quarta-feira, 25 de novembro de 2020

PROCURA-SE PAZUELLO, O ZERO BALA

Ruy Castro, Folha de S.Paulo

Devo estar mal informado, mas, então, o Google também estará. Ao ver ontem o general Eduardo Pazuello sendo chamado a se explicar sobre os 6,8 milhões de testes de Covid mofando num galpão federal em Guarulhos (SP), ocorreu-me que ele é o ministro de Saúde. Ocorreu-me também que, desde que contraiu o vírus —sim, Pazuello pegou a doença, lembra-se?—, mal ouvimos falar dele. E que, sendo o responsável pela saúde de 212 milhões de brasileiros, sua própria saúde é ou deveria ser do interesse nacional.

Pazuello foi diagnosticado com Covid no dia 21 de outubro. Internou-se num hospital de Brasília, onde seu chefe Jair Bolsonaro o visitou expressamente para desmoralizá-lo, desautorizando a sua compra da vacina Coronovac. Pazuello engoliu a ofensa, disse-se “zero bala” e se mudou para um hospital militar. Teve alta no dia 3 seguinte e foi para casa, mas só retomou as “atividades presenciais” no dia 11. Em entrevista, admitiu “ainda não estar completamente recuperado” e atreveu-se a chamar a Covid de “doença complicada”. E, a partir dali, sumiu do noticiário —até ontem. Digitei “Pazuello e Covid” no Google para saber se ele estava mesmo “zero bala”. Nada sobre esse assunto.

Gostaria de saber de Pazuello como foram seus sintomas, doença, tratamento, recuperação e sequelas. Terá sido entubado? É tudo mesmo um horror? Teve medo de morrer? Foi salvo pela cloroquina ou, como diz a ciência, tomá-la ou passá-la nas costas dá na mesma? Como foi, afinal, que pegou o vírus? Era sempre testado? Não acredita em testes?

Claro que, não sendo médico, Pazuello não tem ideia do que lhe aconteceu. E muito menos do que a Covid já fez, faz e ainda fará com o Brasil.

Pazuello nos deve um minucioso relatório pessoal. Afinal, somos nós que pagamos —em solidão, desemprego, falência e vidas humanas— a conta que ele e Bolsonaro estão apresentando ao país.

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PRESSÃO PELA VACINA

Merval Pereira, O GLOBO

O governo, que pensava ter escapado de apresentar um plano de vacinação contra a COVID-19 exigido pelo Tribunal de Contas da União (TCU), alegando questões burocráticas, agora não tem mais desculpas. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski deu um mês, a partir da decisão final do plenário virtual, para que apresente um plano de vacinação que “deve seguir critérios técnicos e científicos pertinentes, assegurada a maior cobertura vacinal possível, no limite de suas capacidades operacionais e orçamentárias”.

Ao que tudo indica, o governo não tem nem mesmo um projeto de plano, pois, ao ser exigido pelo TCU, a Advocacia-Geral da União (AGU) valeu-se de uma alegação tecnocrática para se esquivar de apresentá-lo. Alegou que a decisão do TCU está equivocada, pois o tribunal não deveria ter listado a Casa Civil ao lado do Ministério da Saúde como um dos órgãos responsáveis pelo planejamento da vacinação.

Essa atribuição, de acordo com a AGU, é exclusiva do ministério, e por isso o governo pediu que o Tribunal alterasse a decisão. A AGU alega que seria “uma ingerência da Casa Civil nas competências institucionais próprias do ministério da Saúde”. Essa alegação esdrúxula não foi levada em conta pelo TCU, que deverá se reunir brevemente para rejeitá-la.

Mesmo com o uso do “data venia”, não é aceitável que o governo se escude em uma suposta falha burocrática para deixar de cumprir seu dever, que era o de apresentar um plano detalhado do planejamento para compra, produção e distribuição das doses da vacina. O TCU pedia também informações sobre a logística da vacinação, supostamente uma especialidade do ministro Eduardo Pazzuelo.

As mesmas exigências foram feitas ontem pelo ministro Ricardo Lewandowski, analisando ações de partidos políticos sobre a atuação do governo em relação à vacina Coronavac, do laboratório chinês Sinovac que estará sendo produzida no Brasil pelo Instituto Butantã em São Paulo. Os partidos pedem ainda que o governo seja obrigado a anunciar o plano de vacinação nacional, para obrigá-lo a não vetar a vacina chinesa, que está sendo testada também no Brasil.

Lewandowski deu 30 dias, a partir da decisão do plenário virtual que julgará o caso entre 4 a 11 de dezembro. Se o voto do relator for aprovado pelo plenário, o governo terá, a partir daí, o prazo fixado ontem para apresentar ao STF “um plano compreensivo e detalhado acerca das estratégias que está colocando em prática ou que pretende desenvolver para o enfrentamento da pandemia, discriminando ações, programas, projetos e parcerias”.

O ministro do STF Ricardo Lewandowski ponderou que, diante da possibilidade concreta de que as diversas vacinas, em breve, completarão com sucesso os respectivos ciclos de testes, mostrando-se eficientes e seguras (…) “constitui dever incontornável da União considerar o emprego de todas elas no enfrentamento do surto da Covid-19, não podendo ela descartá-las, no todo ou em parte, salvo se o fizer – e sempre de forma motivada – com base em evidências científicas sobre a sua eficácia, acurácia, efetividade e segurança, bem assim com fundamento em avaliação econômica comparativa dos custos e benefícios”.

Os dois movimentos, do TCU e do STF, destinam-se a obrigar o governo a não se submeter à vontade pessoal do presidente Bolsonaro, que se declarou contrário à compra da vacina desenvolvida na China, mesmo que ela fosse aprovada pela Anvisa, a agência brasileira que controla os medicamentos.

As reações foram tão contundentes que Bolsonaro deixou de insistir no assunto, mas a Anvisa teve uma atuação discutível na suspensão dos testes da vacina devido à morte de um dos vários voluntários brasileiros. O caso, porém, foi de suicídio, e nada tinha a ver com a eficiência da vacina, tanto que em 24 horas os testes foram retomados.

Mesmo assim, Bolsonaro chegou a insinuar que a vacina poderia ter produzido efeitos colaterais que levara o voluntario à morte. Diante de um ministério da Saúde e de uma Anvisa totalmente dominados pelo presidente, os órgãos de controle, como TCU e Supremo, estão exigindo o planejamento para a vacinação em massa, sempre o apoio científico para as decisões.

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A QUADRILHA DESMASCARADA

Marcos Strecker e Iara Lemos, ISTOÉ

No maior golpe sofrido pelo clã Bolsonaro até o momento, o Ministério Público do Rio de Janeiro destrinchou em detalhes acachapantes a organização criminosa chefiada pelo senador Flávio Bolsonaro que desviou recursos públicos na Assembleia Legislativa fluminense. Na prática, colocou a nu um esquema construído ao longo dos anos, com táticas que foram passadas de pai para filho. Segundo o MP, Flávio Bolsonaro usou parte do salário de seus ex-funcionários da Alerj em benefício próprio. A “rachadinha” era praticada em seu antigo gabinete no legislativo fluminense, onde exerceu o mandato entre 2003 e 2019. Composta por mais de 300 páginas, a denúncia apresentada à Justiça no dia 3 aponta que o casal Flávio e Fernanda Bolsonaro adquiriu dois apartamentos pagando em espécie R$ 638 mil. Os promotores ressaltam a predileção pela operação com imóveis e o uso sistemático de dinheiro vivo — na esfera criminal, um indício de lavagem de dinheiro. Demonstram ainda a desproporção entre a evolução patrimonial do senador e suas fontes de renda, sinal de enriquecimento ilícito. Além deles, outras 15 pessoas foram denunciadas à Justiça. O atual chefe de gabinete de Flávio no Senado, Miguel Ângelo Braga Grillo, teve papel determinante. As investigações se arrastaram por dois anos e ganharam peso quando a ex-assessora Luiza Sousa Paes, passou a colaborar com a Justiça e contou que era obrigada a devolver mais de 90% do salário que recebia na Alerj para Fabrício Queiroz, operador do esquema — também denunciado. Foram desviados R$ 6 milhões por meio de 12 funcionários fantasmas.

Queiroz é “Homem de Jair”

Queiroz, mais uma vez, se prova um personagem central. É o homem-bomba, talvez o único capaz de implodir a família Bolsonaro como um todo. Foi “importado” por Flávio para a falcatrua da Alerj, mas sua ligação primordial é com presidente. Queiroz e Bolsonaro são amigos há mais de 40 anos, quando se conheceram no Exército. Pescam juntos, compartilham churrascadas e agem unidos na defesa do grupo. Por essa razão, fala-se nos bastidores em Brasília que Queiroz é um “homem do Jair”. O MP-RJ não pode investigar o mandatário, mas há indícios que o envolvem. É o caso da filha de Queiroz, a personal trainer Nathália Queiroz. A quebra do seu sigilo bancário, autorizada pela Justiça, mostrou que ela transferiu mais de R$ 150 mil para a conta do pai enquanto estava empregada no gabinete de Bolsonaro na Câmara, durante o último mandato que ele exerceu antes de assumir a Presidência. A dinâmica de repasses entre Queiroz e a filha no gabinete de Bolsonaro, portanto, foi a mesma que abasteceu as contas pessoais do filho do presidente.

Quando era funcionária de Flávio, Nathália repassou ao menos 82% de seus vencimentos para Queiroz, segundo o MP-RJ. O ex-PM instaurou no gabinete da Alerj uma mistura explosiva que envolve família, milícias e desvio de recursos. Ela explicaria fatos revelados nos últimos dois anos e que demandam uma manifestação plausível do presidente, ainda que não façam parte da denúncia apresentada pelo MP. Como, por exemplo, o motivo pelo qual Queiroz e sua mulher teriam depositado R$ 89 mil nas contas da primeira-dama Michelle Bolsonaro. Também no círculo familiar, Rogéria Nantes Nunes Braga, ex-mulher do presidente e mãe de Carlos, Flávio e Eduardo, comprou em 1996, com dinheiro vivo, um apartamento no Rio por um valor equivalente hoje a R$ 621,5 mil. A segunda ex-mulher, Ana Cristina Valle, comprou 14 imóveis, parte deles em dinheiro vivo, enquanto foi casada com ele. Nove parentes dela tiveram seus sigilos quebrados no caso de Flávio, e as apurações mostraram que sacaram, em média, 84% dos seus salários. Para os promotores, devolviam parte dos seus proventos para Flávio.

As quebras de sigilo de quatro funcionários de Flávio ainda apontam para um possível esquema ligado a Carlos Bolsonaro na Câmara Municipal do Rio (os dois irmãos trocavam assessores ao longo de seus mandatos). Eles também sacavam integralmente seus salários em espécie quando trabalharam com o “filho 02”, revelando o mesmo modus operandi. Outro componente que deixa a história dos Bolsonaros ainda mais digna de uma rocambulesca novela policial é o envolvimento do ex-capitão da PM Adriano da Nóbrega, chefe da mais antiga milícia do Rio, o Escritório do Crime, responsável por dezenas de homicídios. Fugitivo, ele foi morto em fevereiro último em Esplanada (BA), ao ser alvo de operação das PMs baiana e fluminense. A investigação apontou que foi morto ao resistir à prisão, mas o caso despertou a suspeita de execução. A mãe e a ex-mulher do miliciano também foram denunciadas no esquema, e o MP aponta que ele também participava do esquema. Era outro nome ligado a Queiroz, mas também aos Bolsonaros. Em 2005, enquanto estava preso por um homicídio, Adriano foi condecorado pelo filho do presidente na Alerj. E o presidente já disse que foi o mentor dessa homenagem. Além de Nóbrega, Flávio também esteve ligado a dois milicianos no Rio: os gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira. Eles são irmãos de Valdenice de Oliveira Meliga, a Val Meliga, que era lotada no seu gabinete da Alerj. Ela era tão merecedora da confiança do então deputado estadual que ele entregou a ela a responsabilidade pelas contas da sua campanha ao Senado. Val Meliga assinou cheques em seu nome, como mostrou a ISTOÉ em fevereiro de 2019. É uma das pontas de um intrincado novelo que uniu fragilidades que fustigaram o filho do presidente e seu partido na época, o PSL: além do envolvimento com milícias, o uso de laranjas e expedientes na campanha para fazer retornar aos integrantes do partido o dinheiro do fundo partidário.

Desde 2018, as investigações só aumentam a gravidade do esquema. Na reta final das eleições presidenciais, antes do escândalo estourar, um delegado da PF teria alertado Flávio sobre as investigações. Foi então que Queiroz foi demitido e submergiu, até ser encontrado pela polícia escondido numa casa de Frederick Wassef (SP), ex-advogado de Flávio e do pai. Queiroz é peça-chave para explicar o esquema de rachadinha e como esse dinheiro teria sido lavado pela família Bolsonaro, além de ser a pessoa capaz de ligar o presidente ao caso. Isso explicaria o fato de ele ter sido protegido por um defensor da família. Aí a trama revelou esse novo personagem. Wassef era frequentador do Palácio do Planalto. Entre abril do ano passado e junho deste ano, esteve em 11 oportunidades no Planalto fora da agenda oficial. Sua ex-mulher, Cristina Boner, com quem ainda tem ligação, é dona da Globalweb Outsorcing. Em setembro, o TCU abriu um processo para apurar se a companhia foi beneficiada no governo de Bolsonaro. Só esse ano, ela recebeu R$ 218 milhões. A empresa faz repasses constantes ao advogado.

PGR investiga interferência

Tudo isso não configura apenas um escabroso enredo policial. Há perigosas repercussões institucionais em jogo. Desde que se elegeu, Bolsonaro age para impedir que essa teia de malfeitos seja apurada. Logo nos primeiros meses de governo, ele entrou em atrito com o então ministro Sergio Moro porque desejava interferir na PF fluminense — há uma investigação contra o presidente por causa disso. Depois da saída de Moro, o presidente fez mudanças importantes em cargos da PF na tentativa de mitigar as investigações que cercam a família. As investigações do Coaf foram paralisadas por cinco meses em 2019 pelo ministro Dias Toffoli, então presidente do STF, a pedido de Flávio. O plenário da corte reverteu a decisão, mas o órgão foi novamente atingido. Bolsonaro trocou seu presidente e o transferiu para o BC por meio de uma medida provisória, mudando seu nome. Flávio também tentou usar outros órgãos do governo para barrar as investigações. Por causa disso, a PGR abriu uma ação na quinta-feira, 19, para apurar uma reunião do senador com o ministro do GSI, general Augusto Heleno, e o diretor-geral da Abin, Alexandre Ramagem, que teria o objetivo de produzir provas em favor do filho do presidente. A ideia era encontrar falhas no procedimento da Receita Federal que detectou a rachadinha.

Nomes de confiança do presidente também estão sendo acomodados em órgãos de controle e no Judiciário. Ainda que essas indicações sejam legais, mostram uma perturbadora ação envolvendo instituições que deveriam zelar pelo combate ao crime. O senador Major Olímpio revelou que foi pressionado pelo mandatário e pelo próprio Flávio para retirar o endosso à CPI da Lava Toga, que investigaria malfeitos no Judiciário. Jorge Oliveira, amigo da família Bolsonaro, vai assumir como ministro do TCU. Seu pai, o militar Jorge Francisco, foi chefe de gabinete na Câmara e amigo de Bolsonaro por décadas. O ministro recém-empossado do STF Kassio Nunes Marques foi indicado à corte pelo próprio Flávio. Caberá a ele decidir sobre o benefício que o atual senador conseguiu ao tirar da primeira instância o caso da rachadinha, alegando ter direito ao foro privilegiado.

Não é só na ocupação de cargos estratégicos que o presidente age. Cada vez que as investigações avançam, ele lança cortinas de fumaça e provoca crises. A prioridade de sua gestão é blindar o clã. Mesmo com sua interferência, a marcha das investigações não deve ser interrompida. Má notícia para o filho 01. Se a denúncia for aceita pela Justiça, todos os denunciados vão se tornar réus e as penas podem chegar a 12 anos de prisão. Flávio pode perder o cargo de senador. Há ainda apurações em andamento: sobre mais envolvidos na rachadinha, sobre a lavagem de dinheiro na sua loja de chocolates e sobre sua evolução patrimonial. Tudo isso representa um pesadelo para o presidente. Com o agravamento da pandemia, o fim do auxílio emergencial e a crise fiscal explodindo, terá ainda de lidar com o escândalo que promete implodir sua imagem que foi ligada acidentalmente no passado à Lava Jato.

Vem cá, Luiza

Testemunha-chave do escândalo da rachadinha, a auxiliar Luiza Sousa Paes deu o caminho das pedras do esquemão de Flávio Bolsonaro

Funcionária fantasma de Flávio Bolsonaro, Luiza  Sousa Paes narrou ao MP como repassou a maior parte do seu salário para Fabrício Queiroz: foramR$ 155 mil em cinco anos. Ela ficava com menos de 20% dos seus vencimentos. Também transferia a maior parte da remuneração enquanto foi realocada na TV Alerj e em departamento ligado à presidência da Alerj. Ao ser investigada pelo MP-RJ, teve diálogos com o pai gravados:

“Caraca! Tu viu alguma parte do Jornal Hoje? Bateu direto naquele negócio do Queiroz. Direto isso, a foto dele estampada no Jornal Hoje. Agora deu ruim”.

Durante as diligências, ela foi chamada por Frederick Wassef e orientada a não prestar depoimento:

“Oi, pai. Parece que faltou algum ponto que não está assinado. Só que eu não lembro de ter assinado algum ponto, entendeu?

Eles querem pegar 1 ‘bucha’ que é para ver se desentoca alguma coisa”Seu pai demonstrou preocupação:

“Contanto que te tire disso e esqueça isso de uma vez e a gente possa viver nossa vida normalmente. Ele que invente as estórias dele lá”

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BOLSONARO É O PIOR CORINGA

Marcos Strecker, ISTOÉ

A capa da última edição da ISTOÉ, além de raro poder de síntese e beleza gráfica, captou perfeitamente o espírito do tempo ao retratar o presidente como um insano, inconsequente e irresponsável que está zombando de todos enquanto provoca o caos. Não é por acaso que a revista viralizou, liderou os trending topics do Twitter e virou peça de colecionador. Foi como se os leitores lavassem a alma com a representação mais fiel de Jair Bolsonaro criada até agora.

Nos quadrinhos, o coringa nasceu para criticar o sonho americano reproduzindo o universo expressionista e gótico. Depois, flertou com o “camp” e virou um ícone pop. O pierrô sádico que dá gargalhadas enquanto barbariza já recebeu apelidos como “Príncipe Palhaço do Crime”, “Bobo da Corte do Genocídio” e “Arlequim do Ódio”. Todos muito precisos. Como os vilões são mais interessantes que os heróis, foi interpretado por grandes atores desde os anos 1950. O último, Joaquin Phoenix, subverteu mais uma vez os códigos do personagem. Passou a ser um pária atormentado e assassino em um país que não trata seus doentes nem respeita os que são diferentes.

Ao contrário do “joker”, Bolsonaro não é vítima da sociedade nem causa empatia. Enriqueceu utilizando os benefícios que a sociedade lhe proporcionou

Há uma disputa entre os fãs para saber quem é o melhor intérprete. Phoenix? Jack Nicholson? Heath Ledger? Jared Leto? Já o pior é inquestionável. É o presidente.

Não é que o mandatário seja apenas um mau ator. Lido como um personagem, também tem uma mente perversa orientada para o mal. É que ele não é uma vítima capaz de provocar empatia, como Phoenix o retratou. Ao contrário do “joker”, Bolsonaro não é um produto deturpado de uma sociedade injusta e cruel. Ele é o autêntico oportunista que cresceu e enriqueceu utilizando os benefícios que o sistema lhe proporcionou generosamente, apesar de dizer que vive em um “país de maricas”. Entrou no Exército que valoriza a disciplina até ser expulso por tramar um atentado. Hoje, enxovalha os generais. Para defender privilégios, principalmente da família, ingressou na política, onde sempre integrou partidos fisiológicos. Chegou à presidência em nome da moralidade, para em seguida fazer acordos com investigados e tentar fechar as instituições democráticas. Agora, questiona a própria legitimidade das urnas. É um enredo pobre, mas realista como no filme “Coringa”. Como no longa-metragem, o vilão terá um final trágico e infeliz. Lamentavelmente, até a sociedade acertar contas com ele, provocará ainda mais vítimas inocentes.

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terça-feira, 24 de novembro de 2020

A ARTE DA MENTIRA

José Casado, O GLOBO

É inútil esperar coerência de Jair Bolsonaro. Afinal, ele atravessou as últimas 90 semanas sem se importar com os fatos ou a realidade. Seu compromisso é com a reeleição. E só.

Num encontro virtual de líderes do G-20, sábado, decretou a inexistência de racismo no Brasil. Repetia o cadete 531 da Aman em 1977. Àquela hora, enterrava-se João Alberto Silveira Freitas — “pessoa de cor”, definiu o vice Hamilton Mourão—, assassinado por vigilantes dentro do Carrefour em Porto Alegre. Bolsonaro encontrou nos protestos antirracistas os subversivos de sempre, que tentam “importar para o nosso território tensões alheias à nossa história”.

Viajou a Macapá, onde reluz nova obra da sua imprevidência administrativa: o apagão que inferniza a vida de 800 mil pessoas. Incendiaram-se dois transformadores, e o da reserva está há um ano “em manutenção”. Responsável pela segurança energética, o governo deixou nas trevas 143 mil quilômetros quadrados do território nacional.

Sob a luz do sol, Bolsonaro prometeu um futuro iluminado e abandonou o Amapá antes do breu noturno. Poderia ter esticado o passeio até São Paulo, onde a negligência governamental deixou encalhar quase sete milhões de testes para o novo coronavírus cuja validade vence nos próximos 40 dias, como revelou o repórter Mateus Vargas.

Voltou à cúpula do G-20 se autoelogiando na condução do “gigante pela própria natureza”. Proclamou: “Vamos continuar protegendo nossa Amazônia, nosso Pantanal e todos os nossos biomas”. Omitiu que, até 31 de agosto, o governo só gastou R$ 105,4 mil na execução da política ambiental. Nem falou do plano (PPA 20-23) em que transfere a quase totalidade dos R$ 140 bilhões do orçamento do Meio Ambiente para o Ministério da Agricultura.

Bolsonaro tem compulsão para fantasiar. Em 1988, o vício custou-lhe a exclusão da escola militar. Virou manchete no “Noticiário do Exército” (nº 7449) por “faltar com a verdade e macular a dignidade militar”. Na Presidência, mentiras são mais perigosas. Ocultam o pandemônio governamental, mortífero numa pandemia.

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A FARSA SE ESVAI

Editorial Folha de S.Paulo

A aventura antidemocrática de Donald Trump vai chegando ao fim nos EUA. Decorridas mais de duas semanas da eleição presidencial, vencida de maneira indiscutível por Joe Biden, finalmente teve início formal a transição de governo.

Na segunda-feira (23), a Administração de Serviços Gerais, órgão responsável pelo processo, autorizou a execução dos primeiros protocolos de transferência de poder —movimento que, ao fim e ao cabo, constitui um reconhecimento institucional do triunfo democrata.

Com a decisão, a equipe de Biden ganha o poder de dialogar com as agências federais para coletar informações sobre o governo americano, bem como passa a dispor de um fundo de cerca de US$ 10 milhões destinado ao pagamento de salários e ao apoio administrativo dos novos funcionários.

A demora no início da transição vinha gerando críticas nos EUA, dado o momento delicado vivido pelo país —acossado pelo recrudescimento da Covid-19 e pela crise econômica dela decorrente.

Vozes republicanas e democratas apontavam ainda potenciais prejuízos à segurança nacional, já que o eleito não vinha tendo acesso aos relatórios de inteligência.

Já Trump segue agindo com espírito incendiário. Ainda sem aceitar a derrota, o mandatário persiste numa inglória batalha judicial contra os resultados das urnas. Alega, sem nenhum fiapo de evidência, que o pleito foi fraudado.

A realidade, contudo, vai prevalecendo. Nos últimos dias, uma cascata de eventos tornou ainda mais insustentável sua farsa.

Estados onde os advogados de Trump ainda lutavam por um desfecho favorável confirmaram a vitória de Biden, casos de Michigan e Pensilvânia. Ademais, figuras proeminentes do Partido Republicano têm dado declarações na qual se distanciam da narrativa presidencial e pedem uma transição rápida.

A pressão sobre Trump vai além da esfera política. Mais de cem empresários americanos enviaram uma carta à administração federal exortando-a a facilitar o processo de transferência de poder.

Enquanto isso, a recusa de Jair Bolsonaro em reconhecer a vitória de Biden há muito transcende as habituais estultices presidenciais. Tamanha sabujice só apequena o governo brasileiro e cria desnecessárias tensões diplomáticas com quem Brasília deveria buscar estabelecer pontes de diálogo.

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MORO E A DEFESA DE UM CORRUPTO

Cristina Serra, Folha de S.Paulo

Deve-se ao repórter Rafael Neves, do site The Intercept, a informação de que Sergio Moro foi contratado pelo bilionário israelense da mineração Benjamin Steinmetz. A encomenda para Moro é um parecer jurídico a ser usado pela defesa do empresário, na Justiça britânica, numa disputa contra a brasileira Vale, de quem já foi sócio na Guiné.

O bilionário é acusado de ter corrompido o governo do país africano para obter uma licença de exploração de minério de ferro. Steinmetz também é alvo da Justiça na Suíça (onde já esteve preso), nos Estados Unidos e em Serra Leoa por suspeita de lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, violações de direitos humanos e à legislação ambiental. Ele nega os crimes.

Discretamente, Moro tenta se reconstruir como advogado e recompor o caixa, enquanto se articula para 2022. Como mostrou a série Vaza Jato, do atento The Intercept, ele encarnou a figura do juiz-acusador à frente da Operação Lava Jato, que comandou por mais de quatro anos.

O juiz agiu como parceiro do Ministério Público, desequilibrando a condução da operação do ponto de vista jurídico. Sua máquina de vazamentos seletivos de delações comprometeu a isenção da cobertura jornalística, contribuiu para a demonização da atividade política e abriu caminho, na eleição de 2018, para a ascensão da extrema direita que defende a tortura.

Moro aceitou alegremente ser ministro de Bolsonaro sem ter manifestado incômodo com as graves evidências de ligação da família do chefe com rachadinhas e milicianos. Defendeu política de segurança autoritária e só deixou o governo após ter sido moído por Bolsonaro na disputa pelo controle da Polícia Federal, a joia da coroa do ministério da Justiça.

Para 2022, a variante do bolsonarismo tenta se apresentar com a fantasia do centro político equidistante dos “extremos”. O projeto conta com a lerdeza da Segunda Turma do STF, que não faz o menor esforço para concluir julgamento do pedido de suspeição de Moro como juiz na Lava Jato.

Cristina Serra

Cristina Serra é paraense, jornalista e escritora. É autora dos livros “Tragédia em Mariana - a história do maior desastre ambiental do Brasil” e “A Mata Atlântica e o Mico-Leão-Dourado - uma história de conservação”.

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sexta-feira, 20 de novembro de 2020

TEREZA DE BENGUELA

O dia 25 de julho tem um peso maior, é que, desde 2014 é comemorado o Dia Nacional da Mulher Negra e de Tereza de Benguela.

Teresa é considerada uma heroína por ter defendido seu povo da opressão, por volta de 1750, em Mato Grosso.
Chamada de Rainha Tereza, ela liderou o quilombo Quariterê, próximo a Vila Bela da Santíssima Trindade, em Mato Grosso, na fronteira com a Bolívia.
Uniu negros, brancos e indígenas para defender o território por muitos anos. Foi ela a responsável pelo desenvolvimento do quilombo, implantando novos modelos de desenvolvimento, como o uso do ferro na agricultura.
A rainha chegou a ser comparada a Zumbi dos Palmares, um dos símbolos da resistência negra no país. A data agora é Lei e foi sancionada em 2014, pela presidenta Dilma.
Hoje, 25 de julho também se comemora o Dia Internacional da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha. A data foi instituída em 1992.
A data é um marco na luta da mulher negra contra opressão de gênero, o racismo, exploração de classe. A data dar visibilidade, reconhecimento, e reforça a presença da mulher negra nesse continente.
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QUARTO DE DESPEJO

Hoje, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra o blog Sou Chocolate e Não Desisto faz homenagem a escritora Carolina Maria de Jesus. Negra, moradora de favela, Carolina foi catadora de papel, mãe e escritora. O seu diário foi transformado em livro, o Quarto de Despejo – diário de uma favelada, se tornou um best-seller, sendo traduzido para 13 idiomas e fazendo uma denúncia sócio-política sobre a vida do negro na favela.

O sucesso estrondoso de Quarto de despejo, o livro, motivou Quarto de despejo, o disco. Em 1961, Carolina Maria de Jesus gravou um LP com doze composições, todas de sua autoria. Clique aqui e ouça as 12 faixas.
Carolina Maria de Jesus nasceu em Minas Gerais, em 1914, numa comunidade rural onde seus pais eram meeiros. Filha ilegítima de um homem que já era casado, foi tratada como pária durante toda a infância, e sua personalidade agressiva não fez nada para aliviar a situação.
Quando chegou à idade de sete anos, a mãe de Carolina forçou-a a frequentar a escola depois que a esposa de um rico fazendeiro pagou as despesas para Carolina, bem como outras pobres crianças negras no bairro.
No entanto, ela parou de frequentar a escola pelo segundo ano, mas aprendeu a ler e escrever. Ela mal sabia na época, essas coisas desempenhariam um papel muito importante na sua vida adulta.
A mãe de Carolina tinha dois filhos ilegítimos, o que ocasionou sua expulsão da Igreja Católica enquanto ela ainda era jovem. No entanto, ao longo de sua vida, ela foi uma católica devota, mesmo nunca tendo sido readmitida na Igreja Católica. Em seu diário, ela muitas vezes fez referências bíblicas, e à Deus.
Em 1937 sua mãe morreu e ela foi forçada a migrar para a metrópole de São Paulo. Carolina fez sua própria casa, usando madeira, lata, papelão, e qualquer outra coisa que pudesse encontrar. Ela iria sair todas as noites para coletar papel, a fim de conseguir dinheiro para sustentar a família.
Quando ela encontrava revistas e cadernos antigos, guardava para escrever dentro Ela começou a escrever sobre seu dia-a-dia, sobre como foi morar na favela. Isto irritava seus vizinhos, que não eram alfabetizados, e por isso se sentiam desconfortáveis por vê-la sempre escrevendo, ainda mais sobre eles.
Teve vários casos amorosos quando jovens, embora tenha se recusado a casar-se, por ter visto muita violência doméstica na favela. Ela preferiu permanecer independente. Todos os seus três filhos tinham pais diferentes, um dos quais era um homem rico e branco.
Em seu diário, ela detalha o cotidiano de favelados e, sem rodeios, descreve os fatos políticos e sociais que ordem as suas vidas. Ela escreve sobre como a pobreza e o desespero pode levar as pessoas de alta autoridade moral a comprometer seus princípios, honra, e a si mesmos simplesmente para conseguir comida para si e suas famílias. Não há nenhuma chance de economizar dinheiro, pois quaisquer ganhos extras devem ir imediatamente para pagar dívidas.
O Diário de Carolina Maria de Jesus foi publicado em agosto de 1960. Ela foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, em abril de 1958. Dantas estava cobrindo a abertura de um pequeno parque municipal. Imediatamente após a cerimônia uma gangue de rua chegou e reivindicou a área, perseguindo as crianças.
Dantas viu Carolina de pé na beira do playground gritando "Saia, ou eu vou colocar você em meu livro!" Os intrusos partiram. Dantas perguntou o que ela queria dizer sobre seu livro. Ela se mostrou tímida no início, mas levou-o para seu barraco e mostrou-lhe tudo. Ele pediu uma amostra pequena e correu no jornal. A história de Carolina "eletrizou a cidade" e, em 1960, Quarto de Despejo, foi publicado.
A tiragem inicial de dez mil exemplares se esgotou em uma semana (a wikipédia gringa diz que foras trinta mil cópias vendidas nos primeiros 3 dias). Embora escrito na linguagem simples e deselegante de uma favelada, seu diário foi traduzido para treze idiomas e tornou-se um best-seller na América do Norte e Europa.
Mas não foi somente fama e publicidade que Carolina ganhou com a publicação de seu diário, mas desprezo e hostilidade de seus vizinhos. "Você escreveu coisas ruins sobre mim, você fez pior do que eu fiz", gritou um vizinho bêbado. A chamavam de prostituta negra, que tinha se tornado rica por escrever sobre a favela, mas recusou-se a compartilhar do dinheiro.
Junto com as palavras dos vizinhos cruéis, as pessoas jogavam pedras e penicos cheios nela e em seus filhos. As pessoas também estavam com raiva porque ela se mudou para uma casa de tijolos nos subúrbios com os ganhos iniciais do seu diário. "Vizinhos se juntaram ao redor do caminhão e não deixá-la partir. "Você acha que são de classe alta agora, não você", eles gritavam.
Os vizinhos locais desprezavam mesmo que a alta realização de seu diário aumentou o conhecimento dessas favelas ao redor do mundo. Para vizinhos locais Carolina esta publicação foi uma contusão de seu modo de vida.
Quarto de despejo – diário de uma favelada:  "Eu durmo. E tive um sonho maravilhoso. Sonhei que eu era um anjo. Meu vestido era amplo. Mangas longas cor de rosa. Eu ia da terra para o céu. E pegava as estrelas na mão para contempla-las. Conversar com as estrelas. Elas organizaram um espetáculo para homenagear- me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso. Quando despertei pensei: eu sou tão pobre. Não posso. Ir a um espetáculo, por isso Deus me envia estes sonhos deslumbrantes para minh'alma dolorida. Ao Deus que me protege, envio meus agradecimentos".
Leia mais sobre outras mulheres negras guerreiras que nos enchem de orgulho, entre elas: Benedita da SilvaTereza de Benguela
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MUITO ALÉM DA PRINCESA ISABEL

Da BBC BRASIL

O fim da escravidão no Brasil completa 130 anos em 13 de maio deste ano. Em 1888, a princesa Isabel, filha do imperador do Brasil Pedro 2º, assinou a Lei Áurea, decretando a abolição - sem nenhuma medida de compensação ou apoio aos ex-escravos.
A decisão veio após mais de três séculos de escravidão, que resultaram em 4,9 milhões de africanos traficados para o Brasil, sendo que mais de 600 mil morreram no caminho.
Mas a abolição no Brasil está longe de ter sido uma benevolência da monarquia. Na verdade, foi resultado de diversos fatores, entre eles, o crescimento do movimento abolicionista na década de 1880, cuja força não podia mais ser contida.
Entre as formas de resistência, estavam grandes embates parlamentares, manifestações artísticas, até revoltas e fugas massivas de escravos, que a polícia e o Exército não conseguiam - e, a partir de certo ponto, não queriam - reprimir. Em 1884, quatro anos antes do Brasil, os Estados do Ceará e do Amazonas acabaram com a escravidão, dando ainda mais força para o movimento.
A disputa continuou no pós-libertação, para que novas políticas fossem criadas destinando terras e indenizações aos ex-escravos - o que nunca ocorreu.
Conheça abaixo as histórias de seis brasileiros protagonistas na luta pelo fim da escravidão:
Luís Gama, o ex-escravo que se tornou advogado
Luís Gonzaga Pinto da Gama nasceu em 1830, em Salvador, filho de mãe africana livre e pai branco de origem portuguesa. Quando o menino tinha quatro anos, sua mãe, Luísa, teria participado revolta dos Malês, na Bahia, pelo fim da escravidão.
Uma reviravolta ocorreu quando Gama tinha dez anos: ficou sob cuidados de um amigo do pai, que o vendeu como escravo. O menino "embarcou livre em Salvador e desembarcou escravo no Rio de Janeiro", escreve a socióloga Angela Alonso no livro Flores, Votos e Balas, sobre o movimento abolicionista. Depois, foi levado para São Paulo, onde trabalhou como escravo doméstico. "Aprendi a copeiro, sapateiro, a lavar e a engomar roupa e a costurar", escreveu o baiano.
Aos 17 anos, Gama aprendeu a ler e escrever com um estudante de direito. E reivindicou sua liberdade ao seu proprietário, afinal, nascera livre, livre era.
Em São Paulo, Gama se tornou rábula (advogado autodidata, sem diploma) e criou uma nova forma de ativismo abolicionista: entrava com ações na Justiça para libertar escravos. Calcula-se que tenha ajudado a conseguir a liberdade de cerca de 500 pessoas.
Gama usava diversos argumentos para obter a alforria. O principal deles era que os africanos trazidos ao Brasil depois de 1831 tinham sido escravizados ilegalmente. Isso porque naquele ano foi assinado um tratado de proibição do tráfico de escravos. Mais de 700 mil pessoas tinham entrado no país nessas condições. Apenas em 1850 o tráfico de escravos foi abolido definitivamente.
"As vozes dos abolicionistas têm posto em relevo um fato altamente criminoso e assaz defendido pelas nossas indignas autoridades. A maior parte dos escravos africanos (...) foram importados depois da lei proibitiva do tráfico promulgada em 1831", disse Gama na época.
O advogado ainda entrou com diversos pedidos de habeas corpus para soltar escravos que estavam presos, acusados, sobretudo, de fuga. Ainda trabalhou em ações de liberdade, quando o escravo fazia um pedido judicial para comprar sua própria alforria - o que passou a ser permitido em 1871, em um dos artigos da Lei do Ventre Livre.
Luís Gama morreu em 1882, sem ver a abolição. Seu funeral, em São Paulo, foi seguido por uma multidão. "Quanto galgara Luís Gama, de ex-escravo a morto ilustre, em cujo funeral todas as classes representavam-se. Comércio de porta fechada, bandeira a meio mastro, de tempos em tempos, um discurso; nas sacadas, debruçavam-se tapeçarias, como nas procissões da Semana Santa", relata Alonso.
Na hora do enterro, alguém gritou pedindo que a multidão jurasse sobre o corpo de Gama que não deixaria morrer a ideia pela qual ele combatera. E juraram todos.
Maria Tomásia Figueira Lima, a aristocrata que lutou para adiantar a abolição no Ceará
Filha de uma família tradicional de Sobral (CE), Maria Tomásia foi para Fortaleza depois de se casar com o abolicionista Francisco de Paula de Oliveira Lima. Na capital, tornou-se uma das principais articuladoras do movimento que levou o Estado a decretar a libertação dos escravos quatro anos antes da Lei Áurea.
Segundo o Dicionário de Mulheres do Brasil, ela foi cofundadora e a primeira presidente da Sociedade das Cearenses Libertadoras que, em 1882, reunia 22 mulheres de famílias influentes para argumentar a favor da abolição.
Ao fim de sua primeira reunião, elas mesmas assinaram 12 cartas de alforria e, em seguida, conseguiram que senhores de engenho assinassem mais 72.
As mulheres conseguiram, inclusive, o apoio financeiro do imperador Pedro 2º para a iniciativa. Juntamente com outras sociedades abolicionistas da época, elas organizaram reuniões abertas com a população, promoviam a libertação de escravos em municípios do interior do Ceará e publicavam textos nos jornais pedindo a abolição em toda a província.
Maria Tomásia estava presente na Assembleia Legislativa no dia 25 de março de 1884, quando foi realizado o ato oficial de libertação dos escravos do Ceará, que deu força à campanha abolicionista no país.
André Rebouças, o engenheiro que queria dar terras aos libertos
André Rebouças nasceu na Bahia, em 1838, em uma família negra, livre, e incluída na sociedade imperial. Quando jovem, estudou engenharia e começou a trabalhar na área. Foi responsável por diversas obras de engenharia importantes no país, como a estrada de ferro que liga Curitiba ao porto de Paranaguá. Conquistou posição social e respeito na corte. A Avenida Rebouças, importante via em São Paulo, é uma homenagem a André e a seu irmão Antonio, também engenheiro.
Em uma das obras de que participou, outro engenheiro pediu que Rebouças libertasse o escravo Chico, que era operário e tinha sido responsável pelos trabalhos hidráulicos. "Foi quando sua atenção recaiu sobre o assunto", escreve Angela Alonso, também em Flores, Votos e Balas. Chico foi, então, libertado.
"Sou abolicionista de coração. Não me acusa a consciência ter deixado uma só ocasião de fazer propaganda para a abolição dos escravos, e espero em Deus não morrer sem ter dado ao meu país as mais exuberantes provas da minha dedicação à santa causa da emancipação", discursou certa vez Rebouças, na presença do imperador Pedro 2º.
Na década de 1870, Rebouças se engajou na campanha pelo fim da escravidão. Participou de diversas sociedades abolicionistas e acabou se tornando um dos principais articuladores do movimento. Um de seus papéis foi fazer lobby - uma ponte entre os abolicionistas da elite e as instituições políticas, para quem executava obras de engenharia.
As ideias de Rebouças incluíam não apenas o fim da escravidão. Ele propunha que os libertos tivessem acesso à terra e a direitos, para serem integrados, não marginalizados. "É preciso dar terra ao negro. A escravidão é um crime. O latifúndio é uma atrocidade. (...) Não há comunismo na minha nacionalização do solo. É pura e simplesmente democracia rural", proclamou Rebouças.
O engenheiro também se opunha ao pagamento de indenização para os senhores de escravos em troca da liberdade - para Rebouças, isso seria uma forma de validar que uma pessoa fosse propriedade da outra.
Apoiador da monarquia e da família real brasileira, Rebouças foi ainda um dos responsáveis pela exaltação da Princesa Isabel como patrona da abolição.
Adelina, a charuteira que atuava como 'espiã'
Filha bastarda e escrava do próprio pai, Adelina passou a vender charutos que ele produzia nas ruas e estabelecimentos comerciais de São Luís (MA). Suas datas de nascimento e morte não são conhecidas. Seu sobrenome, também não.
Como escrava criada na casa grande, Adelina aprendeu a ler e escrever. Trabalhando nas ruas, assistia a discursos de abolicionistas e decidiu se envolver na causa.
De acordo com o Dicionário da Escravidão Negra no Brasil, de Clóvis Moura (Edusp), Adelina enviava à associação Clube dos Mortos - que escondia escravos e promovia sua fuga - informações que conseguia sobre ações policiais e estratégias dos escravistas.
Aos 17 anos, Adelina seria alforriada, segundo a promessa que seu senhor fez a sua mãe. Mas, segundo o Dicionário, isso não aconteceu.
Dragão do Mar, o jangadeiro que se recusou a transportar escravos para os navios
O jangadeiro e prático (condutor de embarcações) Francisco José do Nascimento (1839-1914), um homem pardo conhecido como Dragão do Mar, foi membro do Movimento Abolicionista Cearense, um dos principais da província, a primeira do Brasil a abolir a escravidão.
Em 1881, o Dragão do Mar comandou, em Fortaleza, uma greve de jangadeiros que transportavam os negros e negras escravizados para navios que iriam para outros Estados do Nordeste e para o Sul do Brasil. O movimento conseguiu paralisar o tráfico negreiro por alguns dias.
. Com o comércio de escravizados impedido nas praias do Ceará, Nascimento foi exonerado do cargo, segundo o registro de Clóvis Moura. E se tornou símbolo da batalha pela libertação dos escravos.
Depois da abolição, ele tornou-se Major Ajudante de Ordens do Secretário Geral do Comando Superior da Guarda Nacional do Estado do Ceará e morreu como primeiro-tenente honorário da Armada, em 1914.
Maria Firmina dos Reis, a primeira escritora abolicionista
A maranhense Maria Firmina (1825-1917) era negra e livre, "filha bastarda", mas formou-se professora primária e publicou, em 1859, o que é considerado por alguns historiadores o primeiro romance abolicionista do Brasil, Úrsula. O livro conta a história de um triângulo amoroso, mas três dos principais personagens são negros que questionam o sistema escravocrata.
A escritora assinava o livro apenas como "Uma maranhense", um expediente comum entre mulheres da época que se aventuravam no mercado editorial, e só agora começa a ser descoberto pelas universidades, segundo a professora de literatura brasileira da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Constância Lima Duarte.
Maria Firmina também publicava contos, poemas e artigos sobre a escravidão em revistas de denúncia no Maranhão.
De acordo com o Dicionário de Mulheres do Brasil: de 1500 Até a Atualidade (Ed. Zahar), ela criou, aos 55 anos de idade, uma escola gratuita e mista para crianças pobres, na qual lecionava. Maria Firmina morreu aos 92 anos, na casa de uma amiga que havia sido escrava.
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PERSONALIDADES NEGRAS MARCANTES

Do UOL

Fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL), advogado autodidata que defendeu mais de 500 escravos e o líder do movimento em favor das liberdades civis dos negros nos Estados Unidos. Os legados de heróis negros como Machado de Assis, Luís Gama e Martin Luther King, respectivamente, merecem ser lembrados neste Dia da Consciência Negra.
Eles e tantas outras personalidades negras continuam a inspirar quem busca se superar, à revelia do preconceito social e de raça. Confira a história resumida de homens e mulheres negras considerados como exemplos na cultura, na política e até na geografia.
Patrono da cadeira nº 15 da Academia Paulista de Letras, Luís Gama (1830-1882) atuou como poeta, advogado e jornalista. Filho de Luiza Mahin, uma das principais figuras da Revolta dos Malês, com um fidalgo branco de origem portuguesa, foi vendido como escravo pelo próprio pai, aos 10 anos. Em 1848, Gama fugiu, pois sabia que sua situação era ilegal, já que era filho de mãe livre. Autodidata, tornou-se advogado e iniciou suas atividades contra a escravidão, conseguindo libertar mais de 500 escravos.
Foi o grande líder do quilombo dos Palmares, comunidade livre formada por escravos fugitivos, localizado na serra da Barriga (AL). O quilombo dos Palmares foi defendido no século 17 durante anos por Zumbi (1665-1695) contra as expedições militares que pretendiam trazer os negros fugidos novamente para a escravidão. Em 2003, a data da morte de Zumbi dos Palmares, 20 de novembro, foi escolhida para ser o Dia da Consciência Negra.
Rosa Parks (1913-2005) foi símbolo do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Em 1º de dezembro de 1955, a costureira americana se negou a ceder seu lugar a um homem branco em um ônibus em Montgomery (Alabama), onde regiam leis de segregação racial.
Nelson Mandela (1918-2013) foi um líder rebelde e, posteriormente, presidente da África do Sul de 1994 a 1999. Seu nome verdadeiro é Rolihlahla Madiba Mandela. Principal representante do movimento contra o apartheid, considerado pelo povo um guerreiro em luta pela liberdade, era tido pelo governo sul-africano como um terrorista e passou quase três décadas na cadeia. Mandela e o Frederik de Klerk, que também foi presidente da África do Sul, dividiram o Prêmio Nobel da Paz, em 1993.
"Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados pelo caráter, e não pela cor da pele." Este é um trecho do famoso discurso de Martin Luther King (1929-1968) em Washington (EUA), pronunciado em 28 de agosto de 1963. Das manifestações contra a segregação racial, lideradas por King, nasceram a Lei dos Direitos Civis, de 1964, e a Lei dos Direitos de Voto, de 1965. Ganhador do Prêmio Nobel da Paz, o pastor seguia a linha de Mahatma Gandhi de defender os direitos civis por vias pacíficas. Em abril de 1968, foi assassinado a tiros por um opositor.
Político norte-americano, Barack Hussein Obama Jr., eleito presidente dos Estados Unidos em novembro de 2008, é o primeiro negro a conquistar o comando do país. Obama, 55, termina o segundo mandato neste ano com atos marcantes como a retomada das relações diplomáticas com Cuba, a reforma do sistema de saúde nos EUA e a legalização do casamento gay.
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VIVA BENEDITA DA SILVA !

No Dia da Consciência Negra, o blog Sou Chocolate e Não Desisto faz uma homenagem a Benedita da Silva, sinônimo de superação e persistência.

Ela é guerreira e sempre combateu a desigualdade racial, a violência, a injustiça social – na adolescência foi vítima de estupro – e qualquer forma de preconceito neste país.

Benedita é protagonista de uma saga de dar inveja a roteirista de cinema. Filha de lavadeira, sua família de quinze irmãos, dos quais conheceu oito. Benedita trabalhou como engraxate, camelô, doméstica e vendedora de pastel.

Viúva duas vezes, teve quatro filhos, dois morreram, um deles foi enterrado como indigente. Apesar de hoje ser o principal nome do PT no Rio de Janeiro, sabe que seu maior feito foi ter sobrevivido a um destino que tinha sinais de fracasso. Atualmente é casada com o ator Antônio Pitanga.

Fadada ao destino reservado a muitas mulheres negras e faveladas desse país, Benedita da Silva enfrentou as adversidades da vida e contornou todas como as águas de um rio diante de obstáculos.

A menina da favela, negra e pobre jamais tinha chegado perto do poder, o lugar mais próximo tinha sido a porta dos fundos do apartamento de Juscelino Kubitschek, onde entregava as roupas da família do ex-presidente, lavadas pela mãe.

Em 1982, Benedita da Silva é eleita vereadora no Rio de Janeiro e começa a trajetória singular na história da política brasileira. De lá para cá, Benedita subiu mais patamares na carreira política.

Foi deputado federal, senadora, vice-governadora, governadora, ministra da Promoção e Ação Social no governo Lula, secretária de Ação Social e Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro no governo Sérgio Cabral e atualmente está deputada federal em seu terceiro mandato.

Viva a Benedita da Silva! Viva o Dia da Consciência Negra!

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O ADVOGADO DOS ESCRAVOS

Luiz Gama foi um personagem tão extraordinário quanto complexo, a começar por suas qualificações: abolicionista, republicano, poeta, advogado, jornalista e maçom. Pertenceu a uma geração que preparou a derrocada do Segundo Império no Brasil, no século XIX. Com a pena e a oratória, embrenhou-se na luta contra os conflitos da época, tais como as relações entre Igreja e Estado, Monarquia e República, raça e nação. Tomava o partido das causas libertárias e havia um sentido pessoal nessa escolha: Gama foi escravo, que tinha sido vendido por seu pai quando criança. Quase adulto, conseguiu conquistar a liberdade. Autodidata, extraiu de sua dramática e épica história de vida força e obstinação para libertar mais de 500 escravos.

Esse personagem batiza logradouros por todo o país, sobretudo em São Paulo, onde foi maior a sua atuação, mas ainda é pouco conhecido. Conhecê-lo, estudá-lo e iluminá-lo tem sido uma tarefa de pesquisadores como Ligia Fonseca Ferreira, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Autora de uma tese de doutorado sobre a vida e obra do ex-escravo defendida na Universidade de Paris III – Sorbonne Nouvelle, Ligia é negra e assume a responsabilidade de estudar um personagem com quem guarda relações mais complexas que a de um pesquisador neutro diante de seu objeto. “Às vezes, minimiza-se, quando não se invisibiliza, o trabalho dos pesquisadores negros a respeito de personagens históricas negras que afirmaram esta condição”, afirma.

A contribuição de Ligia para a compreensão de Luiz Gama é ímpar. Ela organizou a reedição crítica das Primeiras trovas burlescas & outros poemas de Luiz Gama(Martins Fontes, 2000) e Com a palavra, Luiz Gama. Poemas, artigos, cartas, máximas (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2011). De formação em letras, com ênfase na área de língua e literatura francesa, Ligia tomou conhecimento do abolicionista quando realizava pesquisa na Sorbonne sobre a literatura negra no Brasil entre 1987 e 1988. Gama era ninguém menos que o pioneiro. Mas diante da fragmentada documentação sobre o poeta, e já mirando um doutorado, a solução foi percorrer bibliotecas, centros de estudos e até sebos de livros. O que encontrou não foi pouco.

As Primeiras trovas burlescas de Getulino foram publicadas em 1859, em São Paulo, àquela altura uma província de poucos leitores, escassos escritores e parcas tipografias e livrarias. O livro continha 22 poemas de sua autoria e três do político e professor de direito José Bonifácio, o Moço. A escolha do pseudônimo “Getulino”, derivado de “Getúlia”, território do norte da África, já indicava o posicionamento de um autor de origem africana, adentrando o restrito círculo de letrados, privilégio de brancos. Dois anos mais tarde, ele reedita a obra no Rio, na mesma gráfica que imprimia romances de José de Alencar. Na segunda edição, “correcta e augmentada”, publicou 39 poemas, dos quais 20 inéditos.

No Brasil escravocrata, escrever e ser lido eram duas formas de se manter próximo do poder. Procure se colocar no lugar de um ex-escravo, no início dos anos 1860. Imagine então usar seus escritos para satirizar os políticos e os costumes, parodiar as instituições arcaicas, criticar os “doutores” e trazer à tona os temas da corrupção, do preconceito racial, do embranquecimento dos mulatos que renegavam as raízes e do anticlericalismo. Segundo a pesquisadora, Luiz Gama fez isso com essa obra. Ao publicar em 2000 uma versão compilada com a produção poética integral do abolicionista, Ligia abriu um frutífero campo de estudos.

Luiz Gama nasceu em 21 de junho de 1830 em Salvador, filho de uma africana livre, a “altiva” Luiza Mahin, e de um fidalgo de origem portuguesa e membro de uma importante família baiana. O abolicionista jamais revelou o nome do pai que o vendeu como escravo. Foi entregue ao negociante e contrabandista Antônio Pereira Cardoso, que, sem conseguir revendê-lo, acabou ficando com o garoto de 10 anos. Gama aprendeu a ser copeiro, sapateiro, a lavar e engomar, e a costurar. Sete anos mais tarde, conviveu com o estudante Antônio Rodrigues do Prado Junior, que lhe ensinou as primeiras letras. Em 1848, “havendo obtido de forma ardilosa e secretamente provas inconcussas de sua liberdade”, segundo seu próprio relato, foge da casa de Cardoso.

Apenas dois anos antes de sua morte, em 25 de julho de 1880, Luiz Gama envia carta a Lúcio de Mendonça, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, revelando fatos inéditos de sua biografia. Ligia encontrou esse documento na Biblioteca Nacional, no Rio. “É um dos poucos relatos da vida de um ex-escravo no Brasil. Na história dos negros e das letras brasileiras, não há equivalentes das memórias de escravos, tão frequentes nos Estados Unidos”, diz. Esse texto é fundamental para compreender como Gama se tornou uma voz influente nos movimentos abolicionista e republicano.

A esse documento se soma uma carta anterior, de 26 de novembro de 1870, também na Biblioteca Nacional e publicada por Ligia no livro Com a palavra, Luiz Gama. Poemas, artigos, cartas, máximas – obra que traz uma seleção de mais de 40 textos de Gama, vários inéditos, e também cerca de 30 ilustrações, além de seis ensaios da autora. O destinatário da carta era José Carlos Rodrigues, fundador de O Novo Mundo, primeiro periódico em português publicado nos Estados Unidos. O abolicionista fala sobre o movimento republicano no Brasil e sobre a loja maçônica América, fundada por ele e um grupo de liberais que contava, entre seus membros notáveis, com Rui Barbosa e Joaquim Nabuco. “Asseguro-te que o partido republicano, graças à divina inépcia do sr. D. Pedro II, organiza-se seriamente em todo o império”, escreveu. Mas, segundo Ligia, defendia que a instauração de uma República deveria vir acompanhada da Abolição. A convicção era tamanha que ele abandonou a Convenção de Itu (1873), ao encontrar cafeicultores contrários à emancipação dos escravos na fundação do Partido Republicano Paulista.

Naquele momento, Luiz Gama já era uma personalidade. Em 1864, havia fundado, ao lado do caricaturista italiano Angelo Agostini, o Diabo Coxo, primeiro periódico humorístico ilustrado da capital paulista. Dois anos depois, colaborou no semanário Cabrião, também com Agostini e Américo de Campos. Em polêmicos artigos, criticava com veemência o regime escravocrata e passava a sofrer perseguições políticas. Sua ira se voltava contra o uso abusivo do Poder Moderador e o próprio imperador dom Pedro II, cuja imagem havia sido abalada na Guerra do Paraguai (1864-1870).

Em 1869, Luiz Gama obteve autorização para exercer a profissão de advogado em primeira instância, mesmo ano em que funda o Clube Radical Paulistano com outros membros da Loja América. Com sólidos argumentos, Gama revela a fragilidade do sistema judiciário. De acordo com a pesquisadora, além das críticas, tratou de inovar no plano jurídico, como quando desenterrou a Lei de 7 de novembro de 1831, que extinguiu o tráfico negreiro, para conseguir libertar africanos comercializados depois dessa data. Em um processo de 1869, entrou em choque com um dos principais juízes da capital, Rego Freitas, a quem exigiu que “respeita[sse] o direito e cumpri[sse] seu dever, para o que é pago com o suor da nação”. O discurso de Gama continua atualíssimo.

Foi também proprietário e redator do semanário político e satírico O Polichinelo(1876). A imprensa e a maçonaria foram fundamentais para o ativismo de Gama, porque lhe franquearam espaço para defender os ideais republicanos e o apoiaram na libertação dos escravos. No século XIX havia outros negros abolicionistas, como os jornalistas Ferreira de Menezes e José do Patrocínio ou o engenheiro André Rebouças, mas nenhum deles vivenciou o drama da escravidão. Pode-se comparar o brasileiro só a abolicionistas americanos, como os ativistas Frederick Douglass, autor de The life of an american slave (1845), ou Booker T. Washington, autor de Up from slavery (1901).

Gama manifestava admiração pelos Estados Unidos, para ele “o farol da democracia universal”. Um modelo exemplar: república federativa, de cidadãos livres e iguais, e ancorada nos ideais iluministas da liberdade, igualdade e fraternidade. Incomodava ao abolicionista o fato de que o Brasil se mantinha como única monarquia das Américas e última nação escravagista do Ocidente. A pesquisadora não deixa de questionar, no artigo “Representações da América nos escritos de Luiz Gama”, a ser publicado na Revista de Estudos Afroasiáticos, a ausência de alusões por parte de Gama aos conflitos raciais e à segregação dos negros nos Estados Unidos pós-escravista.

Ligia chama atenção para o fato de ele jamais ter mencionado Joaquim Nabuco em seus escritos, numa recíproca quase verdadeira. Isso decorreria do fato de que o também líder na luta antiescravista era filho de Nabuco de Araújo, ex-presidente da província de São Paulo e denunciado por Gama por sua conivência com a escravização ilegal de africanos. Gama, provavelmente cansado de esperar pela libertação dos africanos, defendia a incitação de um movimento popular, já que, para ele, se a insurreição é um “crime”, a “resistência” afigura-se como “virtude cívica”. Já Joaquim Nabuco estava convencido de que a Abolição deveria ser feita pela via parlamentar.

Luiz Gama morreu em 1882, antes de testemunhar a libertação dos escravos e o fim do Império. Para a pesquisadora, ele foi poupado de ver a República nascer de um golpe militar, constatar que os ideais de igualdade entre os homens não foram aplicados e que a campanha imigrantista tinha, entre seus propósitos, embranquecer o Brasil para eliminar os traços da estigmatizada e incômoda presença africana no país.

Por Eduardo Nunomura, publicado na revista Fapesp

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terça-feira, 17 de novembro de 2020

CHEGA DE MALUQUICE, DISSERAM AS URNAS

Helena Chagas, OS DIVERGENTES

O recado inequívoco do eleitor neste domingo foi um “NÃO” a Jair Bolsonaro, seus radicais e terraplanistas. Chega de maluquice, disseram as urnas, ao escolher ou levar para o segundo turno políticos tradicionais, gente de esquerda e de centro. Isso não quer dizer que a mensagem será a mesma em 2022, dada a volatilidade da política. Mas o mapa até aqui desenhado traz um presidente da República mais fraco diante do avanço da oposição e  das forças de centro-direta não bolsonaristas, como DEM e o PSDB. No outro lado da moeda, terá que enfrentar o fortalecimento dos aliados do Centrão, com sua faca reluzente, que se preparam para encostar em seu pescoço.

Em dois anos, o discurso do “novo” e da antipolítica que elegeram Bolsonaro e um contingente de neófitos em 2018 se esfarelou diante da constatação de que, em boa parte dos casos, não passava de um embuste. O radicalismo bolsonarista, as bobagens de seus lunáticos e, mais recentemente, o comportamento diante da pandemia assustaram muita gente. A Covid-19 foi, sim, importante eleitora para prefeitos que estavam no cargo e fizeram o mínimo razoável para combatê-la.

A sem-gracice de candidatos e partidos tradicionais, em suas legendas surradas,  trouxe ao eleitor o conforto de chinelos velhos para pés machucados e cansados. Melhor isso do que a montanha russa de emoções negativas vividas nos últimos tempos. O DEM, o PSD, o MDB e outros recuperaram parte de um charme que ninguém imaginava ainda possuírem.

De outro lado, as esquerdas cresceram com nomes que, ao mesmo tempo,  são novos mas que já tinham sido testados na política. Guilherme Boulos (PSOL) em São Paulo, Manuela D’Ávila (PCdoB) em Porto Alegre, Marília Arraes (PT) no Recife. Boulos foi o grande fenômeno da temporada e, perdendo ou ganhando, já alçou o PSOl à condição de partido competitivo.

Parte da mídia e setores conservadores cantam uma derrota do PT, mas, embora tenha ficado claro que sua hegemonia nesse campo ficou em xeque, o partido ainda disputa o segundo turno em 15 das maiores cidades do país — das quais não tem nenhuma hoje. Benedita da Silva teve mais votos no Rio do que indicaram as pesquisas, assim como Marília no Recife. Se tiverem aprendido a lição depois de levar bomba em São Paulo e outros lugares, os petistas começam hoje mesmo a conversar com Psol e outros sobre alianças mais duradouras, que cheguem a 2022.

Além da campanha de segundo turno, que vai dar dar o arremate nessa costura, as atenções se dirigem hoje para as condições de governabilidade de Bolsonaro a partir de agora. Ficou claro que a desidratação do bolsonarismo raiz faz crescer no governo a força do pouco confiável Centrão, que parece ser o que lhe resta. O passaporte para 2022, porém, não está carimbado. Ex-aliados de direita e centro-direita saíram da eleição mais do que animados para articular uma candidatura presidencial alternativa, continuando conversar com Luciano Huck, João Doria e, menos provável mas não impossível, Sergio Moro.  A chapa ficou quente para Bolsonaro.

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segunda-feira, 16 de novembro de 2020

MENOS SANTA DO QUE DIZ SER

Antonio Carlos Prado e Mariana Ferrari, ISTOÉ

Como cidadã e ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves tem o direito de ser contra o aborto. Mas, também enquanto cidadã e ministra, ela não tem o direito de impedir que outro ser humano se valha de leis que vigoram no País — e, se assim o fez, Damares praticou um ato gravemente ilegal. Esse é o motivo — e espera-se que seja o real motivo e não apenas mise-em-scène para bajular governo e congressistas — que levou a Procuradoria-Geral da República (PGR) a abrir “uma investigação preliminar” contra a ministra: o Ministério Público quer saber se ela de fato tentou intervir com o peso de seu cargo visando a impedir que uma menina de dez anos abortasse, grávida que estava em decorrência de sistemáticos estupros praticados pelo tio. “Existem fortes indícios de que Damares Alves constrangeu a criança e seus familiares. E para alcançar seus objetivos utilizou, absurdamente, cargo público para oferecer benefícios”, diz o jurista Ariel de Castro Alves, um dos mais conceituados especialistas do País em direito da infância e juventude. O procurador-geral, Augusto Aras, já comunicou ao Supremo Tribunal Federal: se os indícios apontarem para a necessidade de uma apuração mais detalhada da conduta de Damares, será formalmente instaurado inquérito. A relatora do caso será a ministra Rosa Weber.

A legislação penal brasileira permite que a mulher interrompa a gravidez em caso de violação sexual, e, mesmo quando se trata de menor de idade, a vontade da criança é levada em consideração pela Justiça (os responsáveis pela guarda da menor também são ouvidos). A garotinha em questão vivia na pequenina cidade capixaba de São Mateus e foi barbaramente violentada ao longo de quatro anos, até que o crime acabou descoberto em agosto último. Dá para qualquer pessoa dotada de sentimento de empatia colocar-se no lugar dessa criança e entender o seu drama de desmoronamento físico e psicológico. Alguém de dez anos se tornar mãe já é totalmente não recomendado (as chamadas “mães menininhas”), imagine-se então quando a gestação decorre de brutal e estúpida relação não consentida.

Crime de responsabilidade?

Pois bem, Damares Alves, alegando motivos religiosos (que são opções feitas por ela mas que não podem ser confundidas com a racionalidade do Estado laico), teria preferido atuar nos bastidores, na base da carteirada, seguindo o princípio bolsonarista de que todo e qualquer assunto tem de ser ideologizado para dar corda aos oportunistas desejos do presidente da República. Mais: segundo notícias veiculadas à época, fora tão estridente a movimentação da equipe que ela enviou ao Espírito Santo, para barrar o aborto autorizado pela Justiça a pedido da vítima, que se teria chegado ao ponto da chantagem: desista-se de interromper a gravidez e sobrarão recompensas a familiares e ao conselho tutelar. Houve reuniões e, de uma delas, a ministra teria participado por meio de videochamada. Ninguém cedeu à tentativa de sedução. Pressionados, os médicos de Vitória se recusaram a fazer o aborto, e a menina acabou sendo levada para o Recife, onde realizou-se sem intercorrências clínicas o procedimento requerido por ela.

A ministra Damares vem sempre se defendendo sob a alegação de que foi ela quem tomou a iniciativa e pediu à Polícia Federal para investigar o caso. Se tal alegação proceder, Damares nada mais fez que cumprir o seu dever funcional. Quanto ao procedimento preliminar da Procuradoria-Geral da República, acolhendo reivindicação de uma comissão de parlamentares de diversos partidos, frise-se, mais uma vez, que, se Damares tentou forçar a continuação da gestação, cometeu ela grave crime de responsabilidade — o que não é nada inédito nesse governo. O Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos se pronunciou em nota, afirmando que “trata o caso com absoluta transparência e enxerga a situação com total tranquilidade”. Ariel de Castro Alves faz um importante alerta: “Precisa ser investigado, também, quem repassou informações para as redes sociais, incitando a violência contra a criança e a equipe médica. Isso foi um crime que segue impune”.

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SABOTAGEM OBSCURANTISTA

Vicente Vilardaga, Anna França e Iara Lemos, ISTOÉ

A Anvisa permitiu que se criasse um clima de terror em torno de um suposto efeito adverso grave do imunizante em um voluntário dos testes clínicos de 32 anos, acompanhado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, que morreu em São Paulo. A questão é que ele se suicidou e sua morte não tem a ver com os testes. E Bolsonaro, num evidente esforço manipulador, aproveitou a notícia, tratou de espezinhar a vacina e levou sua disputa política com o governador paulista João Doria para o nível da insanidade. No dia seguinte à interrupção, diante do clamor popular e da recomendação expressa do Comitê Internacional Independente, que analisa os estudos da Coronavac e da Comissão Nacional de Ética em pesquisa, a Anvisa voltou atrás e autorizou a retomada dos testes, mas o estrago estava feito.

Em meio a uma pandemia que ceifou a vida de 164 mil brasileiros até agora, perdeu-se um tempo precioso com informações deturpadas e incompletas, que multiplicam a insegurança e a incerteza na sociedade. A confusão criada pelo presidente teve um efeito desestabilizador, deu munição para os negacionistas e visou reforçar o preconceito contra a vacina chinesa. Além disso, assustou potenciais voluntários em participar dos ensaios clínicos da Coronavac no Brasil e colocou o sistema de vigilância sanitária sob suspeita. A tensão cresceu tanto que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, deu um prazo de 48 horas para a Anvisa explicar os critérios de estudos da Coronavac. Mandou também a agência informar o estágio de aprovação de todas as vacinas sob sua análise.

Defesa ideológica

“Morte, invalidez, anomalia. Essa é a vacina que o Doria queria obrigar todos os paulistanos a tomar. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”, afirmou Bolsonaro pelo Twitter para comemorar a suspensão dos testes e atacar o governador de São Paulo, como se a saúde das pessoas fosse um grande jogo e a eliminação de uma esperança de cura lhe deixasse satisfeito. O objetivo específico de Bolsonaro é desacreditar Doria e, para isso, converteu a Anvisa, dirigida por seu amigo e aliado ideológico, o almirante Antônio Barra Torres, em puxadinho do governo. “Bolsonaro não pode transformar a Anvisa em agência nacional da defesa ideológica”, disse Doria com exclusividade à ISTOÉ.

Em nenhum outro país em que a Coronavac vem sendo testada houve qualquer problema até agora ou alguma desaprovação. Aqui, porém, a estratégia de comunicação da Anvisa, que, como aconteceu com o Ministério da Saúde, está sendo ocupada por militares, e a desfaçatez do presidente transformaram uma questão técnica que poderia ser resolvida com um simples diálogo em um problema político de grandes proporções. Na quinta-feira 13, o governo anunciou a nomeação de mais um oficial para a diretoria da agência, o tenente-coronel do Exército Jorge Luiz Kormann.“A politização da ciência atrapalha demais o avanço das pesquisas”, afirmou a microbiologista da USP Natalia Pasternak. “Todas as vacinas serão necessárias e a Coronavac é tão promissora quanto as outras que estão sendo estudadas”.

Colocado em xeque após suspender o estudo da vacina e ver sua ação sendo usada politicamente por Bolsonaro, Barra Torres alegou que recebeu, segunda-feira, o comunicado da ocorrência de um evento grave do Instituto Butantan, mas sem informações sobre a causa do óbito. Nesse momento, explicou, a área técnica do órgão, assim como fez anteriormente com pesquisas da AstraZeneca e da Janssen-Cilag, suspendeu os testes a fim de verificar o que tinha ocorrido. “A suspensão sempre é feita após discussões de um colegiado, diante da insuficiência de informações sobre um evento adverso grave e não esperado”, explicou Barra Torres, acrescentando que a Anvisa não pode ficar sabendo que houve algum problema e não fazer nada e reforçando o caráter técnico da decisão do órgão de interromper os testes.

O Instituto Butantan, porém, que desenvolve a vacina junto com o laboratório chinês Sinovac, informou que, desde o dia 6, havia comunicado a agência sobre a causa do óbito. “Não havia a menor possibilidade do paciente ter morrido por causa de um efeito adverso grave da Coronavac”, disse, surpreso, o diretor-presidente do Butantan, Dimas Covas. “Suspenderam o estudo, causaram medo nas pessoas, fomentaram um ambiente que já não é muito propício ao fato de essa vacina ser feita em associação com a China. Fomentar isso a troco de quê? Não seria mais justo ligar e falar que uma reunião estava marcada para esclarecer isso. Não seria mais justo, ético e compreensível?”, perguntou. Bolsonaro e Barra Torres, que divulgou para a imprensa a decisão de interromper os testes no horário do Jornal Nacional sem avisar o Instituto Butantan com antecedência, deveriam responder.

Unidade política

O infectologista e especialista em saúde pública Hélio Bacha viu com grande preocupação a suspensão dos estudos da Coronavac pela Anvisa, ainda que por um só dia. Para ele, a vacina é a grande arma estratégica para se controlar uma pandemia no mundo e para se ter vacina é preciso que haja transparência e, principalmente, unidade política, com vontade de se conseguir algo eficaz para imunizar a população. “O desenvolvimento de vacinas é uma ação ousada dos laboratórios, em termos de investimento em uma coisa que pode ou não dar certo”, afirmou. “Por isso, temos de aplaudir todas as iniciativas, porque apenas uma vacina não vai viabilizar a imunização ao mundo inteiro”. Bacha disse também que é preciso levar em conta que o Butantan sempre foi muito ético e sério em tudo que faz. “Espero que não haja ingerência na Anvisa porque é um órgão de Estado e não de governos. O critério sempre foi técnico e seria muito estranho que mudasse agora”, completou.

Para o médico infectologista e pesquisador da Fiocruz Julio Croda a suspensão da pesquisa do Instituto Butantan não surpreendeu, uma vez que outras pesquisas também foram suspensas por eventos não esperados e depois retomadas. “Isso faz parte de qualquer estudo científico e o Butantan avisou no prazo certo, mas o sistema da Anvisa estava fora do ar. Tudo isso acontece. O que não é correto é a politização disso”, afirmou. Segundo o especialista, a Anvisa é composta por um time de técnicos respeitáveis e não parece que houve ingerência, até porque outros estudos foram paralisados até que se levantassem as informações — o uso político da informação é a única coisa que não faz parte dos procedimentos. O maior problema, na opinião de Croda, é a desconfiança que isso pode trazer ao processo de elaboração da vacina. “A desconfiança pode se estender para tudo. Já há voluntários que não querem mais participar e isso pode trazer desconfiança não só para as vacinas do Covid como para várias outras, ocasionando impacto na cobertura vacinal da população. A descrença nas vacinas estudadas e nas que estão aí é o maior risco”, afirmou. Para o infectologista, os comentários do presidente, que questionou a qualidade da vacina a partir de uma informação incompleta, colocaram a credibilidade técnica da Anvisa e do Instituto Butantan em xeque. “Isso tem um impacto na vida das pessoas. A população que já não entende os processos científicos fica ainda mais desconfiada de tudo”, argumentou Croda.

A saúde da população, na verdade, é o que menos importa para Bolsonaro. Seu objetivo parece ser mesmo tumultuar os esforços de combate à doença e favorecer a proliferação de informações enviesadas. No mesmo dia em que atacou a Coronavac, o presidente entrou num transe obscurantista e passou a minimizar as mortes associadas à doença, voltando a criticar os brasileiros, algo que vem fazendo nos últimos meses, por agirem de maneira cautelosa e responsável diante da pandemia. Para ele, pelo que se pode concluir, o medo do coronavírus é só uma fraqueza, uma demonstração de covardia.

País de maricas

“Tudo agora é pandemia, tem que acabar com esse negócio, pô. Lamento os mortos, lamento. Todos nós vamos morrer um dia, aqui todo mundo vai morrer. Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um País de maricas”, disse em cerimônia no Palácio do Planalto. Quem chama os brasileiros de “maricas” porque temem e tomam precauções contra uma doença mortífera está disposto a fazer uma loucura a qualquer momento. A declaração homofóbica repercutiu internacionalmente, assim como a interrupção dos testes da vacina.

As mentiras e a nuvem de fumaça criadas em torno da Coronavac fazem parte de uma clara manobra de Bolsonaro de politização da pandemia e visam transformar a Anvisa numa centro promotor de contrainformação, esvaziando sua função técnica. O aumento da presença militar na sua diretoria, assim como no Ministério da Saúde, não acontece por acaso. Pelo que se vê, o presidente tenta usar a agência para neutralizar os serviços de informação científica, que ele trata como inimigos. No fundo, é um recurso para impedir ou dificultar o acesso da sociedade às informações verdadeiras. É também uma falta de responsabilidade e uma atitude criminosa. Como sempre, em vez de apagar o fogo, Bolsonaro põe mais lenha na fogueira. Enquanto fomenta o medo e o descrédito sobre uma vacina que poderá salvar muitas vidas, ele comemora a morte e o caos.

Eficácia na imunização

Quatro vacinas se encontram na fase 3 de testes clínicos no Brasil, quando se aplica em seres humanos. É o caso da Coronavac, do imunizante da AstraZeneca, desenvolvido em conjunto com a Universidade de Oxford, da Pfizer e da Jansen-Cilag. Na segunda-feira 10, a Pfizer anunciou que sua vacina, testada em 43,5 mil pessoas de seis países, tem 90% de eficácia. Apesar de ainda não ter divulgado o seu índice de eficácia, a Coronavac deve estar próxima da Pfizer, segundo o coordenador do Centro de Contigência do Coronavírus de São Paulo, João Gabardo. A da Oxford também ainda espera pelo atestado de eficácia, assim como a da Janssen-Cilag. A OMS afirma que índices acima de 50% são considerados bons para que uma vacina seja licenciada.

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