sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

PROPINA NA MERENDA

Três investigados pela Operação Alba Branca ligam o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Fernando Capez (PSDB), e o ex-chefe de gabinete da Casa Civil do governo Geraldo Alckmin (PSDB) Luiz Roberto dos Santos, conhecido como "Moita", ao suposto esquema de fraudes na compra de produtos agrícolas destinados à merenda escolar da rede estadual de ensino paulista.
Em depoimento à Polícia Civil, na terça-feira, os funcionários da Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (Coaf) afirmaram que a propina chegava a ser de 25% dos contratos. Eles relataram como eram feitos as entregas de pacotes de dinheiro, depósitos em contas e acertos em postos de combustível às margens de rodovias.
Os interrogados pela polícia apontam o deputado estadual Fernando Capez, que é promotor de Justiça e aspira disputar a cadeira de Alckmin em 2018, e Luiz Roberto dos Santos, o "Moita", que era braço direito do secretário-chefe da Casa Civil, Edson Aparecido, como beneficiários de propina. Interceptações telefônicas mostram que o deputado tucano é chamado de "nosso amigo" pelos intermediários de propinas.
O funcionário da Coaf Adriano Gilbertoni Mauro, que foi preso na operação, afirmou que Capez foi o responsável por conseguir a celebração de contrato com a Secretaria de Educação estadual. "Até onde o declarante sabia, o deputado estadual Fernando Capez recebeu uma parte das comissões pagas para Marcel", disse, em referência ao suposto intermediador de propinas Marcel Ferreira Júlio.
Segundo Mauro, "nas conversas que mantinha com os demais vendedores, ao se referir ao termo 'nosso amigo' como sendo a pessoa que solucionaria os entraves surgidos, estavam a se referir ao deputado estadual Fernando Capez".
Contrato
A operação foi deflagrada na terça-feira pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de Bebedouro, na região de Ribeirão Preto (SP). Sete investigados ligados à cooperativa tiveram prisão decretada pela Justiça - seis foram detidos e um está foragido.
Ao menos 22 prefeituras são investigadas por suspeita de envolvimento com a fraude, que compreendia compra de itens superfaturados para merenda escolar.
Apesar de envolver contratos em prefeituras, o principal interesse financeiro da Coaf eram os milionários pagamentos feitos pela Secretaria de Educação estadual.
Vice-presidente da Coaf, Carlos Alberto Santana da Silva, conhecido como Cal, declarou que houve propina de R$ 1,94 milhão em um contrato do governo paulista do ano passado. "Ocorreu este tipo de esquema com o governo de Estado em 2015, numa venda de R$ 7,76 milhões, sendo que acredita que também neste caso a propina girou em torno de 25%."
Segundo Santana, nessas vendas era estipulado "o pagamento de 'comissão'". "Quer dizer, propina mesmo, que variava em torno de 25% do valor do contrato." O dinheiro da corrupção seria pago por meio de intermediários, "que ligavam a Coaf a um funcionário público responsável pelo contrato".
O vice-presidente da Coaf declarou que "pode dizer que parte destes valores era repassada para o deputado Fernando Capez, para o qual não sabe dizer quanto era repassado".
O parlamentar receberia valores ilícitos por meio de assessores, identificados pelos investigados como "Licá" e "Jeter". Jeter Rodrigues Pereira, que era do Departamento de Comissões da Assembleia, foi demitido em dezembro, segundo informou Capez. Licá - Luiz Carlos Gutierrez - é assessor do tucano. "O Licá é meu amigo, é meu assessor e duvido que esteja envolvido em esquema de fraude de merenda", disse o tucano.
Intermediador
Outro nome importante do esquema é Marcel. Apontado como filho do ex-deputado Leonel Júlio, Marcel Ferreira Júlio atuaria como operador de propina. Nos depoimentos, os funcionários e o dirigente da Coaf disseram que Marcel ficava com 10% de comissões nos contratos. Seu pai teria cota de 2% dessa comissão.
Defesas
Fernando Capez negou veementemente envolvimento no esquema de fraude em merenda escolar de prefeituras do interior paulista investigado pela Operação Alba Branca.
"Nunca ouvi falar, não sei quem é dono dessa Coaf. Nunca falei com nenhum prefeito sobre merenda escolar. Bebedouro? Quem é o prefeito? Nunca falei com prefeito nenhum, nunca, ainda mais nessa região", disse Capez.
Segundo o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Jeter Rodrigues Pereira, que era funcionário do Departamento de Comissões da Casa, foi demitido por ter tentado usar o nome de Capez para indicar um delegado a pedido do ex-deputado Leonel Júlio. Sobre Luiz Carlos Gutierrez (Licá), diz que o assessor é seu amigo e que duvida, "até prova em contrário, que esteja envolvido em esquema de fraude de merenda escolar".
"Tenho certeza que usaram o meu nome e o nome do Licá", afirma Capez.
A Secretaria da Educação informou que Marcel Ferreira Júlio, suposto intermediário de propinas do esquema desmontado na operação não é funcionário da pasta. "A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo vai colaborar com a Polícia Civil e o Ministério Público no que for necessário para dar sequencia às investigações. A pasta segue a legislação do Programa Nacional de Alimentação Escolar - PNAE - criado pelo governo federal que institui a inserção, na alimentação escolar, de 30% de alimentos cultivados e produzidos por meio da agricultura familiar".
O secretário da Casa Civil, Edson Aparecido, disse que já levou o caso à Corregedoria do Estado. "Vamos tomar pé da situação. Desde o início da semana, por conta de a gente devolver os funcionários da Casa Civil para as empresas, ele (Luiz Roberto dos Santos) não é mais chefe de gabinete da Casa Civil. Estamos sabendo disso agora. Estou pedindo imediatamente por parte da Corregedoria do Estado a abertura de um processo de apuração desses fatos". As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".
Via UOL
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FRAUDE NA MERENDA

O presidente do PMDB em São Paulo, deputado federal Baleia Rossi, foi apontado pelos investigados na Operação Alba Branca como recebedor de propinas do esquema de merendas em contratos assinados pela Coaf (Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar) nas prefeituras de Campinas e Ribeirão Preto, no interior paulista.
O vice-presidente da Coaf, Carlos Alberto Santana da Silva, o Cal, afirmou ter ouvido do presidente da entidade, Cássio Chebabi, e de vendedores da cooperativa "que em relação às vendas para as prefeituras de Campinas e Ribeirão Preto, valores eram repassados ao deputado Baleia Rossi". "Sendo que os valores eram pagos por Cássio Chebabi."
O vice-presidente da Coaf afirmou à Polícia Civil e ao Ministério Público que, em Ribeirão Preto, um assessor do deputado, cujo nome não se recorda, era o contato da cooperativa. Ligado ao PMDB de Bebedouro (SP), Cássio Chebabi era o responsável pelas visitas à cidade que é base política de Baleia Rossi.
Pacote
Um dos vendedores da Coaf ouvidos pelos investigadores da Operação Alba Branca relata ainda uma suposta entrega, sem sucesso, de um pacote com R$ 200 mil para Baleia Rossi.
Adriano Gilbertoni Mauro disse, em depoimento, que em setembro de 2014 foi até Ribeirão Preto acompanhar o presidente da Coaf. "Dirigiram até onde o deputado estadual Baleia Rossi estava, ocasião em que Cássio lhe informou que levava consigo um pacote de R$ 200 mil em dinheiro."
O vendedor da Coaf diz ter visto o pacote que seria entregue ao parlamentar. "Cássio se reuniu com ele e voltou com o dinheiro, alegando que Baleia Rossi havia pedido para que entregasse o dinheiro para o então candidato a deputado estadual, de Bebedouro, Gustavo Spido, para quem o dinheiro acabou não sendo entregue, tendo ficado com Cássio."
Procurado, o deputado Baleia Rossi não foi localizado para comentar o assunto. As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".
Via UOL
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RECORDANDO BRIZOLA

Se estivesse vivo, Leonel Brizola completaria hoje 94 anos. Nascido em 22 de janeiro de 1922, em Carazinho, município pertencente de Passo Fundo, Brizola entrou na política lançado por Getúlio Vargas. Uma das façanhas de Brizola foi governar dois estados diferentes: Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, eleito pelo povo.
Leonel Brizola teve uma extensa carreira política: foi prefeito de Porto Alegre, deputado estadual e governador do Rio Grande do Sul, deputado federal pelo Rio Grande do Sul e pelo extinto estado da Guanabara, e duas vezes governador do Rio de Janeiro.
Ingressou na política partidária no antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), por recomendação pessoal de Getúlio Vargas – seu padrinho de casamento – sua primeira candidatura a cargo eletivo foi para deputado estadual e foi eleito.
Sua influência política no Brasil durou aproximadamente cinquenta anos, inclusive enquanto exilado pelo Golpe de 1964, contra o qual foi um dos líderes da resistência. Por duas vezes foi candidato a presidente da República do Brasil pelo PDT, partido que fundou em 1980, não conseguindo se eleger.
Brizola era casado com Neusa Goulart, irmã do ex-presidente João Goulart, com ela teve três filhos: Neusa, José Vicente e Otávio. Em 21 de junho de 2004, Brizola morreu aos 82 anos de idade, vítima de problemas cardíacos.
No aniversário de 90 anos de Brizola, foi lançado na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio de Janeiro o livro Leonel Brizola - a Legalidade e outros pensamentos conclusivos, organizado por Osvaldo Maneschy, Apio Gomes, Madalena Sapucaia e Paulo Becker.
No ano passado, em Porto Alegre, Brizola foi homenageado com uma estátua colocada entre o Palácio Piratini – sede do governo gaúcho – e a Catedral. A cerimônia contou com a presença de vários políticos, entre eles: os ex-governadores Alceu Colares e Germano Rigotto, o senador Pedro Simon e do então governador Tarso Genro.
Para as novas gerações e para quem gosta do tema política, o blog Sou Chocolate e Não Desisto dá uma dica para conhecer mais sobre a história desse homem que desafiou a Rede Globo nos anos 80 e venceu o governo do estado do Rio de Janeiro, vale a pena ler El Caudillo – um perfil biográfico do jornalista FC Leite Filho.
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

VEREADOR É ASSASSINADO A TIROS

O vereador Nélcemir Lagôas, do Partido Progressista, foi morto a tiros na noite dessa quarta-feira, na cidade de Cachoeiras de Macacú, Região Serrana do Rio de Janeiro. A polícia segue procurando pelo suspeito.  
O político, de 67 anos, era Primeiro Secretário da Mesa Diretora e foi surpreendido por um homem após estacionar o carro na Praça de Cima, perto da Câmara.
O atirador disparou quatro vezes e, segundo testemunhas, vestia bermuda branca e blusa de moleton com capuz.  
Acredita-se que o assassino seja a mesma pessoa que havia pedido dinheiro ao parlamentar horas antes, mas a polícia ainda não tem certeza sobre a motivação do crime.
Vereador morto em Magé, RJ
Na semana passada, um outro vereador, conhecido como Geraldo Cardoso Gerpe, do PSB, também foi morto a tiros, em Magé, na Baixada Fluminense.  
O vereador, o "Geraldão", foi surpreendido pelo homem armado no estacionamento da Câmara Municipal da cidade. Ele havia descido para buscar um documento no carro.
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RECORDANDO JURACI MAGALHÃES

Em 21 de janeiro de 2009 falecia o ex-prefeito de Fortaleza (CE), Juraci Magalhães, 77 anos, no Hospital São Mateus em Fortaleza (CE), vítima de um câncer que lutava desde 1997.
Nascido em Senador Pompeu, no sertão central cearense, Juraci Magalhães foi três vezes prefeito de Fortaleza.
Em 1994, ele concorreu ao governo do estado, em 2006 tentou a Câmara Federal, mas não foi eleito.
Governo Juraci - Seu governo ficou conhecido como "Era Juraci", onde muitas e grandes obras foram realizadas, seguidas de polêmica. Juraci construiu os primeiros viadutos de Fortaleza, a via expressa e ainda foi responsável pela implantação de alguns terminais de ônibus na Capital Cearense.
Na segunda administração (1997-2000) criou o maior programa de Geração de Emprego e Renda e qualificação de mão-de-obra através da PROFITEC.
A PROFITEC ministrou cursos profissionalizantes, desde artífice de construção até operadores de computadores para mais de 5.000 pessoas, através de convênios com o CEFET, o SENAI, o SENAC e mais de 200 associações de moradores.
Através do Banco do Nordeste a PROFITEC assegurou o financiamento de mais de 500 micro-empresas no período.
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

INTIMADA A DEPOR

Intimada a depor no processo sobre a suspeita de ‘compra’ de medida provisória por lobistas a serviço de empresas automotivas, Dilma Rousseff está condenada a repetir o bordão imortalizado por Lula: “Eu não sabia”. Fora disso, poderia negar categoricamente o crime ou associar-se às suspeitas. Numa hipótese, correria o risco de ser desmentida pelas investigações. Noutra, deixaria em má situação o padrinho Lula, em cuja gestão as medidas provisórias teriam descido ao balcão.
Deve-se a decisão de ouvir Dilma ao juiz da 10ª Vara Federal de Brasília, Vallisney de Souza Oliveira. A presidente foi arrolada, junto com outros políticos, como testemunha de defesa de um dos acusados de ‘comprar’ medida provisória, o empresário Eduardo Valadão, ex-sócio de um escritório de lobby de Brasília. Lula também terá de depor. O filho dele, Luís Cláudio Lula da Silva, é investigado no caso. Recebeu R$ 2,5 milhões de outro lobista sob suspeição.
Dilma era chefe da Casa Civil quando foi editada a medida provisória supostamente comercializa. Trata de benefícios fiscais a empresas do setor automotivo. O documento passou por suas mãos a caminho do Congresso. Fez nova escala em sua mesa na volta do Legislativo, antes da sanção de Lula. Daí o interesse em ouvi-la, para arrancar dela a declaração de que nada sucedeu fora da normalidade.
Cada vez que Dilma é forçada pelas circunstâncias a mimetizar o antecessor, repisando a tecla do “eu não sabia”, ela se torna uma paródia grotesca da gestora de mostruário que Lula vendeu ao eleitorado na sucessão de 2010. A supergerente deu lugar à inepcia. Em vez de eficiência, suspeição.
Da fábula petista só resta o discurso da honestidade pessoal dos presidentes, reiterado por Lula em entrevista a blogueiros nesta quarta-feira: “Se tem uma coisa de que me orgulho é que não tem nesse país uma viva alma mais honesta do que eu.” Considerando-se a sucessão de escândalos, pode-se concluir que a virtude também é ficcional. Ou perdeu sua função.
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

ARMADILHAS DA VISÃO

Artigo de Fernando Gabeira
O primo do ex-deputado pernambucano Pedro Correia foi visitá-lo na prisão em Curitiba. O relato da visita, numa entrevista ao programa “Geraldo Freire”, é interessante. Clóvis Correia, o primo, é também juiz de direito. Ele sempre aconselhou Pedro a fazer delação premiada. Os advogados não queriam. O primo constatou, com alegria, que Pedro, finalmente, decidiu fazer uma delação premiada, contando tudo o que sabe, desde o período Sarney.
Segundo o visitante da cadeia de Curitiba, os policiais e procuradores trabalham sem parar porque há uma fila de delatores, inclusive alguns que virão de outros escândalos, como o publicitário Marcos Valério. Ainda não houve tempo para ouvir as histórias de Pedro. O primo Clóvis afirma que, apesar das barbaridades do PT, seria interessante ele contar tudo para se traçar um panorama da corrupção desde a retomada da democracia.
Um dia, Pedro falará e ficaremos sabendo, aos pouquinhos ou de uma vez só, tudo o que ele fez e conseguiu ver ao longo dos anos em que esteve perto do poder. A entrevista do primo de Pedro me faz voltar à suposição original de que já temos muitas informações sobre os escândalos no Brasil. Não só falta tempo para processá-las, cruzando atenciosamente os dados, como para completá-las, pois o fluxo não cessa com a fila de delatores e o desdobramento de suas confissões.
Nunca se soube tanto. Até as chances de alguém ter feito a fortuna que Eduardo Cunha declarou foram calculadas: uma em 257 septilhões. É possível demonstrar matematicamente que Eduardo Cunha é mentiroso. Jamais me daria a esse trabalho.
Para quem ouviu falar no Big Data, este oceano de informações que o mundo digital proporciona, fica sempre o temor de que a atração do jogo de dados acabe ofuscando os objetivos. Pode-se trabalhar indefinidamente, com números, conexões, novas hipóteses. Mas as grandes empresas são pragmáticas. Toda vez que ligo o computador aparecem na timeline anúncios de produtos que pesquisei como comprador.
É inegável que trabalhar com uma grande quantidade de números e relações entre eles pode sempre levar a novas descobertas. Mas é preciso não se perder na floresta. Os dados da Lava-Jato nos chegam aos pedaços. O PT usa isso para afirmar que são vazamentos seletivos. Mas, em termos de partidos, eles já alcançaram quase todos os grandes, inclusive o PSDB. Não se passa um dia sem que algo seja acrescido. As informações se bifurcam, se entrelaçam, iluminam com sua pequena centelha outros cantos escuros da sala.
Temo que tenham se tornado uma distração. Tenho vontade de perguntar aos procuradores: se as chances da fortuna de Cunha forem apenas uma em 300 septilhões, vocês o prenderiam? É preciso um número redondo para fechar a conta? Para que servem os dados se não levam às consequências? No caso mais amplo do Petrolão é fantástico supor uma quadrilha organizada apenas por José Dirceu.
Acossado pelo processo do Mensalão, preso durante algum tempo na Papuda, é preciso imaginar um vilão de história em quadrinhos para supor que José Dirceu coordenou sozinho o assalto à Petrobras. Onde estão os outros? Onde está Lula, onde está Dilma, onde está o restante da cúpula do PT?
Um dos grandes problemas do acúmulo de dados é a maneira de associá-los, de buscar as conexões corretas para responder aos enigmas. O computador não resolve sozinho. Se Janot precisa demonstrar que as chances de Cunha não ser bandido são uma em 257 septilhões, quanto septilhões precisaremos para enquadrar Dilma e Lula?
Sérgio Moro, que não é suspeito de partidarismo como Janot, já disse que não há nada contra Lula, embora os vazamentos, aqui e ali, indicam que há quase tudo contra ele, desde a escolha dos dirigentes da Petrobras à própria montagem do esquema de rapina. O último vazamento foi a delação de Cerveró. Uma cópia, segundo as notícias, teria sido encontrada na gaveta de Delcídio Amaral.
Não só as delações premiadas como o avanço na tecnologia nos enchem de dados novos. Em tese, posso concluir através deles que, em 22 % dos contratos os corruptos celebraram tomando o vinho Angelica Zapata ou que suas mensagens eletrônicas cresciam 46 % no horário noturno. E daí? Se não tentamos responder às perguntas certas vamos mergulhar nos dados com a mesma alegria com que o velho time do América tramava seus ataques diante do gol. Lindas e complexas jogadas. Ninguém chutava para marcar.
Isso vale para todos nós. Muitos divulgaram que Cerveró denunciou Wagner por ter financiado sua campanha construindo um prédio da Petrobras em Salvador. Ninguém foi lá saber que empreiteira construiu o prédio, se é correta a indicação de Cerveró. Um novo vazamento ofuscou o primeiro. Agora é um negócio entre Wagner, OAS e fundo de pensão dos funcionários da Caixa.
Podemos seguir, de vazamento em vazamento, como se tivéssemos nas mãos um controle remoto de TV ou uma tecla do computador. E dormir, em seguida, como fazemos todas as noites. A visão é, ao mesmo tempo, um privilégio ou uma armadilha. Depende da nossa escolha.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 17/01/2016
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domingo, 17 de janeiro de 2016

FALANDO FRANCAMENTE

Por Robson Bonin, Páginas Amarelas - Veja
O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) é um tipo de politico cada vez mais raro no país. Doutor em economia pela Sorbonne, ele usa o mandato como instrumento de defesa de interesses coletivos, como uma reforma profunda na área da educação, e não para otençao de certos benefícios tão consagrados no mensalão e no petrolão. Considerado quixotesco pelos colegas, Cristovam, ex-petista, faz jus à fama nesta entrevista a Veja, em que, entre desiludido e esperançoso, defende a extinção dos atuais partidos, exorta governistas e oposicionistas a conversar pelo bem do Brasil e cobra o fim da promiscuidade entre empresários e agentes políticos.
Como o senhor avalia a situação política da presidente Dilma Rousseff?
Um dos grandes problemas é que ela está rodeada por aduladores e apoiadores que têm medo de dizer a verdade. Talvez isso seja culpa dela, que reage mal ao que lhe é dito. O fato é que a presidente não é capaz de apresentar ao Brasil uma agenda para o futuro. A agenda dela hoje é o impeachment. Ela passa os dias distribuindo cargos em troca de votos contra o impedimento. O país não aguenta isso.
O senhor já conversou com a presidente sobre a crise?
Em agosto do ano passado, eu e outros cinco senadores estivemos uma conversa com ela. Como achava que Dilma nem iria nos ouvir, levei uma carta, lida na frente dela, que dizia: “Presidente, o país tem três situações adiante que são extremamente ruins para o futuro. O seu impeachment, a sua cassação e a continuidade do seu governo não são bons para o país”. A carta sugeria alguns passos. Que a presidente fosse ao Congresso para fazer um discurso ao Brasil pedindo desculpas pelos erros cometidos. Que afirmasse que usaria os próximos três anos para acertar o rumo do país. E que anunciasse que não era mais do PT, que o seu partido a partir dali seria o Brasil.
A presidente não acolheu as sugestões. Hoje, o senhor é a favor do impeachment?
Impeachment não é golpe, está na Constituição e até já fizemos um. Se for discutir golpe no Brasil, talvez ele tenha ocorrido em outubro de 2014, com todo aquele estelionato eleitoral. A Constituição não prevê o impedimento por incompetência ou por mentiras durante a campanha, mas por um crime de responsabilidade. Não direi como vou votar porque, como serei um dos juízes, não posso antecipar o voto.
Agrava a situação de Dilma o fato de ela estar cercada de ministros investigados por corrupção?
O pior que a presidente está dentro de tudo isso. O nome dela não aparece, mas ela é chefe desse pessoal investigado por corrupção e foi beneficiada por todas essas coisas.
Como é ser crítico ao governo e, ao mesmo tempo, integrante de um partido da base governista?
Pago um preço muito alto por isso. Em 2007, em troca do Ministério do Trabalho, o presidente do meu partido, Carlos Lupi, fez a opção de se atrelar ao PT e transformou o PDT num puxadinho do PT. A verdade é esta: o PDT virou um puxadinho do PT. Fui crítico disso desde o começo. Como é que a gente critica a corrupção se o PDT está no governo que tem corrupção? A corrupção não é só do PT. É do PDT, do PMDB e dos outros partidos que estão se escondendo debaixo das asas do PT.
A política partidária está em crise?
Os partidos perderam o prazo de validade. Era preciso acabar com todos os partidos que estão aí, declarar uma moratória partidária de seis meses e criar novos partidos com outros quadros, que prezem a ética e a ideologia partidária. Tanto o PT quanto o PSDB representam um modelo fracassado de país. O PT é culpado por ter cometido tantos erros no governo. E o PSDB tem responsabilidade por não ter feito uma oposição a favor do país. Os tucanos dizem que não é papel da oposição oferecer alternativas. Estão errados. A oposição tem de oferecer alternativas tão radicais que o próprio governo aceite implementá-las para ganhar o eleitor.
Por que o senhor deixou o PT só em 2005, quando o mensalão já estava descoberto?
Antes de sair, escrevi uma carta de análise do governo. Eu alertava no texto que a gente estava perdendo o rumo, se acomodando, se viciando. Alertava também para o horror ao mérito na administração petista. o PT loteou o governo de incompetentes e perdeu a capacidade de transformar a sociedade. É um partido desmoralizado politicamente por ter abandonado todos os sonhos que pregou. Isso matou o PT.
O cantor Chico Buarque, foi hostilizado no Rio por defender o PT. O país está mais intolerante politicamente?
Aquilo só ocorreu porque o próprio PT tem sido muito intolerante. As pessoas não estão se dando conta de que essa intolerância é um dos grandes riscos para o Brasil. Ela está saindo do limite. O Chico é um defensor dos erros petistas, mas não faz parte do grupo dos intolerantes que atacam quem pensa de modo diferente do PT. Não é como aquele ator Zé de Abreu. Mandei uma carta ao Chico solidarizando-me, mas cobrei que ele mobilizasse os artistas em um movimento de tolerância. Ele ainda não respondeu. Tucanos e petistas precisam ouvir uns aos outros.
Por que ninguém cobra o afastamento do presidente do Senado, Renan Calheiros?
Quando houve aquele caso anterior, do pagamento de despesas de uma filha dele por um lobista de empreiteira, cheguei a ir à casa do Renan para falar que ele deveria renunciar. Hoje, o processo dele está tão judicializado que talvez nem seja preciso cobrar isso – ou porque não chegou a hora ou porque vai passar da hora e a Justiça fará o seu trabalho.
O senhor acredita em um acordão para salvar corruptos e corruptores?
Uma das coisas ruins deste país é a promiscuidade entre empresários e políticos e entre políticos e juízes. Nos EUA, ninguém vê ministro da Suprema Corte na rua. Lá, eles não dão entrevista. Aqui, ministro dá entrevista nos corredores,. A promiscuidade é uma forma de corrupção não explícita. Ela não enriquece o bolso, mas corrói. É preciso quebrar isso. Juiz é juiz, político é político e empresário é empresário. Na hora de se encontrarem, que se encontrem nos autos, e não como é hoje.
A crise econômica vai piorar?
Infelizmente, o cenário não é bom. As conquistas econômicas e sociais estão em risco. A estabilidade monetária deu lugar à inflação, enquanto a democracia segue quebrada, sem partidos nem políticos com espírito público e propostas de longo prazo. O Estado brasileiro está quebrado e deveria se concentrar em cuidar da educação, da saúde e da segurança e deixar as outras áreas para a iniciativa privada. Estamos muito atrasados.
Qual é o retrato da educação no governo Dilma?
A Pátria Educadora não existe. O governo usa a educação como mero slogan para tentar enganar as pessoas. A revolução na educação passar por fazer a escola do mais pobre ser tão boa quanto a do mais rico. Isso é possível. Eu vi o prêmio da Fifa, de gol mais bonito do mundo, a este menino Wendell Lira, merecido, alias. Ele só ganhou isso, mesmo sendo pobre, porque a bola é redonda para pobres e ricos. Se a bola fosse quadrada para o pobre, ele não faria aquele gol nem entraria em campo. Se a gente tivesse as escolas redondas, muitos Wendells seriam candidatos ao Prêmio Nobel.
Como o senhor, que já foi reitor da Universidade de Brasília, explica a omissão da academia em relação ao que se passa hoje no Brasil?
A academia foi cooptada pelo PT. Na eleição passada, 54 reitores assinaram um manifesto de apoio à candidatura da presidente Dilma. Reitor não assina manifesto de apoio partidário. Ele pode até dizer em quem vota, porque representa uma comunidade, mas por que os reitores votaram? Porque teriam mais recursos para a universidade. Além disso, a academia está fragilizada por causa da má educação de base dos acadêmicos e do corporativismo. A universidade desconectou-se da realidade brasileira. Está subordinada aos sindicatos, fragilizada pelo corporativismo e pelo despreparo dos acadêmicos.
Como era a sua relação com o ex-presidente Lula, que o demitiu por telefone do cargo de ministro da Educação?
Sou um admirador daquele Lula histórico. Ele deu uma grande contribuição pelo simples fato de um operário ter chegado à Presidência em um país aristocrático como o Brasil. Poucos sabem, mas fui eu quem apresentou o Hugo Chávez ao Lula. O Chávez pedia, mas o Lula não queria conhecê-lo. Ele me dizia: “Isso é um milico golpista, não quero conhecer”. Eu respondia que esse milico tinha umas posições progressistas e seria presidente eleito. Marquei dois encontros que o Lula primeiro recusou para depois aceitar: com o Chávez e com o Fernando Henrique Cardoso.
O Bolsa Família é um bom programa?
O Bolsa Família deixou de ser um programa educador e se tornou um programa assistencialista quando o Lula tirou a gestão do Ministério da Educação e a repassou ao Ministério do Desenvolvimento Social. O Lula misturou vários programas assistenciais ao Bolsa Família e juntou tudo com a genialidade do Duda Mendonça (ex-marqueteiro do PT), que mudou o nome Bolsa Escola para Bolsa Família. Quando uma mãe recebe dinheiro de um programa que se chama Bolsa Escola, ela pensa: eu recebo esse dinheiro porque meu filho vai à escola e pela escola ele vai sair da pobreza. Já quando o nome é Bolsa Família, ela pensa que recebe porque a família é pobre e que, se sair da pobreza, vai parar de receber o dinheiro. Não há porta de saída.
O senhor se surpreende com a fortuna acumulada por Lula e sua família depois da chegada ao poder?
Vejo com profunda tristeza que isso tenha acontecido. Ao mesmo tempo, vejo com satisfação que a gente esteja sabendo, que isso não está mais escondido. Espero que as investigações não fiquem só nele.
O senhor acredita na viabilização da candidatura de Lula ao Planalto em 2018?
Se o governo da Dilma for até o fim e se o juiz Sergio Moro e o Ministério Público levarem a Lava-Jato até o final, o Lula estará morto em 2018. Mas, se a Dilma cair, o PT e o Lula forem  para a oposição com discurso de vítimas de um golpe e o governo que substituir o atual for incompetente... Vai depender de o Lula conseguir convencer o povo a lembrar só das coisas positivas dele e esquecer do resto. O Lula é um ilusionista.
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sábado, 16 de janeiro de 2016

AS RELAÇÕES PERIGOSAS DE WAGNER

Da IstoÉ
Em março de 2014, às vésperas da Operação Lava Jato, o empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC Engenharia, encarregou Maria de Brotas Neves, secretária executiva da empresa, de providenciar um presente para um amigo. O destinatário era o então governador da Bahia, Jaques Wagner (PT). Maria de Brotas encomendou três garrafas do vinho Vega Sicilia Gran Reserva 2003, a R$ 2 mil a unidade, numa distribuidora de bebidas de São Paulo, para serem retiradas em Lauro de Freitas, na Grande Salvador. Era o aniversário de Wagner. O empresário fez um bilhete de próprio punho para ser entregue com a encomenda, em que felicitava o petista por mais um ano de vida. “Meu caro governador…”, escreveu Pessoa dois anos atrás, quando era desenfreada a roubalheira envolvendo contratos da Petrobras. De lá para cá, com o avanço da Operação Lava Jato, muito se revelou sobre as estreitas ligações entre empreiteiros e políticos. Relações, de acordo com as investigações, pautadas muito mais por interesses privados do que públicos. A descoberta do Petrolão levou Pessoa para a cadeia e hoje o empreiteiro cumpre prisão domiciliar por conta de um acordo de delação premiada.
O momento atual é de apontar a participação dos políticos nos desvios feitos na Petrobras. Nesse contexto, as garrafas de vinho dadas a Wagner têm um significado mais amplo do que um regalo de aniversário. É a proximidade do atual ministro-chefe da Casa Civil com empreiteiros que o arrasta cada vez mais para o centro da Lava Jato. Nas próximas semanas, com o fim do recesso do Judiciário, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deverá pedir a abertura de inquérito para averiguar as denúncias contra Wagner.
Jaques Wagner já estava na alça de mira dos procuradores por causa dos diálogos expostos pelo celular apreendido de Leo Pinheiro, ex-presidente da Construtora OAS. Agora, ISTOÉ revela que o ministro também manteve uma estreita relação com o empreiteiro Pessoa, da UTC. Um documento que está no STF mostra que, além dos preparativos para a compra do vinho dado de presente ao então governador da Bahia, nas agendas do empreiteiro há referências diretas a pelo menos 12 encontros com o ex-governador entre 2011 e 2014. Há inclusive menção a uma reunião que o representante da UTC teria tido com um filho do petista. Esses documentos se somam ao material que chegou de Curitiba relacionado à OAS. Mensagens de telefone interceptadas apontaram a relação do ex-governador baiano com o ex-presidente da OAS. Assim como a UTC, a OAS é acusada de fraudar licitações da Petrobras. São conversas diretas entre os dois e também de interlocutores do governo da Bahia na segunda gestão de Wagner, entre 2011 e 2015. A Polícia Federal suspeita que os contatos eram para tratar de doações de campanha para a candidatura de Nelson Pellegrino (PT) à prefeitura de Salvador em 2012. Foram identificadas mensagens de texto trocadas entre agosto de 2012 e outubro de 2014 em que há negociação de apoio financeiro ao candidato petista e também pedidos de intermediação do governador com o governo federal em favor de empresário. “É feio”, assim foi classificado na PGR o teor das conversas.
O ESTALEIRO
Agora, a Procuradoria da República vai tentar obter os detalhes dos encontros mantidos entre Pessoa e Wagner. Em delação premiada, o empreiteiro afirmou que o atual ministro da Casa Civil era um dos governadores que estavam na “linha de interesse” da UTC Engenharia e, por isso, ajudou a financiar sua campanha. Em um primeiro depoimento, o empresário disse que nada foi pedido em troca, mas que os valores repassados abririam “portas de acesso e o colocavam em posição de destaque”. Em 2010, a UTC doou R$ 2,4 milhões à campanha de Wagner. No ano seguinte, a empresa embarcaria num negócio milionário. Foi criada a Sete Brasil, formada com capital de bancos, fundos de pensão e da própria Petrobras, para fornecer sondas de exploração do óleo na camada do pré-sal. A Sete Brasil contratou estaleiros para construir os equipamentos. Um deles foi instalado na Bahia, o Estaleiro Enseada do Paraguaçu (EPP), assumido pelo consórcio formado por quatro empresas, entre elas a UTC e a OAS, com investimento de R$ 2 bilhões. Em julho de 2012, a presidente Dilma Rousseff e Wagner lançaram a pedra fundamental do empreendimento, em Maragogipe (BA), a poucos quilômetros de Salvador.
Em seu discurso, Dilma enalteceu os feitos de seu governo em prol do crescimento do País e a retomada dos investimentos na indústria naval. Estava lá também Sérgio Gabrielli, que assumira a Secretaria de Planejamento do governo baiano após ser substituído por Graça Foster no comando da Petrobras. Mas surgiu a Operação Lava Jato, e os projetos vinculados à Sete Brasil foram interrompidos. Muitos deles acumulam hoje milhões de reais em prejuízos. As investigações da Polícia Federal, da Procuradoria da República no Paraná e da CPI da Petrobras lançaram graves suspeitas em torno dos contratos da Sete. Em delação premiada, o ex-gerente de Serviços da Petrobras e delator Pedro Barusco afirmou que os contratos das sondas envolviam o pagamento de propina de 1%, dividida entre o PT e diretores da Petrobras, na proporção de dois terços e um terço, respectivamente. A propina, segundo Barusco, seria operacionalizada pelo ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, preso em Curitiba desde o início de 2015.
Uma vez conhecida a agenda de Pessoa, o empresário já incluído em um programa de privilégios por causa da delação premiada deverá prestar novos esclarecimentos. Procurado pela ISTOÉ, o chefe da Casa Civil confirmou os encontros com Ricardo Pessoa, da UTC Engenharia, para tratar do Estaleiro Enseada do Paraguaçu, mas negou envolvimento em qualquer irregularidade. “O ministro Jaques Wagner tem relações institucionais com empresários, o que é importante para o diálogo e a convivência com os setores da produção sempre de forma transparente e digna. O ministro desconhece e repudia qualquer negociação de propina em benefício de quem quer que seja”, afirmou a nota enviada pela assessoria do ministro. Wagner disse ainda que Pessoa é empresário conhecido na Bahia e sua relação com ele é institucional. “Os encontros se referem a agendas de trabalho.” É normal que governadores e empreiteiros se reúnam para discutir obras de grande porte nos estados. O que a Lava Jato tem descoberto, porém, é que muitas dessas obras fizeram parte de um enorme propinoduto e que esses encontros muitas vezes foram pautados para definir a distribuição da propina. Caberá à investigação apurar o que efetivamente foi tratado em cada reunião. Inclusive na que colocou em uma mesma sala o empreiteiro e o filho do ex-governador.
Em Curitiba, os procuradores da Lava Jato já têm a informação de que houve propina nas obras do Estaleiro Enseada do Paraguaçu. Desde o ano passado, Wagner coleciona menções na Lava Jato. Nas contas eleitorais de 2006 do ex-governador foi registrada uma doação da Piemonte Empreendimentos LTDA, controlada pelo lobista Julio Camargo, delator da Lava Jato. A Piemonte doou R$ 50 mil à campanha do então candidato ao governo da Bahia. Outro colaborador, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa afirmou à PF que campanhas ao governo da Bahia e a prefeituras no estado foram beneficiadas com dinheiro desviado da estatal. Costa sustentou que os recursos foram viabilizados pela Gerência Executiva de Comunicação, subordinada ao então presidente da companhia Sérgio Gabrielli. O delator não apontou quais os caixas eleitorais teriam sido irrigados com valores ilícitos. Wagner venceu as eleições em 2006 e 2010. Após deixar a Petrobras, em 2012, Gabrielli assumiu o comando da Secretaria de Planejamento na gestão do petista. Uma auditoria da Petrobras constatou fraudes e desvios em pagamentos autorizados pela Gerência de Comunicação da Diretoria de Abastecimento, área comandada por Costa, envolvendo duas produtoras de vídeo. Essas empresas trabalharam nas campanhas do ex-governador baiano e de duas prefeitas do PT e receberam R$ 4 milhões da estatal em 2008. Ambas foram contratadas sem licitação.
As denúncias contra o ministro chegam no momento que Wagner procura se viabilizar como uma espécie de plano B petista para a sucessão de Dilma. Lula gosta muito do ex-governador da Bahia, tido nos bastidores como bom negociador. Ele atuou como bombeiro do governo no escândalo do mensalão, esquema de compra de apoio político durante o primeiro mandato do ex-presidente. Ganhou o apelido de “Pacificador”. São qualidades de Wagner, segundo seus interlocutores, a paciência e a capacidade de conversar. O ex-governador ocupou alguns cargos no Executivo Federal. Foi ministro do Trabalho, coordenador do Conselho de Desenvolvimento Enconômico e Social até assumir, em 2005, a Secretaria de Relações Institucionais. O ex-presidente credita a ele a articulação que levou Aldo Rebelo para a Presidência da Câmara, o que contribuiu para viabilizar sua recondução ao Palácio do Planalto em 2006. Cumprida a missão, Wagner partiu para a Bahia. Venceu as eleições e se reelegeu em 2010. Conseguiu fazer o sucessor, o governador Rui Costa (PT). Ainda governador, indicou o ex-ministro e ex-deputado Mário Negromonte (PP-BA), um dos investigados na Lava Jato, para vaga vitalícia de conselheiro no Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia. Nem tomou conhecimento das suspeitas que pesavam contra o aliado. Lula queria o ex-governador na Casa Civil desde o início do segundo mandato de Dilma, mas a presidente optou por Aloizio Mercadante. Wagner ficou na pasta da Defesa. Agora, na Casa Civil, abriu o ano trocando farpas com lideranças petistas e se apresentando como principal porta-voz de Dilma, num movimento para cacifá-lo como alternativa petista ao Palácio do Planalto em 2018. Lula e de Dilma se entenderam nas últimas semanas sobre tal estratégia. Mas tem uma Operação Lava Jato em curso.
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NA MIRA DA LAVA JATO

Da Época
Há três anos, o grupo Engevix, que tem empresas nas áreas de óleo e gás, petroquímica, siderurgia, mineração e infraestrutura, começou a enfrentar sérios problemas financeiros. Já sentia os efeitos da desaceleração da economia. Para sobreviver, o empresário José Antunes Sobrinho, um dos donos da Engevix, bateu em diversas portas da alta burocracia, sem sucesso. Até que partiu para uma ação desesperada. Constatou que, para destravar as barreiras dos empréstimos oficiais, restava somente falar com a própria presidente Dilma Rousseff. Foi desaconselhado – é notória a aversão de Dilma a contatos com empresários que saiam do esquadro republicano. Mas Antunes tinha um plano. O plano chamava-se Carlos Franklin Paixão de Araújo.
Carlos Araújo, um advogado trabalhista gaúcho, é ex-marido da presidente Dilma Rousseff, com quem manteve uma relação de 30 anos, entre 1969 e 2000. Conheceram-se no Rio de Janeiro e iniciaram um romance usando seus codinomes da época em que integravam organizações clandestinas que se opunham ao regime militar – Max e Estela. Passaram a viver juntos somente quando ela se mudou para Porto Alegre, em 1972, para cursar economia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), depois de sair da prisão e abandonar as fileiras do grupo armado VAR-Palmares. Mesmo após o divórcio, ele e Dilma mantiveram-se amigos. Tanto que Araújo é, hoje, um dos poucos conselheiros da presidente. É a ele que Dilma recorre em tempos de tormenta. Jamais deixa de visitá-lo quando vai a Porto Alegre. “Sou mais um ouvido atento que um consultor”, afirmou Araújo sobre a relação com Dilma, em entrevista à revista GQ, em setembro do ano passado.
Nos últimos meses, uma equipe de repórteres de ÉPOCA dedicou-se a uma investigação especial com o objetivo de descobrir se o plano do executivo da Engevix deu certo. Descobriu-se que, ao menos, a estratégia foi posta em marcha. Houve uma reunião secreta entre executivos da Engevix e Carlos Araújo. ÉPOCA entrevistou, em cidades como Brasília, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre, quase duas dezenas de fontes envolvidas nessa história – ou com conhecimento direto dela. Complementaram-se as entrevistas com documentos comerciais, fiscais e cartoriais. Além disso, um ex-vice-presidente da Engevix, que intermediou um encontro entre Antunes e o ex-marido de Dilma, aceitou gravar um depoimento exclusivo e revelador sobre o caso. Emergem dessa investigação evidências de que Carlos Araújo prometeu ajudar a Engevix junto ao governo Dilma. Descobre-se que, no mesmo período, a empreiteira pagara ao menos R$ 200 mil, por meio de um intermediário, a um casal amigo de Dilma e seu ex-marido. Ressalte-se que não há indício de que a presidente saiba o que transcorreu.
Hoje, a Engevix é uma das principais empreiteiras acusadas de participar do cartel do petrolão. Seus executivos, como Antunes, estão encalacrados junto à Justiça. Antunes e Gerson Almada, outro sócio da Engevix, negociam acordos de delação premiada – e a empresa, quase quebrada a esta altura, negocia um acordo de leniência junto ao Ministério Público Federal (MPF). Antunes e Almada cumprem prisão domiciliar. Os procuradores da força-tarefa da Lava Jato estão em fase avançada, sobretudo, das negociações do acordo de delação premiada de Antunes. Um dos pontos discutidos nas conversas entre procuradores e os advogados de Antunes e da Engevix, segundo ÉPOCA confirmou com fontes que participam das tratativas, contempla precisamente a relação da empreiteira com Carlos Araújo. A força-tarefa já rastreia, sigilosamente, provas que podem corroborar o que Antunes está disposto a dizer em juízo sobre um assunto tão grave. Ele já revelou aos procuradores a existência da abordagem a Carlos Araújo. Mas ainda não se sabe se disse tudo o que conhece acerca do caso. “Estou proibido de falar sobre o assunto”, disse Antunes a ÉPOCA.
AS NEGATIVAS
Do 3º andar de um prédio antigo no centro de Porto Alegre, Araújo atende seus clientes às terças e quintas-feiras de manhã, muitos deles encaminhados por sindicatos. Na sala de espera, onde cada visitante costuma gastar no máximo cinco minutos até ser atendido, há uma foto da presidente Dilma fixada na parede – que se destaca pelo forte tom de vermelho que destoa do ambiente sem decoração. A sala de Araújo costuma ficar de portas abertas. Sua área de trabalho é bagunçada, cheia de papéis espalhados. No dia 10 de dezembro, ÉPOCA esteve no escritório de Carlos Araújo e perguntou ao ex-marido de Dilma se ele havia feito negócios com a Engevix. Carlos Araújo negou categoricamente: “Não tem nada disso. Isso é um desrespeito à minha pessoa”, disse, encerrando a conversa. Depois de receber ÉPOCA, em dezembro, o advogado mostrou-se preocupado e acionou sua defesa, além de comunicar o ocorrido à própria Engevix. Na tarde da sexta-feira, dia 15, ÉPOCA voltou a procurar Carlos Araújo, desta vez por telefone. Procurado em seu escritório e em sua casa, não respondeu aos questionamentos da reportagem. ÉPOCA deixou recados insistindo na necessidade de ouvi-lo acerca do caso. Não houve retorno.
Procurada por ÉPOCA na semana passada, a presidente Dilma Rousseff se manifestou por nota. “(A presidente) desconhece qualquer reunião entre Carlos Araújo e representantes da Engevix, assim como qualquer pleito que tenha sido feito ao governo. Informa ainda que não tem relação com as pessoas citadas pela revista”, diz o documento.
Um mês antes, em 8 de dezembro, a reportagem abordou no aeroporto de Brasília um dos sócios da Engevix, Gerson Almada, e perguntou sobre a relação com Carlos Araújo. Almada respondeu com frases enigmáticas: “Eu já estava preso”, afirmou, tentando escapar da abordagem. Diante da insistência, reconheceu. “Mas isso vai sair em breve.” Quando questionado por mais detalhes, hesitou. “Eu não posso. Você tem o telefone da Roberta, minha esposa, não é? Então, em breve você terá (a informação). Depois de hoje, você terá. Eu vou te dar esse privilégio. É um compromisso meu com você.”
Na quinta-feira da mesma semana, Almada viajou para Curitiba com seu advogado, Antonio Pitombo, para tentar costurar seu acordo de delação premiada, que está até hoje no Ministério Público Federal. ÉPOCA procurou também sua esposa, Roberta. Mas Almada jamais respondeu aos pedidos de entrevista. Procurado em sua casa, num condomínio de luxo no bairro do Morumbi, em São Paulo, ele também não atendeu mais a reportagem. Depois de ter sido condenado a 19 anos de prisão, em dezembro, e de ser liberado da tornozeleira eletrônica, Almada foi a Ilhabela, no Litoral Norte de São Paulo, descansar em sua casa de praia e velejar. Enquanto aguarda a tramitação dos recursos que incidem sobre sua condenação, ele gosta de percorrer trajetos em lanchas e iates. “É bom para relaxar”, relatou a pessoas próximas.
Apesar dos levantamentos e depoimentos obtidos por ÉPOCA, da cronologia dos pagamentos e do envolvimento de pessoas próximas à presidente Dilma e a seu ex-marido, seria precipitado, neste momento, afirmar que Araújo foi cooptado e remunerado pelo petrolão – ou mesmo que tenha migrado da promessa de ajuda a Antunes à ação. O advogado do empreiteiro, Antonio Figueiredo Basto, diz que o seu cliente não fez pagamentos para o ex-marido de Dilma. Os depoimentos de Zuch à reportagem são consistentes, fidedignos e oriundos de um protagonista da aproximação da Engevix com Araújo. A partir dos fatos e da delação premiada, se ela realmente ocorrer, o Ministério Público pretende esclarecer o assunto.
Leia a íntegra da reportagem de Ana Clara Costa e Thiago Bronzatto na edição da revista ÉPOCA que já está nas bancas.
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PAGAMENTOS NO EXTERIOR

Da Veja

Um empreiteiro do primeiro time está diante de um advogado de sua empresa e, pensando alto, reclama da atitude da presidente Dilma Rousseff, que, na visão dele, estava pouco se lixando para a sorte dos empresários pegos na Operação Lava-Jato. Diz ele: "A Dilma fica posando de virtuosa como se não tivesse nada com o que está acontecendo. Ela declarou pouco mais de 300 milhões de gastos de campanha, e nós demos para ela quase 1 bilhão. Como ela pensa que o restante do dinheiro foi parar na campanha?". Esse desabafo reflete uma situação de fato e, além de ser uma confissão de crime, descreve com exatidão o sentimento comum entre muitos dos maiores doadores do PT na campanha presidencial de 2014. Eles deram dinheiro contabilizado, devidamente registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas também fizeram contribuições clandestinas das mais diversas maneiras usando suas poderosas estruturas empresariais. Outro empreiteiro avança mais: "Essas doações foram feitas a partir da contratação de consultorias indicadas pelos políticos ou por meio de pagamentos a publicitários diretamente no exterior". A Polícia Federal já encontrou evidências dessas operações casadas em que empresas são agraciadas com obras e financiamentos públicos generosos e, em troca, contratam aqui ou no exterior "consultorias" ou agências de publicidade às quais devolvem parte do butim. Um exemplo dessa triangulação criminosa está sendo investigado em um inquérito sigiloso que tramita em Curitiba e tem como personagem principal o marqueteiro João Santana, artífice das campanhas eleitorais do ex-presidente Lula e da presidente Dilma.
A história começa nas primeiras horas da manhã do dia 5 de fevereiro do ano passado, quando uma equipe de policiais federais bateu na porta do engenheiro Zwi Skornicki, em um condomínio da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Os agentes estavam atrás de computadores e documentos. As buscas eram parte da nona fase da Operacão Lava-Jato, batizada de My Way. Estavam na mira dos policiais onze operadores do petrolão que haviam sido denunciados por Pedro Barusco, ex-­gerente da Petrobras. Em acordo de delação, Barusco revelou os detalhes de como funcionava o esquema de corrupção na diretoria de Serviços da estatal. Apenas ele, um funcionário de terceiro escalão, havia embolsado 97 milhões de dólares, dinheiro que escondia em contas secretas no exterior. Barusco contou como eram pagas as propinas em troca dos contratos, em especial aqueles destinados à construção de plataformas e sondas para exploração de petróleo em águas profundas. Organizado, ele tinha uma lista com o nome de todos os operadores, quem cada um deles representava e, principalmente, o que cada um fazia.
Zwi Skornicki, o morador do condomínio de luxo da Barra da Tijuca visitado pelos federais, era um dos nomes da lista de pagadores de propina. Havia anos ele era o representante no Brasil do estaleiro Keppel Fels, de Singapura, dono de contratos bilionários com a Petrobras. Segundo Barusco, de 2003 a 2013 Zwi foi o responsável por pagar - a ele, a outros funcionários da Petrobras e também ao PT - as comissões devidas pelo estaleiro asiático. Eram provas desses pagamentos que os agentes procuravam na casa do operador, mas a busca acabaria abrindo uma nova linha de investigação. Ao analisarem o material apreendido, os investigadores encontraram uma carta enviada em 2013 a Zwi com as coordenadas de duas contas no exterior, uma nos Estados Unidos e a outra na Inglaterra. A remetente da correspondência, manuscrita, era Mônica Moura, mulher e sócia do marqueteiro João Santana. Intrigante. Que ligação financeira poderia haver entre a esposa e sócia do marqueteiro da presidente da República e um operador de propinas do petrolão? Estranho. Num mundo digital, a comunicação ainda se deu por carta - talvez para não deixar rastros em e-mail ou mesmo em mensagem telefônica.
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DAS CINZAS AO CARNAVAL

Artigo de Fernando Gabeira
A Operação Lava Jato começou o ano desatando fios de várias meadas. Um deles, as mensagens telefônicas do ex-diretor da OAS Léo Pinheiro. No vácuo político do recesso, a única variável com poder de alterar o quadro é o curso da Lava Jato e de outras operações da Polícia Federal.
As mensagens de Léo Pinheiro comprometem o ministro Jaques Wagner em alguns pontos. Um deles, sua interferência num fundo de pensão, a pedido da OAS. Negócio de R$ 200 milhões. Mais ou menos no mesmo período vazou trecho da delação de Nestor Cerveró também comprometendo Wagner. Desta vez na construção de um prédio destinado a abrigar a direção financeira da Petrobrás.
Cruzo os dados não para demonstrar culpa de Wagner. Mas para reafirmar que a Lava Jato é uma espécie de termômetro que permite vislumbrar ao menos algumas nesgas do futuro. No caso de Lula não poder disputar em 2018, Wagner era uma espécie de plano B. Há pedras no caminho.
As mensagens de Léo Pinheiro expuseram ainda mais o superexposto Eduardo Cunha. Trabalhavam intimamente, Cunha era um lobista da OAS. Eram tão próximos que combinavam doações que seriam feitas por empresa adversária, a Odebrecht. Na intimidade do diálogo com Léo Pinheiro, Cunha chamava a Odebrecht de “os alemães”, expressão usada nos morros do Rio para designar os rivais de outra área.
Eduardo Cunha já está enredado até a medula. E na troca de mensagens com o diretor da OAS ainda expôs outros políticos do PMDB e até a campanha de Temer para vice. Sinal de alerta para o futuro do partido. Lobão já teve seu sigilo bancário quebrado. Até que ponto é possível prever o futuro do PMDB antes do fim da Lava Jato?
O PSDB também aparece em delações premiadas. A primeira denúncia foi de Paulo Roberto Costa: teria pago R$ 10 milhões a Sérgio Guerra, então presidente do partido, para tornar inviável uma CPI da Petrobrás. Novos vazamentos da delação de Nestor Cerveró revelam que ele denunciou uma propina de US$ 100 milhões no período de Fernando Henrique Cardoso, paga por um negócio feito na Argentina, a venda da petrolífera Pérez Companc.
Tanto Sérgio Guerra como o ex-presidente da Petrobrás Francisco Gross já morreram. Mas isso não impede a investigação dos fatos, no momento muito vagos ainda. Mas se a Operação Lava Jato tiver a mesma duração de quatro anos da italiana Mãos Limpas, terá condições de iluminar ao máximo o período, para a nova fase da democracia brasileira começar a cumprir as promessas que vêm lá da luta pelas diretas.
O PT reclama de vazamentos seletivos. Tem vazado geral, para todos os lados. Parte do PP está atrás das grades. O problema do PT, além do volume, é o amplo domínio da máquina, a corrupção como forma de governo. Não bastasse Pasadena, surgiu agora Moamba-Major.
Esse é o nome de uma barragem em Moçambique, feita pela Andrade Gutierrez. Os africanos precisavam abrir uma conta no exterior, o governo brasileiro decidiu suspender essa condição para facilitar um empréstimo do BNDES de US$ 320 milhões. O banco afirma que foi uma operação normal e não viu risco no empréstimo. A resposta desse e de outros enigmas está na própria Lava Jato, pois deve começar logo a delação premiada da Andrade Gutierrez.
Como a agenda da Lava Jato domina os futuros passos políticos, o começo do ano novo é só um prolongamento do velho. Outra variável de peso que vem de 2015, a economia se degrada e o governo ainda me parece perdido. Ao mesmo tempo que lança metas inalcançáveis para melhorar suas contas, como CPMF e reforma da Previdência, orienta os bancos oficiais a facilitar o crédito.
Volta e meia se fala nas reservas nacionais, em detoná-las para criar um impulso na economia. O Brasil tem muito dinheiro, vamos gastá-lo. Mas o Brasil tem dívidas. Contando direitinho, ativos e dívidas, sobra menos do que parece. Além de ser pouco para o que pretendem, vai nos deixar totalmente na lona. Jaques Wagner disse que o governo não tem nenhum coelho na cartola para superar a crise econômica. A impressão é de que, se o tivesse, teria tirado. O enfoque da magia não foi rejeitado. Só acabaram os truques.
As variáveis Lava Jato e crise econômica não conseguem fechar o quadro. Mas influenciam uma terceira que, em combinação com elas, pode resultar na mudança.
Apesar de manifestações aqui e ali, a sociedade ainda não se pôs em movimento este ano. Até que ponto se vai manter distante? Não é uma passividade qualquer: cada vez recebe mais dados negativos sobre o País e seus governantes. É uma passividade informada. Ao menos tem os dados para avaliar, sabiamente, a hora de passar de um estado para outro, a hora de agir.
Dizem que o ano no Brasil só começa depois do carnaval. Mas o fluxo de dados não para. Ele transborda no carnaval em marchinhas, máscaras, fantasias e passa ele mesmo a ser um dado na própria análise da crise. Mesmo porque até o carnaval muita gente pode sambar.
A História não tira férias de verão. Já temos uma espécie big data dos escândalos, enriquecido diariamente com revelações, cruzamentos, checagens.
Sabemos que as chances de Eduardo Cunha ter feito fortuna no mercado são menores do que ganhar a Mega-Sena. As chances de os negócios de Cunha terem rendido o que declarou é de 1 em 257 setilhões; as de ganhar a Mega-Sena, 1 em 50 milhões. É o que diz um documento do inquérito. Não era preciso fazer tanta conta.
Melhor é apressar o passo. Num certo nível, o Brasil ganha credibilidade internacional com a Lava Jato: as investigações são independentes e nos põem no limiar da maturidade democrática. Em outro, as hesitações e fantasias diante da crise econômica agravam o quadro e solapam tal credibilidade.
Na Quaresma voltam os políticos. Mais uma variável da equação. Que instinto os moverá nessa volta, o de sobrevivência? Continuarão dançando na beira do abismo? Nessa hora o carnaval já terá passado. É 2016.
Artigo publicado no Estadão em 15/01/2016 
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

AUDITORIA VETADA

A presidente Dilma Rousseff (PT) vetou proposta apresentada pelo PSOL para que fosse realizada uma auditoria da dívida pública federal com a participação de entidades da sociedade civil.
O veto foi publicado no Diário Oficial da União desta quinta-feira (14), junto com a sanção do Plano Plurianual do governo, que prevê o planejamento das contas federais até 2019.
A dívida pública é a soma das dívidas contraída pelo governo com o objetivo de financiar os gastos não cobertos com a arrecadação de impostos. Essa dívida é formada tanto por empréstimos internacionais quanto pela emissão de títulos do governo, comprados por investidores com o objetivo de obter remuneração futura por meio de juros.
A proposta da auditoria foi incluída na lei do PPA (Plano Plurianual) 2016-2019 por emenda do deputado Edmilson Rodrigues (PSOL-PA), acatada pela Comissão de Finanças e Tributação da Câmara e posteriormente aprovada pelo Congresso Nacional (deputados e senadores).
A auditoria da dívida é um pedido antigo dos partidos de esquerda, que criticam, principalmente, o percentual elevado do Orçamento destinado ao pagamento dos juros e do principal da dívida.
Em 2015, segundo a associação Auditoria Cidadã da Dívida, que defende a proposta, 46% dos gastos do governo federal foram destinados ao pagamento e amortização da dívida pública, o que equivale a pouco mais de R$ 958 bilhões. O valor divulgado pela associação foi apurado até o dia 1º de dezembro.
Na justificativa para vetar a auditoria, a presidente cita razões apontadas pelo Ministério do Planejamento.
Nesta quinta-feira, uma consulta ao site do Senado de acompanhamento do Orçamento mostra que o gasto com a dívida pública no ano passado foi 25 vezes maior que o total de investimentos feitos pelo governo federal. O sistema do Senado aponta um gasto de R$ 962 bilhões com a dívida, ante R$ 38 bilhões em investimentos.
Segundo o ministério, as informações sobre a composição e o pagamento da dívida já são periodicamente divulgadas em relatórios do Tesouro Nacional e do Banco Central, além de a gestão da dívida ser submetida a auditorias regulares da CGU (Controladoria-Geral da União) e do TCU (Tribunal de Contas da União).
O governo afirma também que a forma "abrangente" proposta para a auditoria poderia gerar um conflito no "pacto federativo", uma vez que a dívida é composta também por obrigações contraídas por Estados e municípios.
Em nota, o PSOL criticou o veto e os argumentos do governo, afirmando que a dívida dos Estados e municípios está "profundamente relacionada" com o governo federal e que não há transparência sobre alguns aspectos de sua gestão.
"Não há transparência sobre diversos aspectos do endividamento, a começar pelos próprios beneficiários desta dívida, cujos nomes são considerados como sigilosos pelo governo, apesar de se tratar de recursos públicos. A recente CPI da Dívida, realizada na Câmara dos Deputados (2009/2010), teve diversas informações e documentos não fornecidos pelos órgãos do governo", diz a nota do PSOL.
A justificativa para o veto foi publicada no Diário Oficial desta quinta-feira. Veja o que disse o governo:
"O conceito de dívida pública abrange obrigações do conjunto do setor público não financeiro, incluindo União, Estados, Distrito Federal e Municípios e suas respectivas estatais. Assim, a forma abrangente prevista na iniciativa poderia resultar em confronto com o pacto federativo garantido pela Constituição. Além disso, a gestão da dívida pública federal é realizada pela Secretaria do Tesouro Nacional e as informações relativas à sua contratação, composição e custo, são ampla e periodicamente divulgadas por meio de relatórios desse órgão e do Banco Central do Brasil, garantindo transparência e controle social. Ocorrem, ainda, auditorias internas e externas regulares realizadas pela Controladoria Geral da União e pelo Tribunal de Contas da União."
Do UOL
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

QUANTOS E QUAIS SÃO OS AVESSOS DE DILMA?

Por José Nêumane, articulista de O Estado de S.Paulo
A sequência de medidas provisórias e a nova regulamentação da Lei Anticorrupção, que na prática anulam o sentido do prefixo, que quer dizer contra, revelou a total desistência do mínimo de pudor pelo desgoverno Dilma no findo ano de 2015. A mudança da condição de 50 anos após a morte para 10 para que se lhe permita outorgar o título de Herói Nacional a Leonel Brizola, sem motivo aparente que não o de atormentar o vivo Luiz Inácio Lula da Silva, põe em dúvida a sanidade mental de quem a promoveu. Pois sobram problemas para a chefe do desgoverno enfrentar neste grave momento e não faltava nesta hora aziaga uma decisão sem motivo sério algum em meio à recessão brutal e a um processo de impeachment, que, na verdade, mal começou.
Mas a presidente não desiste de nos surpreender e nos tem propiciado mais do mesmo em seu estilo pouco sagaz e nada sutil, sem lógica e com ousadia imodesta. Há uma semana, seu padrinho Lula lhe ocupou a agenda com oportuno jantar (à véspera de um depoimento de cinco horas à Polícia Federal). E nele exigiu dela entusiasmo e otimismo. A sucessora não se fez de rogada e convidou os setoristas do palácio para um café da manhã, sob a égide de uma exibição de falsas flores do recesso e coroado com um selfie cretino que irradia, do lado dela, um absurdo desconhecimento da gravidade da crise e, do ângulo dos encarregados da cobertura da Corte desapegada aos fatos, um grau similar de alheamento brechtiano da realidade.
O pessedista pernambucano Thales Ramalho cunhou a expressão flores do recesso para definir o truque de políticos espertos de irem a Brasília nas férias para ocuparem tempo e espaço – às vezes com destaque – nos meios de comunicação revelando fatos irrelevantes que no cotidiano do quadro político não tinham como merecer importância. Lula mandou Dilma ser irrealista, ela obedeceu e os repórteres pareciam dizer, sem ligar a mínima para seu público, assolado por falências e desemprego: “Se fui pobre, não me lembro”.
Os semblantes deslumbrados de Dilma com o poder que se esvai e dos jornalistas com a proximidade da glória efêmera e rara contrastam com as notícias da planície, que são de fazer chorar. No congraçamento pré-carnavalesco em pleno recesso da recessão, a presidente festejou vitórias eventuais e inconsistentes no processo do impeachment. Mas, entrementes, o anúncio da inflação de 10,67% em 2015, a mais alta desde 2002, é a pior de uma série de notícias ruins, como o retorno de 3,7 milhões de pobres da classe C às classes D e E. E desolador é que, no “país do futuro” (apud Stefan Zweig), o desemprego de patrícios entre 15 e 24 anos deve ter sido de 15,5% em 2015 – maior do que a média mundial no ano, de 13,1% .
A maior novidade contada por ela agrada a pouquíssimos: deverá reunir-se no café com setoristas em 2017, porque o profeta Lula de Caetés, o vice Temer, que se refestela no poder à sombra, e Madre Marina acham que o impeachment morreu, mas não foi enterrado. As exéquias são previstas para depois do carnaval, época em que a Quarta-Feira de Cinzas terá ares de terça-feira gorda. Ao menos nos salões do palácio onde o escárnio vira orgia do acinte a desafiar cidadania e República, corroídas pelos ratos.
Ninguém achou um só deslize que ponha sob suspeita sua honra pessoal – repete Dilma. Não lhe falem no rombo das propinas da Petrobras, na capivara de sua protegida Erenice Guerra nem nas dúvidas sobre o comportamento do fiel Walter Cardeal, diretor da Eletrobras. Para limpar as fichas dos espíritos santos de orelha Jaques Wagner e Edinho Silva madama conta com o pretexto do “vazamento seletivo”, agora comprometido pelo destaque à citação de Fernando Henrique na delação de Cerveró. E com o beneplácito alugado do baixíssimo clero (nas profundezas de pré-sal) da Câmara, liderado por Leonardo Picciani. Só não dá mais é para soltar o líder Delcídio “do” Amaral.
Palavras impressas em papel não têm como ser fiéis a mais uma confissão de probidade feita pela presidente naquele repasto. A frase “tenho clareza de que tenho sido virada dos avessos” é um exemplo cabal da desconexão entre seu discurso e os dicionários existentes. Quantos e quais são os avessos de Dilma? Terá ela mais de um avesso (o lado oposto ao dianteiro) ou quis dizer às avessas (ao revés)?
É impossível adivinhar onde encontrou o plural de uma palavra singular para se eximir da evidência de que deixou tanta gente roubar tanto sem nunca ter percebido. Não dá para entender tal sentido oculto na leitura, ainda que atenta. Para isso há que assistir às pausas súbitas, às sílabas atropeladas e aos aflitos apelos à compreensão dos interlocutores. E isso só é possível vendo-a e ouvindo-a na televisão. O jeito de dizer a frase sem nexo importa mais do que a falta de nexo de sua fala. Pois denota o cansaço desesperado que Dilma expõe ao repetir infindas vezes algo que considera óbvio, mas não consegue comprovar e assim convencer quem tente, sempre em vão, ouvi-la e entendê-la. Da outra ponta da linha, assediado de todos os lados pela crise, o pobre brasileiro só pode ficar mais exausto e mais desesperado do que ela própria.
Dilma disse ainda que ninguém devia aposentar-se aos 55 anos. “Nós estamos morrendo menos. E os jovens estão nascendo mais”, justificou-se. Estas patacoadas estão à altura da transmissão da tríplice epidemia pelo ovo do mosquito, da glorificação da mandioca e da sagração da mulher sapiens. Não querem dizer nada e nada indicam. São somente novas pérolas da língua particular de Sua Excelência, tratada comme il faut por Celso Arnaldo Araújo no livro O Dilmês. Criará um ministério para traduzi-la?
Após ouvir que a CPMF é um problema de saúde pública, o contribuinte a ser assaltado entende perfeitamente que terá de pagar pelo 2016 feliz que Dilma se almeja. Pois sabe que só lhe restará pagar a conta de um problema de saúde pública sem jeito: o desgoverno dela.
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VEREADOR É MORTO A TIROS

O vereador Geraldo Cardoso Gerpe, do PSB, foi morto a tiros na noite dessa quarta-feira, em Magé, na Baixada Fluminense. O autor do crime está foragido.  
O vereador, conhecido como "Geraldão", foi surpreendido pelo homem armado, por volta das 22h, no estacionamento da Câmara Municipal da cidade. Ele havia descido para buscar um documento no carro.
Um policial civil que estava no local presenciou a ação e ainda trocou tiros com o assassino, que fugiu após acertar dois tiros no vereador, ferido na cabeça e no ombro.
Geraldo Cardoso Gerpe era empresário e se elegeu em 2012 com 2.316 votos.  
O vereador havia se licenciado para assumir uma das pastas da Prefeitura, mas, no ano passado, retornou ao cargo.  
Geraldão, que tinha 41 anos, vinha presidindo uma comissão especial de investigação sobre supostas irregularidades nos salários dentro da Prefeitura.  
O homem que atirou contra o vereador dentro do estacionamento teria pulado um muro para acessar o local, segundo testemunhas.
A Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense faz buscas pelo suspeito de assassinar o vereador Geraldo Cardoso Gerpe, do Partido Socialista Brasileiro, em Magé.
Mais assassinatos  
Geraldão é o quarto vereador assassinado em Magé nos últimos nove anos. Antônio Carlos da Silva Pereira, o "Tunico Pescador", do PMDB, foi morto em 2012; em 2007, a vítima foi o vereador Dejair Correia, do PDT.  
Em 2006, dois homens assassinaram o parlamentar Carlos Alberto do Carmo Souto, do PSC.
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

ALGUMA VERDADE

Artigo de Fernando Gabeira
A exigência de ouvir a verdade era ao mesmo tempo uma crítica à sucessão de mentiras do grupo de Nixon e uma aspiração de milhões de jovens americanos. O tempo passou, revolução digital no meio do caminho, e hoje é possível afirmar que o pedido de Lennon transcendeu a juventude: é um amplo desejo social.
O caso do governo Nixon contra Lennon tem relação com o Brasil de hoje. Embora incurso em outros artigos do Código Penal, o governo do PT nesses 12 anos tem a mesma recusa em aceitar a verdade. Independentemente de nuances políticas, governos ilegais não têm outro caminho senão construir uma narrativa de fuga, um cipoal de álibis. Essa incapacidade de nos dar alguma verdade parece incomodar dois quadros importantes do partido: Patrus Ananias e Jaques Wagner.
Nessa virada de ano, como se cumprissem uma promessa de réveillon, disseram: um, que o PT precisava pôr a mão na consciência; o outro, que o PT se lambuzou no poder. É uma reação tardia. Durante tanto tempo, a mão esteve no bolso dos brasileiros, estranho que só agora se desloque para a consciência. Jaques Wagner disse alguma verdade ao afirmar que o PT se lambuzou no poder. Mas o fez de forma tão hábil que parecia atenuar a culpa por ser um réu primário.
O PT teria chegado ao poder e reproduzido as práticas que condenava nos outros. Acontece que isso é apenas um fragmento da realidade. O PT, como nunca antes na História, transformou a corrupção num instrumento de governo e base para se perpetuar no poder. Fundos de pensão, estatais, empreiteiras, teles, tudo passou a ser fonte de recursos. Os aliados foram comprados no Mensalão e ganharam lugares estratégicos para saquear a Petrobras.
O PT montou um esquema que produziu fortunas. Sua passagem pelo governo, além de tornar a prática sistemática e abrangente, fez da corrupção no Brasil um tema internacional com desdobramento em várias cortes. Possivelmente, a tática dos dois quadros políticos, diante das resistências internas, é apenas uma proposta gradativa da verdade. É uma tática que só funciona quando o poder é o único a deter a realidade dos fatos. Mas hoje eles são públicos, através de dados da polícia, delações, reportagens investigativas.
A imagem que me vem à cabeça é a do colégio de freiras Stela Matutina, onde minha mãe estudou. As alunas tinham de tomar banho de camisola. Jamais se viam os corpos, apenas sombras, contornos, saliências. Eram virgens, os corpos nus eram um segredo pessoal. Mas a realidade histórica desnudou o PT. Por que revelar a varejo o que todos conhecem por atacado?
O gigantesco esquema montado pelo PT mudou a própria maneira como a sociedade vê a corrupção. Nos últimos dias do ano, a PF informou que houve um rombo de R$ 5 bilhões no Postalis. O tema desapareceu como se fosse a luz de um foguete no réveillon. Não foi adiante porque R$ 5 bilhões parecem ser uma mixaria diante das cifras gigantescas.
Um governo pode ser sincero e até meio incompetente. Mas, quando escolhe o caminho ilegal e domina o espaço político, o estímulo ao cinismo se propaga como um rastilho. Foi criado no Brasil um partido das mulheres que só tem homens e uma única mulher como presidente. Uma observadora da ONU, em entrevista sobre as Metas do Milênio, detectou essa jabuticaba. Mas o fato passou batido como o rombo do Postalis. Um sólido bloco masculino propondo um partido das mulheres e sendo reconhecido é apenas mais um dado do cotidiano. Ficou tudo um pouco desconexo, os vínculos se dissiparam, e hoje o campo da política tornou-se um obstáculo ao debate racional. Gira em torno de si mesmo. O pior é que as escolhas econômicas indicam o abismo. O PT quer produzir um vôo da galinha para se salvar nas eleições de 2016.
A galinha não consegue voar, mas eles descobriram algo para lhe dar asas: as reservas monetárias do país. Querem metade delas, cerca de US$ 174 bilhões. Falaram também que a China vai nos ajudar com empréstimos. Dois dias depois, parece que a notícia chegou lá: a bolsa chinesa desabou com relatos de queda na produção industrial. Nossos potenciais salvadores estão em dificuldades. O uso das reservas terá repercussão negativa nos mercados.
Insistir no que deu errado achando que um dia dará certo, fugir da verdade quando todos pedem um encontro com ela, é uma escolha histórica. Nixon, pelo menos, renunciou. No último momento, de alguma forma, assumiu a verdade.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 10/01/2015
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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

EMPRÉSTIMO INVESTIGADO

Além de aprofundar a investigação em torno de empréstimo de R$ 375 milhões do Banco do Nordeste (BNB) à Itaipava para a construção de uma cervejaria no interior da Bahia, o Ministério Público Federal no Ceará apura possíveis irregularidades em operação do mesmo BNB a uma empresa do ex-governador cearense Cid Gomes. Com o dinheiro recebido do banco, Gomes ergueu um galpão na sua cidade para alugá-lo. Adivinha para quem a empresa de Cid alugou o galpão? Itaipava.
Da coluna Expresso - Época
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A VOZ DA NOVA GERAÇÃO

Da IstoÉ
Uma cena marcou a 17ª edição da Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro. Durante uma sessão de autógrafos em uma tarde de setembro de 2015, mais de duas mil pessoas gritavam, choravam e se aglomeravam em um salão do Riocentro, na zona oeste da capital carioca, para chegar o mais perto possível de uma autora. A responsável pela histeria, no entanto, não era uma escritora consagrada, nem uma celebridade da televisão ou do cinema, mas sim uma curitibana de 22 anos que atende por Kéfera Buchmann. Talvez você nunca tenha ouvido esse nome, mas um teste pode comprovar a projeção que ele ganhou nos últimos meses: pergunte para qualquer pré-adolescente ou jovem entre 10 e 17 anos se ele a conhece e provavelmente nenhum dirá que não. Kéfera é a pessoa física com o maior número de seguidores no portal de vídeos YouTube no Brasil. Ela soma sete milhões de inscritos em seu canal “5inco Minutos”, onde posta semanalmente vídeos bem-humorados sobre assuntos do cotidiano. Para se ter ideia do sucesso da jovem, uma paródia que ela fez do clipe “Bang”, da cantora Anitta, atingiu o terceiro lugar entre os vídeos mais vistos no YouTube em 2015. Arrebatando multidões e faturando cifras altas, Kéfera lidera o fenômeno dos YouTubers no País, jovens que produzem vídeos para a internet falando o que pensam e estão fazendo a cabeça de milhões de adolescentes. São a voz da nova geração.
A admiração por Kéfera já ganhou ares de idolatria. Cada foto sua no Instagram ou frase no Twitter gera milhares de comentários logo após a postagem. Quando vai ao shopping ou a restaurantes, ela é reconhecida pelos fãs, que, assim como os tietes de grandes celebridades internacionais, têm até um nome de identificação: kélovers. Sua fama, no entanto, é paradoxal. Enquanto milhões a veneram, a maioria da população não faz ideia de quem ela seja. “Eu acho isso engraçado”, diz Kéfera. “O público que vê televisão pode não me conhecer, mas quem faz, diretores e atores, conhece.” Na lista dos ilustres desconhecidos brilha outro nome, o de Christian Figueiredo, 21 anos. Ele tem dois canais que somam quase sete milhões de inscritos, dois livros lançados (sendo que um deles vai virar filme) e contratos publicitários com grandes marcas. Atual garoto-propaganda de uma empresa de telefonia celular, na peça publicitária para TV o jovem aparece valendo-se da sua própria condição. “Tenho milhões de fãs nas redes sociais. Você ainda não me conhece? Tá precisando de mais internet aí, hein?” Também tem contrato de exclusividade com uma marca de refrigerantes. O tamanho do sucesso de Christian pode ser medido não só pelo número de seguidores, mas também pelas contas criadas para reverenciá-lo. Só no Facebook são 97 páginas. Para se ter idéia, um dos principais galãs globais, Cauã Reymond, tem 92. Christian tem uma equipe de 10 pessoas, entre editores, assessores, empresário, designer e advogado. Seus vídeos são um festival de caretas, tons de voz jocosos e muitas piadas, principalmente sobre relacionamentos entre meninos e meninas. “Sempre busquei ser original. É a junção do meu próprio jeito de ser com escolher temas que não costumam ser muito falados”, diz.
Assim como os outros YouTubers que aparecem nas páginas desta reportagem, Christian segue uma fórmula de ouro, segundo o diretor de parcerias de conteúdo do YouTube no Brasil, Eduardo Brandini. “É a autenticidade na forma de se comunicar. Eles têm vocação de conseguir conversar com a audiência e falam de assuntos que os públicos querem consumir e não encontram em outros lugares.” São temas essencialmente ligados à realidade dos jovens e sem os pudores que a televisão impõe. A liberdade de ter seu próprio canal permite que esses novos ídolos juvenis falem palavrão, tratem de sexo com naturalidade e bom-humor e façam piadas e brincadeiras ouvidas normalmente apenas em rodas de conversa. Falam a mesma e exata linguagem de quem os assiste. “A gente produz pensando só no nosso público. Na TV não é assim. Há muita preocupação em agradar anunciantes e se faz um conteúdo voltado pra isso”, diz Mauro Morizono Filho, 18 anos, o Japa, cujo sucesso foi uma virada em sua vida. “Sempre fui o excluído da turma, tive que mudar de escola três vezes. Sofria bullying e tive uma fase antissocial. No canal mostro meu lado doido, hiperativo e sem noção.”
A impressão de que qualquer garoto ou garota pode se filmar falando o que quiser, colocar os vídeos no YouTube e atingir milhões de views só faz aumentar a idolatria dos jovens por essas webcelebridades. Para Celso Figueiredo, doutor em comunicação e professor de mídias digitais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a nova geração se identifica porque esses ídolos são atingíveis. “Se eu admiro o Neymar, quais são as chances de eu ser como o Neymar? Se eu admiro a Kéfera, quais são as chances de eu ser como a Kéfera? Para o jovem, parece muito mais fácil ser YouTuber do que jogador de futebol”, diz. Esse foi o raciocínio do paulistano Leo Bacci, 23 anos, que começou a assistir aos YouTubers PC Siqueira (pioneiro entre os vlogueiros brasileiros), Kéfera e Christian Figueiredo e pensou que poderia fazer o mesmo. Os amigos davam risada de suas piadas e elogiavam as imitações, principalmente quando a vítima era a própria mãe. Criou o canal Bom Dia Leo em 2013 e hoje tem mais de 500 mil inscritos. O vídeo mais popular é justamente o que brinca com o dia em que a mãe lhe pediu ajuda para usar o smartphone. Fala muito sobre sexo, já gravou sobre tipos de camisinha e o dia que a menstruação da ex-namorada atrasou. Histórias de baladas e pegação também são constantes. “Trato de situações que fazem parte da vida dos garotos, mas levo para o lado engraçado”, diz.
O bom-humor faz parte de todos os canais de grande sucesso. Os assuntos e brincadeiras normalmente se limitam a amenidades do cotidiano e são claramente feitos para divertir. Não é comum ouvir desses YouTubers análises mais complexas, mesmo porque não é a isso que eles se propõem. Um ponto fora da curva é Julia Tolezano, 24 anos, a Jout Jout, que ficou bastante conhecida com um vídeo sobre relacionamentos abusivos. Ela é a mais popular entre os pós-adolescentes por tratar de temas adultos: trabalho, dinheiro, violência contra a mulher. Já filmou, por exemplo, sobre a pressão vivida por mulheres para terem filhos, entre outros temas da pauta feminista. Mas não é menos bem-humorada por isso. E apesar de seu número de seguidores não a colocar no topo da lista - no YouTube são 600 mil -, faz vídeos que reverberam nas redes. É o que se chama de “influenciadora”. Por saber o peso que suas palavras têm ao chegar ao público, diz tomar cuidado com o que fala para não ofender ninguém. “Tenho medo de fazer algum discurso de ódio que vai criar um desconforto", diz. Fora isso, não tem qualquer limitação sobre temas. “Tem dias que vai ter funk, dancinha, em outros feminismo, estupro, amamentar em público, meu pé... Eu preciso dessa liberdade.”
Com a explosão na web, os YouTubers se tornaram marcas que valem milhões. Kéfera não revela quanto fatura por mês, mas admite já ter comprado um carro e imóveis (assim mesmo, no plural) com o dinheiro que juntou até hoje. Em outubro, o site americano Social Blade chegou a calcular que ela ganha até US$ 98 mil mensais. Grande parte dessa quantia provém de contratos com marcas famosas que pagam para que ela anuncie seus produtos. Jout Jout também faz vídeos pagos, assim como outro ídolo da internet, Lucas Feuerschütte, 25 anos, o Luba. Mas Kéfera ainda é o maior fenômeno entre todos. De um ano para cá, lançou uma autobiografia, o livro “Muito Mais que 5inco Minutos” (Editora Paralela), que já vendeu mais de 300 mil cópias; criou uma loja virtual onde vende produtos com o logo do canal ou desenhos de Vilma Teresa, cachorra pug tão famosa quanto a dona; estrelou a peça “Deixa Eu te Contar”, que teve sessões em diversas capitais brasileiras; e agora deve atuar em pelo menos três filmes, um deles produzido por Daniel Filho, da Globo. Também pretende lançar o segundo livro, produtos licenciados como cadernos e chaveiros com seu rosto estampado e até uma linha de comida congelada saudável. Se você ainda acha que a febre dos YouTubers é só uma onda, é bom estar preparado para um tsunami e começar a acessar os canais das webcelebridades. Essa é a língua da nova geração.
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