistas; a grande massa de insatisfeitos de 2013 apoiou Bolsonaro cinco anos depois.

Síntese política

Por que essas reflexões no dia da posse de Lula, diante da grande festa popular que se realizará e da ultrapassagem dos perigos representados pela continuidade do governo Bolsonaro? Porque, para reinventar o Estado brasileiro, as forças que compõem o novo governo, da esquerda mais tradicional aos setores do Centrão, precisarão se reinventar de alguma forma e produzir uma nova síntese política.

Uma vida normal, com pleno funcionamento das instituições do país e políticas públicas que atendam razoavelmente as necessidades da maioria da população, é suficiente para a tal mudança da água para o vinho. É o que se espera nos primeiros 100 dias de governo, que começa sem a trégua concedida a todos os presidentes que antecederam Lula. Como um Robin Hood, o petista prometeu cobrar mais imposto de renda dos ricos e aumentar a renda dos pobres. Como vivemos num país capitalista, no qual o sistema financeiro e os grandes grupos econômicos nacionais e estrangeiros dão as cartas na economia e sabem se defender, quem pode arcar com as consequências é a classe média.

A única maneira de atrair a classe média e evitar o acirramento do choque de classes desnudado na eleição é o país crescer, gerar mais riqueza e criar melhores condições de ascensão social, pela via da educação e da igualdade de oportunidades. É preciso que as forças que compõem o governo cheguem a um consenso sobre isso, com um programa de governo novo e exequível. O preço da ampliação do gasto social não pode ser uma parceria com o patrimonialismo. Esse é o xis da questão.

Seria Lula um herói Noir? Existe um fascínio pelos escritores norte-americanos que inventaram esse gênero literário, cujos romances foram adaptados em Hollywood para revolucionar o cinema. A atmosfera Noir eram as sombras, o contraste com o negro e o cinza. Falcão Maltês (1941), Pacto de Sangue (1944), À Beira do Abismo (1946), Fúria Sanguinária (1949), Crepúsculo dos Deuses (1950), A Morte num Beijo (1955) e A Marca da Maldade (1958) retrataram os conflitos da vida urbana, a violência policial, o crime organizado e a degeneração política. Seus heróis tinham personalidade dúbia. O ambiente era opressor, perigoso e corrupto, até os homens de bem eram arrastados pela correnteza do mal. O herói Noir tem muitos defeitos, mas não entrega os pontos. É capaz de superar as dificuldades e fazer coisas incomuns.

É assim, como um herói Noir e um país dividido, que Luiz Inácio Lula da Silva escreve o terceiro capítulo de sua biografia presidencial.

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MESMO COM GUINADA AO CENTRO, PETISTAS AINDA SERÃO MAIS INFLUENTES

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

Alexandre Padilha na articulação política e Fernando Haddad na chefia da Economia estão na restrita cota de confiança de Lula

Vinte anos após subir pela primeira vez a rampa do Palácio do Planalto, em 2003, Luiz Inácio Lula da Silva assume neste domingo, 1º, o terceiro mandato à frente do governo com desafios que vão além da economia. Do “Lulinha paz e amor” à “jararaca”, o presidente que chega agora ao poder diz ter passado por um “processo de ressurreição” e, munido de um discurso conciliador, chamou políticos de centro para compor o Ministério. Os nomes mais influentes da equipe, porém, ainda são do PT.

Em recente conversa com sindicalistas, Lula afirmou que, para ter governabilidade, precisa dialogar até com a extrema-direita. “Eu aprendi muito com o impeachment da Dilma”, argumentou ele, numa referência à presidente Dilma Rousseff, que teve o mandato cassado pelo Congresso, em 2016. “Fora da política não há solução. Quem não conversa, não governa”, emendou.

A composição da Esplanada com 37 ministérios – dois a menos que no segundo mandato de Dilma – abriga agora 9 partidos, incluindo o PT, que vai controlar onze pastas. O ministro que comandará a articulação política do Planalto com o Congresso é Alexandre Padilha, um dos homens da confiança de Lula. Deputado eleito pelo PT, ele ocupou o mesmo cargo na segunda gestão de Lula e também foi titular da Saúde sob Dilma, de 2011 a 2014.

Era Padilha quem estava com o presidente nas negociações de última hora para a entrada do União Brasil no governo. Houve racha no partido, que tem o senador eleito Sérgio Moro em suas fileiras, porque uma ala queria emplacar o deputado Elmar Nascimento (BA) no primeiro escalão. Não obteve sucesso. Elmar foi indicado pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), expoente do Centrão.

“A frente ampla do PT vai do P até o T”, ironizou o deputado Danilo Forte (União Brasil-CE). “Agora, tudo é lua de mel, mas depois de 1.º de fevereiro vem a realpolitik. E o comportamento do Congresso em relação ao governo Lula vai depender muito do reflexo das ruas”, insistiu Forte, numa referência à data das eleições que definirão as novas cúpulas da Câmara e do Senado.

Apesar da arranjo às vésperas da posse, os deputados que estão nos partidos com os quais Lula fechou acordo não somam os 308 votos necessários para aprovar, por exemplo, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) na Câmara. A situação é um pouco mais confortável no Senado.

“Estamos dando o primeiro passo na montagem do governo, temos o maior número de mulheres da história do País em ministérios (11) e fizemos um esforço político regional nessa composição. Ainda há muita coisa por vir”, amenizou Padilha, na tentativa de apagar incêndios políticos com Arthur Lira, que disputa a reeleição ao comando da Câmara. Houve também queixas do Solidariedade e do PV, que ficaram sem cargos.

Se a articulação do novo governo com o Congresso está sob os cuidados de Padilha, que foi da Juventude do PT, a economia terá à frente aquele que é conhecido como “o mais tucano entre os petistas”: Fernando Haddad.Lula se aproximou ainda mais de Haddad no período em que esteve preso, de abril de 2018 a novembro de 2019, acusado na Lava Jato pelo então juiz Sérgio Moro, que depois se tornou ministro da Justiça no governo de Jair Bolsonaro. Haddad foi o principal padrinho da união entre Lula e Geraldo Alckmin, no ano passado. À época, Alckmin era do PSDB e adversário do PT. Em dezembro de 2017, o então governador de São Paulo chegou a dizer que “depois de ter quebrado o Brasil”, o petista queria “voltar à cena do crime”.

Guinada

Com um giro de 180 graus na oratória, o ex-tucano fez para Lula, nessa campanha, o papel da Carta ao Povo Brasileiro de 2002, que acalmou o mercado financeiro. Mesmo assim, embora tenha se filiado ao PSB, Alckmin enfrenta a resistência de integrantes da cúpula do PT, que o veem como possível candidato à sucessão do presidente, em 2026. Para Lula, porém, o vice merece todos os elogios. “Vai ser um mascate”, resumiu ele, ao revelar que Alckmin acumularia a função de vice com a de ministro da Indústria e Comércio.

Dias antes de anunciar que Haddad seria ministro da Fazenda e Simone Tebet (MDB) chefiaria o Ministério do Planejamento, Lula foi questionado por sindicalistas sobre a possível indicação de um liberal para o governo. O presidente da CUT, Sérgio Nobre, cobrou um perfil “progressista e desenvolvimentista”, e não ortodoxo, para a equipe econômica. “Não se preocupe. O progressista no governo sou eu”, respondeu Lula.

Na prática, o governo começa com alguns potenciais candidatos à cadeira de Lula: Haddad, Alckmin e Tebet. Não por acaso o PT fez pressão para que ela não ficasse com o Ministério do Desenvolvimento Social, entregue a Wellington Dias (PT), ex-governador do Piauí. A pasta administra o Bolsa Família, vitrine social do partido, e Dias também está na lista dos presidenciáveis de 2026.

Após ser eleito, em outubro, Lula disse a correligionários que, pela primeira vez, o PT enfrentaria oposição nas ruas, no início do governo. Diante dessa constatação, ele escalou o deputado Márcio Macêdo (SE) para a Secretaria-Geral da Presidência. Vice-presidente do PT e tesoureiro da campanha, Macêdo tem trânsito nos movimentos sociais e terá a missão de ampliar o diálogo com esse segmento. Da velha guarda do PT, o ex-ministro Gilberto Carvalho, por sua vez, ficou encarregado de manter conversas com os religiosos.

“O PT precisa compreender a teoria da prosperidade, que mobiliza quase 40% da população”, insistiu o líder do PT na Câmara, Reginaldo Lopes (MG), ao apontar desafios do partido no governo Lula 3. “Para ter diálogo moderno com os evangélicos, é necessário fazer das redes e das ruas um espaço permanente de disputa de narrativas”, completou. Nos bastidores, dirigentes do PT admitem que o partido também vai disputar os rumos do governo Lula 3 com os novos aliados.

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O QUE ESPERAR DE 2023

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

Ano novo, governo novo, mas tendências da política econômica, nem tanto. Todos os indícios apontam para um crescimento medíocre em 2023. As economias líderes devem enfrentar recessão ou forte desaceleração, puxadas pela ressaca da covid e pela crise energética, que produziram inflação e obrigaram os maiores bancos centrais a puxar os juros para cima. As projeções do FMI são de crescimento de 1,0% do PIB dos Estados Unidos, de 0,5% da área do euro e de 4,4% da China. Aqui no Brasil, os analistas inquiridos pelo Boletim Focus não preveem mais do que avanço de 0,75%.

Em parte, esse passo lento está determinado pela música tocada no salão global. Mas há certas bolas de ferro que vêm tolhendo o avanço da economia brasileira. Como o Banco Central tanto alertou no último Relatório de Inflação, a principal delas é o rombo fiscal que vai sendo determinado pelo forte aumento das despesas públicas.

O Banco Central promete juros altos em boa parte do ano. É forte a pressão sobre o crédito e sobre a dívida pública que terá de incorporar mais despesas com juros no passivo total.

Já dá para prever nova fonte de conflitos. O governo Lula será pressionado a reduzir o custo do crédito, de modo a empurrar a economia e o emprego. No governo Dilma, o Banco Central foi obrigado a derrubar artificialmente os juros – operação que produziu perda de confiança e novas distorções. Desta vez, não vai dar para contar com o Banco Central, porque a autonomia está em vigor. As pressões por créditos subsidiados poderão desabar sobre o BNDES e os bancos públicos. Podem comprometer não só o crescimento, mas, também, sua qualidade.

Sem conhecer a política econômica da temporada Lula 3, fica difícil esperar por significativa recuperação da indústria de transformação. Se a reforma tributária for aprovada pode, se esperar por melhor azeitamento da atividade produtiva nos anos seguintes, mas não em 2023.

Ou seja, a economia ficará dependente do desempenho dos setores espontaneamente mais dinâmicos, como o agronegócio, mineração, petróleo e energia renovável. Mas, atenção, mesmo esses setores enfrentarão ameaças. O agro deve enfrentar queda dos preços das commodities, corre risco de novas taxações e de medidas protecionistas por exigências na área ambiental; e a área do petróleo vai enfrentar mudanças drásticas nas regras do jogo, especialmente sobre a Petrobras.

O governo Lula tende a ser mais intervencionista. Mas sua capacidade de intervenção deve ser limitada pela escassez de recursos. Já a atração de capitais privados dependerá do nível de confiança que a política econômica conseguir criar.

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A TRÉGUA PELÉ

Cristovam Buarque*, Blog do Noblat, Metrópoles

Na partida de Pelé, percebe-se a grandeza de um gênio da humanidade. Ao contrário, a partida de Bolsonaro mostra a mediocridade dele

Quis a história que coincidissem a partida de Pelé, um herói que nos orgulha, e a fuga de Bolsonaro, um calhorda que nos envergonha. Esta coincidência permite constatar a diferença entre grandeza e mediocridade.

Na partida de Pelé, percebe-se a grandeza de um gênio da humanidade. Ao longo de 65 anos, dos 17 aos 82 de idade, ele acumulou gestos, falas, comportamentos, genialidades em sua área de atuação, que lhe permitiram ser um símbolo de perfeição e excelência reconhecido mundialmente. Graças à sua grandeza, a história de Pelé permanece.

Ao contrário, a partida de Bolsonaro mostra a mediocridade de suas últimas falas e do voo de fuga em seguida. Mostra a covardia e a molecagem como tratou o povo brasileiro atè o final de seu mandato. Ao fugir, em avião da Força Aérea permite suspeita de que levou contrabando, protegido pelo manto da presidência no último dia do mandato.

Com este gesto engrandece Lula, que enfrentou até mesmo prisão, sem abandonar o país.

O discurso do presidente covarde demonstra sua mediocridade. Em nenhum momento manifestou-se como estadista falando para todos brasileiros, mas como candidato falando para seus eleitores no presente: não teve marca estrutural de transformação do país, nem sonhos para a história, limitando-se a contestar sua derrota e insulflar seus eleitores a não reconhecerm o resultado da Democracia. Não reduziu seu gosto por mentiras, manipulações. Sobretudo, foi um péssimo exemplo para as nova gerações.

A vida e ação de cada um destes, mostra a diferença entre grandeza e mediocridade. Desde que ocorreu, a morte de Edson Arantes de Nascimento é o tema central do noticiário em cada país ao redor do mundo. Seu prestïgio é tão grande, que não seria impossível surgir uma trégua entre Rússia e Ucrânia, durante o tempo do velório do Edson Arantes do Nascimento. Depois de Pelé, o presidente Lula é o brasileiros mais prestigiado no mundo. Ele poderia tentar esta “trégua Pelé”, com o apoio de António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas e do Papa Francisco. Às vezes, o milagre da paz começa por um dia de trégua.

*Cristovam Buarque foi ministro, governador e senador

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POSSE HISTÓRICA

Do g1 — Brasília

Lula toma posse diante de centenas de milhares, recebe a faixa de representantes do povo e defende a democracia

Em um dos momentos mais marcantes do dia, presidente subiu a rampa com cidadãos comuns, entre eles uma criança, um homem com deficiência, uma catadora e um indígena.

Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse neste domingo (1º) como o 39º presidente da história do país. A celebração do início do mandato levou centenas de milhares de apoiadores à Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Em um dos momentos mais marcantes, Lula recebeu a faixa presidencial de pessoas comuns, representantes do povo brasileiro.

Em discursos, o presidente ressaltou a defesa da democracia e o foco no combate à pobreza e à fome. Ao falar de fome, no parlatório do Palácio do Planalto, de frente para a multidão, Lula chegou a chorar.

Ele também fez críticas ao governo anterior, sem citar o nome do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Veja o que de principal aconteceu na posse:

Desfile no Rolls Royce

A equipe de Lula não havia confirmado até o início da tarde se o presidente faria o trajeto até o Congresso Nacional em carro aberto.

A dúvida acabou quando, no início da tarde, ele subiu no tradicional Rolls Royce da Presidência. Lula estava acompanhado da primeira-dama, Janja da Silva, do vice-presidente, Geraldo Alckmin, e da mulher do vice, Lu Alckmin.

Tropas em revista

Em seguida, na chegada ao Congresso, Lula passou em revista as tropas militares, uma das etapas tradicionais da celebração da posse (veja no vídeo abaixo).

Discurso no Congresso

Lula foi oficialmente empossado no Congresso, em cerimônia diante de parlamentares e do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

Em uma fala de 31 minutos, o presidente exaltou a "democracia para sempre".

"Sob os ventos da redemocratização, dizíamos 'ditadura nunca mais'. Hoje, depois do terrível desafio que superamos, devemos dizer 'democracia para sempre'", afirmou.

Lula disse ainda que seu governo vai ser de esperança, união do país e sem revanchismo.

“Hoje, nossa mensagem ao Brasil é de esperança e reconstrução. O grande edifício de direitos, de soberania e de desenvolvimento que essa nação levantou a partir de 1988, vinha sendo sistematicamente demolido nos anos recentes. É para reerguer esse edifício de direitos e valores nacionais que vamos dirigir todos os nossos esforços”, disse Lula.

Sem citar o nome de Bolsonaro, afirmou que irregularidades na pandemia devem ser investigadas.

"Em nenhum outro país, a quantidade de vítimas fatais foi tão alta proporcionalmente à população quanto no Brasil, um dos países mais preparados para enfrentar as emergências sanitárias", argumentou.

"Este paradoxo só se explica pela atitude criminosa de um governo negacionista, obscurantista e insensível à vida. As responsabilidades por este genocídio hão de ser apuradas e não devem ficar impunes", acrescentou Lula.

Faixa presidencial

Ao sair do Congresso, Lula foi para o Palácio do Planalto e subiu a rampa.

Em uma das cenas mais históricas da posse, ele subiu acompanhado de Janja, cidadão comuns (saiba quem são) e a cachorrinha do casal, chamada de Resistência, em referência ao período em que Lula passou preso.

No alto da rampa, a faixa passou pelas mãos dos representantes do povo e foi finalmente entregue a Lula por Aline Sousa, uma mulher de 33 anos, catadora desde os 14.

Choro ao falar sobre fome

Já com a faixa no peito, Lula se dirigiu ao parlatório do palácio, para falar à multidão que o aguardava na Praça dos Três Poderes.

Foi nesse discurso que, ao falar da fome no país, Lula chorou.

"Há muito tempo, não víamos tamanho abandono e desalento nas ruas. Mães garimpando lixo em busca de alimento para seus filhos. Famílias inteiras dormindo ao relento, enfrentando o frio, a chuva e o medo. Crianças vendendo bala ou pedindo esmola, quando deveriam estar na escola vivendo plenamente a infância a que têm direito", disse.

"Trabalhadores e trabalhadoras desempregados, exibindo nos semáforos cartazes de papelão com a frase que nos envergonha a todos: 'por favor, me ajuda'", continuou, perdendo a voz em razão do choro.

Líderes estrangeiros e posse de ministros

A próxima etapa no dia de Lula foi, dentro do Palácio do Planalto, receber cumprimentos de líderes estrangeiros. Entre eles, estavam 17 chefes de Estado.

Na sequência, Lula deu posse a seus 37 ministros (veja a lista).

Primeiros atos

Ainda no Palácio do Planalto, Lula assinou os primeiros atos administrativos de seu mandato. Um deles foi a medida provisória que garante o pagamento de R$ 600 do Bolsa Família.

Lula também assinou decreto que altera a política de Bolsonaro de flexibilização de acesso às armas.

Outro ato do presidente prevê reavaliar sigilos impostos pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em documentos.

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O BRASIL MUDOU, OU VOLTOU

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Hoje é dia de festa e volta à normalidade, com o que há de bom, ruim e incógnitas

O Brasil mudou. Fecha-se o capítulo da gestão indigna e criminosa na pandemia, ofensas estéreis entre os Poderes, confronto federativo sistemático, desastroso desmanche de políticas e órgãos públicos. Abre-se o capítulo da normalidade, com o que há de bom, ruim, incógnitas e a complexa busca de diálogo e consensos.

Ao sair do Alvorada pela porta dos fundos e abandonar o cargo, o País e seus próprios seguidores antes da posse do sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva, Jair Bolsonaro deixou no ar: valia a pena entrar com uma ação para impedir que você, leitor, leitora, pagasse avião, equipe e luxo na viagem pessoal de Bolsonaro a Orlando?

Melhor deixá-lo levar sua insignificância para bem longe, virar essa página e garantir uma festa alegre e colorida na posse. Passou, acabou, é recolher os escombros e reconstruir a administração pública, os princípios e relações republicanas. Com muita expectativa, mas condições adversas. Uma confluência perigosa.

O Lula de 2003, mais jovem, menos machucado, encontrou uma herança bendita, o País mais unido, um Executivo estruturado e ambiente econômico e internacional favorável. O Lula de 2023, calejado, tem faro para bombas e sabe como escapar delas para focar no bem-estar geral e nos milhões de brasileiros à margem da civilização.

Ele conhece essa realidade e espera-se que saiba que, além da diversidade, só consegue interferir nela sem preconceito contra o capital. Só com Estado saudável, empresa forte, investimentos e credibilidade internacional há desenvolvimento, emprego, inclusão.

Com seus erros e dores, Lula aprendeu também a sobreviver a guerras que não pode vencer. Não vai pegar em armas e, sim, desarmar os espíritos nas Forças Armadas. E não vai comprar nem bater de frente com o Centrão e, sim, manter canais com ele e reequilibrar a balança no Congresso junto com as forças políticas de centro.

Hoje é dia de festa, mas os desafios estão só começando e um deles é conhecer a cara, o tamanho e os métodos de uma oposição feroz, em torno de quartéis, gestando atentados terroristas. Quem dará voz de comando a ela? Em que rumo? Na fuga de Bolsonaro, a sensação de página virada não foi só de Lula, mas também do general Hamilton Mourão. Sem combinar, convocou rede nacional e deixou evidente que, no Senado, disputará o espólio do capitão.

O jogo está montado: com milhões de brasileiros na oposição, em busca de um líder, rumos e limites, Lula resgata as estruturas e políticas públicas, as relações institucionais e os valores fundamentais de Pátria, humanidade, inclusão e... democracia. Sim, o Brasil mudou, ou voltou.

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sábado, 31 de dezembro de 2022

MOURÃO TENTA LIMPAR A PENÚLTIMA SUJEIRA DEIXADA PELO FUJÃO BOLSONARO

Andrei Meireles, OS DIVERGENTES

Jair Bolsonaro só é corajoso para a tribo que ainda o idolatra e acreditou na lorota de que ele seria um mito capaz de eliminar os maus costumes políticos e a escandalosa corrupção brasileira. Nessa sexta-feira (30), enquanto seus adoradores perdiam de vez o prumo, ele aproveitou sua última mordomia presidencial para fugir de crimes e pesadelos para a Flórida, paraíso de déspotas e corruptos de variados matizes das republiquetas de banana da América Latina. Vergonha.

Com todos seus desmandos, ele cometeu a última covardia ao nem tentar justificar a seus mais fiéis seguidores, acampados na porta de quartéis, porque estava caindo fora. Essa galera, na maioria enganada, segue sendo iludida por uma trupe que alimenta seus delírios e até ganha grana com isso. Como em outras pregações dos mais variados naipes, crenças e ideologias, o nicho da extrema direita também é rentável. Que o diga a turma que segue faturando na esteira do finado guru Olavo de Carvalho.

Antes de cair fora, Bolsonaro falou em uma live de quase uma hora em que não falou da fuga para os Estados Unidos e nem da morte do Pelé. De maneira patética, com pose de vítima, tentou escapar de possíveis acusações criminais pelos estragos da turba que estimulou a fazer vandalismo contra as instituições da República.

O mais maluco nesse desfecho de história é que Bolsonaro pegou um voo para seu suposto exílio sem sequer combinar o vácuo de poder com o vice-presidente Hamilton Mourão. Começou por ter viajado uma dia antes do previsto no Diário Oficial. Talvez uma ilusória última cartada que seus adeptos nas redes sociais apregoam que será dada pelo general general Augusto Heleno, o derradeiro golpista que segue à frente do Gabinete de Segurança Institucional.

É mais um fracassado delírio. Assim que o voo presidencial em direção a Orlando, onde Bolsonaro pode frequentar parques temáticos da Disney, saiu do espaço aéreo brasileiro, o vice Mourão assumiu o leme. Convocou cadeia nacional de rádio e televisão para na noite desse sábado (31) fazer o pronunciamento institucional que todos os presidentes deveriam fazer antes de repassarem o bastão para seus sucessores.

Mourão tá limpando a penúltima sujeira da desastrada gestão de Bolsonaro. Mas até agora se nega a assumir o vexame final e passar a faixa presidencial a Lula. A interlocutores Mourão afirma que sequer irá à cerimônia de posse, para o qual foi convidado, e deve passar o domingo em casa.

— Se o presidente Bolsonaro tivesse renunciado, aí a responsabilidade seria minha. Ou se ele tivesse, na live hoje de manhã, dito: “determinei ao vice-presidente que ocupe o meu lugar e passe a faixa”. Mas ele não fez nada disso — justificou Mourão.

Até pagar mico tem limite.

O país espera que, afora responsabilidades criminais, essa triste página da nossa história seja virada.

A conferir.

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CONCRETIZAR DEMOCRATICAMENTE O NACIONAL-DESENVOLVIMENTISMO

Luiz Werneck Vianna*, INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS

Até aqui, tudo bem, teriam sido, no registro anedótico de Millor Fernandes, as palavras proferidas por um desastrado ao cair do 10º de um prédio ao passar pelo 9º, tal como podemos conjeturar a poucos dias da investidura presidencial de Lula e Alkmin, cerrando os olhos para não ver os amotinados que ainda sonham com uma intervenção militar acampados nas cercanias da Praça dos Três Poderes esperando a solução mágica de um golpe militar. Verdade que, furando a bolha dos conspiradores contra a ordem democrática, o que ainda nos resta entre seus defensores se apresta a tomar medidas que a defendam. Nessa mesma direção, conta-se com que a imensa participação popular que se espera para cerimônia da posse presidencial atue como força dissuasória dos tresloucados.

Fora o imprevisto, sempre uma possibilidade face a insânia que medrou livre nos últimos quatro anos, pode-se, ao fim e ao cabo, realizar uma celebração cívica para o recomeço da vigência dos rituais próprios à democracia. Mas que ninguém se engane, finda a festa, a inana dos conspiradores antidemocráticos seguirá seu curso, em certos setores ainda mais enraivecida pelo infortúnio dos seus propósitos, e que têm em mãos posições nos poderes legislativos e nas máquinas estaduais de várias cidades e estados, além do fato de terem expressão partidária.

A imposição do governo democrático não deverá ser obra fácil, vai demandar tempo e muito jogo de cintura por parte da coalizão que assume agora as rédeas do Estado, que, aliás, não lhe tem faltado desde o início da campanha eleitoral, a própria obra da composição dos ministérios do novo governo tão ampla quanto possível atesta que não se ignora os riscos da situação presente.

À frente do governo que começa tudo é novo, em particular no cenário internacional onde   se intensificam as disputas geopolíticas entre as grandes potências, assim como na nossa demografia política em que os estados do centro-sul, tradicionalmente hegemônicos, têm seu papel diminuído pela emergência dos nordestinos, evidente na composição ministerial. Experiências em administrações passadas, no caso consistem em apenas credenciais válidas para a seleção dos novos dirigentes dos aparelhos públicos, mas por si sós não afiançam aos seus dirigentes o êxito em suas intervenções.

Não se trata simplesmente de repor o que foi destruído pelo regime anterior, conquanto isso importe, mas de buscar a inovação num país que deprimiu a atividade científica e ignorou a indústria, convertendo-se anacronicamente à situação de exportador de commodities, trocando o eixo urbano-industrial, ponto de partida da sua bem-sucedida modernização, pelo agrário, incapaz, mesmo que se releve o papel destacado que vem cumprindo, de edificar as bases para a construção do futuro.

Fora da questão social, onde se fizeram boas opções, procura-se em vão, nos quadros ministeriais selecionados, os portadores de novas promessas para um país com mais de duzentos milhões de habitantes sedentos de novas oportunidades de vida. A timidez nessa busca parece decorrer do receio de se incorrer na fórmula do nacional-desenvolvimentismo, tornada pela pregação neoliberal estigma a ser evitado como o diabo foge da cruz.

Esse mesmo receio é alimentado pela conjura contrária às ações estatais no sentido de alavancar o desenvolvimento, outro estigma a interditar a busca de inovações criativas para a mudança social. A inércia que acometeu o país é fruto da ideologia neoliberal, reinante há décadas nas elites reinantes, cevada, em grande parte, pelo fato de que as orientações nacionais- desenvolvimentistas terem sido, entre nós, levadas a cabo por regimes autoritários.

A dissociação entre nacional-desenvolvimentismo e autoritarismo é, observando bem, mandamento constitucional ao afirmar que a sociedade se deve pautar pelos ideais de justiça e solidariedade, plantas que não nascem como mato no mercado e que demandam obras continuadas de jardinagem. Cabe ao governo democrático que acabamos de conquistar exercer esses cuidados, somente possíveis a ele se compreende que esta é uma missão a ser compartilhada com a sua sociedade cível,

Na indústria da saúde, por exemplo, para a qual estamos prontos para alçar voos ambiciosos, o agrupamento em redes dos equipamentos já constituídos, dos centros de pesquisas universitários ou não, contamos com uma base segura para sua alavancagem com recursos públicos e privados. De outra parte, a valorização do sindicalismo, tal como em países avançados, sobretudo na Alemanha, pode se converter em parceiro significativo nas atividades produtivas, desde que seus estatutos legais prevejam suas formas de participação. A engenharia institucional, sob o império de uma política democrática, com os recursos humanos de que já dispomos, pode ser o instrumento de concretização dos valores que consagramos em nossa Constituição em ruptura com nossas tradições de exclusão.

*Luiz Werneck Vianna. Sociólogo, PUC Rio

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A FUGA MELANCÓLICA DE BOLSONARO

Pablo Ortellado, O Globo

Durante quatro anos, ele repetiu que a “liberdade” deveria valer mais que a própria vida. Mas, agora, quando teria de colocar seus ideais à prova, preferiu fugir para os Estados Unidos

Depois de dois meses de silêncio, no último dia útil do seu governo, Bolsonaro falou. Foi elíptico e evasivo sobre os temas importantes e fugiu logo em seguida para os Estados Unidos. Foi um final melancólico para uma aventura perigosa. A democracia brasileira sobreviveu, mas saiu chamuscada. Ganhamos um respiro, mas o risco não foi de todo afastado.

A maior parte do pronunciamento de mais de 50 minutos foi dedicada a celebrar as realizações do governo. Mas, entre louvores ao preço baixo dos combustíveis e à criação do Auxílio Emergencial, surgiram alertas sobre a volta do PT e justificativas para ele não ter atendido aos radicais acampados nos quartéis. Tudo sob uma chuva de comentários de espectadores no YouTube pedindo intervenção militar.

Bolsonaro disse que, nestes dois meses de silêncio estratégico, não ficou parado: “Como foi difícil ficar dois meses calado trabalhando para buscar alternativas!”. As alternativas, sabemos pelas movimentações noticiadas pelos jornais, foram a busca do apoio das Forças Armadas e do Parlamento para uma ruptura autoritária.

Reunindo as menções elípticas, espalhadas pelos discurso, dá para ter uma ideia do que ele quis dizer: “Tem gente chateada comigo, [dizendo] que deveria ter feito alguma coisa, qualquer coisa. Mas, para você conseguir fazer alguma coisa, mesmo nas quatro linhas, você tem que ter apoio”. E se defendeu: “Entendo que fiz a minha parte, estou fazendo a minha parte. Agora, certas medidas têm que ter apoio do Parlamento, de alguns do Supremo, de outros órgãos e instituições”.

Bolsonaro quis atender aos golpistas acampados nos quartéis, mas simplesmente não conseguiu apoio. “Não posso fazer algo que não seja bem feito e que, assim, os efeitos colaterais sejam danosos demais”, concluiu. Bolsonaro não teve ou não conseguiu criar as condições para cumprir seus propósitos autoritários. Mas tentou. Enfrentou, porém, a resistência firme da sociedade civil e da imprensa séria.

Enfrentou também a resistência do Parlamento, principalmente quando esteve sob a liderança política de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre. Em nenhum momento o Parlamento sinalizou que daria apoio a um movimento de ruptura, por meio da decretação de Estado de Sítio. O Congresso conteve a ofensiva legislativa na arena dos costumes e moderou os ataques de Paulo Guedes contra os direitos dos trabalhadores. Foi o Parlamento, também, que elevou os programas de transferência de renda a um patamar mais digno, aumentando o valor e ampliando a cobertura. O Parlamento, por meio da CPI da Covid, também desvelou a irresponsabilidade criminosa de Bolsonaro com relação à compra das vacinas.

Bolsonaro enfrentou também a resistência da Justiça. O Supremo Tribunal Federal (STF) anulou alguns dos ataques mais danosos ao sistema de proteção ambiental e deu autonomia aos governadores para que pudessem proteger a população no momento mais crítico da pandemia. Quando as mobilizações golpistas se disseminaram, foi a ação firme do ministro Alexandre de Moraes que as conteve. Sem a mão dura dele, é bem possível que não tivéssemos chegado até aqui.

Servidores públicos no ICMBio, na Polícia Federal e no Ministério Público também desafiaram as orientações políticas dos chefes e batalharam para fazer as instituições cumprir suas funções legais.

Sem os limites impostos pela sociedade civil, pela imprensa, pelo Parlamento, pela Justiça e por corajosos servidores públicos, não teríamos atravessado o deserto. Devemos a cada um desses atores um caloroso “obrigado”.

Durante quatro anos, Bolsonaro repetiu que a “liberdade” deveria valer mais que a própria vida. Mas, agora, quando teria de colocar seus ideais à prova, preferiu fugir para os Estados Unidos, temeroso de que, com a volta do domínio da lei, seus crimes sejam investigados e ele termine devidamente preso. É inevitável comparar a ignomínia de Bolsonaro com a altivez de Lula, que, podendo fugir, se submeteu com dignidade a mais de dois anos de prisão. Bolsonaro não é pequeno, é minúsculo.

A fuga no avião presidencial, deixando seus apoiadores tomando chuva e passando vergonha na porta dos quartéis, é o desfecho patético de um governo medíocre, covarde e autoritário.

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ADEUS, JAIR

Eduardo Affonso, O Globo

Seu maior legado é o que toma posse neste domingo. Um retrocesso de seis anos para retomada do que já não deu certo, nem nunca dará

Duas cartas lhe foram endereçadas, aqui nesta coluna. A primeira, pouco antes da eleição de 2018, contém mais pensamento mágico que qualquer outra coisa. Dizia: “Você é depositário das esperanças de milhões e milhões de brasileiros. São pessoas que o admiram ou apostam em você para nos livrar de um mal maior. Tomara que não estejam cometendo um equívoco”.

Estavam.

Prosseguia, num misto de sugestão e súplica: “Não entre no toma lá dá cá. Não faça conchavo”. Você entrou. Fez. “Descupinize o Estado. Deixe-o mais leve, mais ágil, mais saudável. Dê um basta nos privilégios; acabe com os feudos, as tetas, as tretas. Desestatize, desburocratize, reforme. Melhore a vida do cidadão. Devolva com saúde, educação, saneamento, infraestrutura e segurança o imposto que ele paga.” Parece psicologia reversa: foi feito exatamente o contrário.

Mais adiante: “Conservadorismo não significa atraso, intolerância. Não, não precisa ser politicamente correto: polidez e bom senso resolvem”. Você apostou no linguajar tosco, na discriminação, na insensatez e amarrou os conceitos de conservador e reacionário num nó que será duro desatar.

Uma segunda carta, bem mais pé no chão, veio menos de um ano depois, em 2 de agosto de 2019. O estrago já estava feito: “Em vez de cauterizar a ferida aberta pela polarização ideológica, o senhor se empenha em infectá-la”. Nem precisava ser Mãe Dinah para prever o que aconteceria: “O sentimento anti-PT ajudou a elegê-lo. A repulsa ao seu comportamento pode trazer o passado de volta. O senhor tem até outubro de 2022 para começar a se portar como um presidente. Não espere chegar lá para refrear esse falastrão descontrolado. Pode ser tarde demais”. O falastrão só se calou depois da inevitável, inadiável e merecida derrota.

Um governante cujo mandato termina há de se perguntar qual terá sido o espólio da sua gestão. Se isso lhe ocorrer, durante a deserção para a Flórida, aqui vão algumas pistas: desprezo pela cultura e pelo meio ambiente; metamorfose de cidadãos patriotas em fanáticos conspiracionistas; descrédito na ciência, na imprensa, nas instituições democráticas. O insulamento no cenário internacional, ânimo novo à velha política no plano interno. A bomba-relógio do culto às armas de fogo. O abandono dos valores cristãos do respeito, do amor ao próximo e da compaixão no momento em que eram mais necessários — milhares de brasileiros morreram de Covid-19 não por fatalidade, como em qualquer pandemia, mas por insensibilidade, ignorância e incompetência suas. Ficou pelo caminho o combate à corrupção e ao fisiologismo —se é que um dia se deu algum passo nessa direção.

Seu maior legado, entretanto, é o que toma posse neste domingo, 1º de janeiro. Um retrocesso de seis anos para retomada do que já não deu certo, nem nunca dará. Que talvez não revogue seus sigilos nem vá fundo na investigação de seus crimes — mas fará o possível para desmantelar o pouco que se modernizou neste país desde 2016: o marco do saneamento, a reforma trabalhista, as tímidas privatizações. Os parcos avanços liberais serão perdidos, e a expressão “liberal” continuará a ser demonizada.

Que o retorno à irrelevância lhe seja leve.

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PELÉ, RESPEITO À HIERARQUIA

Ascânio Seleme, O Globo

Jornalismo é também hierarquia. Não fosse ela, não haveria manchete nos jornais, e as notícias seriam amontoadas pela ordem de chegada. Nos primórdios da internet, era assim nos sites noticiosos. Mas, mesmo o ambiente digital rendeu-se à autoridade da relevância. O mais importante vem antes, tem mais destaque, ganha caixas altas e, se possível, brilha e pisca. É o caso de Pelé. Sua morte atraiu todas as atenções do dia 29 de dezembro. O anúncio dos derradeiros ministros de Lula, os preparativos para a sua posse e a prisão de bolsonaristas radicais foram praticamente ignorados nas TVs e nos jornais digitais durante toda a tarde. A morte de um rei é muito mais notícia do que a assunção de um presidente.

E não estamos falando de um rei qualquer, de um filho nobre que herdou a coroa que pertencia ao seu pai ou a sua mãe. Não. Pelé foi um self-made-king, um rei que se construiu, que desenhou a coroa que mereceu usar em cada um de seus 65 anos de reinado. Pelo seu gigantismo e pioneirismo, Pelé foi o principal assunto dos noticiários de TV e destaque em todas as primeiras páginas dos jornais brasileiros e mundo afora. O GLOBO deu quatro primeiras páginas ao rei. Lindas, mais do que primeiras, são capas que ilustram a estatura do atleta. O jornal foi superlativo com Pelé, ele próprio sinônimo de superlativo.

Lula não mereceu sequer uma linha nas quatro capas do GLOBO a dois dias da sua posse. O Estadão também dedicou inteiramente a sua primeira ao rei, com um título brilhante: “Pelé morreu, se é que Pelé morre”. A Folha ainda deu no pé da página pequenas chamadas para os novos ministros, a volta de Marina ao Meio Ambiente e a ação policial contra os radicais. Os principais jornais, telejornais, blogs e sites de notícias de todo o mundo também deram a ele espaços abundantes.

Mesmo os grandes jornais especializados em economia, como o Valor Econômico, no Brasil, o Wall Street Journal, dos Estados Unidos, e o britânico Financial Times deram chamadas importantes e rasgaram fotos de Pelé em suas capas. Não havia como esconder o falecimento do maior atleta do Século XX. Todos os grandes líderes globais lamentaram a sua morte. Todos os grandes atletas e artistas, os mais importantes e laureados cientistas, pesquisadores, escritores e professores renderam homenagem ao maior brasileiro de todos os tempos.

Em vida, Pelé foi procurado e tietado por presidentes, primeiros-ministros, reis e rainhas. Numa entrevista à GloboNews, o jornalista Juca Kfouri contou um episódio que testemunhou quando conversava com Pelé em seu escritório. A secretária do rei entrou na sala e disse que o então presidente dos EUA, Bill Clinton, estava ao telefone. Pelé atendeu, conversou uns três minutos e agradeceu, mas não podia atender ao convite para uma visita ao presidente na Casa Branca. Abismado, Kfouri indagou: “Você recusou convite do Clinton?”. Pelé respondeu: “Já conheci muitos presidentes americanos. O convite é para a mesma data das minhas férias. Prefiro ir para a praia”.

Parece arrogante? Pode parecer, mas não foi arrogância. Pelé era assim mesmo. Ele sabia muito bem o tamanho que tinha. Mas nem por isso se negava a dar um autógrafo, a conversar com um fã, a se deixar fotografar. Pelé pediu amor, pediu pelas crianças, invocou justiça social. Errou ao dizer em plena ditadura que o brasileiro não estava preparado para votar, “por falta de educação e porque se vota mais por amizade nos candidatos”. Mas mesmo os reis erram.

É tão grande e relevante a perda de Pelé, que a sua generosa família resolveu fazer seu funeral e sepultamento depois da posse de Lula, para não ofuscar a festa de inauguração do terceiro mandato do presidente eleito. Claro que para o destino do Brasil e dos brasileiros o novo governo importa muito mais do que a morte do rei. A atenção de jornais e jornalistas terá de ser amplamente dedicada aos primeiros movimentos do novo comando do país que assume amanhã. Mesmo assim, as exéquias de Pelé competirão pela atenção da mídia com as primeiras medidas do governo.

Por isso tudo, pela enormidade de Pelé, esta coluna de política não podia mesmo tratar de outro assunto.

República conciliatória

Começa amanhã uma nova era na nossa história. Com pouco mais de cinco séculos desde o seu descobrimento, o Brasil teve sete etapas na sua vida política reconhecidas por historiadores: Colônia, Império, Primeira República, Estado Novo, Quarta República, Ditadura Militar e Nova República. Depois do breve Jair Bolsonaro, que tentou matar e enterrar todas as premissas da Nova República, o país retoma a trajetória democrática em busca do bem-estar coletivo, da prosperidade e da felicidade. Não cabe a jornalistas nomear eras, mas se fosse me dada esta prerrogativa, batizaria esta nova etapa de República da Conciliação ou República Conciliatória. É gigantesco o esforço que o presidente Lula está fazendo para conciliar o país. Politicamente, o salto dado com a nomeação dos 37 ministros é digno do nosso recordista João do Pulo. Todos os setores estão ali contemplados. Mesmo alguns dos mais próximos do bolsonarismo raiz, aparentemente autoritário e intransigente, foram acomodados no novo governo. Um pessimista olharia a lista de nomeados e diria “não vai dar certo”. O otimista observaria que por trás das indicações há uma boa intenção.

Engolindo sapos

Obviamente Lula quer acertar, quer cumprir sua promessa de garantir três refeições diárias a todos os brasileiros. Quer terminar o seu terceiro mandato em condições de se reeleger ou de apoiar um candidato vencedor. E ninguém atende estas promessas e percorre esse longo caminho sem engolir sapos. Os primeiros já têm nome. São os anuros Juscelino Filho e André de Paula, indicados para os ministérios das Comunicações e da Pesca. Ambos votaram pelo impeachment de Dilma Rousseff, e Juscelino festejou publicamente a prisão de Lula. Duro? Chato? Claro que sim. Mas não há como governar um país tão dividido sem que haja pelo menos um pouco de jogo de cintura.

Filhos, netos, companheiros

Escrevi aqui em novembro de 2020 que a história eleitoral brasileira é repleta de casos de filhos e netos que se apropriam do nome e do capital político do patriarca da família para pedir votos e quem sabe passar o resto da vida pagando suas contas com dinheiro público. No Ministério de Lula, há dois casos clássicos, Renan Filho e Jader Filho. Renan tem mais tempo de estrada, já se construiu politicamente à sombra do pai, chegando a governador de Alagoas. Jader Filho é novato. O primeiro herdeiro da família Barbalho é seu irmão Hélder, governador do Pará. O filho de Jader Barbalho que leva o seu nome só agora começa a fazer “política”. Quem sabe em quatro anos ocupe a cadeira do pai no Senado. Lula o anunciou assim: “O Ministério das Cidades vai ser ocupado por um companheiro, filho de um companheiro, irmão de um companheiro, o companheiro Jader Filho”.

Brimos

Simone Tebet, que no segundo turno da campanha presidencial pediu que as pessoas usassem branco nas manifestações pró-Lula de que participava, usou blusa vermelha no dia em que foi nomeada para o Ministério do Planejamento. Vestiu vermelho e sua sorte então mudou? Bobagem, Simone não é supersticiosa, mas acredita que origem comum ajuda. “Somos de origem libanesa, não tem como dar errado”, disse a nova ministra sobre seu entendimento com o “brimo” Haddad.

Mec

O Ministério da Educação perdeu há mais de trinta anos a Cultura, que passou a ter pasta própria, mas ainda assim manteve o C da sua sigla antiga de Ministério da Educação e da Cultura. Agora, que ele foi entregue ao grupo do ex-governador Camilo Santana, a sigla volta a fazer sentido. Como Camilo nomeou para a Secretaria Geral a sua sucessora, Izolda Cela, e para o FNDE, Fernanda Pacobahyba, ex-secretária da Fazendo do seu estado, o MEC passa a ser conhecido como Ministério da Educação do Ceará.

Do lado de dentro

No documentário “Visita, presidente”, de Julia Duailibi, aprende-se que a Polícia Federal estava infiltrada no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde Lula se encontrava com militantes, assessores, parlamentares e companheiros petistas no dia da sua prisão. Agora, com a primeira ação policial contra os bolsonaristas radicais que atacaram Brasília nos últimos dias, sabe-se que a PF não tinha ninguém no acampamento em frente ao QG do Exército, que o novo ministro da Justiça, Flávio Dino, chamou de “incubadora de terroristas”.

As mentiras finais

Ontem, no seu penúltimo dia no poder, Jair Bolsonaro quebrou o silêncio e pregou suas últimas mentiras. Uma delas foi quase ofensiva. Ele disse que os manifestantes das portas de quartéis defendem a democracia e, pasmem, a imprensa. Sim, a imprensa, que estes mesmos manifestantes enxotaram sempre que puderam, mesmo a imprensa amiga. Depois, afirmou que nos seus quatro anos trabalhou “de domingo a domingo”, com poucas folgas para os passeios de jet-ski e para as motociatas. Francamente, todo mundo conhece o pavor que este homem tem do trabalho. Bolsonaro foi o mesmo, embora a iniciativa tenha um sentido diferente. Sua live teve o objetivo de blindá-lo juridicamente. Por isso, desautorizou os terroristas de Brasília. Tarde, mas antes tarde do que nunca.

Assessoria baixo clero

Bolsonaro já escolheu os assessores que tem direito de manter com recursos públicos na condição de ex-presidente da República. São oito. Um civil (um advogado) e sete militares, quase todos de baixo coturno: um coronel, um capitão, dois tenentes, um suboficial e dois sargentos. Com todo respeito aos praças e jovens oficiais, mas as escolhas mostram bem do que nos livramos.

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EU VI O REI

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Os que jogavam a seu lado ou contra ele também sabiam que ali estava o melhor de todos, capaz de jogadas impossíveis para os mortais

Vi Pelé jogar. E concordo com Nélson Rodrigues. Pelé sabia que era o Rei. Mais: os que jogavam a seu lado ou contra ele também sabiam que ali estava o melhor de todos, capaz de jogadas impossíveis para os mortais. Mais ainda: a torcida sabia. Todas as torcidas. No estádio, era um espetáculo. Quando Pelé dominava a bola no meio-campo e virava o corpo na direção do gol adversário, as pessoas se levantavam na expectativa.

Reparem: Pelé estava a meio campo do gol, vários adversários à frente, e a torcida já de pé. Quando ele partia em velocidade, as pessoas já estavam comemorando. Mesmo que não saísse o gol, a gente podia dizer: eu vi.

Meu gol preferido é da Copa de 1958, contra o País de Gales. Pelas circunstâncias. Zero a zero, jogo eliminatório, segundo tempo. Pelé está dentro da área, de costas para o gol. Pede a bola. Recebe no peito, deixa cair, um toquezinho sobre as pernas do marcador e coloca no canto.

Ele faria outros gols espetaculares e decisivos. Mas a gente já sabia que era o Pelé. Em 1958, era um rapaz de 17 anos que se apresentava ao mundo. E todos entenderam, era muito mais que um gol de Copa. Ou se poderia dizer: vocês ainda não viram nada.

Governo Lula

Voltando à nossa seara, vamos dar por entendido que o governo Lula terá dificuldades com:

1. cenário externo desfavorável, num mundo com inflação elevada, juros altos e desaceleração da atividade econômica;

2. cenário interno complicado nos mesmos itens, inflação, juros, desaceleração;

3. formação de maiorias na Câmara e no Senado.

Não é pouca coisa, mas cabe acrescentar uma dificuldade menos comentada: a administração interna do governo. Burocracia, gestão — não é assunto tão interessante, mas crucial.

Um ministério tem secretarias, coordenadorias e departamentos. Como acomodá-las nos 37 ministérios, sobretudo depois do vendaval de incompetência e má-fé do governo Bolsonaro?

Fernando Haddad e Simone Tebet têm óbvias diferenças no pensamento econômico. Daí deriva uma questão prática: como se entenderão na gestão do Orçamento?

Com base em formatos já aplicados em diversos governos, o Ministério do Planejamento tem a Secretaria de Orçamento, que prepara o projeto de Orçamento enviado ao Congresso e, depois de aprovado, acompanha sua realização. A Fazenda tem a Secretaria do Tesouro, o caixa do governo, que faz os pagamentos aos ministérios, que gastam nos programas e obras. Se um ministro quer liberar uma verba, passa primeiro no balcão do Planejamento, onde apanha a autorização, depois na Fazenda, para receber o dinheiro.

Por trás do roteiro burocrático, está a escolha de prioridades: gastar mais em pessoal ou em obras? O que vem na frente, os recursos da Funai ou da Sudam? Isso é economia e política — ministros fortes politicamente sempre arranjam mais dinheiro. Se foi difícil para Lula dividir o ministério, como ele disse, será ainda mais complicado arbitrar as demandas dos ministros e da ampla coalizão.

Sim, Lula já fez isso, mas as circunstâncias mudaram. A questão principal neste início de governo será arranjar a burocracia: onde fica esta ou aquela secretaria? Em qual prédio? Com que recursos (assessores ou cargos comissionados)? Pode parecer coisa pequena, mas sem essa organização o governo simplesmente não anda. Além dos grandes arranjos, a nova administração pode encalhar em disputas burocráticas.

Para continuar no tema da política econômica: sempre que houve a divisão entre Fazenda e Planejamento, a primeira foi dominante. Não se gasta um centavo sem passar pela poderosa Secretaria do Tesouro. Isso significa que Simone Tebet terá de arranjar funções e poderes em áreas não relativas à política econômica. Gestão das estatais costumava ser uma função do Planejamento. Mas a ministra terá autoridade sobre uma Petrobras, gigante dirigida por um petista?

Lula foi praticamente obrigado a montar um governo amplo e diverso. Conseguiu. Agora começa a parte mais trabalhosa: colocar a geringonça para funcionar.

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O FUTURO DA CONSTITUIÇÃO

Oscar Vilhena Vieira*, Folha de S. Paulo

O sucesso depende de sua capacidade de articular estabilidade e mudança

Muito antes de Darwin, Maquiavel já preconizava —em seus "Discursos"— ser a capacidade de adaptação a principal responsável pela sobrevivência da República. Associada à diversidade e à liberdade dos cidadãos, a disposição para mudar permitiria à República se adaptar às novas circunstâncias, preservando o cerne de sua Constituição.

As constituições modernas são dispositivos institucionais que buscam contribuir para que as Repúblicas sejam capazes de se adaptar, ao estabelecer a liberdade, o pluralismo e a alternância no poder como suas regras essenciais; criando obstáculos, no entanto, para que os que venham a exercer o poder não possam colocar em risco as premissas fundamentais para a sobrevivência da própria República.

O sucesso de uma Constituição depende, nesse sentido, de sua capacidade de articular estabilidade e mudança. Estabilidade do jogo democrático e dos direitos que lhe são constitutivos, com a flexibilidade necessária para as constantes correções de rumo. Correções de rumo voltadas a atender as próprias promessas de dignidade, justiça ou bem-estar, que levam os diversos setores da sociedade a aderir ao pacto constitucional.

Em um período de frenética transformação, como o que vivemos, manter os canais democráticos desobstruídos é fundamental para que as transformações sociais, tecnológicas ou econômicas possam ser processadas, sem violência e ruptura do sistema político.

A ideia romântica de Thomas Jefferson de que cada geração deveria se dar uma nova Constituição, para não ficar submetida ao "governo dos mortos", tem se demonstrado cada vez mais custosa. As dificuldades de coordenar um novo pacto político em sociedades contemporâneas, altamente complexas, são enormes.

Nesse sentido, temos que zelar pelos pilares de nosso patrimônio constitucional, pois eles é que assegurarão as condições políticas para que as mudanças institucionais necessárias possam ser feitas, com o objetivo de que as promessas de uma vida melhor feitas pela Constituição possam ser cumpridas. Quando essas promessas não são cumpridas, as Constituições ficam vulneráveis a ataques de populistas e oportunistas autoritários, como os que sofremos nos últimos quatro anos.

Torço para que o governo que agora se instala tenha a ousadia de promover as reformas necessárias para que as promessas constitucionais possam ser cumpridas. Como é final de ano —e retomada do processo democrático—, tomo a liberdade de apresentar minha lista de desejos constitucionais para o próximo quadriênio. O primeiro desejo é que sejam eliminados privilégios indefensáveis entrincheirados na Constituição, assim como uma reforma tributária voltada a fomentar mais prosperidade e reduzir a obscena desigualdade que estrutura a sociedade brasileira.

Em segundo lugar, desejo que as políticas públicas, especialmente nas áreas de educação, saúde, moradia e meio ambiente, devastadas pelo desgoverno que foge, sejam reformuladas, para que os setores mais vulneráveis tenham as condições e capacidades necessárias para viver, com autonomia, num mundo cada vez mais competitivo e desafiador.

Meu terceiro desejo é a modernização de nosso sistema de aplicação da lei, com o objetivo de reduzir a desigualdade e o arbítrio a que muitos cidadãos são submetidos diariamente, em função de sua raça ou condição social. De quebra, as reformas poderiam contribuir para aumentar a segurança jurídica, a transparência e reduzir a impunidade.

O fato de a Constituição ter sobrevivido ao bolsonarismo não significa que o seu futuro esteja assegurado. Para sobreviver, precisará se transformar.

*Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP.

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BOLSONARO SAI PELA PORTA DOS FUNDOS E ARRISCA VÁCUO POLÍTICO

Igor Gielow, Folha de S. Paulo

Em live lacrimosa, ex-presidente em atividade tenta se desvincular de extremistas que insuflou

Para quem esperava um Götterdämmerung, um crepúsculo dos deuses wagneriano, o ocaso da Presidência de Jair Bolsonaro (PL) chegou ao fim formal nesta sexta (30) com um sussurro algo vazio antes de embarcar rumo ao reino de Donald Trump.

Na forma de uma lacrimosa live, Bolsonaro encerrou dois meses de mutismo para entregar um pacote de platitudes e lamentos. Não chegou a questionar as urnas como de costume, moderando sua agressividade talvez em vista dos dois dias de foro privilegiado que tem pela frente.

Nem tampouco admitiu a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), embora o tenha feito de forma tácita ao admitir que o sol nascerá no dia 1º como sempre. Titubeante, não apagou o efeito que sua reclusão final no Palácio da Alvorada potencialmente causou no movimento que o levou ao poder no pleito de 2018.

Segundo um político que o visitou na clausura na semana retrasada, Bolsonaro parecia um personagem de tragédia farsesca: na penumbra, quase catatônico, murmurando sem parar que "vamos vencer".

Emulava, diz esse interlocutor, as ideias que os generais palacianos remanescentes lhe sopravam desde que perdeu a eleição. Sim, continua o relato, a ilusão de que as Forças Armadas iriam aderir a um levante popular bolsonarista foi mantida como hipótese de trabalho desse grupo.

Daí o silêncio cúmplice da escalada terrorista dos antes folclóricos personagens acampados em frente a quartéis pelo Brasil. Novamente, talvez de olho nos riscos judiciais, decidiu condenar na live a tentativa de atentado em Brasília quase duas semanas após o ocorrido.

De forma inédita na República, Bolsonaro optou por ser um ex-presidente em atividade nos dois meses remanescentes de seu mandato. Com efeito, a transição lulista tratou de negociar limites orçamentários com o Congresso e Flávio Dino age como ministro da Justiça que de fato só será a partir da semana que vem.

Desde que o capitão italiano Francesco Schettino abandonou o navio Costa Concordia em 2012 não se via algo parecido, com a diferença de que não houve quem gritasse "Vada a bordo, cazzo!". Na live, tentou jogar a culpa na imprensa: teria ficado quieto porque se falasse algo, "seria um escândalo". E, diz, "trabalhei".

Deu as caras publicamente em palanques militares e junto a seguidores no Alvorada. Ensaiou alguma articulação, participando de um jantar do PL, mas só. Nem sequer comunicou ao vice, o senador eleito Hamilton Mourão (Republicanos-RS), que quer deixar a faixa presidencial em alguma gaveta para Lula achar.

A opção pelo mutismo, uma forma de se desvincular da violência eventual que irromper em seu nome reforçada pela live final, e a fuga para o refúgio do ídolo Trump na Flórida, contudo deverá apresentar sua conta.

Em frente do Comando Militar do Sudeste, na nobre região do Ibirapuera em São Paulo, manifestantes há mais de 50 dias frequentando a "alameda do golpe", como um feliz vendedor de churrasquinho instalado nas proximidades apelidou, dão a chave da questão.

Um deles, um senhor de cerca de 70 anos que mora na vizinhança e se identifica como Pedro, diz que passa lá todos os dias "porque as Forças Armadas irão salvar o Brasil de Lula". Como? "Impedindo a posse, claro". E qual a indicação disso? "Eu sei."

A origem de sua crença é um dos grupos de WhatsApp em que recebe notícias, por assim dizer, do desenvolvimento da situação política. Mas Pedro está irritado. "Aqui [aponta para o celular] diz que o Bolsonaro vai comandar a resistência dos Estados Unidos, mas acho que ele tinha de ter feito algo aqui. Longe, vai perder", afirma.

Pedro não está sozinho como apoiador. Segundo o Datafolha, nada menos que 25% dos eleitores brasileiros se definem hoje como bolsonaristas. E há o contingente adicional que leva aos 49,1% de eleitores de Bolsonaro em 30 de outubro, muitos por simples ojeriza a Lula.

Mesmo depurando esse grupo amplo, é muita gente. Somando aos 25% aqueles que disseram ao Datafolha estarem mais próximos do bolsonarismo do que do centro ou do petismo, 7% dos ouvidos, chega-se a um respeitável terço do eleitorado que parece disposto a seguir nessa faixa de frequência.

Sem governar, manteve a aprovação no nível que havia chegado, recorde para seu mandato, na campanha. O Datafolha a aferiu em 39%, enquanto 37% o reprovam. É o pior índice para um presidente de primeira viagem, mas melhor do que qualquer outro número que obteve em seus quatro anos.

É uma aposta na nostalgia sebastianista, mas o espaço que deixa abre caminho para a ascensão de novas lideranças que capturem não só suas viúvas, mas também aquela fatia de descontentes com a chegada de Lula ao poder que não se veem como radicais de extrema direita.

Os nomes estão decantados, o novo governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) à frente. Pela gravidade do cargo, ele estreia na grande política já presidenciável, com um articulador político de peso por trás, Gilberto Kassab (PSD).

Não é por acaso que ele já se diz alguém próximo do presidente, mas não bolsonarista. Resta, por óbvio, saber se dará conta do recado, mas a casa arrumada nas contas deixadas pelos tucanos e a carteira de obras para inaugurar nos próximos dois anos facilitarão sua vida. Se isso será suficiente para abocanhar o eleitorado do ex-chefe, é uma questão em aberto.

Assim, salvo a materialização do golpe militar esperado pelo senhor Pedro sob a garoa no Ibirapuera, Bolsonaro fez questão de usar a porta dos fundos em sua despedida.

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IMAGINANDO O ANO NOVO

Demétrio Magnoli, Folha de S. Paulo

Um roteiro para um 2023 genuinamente feliz

O mercado profetiza um início de governo assaltado por repiques de juros que anunciam um horizonte sombrio. A extrema direita sonha com um desastre iminente, acompanhado por atos golpistas multitudinários. Mas, e se 2023 surpreender? Como seria um ano novo genuinamente feliz? Eis um roteiro imaginário.

1. Haddad adota um plano formulado por Persio e Armínio

Março. O ministro da Fazenda levou ao Congresso sua proposta de nova ancoragem fiscal anticíclica. Nas fases de crescimento, faremos elevados superávits primários; nas de recessão, produziremos déficits, irrigando a economia. Como resultado, a dívida pública decrescerá paulatinamente como proporção do PIB. De passagem, Haddad anunciou que o governo gastará de fato, em 2023, apenas cerca de dois terços do espaço fiscal aberto pela PEC da Transição.

O mercado reagiu derrubando os juros futuros. O BC cortou a Selic em um ponto e anunciou viés de baixa. A Bolsa subiu, o dólar desceu, os empresários anunciaram vultosos investimentos. Haddad prometeu finalizar, até junho, o projeto de reforma tributária desenhado por Appy –e antecipou que a carga total de impostos não crescerá. Em maio, o boletim Focus previu alta do PIB de 3% e inflação no centro da meta.

2. Flávio Dino e José Múcio desmantelam as articulações golpistas

No início de janeiro, por ordem de Dino, forças policiais dissolveram os acampamentos bolsonaristas instalados à frente dos quartéis. Inquéritos provocaram dezenas de prisões de financiadores e articuladores do golpismo. Fevereiro: Múcio exigiu dos comandantes militares a plena obediência à autoridade presidencial –e trocou um comandante refratário, transferindo-o para a reserva. Os militares da ativa receberam ordem para fechar suas contas em redes sociais.

Em agosto, o Congresso aprovou a lei que proíbe manifestações políticas de militares da reserva remunerada. No mesmo mês, um juiz de Brasília declarou Bolsonaro réu por crimes contra a saúde pública. Simultaneamente, o Ministério da Cultura expôs o projeto de criação de um Museu sobre a Ditadura Militar, inspirado no Museu do Aljube, de Lisboa, e financiado em parceria público-privada.

3. Turnê internacional do presidente sinaliza os eixos de política externa

Nas visitas sucessivas a Washington e Pequim, em fevereiro, Lula reafirmou as parcerias paralelas com EUA e China, rejeitando alinhamentos geopolíticos. Na Europa, em abril, desatou os nós que emperravam o acordo Mercosul/União Europeia. A viagem concluiu-se com uma visita surpresa a Kiev. No gabinete de Zelenski, Lula condenou a agressão russa, defendendo a integridade territorial ucraniana.

Marina Silva acompanhou o presidente nas visitas, expondo o cronograma do governo rumo à meta de desmatamento zero e firmando acordos de transferência de tecnologias de energia solar com a China e eólica, com a Alemanha. Na França, Alexandre Silveira, das Minas e Energia, anunciou parceria para a retomada do programa nuclear brasileiro.

Durante a turnê europeia de Lula, Mauro Vieira visitou Caracas, reunindo-se com Maduro e com líderes da oposição. O Itamaraty afirmou que o Brasil quer operar como mediador para a realização de eleições livres e justas na Venezuela. À imprensa internacional, Lula declarou que "não existem ditaduras virtuosas, de direita ou esquerda".

4. Lula repete que a crítica faz bem

"Não deixem de cobrar. Não precisamos de puxa-sacos. Governo precisa ser cobrado." No discurso de posse, Lula repetiu sua pouco divulgada afirmação de campanha. Depois, em várias entrevistas, esclareceu que não falava apenas para sua base política, mas para todos. Antes de partir para Washington, discordou de um manifesto petista que volta a reivindicar o "controle social da mídia". Segundo o presidente, "qualquer governo erra" e, por isso, "precisa ouvir os que divergem".

Viajei?

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