segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

OS DESAFIOS PARA A ATIVIDADE ECONÔMICA EM 2025

Sergio Lamucci, Valor Econômico

PIB deve ter desaceleração mais forte a partir do segundo trimestre, num ambiente marcado pelo quadro externo adverso e incertezas fiscais que pressionam juros

A economia brasileira terminou 2024 num ritmo mais fraco do que nos três trimestres anteriores, e a desaceleração da atividade tende a continuar ao longo de 2025, embora a agropecuária deva levar o PIB a um crescimento expressivo no período de janeiro a março. Juros altíssimos e o esgotamento dos estímulos fiscais e de crédito afetarão especialmente os segmentos mais cíclicos da economia, como a indústria de bens de consumo duráveis e grande parte dos serviços, avalia a economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Como pano de fundo, além do cenário externo mais adverso, as incertezas sobre as contas públicas tendem a manter o dólar e os juros de longo prazo em níveis ainda muito elevados, turvando o quadro econômico neste ano.

A perda de fôlego da atividade ficará mais clara no segundo trimestre, e o risco de uma recessão técnica em 2025 - com queda do PIB por dois trimestres consecutivos - é considerável. É um ambiente de muita imprevisibilidade para as empresas, com dólar vólátil e juros básicos muito altos, e em que a inflação se mantém distante da meta de 3%. Projetos de modernização e ampliação da capacidade produtiva podem ser adiados, afetando a retomada do investimento observada em 2024.

O cenário externo será marcado por muita indefinição. Na semana passada, Donald Trump mostrou a que veio, elevando as tarifas de importação sobre México, Canadá e China, depois de algumas semanas em que se criou a expectativa de que o presidente dos EUA poderia ser brando na política comercial. Novas pressões sobre o dólar no mercado global podem aparecer a partir deste mês, o que é negativo para moedas de emergentes como o Brasil.

Ao longo de janeiro, o dólar cedeu por aqui, recuando 5,54% no mês, para R$ 5,8372. Além de o forte fluxo de saída de recursos de dezembro ter ficado para trás, a moeda perdeu força porque Trump não anunciou de imediato aumentos de tarifas de importação sobre os principais parceiros comerciais. O dólar se enfraqueceu no mercado global e a moeda no Brasil caiu abaixo de R$ 6. Esse quadro, porém, tende a mudar. Além de taxar mais as compras provenientes de México, Canadá e China, os EUA devem fazer o mesmo com a União Europeia dentro de um mês ou dois e também planejam implementar uma tarifa universal em abril, diz a Capital Economics, em relatório. Para a consultoria, a imposição de tarifas de 25% para as importações do México e do Canadá e uma taxa extra de 10% para as da China “são apenas o primeiro golpe do que pode se tornar uma guerra comercial global muito destrutiva”. Na visão da Capital, o impacto dessas tarifas e de outras medidas sobre a inflação nos EUA deve ser mais rápido e maior do que se esperava inicialmente. Com isso, a janela para cortes dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) nos próximos 12 a 18 meses acabou de se fechar, diz a consultoria.

Nesse cenário, é possível que o dólar por aqui volte a subir, ou pelo menos interrompa a queda que levou a cotação abaixo de R$ 5,85. Para evitar um quadro mais negativo, seria fundamental que o governo reduzisse as incertezas sobre as contas públicas, ainda o maior fator de pressão sobre o câmbio e sobre os juros de longo prazo. Sem isso, a desaceleração da economia pode ser ainda mais expressiva do que já se desenha.

Nas contas de Silvia Matos, o PIB cresceu no quarto trimestre de 2024 0,7% em relação ao trimestre anterior, depois de ter avançado 0,9% de julho a setembro. Para o primeiro trimestre deste ano, ela espera um crescimento de 1%, mas esse desempenho se deverá principalmente à agropecuária, que poderá ter alta de 10% no período.

O resultado tende a piorar significativamente a partir de abril. Para Silvia, o PIB ficará estável no segundo trimestre, recuando 0,1% no terceiro e crescendo 0,3% no quarto, em todos os casos na comparação com os três meses anteriores, feito o ajuste sazonal. Como os percentuais são baixos, é possível que haja recessão técnica, diz ela.

O mercado de trabalho deu sinais de desaceleração no fim de 2024, como mostraram os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua divulgados na semana passada. Silvia observa ainda que já há “indicação das sondagens setoriais e do consumidor sinalizando perda de fôlego. “As atividades mais cíclicas crescem menos, com desaceleração do consumo de duráveis, impactando a indústria, e os serviços ficam mais fracos também”, afirma ela. Entre os setores não cíclicos, a indústria extrativa deve ir bem, além da agropecuária. Para 2025, há o impacto sobre a atividade da Selic elevada, que poderá superar 15% ao ano, menores estímulos fiscais da União e de crédito e piores condições financeiras (o conjunto formado por indicadores como juros de longo prazo, câmbio, risco-país e ações).

O FGV Ibre estima que a economia cresceu 3,6% em 2024, devendo avançar 1,8% neste ano, com uma variação do PIB bem fraca a partir do segundo trimestre. O número “cheio” de 2025 deverá ser muito influenciado pela herança estatística de 2024, que Silvia estima em 1,3%. Isso significa que, se o PIB não crescer nada em relação ao quarto trimestre do ano passado, o crescimento de 2025 será de 1,3%. Para comparar, a herança estatística de 2023 para 2024 foi de apenas 0,2%, nota Silvia.

A desaceleração da economia em 2025, desse modo, será mais forte do que sugere a previsão de um crescimento para o ano um pouco inferior a 2%. Num momento em que o cenário externo será marcado por grande imprevisibilidade, seria ainda mais importante o governo atuar para reduzir as incertezas, concentradas no front fiscal. Nesse ambiente, é desanimadora, ainda que nada surpreendente, a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na entrevista coletiva na semana passada, afirmando que não pretende adotar novas medidas de contenção de gastos neste ano.

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TRABALHO ESCRAVO: VERGONHA QUE RESISTE

Editorial Correio Braziliense

Não são estados considerados menos desenvolvidos que lideram a vexatória lista da escravidão moderna. Nos primeiros lugares em total de flagrantes estão duas das mais prósperas unidades da federação: Minas Gerais e São Paulo

Em pleno século 21, quando se discutem avanços tecnológicos do porte da inteligência artificial ou questões de direito trabalhista, como a duração da jornada semanal, uma chaga teima em permanecer aberta no Brasil, degradando a dignidade de algumas das parcelas mais frágeis da população. O mais recente balanço do Ministério do Trabalho mostra que o trabalho escravo contemporâneo segue como prática disseminada pelo país e, embora seja mais comum em rincões remotos, não raro é flagrado em áreas urbanas e até mesmo em ambientes familiares.

Dados de 2024 apontam que, em 1.035 ações de fiscalização direcionadas especificamente a essa questão, nada menos que 2.004 trabalhadores foram identificados em condições semelhantes à escravidão. Chama a atenção o fato de que, embora as lavouras sejam, no conjunto, o ambiente em que mais foi flagrado esse tipo de exploração, a construção civil figure individualmente como setor com maior número de resgatados no ano passado: 293, segundo estatísticas oficiais.

Outro dado preocupante indica que não são estados considerados menos desenvolvidos que lideram a vexatória lista da escravidão moderna. Nos primeiros lugares em total de flagrantes, estão duas das mais prósperas unidades da federação e do Sudeste brasileiro: Minas Gerais e São Paulo.

No último ano, Minas repetiu a triste liderança nesse quesito, que ocupa desde 2013: nada menos que 500 trabalhadores foram resgatados no estado em condições semelhantes à escravidão. É como se uma a cada quatro pessoas identificadas em todo o país nessa condição sub-humana no ano passado estivesse em terras mineiras.

São Paulo, estado mais próspero do país e o que teve maior número de fiscalizações no período — foram 191, contra 136 em Minas Gerais — vem logo abaixo na lista, com 467 trabalhadores resgatados. Fecham o grupo dos 10 mais, com números consideravelmente menores, Bahia (198), Goiás (155), Pernambuco (137), Mato Grosso do Sul (105), Espírito Santo (59), Maranhão (57), Rio Grande do Sul (56) e Paraná (43).

Desde 1995, ano do reconhecimento oficial da existência de formas contemporâneas de escravidão no país, 65.598 pessoas foram salvas dessas condições por operações do poder público. Para efeito de comparação, se reunidos esses trabalhadores, somariam mais que a população individual estimada em mais de 5 mil dos 5.570 municípios brasileiros.

Entre 2003, quando começou a ser registrada a série histórica, e o ano passado, o Ministério do Trabalho contabiliza mais de R$ 155 milhões em verbas trabalhistas e rescisórias pagas por infratores às vítimas. Mas a punição, que inclui registro em cadastro negativo de empregadores e pena de até 8 anos de detenção — aumentada em 50% se a prática for motivada por etnia, cor, religião ou origem, ou se a vítima for criança ou adolescente —, não tem sido suficiente para erradicar esse tipo de crime.

Eliminar o trabalho escravo contemporâneo no país, como atesta o próprio governo, "depende de uma atuação abrangente do Estado, em constante articulação com a sociedade civil". Longe de ser tarefa apenas do poder público, denunciar situações do tipo e cobrar ações, fiscalizações e punições cada vez mais efetivas é papel das instituições e de cada cidadão, para identificar e responsabilizar exemplarmente os que seguem buscando enriquecer à custa do sofrimento e da dignidade de outros seres humanos.

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O SEGREDO DE JANJA

Editorial O Estado de S. Paulo

A primeira-dama almeja os bônus da função pública sem o ônus da transparência

Não existe o cargo de “primeira-dama” na administração pública brasileira. Como se sabe, trata-se apenas de um título informal de designação do cônjuge do chefe do Poder Executivo. No entanto, o governo do presidente Lula da Silva tem atribuído à primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, um papel institucional que não tem lugar na estrutura formal do Estado. Em outras palavras: Lula posicionou sua mulher em uma espécie de limbo funcional, o que é muito conveniente para o governo e para a própria Janja.

Sempre que é questionado pela imprensa, não raro por meio da Lei de Acesso à Informação, sobre a agenda e as despesas públicas de Janja, o Palácio do Planalto, sistematicamente, as sonega sob a justificativa de que a primeira-dama “não exerce função pública” nos termos da Lei 8.112/90, razão pela qual ela estaria isenta de prestar contas à sociedade.

Contudo, quando interessa ao governo ou à própria Janja, a primeira-dama assume uma posição de destaque, quando não de protagonismo, em eventos oficiais no Brasil e no exterior, representando o governo do marido ou até mesmo o Estado em eventos e instâncias nos quais, a rigor, só servidores ou mandatários investidos do múnus público teriam legitimidade para atuar em nome do País.

Exemplos da atuação pública de Janja são abundantes. A primeira-dama representou o Brasil na cerimônia de abertura da Olimpíada de Paris, teve participação destacada nos eventos ligados à cúpula do G-20 no Rio, em novembro passado, e, em breve, deverá representar o País em um fórum em Roma sobre a Aliança Global de Combate à Fome, ao lado do ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias. Na ausência de Lula, por que é Janja quem irá a Roma, e não o vice-presidente Geraldo Alckmin ou o embaixador do Brasil na Itália?

Como se vê, por um lado, Janja exerce atividades típicas de uma autoridade pública quando lhe convém, inclusive influenciando políticas e agendas do governo. Por outro, o Palácio do Planalto se recusa a prestar informações sobre o exercício dessas funções, eximindo-se da obrigação de prestar contas e divulgar detalhes da agenda oficial da primeira-dama. Essa contradição afronta o princípio da publicidade, estabelecido no art. 37 da Constituição, além de violar o direito constitucional da sociedade à informação, previsto no art. 5.º, inciso XXXIII, da Lei Maior.

A transparência na administração pública é inegociável, pois se trata de uma das vigas mestras da democracia. Qualquer um que exerça função pública, de jure ou de facto, deve estar submetido aos mecanismos de controle exigidos pelo ordenamento jurídico pátrio. O status impreciso de Janja, portanto, além de suscitar sérias dúvidas quanto ao compromisso do governo de seu marido com a publicidade de seus atos, ainda se afigura como uma violação permanente da legislação brasileira.

Não se pode servir a dois senhores. Janja não pode usufruir dos bônus da função pública ao mesmo tempo que o governo manobra para evitar seus ônus a todo custo.

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O PACOTINHO FISCAL

Editorial O Estado de S. Paulo

Se o ajuste já não enfrentava as disfunções estruturais que degradam as contas públicas, mesmo seus arremedos de contenção serão anulados pelos gastos a serem incorporados ao Orçamento

É sintomático que, ao anunciar em cadeia nacional, no final de novembro, o pacote de “corte de gastos” do governo, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não tenha pronunciado uma única vez a palavra “corte”. Deliberadamente ou não, foi sincero. Mesmo em sua idealização original, o pacote não trazia nenhuma redução nas despesas totais da União. Na melhor das hipóteses, desaceleraria o seu crescimento na expectativa de que ele não superasse o crescimento da economia. Como essa expectativa não era sólida, os agentes de mercado se refugiaram no dólar. Agora, o que já não era sólido se desmanchou no ar. À época se dizia que a montanha pariu um rato. Mas até o rato era ilusão de ótica.

O Orçamento de 2025 foi enviado pelo governo ao Congresso em agosto, mas sua aprovação foi adiada e deve acontecer só neste mês. Conforme apurado pelo Estadão, os gastos que precisarão ser incluídos praticamente empatam com os “cortes” projetados no pacote fiscal. Isso porque algumas despesas crescerão mais que o previsto e programas que foram surrupiados da proposta orçamentária original precisarão ser incorporados.

Segundo consultores do Congresso, só o impacto da inflação sobre o reajuste do salário mínimo, que forma a base de cálculo da Previdência Social, deve elevar os gastos com os benefícios em R$ 14 bilhões. As maracutaias do governo para excluir do Orçamento os gastos do Auxílio Gás (R$ 2,8 bilhões) e das bolsas estudantis do programa Pé-de-Meia (R$ 3,6 bilhões) foram desarmadas, e eles também precisarão entrar na conta. Além disso, há os R$ 8 bilhões para o Fundo de Compensação de Benefícios Fiscais, criado pela reforma tributária para compensar empresas que perderão benefícios concedidos pelos Estados, que também não constavam da proposta orçamentária original. Tudo somado, são pelo menos R$ 28 bilhões, o que absorve praticamente todo o ajuste de R$ 29,4 bilhões estimado pela equipe econômica no pacote fiscal.

Para piorar, o aumento dos gastos pode ser ainda maior, porque a economia projetada pelo governo depende, entre outras coisas, de medidas ainda não aprovadas, como a mudança no regime de aposentadoria dos militares, e medidas administrativas que podem não ser consideradas na proposta orçamentária, como o pente-fino em benefícios sociais.

Para piorar ainda mais, as projeções de arrecadação do governo foram com toda certeza superestimadas. A única dúvida é quanto. Projetos como o do aumento das alíquotas da Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido ou o dos Juros Sobre Capital Próprio estão parados no Congresso, e suas receitas dificilmente se concretizarão. As receitas extraordinárias de R$ 28,5 bilhões projetadas para 2025 após a volta do voto de qualidade pró-Receita Federal no Conselho de Administração de Recursos Fiscais (Carf) são pura miragem. Para dar uma ideia, dos R$ 55 bilhões que o governo esperava arrecadar em 2024, o Carf entregou só R$ 307 milhões, uma realidade 99,5% menor que a fantasia de Haddad.

Entre as receitas e despesas, a Instituição Fiscal Independente, vinculada ao Senado, calcula que o governo fechará 2025 com um resultado negativo nas contas públicas de 0,7% do PIB, léguas de distância dos 2% de superávit que seriam necessários para estabilizar a dívida pública.

O apetite arrecadatório do Planalto já atingiu o limite de suas possibilidades. De resto, da maneira como o arcabouço fiscal foi projetado, o aumento das receitas eleva automaticamente as despesas obrigatórias, criando um círculo vicioso. Se algum otimista nutria a esperança de que o governo enfrentaria seriamente reformas estruturais pelo lado das despesas, como a revisão da política de aumento real do salário mínimo ou novas regras para os reajustes dos benefícios previdenciários e dos gastos mínimos com saúde e educação, ela morreu em novembro com a apresentação do pacote fiscal. Se o pacote já era apenas um pacotinho em 2024, quem o abre no ano pré-eleitoral de 2025 vê que mesmo o pacotinho está vazio.

O presidente Lula gosta de dizer que, passada a primeira metade do governo, a segunda será dedicada à colheita. Mas na seara fiscal ele só semeou vento.

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A QUADRATURA DO CÍRCULO DA REFORMA MINISTERIAL

Editorial O Estado de S. Paulo

A alta desaprovação popular de Lula pode contaminar ainda mais a prometida reforma ministerial e se tornar um perigo adicional para um governo já marcado pela disfuncionalidade

Além do risco de acelerar a adoção de medidas demagógicas e ampliar o arsenal de bobagens produzidas pelo governo, o derretimento da aprovação ao presidente Lula da Silva, radiografado pelas últimas pesquisas, tem pelo menos mais um efeito colateral significativo: fragilizar ainda mais a base de apoio do Executivo no Congresso e, consequentemente, contaminar a prometida reforma ministerial.

A tradicional cartilha que rege as relações em Brasília sugere que, com a popularidade em baixa, crescem as dúvidas sobre a musculatura política do presidente, sobretudo quando se olha para a sua sucessão em 2026, e sobem os custos da preservação de alianças, especialmente dos partidos de centro que compõem a coalizão governista. Mas o atual estágio da política brasileira não é regido apenas pelos códigos tradicionais. Se a disfuncionalidade do governo (com sua ineficiência crônica), da coalizão governista (ampla, heterogênea e fragmentada demais) e das relações com os demais Poderes (um Executivo enfraquecido, um Legislativo opaco e com poderes exacerbados pelo controle do Orçamento e um Judiciário politizado em demasia) já deixa mais penosa a vida de Lula, esse problema fica ainda mais sério diante da sua impopularidade.

Há a expectativa de que Lula faça mudanças tanto para trocar ministros com trabalho mal avaliado – e não são poucos, num governo cuja marca maior, até aqui, é a ausência de grandes marcas – quanto para reorganizar seus partidos aliados. Em outras palavras, como muitas reformas promovidas por Lula e seus antecessores, o manejo da coalizão multipartidária ancora as mudanças, pois é um modo de acomodar novos aliados, redistribuir cargos e orçamentos, fortalecer a base para aprovar agendas de interesse do Executivo, repactuar acordos ou preparar a coalizão para a próxima eleição. É do jogo. Mas essa reforma, se houver, terá também outra motivação: a ineficiência e mediocridade do ministério atual.

Como hábil prestidigitador, capaz de artimanhas para se manter no centro do universo e deliberar ao seu tempo e preferência, o presidente tem emitido sinais diversos ao sabor de suas conveniências: ora sugere que fará uma reforma ampla, ora diz que planeja mudanças pontuais. Como bom demagogo, Lula não vive sem ter a plena convicção de que é amado. Obcecado com a popularidade, inconformado com a maior desaprovação ao seu governo e ansioso pela eleição em 2026, o presidente parece escolher o caminho errado, ao intuir que precisa acelerar as pautas da esquerda.

Com uma agenda mais à esquerda do que deveria, e com a qual não foi eleito, Lula busca mirar tanto a disputa presidencial quanto moldar o seu legado – afinal, está perto dos 80 anos e não raro tem se mostrado inquieto sobre o seu futuro político. A aceleração de uma agenda de esquerda em prol de um legado lulista, contudo, tornará muito mais difícil para os partidos de centro aderirem, se não for por um preço muito mais alto do que o habitual. Na cosmologia do poder, isso significa mais recursos orçamentários e mais cargos para aliados – e maior prejuízo ao País. Vale tanto para as legendas centristas tradicionais, como MDB e PSD, quanto para o chamado Centrão, liderado pelo PP de Arthur Lira.

Se o apetite dos partidos é um fator de instabilidade adicional para o atual mandato, a concentração de poderes no PT vira um problema ainda mais grave na discussão de uma reforma ministerial. A coalizão de Lula tem hoje 18 partidos, e petistas dominam quase metade das pastas, incluindo os ministérios que funcionam perto do presidente, no Palácio do Planalto. É uma evidência da dificuldade crônica do PT de dividir o poder com aliados e da incapacidade do lulopetismo de aceitar que a volta ao poder, sacramentada com a eleição de 2022, não foi fruto das suas virtudes nem de sua agenda, mas de uma frente ampla temerosa dos riscos democráticos representados pelo bolsonarismo.

Lula precisará conciliar essas premissas aparentemente inconciliáveis. É a quadratura do círculo da sua reforma ministerial: um Executivo enfraquecido e impopular que espera agradar a aliados centristas enquanto deseja acelerar uma agenda de esquerda e resiste a dividir o poder. Não tem como dar certo.

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UMA SAÍDA POLÍTICA PARA A POLÊMICA PREVIDÊNCIA DO CHILE

Editorial Folha de S. Paulo

Após protestos de 2019 e tentativa frustrada de mudar Constituição, governo de esquerda consegue acordo para uma reforma

O governo de Gabriel Boric, presidente do Chile, parece enfim ter encontrado uma saída para atenuar as tensões em torno do sistema previdenciário do país —que desde os anos 1980 se tornou objeto de debate político e econômico que transcende as fronteiras chilenas.

Por meio de um entendimento com a oposição à direita, foi possível aprovar, na semana passada, uma reforma do regime legado pela ditadura de Augusto Pinochet, que se estendeu de 1973 a 1990. A dez meses das eleições presidenciais e legislativas, a mudança pode ser um trunfo para a esquerda alinhada a Boric.

Para o país, trata-se de um caminho mais sensato depois de tentativas frustradas de mudar todo o seu ordenamento jurídico.

Com políticas liberais —entre elas a previdência privatizada, em que cada pessoa poupa para sua aposentadoria— mantidas pela democracia, o Chile ostentou por décadas o melhor desempenho econômico da região.

Sua renda per capita era inferior à brasileira em 1984 (US$ 9.000 ante US$ 12,3 mil, segundo o cálculo do Fundo Monetário Internacional que leva em conta o poder de compra das moedas). Hoje, ela se aproxima do padrão rico, com US$ 29,5 mil, bem acima dos US$ 19,5 mil no Brasil.

Isso não impediu, porém, uma onda de protestos populares em 2019, que suscitou comparações com o que já ocorrera aqui em 2013. Os motivos eram difusos, mas a insatisfação de idosos de baixa renda com as aposentadorias estava entre os principais. Daí decorreram a eleição de Boric e propostas desencontradas para uma nova Constituiçãoque não obtiveram apoio na sociedade.

A reforma ora aprovada, longe de desmontar completamente o modelo de capitalização, preserva os fundos de pensão como o motor do sistema e a idade mínima de 65 anos para a aposentadoria de homens e mulheres.

A mudança chilena está assentada especialmente na obrigatoriedade de aportes de empresas públicas e privadas. Essa arrecadação adicional será destinada a elevar benefícios e corrigir disparidades, inclusive de gênero.

Em princípio, espera-se que as novas regras sejam capazes de elevar os valores recebidos por cerca de 20% da população até o fim desta década. Deseja-se, ademais, a inclusão de jovens e trabalhadores informais.

É cedo para dizer se a reforma atingirá seus propósitos e será sustentável. Em todo o mundo, sistemas previdenciários precisam ser ajustados de tempos em tempos. O Chile acerta ao fazê-lo de modo racional, não à base de comoção e reviravoltas.

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TODOS PERDEM COM GUERRA COMERCIAL DE TRUMP

Editorial Folha de S. Paulo

Medida que aumenta tarifas sobre importações de Canadá, México e China pode impactar mercado de trabalho e inflação

Com sua retórica beligerante costumeira, Donald Trump instituiu a primeira medida que pode gerar uma guerra comercial com grande impacto para a economia mundial.

Sem distinguir entre aliados e adversários, o presidente dos Estados Unidos decidiu impor tarifas de 25% sobre as importações do México e do Canadá —com exceção de energia, que será taxada em 10%.

Também haverá tarifas de 10% para importações da China, em adição às cobranças já vigentes, que abrangem certas categorias de produtos.

Juntos, os três perfazem 43% das importações americanas, o equivalente a US$ 1,3 trilhão (em torno de 4,8% do PIB).

A alta das taxas com essa abrangência fará com que a cobrança média sobre todas as importações passe de cerca de 3% para quase 11%, acima da tarifa linear de 10% proposta por Trump durante sua campanha eleitoral.

As justificativas alegadas não são apenas econômicas. Ao invocar poderes emergenciais, Trump mencionou o fluxo ilegal de imigrantes e drogas, em especial os opioides traficados por cartéis mexicanos com componentes obtidos na China. No caso do Canada, haveria evidência de aumento do tráfico pela maior fronteira não vigiada do mundo.

Trump faz valer, assim, sua obsessão com tarifas, que prometeu usar mais amplamente como arma, e não somente para conter o déficit comercial do país, de quase US$ 1 trilhão anual. Na melhor das hipóteses, as medidas podem ser revertidas após negociações, mas os riscos são grandes.

No caso dos vizinhos, há gigantesca assimetria. Ambos destinam quase 80% de suas exportações aos EUA, o que representa 22% do PIB do Canadá e 35% do PIB do México. Já as compras feitas pelos EUA dos dois países somam 4% do PIB americano.

Mesmo assim, o Canadá já anunciou a mesma cobrança sobre cerca de US$ 106 bilhões em bens que importa dos EUA. A China foi mais contida, prometendo levar o caso à Organização Mundial do Comércio, mas não se descarta uma reação mais dura. O México tem a posição mais frágil.

De todo modo, também haverá custos para os EUA. Mesmo com diminuta representação no PIB, as compras americanas são grandes em setores considerados críticos, como o automotivo.

A inviabilização de um pedaço da cadeia produtiva é capaz de produzir reação cumulativa que custará empregos para a população americana. Não se devem descartar efeitos recessivos.

Projeta-se ainda um impacto inflacionário, algo que pode ser contraproducente para Trump. A alta nos preços de alimentos e gasolina, afinal, foi uma das explicações para a derrota eleitoral do Partido Democrata.

Por ora, o republicano não parece se importar e acredita que seu método agressivo pode trazer vitórias imediatas. Mas o uso repetido de tarifas e da coerção pode afastar aliados e, ao longo do tempo, enfraquecer a liderança global já combalida dos EUA.

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FEBRE DAS ARMAS DE GEL IMPÕE DESAFIO LEGISLADORES E REGULADORES

Editorial O Globo

Elas não são brinquedo. Podem atingir os olhos, e seu uso frequente já é sentido nos consultórios

Impulsionadas pelas redes sociais, batalhas com armas de gel se espalharam pelo Brasil. Deveriam preocupar as autoridades pelos danos que podem causar, principalmente aos olhos. Aparentemente inofensivas, usam bolinhas de gel como munição. São facilmente encontradas à venda nas cidades brasileiras. Não se trata de simples brinquedo. Segundo o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), essas armas não podem ser classificadas assim. Embora não sejam baratas — na região da Saara, comércio popular no Centro do Rio, são vendidas em bancas de ambulantes por preços entre R$ 150 e R$ 210 —, elas têm atraído compradores de diferentes idades, em especial crianças, adolescentes e jovens.

O resultado de seu uso, cada vez mais comum, tem sido observado em consultórios. Em Pernambuco, onde viraram febre, dezenas já procuraram atendimento médico por problemas nos olhos, segundo a Fundação Altino Ventura, referência em tratamento oftalmológico no estado. Médicos dizem que as bolinhas de gel podem causar lesões na córnea, sangramentos internos, inflamações, dor e deficiências visuais. Em novembro, um menino de 8 anos, morador de Paulista (PE), precisou operar um dos olhos depois de alvejado. Posteriormente, a cidade sancionou lei proibindo armas de gel.

O risco de danos aos olhos não é o único problema. Em cidades acossadas pela violência, armas de gel podem assustar moradores, como sugere um vídeo que viralizou. “E nós que saímos de carro na nossa cidade com a arminha de gel, e o povo pensando que era de verdade kkk?”, diz o autor da peça. Em Volta Redonda, interior do Rio, policiais repreenderam jovens que “brincavam de arrastão” com essas pistolas. Os próprios usuários se colocam em risco. “No Rio, a polícia já matou quem portava objetos como furadeiras e outros itens confundidos com arma de fogo. Em certos territórios, isso é extremamente perigoso, principalmente à noite”, disse ao GLOBO o sociólogo Inácio Cano, coordenador do Laboratório de Análise da Violência (LAV), da Uerj. “Um segundo efeito é a contribuição para a expansão da cultura das armas.”

Não se pode dizer que a polícia faça vista grossa. Em Pernambuco, uma operação da Polícia Civil apreendeu mais de 3.500 armas de gel de origem ilícita e certificação irregular. Algumas ostentavam selo falso de segurança do Inmetro. A julgar pela profusão delas, a repressão não tem surtido efeito. Na falta de legislação específica, uma vez que elas não se enquadram noutras categorias, os parlamentares de pelo menos sete estados já preparam Projetos de Lei para proibi-las. Inúmeras cidades seguem pelo mesmo caminho. Se não houver fiscalização, só a lei não bastará.

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CHUVAS REVELAM DESPREPARO DE SP PARA ALAGAMENTOS

Editorial O Globo

A outrora terra da garoa virou cidade das enchentes. Obras preventivas e planejamento são urgentes

Outrora chamada terra da garoa, São Paulo se transformou numa cidade de alagamentos. A qualquer chuva mais forte, surgem inundações com vítimas e perdas materiais. Entre dezembro e janeiro, os temporais mataram 17 pessoas. A cidade é repleta de encostas e ocupações irregulares à margem de rios, córregos e represas, áreas mais atingidas nas enxurradas.

O perigo não está apenas na periferia. O temporal que desabou sobre São Paulo dias atrás matou o pintor Rodolpho Tamanini Netto em sua casa na Vila Madalena, bairro nobre, quando um carro levado pela enxurrada destruiu uma porta de contenção, e a água subiu 2 metros dentro da casa. Por uma trágica ironia, uma das obras de Tamanini é “A enchente”, quadro pintado com cenas que ele presenciava da janela. Além dele, morreram uma criança de 7 anos, arrastada quando brincava na rua noutro bairro, e o motociclista Bruno Anselmo Santana, ao cair num córrego.

A excessiva impermeabilização do solo e a canalização de rios fazem a água da chuva correr com velocidade sobre o asfalto ou sobre o concreto. Em algum lugar, a enxurrada causará inundação. “O centro está todo impermeabilizado”, diz Ivan Whately, vice-presidente de Atividades Técnicas do Instituto de Engenharia. Contra isso, há técnicas que deixam áreas livres para a água infiltrar-se no solo, em localidades conhecidas como cidades-esponja. São Paulo e outras cidades fariam bem em buscar inspiração nesses exemplos.

Em sua rápida expansão, a metrópole paulistana ocupou as várzeas dos rios. Chuvas fortes inevitavelmente alagam áreas que no passado eram livres. O Rio Tietê, quando enche demais, inunda as galerias e ressurge distante de suas margens, impedindo o escoamento da chuva. Situação parecida acontece no Rio de Janeiro quando temporais coincidem com a maré cheia. As águas não têm para onde escoar e inundam bairros próximos.

Há 30 anos várias prefeituras construíram piscinões, grandes reservatórios subterrâneos para armazenar a água da chuva. Passado o temporal, ela é liberada aos poucos. Foi assim que acabaram as inundações outrora frequentes na Avenida Pacaembu, área nobre da cidade. Há um piscinão debaixo da Praça Charles Miller, em frente ao estádio. Piscinões ajudam, mas deveriam ser acompanhados por medidas para controlar a urbanização, sem esquecer espaços para escoar as cheias, diz Liliane Frosini Armelin, professora da Universidade Mackenzie e doutora em engenharia hidráulica e saneamento pela USP. As soluções são conhecidas. A maior dificuldade está na gestão, que precisa fazer as escolhas certas e investir antes das tragédias.

Em tempos de eventos climáticos extremos, São Paulo e todas as grandes cidades brasileiras carecem de planejamento e obras preventivas. Não adianta tomar medidas apenas depois que ocorre alguma catástrofe. Todo administrador regional sabe quais são os pontos críticos de seu bairro. Uma governança municipal integrada seria capaz de definir as prioridades. Há muito a fazer em cidades que cresceram sem uma visão mais ampla da ocupação do terreno e da necessidade de infraestrutura, incluindo obras para facilitar o escoamento de águas pluviais. São Paulo, Rio e outros centros urbanos precisam correr contra o tempo perdido.

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domingo, 2 de fevereiro de 2025

CULTURA COSTURA FIOS DESATADOS

Míriam Leitão, O Globo

A cultura tem feito o que a política e o judiciário não conseguiram: costurar um país marcado por feridas não curadas

A cultura tem feito o que a política e o judiciário não conseguiram, o encontro do Brasil com a sua história. Volto de férias com o Brasil falando ainda em contas públicas, Donald Trump colocando em prática o seu extremismo e uma ameaça chinesa rondando as empresas americanas de alta tecnologia. Assuntos em pauta, certamente. Mas quero hoje falar de “Ainda estou aqui", de “Lady Tempestade” e de Marina Colasanti. O cinema, o teatro e a literatura nos colocam de frente para o que é essencial.

O belo “Ainda estou aqui” tem permitido um diálogo de gerações sobre temas nunca devidamente tratados no Brasil. Há algo na genial direção de Walter Salles, na perfeita atuação de Fernanda Torres, no talento de Selton Mello. Há algo no mar do Leblon, no ambiente familiar, no clima dos anos 1970, na trilha sonora que permanece. Meu neto Daniel, de 15 anos, disse que queria ver o filme com a família, mas todos já haviam visto. Fomos quatro pessoas, de três gerações diferentes — o pai, a irmã e os avós —, acompanhá-lo. Já tínhamos visto, mas o convite era encantador. No final, ele contou que quer rever porque precisa anotar as frases que foram ditas naquela época, mas poderiam ter sido ditas hoje.

Fomos, Sérgio e eu, rever “Lady Tempestade” no Teatro Poeira e levamos o filho Matheus e os netos. A ideia era que Mariana, 18, estudante de Direito conhecesse a história da advogada de presos políticos Mércia Albuquerque. Andréa Beltrão está magistral na interpretação da advogada que confronta a tortura, as mortes e a repressão no Nordeste, nos piores anos da ditadura. “É uma pena que a senhora, tão jovem, defenda terroristas”, disse um dos “gafanhotos” como ela definia os agentes da repressão. E Mércia responde, na voz de Andréa. “Escute, senhor, enterrar os mortos é um direito sagrado. Como o senhor sabe, até nas guerras os exércitos conseguem uma trégua, respeitando o inimigo e entregando os corpos para o sepultamento”.

O corpo de Rubens Paiva nunca foi entregue para sepultamento. Há 54 anos. Pairam sobre o Brasil 414 corpos não entregues às famílias. É crime continuado, porque é sequestro e ocultação de cadáver. Foi o que me disse o procurador da Justiça Militar, Otávio Bravo, em 2012, quando eu fiz o documentário “História inacabada” sobre Rubens Paiva. É o que tem dito agora no Supremo Tribunal Federal, o ministro Flávio Dino. Se o corpo permanece até hoje desaparecido, o crime continua, portanto não pode ser coberto pela Lei da Anistia de 1979. Mas nem o que é assim tão cristalino tem permitido que a Justiça brasileira saia da armadilha criada pela ditadura, ao impor na lei o perdão para os crimes que seus agentes cometeram. “É preciso dar um jeito, meu amigo”. Ao fim de Lady Tempestade, a audiência é levada a ver retratos desse passado que o Brasil nunca enfrentou, mas que ainda está aqui.

Uma tarde, Mariana, minha neta, nos pediu para ir ao Parque Lage. Fomos. Andamos pelo palacete e pelos jardins, e eu disse: “tenho uma amiga que morou aqui”. E contei a história de Marina Colasanti. Nascida em Asmara, na Eritreia, mudou-se para a Líbia, depois para a Itália e chegou ao Brasil aos 10 anos. “Nasci longe de mim/ em terra estranha/ levada pelo hálito da guerra”, escreveu Marina no poema “Só em mim ficou”. Na última quarta-feira, num salão do mesmo Parque Lage, diante do corpo de Marina Colasanti, pude pensar longamente na imensidão do seu legado.

Marina tinha história única e pertencimento fluido — nascida na África, europeia e brasileira — mas ela escolheu viver entre nós. Sorte e privilégio do Brasil. Marina continuará conosco nos seus 70 livros, nos seus desenhos e quadros, na sua poesia. Marina Colasanti deixou marcas no jornalismo, na literatura, no feminismo. A sua literatura infantil é clássica e, por isso, é fácil garantir que crianças ainda não nascidas lerão Marina Colasanti. Ela era imensa mas se via com a leveza e a graça que está no poema “Projeto póstumo”. “Se/ quando morta/ me fizerem busto/ volto/ pomba gentil/ e/ cago nele.”

Por razões minhas, fiquei no Rio nessas férias. Cinema, teatro, praia, parques, jardins, livros, filhos, netos. Na calma, entendi que a cultura é o que tem nos costurado nesse país partido por conflitos e marcado por feridas não curadas. Terminei as férias lendo e relendo Marina Colasanti para reter os recados dessa pessoa linda que perdemos. “Tão passageira a vida e é só o que temos.”

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O ESCULACHO DE BOLSONARO EM CARLA ZAMBELLI

Igor Gadelha, Metrópoles

O esculacho de Bolsonaro em Carla Zambelli na reunião do PL

Jair Bolsonaro teria dado “bronca” na deputada Carla Zambelli durante reunião da bancada do PL neste sábado (1º/2)

O ex-presidente Jair Bolsonaro repreendeu publicamente a deputada federal Carla Zambelli (SP) durante uma reunião de parlamentares do PL na manhã deste sábado (1º/2), na sede do partido em Brasília.

Segundo apurou a coluna, no início da reunião, Zambelli se levantou e se dirigiu até Bolsonaro para tentar falar com o ex-mandatário. O ex-presidente, então, reagiu e pediu que a deputada não se aproximasse dele.

Em tom exalto, Bolsonaro teria falado palavrões e dito que ele e Zambelli não poderiam se falar, pois seriam investigados no mesmo inquérito, segundo relatos. O ex-presidente não mencionou qual seria a investigação.

A bronca de Bolsonaro em Zambelli ocorreu dois dias após o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) cassar o mandato da deputada por suposta divulgação de notícias falsas sobre as urnas eletrônicas.

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E AGORA, KASSAB ?

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Chefe do PSD se distancia de Lula porque sonha em ser o 'kingmaker' que fará de Tarcísio presidente

Na semana passada, Gilberto Kassab (PSD-SP) se distanciou do governo Lula. Em um desses eventos de rico, disse que Lula não é favorito na próxima eleição presidencial e que Fernando Haddad é um ministro fraco.

Não seria nada de mais, não fosse por dois motivos.

Em primeiro lugar, Lula está prestes a oferecer ao PSD, partido de Kassab, ministérios importantes. Ainda não sabemos quais, mas não deve ser coisa pequena. A esperança de Lula é usar a reforma ministerial para fechar alianças para 2026. Se Kassab já estiver fechando com o outro lado, a reforma ministerial já começará meio esquisita.

Em segundo lugar, Kassab tem fama de bússola que sempre aponta para o lado vencedor. Se largar Lula, pode ser sinal de fraqueza do petista.

Kassab também pode estar se aventurando em um jogo que nunca jogou.

Cria da direita paulista, Kassab montou o PSD em um momento em que o governo do PT queria um partido de centro mais disposto a conversar. Só traiu Dilma nos últimos dias antes da votação do impeachment e já saiu dali ministro do Temer. Emplacou gente no governo Bolsonaro e no governo Lula. Como secretário de Governo de Tarcísio, conseguiu atrair para o PSD a rede de máquinas políticas municipais que elegeu o PSDB em São Paulo por mais de 20 anos. No momento, seu PSD é o maior partido do Brasil.

Gilberto Kassab é, sem dúvida, extraordinariamente hábil. Mas parte de sua reputação é originária do tipo de política que Kassab fez a vida inteira: o adesismo.

Seu partido está em todas as presidências porque nunca se preocupou em eleger presidente. O PSD seguiu os passos do PMDB, que deixava PT e PSDB se matarem na presidencial e depois vendia apoio a quem vencesse. No presidencialismo de coalizão brasileiro, é uma das especializações possíveis.

A outra é eleger o presidente. As recompensas são maiores na vitória, mas a derrota significa sofrer na oposição, sem acesso a verbas ou cargos. Para isso é necessária uma certa dose de ideologia.

Kassab se distanciou de Lula porque sonha em ser o "kingmaker" que fará de Tarcísio de Freitas presidente da República. Se Kassab e seu PSD assumirem protagonismo na eleição presidencial, terão mudado de especialidade

Saberão fazer isso? O PMDB, por exemplo, nunca conseguiu.

O PSD sabe ser o partido que vai levar a culpa se os preços subirem? Como o resto do centrão, sua especialidade até hoje foi gastar dinheiro e deixar para o presidente a culpa pelo aumento de preços resultante.

Tarcísio, como Caiado, já declarou que não está satisfeito com os bilhões e bilhões que, nos últimos dez anos, saíram do controle da Presidência e passaram a ser gastos com emendas parlamentares. É óbvio: quer ter o poder que Lula tinha em 2003, não o que Lula tem agora.

Kassab topa comprar essa briga com seus companheiros de centrão?

E o que Kassab pretende fazer com os amigos golpistas de Tarcísio? Nikolas Ferreira já fez vídeo dizendo que o PSD é um inimigo tão perigoso quanto o PT. O sonho da família Bolsonaro é tirar Kassab do governo Tarcísio.

Enfim, se Kassab e sua turma conseguirem mudar de especialidade dentro do presidencialismo de coalizão brasileiro, terão sido os primeiros a fazê-lo. Se ninguém fez até hoje, não deve ser fácil.

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QUEM É A DIREITA DA DIREITA QUE APOIA TRUMP NA EUROPA

João Gabriel de Lima, Folha de S. Paulo

Ultradireitistas veem na proximidade com presidente americano uma chance de ganhar influência e promover-se para eleitorado

[RESUMO] A volta de Donald Trump ao poder marca um realinhamento na direita global, notadamente na Europa, onde a fragmentação do espectro político avança junto com seu poder de influência. O autor sustenta que grupos posicionados à direita da direita tradicional buscam, na proximidade com o presidente americano, formas de promoção ideológica. Com posturas mais radicalizadas e sem respostas para problemas complexos, esses grupos, assim como Trump, também miram sua retórica contra os imigrantes.

A posse de Donald Trump rendeu selfies entusiasmadas no Instagram de vários líderes europeus. Em uma dessas fotos, o presidente americano aparece sorridente ao lado de Giorgia Meloni. "Estou certa de que a amizade entre nossas nações e os valores que nos unem continuarão a reforçar a colaboração entre Itália e Estados Unidos, enfrentando juntos os desafios globais e construindo um futuro de prosperidade e segurança para nossos povos", escreveu a primeira-ministra italiana.

No perfil de Meloni, há um vídeo de Trump em que ele define a premiê como "uma líder e pessoa fantástica" e outra foto de ambos com a legenda "prontos para trabalhar juntos".

O espanhol Santiago Abascal, líder do partido político Vox, ecoou o discurso de Trump em uma de suas postagens. "Felicidades aos defensores da liberdade e do senso comum no mundo inteiro. Este é o nosso momento." Os dois políticos aparecem na foto com o polegar para cima.

Casado com uma influenciadora, Lidia Bedman, Abascal fez uma cobertura completa do evento. Em uma sequência de vídeos com imagens de Washington ao fundo, chama o premiê espanhol Pedro Sánchez de charlatão, ataca os "burocratas de Bruxelas" e abraça efusivamente o presidente argentino Javier Milei.

A selfie de Tino Chrupalla, um dos líderes do partido político alemão AfD (Alternativa para a Alemanha), teve como cenário a festa de Trump dentro da arena Capitol One. Ele escreveu sob a foto: "Podia-se sentir o otimismo e a esperança em um presidente que cumpre imediatamente as promessas eleitorais e quer proteger o interesse dos cidadãos, da mesma forma que nós nos preocupamos com os interesses dos cidadãos alemães".

Em sua posse, Trump pouco falou de assuntos internacionais —"América primeiro!"—, mas abriu um precedente ao convidar vários líderes estrangeiros para uma festa à qual tradicionalmente só comparecem americanos. Com o gesto, demarcou quem seria sua turma no mundo.

Da América Latina, foram convidados Javier Milei, o presidente salvadorenho Nayib Bukele e o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que não pôde comparecer por ter tido o passaporte retido pela Justiça. Um olhar sobre os líderes europeus, como Meloni, Abascal e Chrupalla, deixa mais claro, no entanto, o perfil dos escolhidos por Trump.

Parlamento Europeu é ocupado por partidos que agrupam siglas de diferentes países. O maior deles é o PPE (Partido Popular Europeu), de direita, à qual pertence a presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, e a presidente do próprio Parlamento Europeu, a maltesa Roberta Metsola. A esquerda se agrupa no guarda-chuva S&D (Socialistas e Democratas), ao qual pertencem os premiês da Espanha, Pedro Sánchez, e da Alemanha, Olaf Scholz, que disputa a reeleição em pleito marcado para o dia 23 de fevereiro.

Direita e esquerda fazem parte da coligação de centro que governa a Europa atualmente. O Partido Popular Europeu e o Socialistas e Democratas formaram maioria ao incorporar o Renovar a Europa, que reúne vários partidos de centro e centro-direita —entre eles o Renascimento, fundado pelo presidente francês Emmanuel Macron— e os verdes, que são fortes apenas na Alemanha mas ganham peso por ter representantes em vários países europeus.

Nos últimos anos, no entanto, surgiram no Parlamento Europeu vários grupos à direita da direita. O mais tradicional é o ECR (Conservadores e Reformistas Europeus), que tem como principal estrela justamente Giorgia Meloni e representa a direita à direita da direita.

Santiago Abascal, do Vox, é o presidente do recém-fundado Patriotas pela Europa, articulado pelo premiê húngaro Viktor Orbán, a direita à direita da direita da direita. A turma de Orbán se opõe ao poder central de Bruxelas de forma mais veemente que Meloni.

Considerado radical demais mesmo nesse espectro —um de seus integrantes já foi condenado por brandir slogans nazistas—, a AfD de Tino Chrupalla é a direita à direita da direita à direita da direita. O partido integra, com outras siglas extremistas do leste do continente, a família Europa das Nações Soberanas.

Na Europa delineiam-se três grupos políticos bem claros: esquerda, direita e ultradireita. O termo ultradireita foi consagrado na ciência política pelo holandês Cas Mudde e reúne os representantes da direita radical e da extrema direita.

A direita radical questiona os aspectos liberais da democracia, como os direitos de imigrantes e cidadãos LGBTQIA+, mas aceita, de forma geral, as regras do jogo eleitoral. A extrema direita, na definição de Cas Mudde, não teria o mesmo apreço pela democracia, trabalhando para corroê-la por dentro.

De forma simétrica, existem na União Europeia líderes e partidos de esquerda radical e extrema esquerda, que toleram e defendem, por exemplo, ditaduras como as da Coreia do Norte, Nicarágua ou Venezuela. Essas forças, no entanto, não são expressivas nem no Parlamento Europeu nem dentro dos países, onde, em geral, os partidos com densidade eleitoral reproduzem a tríade esquerda-direita-ultradireita. É assim em Portugal (PS-PSD-Chega), Espanha (PSOE-PP-Vox), Alemanha (SPD-CDU-AfD) e assim por diante.

Nos Estados Unidos, onde vigora o bipartidarismo, muitos eleitores da direita mais moderada votam em Donald Trump, vendo-o como única alternativa para evitar que os rivais democratas ocupem o poder. Há, no entanto, vários republicanos históricos que não se identificam com Trump. Estão neste caso os escritores Anne Applebaum e David Brooks.

Applebaum começa seu livro "O Crepúsculo da Democracia" descrevendo uma festa de Réveillon na véspera do ano 2000 em que um grupo de amigos que admiravam Ronald Reagan e Margaret Thatcher celebram o que consideravam o "fim da história". Nada pode ser mais oposto ao ideal de um mundo liberal e globalizado que o combo de economia fechada e populismo autoritário de Trump.

Ao longo do livro, escrito em 2020, Applebaum identifica os primeiros sinais da colaboração entre Trump e os partidos de ultradireita Fidesz, da Hungria, e Lei e Justiça, da Polônia, precursores do clube da ultradireita que acaba de viralizar no Instagram.

Em artigo recente no jornal The New York Times, David Brooks, que se define como um conservador moderado, delineia o que pode ser o ponto comum entre Trump e seus admiradores europeus. Na visão de Brooks, Trump seria alguém sem competência para lidar com as complexidades do mundo moderno —diversos polos econômicos e militares, poder decrescente dos governantes eleitos, abismo educacional que gera desigualdade social. O método e o discurso do presidente americano seriam consequência dessa incompetência.

Como não existem respostas simples para problemas complexos —e as soluções complexas e viáveis estão na academia, que Trump rejeita—, resta inventar culpados e puni-los: os imigrantes.

Nisso, Trump e a ultradireita europeia estão de acordo. A Europa vive um paradoxo. A população do continente envelhece, a União Europeia precisa desesperadamente de imigrantes, principalmente jovens, mas os partidos com discursos xenófobos prosperam. Recentemente, o Parlamento Europeu aprovou uma nova e necessária regulação sobre o tema. Socialistas, populares, liberais e verdes apoiaram. A ultradireita, com exceção de Giorgia Meloni, nem quis discutir.

Na Europa, os líderes da direita à direita da direita veem na proximidade com Trump um meio de ganhar influência internacional e promover-se junto aos próprios eleitorados. Giorgia Meloni largou na frente. Visitou Trump em Mar-a-Lago três semanas antes da posse e saiu de lá com o convite VIP.

O premiê húngaro Viktor Orbán não esteve em Washington, mas é o organizador da sucursal europeia da CPAC, a Conferência de Ação Política Conservadora, o braço ideológico do trumpismo. No semestre passado, a Hungria ocupou a presidência rotativa da União Europeia e Orbán, inspirado em Trump, propagou o slogan MEGA, "make Europe great again".

Para o cientista político espanhol Francisco Rodríguez Jiménez, autor de um livro sobre a primeira Presidência de Donald Trump, se trata de um jogo de ganha-ganha. O presidente americano também lucra ao promover líderes de ultradireita e dividir a Europa —muitos deles são críticos das políticas unificadoras de Bruxelas.

Faria parte desse plano a aproximação entre o empresário Elon Musk e Alice Weidel, candidata ao parlamento alemão pela AfD. O supracitado partido da direita à direita da direita à direita da direita combina, por seu prontuário, com o polêmico gesto de Musk no dia da posse.

O espanhol Santiago Abascal ambiciona ser o líder da ultradireita em um espaço que ele próprio definiu como iberosfera e que engloba Portugal, Espanha e os países da América Latina. Para isso, seu partido, o Vox, criou a Fundação Dissenso, que promove eventos, produz documentários e edita a Gazeta da Iberosfera.

Cinco anos atrás, Abascal foi a uma CPAC em Maryland, nos Estados Unidos, mas, ao contrário de Giorgia Meloni e Marine Le Pen, que também estavam lá, não foi convidado a falar porque ninguém sabia direito quem ele era. Dessa vez, fez vídeo com Milei e tirou foto com Trump. A teia da ultradireita vem se tecendo aos poucos e consistentemente, com transmissão ao vivo no Instagram de Mark Zuckerberg.

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GOVERNO SE PERDE NO LERO-LERO

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Na primeira entrevista já no molde da nova comunicação, Lula mais enrolou que esclareceu

Quando se ouve presidente e ministros falarem sobre o que se pretende fazer em Brasília para baixar o preço dos alimentos vem à mente o personagem Rolando Lero. Aquele que, ao não saber a resposta à pergunta do professor Raimundo, enrolava o mestre com um entra e sai de frases vazias. Está assim o governo desde que se deu conta do efeito nefasto da inflação no humor das pessoas.

Nem se pode dizer que tenha acordado tarde, pois quando o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) diz que ainda "é cedo" para a população fazer uma avaliação justa de sua gestão, sugere apenas um leve despertar. A crise do Pix provocou uma sacudida no sono gostoso do negacionismo, a queda de popularidade com perda expressiva de apoio no Nordeste fez tremer as bases, mas não foi suficiente para um alinhamento de posições.

As autoridades dizem cada qual uma coisa diferente para "explicar" como vai se dar a solução e, ao final da explanação, ficamos na mesma sobre o rumo a ser seguido. Na primeira entrevista já nos moldes da nova comunicação, o presidente abordou vários assuntos a respeito dos quais mais enrolou que esclareceu.

Lula só foi assertivo ao se negar a adotar uma política mais austera nas contas a fim de assegurar a estabilidade econômica, condição básica para se almejar o desenvolvimento. Segue, assim, na direção contrária aos muitos que há tempos avisam sobre o risco inflacionário das escolhas equivocadas.

Os alertas agora começam a surgir no campo político. Gilberto Kassab (PSD) não é de desperdiçar palavras e foi explícito: governo sem ministro da Fazenda forte é governo fraco. Daí o juízo de que nas condições de hoje Lula perderia a eleição.

Em público Kassab não pretende alimentar o tema, mas a interlocutores próximos tem externado a impressão de que há algum ruído entre Lula e o ministro Fernando Haddad. Se lhe fosse pedido um conselho, diria ao presidente: fortaleça o ministro ou o substitua por alguém que o convença a fazer o certo.

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IDENTIDADES MORTAS A CAMINHO

Muniz Sodré, Folha de S. Paulo

Esse fascínio atemorizado pela morte decorre de uma alergia à vida, por um mal-estar civilizatório insuperável

A maior preocupação da plutocracia que acaba de chegar ao poder com Trump é hoje a imortalidade. Jeff Bezos, da Amazon, pesquisa o elixir da juventude, enquanto Sergey Brin e Larry Page, donos da Google, concentram-se numa startup ("Calico") cujo objetivo é "matar a morte". Mas há colaterais de menor porte: movidos por achados arqueológicos, cientistas vêm se declarando prontos para ressuscitar animais extintos, do mamute ao pássaro dodô. O DNA das fezes e do vômito de dinossauros é o caminho técnico.

O dodô existia até o século 17 nas ilhas Maurício, no Índico, desaparecendo 100 anos após a chegada dos humanos. Anacronismo vivo, semelhante a um pombo de um metro de altura, tinha asas, mas não voava, não tinha medo de humanos, nem sequer de marinheiros esfomeados. Foi caçado até o último exemplar, mas ficou como símbolo da indiferença suicida. Ressuscitar o extinto é só uma variável dos projetos de extinção da morte.

O documentário "Eternal you" mostra a IA simulando conversas de vivos com mortos. Mas o passado projeta-se também para iluminar aspectos obscuros de identidades culturais presentes. É que, em matéria de evolução, não existe escala única como padrão hierárquico para os diversos modos de existência. Técnicas e objetos sempre foram vetores de energia em culturas tradicionais, como entre os europeus, com o diferencial do grau de desenvolvimento das forças produtivas. O que era sagrado e festivo perdeu a vez para o mercantilismo.

É preciso, assim, distinguir formas holísticas de vida nas sociedades tradicionais das formas mortas que rondam a atualidade. Hoje se assiste a uma mutação radical na espécie humana, em que são convergentes criação orgânica e criação artificial: tecnologia não é mais um outro do humano, é também o seu constituinte. São metamorfoses que ainda não se medem cientificamente, mas podem ser sentidas no cotidiano.

Ou assustadoras sob formas caóticas. Uma delas é a obsessão com identidades mortas, tematizadas no imaginário como mortos-vivos, infecciosos e mortíferos. Fantasias do medo radical, que é o medo da morte. E a solução fantasiosa para a ameaça é sempre o emprego de armas, cada vez mais criativas e poderosas. Coisa natural para os americanos, cuja cidadania está ancorada no passado miliciano da independência e da guerra civil. Arma virou agora fonte de identidade. No Natal, pais deram pistolas verdadeiras de presente a crianças de seis anos.

Esse fascínio atemorizado pela morte decorre de uma alergia à vida, por um mal-estar civilizatório insuperável, já que a prosperidade predatória é outra face da morte do planeta. A Constituição americana consagra o direito individual de busca da felicidade, mas o país é sem alegria real, pois alegria ensina que felicidade é comunhão de vida. Importam apenas negócios e, agora, esperança de futuro em Marte com o homem imortal, o cyborg, pesquisado por Musk. Vale perguntar o que nós mortais temos a ver com isso. Nada, responderia o bom senso. Mas a ultradireita sempre encontrará nas redes o vômito de algum dinossauro político para o DNA da mistificação. Por isso é bom ter em mente que, no regime "imperial libertário" tramado pelos plutocratas, democracia é o pássaro dodô da vez.

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TRUMP E A BURRICE HISTÓRICA

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Wall Street Journal diz que política comercial trumpista é 'a mais burra da história'

"A guerra comercial mais burra da história" era o título de um editorial do "Wall Street Journal" (WSJ). Critica os aumentos do imposto de importação de Donald Trump sobre produtos de Canadá, México e China.

O WSJ não é suspeito de ser antitrumpista. Mas não bebe sopa fervendo de dólares rasgados. Tributar importações a rodo não faz sentido prático, pragmático ou teórico para quase ninguém. Mas é disso que se trata, de discussão econômica?

O programa de Trump suscita debates sobre aumento de ineficiências e de inflação, de alta de juros e do dólar, de prejuízos para o PIB de aliados. Anima ou requenta discussões sobre desglobalização comercial, que já são bem exageradas, porém.

As consequências podem ser essas, a depender da profundidade, duração e extensão do que fizer Trump. Medidas similares, mas não tão idiotas, vêm sendo adotadas por seguidos governos dos EUA. Um motivo de fundo da reação é a ascensão da China.

As razões ou motivos de Trump, porém, parecem ao menos em parte outros. Não derivam de lobby econômico amplo —ao contrário. Trump diz que vai punir Canadá e México porque esses países não tomariam conta da migração ilegal e do tráfico de drogas para os EUA. Não resolve nada, ocioso explicar, enquanto houver trabalho para imigrantes e gente disposta a tomar drogas, se por mais não fosse.

Atacar imigrantes, drogas, LGBTQIAP+, planos de apoio a minorias em geral, "ideologia de gênero" e gente sem religião, porém, rendeu votos. Também renderam votos os efeitos daninhos da inflação e o nacionalismo desesperado de quem ficou para trás na sociedade, ressentimento por ora premiado com afirmações imperiais e ataques à elite tecnocrática e cultural.

Há indicadores de onde pode vir essa ira (não razões justas). Cerca de 14,3% da população dos EUA é imigrante (naturalizada, residente legal e ilegal), das maiores taxas da história (similar às do final do século 19 e começo do 20). Em 1970, era 4,7%.

Em 2003, a taxa de mortes por overdose de drogas era de 8,9 por 100 mil pessoas. Em 2023, 31,3 (105 mil mortos, fora a subnotificação). A expectativa de vida parou de crescer por volta de 2015 e caiu depois da epidemia. O emprego industrial desapareceu em regiões inteiras, faz tempo. A inflação sob Joe Biden foi a mais alta em 40 anos; até meados de 2023, o salário médio não havia recuperado as perdas inflacionárias da epidemia.

Há motivos de mal-estar e objetos visíveis para quem queira odiar. No mínimo, foram o bastante para que mais de metade do eleitorado escolhesse quem estimula ignorância e delírio social a respeito dessas questões: Trump.

Claro que Trump agrega interesses econômicos como as megaempresas, "big techs" entre elas, amigas da desregulamentação global, de menos impostos e de ataques a acordos internacionais a quem queira limitar o poder delas.

Porém, delirante ou não, Trump não está falando de economia, até agora. Está fornecendo circo imperial, pão virtual para ressentidos ou desgraçados e tentando dar cabo da ideia de República, nos EUA e alhures. Talvez as medidas econômicas de Trump não façam sentido porque não tratem disso, de economia.

Sim, faz tempo que se fala de guerra ou revolução cultural, de virada à direita. Trump 2 está levando isso para outro nível, para mais fundo, muito mais do que Trump 1.

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O GRANDE MICO DE 20 DE JANEIRO DE DONALD TRUMP

Elio Gaspari, O Globo

O que a China fez com os bilionários americanos das big techs e com Donald Trump foi uma malvadeza histórica.

No dia 20 de janeiro, o novo presidente anunciou em seu discurso de posse: “A partir de agora, terminou o declínio americano” e prometeu o início de uma “Era de Ouro” para o país.

Entre os convidados, aplaudindo-o, estavam os bilionários Elon (Tesla) Musk, Mark (Meta) Zuckerberg, Jeff (Amazon) Bezos, Tim (Apple) Cook, Sundar (Google) Pichai e Sam (Open-AI) Altman.

Com jeito de quem não queria nada, naquele dia, a empresa DeepSeek, do chinês Liang Wenfeng, soltou seu aplicativo de inteligência artificial R1. Em seguida, republicou um artigo de 22 páginas assinado por 193 autores (todos chineses) e a estrutura do seu programa.

O R1 da DeepSeek foi lançado no dia da posse de Trump de caso pensado. A China já fez coisa parecida em 2023, às vésperas de uma visita da secretária do Comércio dos EUA.

Segundo a DeepSeek, o R1 custou 5,6 milhões de dólares. Os programas de inteligência artificial das empresas americanas custam entre 100 milhões e 1 bilhão de dólares. O R1 é grátis, enquanto alguns similares americanos cobram aos usuários pelo menos 20 dólares mensais.

No dia 25, o R1 era o aplicativo mais baixado nos Estados Unidos e em outros 50 países. Dois dias depois, as sete grandes empresas americanas de tecnologia, conhecidas como “the magnificent seven” (Alphabet, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla) perderam 1 trilhão de dólares em valor de mercado. Os CEOs de cinco delas estavam na cena da posse, e só a Apple não micou. A fabricante de chips Nvidia, princesinha do mercado de inteligência artificial, tomou a maior pancada, com uma perda de 589 bilhões de dólares, a maior da história de Wall Street. Elon Musk perdeu 5,3 bilhões de dólares. Como as ações sobem e descem, a Nvidia recuperou parte da queda.

O segredo do R1 estava no fato que uma unidade de custo que no mercado das big techs vale 15 dólares, na DeepSeek sai por apenas 55 centavos. Além disso, o R1 é grátis e aberto para programadores mundo afora. A Microsoft e a Dell já incorporaram o R1 às suas plataformas.

Nos próximos meses, artigos e livros contarão o que aconteceu antes do mico de 20 de janeiro. Uma coisa é certa: os bilionários das big techs sabiam que a DeepSeek existia e que não era coisa de chinês em fundo de garagem.

Desde 2023 ela publica seus códigos. Desde maio de 2024 ela mostrava que fazia muito, gastando menos. No mundo da inteligência artificial corria o murmúrio de que a DeepSeek tinha uma “arma secreta”. Em setembro ela soltou a versão V2.5 que, em poucos dias, ficou entre os aplicativos líderes de inteligência artificial com códigos abertos. A primeira versão do R1 é de novembro de 2024.

Os bilionários americanos acreditaram na própria superioridade. Erraram. Diante da ameaça dos avanços tecnológicos da China, acreditaram na imposição de barreiras comerciais e durante o governo de Biden embargaram as vendas de chips. Erraram de novo.

No dia 20 de janeiro, exibiram-se mostrando-se próximos do poder. Violaram a regra da discrição dos magnatas dos verdadeiros tempos dourados dos Estados Unidos. John D. (Standard Oil) Rockefeller, Andrew (U.S.Steel) Carnegie e J.P. Morgan, o do banco, nunca enfeitaram festas de posse de presidentes em Washington.

(Perguntado quais bilionários estavam na posse de Trump, DeepSeek disse que não tinha informações sobre eventos futuros, esclarecendo que seu conhecimento se estende “até outubro de 2023”.

Feita a mesma pergunta ao Google, ele ofereceu dezenas de links e o primeiro dizia: Musk, Bezos e Zuckerberg: bilionários na posse de Trump.”)

Momento Sputnik

Na tarde de domingo passado, o guru tecnológico Marc Andressen descreveu o impacto da DeepSeek sobre o mercado americano:

Momento Sputnik. O comentário de Andressen refletiu o pânico que tomou conta dos Estados Unidos em 1957, depois que a União Soviética colocou em órbita o primeiro satélite artificial, pesando 83 quilos. Em 1961 veio a humilhação: Yuri Gagarin entrou em órbita e revelou: “A Terra é azul.’

Pelo menos nove foguetes americanos haviam explodido, mas o presidente John Kennedy anunciou que os americanos iriam à Lua antes do fim da década.

Na outra ponta, o regime russo não revelava que havia perdido sete foguetes, um astronauta e mais de cem pessoas mortas numa explosão em seu centro espacial, inclusive um marechal. Em 1966, Sergei Korolev, pai do programa espacial russo, morreu durante uma cirurgia. Meses depois o astronauta Sergei Komarov foi carbonizado ao retornar à Terra.

Americanos e russos faziam maravilhas no espaço, mas o jogo virou em 1969. Os foguetes soviéticos continuavam com eventuais falhas, e no dia 3 de julho o N-1 explodiu no Cazaquistão, destruindo parte da base de lançamentos.

Duas semanas depois, três astronautas partiram de Cabo Kennedy. No dia 20 de julho, Neil Armstrong fincou a bandeira americana no Mar da Tranquilidade.

A corrida espacial estava terminada, e o Sputnik tornou-se coisa do passado.

Começava outra competição, com os americanos na frente. Três meses depois, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos criou, em segredo, a primeira rede de computadores, chamava-se Arpanet. Era o embrião da internet.

Quem ouviu os bips do Sputnik e acreditou no declínio americano perdeu seu tempo.

2015 x 1936

Em maio de 1936 o matemático inglês Alan Turing publicou na revista da London Mathematical Society seu artigo intitulado “Sobre números computáveis”. Nele, prenunciava a “máquina universal”.

Um ano depois, escrevia à mãe, queixando-se de que a revista havia recebido apenas dois pedidos de cópias do artigo. A “máquina universal” de Turing era o computador. Homossexual, ele foi condenado a submeter-se a um tratamento hormonal e matou-se em 1954. Em 2013 um raro exemplar de seu artigo de 1936 foi comprado por 205 mil libras (R$ 1,5 milhão na cotação de hoje). Desde 2024 seu retrato está no verso da nota de 50 libras.

O mundo de 2025 é outro. O artigo acadêmico que descreveu o modelo R1 da DeepSeek saiu no início de janeiro e tinha cerca de 200 autores, todos chineses. Em menos de um mês o aplicativo de inteligência artificial foi baixado mais de 3 milhões de vezes.

Ministério da Defesa

Desde quando se soube que o ministro da Defesa, José Múcio, decidiu ir embora, a bolsa de apostas para sua substituição colocou o vice Geraldo Alckmin como favorito.

Vá lá, mas convém colocar Alexandre Padilha na lista.

Lula em novo estilo

Lula estreou o estilo Sidônio Palmeira conversando por mais de uma hora com jornalistas. Foi uma vitória do novo secretário de Comunicação do governo.

Lula disse que Fernando Haddad é um grande ministro da Fazenda porque no início do governo conseguiu aprovar a legislação que permitiu gastos imediatos. Verdade, mas Gilberto Kassab disse que Haddad é um ministro fraco porque não consegue convencer seus pares a gastar menos.

Lula gosta de jornalistas em tese, e prefere evitá-los na prática. É improvável que conversas como a da semana passada venham a se repetir com a frequência desejada. Até porque nela, depois de mostrar a força de Haddad no passado, revelou sua fraqueza no futuro:

“Se depender de mim, não tem outra medida fiscal”.

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TRUMP AGE COM MÉTODO NO SEGUNDO MANDATO

Dorrit Harazim, O Globo

O objetivo maior e final é assumir controle pleno, sistemático e duradouro da máquina federal

Que ninguém se engane: há método no caos imposto por Donald Trump a seu país e ao mundo neste segundo mandato. Não significa que, ao final, ele chegará aonde quer.

Sua primeira temporada na Casa Branca (2017-2021) já havia sido caótica, mais por despreparo e escasso conhecimento de como funciona a máquina governamental. À época, o foco do novato na Presidência era outro — Trump priorizou consolidar sua cumplicidade com os seguidores raiz, os desgarrados da sociedade. Como método, usou e abusou do escárnio compartilhado, da zombaria pública, do linchamento verbal.

“A crueldade os encheu de satisfação e orgulho, fez com que se sentissem próximos uns dos outros”, escreveu em 2018 o jornalista Adam Serwer no ensaio “A crueldade como objetivo”, sobre o impacto da chegada de Trump ao poder.

Ele se referia a imagens do século passado em exposição no Museu da História e da Cultura Afro-Americana, em Washington, que mostram homens de bem, brancos, posando com largos sorrisos junto a corpos negros mutilados, queimados ou pendurados em árvores. Mas também se aplicava ao método do novo governante.

Trump arregimentava votos com sua imitação do sotaque porto-riquenho, em meio aos milhares de mortos e desalojados pelo Furacão Maria. Fazia imitações grosseiras de manifestantes antirracistas, de pessoas com deficiência, de minorias não brancas, de mulheres do movimento #MeToo. Arrancava gargalhadas ressentidas por camadas de preconceitos. Para além do gozo com esse tipo de crueldade, havia o fato de o gozo ser coletivo. “Em algum lugar, entre o amplo espectro que vai de provocações adolescentes ao gáudio de homens brancos sorrindo em linchamentos, está uma comunidade construída sobre a angústia de diferentes. A habilidade do presidente em exercer crueldade por meio da palavra, de gestos e de atos manteve unidos seus seguidores raiz”, apontou Serwer. Trump conseguira fazer do escárnio compartilhado a resposta para a atomização da vida moderna. Reelegeu-se.

Em 2025 a estratégia é outra. O método atual não visa a adesões por cumplicidade, visa à obediência por meio de choque e temor. Desta vez, o caos inicial gerado pela avalanche de decretos é deliberado — ele ajuda a disseminar medo e incerteza. A parcela dos 2,3 milhões de funcionários públicos federais que receberam um e-mail intitulado “Bifurcação na estrada” — e teriam apenas seis dias para pedir demissão remunerada — entrou em pânico. Mesmo suspenso por decisão judicial faltando cinco minutos para entrar em vigor, a confusão e a perplexidade persistem.

Nada melhor que a revitalização da máquina de deportações de imigrantes, contudo, para mergulhar em desassossego famílias, comunidades, cidades e países inteiros. O caráter genérico e impreciso da nova ordem ajudou a turbinar o pânico. A estratégia batizada por Steve Bannon de “flood the zone with shit” (inundar a área com merda, ou saturar o espaço da comunicação com desinformação e versões confusas, dificultando a capacidade do público de discernir a verdade) está a pleno vapor.

Enquanto Trump lança a esmo o número de 1,5 milhão de imigrantes a ser enxotados, o novo czar da fronteira, Tom Homan, aconselha amigos republicanos a baixar as expectativas, pois os recursos são limitados. O mesmo Homan bravateia a criação do disque-denúncia 1-800-DEPORT, deixando em aberto a possibilidade de gratificação a quem dele fizer uso, apesar de já existir serviço análogo, há duas décadas, que recebe 15 mil chamadas mensais.

A newsletter do americano Adrian Carrasquillo, na Bulwark, faz uma pergunta oportuna: o que o governo Trump 2.0 pretende ao disseminar tanto medo? Resposta: a autodeportação. Segundo apuração do repórter junto a ativistas, advogados, republicanos e democratas, o anúncio de medidas punitivas — levadas a cabo ou não — induz famílias inteiras a desesperançar. A ponto de querer partir. Carrasquillo evoca um episódio ocorrido no Vale San Fernando, na Califórnia. A Polícia de Imigração e Alfândega (a temida ICE) fizera uma blitz à procura de oito imigrantes sem documentos e acabou por prender 40 pessoas que espontaneamente admitiram estar em situação irregular. A legislação de vários estados de maioria republicana já prevê a proibição de acesso a educação, transporte público e serviços básicos como água e moradia popular a quem não puder comprovar status migratório legal no país. Como não desistir diante de futuro tão soturno?

É numa esfera pouco visível e longe do noticiário flood the shit que está em curso o objetivo maior e final de Trump: assumir controle pleno, sistemático e duradouro da máquina federal. O conjunto de ordens executivas e medidas adotadas nesse sentido nada tem de caótico — são eficazes, precisas e reveladoras de um planejamento de anos para o desmonte da burocracia qualificada. Um dos primeiros decretos postos em prática pinçou 20 advogados do Departamento de Justiça que atuavam em investigações sobre criptomoedas e violações da integridade pública. Por serem funcionários de carreira, não puderam ser demitidos. Foram realocados para atuar no combate à imigração ilegal. Três departamentos inteiros do mesmo ministério, que poderiam interferir nas atividades extracurriculares de Trump, foram erradicados. A profusão de ações pontuais semelhantes tem se multiplicado em todos os setores da esfera federal.

É um assalto a mão desarmada com mais de 200 semanas de duração.

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