quarta-feira, 1 de novembro de 2023

NADA DE NOVO, MAS NÃO CONVÉM ABUSAR

Zeina Latif, O Globo

O descompasso entre a promessa da Fazenda e as expectativas dos analistas não significa que o governo tenha grande liberdade para alterar metas

Temos mais um capítulo da novela do arcabouço fiscal.

Vale uma breve retrospectiva. Lula e seu time político negociaram no Congresso a PEC da Transição, que expandiu bastante os gastos em 2023, contrariando o padrão usual de se começar o mandato com maior disciplina fiscal, para afrouxar depois. Tudo isso antes mesmo de anunciar Fernando Haddad como ministro da Fazenda.

É possível que essa tenha sido uma tentativa de preservar o futuro ministro do desgaste por defender mais gastos. Haddad, por sua vez, em sua posse, afirmou que não aceitaria “um resultado primário que não seja melhor do que os absurdos R$220 bilhões de déficit previstos no Orçamento para 2023”. Jogo combinado?

A recente afirmação de Lula sobre dificilmente ser cumprida a meta de zerar o déficit primário (exclui pagamento de juros) em 2024 pode até não seguir o mesmo enredo, até porque desgastou o ministro. Mas acabou transferindo para o presidente a responsabilidade da mudança das metas fiscais, consideradas, de largada, ambiciosas pelos analistas de mercado, dada a escolha do governo por mais gastos.

Vale lembrar que a PEC da Transição foi o gatilho para a piora das projeções de indicadores fiscais. Já o anúncio do arcabouço fiscal não mudou o quadro. As projeções atuais são até ligeiramente piores em relação àquelas observadas pouco antes do anúncio das metas, no final de março; isso apesar da elevação das projeções de crescimento do PIB, que impactam favoravelmente os indicadores fiscais.

Projeta-se um déficit primário de 0,8% em 2024; equilíbrio orçamentário e superávit fiscal ficariam para um próximo governo. Os números destoam da promessa de Haddad de ajuste fiscal até entregar um superávit de 1% do PIB ao final do governo — insuficiente, porém, para estancar o crescimento da dívida pública como proporção do PIB.

As iniciativas da Fazenda, portanto, não mudaram essencialmente a avaliação do risco fiscal, em que pese a boa reação dos mercados ao anúncio do arcabouço, por afastar o risco de cenários extremos de descontrole fiscal.

Não há muita novidade aqui. Era sabido que o grande teste de Haddad seria colocar o arcabouço fiscal de pé. Como discuti neste espaço, a novela seria longa, e a mudança de metas ocorreria, cedo ou tarde, de modo a evitar o acionamento de freios nos gastos.

Trata-se de um governo que busca esticar a corda dos gastos o quanto puder. Não há convicção suficiente sobre a importância da disciplina fiscal e há pressões de todos os lados. A cada dia vem uma nova medida do Congresso. O país insiste no mau hábito de reduzir o zelo na gestão fiscal nos períodos de “calmaria”.

O fato de não haver novidade não significa que o risco fiscal não pode piorar ainda mais. O descompasso entre a promessa da Fazenda e as expectativas dos analistas não significa que o governo tenha grande liberdade para alterar as metas. Afinal, significaria jogar a toalha precocemente, o que não é neutro na formação de expectativas do mercado, que poderão se deteriorar adicionalmente nesse caso.

As experiências de isolamento de Joaquim Levy e Paulo Guedes na Fazenda merecem reflexão. Guedes ficou, mas desgastado. Com os vários furos no teto, o quadro só não azedou de vez por causa das surpresas positivas com a arrecadação em 2021 e 2022, inflada pelo impacto da alta das commodities sobre os preços industriais e a receita de dividendos, o que já se reverteu.

Não é um quadro de tempestade perfeita, mas convém não abusar da sorte, pois tampouco este é um cenário a ser descartado. Os juros mais elevados no mundo são alerta, por si só, quanto aos limites para a redução tempestiva da Taxa Selic pelo Banco Central. Enquanto isso, o grosso do ciclo de desinflação, puxada pela queda de preços de commodities, já se completou, como se reflete na volta da inflação no atacado para o campo positivo. Enquanto isso, as expectativas de inflação seguem acima da meta.

Se para o investidor internacional, o Brasil não chega a assustar — os problemas fiscais se espalham no mundo e o risco geopolítico não passa aqui por perto —, internamente as classes médias ainda estão no aperto, com elevada inadimplência, e os pedidos de recuperação judicial das empresas seguem em alta — a Bolsa brasileira não está defasada em relação aos pares à toa.

Em tempo, Haddad não é um ministro facilmente substituível.

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A COISA JÁ ESTAVA FEIA ANTES DA FALA DE LULA

Lu Aiko Otta, Valor Econômico

Novo arcabouço fiscal pode ser desmoralizado logo na estreia

Antes mesmo de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocar em xeque a estratégia econômica do seu próprio governo, ao afirmar que o resultado fiscal de 2024 não precisa ser zero, era de apreensão o clima nos bastidores do Ministério da Fazenda. No jovem time do ministro Fernando Haddad, a habitualmente alta disposição para enfrentar desafios já vinha cedendo lugar para o reconhecimento das grandes dificuldades que há pela frente. A declaração de Lula foi a cereja amarga do bolo.

“Depois de tudo o que aconteceu, a Selic recuou um ponto. Um ponto!”, comentou um integrante do Ministério da Fazenda um dia antes da fala do presidente. A taxa, completou, segue muito alta. Está em 12,75%, ante 13,75% em janeiro. É um fator que estressa a vida de pessoas e empresas. “As pessoas acham que está tudo bem, mas não está”, avaliou.

Pelo roteiro traçado por Haddad no início do ano, era para o ambiente econômico estar mais desanuviado a essa altura do campeonato. Aprovado o novo arcabouço fiscal e retomada a capacidade do governo de desempatar, a seu favor, as disputas com contribuintes no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), esperava-se que as dúvidas sobre a política fiscal estivessem dissipadas e o Brasil, visto como um país que entrou novamente nos eixos.

Não foi o que aconteceu. Depois de um fim de primeiro semestre bem-sucedido, o clima continuou azedo.

O início do segundo semestre confirmou o cenário ruim. A arrecadação federal iniciou uma sequência de quedas. Em termos reais, os recuos em relação a igual mês de 2022 foram de 13,73%, em junho, 4,20% em julho, 4,14% em agosto e 0,34% em setembro.

Até a semana passada, os dados preliminares de outubro não eram alentadores. No entanto, é um quadro que pode ter mudado ontem, último dia do mês.

Mais grave ainda foi a piora no cenário externo. A subida dos juros nos EUA e a perspectiva de sua manutenção em nível elevado por mais tempo do que o esperado (meados de 2024) trazem dois grandes problemas para o país.

O primeiro é na atração de investimentos. O Brasil, com seu sistema tributário caótico e sua estabilidade macroeconômica ainda por se consolidar, não consegue competir com os Estados Unidos na preferência dos gestores de fundos internacionais.

O segundo foi apontado pelo secretário de Política Econômica, Guilherme Mello, em entrevista ao Valor. Se os juros nos Estados Unidos forem mantidos em nível elevado, isso atuará como um limitador para a queda das taxas no Brasil. Há risco de atividade econômica ficar mais limitada.

Na visão de integrante da equipe econômica, o Banco Central “está doido” para desacelerar os cortes nas taxas de juros. Na sua visão, a dificuldade do governo em avançar com propostas no Congresso Nacional pode dar o pretexto que falta.

Na mais recente ata do Comitê de Política monetária (Copom), é ressaltada a importância de o governo implementar a agenda de ajuste fiscal que ele próprio propôs.

Nas contas da equipe econômica, diferença entre chegar ou não o déficit zero em 2024 está na Medida Provisória (MP) 1.185/2023, a que trata do impacto de subvenções estaduais na base de cálculo de tributos federais. A proposta enfrenta resistência das bancadas regionais e das grandes empresas, que temem a elevação de sua carga tributária.

Importante parceiro de Haddad na aprovação de propostas econômicas ao longo deste ano, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, (PP-AL) tem dito que, para destravar a tramitação dessa proposta, é preciso convencer os congressistas de seu mérito.

Ao lado de Lula, o ministro reuniu-se ontem com deputados para discutir essa e outras medidas que têm por objetivo elevar as receitas.

Tudo somado, o atingimento do déficit zero em 2024 já parecia, antes mesmo da fala de Lula, mais difícil do que quando a meta foi traçada. O terreno para o seu descumprimento estava em preparação. Por exemplo: em entrevista ao Valor no início de outubro, o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, disse que a meta zero era o objetivo - mas o resultado poderia ser diferente.

Na prática, a fala de Lula mudou a meta para um déficit de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano que vem. A questão é se e quando isso será formalizado.

Presente à reunião com Lula e Haddad, o deputado Pedro Paulo (PSD-RJ) disse aos repórteres Marcelo Ribeiro e Raphael Di Cunto, deste jornal, que a mudança da meta parece estar decidida. Serviria para acomodar as frustrações pelo lado das receitas. No entanto, haveria um compromisso de não expandir despesas.

Descumprir a meta em 2024 implica uma “punição” ao governo. Segundo as regras do arcabouço, as despesas de 2025 só poderão avançar ao ritmo de 50% do aumento das receitas em caso de descumprimento, e não 70%, como é o padrão. Não se trata de cortar despesas, e sim de conter o aumento delas.

Ainda assim, o governo caminha para fazer um “gol de mão” e driblar essa regra, num episódio que lembra os inúmeros “furos” no teto de gastos. O novo arcabouço fiscal pode ser desmoralizado logo na estreia.

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INSEGURANÇA DO CONSUMIDOR, QUE SUBIU, SÓ PIORA COM O EMBATE SOBRE SUPERÁVIT

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Situação se soma à perda de fôlego da popularidade presidencial e expõe os riscos do embate sobre as contas do governo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desperdiçou a oportunidade do seu programa semanal “Conversa com o presidente” para convencer o distinto público da importância do debate sobre a meta fiscal. Preferiu sair pela tangente e requentar a tentativa de golpe de Estado bolsonarista. É possível que tenha mudado de assunto para não continuar a mexer no angu que azedou, mas a estratégia de deixar decantar não parece suficiente. O índice de confiança do consumidor do Ibre/FGV para o mês de outubro demonstra que a insegurança sobre os rumos da economia já afeta o humor dos brasileiros.

O pessimismo das famílias atinge todas as faixas de renda e é movido pela preocupação com a manutenção do emprego. Apenas os consumidores com renda até R$ 2,1 mil se mostram satisfeitos. A maior queda se deu entre esta faixa de renda e R$ 4,8 mil. A sondagem demonstra que a resiliência demonstrada pelo setor de serviços prestados às famílias até meados do ano pode ter se esgotado.

É possível que Lula tenha resolvido apelar ao velho estratagema de expor os contendores para arbitrar a disputa, esteja esta entre os ministros Fernando Haddad (Fazenda) e Rui Costa (Casa Civil), ou entre o governo e o Congresso, mas este ringue público em nada ajuda a melhorar a confiança da população no futuro. Se o brasileiro comum já se sente inseguro mesmo sem entender o que venha a ser uma meta fiscal, é previsível que o receio sobre o que virá aumente quando indicadores que medem a incerteza, como o prêmio de risco do país, começarem a afetar os preços.

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Desde sexta-feira, quando disse que o governo não terá saída senão mexer na meta, Lula vem ensaiando recuos. Na segunda prestigiou Haddad com os dois novos diretores do Banco Central. Nesta terça, recebeu líderes da base do governo e disse que não pretende aumentar gastos mas evitar cortes. Enquanto o presidente quer mais receita para concluir as obras do PAC, os parlamentares querem mais dinheiro para emendas e fundo eleitoral. A população só quer emprego e estabilidade. A pesquisa do Ibre/FGV demonstra que teme perder um e outro.

O principal problema de Lula, desde a posse, é a divergência entre os planos com os quais voltou ao Planalto e um Congresso que tomou gosto por governar nos quatro anos do mandato bolsonarista. Se Lula, com uma folga fiscal, buscava reforçar o poder de pauta do governo no Congresso, colheu o inverso. Expôs sua incapacidade de mediar suas brigas sucessórias: a dos ministros da Fazenda e da Casa Civil, que disputam a prerrogativa de sucedê-lo, e a dos parlamentares em torno da renovação das mesas diretoras.

As últimas pesquisas já vinham demonstrando uma perda paulatina de fôlego do governo. Lula foi eficiente em tirar de seu colo a crise da segurança do Rio que dominou o noticiário na semana passado. Cancelou a reunião que faria no Planalto entre Defesa, Justiça e comandantes militares e delegou as tratativas para o ministro Flávio Dino. Com a gestão fiscal, ele fez o inverso. E arrisca inflacionar ainda mais o preço de sua base de apoio no Congresso.

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LULA LISTA VOTAÇÕES PRIORITÁRIAS A DEPUTADOS DA BASE ALIADA

Raphael Di Cunto, Fabio Murakawa, Marcelo Ribeiro e Julia Lindner, Valor Econômico

Presidente pede aprovação de medidas para recuperar arrecadação e equilibrar contas públicas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pediu a deputados da base aliada nessa terça-feira, em reunião no Palácio do Planalto, a aprovação de medidas até o fim do ano para ajudar no equilíbrio das contas públicas, mas defendeu que não pretende fazer cortes no Orçamento enviado para 2024 e evitou cravar uma decisão sobre mudar a meta de resultado fiscal de 2024 por enquanto. À noite, diante da pauta ainda paralisada, ele se reuniu a sós com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

No encontro com os parlamentares, Lula expôs que há queda na arrecadação e que isso tornou mais difícil cumprir a meta, mas tentou argumentar que isso não ocorrerá para expandir as despesas e que a aprovação das medidas de ajuste fiscal pelo Congresso continua necessária. “A gente não quer gastar mais. O que não quer é contingenciar”, afirmou o presidente, segundo relatos dos deputados ao Valor.

O governo apresentou aos deputados uma lista de sete “desafios/prioridades” até o fim do ano na área econômica. Alguns não tem efeito fiscal de curto prazo, como a reforma tributária e mudanças no sistema de pagamentos e de arbitragem. No campo fiscal, o Executivo voltou a insistir no projeto de lei que muda o mecanismo de Juros sobre o Capital Próprio (JCP), embora a discussão não tenha saído da Fazenda, e na medida provisória (MP) das subvenções a investimentos, que enfrenta resistência da própria base aliada.

A alteração da meta fiscal de 2024 opôs os dois ministros mais poderosos do governo Lula. Enquanto o chefe da Casa Civil, Rui Costa, defende o envio de uma mensagem modificativa ao Congresso revisando o número para 0,25% ou 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), Haddad mantém-se firme e insiste no objetivo de zerar o déficit já no ano que vem, mesmo reconhecendo que é de difícil execução.

Um dos participantes da reunião com Lula, o deputado Pedro Paulo (PSD-RJ) disse que “ficou claro” que governo não cortará despesas e que mudará a meta. “Já não é nem uma questão de quando, mas de quanto”, afirmou ele, que é um dos vice-líderes do governo na Câmara. “Se o Congresso conseguir aprovar as medidas programadas para aumentar a receita, a mudança vai ser X. Se não conseguir aprovar nesse tempo que falta, a mudança será 2X”, disse.

Já o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), defendeu que Haddad está correto em manter e buscar cumprir a previsão inicial e que o governo não ganha nada com a antecipação da discussão. “Quem bota uma meta não pode abrir mão da meta sem tentar chegar lá. Se não chegar lá, não chegou, ok”, disse. “O mundo não vai cair por isso.”

Diante do conflito interno, e da falta de certeza sobre o tamanho do esforço fiscal que será necessário, o governo adiou a decisão sobre a meta e pediu que o Congresso não vote por enquanto o parecer preliminar do projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2024. Se esse parecer for aprovado pela Comissão Mista de Orçamento (CMO), o Executivo ficará impedido de enviar uma mensagem modificando a meta da LDO e dependerá de um acordo com o Congresso para altera-la. Deputados do Centrão e da oposição, contudo, continuam a insistir para a aprovação rápida de modo a permitir votar a LDO na semana do dia 20.

O adiamento da LDO pode levar à não votação da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2024 até dezembro, dizem deputados. O líder do PL na Câmara, deputado Altineu Côrtes (RJ), alertou que a LOA até hoje não foi enviada à CMO, mais de 60 dias depois de chegar ao Congresso, e que “há um movimento como se o governo não quisesse votar o Orçamento este ano”. “Se é esta a ideia do governo, para governar com duodécimo, será prejuízo para as famílias brasileiras. Prejuízo aos investimentos no Brasil e para as emendas dos deputados. Não vamos cair nessa”, disse.

Apelo a vetos

Lula pediu ainda que os deputados mantenham os dois vetos feitos por ele ao projeto de lei do novo arcabouço fiscal. Ainda não há data para que eles sejam analisados. Um dos vetos permite que os investimentos sejam cortados em proporção maior do que as demais despesas discricionárias (que não são obrigatórias, como custeio). Outro permite que a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) exclua “qualquer despesa” da meta fiscal, o que pode abrir espaço para a “contabilidade criativa” criticada em gestões anteriores do PT.

Outro veto, contudo, levou a protestos do presidente da Câmara: a proibição de que os bancos tomem veículos com empréstimos inadimplentes sem necessidade de processo judicial. A permissão constava do marco legal das garantias e Lira tinha a promessa do Ministério da Fazenda de que o texto tinha aval do governo. O Ministério da Justiça, contudo, arguiu que o dispositivo entrava em conflito com recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e convenceu Lula a vetá-lo. Diante do incômodo do presidente da Câmara com o que ele considerou uma “quebra de acordo”, a proposta do Palácio foi sugerir que a base do governo ajude a derrubar o veto.

Lira reclamou com o governo e travou a tramitação da comissão mista da MP das subvenções a investimentos. Os líderes da base cobram reunião com Haddad para que o ministro explique o impacto da medida em seus Estados e nos incentivos fiscais para as empresas. A estratégia do governo, segundo o líder do PT na Câmara, deputado Zeca Dirceu (PR), é fazer uma mobilização junto aos prefeitos, que seriam beneficiados pelo aumento da arrecadação, e mostrar que a maioria ganhará. “Só São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais e Santa Catarina perdem um pouco, mas porque concederam incentivos demais”, disse.

(Colaboraram Renan Truffi e Jéssica Sant'Ana)

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OMISSÃO DO CONGRESSO NO CONTROLE DA INTELIGÊNCIA

Fernando Exman, Valor Econômico

Colegiado foi concebido para verificar a legalidade das ações das diversas instituições que compõem o Sistema Brasileiro de Inteligência

Finalmente, aqui e acolá, surgem sinais de que alguns congressistas querem dar nova dinâmica à Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência.

Não é um colegiado qualquer. Pouquíssimo conhecido pelo público em geral, ele foi concebido para verificar a legalidade das ações das diversas instituições que compõem o Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin). E aqui deve-se registrar, por justiça, a importância desses órgãos no processo decisório da Presidência da República.

Como em outros países, a comissão deveria analisar orçamentos, a eficiência e eficácia de cada uma dessas agências. Por aqui, contudo, ela tem sofrido até com uma insistente falta de quórum para conseguir cumprir minimamente sua missão: a defesa do próprio estado democrático de direito.

Não é de se espantar, portanto, que sua composição tornou-se ainda mais estratégica depois dos ataques do dia 8 de janeiro. Integrantes do núcleo bolsonarista fizeram questão de estar na seleta comissão, o que tem dificultado a aprovação de requerimentos.

Os poucos parlamentares que a frequentam contam, sob a condição de anonimato, como são os bastidores da comissão.

Para acessar documentos, até mesmo senadores e deputados precisam deixar seus telefones celulares em outra sala. O parlamentar assina um termo de confidencialidade, lê o documento de seu interesse e devolve para o secretariado. Cópias são proibidas.

Normalmente, as reuniões são secretas. Uma exceção foi a última sessão da comissão, na quarta-feira (25). Não há palavra melhor para descrevê-la do que “constrangedora”.

Sua convocação ocorreu para que o diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Luiz Fernando Corrêa, prestasse esclarecimentos sobre a Operação Última Milha, da Polícia Federal.

Dias antes, a PF prendera servidores da Abin por uso irregular de um sistema de geocalização. Segundo os investigadores, a espionagem teria ocorrido durante o governo Jair Bolsonaro (PL). Entre 2019 e 2021, teriam sido rastreados supostos adversários do ex-presidente, políticos, jornalistas, advogados, servidores do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

O início da sessão foi aberto. De pronto, o deputado Carlos Zarattini (PT-SP) pediu a palavra: expôs a omissão do Congresso em sua missão de fiscalizar o setor e pediu apoio na tramitação de duas proposições.

O primeiro é um projeto para alterar a lei que institui o Sistema Brasileiro de Inteligência e cria a Abin. A ideia é determinar que a agência envie relatório trimestral ao órgão de controle externo da atividade de inteligência, ou seja, a CCAI, contendo informações detalhadas, em qualquer grau de classificação de sigilo, sobre suas operações, ações, produtos de inteligência e bens e serviços utilizados.

De forma complementar, a segunda iniciativa de Zarattini é uma proposta para aprimorar a resolução que rege a própria Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência. Se ela for aprovada pelo Congresso, a CCAI teria meios para fiscalizar a execução orçamentária e financeira da Abin, inclusive quanto às suas compras, aquisições e contratações protegidas por sigilo. Isso valeria, também, para outros órgãos do sistema de inteligência.

A comissão poderia convocar ministros e outras autoridades subordinadas ao presidente da República, como o diretor-geral da Abin, para prestarem pessoalmente informações ao colegiado. Mas, mais do que isso, os órgãos componentes do Sisbin precisariam submeter à CCAI relatórios periódicos para instrução de suas atividades de fiscalização e controle.

“A CCAI está funcionando de forma reativa”, argumenta o deputado. Para ele, em vez de poder requisitar documentos, o ideal é inverter e tornar obrigatório o envio periódico de relatórios. “A comissão precisa ter perenidade. A gente vive um problema eterno no Congresso: ninguém se preocupa com a questão da segurança nacional.”

Naquela quarta-feira, enquanto a sessão ainda seguia aberta, Luiz Fernando Corrêa fez um breve pronunciamento para tentar acalmar os ânimos. Assegurou que a Abin “não tem compromisso com o erro”. Argumentou que a operação da PF se referia a questões do passado, lembrando que uma sindicância interna já havia sido instaurada. Assegurou que seu objetivo é construir novos procedimentos baseados em princípios de auditabilidade e rastreabilidade.

A portas fechadas, veio a pressão. Sem informações detalhadas sobre quem seriam os alvos do esquema desbaratado pela PF, o meio político insistiu em saber quais informações eram buscadas e como elas seriam usadas.

Lembrou-se, também, que o atual governo já havia sido alertado de que um dos servidores exonerados tinha sido auxiliar direto de Anderson Torres, ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, preso após os atos do dia 8 de janeiro. Outro servidor já havia respondido a denúncias por supostas interceptações telefônicas de ministros do Supremo e, mesmo assim, preservado na atual gestão.

Esses tópicos já haviam surgido durante a sabatina de Corrêa na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado (CRE). A apreciação de seu nome, aliás, foi adiada algumas vezes devido à relutância do presidente da CRE, senador Renan Calheiros (MDB-AL), de chancelar o nome de um diretor-geral da Abin sem poder impedir que os adjuntos escolhidos por este sejam nomes considerados polêmicos. A partir do ano que vem, seguindo as regras regimentais, Renan Calheiros será o presidente da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso.

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RUI COSTA VENCE A DISPUTA COM HADDAD

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

Centrão aprova recuo sobre meta fiscal e quer agora diretorias do Banco do Brasil e da Petrobras

Desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cometeu o sincericídio de dizer que o governo pode descumprir a meta de déficit zero para 2024, o apetite dos partidos do Centrão só aumentou. Em público, o discurso oficial é o de que o Executivo precisa fazer o ajuste das contas públicas. Nos bastidores, porém, a conversa é outra.

A cúpula do Centrão não se contentou com o comando dos ministérios do Esporte e de Portos e Aeroportos nem com a presidência da Caixa Econômica Federal. Quer as 12 vice-presidências da Caixa, a Funasa ressuscitada e também diretorias do Banco do Brasil e da Petrobras, estatal que foi pivô do escândalo do petrolão.

O grupo atua, ainda, para embutir na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) um dispositivo que obriga o governo a pagar emendas de liderança e de comissões, faça chuva ou faça sol.

Se prosperasse a meta de déficit zero, coisa em que ninguém mais acredita, Lula fatalmente teria de cortar algo em torno de R$ 53 bilhões do Orçamento no início de 2024, ano de eleições municipais. Nesse cenário, as emendas que destinam recursos para redutos eleitorais de parlamentares virariam pó.

Na prática, pode-se dizer que a ala política do governo, capitaneada pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa, venceu a primeira batalha contra o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Costa e até mesmo uma parte da equipe econômica argumentavam que, se Haddad não recuasse, programas de investimentos, como o PAC, seriam uma ficção e a popularidade do presidente despencaria.

No café da manhã de sexta-feira com jornalistas, do qual participei, Lula deu a senha para o descumprimento da meta fiscal. Admitiu naquele encontro, no Palácio do Planalto, que 2024 será um ano muito difícil. Não foi só: disse querer mudar a percepção da sociedade de que o governo “só pensa em pobre”. Há tempos o PT tenta, sem sucesso, conquistar a classe média.

Lula critica a “ganância” do mercado, mas não a do Centrão. Ainda ontem, em reunião com ministros, dirigentes e líderes de partidos, ele defendeu, mais uma vez, a aliança com esse grupo, que tem à frente o PP do presidente da Câmara, Arthur Lira (AL). E indicou, de novo, que o País não precisa zerar o déficit.

“O fato de revisar a meta não significa que se vá gastar mais. Afinal, votamos o arcabouço fiscal para ter estabilidade econômica”, concordou, mais tarde, o deputado Danilo Forte (UniãoCE), relator da LDO. “Mas o que dá estabilidade política é a execução do Orçamento. Não somos ingênuos de achar que não haverá problema em ano eleitoral.” Ingenuidade, aliás, é uma palavra que não consta do dicionário político do Centrão. Por isso mesmo, a guerra continua.

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LULA CONTA OS CENTAVOS PARA UM AJUSTE DE ROTA EM 2024

Bruno Boghossian, Folha de S. Paulo

Presidente blinda despesas, fala em ampliar inaugurações e reconhece algum marasmo no primeiro ano

Faltam dois meses para o fim do ano, mas Lula está inquieto com 2024. A tentativa de afrouxar a meta fiscal e blindar os gastos do governo aponta para o que o petista trata como um ajuste de rota. "No ano que vem, se preparem, porque eu vou viajar para cada estado. Eu quero inaugurar muitas escolas, muitas universidades", afirmou o presidente.

Em 30 minutos de entrevista ao canal do governo, nesta terça (31), Lula falou três vezes em promessas para o próximo ano. Nas três vezes, misturou um balanço positivo de 2023 com um sutil reconhecimento de frustrações do eleitor. "Obviamente, quando você planta um pé de fruta, não vai dar fruta no mesmo ano", disse. "Às vezes, demora um pouco."

Dentro do governo, a avaliação é que a agenda internacional de Lula e a recuperação de programas antigos, como o Bolsa Família, permitiram uma decolagem suave de seu terceiro mandato. Ao mesmo tempo, essas escolhas submeteram o presidente a um teto de popularidade neste primeiro ano, a partir de uma certa percepção de marasmo.

Lula quer cada centavo disponível para tentar mudar o quadro. O plano é multiplicar palanques para a inauguração de obras públicas em 2024. Ele deixou esse objetivo claro quando admitiu um déficit nas contas para evitar cortes em investimentos e quando avisou a parlamentares que não congelará gastos, principalmente no PAC e em programas sociais.

A reunião do presidente com líderes da base aliada, nesta terça, serviu para firmar um pacto nessa direção. Lula cobrou apoio a medidas que aumentem a arrecadação, mas sinalizou que manterá os gastos previstos para o ano que vem, mesmo que elas não sejam aprovadas.

Como o centrão tem acesso privilegiado aos cofres do governo, não é difícil apontar o lado para o qual essa balança vai pender. Ao preservar despesas, os partidos protegem também o dinheiro que vai para suas bases eleitorais na forma de emendas e pelo orçamento dos ministérios que comanda. Lula pode rachar a conta do déficit com o centrão.

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PRESIDENTES DEVEM SEMPRE DIZER A VERDADE ?

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Ao revelar o que realmente pensa sobre déficit, Lula passou rasteira em Haddad

Lula afirmou que o déficit fiscal de 2024 não precisa ser zero e, ao dizer isso casualmente, acabou passando uma bela rasteira em Fernando Haddad, seu ministro da Fazenda. Pouca gente acredita em déficit zero, de modo que é possível dizer que Lula foi apenas honesto. Presidentes devem sempre dizer a verdade?

Acho que existem profissões que estão comprometidas com a honestidade. Penso que um médico, por exemplo, jamais pode mentir para o paciente competente que o questiona diretamente sobre seu estado de saúde. Fazê-lo, aliás, seria inútil, já que o paciente pode sempre requisitar seu prontuário e descobrir o que o médico desejava esconder. Mas o caso de presidentes é diferente.

Existem até situações em que o chefe de Estado é obrigado a mentir. Imagine que o governo prepara um plano econômico que inclui o congelamento de preços. Imagine também que um repórter pergunta ao presidente se haverá congelamento. Se o mandatário disser a verdade ou tentar sair pela tangente, ele estraga o plano, daí que negar o congelamento é um imperativo.

Acredito, porém, que esses sejam casos raros. Situações mais frequentes são aquelas em que o presidente tem o dever da omissão, isto é, de esconder o que ele realmente pensa, a fim de preservar espaços para a negociação política ou para não criar embaraços futuros. Diplomatas e policiais são outras categorias profissionais que precisam saber manter a boca fechada, mesmo que isso implique algum grau de ilusionismo e manipulação.

Lula não é um presidente inexperiente, que ainda está descobrindo o peso de suas palavras. Daí que há duas maneiras de interpretar sua declaração sobre o déficit. Ou ele pisou feio na bola, o que significa que está em pior forma do que se imaginava, ou quis mesmo passar um recado para Haddad. A pergunta é: por quê? A revisão às pressas da meta que ora se cogita parece mais uma operação de redução de danos.

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A GUERRA DA PROPAGANDA: LIÇÕES DO PASSADO

Wilson Gomes*, Folha de S. Paulo

Nada de novo sob o sol da propaganda entre as guerras do século 20 e do 21

Como estamos em guerra de novo, voltei ao meu manual de propaganda bélica de cabeceira. Que estamos em guerra, creio que ninguém duvidará. Não me refiro, claro, apenas às guerras em sentido estrito —Rússia e Ucrânia, Israel e Palestina—, mas também aos conflitos políticos deflagrados como guerra cultural e guerrilha ideológica, que nem sempre matam, mas arrastam países à destruição e terminam em tentativas de golpes de Estado, como vemos seguidamente desde 2016.

E o manual a que me refiro é, na verdade, um tratado muito bem documentado sobre o uso da propaganda na Primeira Guerra. Chama-se "Propaganda Technique in the World War" e foi publicado por Harold D. Lasswell em 1927. Na guerra, diz ele, desde que a meta a ser alcançada passe por alguma forma de convencimento das pessoas, a propaganda tem que ser considerada.

Nos conflitos, as mentes são tão importantes quantos as armas e as pressões econômicas, pois são elas que mobilizam, motivam ou desmoralizam, recrutam, engajam, justificam, superam ou criam resistências à participação, dão ou retiram superioridades morais, tornam os sacrifícios toleráveis ou inaceitáveis. Por isso, as notícias e boatos da propaganda são tão importantes quantos mísseis, dinheiro e músculos; a propaganda é a guerra por outros meios, é a guerra por meio de ideias, conceitos, cognições, sentimentos e atitudes.

Lasswell dedica um inteiro capítulo à satanização do "outro lado" durante um conflito. Quando a guerra está prestes a iniciar, o trabalho da propaganda consiste em fazer com que se acredite que foi o inimigo quem deu início às hostilidades e que a guerra, a este ponto, não só é inevitável, mas o único recurso possível para se enfrentar o mal. Uma vez, contudo, que a guerra está em curso, é preciso reforçar a motivação para se manter em um conflito que já mostra o seu lado monstruoso e exige sacrifícios. E isso se faz por meio da reiteração de exemplos da depravação do inimigo, que demonstrem que se a guerra é feia, o inimigo é muito pior.

O código moral do público vai determinar os temas e as ênfases nos exemplos de maldade que precisam ser apresentados. De toda forma, ninguém resiste a responder com estupefação e ódio ao inimigo diante de exemplos de atrocidades. E quanto mais vulneráveis e inofensivos forem as suas vítimas, mais serão óbvias razões para odiar o inimigo. O que outro faz ou fez com "mulheres, crianças, idosos, padres e freiras, prisioneiros e não combatentes mutilados" não será esquecido nem perdoado.

A originalidade e a verdade dos relatos estão longe de ser indispensáveis, mas só um inimigo degenerado e cruel é capaz de degolar crianças ou matá-las de fome, de violentar mulheres e sequestrar velhinhas, de bombardear hospitais ou metralhar garotos.

Para rematar a convicção de que o inimigo é sombrio e perverso, a propaganda deve manter ativa uma lista de crimes perpetrados pelo outro lado, o catálogo de infâmias. Desumanidades, genocídio, impiedade, tudo listado e contabilizado. Tudo deve ser fartamente ilustrado com "fotografias de cadáveres mutilados e aldeias devastadas". Se possível, testemunhas oculares devem contar a sua própria história, depoimentos de quem esteve com o inimigo e mudou de lado, enojado com tamanha iniquidade, devem ser publicados, assim como relatórios assinados por pessoas de reputação.

A este pronto, a contrapropaganda do inimigo já estará ativada para a negação: "as histórias de atrocidade em massa e destruição intencional são generalizações maliciosas de alguns exemplos individuais lamentáveis", dirá; o inimigo é vil e falso, não se deve crer em uma palavra da sua boca. É quanto aparecem os exemplos de atrocidades e infâmias realizadas pelo lado que primeiro acusou.

Cem anos antes das invenções das fake news, Lasswell já advertia aos seus leitores que "a propaganda real, onde quer que seja estudada, tem um grande elemento de falsificação. Isso varia desde colocar uma falsa data em um despacho, passando pela impressão de boatos não verificados, chegando até à ‘encenação’ de eventos". Os exemplos são copiosos, vão do uso de imagens, em parte retocadas, do pogrom judeu de 1905 como se fosse uma nova atrocidade inimiga, à falsificação de edições inteiras de jornais do outro país. Ou a invenção pura e simples de fatos.

Nada há de novo sob o sol da propaganda entre as guerras do século 20 e as do século 21. Nem sequer o uso dos horrores como meio de criar animosidade, alimentar o ódio e manter as pessoas em estado permanente de conflito.

*Professor titular da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e autor de "Crônica de uma Tragédia Anunciada"

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NOTÍCIAS DE UMA GUERRA QUE CHEGA ATÉ NÓS

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Israel vive um drama existencial: continuar sendo um Estado judeu e deixar de ser uma democracia liberal, ou se tornar uma democracia multiétnica e deixar de seu um Estado judeu

A coisa mais tenebrosa que conheci foram os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau, na Polônia, designados pelo regime nazista de Adolph Hitler como o lugar para a “Solução Final” para os judeus. Entre o começo de 1942 e o fim de 1944, homens, mulheres, crianças e anciãos de toda a Europa foram transportados em trens para serem eliminados em câmaras de gás e crematórios naquele complexo macabro. Cerca de 1,3 milhão e 3 milhões de prisioneiros foram ali exterminados, sendo 90% judeus. Aproximadamente 150 mil poloneses, 23 mil ciganos, 15 mil soldados soviéticos e 400 testemunhas de Jeová também foram executados, morreram de fome, doenças ou em experiências médicas.

Tudo o que já havia visto sobre o Holocausto, em fotos, vídeos e filmes, nem se compara à experiência tenebrosa da visita ao local. O maior espanto é constatar como a racionalidade humana é capaz de banalizar o mal. Por isso mesmo, não estranhei a reação de Dani Dayan, presidente do Centro para a Memória do Holocausto de Israel, ao criticar o uso da Estrela Amarela pelos diplomatas de seu país na reunião do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), na segunda-feira: “O emblema amarelo simboliza o desamparo do povo judeu. Hoje, temos um país independente e um exército forte, somos mestres do nosso próprio destino. Hoje, deveríamos colocar um botton de bandeira branca na lapela, não um emblema amarelo”, disse, sobre o uso indevido da Estrela de Davi.

Ao ostentar a estrela amarela na lapela com o slogan “Nunca Mais”, o embaixador de Israel na ONU, Gilad Erdan, afirmara que era um símbolo de orgulho e uma forma de lembrar que juraram se defender, e que o antissemitismo e o ódio aos judeus estão crescendo pelo mundo. No regime nazista na Alemanha e nos países ocupados na II Guerra Mundial, todos os judeus foram obrigados a usar uma estrela amarela costurada na roupa para serem identificados. Depois, nos campos de concentração, foram numerados com uma tatuagem no braço.

O uso da estrela amarela pelos diplomatas era uma remissão ao Holocausto, por causa do ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro, no qual 1.400 pessoas foram assassinadas e 250 foram sequestradas em Israel. A retaliação de Israel é legitimada perante a opinião pública mundial não somente com a narrativa da luta contra o terrorismo, mas, também, com a memória dos fatos que mais mexem com corações e mentes dos judeus de todo o mundo, inclusive no Brasil: os campos de extermínio nazistas.

Lideranças incompetentes

Em contrapartida, o repúdio ao massacre de crianças, mulheres e idosos em Gaza, que somam aproximadamente 75% dos 8,5 mil palestinos mortos pelo exército de Israel, extrapola o mundo árabe e mobiliza todo o Oriente muçulmano. Tornou-se o epicentro da nova “guerra fria” entre Estados Unidos e a Rússia, em lugar do conflito da Ucrânia. Não há o menor sinal de paz no horizonte. Nem mesmo um cessar-fogo humanitário, a não ser que seja aprovada alguma resolução no Conselho de Segurança da ONU, que vive seu maior impasse. A China, que hoje assume a presidência do colegiado, até agora foi espectadora privilegiada. Veremos qual será seu papel.

As notícias são desanimadoras. Há 240 reféns de Israel nas mãos do Hamas. O número de funcionários das Nações Unidas mortos na Faixa de Gaza aumentou para 67, segundo informação divulgada pela Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente. Um bombardeio no campo para refugiados na cidade de Jabalia, no norte de Gaza, deixou 50 mortos e mais de 300 feridos.

O coronel Richard Hecht, porta-voz do exército de Israel, confirmou que as forças armadas do país atacaram o campo para matar um dos comandantes do Hamas. Os rebeldes Houthis do Iêmen também entraram na guerra, que acontece a mais de 1.600km de sua sede em Sanaa, e lançaram drones e mísseis contra Israel. Continuam as escaramuças entre o Hezbollah e o exército israelense, na fronteira com o Líbano. Na Cisjordânia ocupada, os conflitos de rua com os soldados israelenses se intensificam.

Em 2009, o historiador britânico-judeu Tony Judt, que faleceu no ano seguinte, num antigo intitulado O que fazer?, vaticinou que a opção de deixar “mediocridades incompetentes” à frente de Israel e da Autoridade Palestina teria consequências catastróficas. “Graças ao tratamento abusivo dos palestinos pelo ‘Estado judeu’, o imbróglio israelense-palestino é o motivo mais iminente para o ressurgimento do antissemitismo em todo o mundo. É o fator mais eficiente no recrutamento de agentes para os movimentos islâmicos radicais. E priva de um sentindo as políticas externas dos Estados Unidos e da União Europeia para uma das regiões mais delicadas e instáveis do mundo. Algo diferente precisa ser feito.”

Para Judt, Israel vivia um drama existencial: continuar sendo um Estado judeu e deixar de ser uma democracia liberal, como propõe o premiê Benjamin Netanyahu, ou se tornar uma democracia multiétnica e deixar de ser um Estado judeu, com a anexação dos territórios palestinos ocupados. A terceira opção é empurrar os palestinos de Gaza para o deserto do Sinai e promover uma limpeza étnica nos territórios ocupados da Cisjordânia.

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BOLSONARO TRANSFORMOU ALVORADA EM BUNCKER DO GOLPE

Bernardo Mello Franco, O Globo

Presidente quis usar palácio para esconder fugitivos da polícia, acusa ex-ajudante de ordens

Ao projetar o Palácio da Alvorada, Oscar Niemeyer imaginou uma estrutura leve e elegante, com colunas que parecessem pousar sobre o solo. “Procuramos adotar os princípios de simplicidade e pureza”, explicou, antes da inauguração de Brasília.

Desde 1960, a residência oficial recebeu diversos tipos de inquilinos: de general a ex-guerrilheira, de sociólogo a metalúrgico. No ano passado, quase se transformou em esconderijo para criminosos em fuga.

Às vésperas do fim do governo, Jair Bolsonaro quis usar o Alvorada para abrigar aliados na mira da polícia. O plano foi revelado pelo tenente-coronel Mauro Cid, segundo reportagem do UOL.

Em delação premiada, o militar contou que o chefe queria malocar o blogueiro Oswaldo Eustáquio e o youtuber Bismark Fugazza. Os dois tiveram prisão decretada por ataques à democracia. Não se hospedaram no palácio, mas conseguiram fugir do país. Um foi capturado no Paraguai, e o outro continua na lista da Interpol.

O plano de esconder foragidos foi ousado, mas não chega a surpreender. Bolsonaro sempre tratou o Alvorada como um território fora do alcance da lei. “Enquanto eu for presidente, lá é a minha casa”, desafiou, ao anunciar que não cumpriria uma decisão do TSE.

Em maio de 2020, quando as mortes por Covid disparavam, ele avisou que faria um churrasco na residência oficial. A ideia contrariava as recomendações do Ministério da Saúde para conter a transmissão do vírus. “Estou cometendo um crime”, debochou o capitão. Ao longo da pandemia, o palácio virou palanque para ataques diários à ciência. Nem as emas foram poupadas da propaganda da cloroquina.

Depois da crise sanitária, Bolsonaro passou a usar a residência para infringir a lei eleitoral. Fez propaganda irregular e convocou embaixadores para um comício contra o voto eletrônico. O encontro deu origem ao processo que o tornaria inelegível.

Derrotado nas urnas, o capitão transformou o Alvorada no bunker do golpe. Fez reuniões clandestinas, conspirou contra a Constituição e tentou convencer os comandantes militares a impedirem a posse do presidente eleito.

Ao fugir do país antes do fim do mandato, Bolsonaro deixou para trás um palácio malcuidado, com janelas quebradas e infiltrações nas paredes. Nada mais distante da pureza sonhada pelo arquiteto.

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LULA MIRA HADDAD E ACERTA O PRÓPRIO PÉ

Vera Magalhães, O Globo

O descrédito a que o presidente submeteu seu ministro mais importante é injustificável e mina seu próprio mandato

Menos de uma semana depois de implodir ao vivo, num café da manhã com jornalistas, a meta fiscal estipulada por seu ministro da Fazenda e aprovada pelo Congresso há menos de três meses, Lula agora corre atrás dos líderes e presidentes de partidos enfatizando a importância da pauta do mesmo Fernando Haddad para elevar a arrecadação. A pergunta é: depois de sua fala, ficou mais fácil ou mais difícil aprovar essas matérias? Mais caro ou mais barato?

Não são questões complexas, essas. Na verdade, são elementares tanto para o ex-líder sindical acostumado a negociações exaustivas, com alta carga de pressão psicológica, quanto para alguém que está no terceiro mandato presidencial. A pergunta menos óbvia, para a qual não encontro resposta convincente de ninguém desde sexta-feira é: por quê?

É desejável e louvável que o presidente tenha contato estreito e permanente com a imprensa e que se submeta a questionamentos sem pauta prévia. Mas o que aconteceu na sexta foi diferente: Lula foi ao desjejum disposto a servir a meta fiscal com o pãozinho e os frios. Não se trata de um daqueles atos falhos de improviso nas lives ou noutras ocasiões.

O presidente levou a público uma queda de braço já travada a portas fechadas no governo, com o chefe da Casa Civil, Rui Costa, à frente do time que advoga que cortar gastos, sobretudo com obras (o carro-chefe de sua atuação), no ano eleitoral seria fatal politicamente para Lula.

Mas há formas melhores até de implodir uma meta fiscal com que você acabou de se comprometer. Uma vez definida internamente a mudança de rota, o mesmo Lula poderia ter convocado a mesma imprensa para comunicar que enviaria uma mensagem ao Congresso corrigindo a meta na Lei de Diretrizes Orçamentárias. Faria isso ao lado de Haddad e Rui. Daria ao ministro da Fazenda até o tempo necessário para melhorar sua cara e seus modos, de forma a não evidenciar o baque com a derrota.

Os mercados não teriam uma reação tão histérica e haveria, acima de tudo, tempo para combinar o jogo com o Congresso antes, correndo com a discussão dos projetos que incrementam a arrecadação sem que fique óbvio, como ficou, que a pressa se deve ao fato de a conta não fechar.

De pouco ou nada adianta usar uma reunião tapa-buraco no casco do navio como a de ontem, em que os semblantes dos anfitriões mostravam a tensão interna, para avisar aos deputados que têm usado cada oportunidade para inflacionar seu apoio ao governo que a eventual mudança da meta não será para permitir novos gastos, mas apenas para honrar os já assumidos.

A esta altura, a LDO e o Orçamento de 2024 já se assemelham mais a árvores de Natal ornadas com todo tipo de badulaque para onerar ainda mais a Viúva. Haddad que lute, já que nem seu chefe leva a sério seus apelos por austeridade.

A situação que Lula criou é tão delicada que — vejam só! — o relator da LDO, Danilo Forte, agora diz que não há de ser ele a elevar a meta fiscal sozinho. Quer que o governo arque com o ônus de mandar a mensagem para o Congresso com a admissão de que propôs ao Legislativo, na mudança que alardeou ser a correção de um teto de gastos já furado, uma intenção furada de zerar o déficit fiscal já no ano que vem.

O descrédito a que o presidente submeteu seu ministro mais importante é injustificável, um tiro no pé maior do que muitos que ele já tinha dado desde o início do ano, quase todos desferidos por declarações inadvertidas.

A de agora é mais grave porque incide sobre a economia, ponto mais sensível de início e que, graças à estratégia de um Haddad agora alvejado, vinha dando sinais de melhora e conquistando a confiança de setores antes céticos. Confiança é um ativo raro e precioso em tempos de polarização enraivecida como essa de que o Brasil precisa se livrar. Quando o principal mandatário age para miná-la, a crise é séria.

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O DÉFICIT ZERO ERA RUDIMENTAR

Elio Gaspari, O Globo

Lula diz que é uma metamorfose ambulante e é mais que isso. É também, desde sempre, um urso que come seus donos. Na galeria desse urso há várias cabeças, e as de Antonio Palocci, seu ministro da Fazenda, e José Dirceu, o “capitão” de seu time, são as mais conhecidas. Em algum momento, por boas razões, eles acreditaram na imagem que projetavam. Palocci expeliu-se, e Dirceu sofreu em silêncio.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não cabe nesses dois figurinos, mas só o tempo dirá o que Lula pretendeu ao se afastar da meta do déficit zero para 2024. Ela estava bichada desde o primeiro momento, desde a hora em que Haddad prometeu um crescimento inviável da arrecadação. Deu-se um caso de perigosa manipulação de expectativas. Lula, Haddad, o mercado e a torcida do Flamengo sabiam que a meta estava bichada, mas confiavam numa expectativa.

O risco embutido no episódio do café da manhã com os jornalistas é a possibilidade de repetição da joelhada que o ministro Antonio Palocci levou da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, em 2005. Na ocasião, o Ministério do Planejamento anunciou um plano de ajuste fiscal de longo prazo, e Dilma fulminou-o com duas palavras:

— É rudimentar.

Haddad prometia déficit zero graças ao aumento da arrecadação. Era sonho, mas, como a arrecadação patinou, o controle do déficit deveria vir pelo controle de gastos. Qualquer semelhança com o dilema de 2005 não é coincidência.

A joelhada de Dilma marcou o início do ocaso de Palocci. Ela falava por Lula.

Quando Lula se dissociou da quimera, nada disse de novo. A questão está em saber quanto ele quer de déficit. A defesa dos gastos de Dilma/Lula daria no que se viu, uma amarga recessão.

O Lula de 2023 tem um Congresso mais voraz e uma oposição mais intransigente. Quando Haddad diz que precisa de apoio político, a vaca olha para o brejo. Se ele não tem apoio em casa, do outro lado da rua é que ele não virá.

Se Lula e Haddad pensam que podem administrar a economia com os truques que aplicam à questão da segurança pública, vem coisa ruim por aí. Na segurança, o governo anuncia reuniões e mudanças burocráticas inócuas. Isso não funciona para a economia. Falar em “ralos tributários” equivale a incensar operações policiais espetaculares contra bandidos. Aliviam a pressão e satisfazem os ministros, mas têm pouca serventia.

Qualquer família sabe como lidar com déficit: se a arrecadação é insuficiente, devem-se cortar despesas. Lula e o comissariado petista não gostam dessa ideia.

A sensibilidade que acompanha o debate econômico é compreensível, mas está exacerbada pela falta de ideias e iniciativas do governo. O Lula 1 teve o Prouni, o Luz para Todos e a defesa das cotas em universidades públicas. Isso para não falar nos programas tucanos reciclados com criatividade no Bolsa Família. A reforma tributária tem muitas virtudes e tantas exceções que ainda é prematuro avaliá-la. Não faz sentido que, em quase um ano de governo, o Planalto reine num deserto de ideias novas.

Governo sem ideias novas vê-se obrigado a discutir as ideias dos outros.

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O DESAFIO DE ALIMENTAR MUITOS COM POUCO

Opinião Correio Braziliense

No Brasil, um dos celeiros do mundo, os números também assustam. São 21 milhões de pessoas sem ter o que comer todos os dias, e 70,3 milhões em situação de insegurança alimentar

A fome é um flagelo que segue afligindo o mundo. Segundo dados divulgados recentemente pela Organização das Nações Unidas (ONU), o planeta tem 735 milhões de pessoas passando fome, e 2,3 bilhões em insegurança alimentar. No Brasil, um dos celeiros do mundo, os números também assustam. São 21 milhões de pessoas sem ter o que comer todos os dias, e 70,3 milhões em situação de insegurança alimentar.

Ao se olhar para o futuro, as perspectivas também não são animadoras. Estima-se que até 2050 — ou seja, daqui a 27 anos — o mundo atingirá um pico populacional de 10 bilhões de pessoas, o que coloca diante da humanidade um desafio monumental: produzir mais comida com menos espaço e recursos, enquanto as mudanças climáticas ameaçam reduzir as terras aráveis em todo o planeta.

É claro que a fome não é apenas uma questão de falta de comida: ela também é provocada por desigualdade, acesso limitado a recursos, pobreza e sistemas alimentares inadequados. Mas o iminente crescimento da população impõe uma pressão significativa sobre os recursos naturais, a terra e a água. As terras aráveis já estão sendo usadas intensivamente, e o crescimento populacional só tornará essa competição por espaço para lavouras e criação de animais ainda mais acirrada.

Soma-se a isso o cenário catastrófico que as mudanças climáticas estão provocando no planeta. O aumento das temperaturas, os eventos climáticos extremos, como temporais e ondas de calor, e a escassez de água são ameaças reais para a produção de alimentos, além da evidente degradação das terras atualmente usadas para a agricultura, reduzindo a produtividade e colocando em sério risco a produção de alimentos para o futuro próximo.

Dentro deste contexto, o Brasil, com sua vasta extensão territorial, recursos naturais abundantes e uma indústria agrícola em crescimento, pode desempenhar um papel crucial na busca da eficiência na produção de alimentos. O país é um dos principais produtores e exportadores mundiais de commodities agrícolas, como soja, carne e milho, e o agronegócio corresponde a quase um terço do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

No entanto, o desafio vai além de simplesmente aumentar a produção. É necessário fazê-lo de forma sustentável e eficiente. Isso implica priorizar a inovação, a sustentabilidade e a eficiência, adotando práticas agrícolas mais sustentáveis, investindo em pesquisa e tecnologia, e promovendo a educação voltada para a área. A agricultura de precisão — que levou definitivamente o computador para o campo —, o uso de biotecnologia, a gestão eficiente de recursos hídricos e a diversificação das culturas são apenas algumas das estratégias que podem ajudar a aumentar a produção de alimentos de forma sustentável. Além disso, o Brasil pode desempenhar um papel fundamental na conservação da Amazônia e de outros biomas, garantindo que as terras sejam usadas de maneira responsável, e a biodiversidade preservada.

O que surge para o Brasil, a partir deste cenário desafiador, é uma oportunidade única de liderar a revolução agropecuária que o planeta vai precisar para se alimentar nos próximos anos. É assim que o ingresso definitivo do país no grupo das grandes potências mundiais se dará: contribuindo para a segurança alimentar global, de modo a garantir que ninguém passe fome em um mundo de abundância.

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O PRIVILÉGIO DO SR. MORAES

Editorial O Estado de S. Paulo

Além de causar danos ao STF, tratamento diferenciado para Alexandre de Moraes fere princípios republicanos

Em tempos de acirramento político-ideológico e de incompreensão generalizada sobre o papel do Supremo Tribunal Federal (STF) no Estado Democrático de Direito, a Procuradoria-Geral da República (PGR) forneceu uma oportunidade para a Corte mostrar seu compromisso com a igualdade de todos perante a lei, sem pactuar com o corporativismo. Não convém desperdiçar o ensejo.

Em recurso interposto no inquérito que investiga suposta agressão contra o ministro Alexandre de Moraes e sua família no aeroporto de Roma, a PGR fez dois pedidos ao ministro Dias Toffoli, relator do caso: o levantamento integral do sigilo das filmagens contendo as supostas hostilidades e a reconsideração da decisão que admitiu a participação das supostas vítimas, desde a fase da investigação, como assistentes de acusação.

“Não se pode construir privilégios em investigações criminais e, por tal razão, não se pode admitir a manutenção do sigilo fragmentado da prova no caso em exame”, disse a PGR a respeito do sigilo. Lembrou ainda que a restrição imposta prejudica o trabalho do Ministério Público e afeta a compreensão dos fatos pela opinião pública.

Sobre a participação de Alexandre de Moraes e familiares como assistentes de acusação, a PGR afirmou se tratar de um “privilégio pessoal”, em razão de inexistir essa figura na fase de investigação. “Não se tem notícia de precedente de admissão de assistência à acusação na fase inquisitorial. Tal privilégio jamais foi admitido para quaisquer das autoridades acima elencadas, nem mesmo para o presidente da República”, diz o recurso do Ministério Público.

Talvez se pense, não sem razão, que o inquérito das supostas agressões no aeroporto de Roma é um caso menor, em comparação com outros processos importantes do STF, que afetam toda a sociedade. No entanto, é nos casos aparentemente pequenos que se manifesta o efetivo respeito de um tribunal pela lei. Não há nenhum sentido em conceder tratamento diferenciado a um ministro do STF, tratamento este que nenhum outro cidadão recebe por parte da Justiça.

Por isso, ao recorrer da decisão do ministro Dias Toffoli, a PGR não confrontou a autoridade do STF, como alguns disseram. O que fez, isso sim, foi prestar um favor ao Supremo, ao dar a oportunidade para que ele se emende e revogue as medidas excepcionais. Não faz bem à autoridade de uma Corte constitucional a concessão de privilégios a seus integrantes.

Ninguém tem dúvida de que, no caso concreto, os direitos do ministro Alexandre de Moraes e de sua família serão exemplarmente respeitados. Ou seja, não há necessidade de medidas que, mesmo não sendo proibidas por lei, são manifestamente inusuais.

Não deve haver tolerância com agressões e ameaças contra o STF, seus ministros e familiares. Se houve alguma conduta criminosa, os autores têm de ser punidos. Mas nada disso autoriza descumprir a lei ou criar privilégios, simplesmente porque a suposta vítima é ministro do Supremo. Esta é a melhor defesa que se pode fazer do STF: para todos, a mesma lei.

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UM PAÍS EM REGIME DE URGÊNCIA

Editorial O Estado de S. Paulo

Quantidade de projetos que tramitaram neste ano em regime de urgência na Câmara, driblando comissões e debates, desmoraliza instrumento legítimo para acelerar votações relevantes

A Câmara dos Deputados aprovou neste ano 115 pedidos de urgência para acelerar a tramitação de projetos de lei. Não haveria indignação se todos os textos ancorados nesse regime versassem sobre temas emergenciais para a sociedade brasileira, como prega o regimento da própria Casa. Ocorre que não é esse o caso. A banalização do uso de um instrumento excepcional e legítimo, para driblar as comissões especializadas e as audiências públicas e encurtar o caminho de projetos até o plenário, traduz-se em enfraquecimento do processo legislativo. É abusivo e injustificável.

Reportagem do Estadão informa que, desde fevereiro de 2021, quando o deputado Arthur Lira (PP-AL) assumiu a presidência da Câmara, 360 solicitações de regime de urgência foram aprovadas. No triênio anterior, os pedidos somaram 261. É fato que as regras de urgência haviam sido adotadas temporariamente como regulares durante o período da pandemia de covid-19, como meio de impedir a paralisia dos trabalhos da Casa. Superada a crise sanitária, o mesmo Lira que determinou o retorno do trabalho presencial em 15 de outubro de 2021 e a retomada das atividades das comissões manteve flexível o uso – ou melhor, o abuso – desse mecanismo. Virou rotina.

É preciso ter sólidas razões para apressar a tramitação das matérias legislativas, abrindo mão do relevante exame de projetos de lei por comissões permanentes e temporárias, especializadas nas temáticas abordadas pelos textos, e pelas audiências públicas, onde entidades setoriais e a sociedade civil apresentam seus argumentos e confrontam seus interesses. Não à toa, a urgência é recomendada somente quando a pressa na adoção de leis emergenciais se sobrepõe à tramitação regular. O regimento da Câmara sublinha com clareza que tal instrumento está reservado para casos de defesa da sociedade democrática e das liberdades fundamentais, situações de calamidade pública, aprovação de acordos internacionais, declarações de guerra, de Estado de Defesa, de Estado de Sítio e intervenções federais nos Estados.

Não seria cabível, portanto, a propostas como a que previu pena de prisão de quatro anos a quem discriminasse políticos, de autoria da deputada Dani Cunha (União-RJ), aprovada no plenário apenas 21 dias depois de outorgado o regime de urgência. Muito menos a concessão desse mesmo tratamento ao projeto de lei de regulamentação de apostas esportivas e legalização dos jogos de azar. Ambos se somam a dezenas de textos que muito bem poderiam ter caminhado pelas comissões pertinentes antes de serem levados ao plenário – onde não raro parlamentares votam sem antes nem sequer lerem o texto.

Um elemento tortuoso nesse processo de tramitação a jato o torna ainda mais problemático: o poder de blocos partidários com mais de 171 parlamentares em sua base, que necessitam apenas da assinatura de seu líder para que um requerimento de urgência seja incluído na pauta da Câmara. Tal é a circunstância do agrupamento composto por União Brasil, PSDB-Cidadania, Avante, Solidariedade e Patriota, com 175 deputados. Aos blocos com menos votos, é preciso a assinatura de pelo menos dois líderes.

Assim como é amplamente questionável o abuso de medidas provisórias por parte do Executivo, como meio de antecipar a aplicação de regras antes do necessário exame do Legislativo, a deturpação do regime de urgência na tramitação de projetos de lei pela Câmara dos Deputados merece condenação. A “Casa do Povo” não é assim designada somente por sua representação proporcional da cidadania dos Estados, mas também por pressupor o debate exaustivo e em etapas antes da decisão final do plenário – princípio compartilhado pelo Senado Federal.

No mínimo, espera-se seriedade dos deputados federais e dos líderes partidários na formulação e aprimoramento de leis a serem cumpridas por toda a sociedade. Fugir do rito regular de tramitação de projetos por meio de artifícios marotos, sem que haja uma emergência real a justificálos, é abuso que nenhuma democracia pode tolerar.

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UM ATRASO MAROTO

Editorial O Estado de S. Paulo

A demora para indicar um nome ao STF reforça as piores impressões. Mais que cumprir os requisitos constitucionais, Lula pretende tratar a Corte como anexo do Palácio do Planalto

A ministra Rosa Weber aposentou-se no dia 30 de setembro. Desde então, houve muitas especulações sobre quem seria a pessoa indicada para ocupar sua cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF). O fato, no entanto, é que o presidente Lula da Silva ainda não exerceu sua competência privativa, prevista na Constituição, e o Supremo completou um mês desfalcado, com apenas 10 ministros.

Duas coisas chamam a atenção nesse atraso do presidente Lula da Silva. Em primeiro lugar, é o desrespeito com a Corte constitucional. A aposentadoria da ministra Rosa Weber não foi um ato imprevisto. Já se sabia que uma cadeira do STF ficaria vaga no fim de setembro de 2023 e, sendo sua competência privativa, cabia ao presidente da República definir quem iria indicar para o cargo. No entanto, Lula da Silva nada fez até aqui.

Essa omissão do líder petista escancara uma percepção equivocada sobre o exercício do poder. A competência privativa de indicar um nome a ser sabatinado pelo Senado para compor o STF não é mero arbítrio, como se fosse uma faculdade que pode ou não ser exercida, a depender de seus interesses. Trata-se de um dever constitucional. É certo que não há um prazo, mas isso não significa autorização para omitir-se – ou para atuar apenas quando for do seu agrado.

É a clássica distinção entre exercício de um direito (passível de ser realizado na perspectiva do interesse próprio) e exercício de um poder (que deve ser realizado na perspectiva do interesse de outrem). Um exemplo é o pátrio poder, que deve ser exercido não em benefício de quem detém esse poder, mas segundo o melhor interesse dos filhos. Lula da Silva parece ver nos poderes inerentes à Presidência da República um direito pessoal, a ser exercido exclusivamente para atender a seus desejos e idiossincrasias.

O segundo aspecto também se relaciona com o uso enviesado do poder. Não há nenhum indício mostrando que a demora de Lula da Silva para indicar uma pessoa a ocupar a vaga da ministra Rosa Weber esteja relacionada com a definição de um bom nome para o STF. É todo o contrário, como se o decurso de tempo pudesse facilitar a aceitação do nome que o presidente da República deseja colocar no STF.

A indicação de um ministro para a Corte constitucional representa uma grave responsabilidade, mas não é uma tarefa hercúlea, a demandar um longo período de tempo, uma reflexão sem fim. A Constituição de 1988 é exigente, mas não é complicada. Estabelece que os ministros do STF devem ser “escolhidos dentre cidadãos com mais de trinta e cinco e menos de setenta anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada”.

Cabe, portanto, ao presidente da República verificar se suas opções de nomes têm notável saber jurídico e reputação ilibada. É isso o que precisa ser analisado. No entanto, a demora na indicação da pessoa escolhida transmite uma mensagem completamente distinta do que dispõe a Constituição, como se o procedimento de escolha envolvesse sofisticados cálculos e acordos políticos. Nesse decurso de tempo, o STF fica desgastado, quando deveria ocorrer exatamente o contrário. O rito constitucional previsto para o preenchimento das vagas do STF deve fortalecer a autoridade da Corte, e não enfraquecê-la.

Sempre, mas especialmente nos tempos atuais conturbados, é necessário preservar e zelar pela identidade institucional do STF. Trata-se de um órgão jurídico, e não político. E seu caráter jurídico se expressa especialmente na independência de seus ministros. A Corte não está subordinada nem ao Legislativo nem ao Executivo. No entanto, ao atrasar a indicação, Lula da Silva dá sinais de que vê no Supremo um anexo para tratar de seus interesses – e, por isso, seria tão fundamental toda essa articulação prévia.

O PT não lida bem com autonomia. Almeja tudo ao alcance do seu cabresto. Não é, portanto, surpresa que Lula da Silva tenha dificuldade em indicar alguém para uma cadeira onde há uma série de prerrogativas constitucionais para assegurar a independência. Cabe ao Senado não se deixar manipular.

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ESTRAGO FEITO

Editorial Folha de S. Paulo

Sinal de Lula de que não cortará gastos libera demanda de aliados e do Congresso

Depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarar seu descompromisso com a meta de zerar o déficit primário federal em 2024, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não se saiu melhor.

Em entrevista, abusou de condescendência com os profissionais da imprensa, o que é sempre um mau sinal. Irritado, não respondeu perguntas óbvias de jornalistas a respeito de qual é, afinal, o plano do governo, restando claro que não conta com o apoio do presidente na tarefa de equilibrar as contas.

A sinalização é ruim não porque já houvesse ceticismo no setor privado —expectativas de analistas apontavam para um resultado negativo até maior, de R$ 89 bilhões, equivalente a cerca de 0,8% do PIB.

Mas, com o sinal verde de Lula, que voltou à carga nesta terça (31) para dizer que não cortará gastos, todas as demandas políticas, do Planalto e do Congresso, poderão agora ser incluídas no Orçamento.

Sem a liderança do Executivo, não será possível conter a sanha por emendas parlamentares, agora impositivas, que deixarão de ser contingenciadas, entre outros itens. O governo discute o tamanho da revisão da meta, que pode apontar déficit de pelo menos 0,5% do PIB no ano que vem. Com isso, as projeções para 2024 devem piorar.

O mandatário age para aplacar pressões de seu núcleo político, que deseja manter obras e, com isso, evitar o já esperado desaquecimento da economia. A popularidade presidencial também dá sinais de queda, o que tende a aumentar bastante a impaciência.

Desde sempre já estava claro que todo o edifício do novo arcabouço fiscal dependia de mais receitas, mas ao menos Haddad prometia algum controle de gastos. Se a agenda já era difícil no Congresso, que insiste em aprovar despesas, fica quase impossível antever qualquer disposição mais cautelosa.

Será um erro grave manter esse rumo. As consequências para a economia serão danosas, na forma de juros mais altos, como já se observa, além de desvalorização do real e aumento da inflação. Com gastos frouxos, a política monetária terá que ser mais apertada.

A cantilena de que há interesses escusos por trás da demanda de austeridade não se sustenta. Longe de ganância do mercado, é a mecânica inescapável da indisciplina fiscal que impõe custos para a sociedade. Eis o círculo vicioso que aprisiona o país na armadilha do baixo crescimento.

Não ajuda, além disso, que os juros internacionais estejam em alta, o que recomenda cuidado redobrado. Corre-se o risco, agora cada vez mais palpável, de que se colha o oposto do que se busca —degradação econômica e mazelas sociais. O filme poderá se repetir, sempre com final infeliz.

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MUDANÇA DA META FISCAL PIORA AS EXPECTATIVAS

Editorial Valor Econômico

Ao deixar em aberto o esforço fiscal que pretende fazer, o governo insinua que ele também será objeto de barganha política

Ao reunir-se ontem com os líderes e presidentes de partidos da base governista na Câmara dos Deputados, o presidente Lula disse que não quer gastar mais, só não pretende contingenciar - isto é, gastar menos. Entre aumentar ou diminuir despesas encontra-se a meta fiscal. Pelo novo regime, elas crescerão até 2,5% além da inflação (teto), sem que, entretanto, ultrapassem 70% das receitas primárias. Quanto mais perto da zeragem do déficit ela estiver, maior terá de ser a receita em relação aos gastos. Em outras circunstâncias, haveria a possibilidade de cortes dos dispêndios para equilibrar as contas. No regime aprovado, isso só ocorrerá se a meta correr o risco de ser descumprida. É o que o presidente Lula quer evitar, ao desdenhar publicamente da importância do resultado primário. Com isso, o presidente deslocou o pêndulo do esforço político de seu próprio governo e das expectativas dos partidos supostamente aliados no Congresso.

Minoritário no Legislativo, o governo tinha um norte claro em suas relações com o Centrão, indicado pela pauta econômica regida pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e baseada no aumento da arrecadação tributária. Ela financiaria dentro de certos limites fixos a expansão de gastos e investimentos, e os investidores refizeram suas expectativas diante da austeridade “possível” no governo atual, um cenário menos ruim do que a gastança irrefreada defendido pela ala dura do PT. Essa premissa alinhava também os líderes do Centrão e colocava algumas restrições a seu apetite de apropriação orçamentária.

Parecia a repetição habitual da forma com que o Executivo conduz a pauta no Congresso, sob o signo da economia, orientando os rumos da votação em direção a seus objetivos expressos. A maneira usual de governar, porém, foi corroída pelo desgaste do PT com os escândalos de corrupção, que o levaram a uma vitória por ínfima margem em relação a Bolsonaro e pelo preenchimento do vácuo por forças fisiológicas do Centrão, que deu um protagonismo ímpar ao Congresso. Esse equilíbrio, escudado no novo regime fiscal, na reforma tributária e nas medidas para aumento das receitas, foi gravemente danificado pela entrevista de Lula, ao dizer que a meta não precisaria ser cumprida e insinuar que isso para ele não tinha importância alguma.

A reação do relator da Lei de Diretrizes Orçamentária, Danilo Forte (União-CE), foi imediata e significativa. Ele disse que o presidente “jogara a toalha” e que o sinal viera de cima para mudar a meta fiscal. O alívio do relator foi sentido pela ala petista do governo, vocalizado com estridência pela presidente do partido, Gleisi Hoffmann, e com voz bem baixa pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa.

O presidente Lula gosta de ouvir vozes divergentes em seu governo, como mostrou no passado, e de ser árbitro nas disputas. Ainda assim, na maior parte das vezes, esse era um processo de decisão intramuros, mesmo com os inevitáveis vazamentos. Raras vezes, porém, o presidente desautorizou ao vivo e em cores seu principal ministro em público, colocando um enorme senão nas principais diretrizes que vinham sendo seguidas pelo seu próprio governo. Tudo isso poderia ser resolvido a seu tempo e com uma conversa tranquila com poucos interlocutores. A atitude de Lula foi desastrosa.

Os novos ventos que o Planalto sopra para o Centrão são de que não haverá cortes orçamentários que prejudiquem os acordos de repartição de verbas em emendas e projetos do Congresso. É surpreendente o fato de que o Centrão apertava o cerco ao governo em várias frentes, da ampliação de emendas impositivas à ocupação de cargos na Caixa, Funasa e estatais, mas não a respeito da meta fiscal. Com a barganha, a Câmara acabara de aprovar as mudanças na taxação de fundos offshore e exclusivos, ampliando as receitas pelas quais Haddad se esforçava por obter. Lula pediu ontem aos líderes da base que se esforcem para aprovar os projetos do governo que aumentem as receitas tributárias. O pedido agora, depois de dinamitar o déficit zero, tem outro sentido. Como o aumento de despesas é uma proporção fixa do aumento de receitas, o presidente procura espaço para ampliar gastos. Uma meta de déficit camarada pode limitar o esforço fiscal ao mesmo tempo que impedir seu descumprimento, que acarretaria, no exercício seguinte, uma série de restrições, entre elas a redução da expansão de gastos a 50% das receitas.

A definição da meta terá consequências no resto do mandato. Ao defender o equilíbrio fiscal, Haddad, em acordo com Lula, daria a indicação de que o governo seguiria uma trilha previsível, capaz de diminuir o passo do endividamento, trazer a inflação de volta para a meta, reduzir os juros insustentáveis e criar um ambiente mais favorável ao crescimento. Mas o presidente mudou de ideia. Com isso, piorou as expectativas sobre o ritmo da queda de juros e da inflação, o grau de endividamento e o próprio crescimento da economia.

Ao deixar em aberto o esforço fiscal que pretende fazer, o governo insinua que ele também será de certa forma objeto de barganha política, um passo errado e arriscado demais tendo em vista a fragilidade de sua representação no Congresso.

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OUTROS PAÍSES TRAZEM INSPIRAÇÃO PARA O BRASIL LIDAR COM ENVELHECIMENTO

Editorial O Globo

Políticas públicas voltadas para população mais velha devem ser estudadas e adotadas desde já

Não é novidade o envelhecimento do Brasil. O que chama a atenção dos demógrafos é a velocidade com que ocorre. Pelos dados do Censo de 2022, a população com 65 anos ou mais cresceu 57,4% desde 2010. São 22,1 milhões de brasileiros, ou 11% do total. Um quinto dos idosos são octogenários. O Censo adiantou para o início dos anos 2030 o momento em que a população economicamente ativa parará de crescer, encerrando o bônus demográfico com que todo país conta para se desenvolver. Desde já, os desafios são imensos.

Os mais óbvios estão nos sistemas de saúde e previdenciário. O SUS precisará estar pronto para atender mais idosos. Serão necessárias novas reformas na Previdência para garantir sua sustentabilidade. Mas as necessidades de um país mais velho não se resumem ao óbvio. O Brasil precisa analisar com atenção o exemplo de países que têm enfrentado o envelhecimento com sucesso. Pela primeira vez há no planeta mais habitantes com mais de 65 anos do que com menos de 5. A transformação é global.

Em estudo recente, o Banco Mundial apontou o Uruguai como exemplo na América Latina de preparação para a transição demográfica. A estimativa é que o custo dos serviços sociais básicos cresça de 25% do PIB em 2013 para 43% em 2100. Além de preparar o sistema de saúde para arcar com a demanda mais complexa, os uruguaios precisarão investir para aumentar a produtividade da economia, manter os idosos ativos e ampliar desde já a capacidade de poupança da população que envelhecerá. Só assim uma economia com menos gente trabalhando será capaz de sustentar a todos no futuro.

O Fórum Econômico Mundial destaca dois exemplos inspiradores: Japão e Cingapura, ambos com um quarto da população acima dos 65. Em Cingapura, um programa do governo lançado em 2014 dá a cada cidadão uma poupança para uso em cursos de formação em qualquer idade. Há políticas para manter fundos para idosos incapazes de sustentar a própria aposentadoria e para incentivar moradia perto da família, reduzindo custos com cuidadores.

No Japão, são conhecidos os planos de saúde generosos subsidiados pelo governo, assim como esquemas de aposentadoria que pagam por serviços como compras domésticas, cuidados pessoais e medicina preventiva. Em 2015, o governo lançou um programa que investe em tecnologia e robótica para ajudar cuidadores e que implementa mudanças de design para adequar instalações urbanas, transportes ou móveis às necessidades dos mais velhos. As cidades vêm sendo adaptadas para mantê-los saudáveis e produtivos.

O Brasil é pobre e desigual, tem diversas outras prioridades, mas nada nos impede de começar a pensar desde já em estabelecer normas de design para locais de trabalho adequadas a idosos ou criar políticas de treinamento e aprendizado na aposentadoria. Não faltam casos bem-sucedidos de acolhimento e apoio aos mais velhos. O país tem de se preparar para permitir que os idosos mantenham saúde física e mental. Todos sairão ganhando.

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É SENSATO RECURSO DA PGR EM PROCESSO ENVOLVENDO MORAES

Editorial O Globo

Ministro foi aceito como assistente da acusação em inquérito que apura agressão em aeroporto

Tem razão a procuradora-geral da República interina, Elizeta Ramos, em impetrar recurso contra a inclusão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes como assistente de acusação no inquérito que apura as circunstâncias do tumulto provocado por bolsonaristas contra a família dele na Itália. Permitir a participação de Moraes numa acusação em estágio inicial — não há sequer formalização de indiciamento nem denúncia — seria, nas palavras dela, um “privilégio incompatível com o princípio republicano”. A decisão partiu do ministro Dias Toffoli, relator do caso no STF. Se não for suspensa, permitirá a Moraes sugerir obtenção de provas e questionar testemunhas num caso em que ele próprio é parte envolvida.

O episódio ocorreu na porta da sala VIP do aeroporto internacional de Roma no dia 14 de julho. Moraes e sua família voltavam ao Brasil depois de ele proferir palestra na Universidade de Siena. O ministro conta que foi xingado de “bandido, comunista e comprado” por uma mulher identificada como Andreia Munarão. Pelo relato dele, Roberto Mantovani Filho, marido de Andreia, deu um tapa no rosto do filho de Moraes, Alexandre Barci. Em seguida, Andreia voltou com o genro, Alex Zanatta Bignotto, e soltou novas ofensas.

De volta ao Brasil, Moraes acionou a Polícia Federal (PF). Foi instaurado inquérito para apurar as circunstâncias e os crimes de injúria, perseguição e desacato. Andreia, Mantovani Filho e Bignotto negam as acusações. Após chegarem ao interior de São Paulo, onde moram, os três foram alvo de mandados de busca e apreensão, medida tida pela defesa como injustificada. Suas residências foram vasculhadas e seus celulares apreendidos. Mesmo que houvesse a suspeita de vínculo com os ataques do 8 de Janeiro, foi um exagero.

As imagens das câmeras de segurança do aeroporto de Roma só chegaram ao Brasil mais de um mês e meio depois do fato. Em relatório, a PF afirmou que “constatou-se que a atitude hostil e agressiva de Roberto Mantovani Filho e de sua esposa, Andreia Munarão, (…) contribuíram sobremaneira para o desencadeamento de uma discussão com o filho do ministro Alexandre de Moraes, Alexandre Barci de Moraes, que culminou numa aparente agressão física de Roberto Mantovani contra Alexandre Barci”. A defesa dos acusados alega que a perícia italiana é menos conclusiva. Os vídeos não são públicos. Por decisão de Toffoli, as imagens podem ser vistas apenas pelas partes, nas dependências do tribunal.

Hostilidades e agressões a autoridades, como a qualquer cidadão, devem ser coibidas e punidas. Não há a menor dúvida sobre isso. O Código de Processo Penal permite a vítimas de crimes atuar como auxiliares do Ministério Público na fase de processo. Embora não proíba na fase de inquérito, é prática inusitada. Não há lei que confira tal privilégio a autoridades. “Não se tem notícia de precedente de admissão de assistência à acusação na fase inquisitorial”, diz o recurso da PGR. “Tal privilégio jamais foi admitido (...) nem mesmo para o Presidente da República.”

Mantida a participação de Moraes no atual estágio da investigação, passarão a pairar dúvidas sobre o direito de defesa dos acusados. Mesmo que se busque uma condenação exemplar para quem interpela e calunia autoridades em lugares públicos, o devido processo legal precisa ser respeitado. Ainda mais quando um dos envolvidos é um ministro da mais alta Corte do país.

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