segunda-feira, 8 de setembro de 2014

UMA GUERRA NADA SANTA CONTRA MARINA

Fábio Campos, O POVO
Entende-se por guerra total a mobilização bélica radical cujo objetivo não é apenas derrotar o adversário, mais sim levá-lo ao extermínio. Em política, este tipo de guerra busca, além da vitória, o extermínio moral e psicológico do adversário. Não se faz distinções éticas e morais para se atingir a meta estabelecida. Há evidentes sinais de que a guerra total foi decretada para eliminar Marina Silva.
Um das mais claras sinalizações é a tentativa de pregar na ex-senadora e ex-ministra do PT a pecha de “homofóbica”. Isso, mesmo que não haja um reles fato que sustente a condenação e mesmo que seu programa de Governo diga exatamente o oposto. Quem acompanha de perto a política, sabe bem como este tipo de movimento se evidencia. Hoje, o campo de batalha se dá na guerrilha suja dos soldados “fakes” que se postam nas redes sociais.
Nessa mesma guerrilha, cobra-se da candidata uma posição sobre o matrimônio gay, mesmo que já seja fato pacificado por decisão do Supremo. Curiosamente, essa cobrança não é dirigida nem à Dilma Rousseff e nem ao Aécio Neves. O objetivo é impor à Marina uma agenda para colocá-la em confronto com um setor influente do eleitorado.
O mesmo movimento de ataque ocorre em várias outras frentes. Ler a Bíblia, ora vejam, passou a ser apontado como um problema. Como se, uma vez presidente, Marina fosse buscar no livro a resposta para a compra ou não de, por exemplo, aviões de guerra. Além do preconceito religioso, aí há uma esperteza: passar a ideia de que a candidata é uma fanática obscurantista.
Agora, acabar de surgir uma mobilização sindical, obviamente relacionada ao PT, que programa fazer manifestações a favor do pré-sal. Algo tipo “o pré-sal é nosso”. Como o programa de Marina dedicou poucas palavras a essa fonte de petróleo, a ideia é martelar que Marina é contra o pré-sal, mesmo que não seja. Percebem?
Não importa a verdade. O que importa é fazer desmoronar a concorrência. Novas ondas serão criadas artificialmente. A guerra será longa. O segundo turno já começou. A oponente de Dilma não tem estrutura partidária, não tem tempo de TV e não tem militância ativa para se contrapor com desenvoltura aos duros ataques que estão sendo e serão desferidos.
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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

PAULO MALUF, 83 ANOS

Paulo Maluf completa hoje 83 anos. Na vida pública desde 1969, Maluf é certamente uma das figuras políticas mais notórias, polêmicas e controvertidas.
Em sua biografia Ele, Maluf, trajetória da audácia, lançada em 2008 o define com estilo voluntarioso e frequentemente arrogante. Se diz orgulhoso de tudo aquilo que realizou.
Amado por alguns e rejeitados por outros, ele angariou uma enorme antipatia nesses anos de politica. Acusações de malversação de recursos públicos lhe são feitas com frequência.
Com uma extensa carreira política, Maluf é colecionador de frases polêmicas, entre elas: “O que fazer com um camarada que estuprou uma moça e matou. Tá bom, está com vontade sexual, estupra, mas não mata”.
Clique aqui e escolha a frase mais polêmica dos 80 anos de Maluf. Leia mais sobre a trajetória de Paulo Maluf.
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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

MORRE DIRCE TUTU QUADROS

A ex-deputada federal Dirce Tutu Quadros morreu hoje, aos 70 anos, vítima de enfisema pulmonar.
Ela estava ao lado da filha Ana Laura. Os outros dois filhos, Ana Claudia e Jânio Quadros Neto, devem embarcar logo mais para Los Angeles, nos EUA, onde ela vivia.
Tutu estava internada havia algumas semanas em uma clínica que cuida de pacientes terminais. Há poucos dias, voltou para casa, onde estava quando faleceu.
Deputada constituinte, ela foi considerada uma das dez melhores parlamentares do país na ocasião, por sua atuação na comissão de fiscalização e controle da Câmara dos Deputados.
Filha única do ex-presidente Jânio Quadros, teve em alguns momentos uma relação conturbada com o pai.
Em uma das brigas públicas, chegou a apresentar o número de uma conta que ele manteria na Suíça.
"Os dois se amavam loucamente, brigavam muito. Eram extremamente parecidos", diz o publicitário Ruy Nogueira, que foi assessor de Tutu e é amigo da família.
"Tutu era uma mulher inteligente e corajosa", afirma.
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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

PEZÃO É A OPÇÃO

As candidaturas de Anthony Garotinho (PR) e Marcelo Crivela (PRB) ao governo do Rio de Janeiro, não é uma disputa política, é religiosa.
De um lado está Garotinho - apoiado pelo fundamentalista religioso, Silas Malafaia - tentando mostrar o poder de fogo de sua Assembleia de Deus e do outro lado está Crivela - sobrinho de Edir Macedo - que tenta mostrar que sua Universal do Reino de Deus é mais forte que qualquer outra facção religiosa.
Diante dessa disputa em que está em primeiro lugar são os dogmas de cada religião e não político, a candidatura de Luiz Fernando Pezão, do PMDB ao governo do Rio de Janeiro é a melhor opção.
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sábado, 16 de agosto de 2014

PESQUISA EM MÃOS

Apesar do discurso de que só pensaria na substituição de Eduardo Campos depois do seu enterro, o PSB encomendou uma pesquisa telefônica com 30 000 entrevistas já na quinta-feira passada.
No levantamento que vai balizar a decisão do partido, Dilma Rousseff aparece em primeiro lugar, seguida de Marina Silva um pouco à frente de Aécio Neves – ou empatada, considerando a margem de erro.
Na simulação de segundo turno, Marina ganha de Dilma – mas também em cenário de empate técnico.
Da coluna Radar On-Line - Lauro Jardim – Veja 
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GETÚLIO - DA VOLTA PELA CONSAGRAÇÃO POPULAR AO SUICÍDIO

Será lançado na próxima segunda-feira (18), às 19h00 na Livraria Cultura do Conjunto Nacional na Avenida Paulista, o livro Getúlio – Da volta pela consagração popular ao suicídio, é o terceiro e último volume da trilogia biográfica de Getúlio Vargas, escrito pelo jornalista e escritor Lira Neto, um dos mais conceituados biógrafos do país.
A obra é a mais completa sobre a vida desse controverso político brasileiro Getúlio Dornelles Vargas. A série biográfica é o resultado primoroso de cinco anos de extenso trabalho que o autor dedicou a Getúlio. Muitas horas de pesquisa, viagens, entrevistas e documentos, alguns inéditos.

Leia também: Getúlio - Dos anos de formação à conquista do poder e Getúlio - Do governo provisório à ditadura do estado novo.
Sinopse
Na terceira e última parte da série biográfica sobre Getúlio Vargas, Lira Neto reconstitui os acontecimentos políticos e pessoais mais importantes dos anos finais do ex-presidente. Entre a deposição por um golpe militar, em outubro de 1945, e o suicídio, em agosto de 1954, o livro revela como a história do Brasil se entrançou com a vida de Getúlio, inclusive enquanto afastado do poder.
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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

MORRE EDUARDO CAMPOS

Do G1, em Brasília
O candidato a presidente do PSB, o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, morreu na manhã desta quarta-feira (13) após a queda do jato particular em que viajava em um bairro residencial em Santos, no litoral paulista. Ele tinha completado 49 anos no último domingo (veja fotos da trajetória do presidenciável).
Chovia no momento do acidente (veja como foi). A Aeronáutica informou em nota que o avião decolou do aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, com destino ao aeroporto de Guarujá (SP). "Quando se preparava para pouso, o avião arremeteu devido ao mau tempo. Em seguida, o controle de tráfego aéreo perdeu contato com a aeronave", informou a nota (leia a íntegra da nota ao final desta reportagem).
Moradores disseram ter visto uma bola de fogo no céu. O avião caiu no quintal de uma casa. abandonada, no bairro Boqueirão. Os destroços atingiram outras residências vizinhas. Dez pessoas tiveram ferimentos leves e precisaram ser encaminhadas para hospitais da região. Todas foram liberadas. A análise da caixa-preta do avião, que poderá ajudar na determinação da causa do acidente, será feita no Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), em Brasília.
Campos tinha uma programação de campanha em Santos nesta quarta. De acordo com a assessoria do candidato, ele participaria às 8h, às 9h30 e às 14h30 de programas de emissoras locais de televisão. Às 10h30, concederia uma entrevista coletiva e às 12h30 iria a um seminário sobre o Porto de Santos.
A bordo da aeronave (veja como foi a queda do avião), estavam sete pessoas, das quais cinco passageiros (Campos e quatro assessores da campanha) e dois tripulantes. Veja a lista dos mortos:
- Eduardo Campos, candidado à Presidência
- Alexandre Severo e Silva, fotógrafo
- Carlos Augusto Leal Filho (Percol), assessor
- Pedro Valadares Neto, assessor e ex-deputado federal
- Marcelo de Oliveira Lyra, cinegrafista- Geraldo Magela Barbosa da Cunha, piloto
- Marcos Martins, piloto
A Polícia Federal abriu inquérito para investigar o motivo do acidente. A PF enviou peritos para Santos a fim de trabalhar na apuração do caso. Aeronáutica e Polícia Civil também vão investigar.
O governador Geraldo Alckmin (PSDB) se deslocou para a cidade depois de tomar conhecimento da morte de Campos. "Estamos diante de uma tragédia que entristece todo o país. Quero em nome do povo de São Paulo trazer nossos sentimentos a todos os familiares das pessoas que perderam a vida nesse acidente", afirmou Alckmin.
Os principais adversários de Campos na campanha eleitoral, a presidente Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), cancelaram os compromissos de campanha. Todos os comitês de Dilma suspenderam as atividades após a confirmação da morte. "Estou absolutamente perplexo", afirmou Aécio Neves no Rio Grande do Norte.
A presidente decretou luto oficial de três dias. "Estivemos juntos, pela última vez, no enterro do nosso querido Ariano Suassuna. Conversamos como amigos. Sempre tivemos claro que nossas eventuais divergências políticas sempre seriam menores que o respeito mútuo característico de nossa convivência", afirmou a presidente em nota oficial. "O Brasil perde um dos seus mais talentosos políticos, que sempre lutou com idealismo por aquilo em que acreditava. A perda é irreparável e incompreensível", declarou Aécio.
Nove anos antes, em 2005, no mesmo dia (13 de agosto), morreu o avô do presidenciável, Miguel Arrais, de quem Campos era herdeiro político.
Campos deixou o governo de Pernambuco em abril deste ano para concorrer à Presidência da República. Ele começou na vida política aos 21 anos. Foi deputado federal, ministro da Ciência e Tecnologia no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e governou Pernambuco por dois mandatos (veja a trajetória política).
No ano passado, ele fechou um acordo com a ex-senadora Marina Silva que, não conseguiu registrar na Justiça Eleitoral o partido Rede Sustentabilidade a tempo de concorrer na eleição presidencial. Pelo acordo, Marina e integrantes da Rede ingressaram no PSB, e ela se tornou candidata a vice na chapa de Campos.
Segundo a mais recente pesquisa de intenção de voto do Ibope, divulgada no último dia 7, ele tinha 9% das intenções de voto, atrás de Dilma, com 38%, e Aécio, com 23%.
De acordo com a legislação eleitoral, o PSB poderá registrar em até dez dias outro candidato para substituir Eduardo Campos na disputa pela Presidência da República. Qualquer filiado pode ser indicado, sem a necessidade de que o partido realize outra convenção. Marina Silva é a mais cotada para assumir o posto de candidata no lugar de Campos. Para cientistas políticos, a sucessão presidencial se tornou imprevisível.
A morte de Eduardo Campos repercutiu de imediato no mundo políítico e também na imprensa internacional.
"Estamos muito chocados com tudo", afirmou o deputado federal Marcio França (PSB), presidente do diretório estadual do partido em São Paulo. França relatou que a mulher de Campos e o filho voltaram do Rio de Janeiro para Pernambuco em um avião de carreira.
Marina Silva se disse em "profunda tristeza" durante curto e emocionado pronunciamento na Prefeitura de Santos. "Durante esses dez meses de convivência aprendi a respeitá-lo, admirá-lo e a confiar nas suas atitudes e nos seus ideais de vida. Dez meses de intensa convivência. [...] Eduardo estava empenhado com esses ideais até os útlimos segundos de sua vida", afirmou.
No site da campanha, a coligação Unidos pelo Brasil, que reúne PSB, PPS, PPL, PHS, PRP, PSL, além da Rede, publicou texto afirmando que "a perda de Eduardo encerrou sua vida, mas não seus ideais. Fica a semente da esperança que move diariamente os brasileiros criativos e empreendedores, capazes de transformar em virtuoso seu duro cotidiano".
O PSB afirmou em nota que o Brasil perdeu um "jovem e promissor estadista". "Não é só Pernambuco e sua gente que perdem seu líder; não é só o PSB que perde seu líder. É o Brasil que perde um jovem e promissor  estadista", diz a nota.
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domingo, 10 de agosto de 2014

RECORDANDO TITO

Há exatos 40 anos, prestes a completar 29 anos, morria o homem que foi o símbolo da luta pelos direitos humanos na ditadura militar: Tito de Alencar Lima, conhecido como Frei Tito.
Enforcou-se na zona rural do convento de L’Arbresle, nos arredores de Lyon, França, já enlouquecido pelo trauma de ter passado 14 meses nos porões da ditadura militar.
A tragédia que tirou a vida do frei acontecera na noite do dia dez de agosto de 1974, quando a repressão da qual ele foi vítima ainda continuava a prender, torturar e assassinar no Brasil.
Pensei em iniciar este resumo com os nomes dos seus torturadores conhecidos, porém a náusea não me permitiu.
Desde muito novo Tito concluíra que só a vida religiosa daria sentido luminoso aos seus passos e que só na Igreja – consoante visões febris de Isaias – viria fazer justiça aos pobres da terra. Para ele, a Igreja não é templo dos ricos; ao contrário, é ainda a fraternidade subversiva das catacumbas romanas, sem profanações do dinheiro, e para sempre incumbida da construção de um futuro de justiça e liberdade, do futuro sem peias, quando Deus mesmo estará com seu povo.
Em 1969, Tito cursava Filosofia na Universidade de São Paulo e já tinha em seu currículo um histórico de militância: fora dirigente regional e nacional da Juventude Estudantil Católica, um dos movimentos de vanguarda da militância cristã da época.
Na madrugada do dia 3 para o dia 4 de novembro, Tito foi preso junto com outros dominicanos no convento em que morava pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, seu primeiro torturador. Nesse dia, a sua igreja lhe faltou.
Entre os presos estava Frei Betto, suspeito de participar de um esquema comandado pelo líder da Aliança Libertadora Nacional (ALN), Carlos Marighella, grande vulto brasileiro que pregava a luta armada. Começava, assim, o martírio de Frei Tito e dos seus irmãos. Como instrumento de intriga, os agentes da repressão espalharam a história que os dominicanos traíram os participantes da ALN, sendo este mal entendido esclarecido apenas em 1982, com a publicação do formidável Batismo de Sangue, livro do frei Betto.
Foram vários meses de horrores e vilanias. “Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia”, disse-lhe um torturador. O frade dominicano passou pelo pau-de-arara, sentou na cadeira do dragão e recebeu choques elétricos na cabeça, nos ouvidos e nos tendões do pé.
Deram-lhe pauladas nas costas, no peito e nas pernas, incharam suas mãos com palmatória, revestiram-no de paramentos e o fizeram abrir a boca "para receber a hóstia sagrada" - descargas elétricas na boca. Queimaram pontas de cigarro em seu corpo e fizeram-no passar pelo "corredor polonês". Apesar da intensa tortura que sofrera, Frei Tito nunca falou. “É preferível morrer do que perder a vida”, anotou em sua Bíblia, depois que um de seus torturadores avisou que, se não falasse, seria quebrado por dentro.
Em janeiro de 1971, foi banido do país; voou para o Chile e, depois, para Roma, Paris e Lyon. Mas o sonho da morte o habitava. A tortura que sofrera no Brasil havia rebentado seu espírito e continuava atormentando-o sem parar. “Longe vem o retirante... vem dizer que nos esquecemos de amar”, ele disse nos poemas. Tito sentia “um silêncio de Deus”. Certa vez, escreveu: “Não busco o céu, mas talvez a terra, um paraíso perdido”. Mas, o paraíso na terra estava perdido para sempre: em agosto de 1974 Frei Tito livra-se da tortura e morre, na certeza de poder viver depois da morte.
Na cruz que lhe coube entre os bosques de L’Arbresle, está gravado: "Frei da Província do Brasil. Encarcerado, torturado, banido, atormentado até a morte, por ter proclamado o Evangelho, lutando pela libertação de seus irmãos. Tito descansa nesta terra estrangeira".
A inscrição termina com estas palavras cortantes de Lucas: “Digo-vos que, se os discípulos se calarem, as próprias pedras clamarão”.
Em 1970, sob custódia da “Operação Bandeirantes”, frei Tito escreveu sobre a sua tortura num documento que rodou o mundo, tornando-se um dos símbolos da luta pelos direitos humanos na ditadura. Quando foi solto, em dezembro do mesmo ano, pediu exílio no Chile, de onde seguiu para Itália e França.
As feridas de seu corpo cicatrizaram, mas as torturas deixaram marcas incuráveis em sua alma. Era constantemente atormentado pelos fantasmas do passado, via Fleury em todos os lugares, ouvia suas ameaças. Fez terapia, mas de nada adiantou: seus traumas eram demasiadamente profundos. Enlouquecido, sozinho, atormentado, Tito morreu sob a copa de um álamo. “Se minha alma está morta, quem a ressuscitará?”, escrevera ele pouco antes de morrer. Esse discípulo não se calou. Afirmou seus princípios no paraíso da meninice, nos longos dias de combate e no inferno que finalmente o consumiu.
Quando, só em 25 de março de 1983, o corpo de Frei Tito chegou ao Brasil, foi realizada em São Paulo uma missa de corpo presente acompanhada por mais de 4 mil pessoas.
Fontes: jornais e Grupo Tortura Nunca Mais.
Conteúdo do blog Ainda Espantado
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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

SEM DEBOCHE

Do UOL
Eleito com 1,3 milhão de votos em 2010, o deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva (PR-SP), o palhaço Tiririca, 49, defendeu o voto "deboche" em sua campanha: "pior que tá não fica". Em 2013, o parlamentar afirmou que deixaria a atividade pública para se dedicar somente aos palcos e TV: "deputado trabalha muito e rende pouco".
Este ano, porém, o deputado voltou atrás e optou por tentar a reeleição. O "método Tiririca" de disputar uma eleição, porém, não agrada a outras humoristas profissionais.
"Eu não discuto o humorista, o ator. Mas eu passo longe do Tiririca político, do Tiririca 'quanto pior, melhor'. A política pode ser alegre sem ser cômica. As coisas sérias podem ser feitas com alegria", diz Geraldo Freire de Castro Filho, 74, o Castrinho, candidato a deputado estadual pelo PRB do Rio de Janeiro.
Ator, comediante e redator de programas de TV e espetáculos teatrais há 55 anos, o candidato do PRB defende em sua campanha eleitoral o tripé segurança (fortalecimento de comitês de moradores nos bairros), educação (investimentos em escolas em tempo integral) e saúde.
Evangélico, ele defende a candidatura de Marcelo Crivella (PRB) ao governo fluminense, diz porém que não apoia a candidatura presidencial da legenda. "Não sou Dilma de jeito nenhum. PT nunca mais". E diz não ser conservador.
Tiririca foi procurado pelo UOL durante cinco dias, mas não atendeu ao pedido de entrevista. Sua assessoria de imprensa não confirma, mas o candidato teria combinado com a direção do PR paulista de não dar entrevistas no período de campanha eleitoral.
O "antitiririca"
O candidato a deputado estadual pelo PSD da Paraíba Marcio Tadeu de Lima, 48, o Marcio Tadeu, tem a mesma opinião de Castrinho e diz ser um "antitiririca".
"Não concordo com essa linha. Não quero fazer piada com política. Política é para ser levada a sério. Sou um antitiririca", diz.
"Explico isso pra todo mundo. O que eu falo para os meus eleitores é que terei, como sempre tive, bom humor no trabalho", afirma. Apesar disso, o candidato admite que sua popularidade como humorista, sobretudo na Paraíba, é o que sustenta sua candidatura.
Há 28 anos, Marcio Tadeu é comediante na Paraíba e há seis ampliou seu trabalho, atuando no programa "Zorra Total", da TV Globo, e em três novelas da emissora.
"Minha plataforma política contempla dois pontos principais: a descentralização das atividades culturais no Estado, que hoje estão concentradas no eixo João Pessoa e Campina Grande, e a educação integral para as crianças e adolescentes", afirma.
Marcio Tadeu apoia a candidatura de Cássio Cunha Lima (PSDB) para governador da Paraíba e de Aécio Neves (PSDB) para a presidência: "acompanho meu partido".
Ceguinho defende educação
O candidato a deputado federal pelo PSB de Minas Gerais Geraldo Sebastião Magela Dias, 56, o Geraldo Magela Ceguinho, explica que sua plataforma política contempla a cultura e a educação, além da defesa de bandeiras de deficientes.
"Pretendo dar uma atenção especial à questão cultural. É necessário que criemos condições para que os artistas tenham acesso aos teatros do interior. A grande maioria pertence aos municípios e eles poderiam oferecer condições melhores para os artistas", diz.
O candidato cego ainda defende mandato de cinco anos, com direito à reeleição, para ocupantes de cargos executivos e legislativos, e coincidência das eleições.
"No Congresso Nacional vai estar o deputado, não o humorista. Vou continuar brincando, mas tratando as coisas com seriedade. Mesmo como humorista, posso fazer um trabalho sério. Um projeto pode beneficiar tanta gente".
Ceguinho diz que não é um candidato "Tiririca", mas não faz comentários sobre o colega humorista, nem o deputado paulista. "É meio complicado", afirma.
Ele apoia as candidaturas do PSB, Tarcísio Delgado para governador de Minas Gerais e Eduardo Campos para presidente, porém "vai arregaçar as mangas mesmo" para trabalhar, além da sua, é na campanha para o senado do ex-governador mineiro Antonio Anastasia (PSDB).
Escova, dentifrício e pedágios
Uma defesa de uma inserção maior da arte e da cultura na educação formal de jovens, como forma de evitar a violência, a inclusão da escova de dentes e do dentifrício na cesta básica, além da dedução no IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores), no ano posterior, de parte dos valores pagos de pedágio pelos proprietários de veículos, são as principais bandeiras do candidato a deputado federal pelo PRP do Espírito Santo Múcio Rossini Macedo, 48, o comediante Tonho dos Couros.
"Os palhaços são aqueles que se esquecem do povo. Sou humorista e uso na campanha o slogan: se você sempre votou no palhaço e se deu mal, desta vez vote em um profissional, que é uma forma de alertar a população", afirma o candidato.
Tonho dos Couros é um dos 15 personagens do humorista de Picuí, Paraíba, que relata em forma de comédia "o sofrimento do povo nordestino" em teatros do Sudeste do país, sobretudo o Espírito Santo.
"Bancada do riso"
"Tiririca até entrou (elegeu-se) como um deboche. Mas soube mudar isso e tornou-se um deputado muito bom. Ele é só um na bancada do riso e conseguiu aprovar o projeto de lei do artista mambembe, do artista de rua. Ele fez muita coisa pelo palhaço, pelo artista de rua", diz o candidato a deputado federal pelo PRTB do Ceará Lailton Rocha Melo, 49, o humorista Lailtinho Brega.
Membro ativo da Associação Cearense de Humor, que reúne 90 humoristas do Estado, o candidato tem dois eixos em sua plataforma eleitoral: a defesa da utilização de arte e cultura para a recuperação de dependentes químicos e a bandeira de maior inserção da população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros) na sociedade.
"O Ceará é um celeiro de humoristas. O Estado é um caldeirão cultural. Temos de participar disso tudo", afirma. "Minha praia não é o deboche. Vou lá [Câmara dos Deputados] para trabalhar".
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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

LULA EXCLUSIVO

Antes de mais nada, impressiona a paixão. Aos 68 anos, Luiz Inácio Lula da Silva não perdeu o vigor com que arengava à multidão reunida no gramado da Vila Euclides no fim do anos 70. E nos momentos em que sustenta algo capaz de empolgá-lo, ocorrência frequente, aperta com força metalúrgica o pulso do entrevistador mais próximo, como se pretendesse transmitir-lhe fisicamente sua emoção. Assim se deu nesta longa entrevista que o ex-presidente Lula deu a Carta Capital. No caso de Mino, esta foi mais uma das inúmeras, a começar pela primeira, em janeiro de 1978.
Carta Capital: O senhor enxerga alguma relação entre a Copa do Mundo e a eleição? Se enxerga, por que e de que maneira?
LULA: Eu acho difícil imaginar que a Copa do Mundo possa ter qualquer efeito sobre a preferência por este ou aquele candidato. Por outro lado, se o Brasil perder,  acho que teremos um desastre similar àquele de 1950. Tenho uma frustração tremenda, e a gente não sabe com que resultado psicológico para o povo. Em 50 jogaram o fracasso nas costas do goleiro Barbosa.
CC: Em primeiro lugar do Bigode.
O Barbosa carregou por 50 anos a responsabilidade, e morreu muito pobre, com a fama de ter sido quem derrotou o Brasil. É uma vergonha jogar a culpa num jogador. Se o Brasil ganha, a campanha passa debater o futuro do País e do futebol vai ficar para especialistas como eu.
CC: E as chamadas manifestações?
LULA: Ainda há pouco tempo a gente não esperava que pudessem acontecer manifestações. E elas aconteceram sem qualquer radicalização inicial, porque as pessoas reivindicavam saúde padrão Fifa, educação padrão Fifa, poderiam ter reivindicado saúde padrão Interlagos, quando há corrida, ou padrão de tênis, Wimbledon, na hora do tênis. Eu acho que isso é até saudável, o povo elevou seu padrão reivindicatório. E é plenamente aceitável dentro do processo de consolidação democrático que vive o Brasil. Eu acho que,  ao realizar a Copa, o governo assumiu o compromisso de garantir o bem-estar e a segurança dos brasileiros e dos torcedores estrangeiros. Quem quiser fazer passeata que faça, quem quiser levantar faixa, que levante, mas é importante saber que, assim como alguém tem o direito de protestar, o cidadão que comprou o ingresso e quer ir ver a Copa tenha a garantia de assistir aos jogos em perfeita paz.
CC: O povo brasileiro amadureceu e nós entendemos que o resultado da Copa será bem menos importante do que foi em 1950. Mesmo que a Seleção perca, não haverá tragédia. Deste ponto de vista. Efeitos sobre as eleições podem ocorrer em função das chamadas manifestações.
LULA:  Tenho certeza de que a presidenta Dilma e os governos estaduais estão tomando toda a responsabilidade para garantir ordem. Com isso podemos ficar tranquilos, é questão de honra para o governo brasileiro. O que está em jogo é também a imagem do Brasil no exterior. De qualeur maneira, acho que não vai ter violência, e, se houver será tão marginal a ponto de ser punida pela própria sociedade. Agora se um sindicato quer fazer uma faixa “abaixo não sei o quê, 10% de aumento”, é seu direito. Eu me lembro que disse ao ministro José Eduardo Cardozo, quando começou a se aventar a possibilidade de uma lei contra os mascarados: “Olha, gente, nem brincar com lei contra mascarados porque a primeira coisa que iremos prejudicar vai ser o Carnaval, não os mascarados”. A Constituição e o Código Penal definem claramente o que é o ordem e o que é desordem e, portanto, o governo tem mecanismos para evitar qualquer abuso. Recomenda-se senso comum. Nesses dias tentaram até confundir uma frase minha sobre uma linha de metrô até os estádios. Em 1950, no Maracanã cabiam 200 mil pessoas, mais de duas vezes as assistências atuais. É verdade, havia menos carros nas ruas, infinitamente menos carros, mas também não havia metrô.
CC:  De todo modo, vale apena realizar uma Copa?
LULA: Discordo daqueles que defendem a Copa no Brasil dizendo que vão entrar 30 bilhões, ou que geraremos novos empregos. O problema não é econômico. A Copa do Mundo vai nos permitir, no maior evento de futebol do mundo, mostrar a cara do Brasil do jeito que ele é. O encontro de civilizações, o resultado dessa miscigenação extraordinária entre europeus, negros e índios que criou o povo brasileiro. Qual é o maior patrimônio que temos para mostrar? A nossa gente.
CC: Em que medida essas manifestações nascem do fato de que houve uma ascensão econômica? Aqueles que melhoraram de vida reivindicam mais saúde, mais educação.
LULA: Eu acho que não há apenas uma explicação para o que está acontecendo. Precisamos aprender a falar com o povo, para que entenda o momento histórico. O jovem hoje com 18 anos tinha 6 anos quando ganhei a primeira eleição, há 14 anos quando deixei de ser presidente da República. Se ele tentar se informar pela televisão, ele é analfabeto político. Se tentar se informar pela imprensa escrita, com raríssimas exceções, ele também será um analfabeto político. A tentativa midiática é mostrar tudo pelo negativo. Agora, se nós tivermos  a capacidade de dizer que certamente o pai dele viveu num mundo pior do que o dele, e se começarmos  a mostrar como a mudança se deu, tenho certeza de que ele vai compreender que ainda falta muito, mas que em 12 anos passos adiante foram dados.
CC: O governo não soube se comunicar?
LULA: Eu acho. Eu de vez em quando gosto de falar de problema histórico, para a gente entender o que de fato aconteceu neste país. Já disse e repito: Cristóvão Colombo chegou em Santo Domingo, em 1492, e em 1507 ali surgia a primeira faculdade. No Peru, em 1550, na Bolívia, em 1624. O Brasil ganhou a primeira faculdade com dom João VI, mas a primeira universidade somente em 1930. Então você compreende o nosso atraso. Qual é o nosso orgulho? Primeiro, em 100 anos, o Brasil conseguiu chegar a 3 milhões de estudantes em universidades. Nós, em 12 anos, vamos chegar a 7,5 milhões de estudantes, ou seja, em 12 anos, nós colocamos mais jovens na universidade do que foi conseguido em um século. Escolas técnicas. De 1909 até 2002, foram inauguradas 140. Em 12 anos, nós inauguramos 365. Ou seja, duas vezes e meia o número alcançado em um século. E daí você consegue imaginar o que significa o Reuni ao elevar o número de alunos por sala de aula, de 12 para 18. Ou o que significa o Ciências Sem Fronteiras, o Fies: 18 universidades federais novas. Pergunta o que o Fernando Henrique Cardoso fez? Se você pensar em 146 campi novos, chegará à conclusão de que foi preciso um sem diploma chegar na Presidência da República para colocar a educação como prioridade neste país. Nós triplicamos o Orçamento da União para a educação. É pouco? É tão pouco que a presidenta Dilma já aprovou a lei permitindo 75% dos royalties para a educação. É tão pouco que a Dilma criou o Ciência Sem Fronteiras para levar 65 mil jovens a estudar no exterior. É tão pouco que ela criou o Pronatec, que já tem 6 milhões de jovens se preparando para exercer uma profissão. Isso tudo estimula essa juventude a querer mais. Tem de quer mais. Quanto mais ela reivindicar, mais a gente se sente na obrigação de fazer. Quem comia acém passou a comer contrafilé e agora quer filé. E é bom que seja assim, é bom que as pessoas não se nivelem por baixo. Eu sempre fui contra a teoria de que é melhor pingar do que secar. Quanto mais o povo for exigente e reivindicar, forçará o governo a fazer mais.
O que é ruim? A hipocrisia. Nós temos um setor médio da sociedade, que ficou esmagado entre as conquistas sociais da parte mais pobre da população e os ricos, que ganharam dinheiro também. A classe média, em vários setores, proporcionalmente ganhou menos. Toda vez que um pobre ascende um degrau, quem está dez degraus acima acha que perdeu algumas coisas. A Marilena Chauí tem uma tese que eu acho correta: um setor da classe média braseira que às vezes também é progressista, do ponto de vista social, mas não aprendeu a socializar os espaços públicos e então fica incomodado.
CC: Nós entendemos que o problema é apresentado pela elite brasileira. Quem se empenha contra a igualdade?
LULA: Eu sou o mais crítico do comportamento da elite brasileira ao longo da historia. Este país foi o último a acabar com escravidão, foi o último a ser independente. Só foi ter voto da mulher na Constituição de 34. Tudo por aqui resulta de um acordo, inclusive um acordo contra a ascensão social. Na Guerra dos Guararapes, quando pretos e índios quiseram participar, a elite disse “não, não vai entrar, porque depois que terminar essa guerra vão querer se voltar contra nós”. Esta é a história política do Brasil. Ocorre, porém, que a ascensão dos pobres levou empresas brasileiras a ganhar como nunca. Não sou eu quem lembra – em 1912, Ford dizia: “Quero pagar um bom salario para meus trabalhadores para que eles possam consumir”. Por exemplo: pobre em shopping dá lucro. Muitas vezes os donos não aceitam num primeiro momento, mas depois percebem que é bom. Tínhamos 36 milhões de brasileiros viajando de avião, agora temos 112 milhões.
CC: Notáveis avanços são inegáveis. Mas como vai ser daqui para a frente?
LULA: Eu fazia debates mundo afora, com o Mantega, o Meirelles, às vezes a Dilma. E eu dizia: esses ministros meus, eles falam da macroeconomia, mas o que eles não dizem é que essa macroeconomia só deu certo por causa da minha microeconomia. O que foi a microeconomia? Foi o aumento de salário, foi a compra de alimentos, a agricultura familiar, foi o financiamento, foi o crédito consignado, foi o Bolsa Família. Foi essa microeconomia que deu sustentabilidade à macroeconomia. Na Constituição de 46, quando o trabalho era o assunto, concluía-se: “ Não pode dar 30 dias de férias para o trabalhador, porque o ócio o prejudica”. Chamavam férias de ócio. Agora, as pessoas dizem que o Bolsa Família cria um exército de vagabundos. E o futuro? Numa escada de dez degraus, os pobres só subiram dois, um e meio, ainda falta muito para subir. Por isso eu tenho orgulho da presidenta Dilma, ela sabe que muita gente vai se bater contra ela a assustar que, para controlar a inflação e fazer o País crescer, é preciso ter um pouco de desemprego, arrocho no salário mínimo, ou seja, que é preciso fazer o que sempre foi feito neste País e que não deu certo. Então, o que o governo tem de garantir é o aumento da poupança interna, mais investimento do Estado, mais junção entre empresa privada e pública, mais capital externo para investir no setor produtivo. Para tanto, é indispensável dar continuidade à ascensão dos mais pobres. Porque é isso que também vai garantir a ascensão do Brasil no mundo desenvolvido, com alto padrão de qualidade de vida, renda per capita de 20 mil, 30 mil dólares, e até mais. O Brasil não pode parar agora. Está tudo mais difícil, mas temos agora o que a gente na tinha há cinco anos, vamos contar com o pré-sal, daqui a pouco.
CC: Temos um agronegócio muito exuberante, muito produtivo e competitivo: é possível mobilizar essa capacidade para estimular a indústria de equipamentos agrícolas?
LULA: Nós já temos uma indústria de equipamentos agrícolas muito boa. Quando na Presidência, cansei de discutir com empresários que feiras de agronegócio nós precisamos é fazer na Argentina, no México, Nigéria, Angola, Índia. Temos de mostrar nossa capacidade nos outros mercados. Esta é uma área na qual o Brasil está pronto, não só porque tem conhecimento tecnológico, mas também porque tem capacidade de área agriculturável, terra, sol e água. Sem a vergonha de dizer que exportamos commodities. Hoje, a commodity tem preço. O que nós precisamos é produzir não só o alimento, mas a indústria de alimentos, não só a soja, mas o óleo de soja.
CC: Permita-nos insistir: como vencer as resistências da elite, atiçada pela mídia?
LULA: No movimento sindical, em 1969, comecei a negociar com a Fiesp, certamente a elite era muito mais retrógrada do que hoje. Eu lembro quando nós constituímos a primeira grande comissão de fábrica na Volkswagem nos anos 80, nós fomos pedir a Antônio Ermírio de Moraes a criação de uma comissão de fábrica na sua indústria química de São Miguel Paulista, e significava trabalhador querendo mandar na empresa dele. Hoje tem uma classe empresarial, mais jovem, que já compreende a importância da negociação coletiva. Mesmo assim, permanecem setores retrógrados. Ainda temos coronel que mata gente por este Brasil afora por briga de terra. Nesses dias a Nissan americana não queria deixar seu pessoal sindicalizar-se por lá mesmo e eu tive de mandar uma carta para o presidente da empresa. Mas voltemos à mídia.
CC: A mídia nutre essa elite?
LULA: Eu certamente não sou especialista nesta questão da mídia e nunca tive muita simpatia dos seus donos. Toda vez que tentei conversar com eles, cuidei de explicar que ao governo não interessa uma mídia chapa-branca, como foram no governo Fernando Henrique Cardoso. Eu não quero isso, não quero que tratem o PT como trataram a turma do Collor nos dois primeiros anos do seu mandato. Agora, também é inaceitável a falta de respeito com Dilma. Se querem falar mal, façam-no no editorial do jornal. Na hora da cobertura do fato, publiquem o fato como ele é. Nunca liguei para o dono de mídia pedindo para fazer essa ou aquela matéria, mas o respeito há de ter, tanto mais por parte da comunicação, que é concessão do Estado. Respeito à instituição, e acho que eles saíram de um momento em que lambiam as botas ditadura e evoluíram para o pensamento único a favor de FHC, e contra o meu governo e contra o da Dilma, e contra a presidenta com agressividade ainda maior.
CC: E em termos de informação?
LULA: Quando eu cito os números da educação, por exemplo, é porque nunca foram divulgados por esta mídia. É como se houvesse a obrigação de omitir, sem perceber que com isso se desrespeita o próprio público, que lê, ouve ou assiste. Nem o recente Ibope eles divulgaram. Nem comentaram a inauguração da Rodovia Norte-Sul, que passaram três anos criticando. Há uma predisposição ao negativismo, e isso contribui para uma desinformação da sociedade brasileira. E uma questão é ideológica, se fosse econômica, eles deveriam ir todo dia à igreja acender uma vela para mim, porque muitos estão quebrados e se salvaram no meu governo. Eu estou com a alma tão leve, eu até acho normal o que eles fazem. Vem esse metalúrgico, que a gente supunha destinado a um fracasso total, e é um sucesso. Vem essa mulher aí, que a gente achava um poste, e ela não é um poste. E essa mulher vai se eleger outra vez.
CC: Na verdade, o que está esmaecendo no Brasil e no mundo é o espírito crítico.
LULA: Porque interessa uma parte da elite brasileira a negação da política. O que vem depois é sempre pior, quando você nega a política. A ditadura brasileira foi a negação da política. O que é muito grave, porque, se você atravessa um momento sem nenhuma referência, sem ninguém em condições de controlar a situação, o próprio Estado vai à deriva.
CC: Insistimos novamente: o governo não se comunica?
LULA: Vocês estão certos, não se comunica, eu tenho falado para o Guido Mantega, para a Dilma: vendo como está o mundo hoje, a cada dois meses o governo tem de fazer igual uma empresa com seus acionistas, que têm fundos de pensão. Ou seja, você de fazer viagens e convencer o fundo de que sua empresa é rentável e vale a pena investir. Então, a cada dois meses o governo brasileiro tem de ir a Nova York, não para falar com aposentados brasileiros, mas com o investidor. Já falei com o Itamaraty, com Bradesco, Santander, todos se dispõem a articular os maiores debates brasileiros para mostrar ao mundo realizações e potencialidades. A Petrobras tem de viajar a cada 30 dias para onde tem investidor. Não podemos ficar por conta de um jornalista inglês que copiou matéria de um jornalista que vive no Rio de Janeiro e fica procurando matéria em jornal para se inspirar. O Brasil precisa reconhecer enquanto vira a sétima economia mundial com viés de ser a quinta, que lá fora já não se fala bem da gente. José Luis Fiori escreveu um artigo comparando Brasil e México para acabar com o complexo de vira-lata de quem fala que o Brasil está pior que o México. O que o México tem melhor que o Brasil? Eu quero que o México fique cada vez mais rico, mas a comparação com o Brasil é inadequada, porque o Brasil é maior que o México em tudo. Dias atrás, estava aqui com meu amigo Gerdau e perguntei: como está o setor siderúrgico? E ele: não está muito bem. Perguntei: quanto é que você está ganhando no Brasil? Somente aqui, respondeu. Perguntem para o José Gomes da Silva, da Coteminas, onde ganha dinheiro? No Brasil. O mercado interno brasileiro é uma benção de Deus que a elite não sabia existir, eles nunca imaginaram que podíamos ultrapassar os 35 milhões de consumidores.
CC: Que chances há de mudar essa falha do governo?
LULA: Não é fácil, eu sei o que foram meu primeiro e segundo mandatos. Tenho dito com a Dilma que não tem de dar ouvidos a quem fala que gastamos muito com publicidade. Eu acho que, se foi anunciado um programa hoje, e no segundo dia não houve repercussão, vai em rede nacional. O governo tem de dizer o que a mídia não divulgou, porque se não disser, o silêncio se fecha sobre o fato. Dois dias de tolerância, e coloca um ministro em rede nacional, não precisa ir a presidenta todo dia. Mas não fiquemos nisso. O Marco Regulatório tem de ser compreendido. Não é censura, queremos é fazer valer a Constituição de 88, tanto mais quando entram em cena Facebook e companhia, eu nem sei o nome de tudo. Existe o Marco Regulatório de 1962. O Franklin Martins foi feliz ao observar: “Em 62, a gente tinha mais televizinhos do que televisores”. Eu lembro que menino ia à casa do vizinho ver televisão, a gente só podia sentar no chão, o sofá era do dono da casa e ainda ele pisava no dedo da gente. Para assistir luta livre, tinha de gastar dinheiro no bar, o dono cobrava. Hoje acontece essa revolução tecnológica e você não quer discutir sua regulamentação? Então, o Marco Regulatório e a reforma política são dois temas de ponta que o PT tem de assumir. Temos de convocar uma Constituinte própria para fazer uma reforma política.
CC: O que seria esta Constituinte própria?
LULA: Não se destinaria a elaborar uma nova Constituição, e sim discutir a reforma política, exclusivamente. O congresso tem de aprovar a ideia do plebiscito, e na convocação você diz o que é. E ai, não faltam recursos jurídicos para adotar a nomenclatura adequada. É insuportável governar com o Congresso tomado por tantos partidos. É preciso ter critério para organizar um partido, tem de haver cláusula de barreira.
CC: Este problema não resulta do fato de que os partidos brasileiros nunca foram o intermediário necessário entre a nação e o governo?
LULA: O Brasil não tem tradição de partido nacional, a tradição são tribos locais, com caciques regionais. Depois do PCB, o PT tornou-se o único partido nacional, cuja atuação partidária a direção decidia. Mas o PT erra quando começa a entrar na mesmice dos outros partidos. Erra quando usa a mesma prática dos outros partidos. Eu não quero voltar às origens, briguei a vida inteira para ser classe média e agora vou voltar a brigar. O PT, tem que saber, criar esse partido não foi fácil. Lembro de alguém que vendeu uma cabrita, que dava leite para amamentar o filho, para legalizar o PT. E até hoje há gente que anda três, quatro dias de canoa para participar de uma convenção. A gente não pode permitir que meia dúzia de pessoas deformem esse partido, ele é muito grande. É um partido que o próprio povo dirige. Não é uma coisa simples, nós temos de valorizar isso. Já disse na convenção do PT: quero ajudar o PT a voltar ao seu leito natural. Se tem uma coisa que o PT tem de notabilizar é voltar à sua tradição politica. É isso que dá autoridade moral e força para a gente.
CC: Não é fácil manter a coerência na hora da coalizão...
LULA: Não é vergonha você repartir administração com outros partidos, sempre que pastas sejam definidas na base da afinidade. A reforma politica é a briga que nós temos de ter hoje. Não acho que tenha de ser da Dilma. Ela é candidata, acho que a briga tem de ser de todo o partido. O Rui Falcão tem sido de grande valia nessa luta. Agora vou fazer campanha pelo Nordeste, essa é a contribuição que me cabe no momento. E, se eu fosse o governo, ficaria ouvindo todo programa de rádio, de televisão, e o que não for verdade, pedir direito de resposta. Utilizar a internet e não ficar chorando “a Globo não me dá espaço”. A gente tem outros instrumentos para dizer o que quer. Estou muito disposto, física e psicologicamente para rodar o Brasil.
CC: A campanha, assumir os palanques...
LULA: Assumir os palanques. Estarei com Dilma onde ela achar conveniente estar. Preciso tomar muito cuidado, porque haverá na base aliada interesses de que eu não vá, porque a Dilma não pode ir, ela é candidata e da base aliada, mas eu tenho compromisso com o meu partido. Eu sei que isso vai ser um problema, a gente vai ter de conversar e negociar muito. Estou feliz, sabe por quê? Eu sempre achei que quem deixa a Presidência fica pensando: como seu estarei daqui a algum tempo? Porque as pessoas vão esquecendo, você vai perdendo a importância. Eu lembro que em 2002, 2006, ninguém queria o FHC no palanque. Nem Serra colocou. Em 2010, Serra me apresentou como amigo dele e não colocou o FHC. Então, eu me sinto feliz, eu estou bem, eu ainda tenho consciência de que sou uma pessoa importante na política brasileira, e como tal, direi que Dilma é a pessoa mais talhada para cuidar do Brasil.
CC: E essa história que a imprensa criou do “Volta Lula”?
LULA: O “Volta Lula” começou  já na época que eu era presidente, quando pediam o terceiro mandato. Eu, graças a Deus, aprendi a ter responsabilidade muito cedo. E aprendi que, ao aceitar o terceiro mandato, por me achar insubstituível, poderia permitir que outros também achassem, com a possibilidade de alguém, algum dia, tentar o quarto. Não é prudente brincar com a democracia. Cumpri meus dois mandatos, saí cercado pelo carinho do povo. Se, em algum momento, tiver de voltar, posso daqui a quatro anos. Mas não é a minha prioridade. Eu estarei com 72 e acho que tem de ser gente mais jovem, com mais vigor físico e capacidade de administração. Mas em politica a gente não pode dizer que não, nem sim. Nunca me passou pela cabeça voltar. Em todo caso, minha relação com a Dilma é muito forte, e de muito respeito e admiração pelo caráter dela. Bem formada ideologicamente e muito leal. Nunca iria disputar sua candidatura.
Não faltou quem quisesse minha volta, mas quando o Rui Falcão, botou em votação, deixei claro: “Quero que saibam, sou candidato a cabo eleitoral da companheira Dilma Rousseff para o segundo mandato à Presidência da República”.
CC: E quanto aos adversários?
LULA: Conheço o Eduardo Campos, é meu amigo, gosto dele profundamente. Conheço o Aécio, ele não tem a mesma firmeza ideológica do Eduardo, tem outro compromisso, é um representante mais afinado com a elite. Mas a Dilma é a mais preparada. Fico triste que não conseguimos construir algo capaz de manter o Eduardo Campos junto da gente. Mas era destino.
CC: E a Marina?
LULA: Eu gosto muito da Marina, como figura humana. Foi minha companheira no PT por 30 anos, tenho por ela um carinho muito grande, mas acho que, de vez em quando, comete equívocos na análise política dela, meio messiânica. Imaginei-a candidata, e agora entra de vice. Nisso não consigo entender a Marina. Mas não confundo relação de amizade com a minha decisão política. Tenho amizade com o Aécio mais formal do que com o Eduardo e sua família.
CC: Dilma ganha no primeiro turno?
LULA: A ganhar no primeiro turno por 51% a 49% prefiro ganhar no segundo turno, com 65% a 35%. Reeleição é sempre muito difícil, mas no segundo turno você pode consolidar um processo de alianças com a coalisão e você é eleito com mais desenvoltura, e também permite fazer um debate mais profundo. No primeiro turno todo mundo fala a mesma coisa, promete tudo para o povo. Eu acho que a Dilma está tranquila. Se em 2002 a esperança venceu o medo, acho que agora a esperança e a certeza do que pode ser feito pode vencer o ódio.
CC: A campanha será sangrenta?
LULA: Pelas características dos candidatos, acho que não. De resto, o resultado de uma campanha não define apenas vencedor e derrotados, é o grau de politização da sociedade, é o gosto pela política, é perceber que durante a campanha os candidatos aprenderam alguma coisa e deram um salto de qualidade. Quando disputei com o Serra, nós tivemos uma campanha mais civilizada do que com o Alckmin. Ele se apresenta como cidadão refinado, mas foi de extrema agressividade.
CC: Qual seria o adversário mais provável para o segundo turno?
LULA: Eu acho que, em um segundo turno, será tucano. O PSDB tem base partidária mais organizada, governam São Paulo, Paraná, alguns estados importantes no Nordeste, e tem mais tradição de palanque. Já o PSB tem pouco palanque estadual, a campanha do Eduardo vai ser mais difícil do que em 1989.
CC: O Padilha, candidato petista em São Paulo?
LULA: O Padilha é um daqueles fenômenos. Eu disse outro dia em Sorocaba ao Padilha: “Depois de quem o precedeu, Arruda Sampaio, Suplicy, Dirceu, Marta, Genuíno, Mercadante, você é o melhor candidato de todos nós, o mais alegre, o mais simpático, sua capacidade de comunicação com o povo é fantástica, unificou o partido”. Mas é uma campanha difícil. Primeiro, porque os tucanos têm uma base sólida em São Paulo, e há conservadorismo no estado e isso dá quase uma garantia. Não sei se Paulo Skaf vai ser candidato, há dois anos que faz campanha não como candidato, mas como presidente da Fiesp. Agora o desafio do PT é ter os votos que o partido tem habitualmente na cidade, todas as eleições.
CC: Fale da central de boatos a respeito do seu filho Fábio.
LULA: Ao mesmo tempo que sou defensor intransigente da liberdade que temos na internet, acho que somos vitimas dessa liberdade, porque o cidadão entra no seu quarto, seu escritório, e fala a besteira que quiser. Há muito tempo vêm denúncias, outro dia mostram a sede da Esalq e disseram que era a cada do meu filho, outro dia ele era dono da Friboi, um dia desses ele foi à Itaipu com o Samec passear, daí um jornal disse que ele estava fazendo negócios, inventaram que ele tem um jato. Conseguimos detectar o paradeiro de dez pessoas, uma era do Instituto Fernando Henrique Cardoso, filho do ex-ministro Graziano. Os envolvidos foram acionados, um veio prestar depoimento e disse: “Mas eu sou eleitor do Lula, eu só citei, não sabia se era verdade, mas coloquei”.  Muitos pedem desculpas. O Graziano veio aqui também. Quando, muito tempo atrás, eu fui contra a invasão do Afeganistão pela então URSS, diziam que eu era da CIA, depois eu era visto pela direita como o cara do Partidão. Isso me permitiu continuar percorrendo o caminho do meio. Mas vale acentuar que nós chegamos à excrecência da excrecência do comportamento humano. Um dia desses eu vejo O Que Sei de Lula, um livro. O autor não conviveu comigo um único segundo para escrever a orelha do livro. Fico pensando o que faço com um cidadão desse? Acabo percebendo que o melhor é a desmoralização pela mentira. O Romeu Tuma Jr. não merece o comportamento do pai dele. O pai dele foi um cidadão digno. Quando a minha mãe estava para morrer, ele, meu carcereiro, me deixava sair da cadeia às 2 da manhã para visitá-la. Então, quando um cidadão conta uma mentira dessa, o que fazer? Processar? Acho que falta um pouco de senso de responsabilidade no comportamento das pessoas. De verdade, falta reconstruir a estrutura social da família. Quando eu era pequeno, tinha vontade de comer uma maçã embrulhada em papel azul, e ficava diante da barraca olhando e olhando, e sabe por que eu não pegava e não saía correndo? Para não envergonhar a minha mãe. Ela era a minha referência de comportamento.
CC: Mas uma política social que conseguisse alcançar um certo grau de igualdade, isso não recriaria automaticamente valores perdidos?
LULA: Há todo um conjunto de fatores viáveis, não concordo com diminuir a idade penal e colocar mais polícia na rua para coibir a violência. Isso não vai funcionar. Eu acho que, se houver mais gente na escola e mais gente trabalhando, vamos caminhar no rumo certo.
CC: Seria correto dizer que há uma concepção errada da polícia num Estado democrático. Trata-se de uma instituição absolutamente necessária, mas muito maltratada, porque ela não é para reprimir, é para prevenir. Será que não vivemos uma crise institucional dos poderes que haveriam de constituir um Estado moderno?
LULA: Quando a gente fala em reforma, precisamos reformar também o Poder Judiciário. É tudo muito lento. Mas a Justiça pede por uma reforma, porque é justo exigir mais competência, é preciso ter mais estrutura para chegar a um cargo na Justiça. Quanto à polícia, tenho uma observação. A nossa polícia sabe que em muitos casos o crime organizado está mais preparado do que ela. Todo ser humano tem medo. Há casos em que o policial tira a farda para ninguém saber que ele é policial. Ele vai trabalhar com um pouco de medo, e o medo faz você mais violento. Se você aborda o suspeito, já de revólver em punho, caso este reaja, você puxa o gatilho. Como é que você resolve isso? Nós cometemos um erro na Constituição, que foi dar muita autonomia aos estados para que sua polícia se desvincule com muita autonomia da PM. Dá a impressão de que os estados saberiam lidar com a criminalidade, mas não prática muitos estados ficam reféns da própria polícia. Primeiro, seria preciso que os policiais se formassem por cursos de inteligência, assim como se formam em tiro ao alvo e arte marcial. Segundo, é preciso pagar melhor. Acho que, no caso da organização da polícia, o problema está na Constituição de 88. Nas Forças Armadas, nós liberamos 7 mil, 8 mil fardados por ano, que poderiam ser chamados diretamente para a polícia. Mas não, têm de prestar concurso. É preciso rediscutir a respeito. Sem deixar de partir do pressuposto de que nenhum governador quer abrir mão do controle da polícia. Decisivo seria definir o papel de cada um. Porque, quando um governador prende um bandido, ele gosta de aparecer na televisão, mas, quando ele não prende, o governo federal é o culpado. Essa ponderação explica-se a outros campos. A educação. Quem é que cuida? O governo federal, estadual ou a prefeitura? E no ensino técnico? Saúde? Nós precisamos definir tudo isso. Temos de repactuar os entes federados. Construir um pacto federativo, não só a partir da discussão financeira, mas também de acordo com a responsabilidade de cada um. Penso que no segundo mandato da Dilma terá de fazer coisas novas, é importante promover debates que ainda não foram feitos. Só se fala em política tributária, e ninguém quer política tributária. Eu tentei implementar duas vezes, ninguém quis. Dilma tem de fazer um esforço muito grande para destravar este país.
CC: Até que ponto o senhor pode influenciar Dilma na escolha dos futuros ministros?
LULA: Eu não quero influenciar a Dilma. Faço política por uma transferência de confiança. Eu confio na Dilma. Se for eleita, vai fazer suas escolhas, vou torcer para dar certo. Se achar que ela está errada, vou dar uns palpites. Se em algum momento ela resolver discutir comigo alguns nomes, eu também não terei dúvidas em ajudá-la.
CC: Digamos que a presidenta não queira ouvir ninguém, quem quer que seja.
LULA: Não existe isso.
CC: Admitamos uma sugestão não solicitada: “Este cara é muito bom”.
LULA: Vamos supor que a Dilma seja eleita e eu resolva indicar o Belluzzo. E ela falasse ”não”. O que iria acontecer? Ia ficar um arranhãozinho na nossa relação de amizade. Dai eu preferir não indicar. É mais saudável, nem eu nem ela teremos decepções. Agora, se o partido vier discutir comigo quais nomes vai indicar, eu direi o que acho a respeito. Com ela, não. A não ser que a escolha me pareça absurda e então não hesitarei: “Este é problema”.
CC: Como analisar o avanço na relação dos BRICS?
LULA: Neste mundo globalizado a gente tem de procurar parceiros. Acabou o tempo em que o mundo pobre esperava tudo da Europa e dos Estados Unidos. Então, eu penso que o Brasil tem de fortalecer as suas relações. Eu sou da tese de que a gente tem de criar um colchão de proteção do Brasil em suas relações externas, do ponto de vista estratégico, do ponto de vista da segurança, econômico, do ponto de vista estratégico do desenvolvimento científico-tecnológico.  Porque quem já tem não quer repartir com a gente.
Por isso o Brasil há de fortalecer cada vez mais sua participação, sobretudo na América do Sul. E ter aqui, na América do Sul, algo muito forte na área do comércio e da interação das nossas empresas. Ter empresas fortes e bancos desenvolvimentos fortes. O BNDES tem de arcar com um papel mais importante e a gente tem de construir o Banco Sul. Acho que temos de fazer o mesmo com a África, porque agora, no século XXI, a África dará um salto de qualidade.
E com os BRICS, precisamos tomar decisões políticas. Nós somos uma espécie de pêndulo do planeta Terra, então não podemos ficar dependendo do dólar para fazer negócio. Temos de construir, e não esperar que o mundo construído no século XIX, no começo XX, venha nos salvar. Nós podemos fazer a diferença. Eu acho que esse acordo da Rússia com a China, esse negócio do gás, foi um tapa com luva de pelica na cada da Aliança do Atlântico. Acho que os BRICS devem funcionar como uma espécie de segurança na relação de cinco economias importantes. Por que eu falo isso? O Mercosul, quando cheguei à Presidência, não valia nada. A Alca e que estava na moda. Nós não implantamos a Alca e o Mercosul passou de 10 bilhões para 49 bilhões de fluxo de comércio exterior. A América do Sul não valia nada, o Brasil não conversava com ninguém, ninguém conversava com o Brasil.
CC: Não é do interesse das elites que esses dados apareçam.
LULA: O Brasil é o primeiro produtor, e primeiro exportador, de carne processada, suco de laranja, tabaco, o segundo de soja. Tudo que você imaginar, o Brasil está entre os cinco do mundo. Vamos gostar deste País!
Entrevista exclusiva publicada na revista Carta Capital, edição 802 de 4 de junho de 2014, a Luiz Gonzaga Belluzzo e Mino Carta.
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quinta-feira, 31 de julho de 2014

VISÃO PRECONCEITUOSA

RIO — O candidato ao governo do Rio Marcelo Crivella (PRB) disse, durante entrevista à TV Band na madrugada desta terça-feira, que “se deixar a população da Baixada, das regiões periféricas, vivendo na miséria, essas pessoas migram para vir roubar na capital onde tem a maior riqueza”.
Para Tião Santos, coordenador das entidades de promoção da inclusão social Viva Rio e Fórum Grita Baixada, a fala do senador foi “extremamente preconceituosa”. Santos refuta a ideia de que a violência está relacionada à pobreza.
— O grau de preconceito dessa fala é inadmissível nos dias de hoje. Se o problema da violência fosse os pobres, as favelas viveriam um verdadeiro inferno, o que não acontece. Acho que o Crivella foi infeliz na frase. Seria melhor se ele falasse no positivo, que, para acabar com a miséria na Baixada, teria de investir no social, em políticas públicas. Foi uma fala extremamente preconceituosa — afirmou Santos.
Em resposta, Marcelo Crivella declarou que, na verdade, quis dizer que defende investimentos igualitários na capital e na Baixada Fluminense.
Sobre as Unidades de Polícia Pacificadora, Crivella afirmou que manterá o programa de Segurança Pública, sem deixar de dizer, no entanto, que o modelo atual da UPP traz insegurança ao policial.
— Uma coisa é o sujeito vender cocaína e outra é ele vender a droga e querer ser dono do morro. Precisamos fazer com que essa política (da UPP) não fique só na Zona Sul. Ela tem que ir para o resto do Rio. Nós vamos precisar aumentar o efetivo da polícia. Esse resultado que está aí hoje está trazendo uma insegurança muito grande para o policial. Eu conversei com alguns alunos que vão se formar no final do ano e muitos deles não querem ir para a UPP. Eles não querem porque o risco de ir para uma UPP é muito grande, as instalações são ruins.
O candidato abriu a entrevista dizendo que, se eleito, a primeira ação que faria, seria “dar fim” à fila de 12 mil pessoas que estão esperando por cirurgias de baixa complexidade, como hérnia e pedra na vesícula. Segundo o candidato, o projeto seria viabilizado por meio de um mutirão, mas ainda não sabe como vai fazer. Disse poder dar mais detalhes quando tiver os dados do orçamento.
— Eu tenho que fazer convênio com a iniciativa privada, pedir recursos ao Governo Federal, com os municípios. Eu não sei como vou fazer ainda exatamente. Vou saber quando tiver os dados do orçamento.
CRÍTICAS A GAROTINHO
Durante a entrevista, Marcelo Crivella criticou seu adversário político Anthony Garotinho, com quem divide o primeiro lugar nas intenções de voto. Ao ser perguntado sobre o projeto de lei de sua autoria que classificava como terrorismo as manifestações que ocorreriam durante a Copa do Mundo e que também alterava direito a greve, o senador disse que o projeto foi mal interpretado por causa de campanha de Garotinho.
— O governador Garotinho através da internet, e também através do jornal O Povo, que fazia campanha favorável a ele antes da eleição — fato que gerou muita multa, o governador tem um milhão de multas por ter feito campanha antes da hora —, é que deram (sic) esse enfoque. Meu projeto não falava de manifestações, e sim de terrorismo — justificou.
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sexta-feira, 25 de julho de 2014

LEMBRANDO PEDRO LAVANDEIRA

Como escreveu recentemente o poeta e jornalista Silveria Rocha, Pedro Lavandeira foi de uma política só, de um partido só. Pedro Lavandeira amigo fiel e compadre de Zé Prado, sempre esteve ao lado de Zé em suas campanhas, empunhando a bandeira branca.
Quem vê essa imagem do amigo Pedro Lavandeira, não tem como não voltar no tempo e reviver grandes campanhas políticas de nossa princesa do Norte. Pedro foi de uma política só, de um partido só, de um amigo só, o seu compadre José Parente Prado, de quem ele empunhara a bandeira branca desde quando o Zé iniciou sua trajetória política.
Via blog Sobral em Tribuna de Silveira Rocha, veja algumas frases do poeta Pedro, inseridas nas músicas que ele compôs:
"Vai, vai, vai, vai, ninguém segura não. O prefeito é o José Prado, ganha disparado nessas eleições".
(Primeira composição de Pedro, inspirada pelo próprio Zé Prado).
"Quem corre cansa, quem anda alcança, não vou de carro, pode virar"
(campanha de José Prado contra Carlos Alberto Arruda).
"Mas eu não sou de exigir muito, vista a roupa que quiser, mas doutor faça favor, de entregar a quem lhe entregou, entregue a Zé o que é de Zé".  (crítica a Dr. José Euclides).
"O verde que pintou no comício a vaca lambeu; o verde quis voltar novamente, a vaca comeu". (campanha Zé Prado contra Padre Zé").
"Ele ai, gosta de taxa e de imposto, até cachorro paga R$ 10 pra se soltar. Perdeu o rumo e agora vai tomando a reta, sonhando com bicicleta e carroça pra emplacar". (crítica a Cid Gomes).
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domingo, 20 de julho de 2014

80 ANOS SEM PADRE CÍCERO

Cícero Romão Batista nasceu no Crato, 24 de março de 1844 e faleceu em Juazeiro do Norte, 20 de julho de 1934. Carismático, Padre Cícero ou “Padim Ciço”, obteve grande prestígio e influência sobre a vida social, política e religiosa do Ceará e da Região Nordeste do Brasil.
Padre Cícero, foi o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte, em 1911, quando o povoado foi elevado a cidade. Voltou ao poder, em 1914, quando o governador Marcos Rabelo foi deposto. No final da década de 1920, o Padre Cícero começou a perder a sua força política, que praticamente acabou depois da Revolução de 1930. Seu prestígio como santo milagreiro, porém, aumentaria cada vez mais.
Em 1° de novembro de 1969 no alto do Horto, em Juazeiro do Norte foi erguido uma estátua ( a terceira maior do mundo) em homenagem ao Padre Cícero Romão Batista. Em 22 de março de 2001 “Padim Ciço” foi eleito o cearense do século.
A trajetória religiosa e política de Padre Cícero é detalhada na excelente biografia Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão, do jornalista e escritor Lira Neto. A obra é primorosa, resultado de intenso trabalho de dez anos de pesquisa, baseada em documentos raros e inéditos tornam a biografia a mais completa obra sobre a vida do mais amado e controvertido religioso que o Brasil já teve, Padre Cícero, para os romeiros e fiéis, o “Padim Ciço”.
Clique aqui e ouça a música Viva meu Padim, composta pelo Rei do Baião, Luiz Gonzaga e João Silva para homenagear Padre Cícero. A canção tem a participação especial de Benito di Paula.
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domingo, 13 de julho de 2014

CAMPANHA NAS REDES

A campanha eleitoral ainda não está nas ruas, mas nas redes sociais  já começou há muito tempo. Partidários e simpatizantes políticos já travam uma guerra virtual que, pelos ataques atrozes, promete ser a mais suja dos últimos anos. 


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sexta-feira, 11 de julho de 2014

ZÉ PRADO, 83 ANOS

Em 11 de julho de 1931, nasce em Sobral (CE), José Parente Prado, filho do ex-prefeito de Sobral Jerônimo Medeiros Prado e Francisquinha Gomes Parente Prado. Em continuidade aos passos do pai, Zé Prado ingressa na política em 1972.
Eleito prefeito de Sobral por duas vezes, deputado estadual por três legislaturas. Casado com dona Maria do Socorro Barroso Prado; tiveram três filhos: Ricardo Prado, Marco Prado e José Inácio.
Zé Prado torna-se um dos políticos mais respeitado e admirado em Sobral - zona norte – e no Estado do Ceará. Sempre empenhado no bem-estar do povo sobralense e do Ceará respeitou o rico e esteve sempre em defesa do pobre.
Com jeito simples, amigo e companheiro de fazer política, ele cativou até adversários, que se rendiam a um abraço do “Zé dos Pobres”, como era conhecido pela população sobralense.
José Parente Prado faleceu em 26 de maio de 1999, vítima de infarto, no Hospital Dr. Estevão, em Sobral (CE). Deixou esposa, filhos, o Pai (faleceu em 2003), irmãs, netos, parentes e amigos!
Saudade do “Zé dos Pobres”!
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quinta-feira, 10 de julho de 2014

DILMA METALEIRA

Para surpresa de alguns interlocutores, a presidente Dilma Rousseff já manifestou em conversas reservadas simpatia pela banda de heavy metal Black Sabbath, formada do final dos anos 60 e cujo integrante mais conhecido é o vocalista Ozzy Osbourne.
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quarta-feira, 9 de julho de 2014

REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA, 82 ANOS

A Revolução Constitucionalista de 1932 completa 82 anos hoje. É o maior feriado cívico do Estado de São Paulo, onde os paulistas homenageiam os combatentes da Revolução Constitucionalista de 1932, que ficou conhecida como Guerra Paulista.
Com o rompimento da chamada “política do café com leite”, em 1929, entres os Estados de Minas Gerais e São Paulo, desencadeou a Revolução de 1932.
Em reação ao fim da política do café com leite, os estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul lideraram o movimentou que culminou no Golpe de 1930.
Os paulistas saíram derrotados do embate, mas não se pode dizer que foi em vão; em 1934 sob pressão social o governo de Getúlio Vargas criou uma nova Constituição Federal.
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terça-feira, 8 de julho de 2014

MORRE PLÍNIO DE ARRUDA SAMPAIO

Plínio de Arruda Sampaio, ex-deputado federal e candidato à Presidência pelo Psol em 2010, morreu nesta terça-feira, em São Paulo, aos 83 anos de idade. Plínio, conhecido também por fundar do Correio da Cidadania, estava internado havia mais de um mês no Hospital Sírio-Libanês, para tratamento de um câncer ósseo, e faleceu em decorrência de falência de múltiplos órgãos e sistemas.
Em nota oficial, o Psol lamentou o passar de um de seus principais nomes. "O Psol e o país perderam um grande protagonista da história recente e da luta pela justiça social e pela democracia no Brasil."
Graduado em Direito e promotor público, Plínio iniciou sua carreira política como deputado nos anos 1960, quando foi relator do projeto de reforma agrária de João Goulart. Teve seu mandato cassado em 9 de abril de 1964, às vésepras do golpe militar. Retornou ao país na década de 70 e participou da fundação do PT, do qual saiu em 2005. No mesmo ano, filiou-se ao Psol, pelo qual concorreu ao governo de São Paulo, em 2006, e à Presidência da República, em 2010.
"O PSOL se solidariza com os familiares de Plínio e ressalta que sentirá a ausência de um dos maiores lutadores socialistas e colaboradores do partido. Certamente, continuaremos levando adiante os ideais por justiça social, defendidos incansavelmente por ele”, ressalta o presidente nacional do PSOL, Luiz Araújo.
"Estamos muito tristes com a notícia da perda de um símbolo histórico da esquerda brasileira", lamentou Luciana Genro, candidata do Psol à Presidência.
Plínio de Arruda Sampaio, nascido em São Paulo em 1930, era casado com Marietta Ribeiro de Azevedo. O velório está marcado para começar às 8h dessa quarta-feira. Às 11h, será celebrada uma missa, na Capela dos Dominicanos. O local do sepultamento, que deve ocorrer às 15h, ainda não foi informado.
Informações do Terra.
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segunda-feira, 7 de julho de 2014

É DOCE MAS NÃO É MOLE

Em 2013, a Prefeitura de Juazeiro do Norte (CE) comprou 150 quilos de rapadura por R$ 5,19 o quilo. No mercado local, o produto sai por R$ 1,50 o quilo. A prefeitura nega que tenha pagado a mais pelas rapaduras.
Da coluna Felipe Patury
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domingo, 6 de julho de 2014

HADDAD SOZINHO EM CAMPO

Longe de entregar suas promessas de campanha, o político enfrenta baixa popularidade, isolamento no partido e resistência dos vereadores
Ao assumir a principal cadeira do Edifício Matarazzo, em janeiro de 2013, Fernando Haddad frustrou a maior sanha dos vereadores: indicar subprefeitos. Aos poucos, acabou cedendo a pressões para a indicação de chefes de gabinete e de ocupantes de outros cargos, mas não dava brecha nas nomeações para as vagas mais cobiçadas. Nos últimos tempos, esse muro caiu. Sob forte pressão dos parlamentares famintos de influência em órgãos recheados de poder e bons contratos, trocou, desde maio, doze desses chefes. Entre outros recompensados, Antonio Goulart (PSD) emplacou o titular da Vila Mariana, Orlando Silva (PCdoB), o do Jabaquara, Arselino Tatto (PT) e Milton Leite (DEM), o do M’Boi Mirim.
Dar um passo para trás foi crucial na governabilidade do petista, que viu sua base rachar na Câmara, está escanteado por boa parte do PT, tem problemas sérios de orçamento e recebeu, na última semana, mais um golpe. Pesquisa do Instituto Datafolha divulgada na segunda (30) manteve praticamente inalterado seu baixo índice de aprovação popular, o que representou uma péssima notícia para Haddad. Após um ano e meio de mandato, apenas 17% dos paulistanos consideram sua gestão boa ou ótima. Na comparação do mesmoperíodo com prefeitos das últimas três décadas, onúmero só é superior ao de Jânio Quadros (1986-1988), com 9%, e ao de Celso Pitta (1997-2000),com 11%.
Haddad bem que tentou minimizar a história.“Todo governo de mudança passa por isso. É preciso esperar um pouco até que as pessoas asimilem uma nova cultura”, afirmou. Nos bastidores, sua reação é dúbia. Se tem tomado providências para manter algum diálogo com vereadores, ele tenta não demonstrar grande apego ao cargo — costuma dizer aos aliados que o importante é implantar as medidas necessárias para a cidade. Ao mesmo tempo, põe na ponta do lápis a conta da reeleição: se elevar a aprovação de 17% para 25% ao fim do mandato e conquistar um terço dos que o consideram regular (44%), teria fôlego para continuar na poltrona. Para isso ser possível, porém, avalia que precisa de empenho de Dilma Rousseff. Por questões políticas, a presidente pediu ao Senado que travasse um projeto de lei que aliviaria muito a sufocante dívida do município.
Com o ex-presidente Lula, a relação é melhor: os dois se falam sempre e almoçam uma vez por semana. Enquanto continua bem na foto com o padrinho político, está desgastado com o restante do PT. Internamente, é acusado de agir contra os interesses do partido, ao ter criado, por exemplo, a Controladoria-Geral do Município, cujas investigações da máfia do ISS culminaram na saída do secretário de Governo, Antonio Donato, após um dos denunciados ter declarado que pagava mesada a ele para manter o esquema. Donato pediu afastamento jurando inocência e reclamando da falta de uma defesa enfática por parte do chefe. Esse clima, somado à impopularidade, fará com que Haddad tenha participação discreta na campanha de Alexandre Padilha para o governo estadual. O partido elegeu não a ele, mas a senadora Marta Suplicy para circular com o candidato ao redor da capital.
Para piorar, a relação com o também petista José Américo, presidente da Câmara dos Vereadores, não é das melhores. Nos bastidores, ele costuma criticar o prefeito e um de seus nomes mais próximos, o secretário de Comunicação, Nunzio Briguglio, a quem chama de “Nunzio Bagulho”, pela dificuldade em ter seus pleitos atendidos. Uma das últimas desavenças envolveu a recusa dos quinze convites para a abertura da Copa do Mundo, no Itaquerão, enviados pela administração. Américo queria embarcar todos os membros do plenário no evento. O pior estaria por vir. Haddad avaliou que não houve empenho do suposto aliado na aprovação na Câmara de um feriado em 23 de junho, planejado para evitar o caos nos congestionamentos nesse dia: a metrópole receberia Holanda x Chile e o Brasil enfrentaria Camarões em Brasília. Não ficou barato. Uma propaganda de rádio criada pela equipe de Haddad cravava: “A Prefeitura de São Paulo está buscando alternativas para minimizar os problemas de trânsito (...), uma vez que a Câmara Municipal não aprovou o feriado para esse dia”. Américo ligou furioso e, após dois dias no ar, a peça teve a provocação suprimida — segundo a Secretaria de Comunicação, a mudança do conteúdo estava planejada desde o princípio.
Em março, o prefeito havia revoltado os vereadores ao subir em carro de som do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e incitar os militantes apressionar os políticos para a votação do Plano Diretor, o conjunto de diretrizes de longo prazo do desenvolvimento da cidade (veja o quadro abaixo).
Em paralelo, o tom sereno do prefeito tem mudado desde a derrocada da popularidade. Em um gesto considerado como de desespero pelos opositores, teria feito acenos amigáveis a alguns deles. “Ele me chamou há algumas semanas em sua sala durante um evento e propôs uma trégua”, relata o tucano Floriano Pesaro. Segundo a assessoria de Haddad, o encontro ocorreu, mas por motivação diferente. De acordo com essa versão, o prefeito apenas pediu que questões de Estado, como a votação do Plano Diretor, não fossem partidarizadas (o pedido não foi atendido, na visão dos governistas).
Com dois anos e meio pela frente, enquanto espera que a negociação da dívida alivie seus problemas de caixa e tenta implantar seu programa de governo, o gestor deve lançar mão de projetos com baixo custo de implantação e boa repercussão na classe média. O próximo da série, que Haddad estuda ao lado do secretário Fernando de Mello Franco, de Desenvolvimento Urbano, é uma reformulação do coração da Vila Madalena. Pelo estudo, ruas como a Aspicuelta, cheias de bares, poderiam ser fechadas para o trânsito, ao menos nos fins desemana, e receberiam uma série de parklets, pracinhas que ocupam o lugar de carros na via, com bancos e vagas de bicicleta. Sem uma grande virada, porém, o jogo do prefeito continua duro.“Os serviços precisam melhorar muito, o que é difícil, porque São Paulo é problemática”, diz o cientista político Rubens Figueiredo, do Centro de Pesquisa, Análise e Comunicação. “Não lembro de um prefeito ter começado mal e depois se recuperado.”
AS RAZÕES DO MAU HUMOR
A quebra de expectativa em relação às promessas de campanha e os frequentes dias de caos na cidade entram na conta da impopularidade
A campanha de Fernando Haddad à prefeitura, em 2012, insistiu na tese de que a proximidade política com a presidente Dilma Rousseff, também do PT, ajudaria a atrair recursos federais. Com eles, seria possível implanta rsua principal bandeira eleitoral, o Arco do Futuro, uma reforma urbana com a construção de novos eixos viários e moradias populares. Um ano e meio após a posse, o prefeito não conseguiu renegociar a dívida com a União e enfrenta dificuldades para viabilizar o maior projeto de sua agenda política. “Ele passou a impressão de que realizaria bem mais nesse período”, diz o cientista político Rubens Figueiredo, diretor do Centro de Pesquisa, Análise e Comunicação.“Para se recuperar até o fim do mandato, será necessário criar algo simbólico de grande apelo, como foi o Cidade Limpa para o Gilberto Kassab”, completa. Somem-se a essa expectativa frustrada os dias de caos ocorridos de um ano para cá, ora por manifestações, ora por greves, e o endêmico problema do trânsito. Sua solução para o problema de mobilidade, a proliferação recorde de faixas exclusivas de ônibus (338 quilômetros desde o início do mandato), ainda não é unanimidade entre a população. Confira a seguir os detalhes desses e de outros motivo sque colaboraram para a baixa aprovação do atual prefeito.
O frustrado reajuste do IPTU
Ainda que a tentativa de aumento do imposto predial e territorial urbano (IPTU) em até 20% para os imóveis residenciais e 35% para os comerciais tenha sido barrada em dezembro pela Justiça após ação movida pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o episódio deixou marcas negativas na administração. Nessa época, opositores políticos tentaram disseminar o pejorativo apelido de “Malddad” para estigmatizar o prefeito. “Era um reajuste considerável e, caso tivesse sido aprovado, iria ferir mais a classe média e o segmento produtivo”, afirma o professor Rui Tavares Maluf, da Fundação Escolade Sociologia e Política de São Paulo.“Causou a sensação de que, para viabilizar algumas das promessas eleitorais, seria preciso atacar o dinheiro do contribuinte”, completa.
As recentes greves e protestos de classe
Entre maio e junho, a capital sediou uma série de protestos de entidades de classe, como o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), agreve dos professores municipais e a paralisação de motoristas de ônibus e de empregados do Metrô. Em alguns dias específicos, quando os serviços funcionaram mais precariamente, a metrópole viveu horas de desordem absoluta, com estações e terminais abarrotados e trânsito recorde. “Nem todas aquelas greves podem ser debitadas na conta do município, como a do metrô, porexemplo, que é da esfera estadual”, explica o cientista político Rubens Figueiredo. “Mas, sempre que há caos, a população tende a achar quea cidade está sem comando, e isso repercute diretamente na figura do prefeito”, afirma.
Trânsito e faixas exclusivas de ônibus
A pesquisa do Datafolha traz números contraditórios sobre o assunto. Mais paulistanos sentiram uma melhora no tráfego após a ampliação das faixas de ônibus: 64% contra 55% em setembro. Mas o apoio ao programa diminuiu de 88% para 84%, ao mesmo tempo em que aumentou o número de entrevistados que acham o trânsito ruim ou péssimo: eram 74% e hoje são 81%. A análise é que boa parte da população é a favor da prioridade ao transporte público, mas o consequente transtorno para os automóveis particulares (que têm menos espaço para circular) causou irritação. Entre 2013 e 2014, a média de lentidão na cidade caiu no pico da tarde, de 140 para 136 quilômetros, mas subiu bastante no da manhã, de 83 para 100 quilômetros. Muitos criticam também a subutilização dos corredores. “A impressão é que ele quer tornar insuportável a vida de quem anda de carro”, diz o professor Edison Nunes, do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da USP.
As manifestações de junho de 2013
Ao anunciar um reajuste de 20 centavos no preço das passagens de ônibus (de 3 para 3,20 reais) em junho do ano passado, Haddad encarou uma onda de protestos organizados pelo Movimento Passe Livre. “Sua intenção era até razoável, mas a maneira como ele lidou com a questão foi errada”, diz o professor Rui Tavares Maluf. “Insistiu muito que essa era a única forma de manter o sistema viável e depois recuou. A postura foi pior do que um aumento abusivo. ”A princípio centradas na tarifa, as manifestações evoluíram para demandas mais amplas, como a exigência de melhorias na saúde e na educação. Seis meses após a posse, o episódio derreteu a imagem do prefeito. Àquela altura, sua aprovação era boa para um início de mandato, 34%. Poucos dias depois, havia despencado para 18%, patamar que se mantém quase idêntico até hoje.
Arco do Futuro
O plano de revitalização urbana, para levar“ emprego onde tem moradia e moradia onde tem emprego”, foi o carro-chefe da campanha eleitoral. Um de seus pontos centrais previa a construção de duas vias de apoio à Marginal Tietê, ao norte e ao sul. Mas, em agosto, a secretária de Planejamento, Leda Paulani, anunciou que as obras não seriam mais realizadas por falta de recursos. “Ainda que o projeto não tenha sido totalmente abandonado, vendeu-se algo que não se confirmou”, diz o professor Rui Tavares Maluf.
Negociação da dívida
Em 2013, a cidade pagou 2,5 bilhões de reais de dívidas com a União. Ainda assim, o saldo devedor passou de 53 bilhões para 61 bilhões de reais desde que Haddad assumiu, por juros. O prefeito confiava na proximidade com Dilma Rousseff para renegociar a correção, calculada pela variação de um índice de preços, mais taxa de 9%. A princípio, a presidente demonstrou que apoiaria a alteração na lei. Mas, como a apreciação do projeto pelo Senado ficou para 2014, ano eleitoral, pediu para interromper seu andamento. Ela teme ser acusada de favorecer aliados ou rivais políticos.
Da Veja S.Paulo - Por Daniel Bergamasco e Mauricio Xavier [Colaboraram Silas Colombo e João Batista Jr.]
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