quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

POR QUE O BRASIL NÃO É UMA NAÇÃO

Cristiano Romero, Valor Econômico

O jornalista e escritor Nelson Rodrigues escreveu que o Fla-Flu, o clássico dos clássicos, começou 40 minutos antes do nada. A hipérbole rodrigueana, usada para definir o caráter épico da rivalidade entre dois times de futebol, acabou sendo incorporada como síntese do antagonismo de ideias que caracteriza o debate dos problemas nacionais. Se a discussão de um tema relevante vira um Fla-Flu, é porque não há racionalidade, ou melhor, honestidade intelectual de uma ou das duas partes, uma forma de impedir mudanças que reduzam ou eliminem seus privilégios.
Numa sociedade profundamente desigual, marcada pela prática da escravidão (oficial, fator de acumulação de capital durante quase 400 anos, e dissimulada desde a abolição, em 1888), há poucos consensos, logo, não existe contrato social. Não há pacto social num país onde a maioria negra (56% da população) é discriminada pela minoria não negra.
Não há entendimento social se pouco menos de um quarto da população (50 milhões de pessoas) vive abaixo da linha de pobreza (com menos de dois dólares por dia), e todos conhecemos essa realidade há pelo menos quase 20 anos, afinal, graças a um dos poucos consensos de nossa história, criou-se nesse período um programa de transferência de renda para lidar com o problema – o Bolsa Família é excelente, cuida das consequências de políticas equivocadas que seguem provocando tanta miséria e desequilíbrio entre nós, brasileiros.
Não se pode falar em contrato social se metade dos adolescentes está fora do ensino secundário. Tampouco, é razoável afirmar que estejamos sob uma sociedade pactuada, uma vez que que 35 milhões de pessoas não possuem acesso à água tratada e 100 milhões (de uma população de 210 milhões) não têm coleta de esgotos. O pior: os números, compilados pelo Instituto Trata Brasil a partir de dados oficiais, referem-se apenas às cem maiores cidades.
Sem saneamento básico, não há saúde. Sem saúde, não há cidadania. Junte-se esta precariedade à outra (a baixa qualidade do ensino fundamental público), o que temos? Que futuro aguarda o país com a 5ª população do planeta, habitante do 4º maior território em terras contínuas?
Formadores de opinião espantam-se com a facilidade com que outras nações, não apenas as ricas, respondem prontamente a situações de emergência, como a enfrentada nesta pandemia. “Por que não conseguimos resolver rapidamente questões simples que afligem milhões de nossos compatriotas?”, indagam-se os cidadãos de bem.
Não é preciso pensar muito para concluir que nossa dificuldade está no fato de o Brasil não ser uma nação – como a palavra “brasil” não significa coisa alguma (foi tirada de pau-brasil), seu significado depende da construção de uma nação, daí, a insistência do titular desta coluna em chamar este país de Ilha de Vera Cruz, a primeira denominação dada pelos invasores portugueses.
Numa nação, a distância entre ricos e pobres é muito menor, todos (ou quase todos) têm acesso às mesmas oportunidades, a maioria dos cidadãos compartilha dos mesmos valores culturais e aspirações, independentemente de sua renda e origem étnica.
Um exemplo do quão distante este território povoado por 210 milhões de viventes está de ser uma nação: o auxílio emergencial criado em abril para assegurar a sobrevivência de mais de 60 milhões de brasileiros, surpreendidos repentinamente pela parada súbita de seu ganha-pão nesta crise sanitária, expira em 31 de dezembro.
Amanhã, alguns milhões de brasileiros vão brindar a chegada de 2021 e da segunda década do século XXI com champagne e espumante, enquanto outros milhões dormirão sem saber como cuidar da família ou de si próprios no ano “novo”. Para estes, 2020 não acaba nessa quinta-feira. Ademais, a segunda onda da covid-19, apesar do silêncio negligente das autoridades, já é uma realidade, cujos efeitos econômicos serão iguais ou piores que os do primeiro surto – não custa lembrar: por causa da pandemia, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve recuar algo em torno de 4,5%, segundo previsão da maioria dos analistas consultados pelo Banco Central.
Ora, virar o ano sem resolver esse grave problema é a prova inequívoca de que não só a classe política mas toda a sociedade não se importam com a crise humanitária que se avizinha. Onde estão os intelectuais das universidades públicas e fora dela, os sindicatos, as centrais sindicais sempre dispostas a parar o país em defesa os trabalhadores, as elites empresariais pensantes (das que só vivem às custas do Estado não se deve esperar nem cumprimento de “bom dia”), as lucrativas instituições financeiras que se “comoveram” tanto com o primeiro capítulo da tragédia pandêmica, os artistas que se mobilizaram para cuidar de seus pares em situação menos favorável, uma vez que o isolamento social lhes tirou a possibilidade de trabalhar? Cadê os manifestantes que foram às ruas em 2013 exigir educação e saúde públicas de qualidade?
No país onde não há carência de problemas a serem resolvidos, o tema mais controverso, o que inflama discursos, provoca cizânia, separa amigos de infância e resulta até em divórcio, não é o racismo estrutural, esta infâmia, ou a situação dos cidadãos sem-auxílio emergencial a partir de 1º de janeiro, mas a privatização, a venda de empresas estatais ao setor privado. Por que a classe média brasileira é tão suscetível à proposta de redução do Estado como produtor de bens e serviços?
Quando estourou o mega-escândalo de corrupção na Petrobras, em 2014, não demorou para que se promovesse um “abraço” na sede da estatal, no Rio. Não houve protesto contra as malfeitorias realizadas, responsáveis por desvio de recursos estimado em R$ 20 bilhões. Não houve sequer mobilização para que o acionista majoritário que nos representa na companhia – a União – melhorasse a governança da maior empresa do país. Por isso, leitor, duvide da palavra “estratégica” quando alguém defender as estatais.
Bookmark and Share

BRASIL ERROU AO APOSTAR EM APENAS DUAS VACINAS

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Se há algo que une militares de direita a sanitaristas de esquerda é a preocupação, às vezes obsessiva, com a transferência de tecnologia. É claro que é melhor ser capaz de fabricar seus próprios imunizantes do que não ser, em especial se houver necessidade de revacinações periódicas como parece ser o caso da Covid-19. Mas eu receio que, ao buscar primariamente acordos que previssem a transferência de tecnologia, o Brasil tenha limitado demais suas apostas.

O governo federal jogou tudo no imunizante da Universidade de Oxford/AstraZeneca, que deverá ter produção local pela Fiocruz, e o governo paulista investiu apenas na Coronavac, parceria entre chineses e o Instituto Butantan.

Na situação de emergência pandêmica que vivemos, teria feito mais sentido assegurar que o país tivesse acesso ao máximo possível de doses do maior número possível de vacinas, mesmo que sem previsão de autossuficiência.

E, para piorar, não tiramos a sorte grande em nossas apostas. A vacina Oxford apresentou 70% de eficácia (contra 95% do biofármaco da Pfizer) e atrasou. A Coronavac ainda não divulgou seus números, mas já sabemos que o braço brasileiro do estudo não apresentou eficácia superior a 90%.

Ficamos para trás em relação a outras nações, mas ainda não estamos no pior dos mundos. Quando falamos em eficácia, o “endpoint” (desfecho clínico) considerado é o desenvolvimento de doença. Significa, no caso da Oxford, que 70% dos voluntários que tomam a vacina ficam protegidos contra formas sintomáticas da moléstia. Mas esse não é o único “endpoint” relevante.

Outros desfechos de interesse são saber se as vacinas evitam a infecção propriamente dita (se o fizerem, fica bem mais fácil controlar a circulação do vírus) e se são capazes de prevenir os quadros graves e os óbitos. Se nossas vacinas transformarem uma doença potencialmente letal numa gripezinha, já estamos bem servidos.

Bookmark and Share

OS RISCOS DE BOLSONARO NA CÂMARA

Raphael Di Cunto, Valor Econômico

O presidente Jair Bolsonaro tem apostado alto ao mobilizar o governo para eleger o líder do PP, Arthur Lira (AL), presidente da Câmara. Há promessa – e entrega- de verbas orçamentárias, cargos e até ministérios para quem apoiar seu candidato. Não são poucos os aliados dele que alertam que tal aposta pode dificultar a governabilidade nos dois anos finais de seu mandato e esgarçar a relação com os deputados.

Como toda aposta de risco, o retorno, é claro, pode ser muito grande. Um aliado no comando da Câmara fará andar a agenda conservadora de costumes que o elegeu e com a qual ele pretende sustentar sua reeleição. Ao presidente interessa que o debate tome conta da sociedade, colocando em segundo plano a pandemia, a morte de milhares de pessoas e a economia capenga.

O atual presidente, Rodrigo Maia (DEM-RJ), barrou parte dessas propostas, mas menos do que seu contundente discurso para agradar os partidos de esquerda faz parecer. É verdade que ele segurou a reação à flexibilização do aborto pelo Supremo Tribunal Federal (STF), impediu o debate sobre o Escola Sem Partido e o ensino doméstico, defendeu a ciência e a vacina e segurou parte da agenda armamentista, mas, quando estava em busca de aproximação com Bolsonaro, Maia levou direto ao plenário o projeto que flexibiliza a lei de trânsito e o porte de arma na propriedade rural.

O acordo de Lira com Bolsonaro, segundo parlamentares ouviram do próprio presidente, é colocar para debate todos os projetos do governo e não deixar as medidas provisórias (MP) perderem a validade por falta de votação. Não significa necessariamente aprová-los, mas instalar as comissões especiais necessárias para que a discussão ocorra na Casa. Ao bolsonarismo, interessa mais o bate-boca na sociedade do que a aprovação de algumas pautas.

A proposta de emenda constitucional (PEC) do “voto impresso”, por exemplo, é uma dessas em que o debate renderá mais frutos ao presidente do que a implantação, já que a checagem comprovaria que, de fato, não existe a tão alardeada fraude no sistema de votação. O discurso bolsonarista em 2022 terá mais apelo se a PEC fracassar, com os partidos de oposição votando contra. Caberá a Lira dar vazão a esse e a outros debates, ao instalar as comissões especiais e pautar as propostas no plenário.

Essa é a visão otimista para os bolsonaristas, que viram na aliança de Maia com a esquerda a deixa que permitiu que perdessem a vergonha de assumir o voto em Lira, até então um dos mais claros representantes da “velha política” que Bolsonaro dizia combater. Mas, como toda aposta, há um risco embutido, e que nesse caso não é pequeno.

Primeiro, é óbvio, o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi (SP), pode vencer. Ele está à frente de um dos partidos mais governistas da Câmara, seus correligionários acumulam cargos no governo e seu perfil não é, até hoje, o de partir para o embate. Mas Baleia faz um discurso externo de independência, com o objetivo de reposicionar o MDB, e deverá sua vitória muito aos partidos de oposição, que terão voz ativa nas decisões.

O outro risco é que MDB, DEM, PSDB, PSL, PV e Cidadania votam a favor dos projetos do governo relacionados à economia e estão se sentindo desprestigiados na distribuição de cargos e verbas. São cerca de 130 deputados (já descontando os “bolsonaristas raiz” do PSL) sem os quais será impossível aprovar PECs como as reformas administrativa e tributária e a PEC Emergencial.

Será difícil que esses partidos consigam se posicionar contra projetos que já defendiam antes da eleição, mas há temas muito polêmicos dentro dessas propostas com os quais eles ainda não se comprometeram (como o fim da estabilidade no serviço público) e não se trata de derrotar a agenda toda, mas se unir à oposição em pontos fundamentais para imprimir derrotas a Bolsonaro.

Foi o que ocorreu com a exclusão das escolas filantrópicas da distribuição de verbas do Fundeb e na proibição de que o governo possa exigir um termo de consentimento para quem tomar a vacina contra a covid-19, para dar dois exemplos da última semana de votações da Câmara. A própria ampliação do Fundeb, em agosto, ainda bem longe da eleição no Congresso, já foi um indicativo de como essa aliança funcionará. Podem também oferecer as 40 assinaturas que faltam à oposição para comissões parlamentares de inquérito (CPI), por exemplo.

A estratégia de condicionar cargos no governo e a liberação de verbas em troca do apoio a Lira tem resistências entre parte dos aliados do presidente e é vista com muitas ressalvas por articuladores políticos mais experientes. A fatura não acabará na eleição da Câmara e será preciso negociar nos projetos mais importantes.

Não vai dar para desprezar os que ficaram ao lado de Baleia e é fácil imaginar a reação dos “aliados de primeira hora” se o governo atender só os preteridos agora com novas verbas ou cargos quando for preciso votar projetos mais importantes. Um aliado do presidente também destaca que faz pouco sentido oferecer dinheiro numa eleição que é secreta. Pode-se até desconfiar da traição, mas quem pula a cerca não sai por aí anunciando.

Lira é um político experiente. Em dez anos na Câmara, liderou seu partido em seis e presidiu as duas comissões mais importantes, a de Constituição e Justiça (CCJ) e a de Orçamento (CMO). Tem uma grande capacidade de articulação política e poderá driblar essas resistências para construir maiorias a favor do governo e dos projetos que achar relevantes. Mas não é o que ele tem prometido em público, ao refutar o papel de líder do governo, e, mesmo assim, não será algo fácil.

Rodrigo Maia venceu o “Centrão” liderado por Eduardo Cunha (MDB-RJ) na disputa da presidência da Câmara em 2016 e reaglutinou o grupo em torno do si meses depois para viabilizar sua reeleição, mas demorou para quebrar resistências. A eleição de 2022 batendo as portas e afetando fortemente a agenda da Câmara e do governo no segundo semestre dificultará mais esse realinhamento.

Bookmark and Share

BOLSONARO EMPORCALHA A PRESIDÊNCIA ATÉ DURANTE AS FÉRIAS

Bruno Boghossian, Folha de S. Paulo

Jair Bolsonaro já era um político indigno do cargo que ocupava em 1999, quando dava entrevistas para defender atrocidades como assassinatos políticos e agressões a prisioneiros. “Eu sou favorável à tortura, tu sabe disso”, declarou o então deputado ao programa Câmera Aberta, da TV Bandeirantes.

A propaganda continuou nas duas décadas seguintes. O parlamentar ganhava projeção ao glorificar o regime militar e recomendar a execução de rivais. “O erro da ditadura foi torturar e não matar”, repetiu, dois anos antes de ser eleito presidente.

O país escolheu um apologista da tortura para comandar o Palácio do Planalto. Depois de fazer fama com aquelas declarações, ele passou a emporcalhar a Presidência da República com um repertório atualizado de barbaridades –até durante as férias.

Antes de embarcar para o Guarujá (SP), na segunda (28), Bolsonaro lançou dúvidas sobre a tortura que a ex-presidente Dilma Rousseff sofreu na ditadura. “Dizem que a Dilma foi torturada e fraturaram a mandíbula dela”, disse. “Não sou médico, mas até hoje estou aguardando o raio-X.”

Além de repugnante, a ofensa é covarde e desprovida de lógica. Bolsonaro costuma tratar torturadores como exemplos de heroísmo e explora a selvageria praticada nos porões como arma política. Em 2016, ele mesmo citou o chefe do DOI-Codi como “o pavor de Dilma Rousseff”; agora, debocha dos atos que exaltou.

Não é preciso dizer que o presidente tem o direito de discordar de seus opositores em quase tudo. As provocações hediondas que ele escolhe fazer para alimentar esses confrontos, no entanto, só reforçam que seu comportamento é incompatível com o exercício da política.

Essa é a essência de Bolsonaro. No início de maio, enquanto trabalhava em período integral para atrapalhar os esforços de contenção da pandemia do coronavírus, o presidente ainda abriu um espaço na agenda para receber o Major Curió, símbolo da repressão da ditadura. O Planalto divulgou o encontro e chamou o militar reformado de herói.

Bookmark and Share

A TEMPESTADE PERFEITA QUE PODERÁ CUSTAR O MANDATO DE BOLSONARO

Do Blog do Noblat, VEJA

Ele é uma ameaça à vida alheia

Se for o que resta para mostrar a que ponto chegou Bolsonaro, compare-se o seu comportamento com relação à vacinação em massa contra o vírus com o comportamento dos governantes mais autoritários do mundo, todos, como ele, de extrema-direita.

 O ditador da República da Bielorrússia, Aleksandr Lukashenko, anunciou que não se vacinará porque a Covid-19 já o pegou faz algum tempo – como se não pudesse pegá-lo outra vez. Mas a imunização no seu país começou uma semana antes do previsto.

Até abril serão vacinadas 1,2 milhão de pessoas. Numa segunda etapa, mais 5,5 milhões. Na Hungria do primeiro-ministro Viktor Orbán, um dos poucos chefes de Estado a comparecer à posse de Bolsonaro, a vacinação começou no último sábado.

A Polônia tem um governo nacionalista conservador admirado pelo presidente brasileiro. Pois bem: ali, ontem, os dois líderes dos partidos rivais Plataforma Cívica (liberal) e Lei e Justiça (conservador) foram filmados vacinando-se juntos.

Ontem também, os países da Comunidade Econômica Europeia compraram mais 100 milhões de doses da vacina da Pfizer. Em colapso desde a explosão do seu porto em Beirute, o Líbano comprou à Pfizer duas milhões de doses de vacina.

Aqui, onde nas últimas 24 horas o vírus matou 1.075 pessoas e infectou mais de 57 mil, a Pfizer indicou em nota que no momento não irá pedir autorização de uso emergencial do seu imunizante porque as exigências do governo demandam tempo.

Como uma das muitas vacinas que já foram aprovadas em outros países e que estão sendo aplicadas por toda parte não pode estar rapidamente disponível para os brasileiros? É a pergunta que Bolsonaro e seus cúmplices se recusam a responder.

Na melhor das hipóteses, segundo o Ministério da Saúde, a vacinação contra o vírus está prevista para começar em 20 de janeiro, e na pior até o final da primeira quinzena de fevereiro. Quantas vezes você não leu previsões furadas?

Por outra parte, por que o espanto com a incompetência do governo Bolsonaro em dar início à vacinação? Quando foi que o governo dele revelou-se competente para tentar resolver um só grande problema do país nos últimos 2 anos?

O prefeito Alexandre Kalil, de Belo Horizonte, reeleito com uma votação recorde, estoca há meses seringas de sobra para vacinar os habitantes de sua cidade e de cidades próximas. O que impediu o governo federal de fazer a mesma coisa?

Fracassou o pregão eletrônico realizado ontem pelo Ministério da Saúde para a compra de seringas e agulhas. De um total de 331 milhões unidades previstas para serem adquiridas, o ministério conseguiu fornecedor para apenas 7,9 milhões. Uma titica.

Não se brinca impunemente com vidas alheias, mas Bolsonaro insiste em brincar. Gosta de viver em perigo. Por que não brinca com a própria vida, quando nada para relembrar os antigos e bons tempos de paraquedista do Exército?

Só a vacinação em massa já, e bem-sucedida, salvará o sonho de Bolsonaro de se reeleger daqui a dois anos, e mesmo assim não será tão fácil como parecia. O contrário disso será com toda certeza a abertura de um processo de impeachment.

Crime de responsabilidade é razão para a abertura de um processo de impeachment do presidente. Falhar gravemente em garantir a vida das pessoas é o maior crime de responsabilidade que um presidente pode cometer. E daí?

Daí que é por isso que Bolsonaro precisa tanto eleger Arthur Lira (PP-AL) presidente da Câmara dos Deputados. A abertura de um processo de impeachment depende exclusivamente do presidente da Câmara. Por lá, mais de 50 pedidos repousam numa gaveta.

Bookmark and Share

O ANO MAIS LONGO

Do Blog do Luiz Carlos Azedo, Correio Brazilense

Certo mesmo é que 2020 vai entrar 2021 adentro, por causa da pandemia do novo coronavírus, cuja segunda onda é o fantasma que ronda a Europa e os Estados Unidos às vésperas do ano-novo. Aqui, no Brasil, será um pouco pior, porque a vacina contra covid-19 está muito atrasada e, por isso mesmo, os efeitos predatórios das atitudes e decisões do presidente Jair Bolsonaro em relação à pandemia serão também mais duradouros. Como já disse antes, quem deveria liderar a luta contra a doença sabota os esforços de prefeitos, governadores, dos sanitaristas e infectologistas, socorristas e enfermeiros, intensivistas e fisioterapeutas para controlar a doença e salvar vidas.

O próprio Ministério da Saúde é sabotado, sob comando de um general bem mandado, nomeado para o cargo por ser especialista em logística de transportes de tropas, armas e suprimentos, mas que se revelou o ministro mais incompetente da história da saúde pública no Brasil: Eduardo Pazuello. Provavelmente, ainda será condecorado e promovido a general de quatro estrelas por maus serviços prestados. Vivemos tempos distópicos.

Como não lembrar do jovem rapper Emicida, que acaba de lançar um documentário excepcional na Netflix: AmarElo, é tudo pra ontem. “Talvez seja bom partir do final/ Afinal, é um ano todo só de sexta-feira treze/ ‘Cê também podia me ligar de vez em quando/ Eu ando igual lagarta, triste, sem poder sair/ Aqui o mantra que nos traz o centro/ Enquanto lavo um banheiro, uma louça, querendo lavar a alma/ Na calma da semente que germina/ Que eu preciso olhar minhas menina”. O historiador Daniel Aarão Reis, em artigo publicado no jornal O Globo (26/12), fez uma belíssima crítica sobre o filme, que se passa em torno de uma apresentação no Teatro Municipal de São Paulo, lotado por pessoas da periferia paulista, que nunca haviam entrado naquele templo da nossa cultura.

“A construção do futuro melhor dependerá da capacidade de articulação, vontade determinada e raiva no coração. Que é como cantam, em trio, Majur, Pablo Vittar e Emicida, os belos versos de Belchior: ‘Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro, ano passado eu morri, mas este ano eu não morro’. Nesta sinistra pandemia, a ideia de que viveremos livres, corajosos e solidários foi o melhor presente de Natal que poderíamos ter. Obrigado, Emicida”, escreve o professor titular de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF).

A pandemia é o espectro por trás da letra de É tudo pra ontem: “A folha amarela, igual comida, envelhece”/ É a vida, acontece com pessoa e documento/ É tão triste ter que vir, coisa ruim pra nos unir/ E nem assim agora, mano, vamo’ embora a tempo/ Viver é partir, voltar e repartir (é isso)/ Partir, voltar e repartir (é tudo pra ontem)/ Viver é partir, voltar e repartir/ Partir, voltar e repartir”. Ninguém tem dúvida de que a vacina era para ontem, a vacinação já começou em mais de 40 países, inclusive na vizinha Argentina, que comprou a vacina russa, Sputnik V, feita a partir de uma tecnologia nova, que utiliza adenovírus — vírus causadores de resfriado comum. O governo do Paraná também comprou essa vacina.

As vacinas

A primeira e a segunda dose da Sputnik V utilizam adenovírus diferentes, algo exclusivo do Instituto Gamaleya. Por meio de engenharia genética, são removidos os genes de reprodução viral dos adenovírus, ou seja, ele não vai causar resfriado, será utilizado apenas como “meio de transporte”. Dentro desses adenovírus são colocados genes codificando a proteína S do coronavírus (SARS-CoV- 2). Estas proteínas são as que ficam na coroa do vírus causador da covid-19 e se ligam aos receptores no corpo humano. Uma vez inoculado, o adenovírus com o gene do coronavírus induz uma resposta imunológica no corpo humano. Após 21 dias, ocorre a segunda vacinação, com outro tipo de adenovírus, mas o mesmo material genético do SarsCoV-2. Então, segundo os dados russos, ocorre uma imunidade ainda mais forte e duradoura.

O método é semelhante ao usado pela Universidade de Oxford — a vacina na qual o Ministério da Saúde apostou todas as fichas e que será produzida pela Fiocruz. As vacinas BioNTech/Pfizer e Moderna, que já estão sendo aplicadas nos Estados Unidos, também resultam de uma abordagem revolucionária, “aplicável a quaisquer vacinas futuras”, segundo o geneticista Richard Dawkins: “Sequencie um vírus e digite uma parte inofensiva em mRNA, corrigido de modo a não ser imuno-rejeitado. mRNA faz o resto para você. Funciona com qualquer vírus”, explica no Twitter.

São inovações desse tipo que podem evitar que a pandemia tome conta de 2021. Mas o que explica a velocidade e sucesso da produção dessas vacinas é o maciço investimento feito em pesquisas. Sem as vacinas, a economia mundial entrará em colapso. Entretanto, desculpe-me o trocadilho, a manipulação genética é dose pra leão para os negativistas, que não confiam nem nas vacinas que utilizam o método mais tradicional: o vírus atenuado da própria doença, como acontece com a vacina chinesa CoronaVac, que já está em produção no Instituto Butantan. Eppur se muove, diria Galileu Galilei.

Feliz ano-novo, em 2021 estarei de volta.

Bookmark and Share

MENSAGEIRO DA MORTE

Míriam Leitão, O GLOBO

O presidente da República gosta da tortura. Ele a defende, tem prazer em falar dela e fustigar as vítimas. Foi o que Jair Bolsonaro fez ontem, mais uma vez, com a ex-presidente Dilma Rousseff. Ela foi brutalmente torturada aos 22 anos, sobreviveu e construiu sua vida. E agora, aos 73 anos, ouve do chefe de governo do país palavras de deboche e ironia sobre o seu sofrimento. É desumano e, além disso, é crime.

Bolsonaro comete crimes reiterados na cara do país e das instituições. Tortura é crime hediondo e ele tem prazer em falar disso, sempre tentando pôr em dúvida a palavra da vítima. Ele exalta torturadores e os tem por heróis. Bolsonaro defende a ditadura e já foi para a rua, como presidente da República, defender o fechamento do Congresso e do Supremo.

O que faz o país? Nada. Ele permanece presidente e continua usufruindo da sua extensa impunidade. Ele não foi cassado, em 2016, quando no plenário da Câmara elogiou o torturador a quem chamou de o “terror de Dilma Rousseff”. Deveria ter sido. Foi o que eu escrevi na época.

É crime. Mas também é sadismo. O prazer de sentir a dor do outro, de lembrar ao outro o seu sofrimento em meio a gargalhadas. Dilma o chamou de sociopata. E ele é. Somos governados por um sociopata. Dilma o chamou de fascista. E ele é. Dilma o chamou de “cúmplice da tortura e da morte”. E é o que ele tem sido ao longo de sua vida e de sua presidência.

O Brasil quer olhar o futuro. Um país com tantos desafios e dores precisa olhar o futuro. Bolsonaro está preso a um passado cujo pior lado ele se compraz em lembrar. Ele não elogia a ditadura militar por um eventual acerto econômico ou obra de engenharia. Ele gosta é da brutalidade com que eram tratados os que se opunham a ela. É isso que Bolsonaro faz questão de lembrar.

Essa sociopatia é a mesma que ele tem demonstrado ao longo de toda essa pandemia. Ele brinca com a tortura dos anos 1970, da mesma forma como nunca demonstrou solidariedade a quem estava perdendo entes queridos para o coronavírus. Expôs ao país durante o ano inteiro as palavras da sua perversidade. O “e daí?”, o “eu não sou coveiro”, o “todos vão morrer um dia”. Foram inúmeras as demonstrações de desprezo pela vida humana.

São quase 200 mil mortos ao fim de nove meses. Doloroso tempo. Tempo de temer a morte, de se preocupar com parentes adoecidos, de se proteger do vírus, de tentar respirar. Tempo de médicos e enfermeiros lutarem sem trégua num esforço épico pela vida humana. Tempo de cientistas mergulharem em laboratório para conseguir em período recorde vacinas contra o mal.

O presidente do Brasil continuou no seu achincalhe. Sabotou todas as orientações médicas, ofendeu quem se protegia, promoveu a disseminação do vírus, espalhou mentiras, estimulou invasão de hospitais, tentou manipular estatísticas, aparelhou o Ministério da Saúde e a Anvisa. Agora, depois de longo padecimento, os brasileiros veem cidadãos de inúmeros países, inclusive vizinhos nossos, serem vacinados. Enquanto isso o presidente diz que “não dá bola” para vacina.

O Brasil está chegando ao final de um ano em que o mundo inteiro viveu uma assombração. Nós vivemos duas. Como todos os outros países, tivemos que lutar contra um inimigo invisível que tentava tirar de suas presas o ar dos pulmões. Mas tivemos também um presidente que tripudiou sobre a dor do país como um verdadeiro mensageiro da morte.

Dilma, a jovem que foi torturada e presa por mais de dois anos, chegou ao governo em 2011 e virou comandante em chefe das Forças Armadas. Nunca usou o cargo para perseguir os militares. A Comissão da Verdade foi uma exigência do país, e o que ela buscou foi a informação sonegada por tantas décadas. Outros países fizeram antes essa procura e foram mais duros com os torturadores. Dilma entregou aos brasileiros a Lei de Acesso à Informação, uma importante arma da cidadania. Todos os que leem esta coluna sabem o quanto divergi de muitas decisões do governo dela. Concordar ou discordar das administrações é o cotidiano do jornalista. O fundamental na vida, contudo, são os valores. O sentimento de empatia, de solidariedade, de compaixão, Bolsonaro não tem. E isso ele prova quando fala sobre o passado da ditadura ou sobre o presente da pandemia.

Bookmark and Share

SEM, SEM

Merval Pereira, O GLOBO

Com o fim do auxílio emergencial, cuja última parcela começou a ser paga ontem, poderemos ter uma noção mais clara do fenômeno de popularidade do presidente Jair Bolsonaro, que já chegou a um índice de 40% em setembro, e caiu este mês para 35%, sempre segundo o Ibope. Teremos, além da geração “nem, nem” – nem estuda, nem trabalha – teremos os “sem, sem”- sem emprego e sem auxílio.

O pico de popularidade aconteceu depois do pagamento da quinta parcela de R$ 600, e a queda chegou depois que o auxílio foi cortado pela metade. Mas essa queda ainda deixa Bolsonaro em situação melhor do que há um ano, quando sua popularidade era de 29%, a pior avaliação de um presidente da República no primeiro ano de governo desde 1994. Collor, eleito na primeira eleição direta do país depois do golpe militar, teve aprovação pior no primeiro ano de mandato.

Entre os cidadãos mais pobres o auxílio emergencial mostrou-se resiliente, com a aprovação dos eleitores com renda familiar até um salário mínimo subindo de 19%, em dezembro de 2019, para 35% na pesquisa de setembro, o que levou seu índice de avaliação positiva para 40% naquela ocasião. Os eleitores com menor grau de instrução deram um aumento consistente da popularidade do presidente.

Entre os com até a oitava série do ensino fundamental, a avaliação de ótimo ou bom foi de 25% para 44%, enquanto entre os pesquisados com até a quarta série cursada a aprovação subiu de 26% para 40%. Esses índices, porém, caíram nos últimos três meses, justamente quando o auxílio foi reduzido.

O fim das medidas extraordinárias que o governo decretou para combater a pandemia da COVID-19, que levaram o déficit do país a se elevar para cerca de R$ 700 bilhões, terá um impacto político presumivelmente grande para o presidente Bolsonaro, com consequências sociais graves. Já temos 14 milhões de desempregados, com mais os cerca de 40 milhões que deixarão de receber o auxílio, teremos em janeiro uma situação social muito delicada no país. Os inscritos no Bolsa Família continuarão a receber o benefício, que não será aumentado como chegou a anunciar o governo.

Com a economia que não sai do lugar, e a inflação aumentando, chegamos a uma combinação que pode ser explosiva. O problema é maior porque o governo está quebrado, não tem condições de manter o equilíbrio fiscal e voltar a pagar o auxílio emergencial, sem romper o teto de gastos. Depois que os governadores pressionaram o governo para que estendesse o auxílio emergencial por mais tempo, enquanto a pandemia persistir, a equipe econômica soltou uma nota ontem afirmando que não haverá prorrogação.

A pandemia não acaba, aumenta o número de mortes e de infectados, e o governo está atrasadíssimo com a vacinação. Ainda não entendeu que a vacinação massiva da população é que dará condição à economia de retomar um patamar de crescimento. Seria injusto dizer que o ministro da Economia Paulo Guedes não entendeu essa equação simples, mas ele já não tem o poder de decisão que presumia ter no início do governo.

Resta-lhe gastar a oratória farta para fora do governo, tentando criar situações favoráveis a seus pontos de vista. A nota oficial de ontem foi um exemplo dessa tentativa de barrar os governadores antes que eles convencessem o presidente a estender o auxílio emergencial. 

Não quer dizer que Bolsonaro não possa mudar de ideia a qualquer momento, se farejar que os índices de popularidade cairão mais ainda a partir de janeiro. Enquanto não pode usar o Tesouro a seu favor, o presidente tenta tergiversar, provocando polêmicas que desviem a atenção de seus fracassos, o maior deles a vacinação que já teve início em vários países vizinhos, até mesmo na Argentina, aqui do lado.

Quando se referiu ironicamente à tortura sofrida pela ex-presidente Dilma, pedindo um exame que prove as sequelas, Bolsonaro nada mais faz do que incensar seus apoiadores mais exaltados, mantendo aberta a porta da radicalização que já foi seu apoio político nos tempos em que pretendia dar um auto-golpe. Até jogar futebol, com direito a transmissão pela televisão estatal, Bolsonaro fez.

Quando diz que votaria até em Lula, mas nunca em João Doria, está ao mesmo tempo revelando o desejo in pectore de tê-lo como candidato, mas também deixa transparecer que seu verdadeiro adversário até o momento é Dória ou Moro, que também vem sendo atacado pelo ministro da Justiça mais submisso dos últimos tempos.

Bookmark and Share

DECRÉPITO TORTURADOR DE ALMAS, BOLSONARO NÃO CABE NO CARGO QUE OCUPA, NEM CABE NO BRASIL

Carla Jiménez, EL PAÍS

Presidente tem a sorte de se deparar com gente que silencia sobre seus criminosos desvarios, cujos limites morais podem não ser tão baixos quanto os dele, mas com pontos de intersecção

A esta altura de 2020, qualquer pessoa que acompanhe minimamente o noticiário sabe que não há o que se surpreender com as atrocidades perversas que saem da boca do presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Ao zombar da tortura da ex-presidenta Dilma Rousseff ele só mostra sua verve de torturador que sempre soubemos que ele tinha. Não há diferença entre a frase dita nesta segunda, 28, ―“Dizem que a Dilma foi torturada e fraturaram a mandíbula dela. Traz o raio-X para a gente ver o calo ósseo”― e o “Quem procura osso é cachorro”, dita em maio de 2009, quando ele humilhava parentes de desaparecidos na ditadura ―assassinados por militares que pensam como Bolsonaro― que faziam pressão por localizar os restos mortais de seus familiares.

Bater covardemente em alguém, ainda mais uma mulher, ex-presidenta, só é típico dos bárbaros, dos mesquinhos, dos pequenos que têm inveja, dos futriqueiros venenosos, dos picaretas. Debater o porquê dele ter sido eleito e o que isso diz dos seus eleitores é algo que já se estendeu até demais nestes últimos dois anos. Já sabemos que Bolsonaro não é o mal puro, mas a síntese da maldade coletiva de um Brasil perverso, deformado. Não se trata somente da deformação dos que identificam e celebram sua crueldade, mas a distorção dos que não tiveram a chance de aprender e alcançar o que uma frase tão delinquente quanto a que ele pronunciou sobre Dilma faz mal à saúde do Brasil e à nossa democracia. A frase não é só sobre o passado. Ela tem uma correia de transmissão com a tortura que acontece nas delegacias e nas periferias do país todos os dias.

Custa chamar Bolsonaro de presidente da República. Ele não cabe nesse posto. Não representa o povo brasileiro, nem uma aspiração coletiva, nem um exemplo a ser seguido. Seus dois anos já demonstram que ele seria incapaz de fazer história com grandes realizações e contribuições para o Brasil. Não tem bondade, não tem empatia, não tem honra, nem respeito. Tem atitudes de um covarde, um sabotador nacional, com auxílio de muitos que o ajudaram a chegar lá e agora se descolam, como o ex-ministro Sergio Moro. O ex-juiz sabia exatamente o tamanho da própria credibilidade naquele momento e recebeu todos os alertas de quem era e agora vira e mexe o critica. Mas a última vez que Moro o criticou, no último dia 28, foi em função do atraso na campanha da vacinação. Não para condená-lo por Bolsonaro ter exortado a tortura a que foi submetida a ex-presidenta Dilma.

Bolsonaro sobrevive e, sim, uma tempestade perfeita pode reconduzi-lo ao poder em 2022. Ele tem a sorte de se deparar com uma época de lideranças fracas no Brasil, de gente que silencia sobre seus criminosos desvarios, cujos limites morais podem não ser tão baixos quanto os dele, mas com pontos de intersecção. É o constrangimento de ver o Supremo Tribunal Federal e procuradores de São Paulo envolvidos em pedido de prioridade na vacinação. É o marketing de gestor do governador João Doria cortando verbas de Ciência em São Paulo ―afora uma viagem desastrada quando os números da covid-19 estavam subindo. É deputado se gabando de ter ganhado fuzil de presente. Justiça seja feita, Bolsonaro tem um papel fundamental para a história brasileira ao mostrar aos que defendem a democracia o tamanho da nossa arrogância e ignorância sobre o Brasil real. Nos contentamos com pouco achando que o pouco era muito porque era somente para nós.

Pois bem. Os anestesiados pelo pavor da miséria no poder com a ultradireita estão ganhando anticorpos e, se o presidente ainda goza de prestígio num grupo de eleitores, esse mesmo grupo vai cobrar a fatura quando os erros de Bolsonaro trouxerem a colheita. Ele, que apontava o confinamento vertical no início da pandemia como um antídoto para proteger a economia ―e não ficar para trás num mundo competitivo―, teve a incompetência de deixar o Brasil a esmo para montar uma campanha de vacinação nacional e isso cobrará seu preço no tempo da nossa recuperação. Mais valeram as picuinhas e as artimanhas grotescas do que focar num plano que finalmente o poderia colocar à altura de um estadista.

Bolsonaro não cabe no cargo de presidente e sua monstruosidade se destaca a cada dia no mundo em que vivemos. No momento em que a Argentina avança no debate sobre aborto, jovens vão às ruas no Peru, chilenos reescrevem sua Constituição, mexicanos e costa-riquenhos lideram a vacinação na América Latina, o presidente brasileiro vai se tornando um corpo estranho. É o presidente que mente ao mundo culpando indígenas pelos incêndios no Pantanal, o machista arcaico num mundo cada vez mais feminista, o torturador de Dilma no dia do seu impeachment.

Pode ser que faltem dois ou até seis anos para que o peso de suas palavras o derrubem por si só. Para que seja o pária nacional, o antiexemplo, a dor na alma, a vergonha do Brasil. Tal qual quando na ditadura havia uma vergonha popular de dizer que se apoiou os crimes covardes do governo militar. Bolsonaro é o representante dos militares que iam botar bomba no atentado do Riocentro, dos militares que esconderam o rosto da fotografia enquanto Dilma era interrogada então com 22 anos. Dilma pode não ter sido tão popular enquanto presidente e isso é uma verdade que não se pode apagar. Mas seu tamanho e sua trajetória estarão altivas nos livros de história. Os de Bolsonaro, não.

Bookmark and Share

OBSCURANTISMO NA LUZ

Cristovam Buarque, Correio Braziliense

Casa grande e senzala é uma das mais substanciais obras iluminadoras do passado, mas obscurece ao dar a ideia de que o Brasil é uma democracia racial. Quando publicado, fazia menos de 50 anos da Lei Áurea, depois de mais de três séculos de escravidão. Mesmo assim sugere que a relação entre senhores e escravos, especialmente com escravas, indicaria falta de racismo, apesar da exploração brutal contra eles.

No caso das relações sexuais, tratava-se de ato de violência, não gesto de tolerância. Apesar dessa violência ter mestiçado a cor de nossa gente, ela era produto do machismo, da supremacia branca e do poder escravocrata. Ela não quebraria o racismo porque a fábrica do racismo não está na genética que mestiça a pele, mas na educação que forma a mente: tolerante ou racista, conforme os ensinamentos. Não é a cama, é a escola que constrói a democracia racial.

Casa grande e senzala, apesar de seu texto genial que ilumina muito do nosso passado, obscureceu o papel da educação na construção do Brasil que somos, porque não analisa a formação da mente escravocrata por falta de educação para os escravos e educação preconceituosa para os senhores. Ausência de educação para uns e promoção da ideia de supremacia branca para outros.

Gilberto Freyre não é o único que obscurece ao iluminar. Sérgio Buarque de Holanda escreveu um livro iluminador das raízes brasileiras, mas obscureceu nossa realidade, mesmo sem ter a intenção, por dar origem ao estereótipo do “homem cordial”. O homem brasileiro pode ser informal, simpático, divertido, mas se fosse cordial não aceitaria a brutalidade que jorra por todos os poros de nossa sociedade. Sérgio Buarque de Holanda formulou o conceito de “homem cordial” para indicar a aceitação das maldades sem revolta política; não queria, mas obscureceu nossa realidade, ao dar origem ao falso estereótipo de que somos plenos de cordialidade e não de aceitação e conivência com a maldade.

Por quase toda nossa história, o brasileiro branco praticou a maldade da escravidão. Depois da abolição, continuamos campeões de desigualdade, de analfabetismo, exclusão social, violência, destruição de florestas e genocídio contra povos indígenas; implantamos um sistema de apartação, mas acreditamos ter índole cordial. Isso faz com que nossos intelectuais, poetas, músicos e escritores de ficção raramente manifestem horror diante de nossa realidade. Muitas vezes glamourizam a pobreza e a desigualdade. Castro Alves é uma das exceções.

Poucos de nossos intelectuais foram tão iluminadores como o grande Celso Furtado, com diversos de seus livros, especialmente Formação econômica do Brasil. Além de iluminar o passado, inspirou o futuro com propostas para romper as amarras do atraso e promover o desenvolvimento econômico do Brasil. Furtado avançou no papel do progresso tecnológico, da criatividade e da cultura na indução ao desenvolvimento, mas ao concentrar sua interpretação na economia, teve reduzida a importância da educação de base universal como vetor do progresso ou causa do atraso.

Os intérpretes da nossa formação — uma das exceções é Darcy Ribeiro — ajudaram a alienar a consciência nacional da importância da educação como fator de progresso. Essa é uma característica dos intérpretes brasileiros e também dos latino-americanos. Eduardo Galeano formulou a formidável metáfora das “veias abertas” para explicar o atraso latino-americano, devido ao saque imperialista de nossas riquezas materiais, obscurecendo que nosso atraso decorre sobretudo dos “neurônios tapados”, por falta de cuidados educacionais por opção de nossos dirigentes, de direita ou esquerda, nestes 200 anos de independência.

Com a obra Dependência e desenvolvimento na América Latina, Fernando Henrique Cardoso deu contribuição iluminadora ao identificar a dependência econômica como uma das causas de nosso atraso, mas reduziu a culpa de nossa elite dirigente e não deu importância à falta de qualidade e de equidade na educação de base. Tampouco que a falha foi nossa, e não de nações estrangeiras. Stephen Zweig, no livro Brasil: país do futuro iluminou nosso potencial, mas passou a ideia de que bastava esperar. O progresso chegaria sem esforço.

Nossos textos básicos precisam ser conhecidos e respeitados pelo que iluminaram do nosso passado. Mas, para que iluminem o futuro, é preciso saber o que eles obscurecem: um país racista, violento, desigual e atrasado por não cuidar da educação de sua população.

Bookmark and Share

VACINA ANTIDESFAÇATEZ

Lígia Bahia, O GLOBO

Oportunidades desperdiçadas para controlar a disseminação da Covid-19 em 2020 serão transferidas, com acréscimo de dificuldades, para o próximo ano. Históricas experiências do Brasil — desde as campanhas contra a febre amarela, DST/aids, dengue, chicungunha e zica — foram substituídas por charlatanismo, ameaças à Organização Mundial da Saúde e descuido proposital com a organização da prevenção, da vigilância de casos e do atendimento adequado a doentes. Desprezo pelas recomendações científicas, corte de recursos para pesquisa, presença irrelevante ou aliada automaticamente aos países ricos nos debates internacionais sobre o acesso universal ao conhecimento e inovações tecnológicas nos impediram de compartilhar plenamente o legado de 2020: ampla utilização de intervenções não farmacológicas para eliminar a transmissão de uma doença respiratória e produção rápida de testes e vacinas.

Em 2021, estaremos diante de ameaças sanitárias não superadas, somadas a eventuais viroses emergentes com potencial de transmissão global, e das visíveis e grandes falhas do sistema público de saúde. Necessitamos de uma infraestrutura de saúde pública moderna e do restabelecimento de uma gestão unificada da saúde. A garantia de suprimentos estratégicos, como equipamentos de proteção individual e testes, e da integração do país nas redes mundiais de pesquisa para restabelecer a gestão da pandemia é uma atribuição de âmbito nacional. Critérios padronizados e transparentes para a aprovação e alocação de recursos orçamentários — incluindo compras e produção de vacinas e a garantia de assistência para casos graves — são medidas objetivas para o enfrentamento de fenômenos que não respeitam limites administrativos.

Cada sociedade tem uma faixa, maior ou menor, de fanáticos, de pessoas que falam e agem sem considerar consequências nefastas de suas atitudes. No transcorrer do ano, a dose de dissimulação e irresponsabilidade foi excessiva e constante. O presidente Bolsonaro assinou a Medida Provisória 1.015, em 17 de dezembro, prevendo o gasto de R$ 20 bilhões com a vacinação, cuja justificativa técnica baseia-se no “cumprimento do dever do Estado de garantir a todos o direito à saúde” e no contato (memorandos de entendimento) com “empresas desenvolvedoras”. Poucos dias depois, declarou não aceitar pressão, não ter pressa e que “os interessados em vender para a gente” devem se apresentar.

O ministro da Economia, no fim de outubro, cometeu um erro crasso ao afirmar a diminuição da pandemia e a retomada da economia. Dois meses depois, o mandatário — que não prorrogou o auxílio emergencial no contexto de aumento do desemprego e de pessoas vivendo em situação de pobreza — disse que só a vacinação “em massa” pode sustentar a recuperação econômica.

Ora tem, ora não tem pandemia; ora a saúde é direito, ora é uma coisa que se compra se alguém quiser vender. O Poder Executivo federal mente descaradamente. Está mais que comprovada a indisposição de ocupantes de cargos estratégicos para resolver a crise sanitária. A Presidência da República e seus ministérios se recusam a processar democraticamente divergências e conflitos. Um quadro institucional incapacitado para diferenciar verdade, ou pelo menos verossimilhança, da falsidade requer atenção urgente de órgãos legislativos, judiciários, estados e prefeituras. Constata-se uma tendência assustadora de condenar idosos, trabalhadores de baixa renda, negros e indígenas à categoria de semimortos. Divergências entre quem considera que as políticas implementadas foram instáveis e ineficazes e os que as avaliam como excelentes podem ser julgadas, em 2021, pelo confronto com princípios básicos, como o direito à saúde e à vida. A administração de interesses, valores e ambições diferenciados requer profundo respeito às esperanças por justiça.

Um SUS grande, potente, efetivamente universal e de qualidade não é um procedimento eletivo ou substitutivo, um estepe para usar quando fura o auxílio pecuniário e se apela para a vacina. É essencial para que nos tornemos perene e progressivamente mais iguais.

Bookmark and Share

'CORRUPTO DO ANO'

Iander Porcella, TERRA

O presidente Jair Bolsonaro foi eleito 'Pessoa Corrupta do Ano' pelo Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), um consórcio internacional que reúne jornalistas investigativos e centros de mídia independente. Em comunicado, o grupo diz que o mandatário brasileiro "venceu por pouco" o chefe da Casa Branca, Donald Trump, e o líder da Turquia, Recep Erdogan, devido a seu suposto papel na promoção do crime organizado e da corrupção.

"Eleito após o escândalo da Lava Jato como candidato anticorrupção, Bolsonaro se cercou de figuras corruptas, usou propaganda para promover sua agenda populista, minou o sistema de justiça e travou uma guerra destrutiva contra a região da Amazônia que enriqueceu alguns dos piores proprietários de terras do país", afirma o OCCRP.

O consórcio destaca a denúncia contra o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente, no caso das "rachadinhas" na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), quando ele era deputado estadual. Além disso, ressalta as investigações contra o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), o filho zero dois do presidente, também por um suposto esquema de repartição de salários de assessores, o dinheiro depositado por Fabrício Queiroz e sua esposa, Márcia de Aguiar, na conta bancária da primeira-dama Michelle Bolsonaro e as acusações contra o próprio presidente.

"A família de Bolsonaro e seu círculo íntimo parecem estar envolvidos em uma conspiração criminosa em andamento e têm sido regularmente acusados de roubar do povo", diz Drew Sullivan, editor do OCCRP. "A destruição contínua da Amazônia está ocorrendo por causa de escolhas políticas corruptas feitas por Bolsonaro. Ele encorajou e alimentou os incêndios devastadores", afirma Rawan Damen, diretor do Arab Reporters for Investigative Journalism e um dos jurados do prêmio.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o líder das Filipinas, Rodrigo Duterte, também já venceram a premiação.

Bookmark and Share

A TEMPESTADE PERFEITA NA ECONOMIA

Editorial ISTOÉ

No momento em que o auxílio emergencial a 48 milhões de brasileiros chegou ao fim, o Ministério da Economia reafirmou que não vai estender o benefício e que não há espaço fiscal para mais ajuda — o rombo fiscal de 2020 ultrapassou assustadores R$ 700 bilhões. E Paulo Guedes decidiu viajar para descansar. É o retrato do descaso do governo Bolsonaro com a economia e a população.

No início de 2020, o ministro da Economia vendeu a ilusão de que o Brasil estava “decolando” enquanto a pandemia se alastrava. Depois, disse que R$ 5 bilhões seriam suficientes para conter a emergência. Só agiu depois que o Congresso desengavetou uma proposta de auxílio para os informais, aderindo ao projeto e aumentando o benefício para R$ 600 por mês. Agora, disse que não há mais dinheiro para a ajuda. E continua sem plano de ação, além de apresentar apostas desvairadas de “reformas” que não convencem nem os líderes do governo no Congresso.

O fim do benefício emergencial acontece no pior momento, quando a Covid-19 lota novamente os hospitais, o número de óbitos diários passa de mil e a inflação volta a mostrar as caras: o IGP-M, referência na correção de contratos e aluguéis, atingiu 23,14%, o maior valor em 12 anos. A falta de um plano convincente de vacinação também vai impedir que a economia se recupere ao longo do ano.

Bolsonaro ainda aposta que vai desviar o foco do desastre econômico com suas lorotas sobre a vacinação ou com o ataque a opositores — tripudiar com a tortura da ex-presidente Dilma faz parte de sua tática de criar factoides em momento de crise. Mas a realidade econômica, com o fim do auxílio, o desemprego em alta (mais de 14 milhões estão sem trabalho, um recorde) e a inflação corroendo o poder de compra da população vão cobrar seu preço. Bolsonaro não tem resposta para a crise e seu ministro da Economia também não.

A disputa pela direção do Congresso, em fevereiro, é mais uma desculpa para uma “virada” na agenda econômica que não acontecerá. O problema é o presidente, que também na economia quer impor sua agenda populista e irresponsável. Isso ficará claro no início do ano novo, quanto a crise econômica atingirá o bolso da população em cheio. Bolsonaro pode enfrentar a queda de popularidade criando novas crises estapafúrdias, mas tem um encontro marcado com a opinião pública.

Bookmark and Share

PRESENTE DRAMÁTICO, FUTURO INCERTO

Editorial O Estado de S.Paulo

Em geral pouco favorável para os jovens em todo o mundo, no Brasil o mercado de trabalho tornou-se particularmente cruel para os trabalhadores com até 24 anos por causa da pandemia. No mundo, essa é a faixa etária mais atingida pelo desemprego. No Brasil, mesmo os jovens com alguma ocupação enfrentam dificuldades. Dos que trabalham, mais de três quartos, ou 77,4%, têm emprego de baixa qualidade.

Para muitos, o futuro pode não ser melhor. Alta rotatividade combinada com baixos salários minam as condições para que os jovens adquiram novos conhecimentos e novas habilidades que os preparem para ter desempenho e competências melhores e, consequentemente, salários mais altos e vida mais confortável do que a atual. Para o País, a perda de oportunidade de treinar os jovens para um mundo do trabalho cada vez mais exigente e seletivo pode significar atraso na corrida mundial pela competitividade e produtividade, fatores indispensáveis para o crescimento da economia.

São quase oito em dez jovens trabalhadores ocupados que estão em situação vulnerável, caracterizada por salários baixos, instabilidade no emprego, rede de proteção insuficiente e condições de trabalho inadequadas, como mostrou reportagem do Estado. São 7,7 milhões de jovens brasileiros trabalhando nessas condições. A vulnerabilidade entre esses trabalhadores é maior para os da faixa etária de 25 a 64 anos (dos quais 39,6% estão em condição vulnerável) e acima de 65 anos (27,4%).

Das quatro condições que caracterizam a vulnerabilidade do trabalho utilizadas na pesquisa da consultoria IDados na qual se baseou a reportagem do jornal, duas são particularmente ruins para os trabalhadores jovens: renda e estabilidade. Para cerca de 90% desses trabalhadores, a remuneração é inferior ao custo de seis cestas básicas (o rendimento mensal varia de R$ 398 a R$ 539) e 75% estão há menos de 36 meses no emprego.

No mundo, a renda dos mais jovens, por serem menos experientes, é menor do que a dos trabalhadores com mais idade. Os jovens têm também maior dificuldade de encontrar emprego, justamente por causa da inexperiência. “Mas, no Brasil, os porcentuais indicam uma qualidade do emprego pior por causa da maior rotatividade e da informalidade”, diz o economista responsável pela pesquisa, Bruno Ottoni.

Além da pressão sobre o salário, a baixa qualidade do emprego dos jovens tem outros impactos sobre a vida desses trabalhadores. Eles têm menor, ou nenhuma, proteção do sistema público de previdência e de assistência social, o que os torna desprotegidos em situações de desemprego ou de doença.

Dos jovens trabalhadores com até 24 anos de idade, praticamente um terço (32,7%) não tem registro em carteira de trabalho. Não tem direito a seguro-desemprego, por exemplo.

Com renda baixa, sem garantias adequadas e trabalhando em geral em condições inadequadas, boa parte desses jovens acaba por abandonar os estudos antes de concluir o curso que os habilitaria a ter um futuro melhor. Interrompe-se sua educação formal. E em poucas situações o trabalho será um local de aprendizado adequado de um ofício que lhes permitirá melhorar de vida. Perde-se a oportunidade de formação indispensável para que o trabalhador tenha futuro melhor e o País ganhe maior capacidade de crescimento.

Em certos casos, cria-se um círculo vicioso, no qual a baixa qualificação leva à rotatividade da mão de obra jovem e a rotatividade impede que esse jovem adquira novas habilidades e qualificações. A falta de vínculos formais de emprego, que implicam custos de demissão, realimenta esse processo. Pereniza-se um ciclo no qual o País mergulhou há anos, que impede o avanço da produtividade da economia nacional.

Até há pouco, a demografia ajudou o crescimento, pois a população em idade de trabalhar crescia mais do que os demais segmentos. Isso acabou em 2018. A produtividade poderia compensar essa perda, mas ela também está sob risco. O cenário futuro não tem brilho.

Bookmark and Share

UM GOVERNO DIVIDIDO CONTRA SI MESMO

Editorial O Estado de S.Paulo

No apagar das luzes do ano legislativo, houve alvoroço entre governo e deputados na votação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 319/17 que aumenta os repasses da União a prefeitos via Fundo de Participação dos Municípios (FPM). O objeto da deliberação ilustra a necessidade de reajustes no pacto federativo. Mas a maneira como ela foi conduzida mostra o quanto necessidades como essa podem ser desvirtuadas em moeda de troca no jogo político, eclipsando o interesse público. Ademais, expõe a esquizofrenia do Planalto.

O debate em si é pertinente. A União é pródiga em atribuir responsabilidades aos municípios, muitas vezes sem levar em conta as condições reais para a sua satisfação. O FPM é a principal fonte de recursos para os municípios, sobretudo os menores e mais desprovidos das receitas do comércio, indústria ou agricultura.

O problema envolve a questão dos repasses, mas também outras, como a própria existência de municípios pequenos demais para se sustentar, e que talvez devessem ser unidos a outros (como propõe a PEC do Pacto Federativo); ou as perdas de arrecadação dos entes subnacionais derivadas de isenções impostas pela União (como aconteceu com a Lei Kandir); e a necessidade de cobrar dos municípios reformas que garantam a sua viabilidade fiscal. 

A PEC aumenta em 1% os repasses para os municípios. Atualmente, 49% da arrecadação do Imposto de Renda e 22,5% do Imposto sobre Produtos Industrializados são direcionados às prefeituras via FPM. A proposta prevê um aumento para 23,5% em quatro fases: 0,25% nos dois primeiros anos; 0,5% no terceiro e 1% a partir do quarto ano. O projeto foi aprovado pelo Senado e em primeiro turno pela Câmara em 2019.

No dia 21, às vésperas do fim do ano parlamentar, a proposta foi incluída na pauta de votação pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). A equipe econômica do governo imediatamente acusou uma “pauta-bomba”. Com efeito, apesar de ser defendida como um meio de recompor receitas dos municípios em vista da pandemia, a proposta teria efeitos permanentes, gerando um impacto de R$ 43 bilhões em 12 anos à União. De resto, como mostrou o Estado, a maioria das prefeituras herdará um caixa mais cheio em 2021, seja porque o socorro federal superou em R$ 24 bilhões as perdas de receitas e os gastos com o combate à pandemia, seja porque a arrecadação já se encontra em patamares superiores aos do ano passado.

O secretário do Tesouro, Bruno Funchal, advertiu que a aprovação da PEC contribuiria para a desorganização fiscal, minando a credibilidade do País na sustentação das contas públicas. “Acaba sendo ruim para todo mundo. Isso reflete nos juros e a retomada fica prejudicada.” O líder do governo na Casa, Ricardo Barros (PP-PR), chegou a discutir com Maia.

Ocorre que foram parlamentares da própria base governista, encabeçados pelo deputado Júlio Cesar (PSD-PI), que pediram a inclusão da PEC na pauta. Como a proposta tem apoio do candidato do governo à presidência da Câmara, um dos líderes do Centrão, Arthur Lira (PP-AL), em menos de 24 horas o Planalto deu um cavalo de pau e passou a apoiar a aprovação. O próprio Ricardo Barros sacou uma justificativa mal-ajambrada, apoiando-se no bordão “Mais Brasil e Menos Brasília”: “Não é o melhor momento, mas está no DNA liberal do governo”.

Realmente, não é o melhor momento. Mas o fato de que de um dia para o outro tenha se tornado para o Planalto o momento certo, mostra o quanto as suas decisões podem solapar o interesse público em nome dos interesses do presidente e seus aliados circunstancias do Centrão. A votação foi interrompida a 7 minutos do fim do ano parlamentar. Mas a bomba está armada. Claramente, o governo não terá pruridos em deixá-la estourar, lançando estilhaços nas contas públicas federais já fragilizadas. “Qual a posição do governo, contra ou a favor?”, indagou Rodrigo Maia. Resta claro, já prenunciando o que virá nos próximos dois anos, que quem dará a resposta será o Centrão.

Bookmark and Share

QUARTO DE DESPEJO, 60 ANOS

Gabriela Mattos, Estante Virtual

Para comemorar, a Flup realiza debates sobre a escritora Carolina Maria Jesus todas as terças-feiras, de maio a agosto

Publicado inicialmente em 1960, o livro Quarto de despejo – Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus, completa 60 anos em 2020. Por meio do diário de uma catadora de lixo, o duro e sofrido cotidiano dos moradores de favela é relatado aos leitores. O dia a dia é narrado de forma simples, sem artifícios ou fantasias.

Para comemorar a data, a Festa Literária das Periferias (Flup) organizou debates online sobre o livro e a vida de Carolina Maria de Jesus, todas as terças-feiras, de maio a agosto. Entre os convidados estão a escritora Conceição Evaristo e a jornalista Flávia Oliveira.

Sobre a autora

Nascida em 14 de março de 1914, em uma comunidade rural na cidade de Sacramento, em Minas Gerais, Carolina só começou ir à escola aos sete anos e logo se apaixonou pela leitura. Após a morte da mãe, em 1937, mudou-se para a favela do Canindé, em São Paulo, e, para sustentar os filhos, começou a trabalhar como catadora de papel.

Nos intervalos livres, ela registrava em cadernos as situações e fatos que ocorriam no seu cotidiano. Foi a partir desses escritos que surgiu Quarto de despejo, que sempre marca presença na lista de livros mais vendidos da Estante Virtual. Vendida em 40 países, a obra foi traduzida para mais de 15 idiomas.

Que tal conhecer mais sobre Carolina Maria de Jesus? Se você já leu Quarto de despejo, pode gostar também dos livros da nossa lista. Confira!

Diário de Bitita, de Carolina Maria de Jesus

A dura luta cotidiana de uma família negra, nas primeiras décadas do século passado, narrada do ponto de vista de uma menina inteligente e interessada. O Diário de Bitita documenta seus esforços para, ainda criança, encontrar trabalho, garantir a sobrevivência material e manter a dignidade, acima de tudo. Um painel da sociedade agrária brasileira, realçado com tintas de injustiça social, preconceito e discriminação.

Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo

A história de Ponciá Vicêncio descreve os caminhos, as andanças, as marcas, os sonhos e os desencantos da protagonista. A autora traça a trajetória da personagem da infância à idade adulta, analisando seus afetos e desafetos e seu envolvimento com a família e os amigos. Discute a questão da identidade de Ponciá, centrada na herança identitária do avô e estabelece um diálogo entre o passado e o presente, entre a lembrança e a vivência, entre o real e o imaginado. 

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis

Úrsula não é apenas o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira, mas também o primeiro da literatura afro-brasileira, entendida como produção de autoria afrodescendente que tematiza a negritude a partir de uma perspectiva interna.

Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves

No final do século XIX, Kehinde, uma africana idosa, cega e à beira da morte, viaja da África para o Brasil em busca do filho perdido há décadas. Ao longo da travessia, ela vai contando sua vida, marcada por mortes, estupros, violência e escravidão. Neste romance, os fatos históricos estão imersos no cotidiano e na vida dos personagens, criando a saga emocionante e verossímil da história de Kehinde. 

A cor púrpura, de Alice Walker

Publicado com sucesso nos Estados Unidos, o romance A cor púrpura tornou-se conhecido, principalmente, após a adaptação para o cinema por Steven Spielberg. A personagem principal, Celie, negra, semianalfabeta, vivendo no Sul dos Estados Unidos, vive entre cuidar da família e planejar uma vida diferente da sua para a irmã, Nettie. Acompanhamos sua vida por mais de trinta anos, por meio das cartas que escreve para Deus e, posteriormente, para a irmã. Em oposição à solidão, pobreza, brutalidade e violência, Celie vai descobrir outras maneiras de sentir.

Bookmark and Share

AS PATENTES DA MORTE

Weiller Diniz, OS DIVERGENTES

O destacamento do capitão é um dos mais ineptos da história do Brasil. A estrela cadente que mais reluz nesse apagão da capacidade tem nome, sobrenome e patente alta. Eduardo Pazuello é um general de 3 estrelas desqualificado para comandar o Ministério da Saúde, mesmo em momentos de rotina. Ele está condenado à infâmia, seus sucessores herdarão a vergonha eterna e a instituição que representa será sócia da ignomínia depois da calamidade. Na pandemia, Pazuello mostrou-se despreparado e, direta ou indiretamente, responderá por boa parte da necrópole macabra que já acumula quase 200 mil mortes. Seres humanos sepultados sob os olhares inumanos da insipiência e da incúria. Nem a sanguinária ditadura militar ousou nomear não médicos na pasta da Saúde.

Pazuello instalou-se na cidadela da Saúde após queda de Nelson Teich, em 15 de maio de 2020. Eram 14,8 mil mortes e 218 mil casos de infecção diante de um oficial verde para lidar com a crise sanitária profunda e iminente. A desídia, palpites sem respaldos científicos, sabotagem da ciência e despreparo fizeram a pandemia explodir. Os números de mortes e infecção dispararam. Estamos perto de 200 mil mortes e mais de 7,2 milhões de casos após os maus exemplos do capitão e seus cavalariços estúpidos. Eles participaram e convocaram aglomerações, prescreveram ilegalmente medicamentos inúteis, desaprovaram vacinas sem embasamento, desprezaram o uso obrigatório de máscaras e cometeram outras atrocidades pelas quais irão responder por morticínio ou genocídio, como advertiu o ministro Gilmar Mendes, do STF.

A estratégia de Pazuello ao ingressar na fortificação foi a camuflagem total. Desativou as entrevistas diárias, retardou a divulgação dos dados de mortes e contaminados e até mesmo tentou esconder nossas vergonhosas estatísticas. Como seus preceptores no golpe de 1964, quis ocultar os cadáveres. O STF rebaixou o general e mandou dar publicidade diária do balanço da Covid 19. Em uma das primeiras marchas públicas, na Câmara dos Deputados, derrapou feito sobre o clima, embaralhando o inverno das regiões brasileiras com o hemisfério norte. Depois se desinibiu em novos disparates. Disse ignorar o que era SUS e também o que foi o AI-5. As continências vassalas ao obscurantismo desabonam a imagem do Exército, desmoralizam a formação de seus oficiais e envergonham as Forças Armadas.

Em outra frente da desonra a patente, o general da logística ilógica desperdiçou uma fortuna para estocar cloroquina para 18 anos. O remédio é cientificamente inútil para o tratamento da Covid 19. Quase perdeu cerca de 7 milhões de testes em um País marcado pelo déficit de testagem. Os argumentos para justificar o entupimento dos paióis do Exército com a cloroquina são dignos de um recruta: “Nesse sentido, e dentro do que revela a experiência humana, não poderia ser exigível comportamento diverso do Laboratório Químico Farmacêutico do Exército, senão a busca dos insumos necessários e pronto atendimento às prementes necessidades de produção da Cloroquina que, por seu baixíssimo custo, seria o equivalente a produzir esperança a milhões de corações aflitos com o avanço e os impactos da doença no Brasil e no mundo.” São 400 mil comprimidos estocados por falta de demanda e o TCU investiga possível superfaturamento.

Os corações brasileiros ficaram aflitos, de fato, com a cretinice da infantaria antivacina, ápice da desmoralização de Pazuello. Ela envolveu, não a eficácia e a segurança, mas a procedência do imunizante chinês, cujo laboratório tem um acordo com o respeitado Instituto Butantan, de São Paulo. Depois de anunciar a aquisição de 46 milhões de doses, o general Pazuello foi humilhado e desautorizado publicamente pelo capitão. O desfecho nos confere a patente universal da vergonha. Com apostas equivocadas e sem nenhuma vacina para oferecer à sociedade, o capitão capitulou, assinou a rendição e repactuou o tratado de compra da vacina chinesa que depreciava. Pazuello foi avacalhado em outra tocaia de Bolsonaro e saiu-se com um vergonhoso “um manda e outro obedece”.

Ribombando os grunhidos de guerra da obtusão entoados pelo capitão, a sentinela Pazuello gastou muita pólvora na politização da vacina. Tergiversou sobre a obrigatoriedade e quis centralizar tudo na Anvisa. Mais uma vez o governo, que recende as estrebarias dos rocins purulentos, foi chicoteado pelo rebenque do STF. A Corte recomendou sanções para quem não tomar a vacina e autorizou a importação direta de estados e municípios dos imunizantes aprovados em agências de saúde pelo mundo, no caso de a Anvisa travar além de 72 horas os pedidos de registro pressionada pelo governo. Na prática o STF reafirmou a autonomia que dera a estados e municípios no início da pandemia.

Pazuello também passou por novos constrangimentos ao ser sitiado pelo Supremo e obrigado a divulgar um plano nacional de vacinação, inexistente no auge da pandemia. O improviso da cavalaria se deu depois do adestramento judicial. Na solenidade do anúncio de um arremedo do tal plano, ao tentar escamotear o atraso brasileiro, novamente brilhou a estrela da parvalhice. “O povo brasileiro tem capacidade de ter o maior sistema único de saúde do mundo, de ter o maior programa nacional de imunização do mundo, somos os maiores fabricantes de vacinas da América Latina. Para que essa ansiedade, essa angústia?”. Se o ministro da Saúde ainda não entendeu a angústia e ansiedade com um país atemorizado, talvez não tenha cognição para entender mais nada. O mundo está vacinando e o Brasil está na retaguarda, como um pelotão abandonado e amaldiçoado.

Pazuello, que se jacta de desconhecer a história brasileira, deveria se pautar num raro arroubo de dignidade, no caso específico, o chefe das Forças Armadas dos Estados Unidos. Ao ser fotografado ao lado de Donald Trump, Mark Milley se desculpou publicamente. “Eu não deveria ter estado lá”, disse em um discurso em vídeo que gravou para exibição no início do ano letivo na Universidade Nacional de Defesa. “Minha presença naquele momento e naquele ambiente criou uma percepção de envolvimento dos militares na política interna. Como oficial da ativa uniformizado, foi um erro com o qual aprendi”, disse. “Devemos defender o princípio de um Exército apolítico que está tão profundamente enraizado na própria essência de nossa república. Isso leva tempo, trabalho e esforço, mas pode ser a mais importante coisa que cada um de nós faz a cada dia.”

Além da maior autoridade militar dos EUA, a história está repleta de outras lições para oficiais que se portam como Pazuello, por ação ou omissão. Augusto Pinochet, como senador vitalício, foi preso pelo Juiz Baltazar Garzon em razão da morte e tortura de espanhóis durante a ditadura chilena. Jorge Videla, primeiro jagunço da Junta Militar da Argentina, onde desapareceram mais de 30 mil pessoas, foi condenado a prisão perpétua por crimes contra a humanidade. Indultado por Carlos Menem voltou a ser preso e morreu na cadeia. Slobodan Milosevic, ex-presidente da Iugoslávia, foi acusado de genocídio e crimes contra a humanidade na Bósnia, Kosovo e Croácia. Réu no Tribunal Penal Internacional foi encontrado morto em sua cela em Haia.

As patentes no Brasil são sinônimo de morte. O ambíguo “braço forte, mão amiga” armou os fortes na ditadura para disparar contra o próprio povo, maculando a história com sangue e infâmia. Entre os facínoras mais impiedosos estavam torturadores, os heróis de Bolsonaro: coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (chefe do DOI-CODI) e o major Sebastião Curió (responsável pela morte de 41 pessoas na guerrilha do Araguaia). Carniceiros pusilânimes que usaram suas divisas para patentear no Brasil os crimes contra a humanidade. O “braço forte” segue cultuando o pretérito assassino ao servir a um celerado que faz apologia à tortura e à morte. As novas patentes da duvidosa “mão amiga” seguem associadas à morte, empilhando cadáveres inocentes. Fica a lição de Mark Milley: “Eu não deveria ter estado lá”.

Bookmark and Share

ABAIXO O TRIBUNAL DO JÚRI

Hélio Schwartsman, Folha de S.Paulo

O problema não é o STF abrir caminho para que jurados possam absolver réus com base em teses estapafúrdias como a legítima defesa da honra, mas o Brasil ainda manter uma instituição tão obsoleta como o Tribunal do Júri.

Não dá para querer ficar com a omelete e os ovos. Se nos guiarmos pela Constituição, o que tende a ser uma boa ideia, não vejo como não reconhecer que os veredictos dos júris, por mais absurdos que soem, sejam soberanos, já que isso está escrito textualmente na Carta.

Mais, se existe uma justificativa teórica que me parece razoável para a existência do júri, é a de poder funcionar como um contrapeso a leis que a população, representada nesse corpo de cidadãos escolhidos para julgar um caso específico, considere injustas. É a chamada nulificação por júri. Ao inocentar pessoas que haviam violado leis que as proibiam de ajudar escravos em fuga, a nulificação fomentou o movimento abolicionista nos EUA.

Apesar de um ou outro acerto, não consigo deixar de ver o júri como um fóssil, pouco compatível com julgamentos que dependem cada vez mais de conhecimento técnico. Pior, nas últimas décadas, cientistas reuniram uma miríade de evidências de que o ser humano é muito mais facilmente manipulável do que imaginávamos. Ideologia, emoções e até a glicemia do julgador influenciam suas decisões.

É claro que magistrados, que são até prova em contrário humanos, estão sujeitos a esses mesmos vieses. Mas, por serem julgadores profissionais, acabam aprendendo um truque ou dois e não caem nas manipulações mais rudimentares. E, ao contrário de jurados, juízes precisam justificar juridicamente as decisões que tomam, o que cria pressão, ainda que difusa, por racionalidade.

Lamentavelmente, o constituinte inscreveu o Tribunal do Júri no artigo 5º, o que o torna em tese cláusula pétrea. Isso significa que só nos livraremos desse arcaísmo na próxima revolução.

Hélio Schwartsman

Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…".

Bookmark and Share

O NEGACIONISMO NO PODER

Tatiana Roque, PIAUÍ

“Que aquecimento global é esse?”, questionou o deputado federal Eduardo Bolsonaro num vídeo que gravou para o YouTube em 2018, durante o inverno nos Estados Unidos. Vestindo um gorro de lã e diante de um cenário tomado pela neve, o filho Zero Três do presidente da República manifestou seu espanto com o frio, que lhe parecia desmentir a mudança climática alardeada pelos cientistas e pela imprensa. Concluiu com um conselho para seus seguidores: “Não deixe que o discurso, principalmente dos globalistas, matéria em cima de matéria, jogando essa mentira para vocês, que ela reste sedimentada como verdade [sic].”

O raciocínio ignorou que a ocorrência de invernos rigorosos em algumas localidades não é incompatível com o aumento da temperatura média da superfície do planeta – que está cerca de 1ºC mais alta do que era antes da Revolução Industrial. A suposta “mentira” denunciada por Eduardo Bolsonaro é endossada por praticamente todos os pesquisadores que se dedicam à análise do clima global. Um estudo do geólogo americano James Powell publicado no final do ano passado concluiu que, dentre os mais de 11 mil artigos científicos publicados sobre mudança climática entre janeiro e julho de 2019, não havia um único sequer que contestasse que o planeta está ficando mais quente por causa dos gases de efeito estufa lançados na atmosfera por atividades humanas.

A atitude do deputado reflete a descrença com que o conhecimento científico vem sendo tratado por alguns setores do governo e da sociedade. Até pouco tempo atrás, quando queríamos sustentar uma afirmação sem argumentar demais, bastava dizer: “É comprovado cientificamente.” Mas essa tática já não tem mais a mesma eficácia, pois a confiança na ciência está diminuindo. Vivemos hoje um clima de ceticismo generalizado, uma descrença nas instituições que favorece a disseminação de negacionismos, encampados por governos com políticas escancaradamente anticientíficas. É o caso de Donald Trump, que está tirando os Estados Unidos do Acordo de Paris, pelo qual quase duzentos países haviam se comprometido em 2015 a tentar conter os prejuízos causados pelo aquecimento global; e de Jair Bolsonaro, que também comanda um governo contrário às ações para combater a mudança climática.

Algumas pesquisas confirmam a crise de confiança que atinge, ao mesmo tempo, a ciência e a política. O fenômeno da pós-verdade – esse momento que atravessamos no qual fatos objetivos têm menos influência na opinião pública do que crenças pessoais – é um sintoma extremo dessa crise. Muita gente não enxerga que a ciência, assim como a política, existe para beneficiar a sociedade. E esse desencanto produz um terreno fértil para movimentos anticiência e teorias da conspiração (além de fomentar extremismos). A pós-verdade, assim, não designa apenas o uso oportunista da mentira (embora ele seja frequente). O termo sinaliza, acima de tudo, um ceticismo quanto aos benefícios das verdades que costumavam compor um repertório comum, o que explica certo desprezo por evidências factuais usadas na argumentação científica. Diante disso, contradizer argumentos falsos exibindo fatos reais pode ter pouca relevância em uma discussão. Evidências e consensos científicos têm sido facilmente contestados com base em convicções pessoais ou experiências vividas – como se viu no vídeo de Eduardo Bolsonaro e como se percebe todos os dias nas redes sociais.

No mundo todo, as pessoas vêm manifestando uma confiança apenas moderada na ciência, mesmo nas nações mais ricas. Nos países com renda de média para alta – grupo em que o Brasil se enquadra –, 54% dos habitantes confiam medianamente na ciência. O resultado foi obtido pelo Wellcome Global Monitor, um levantamento britânico de 2018 que investigou como a população de mais de 140 países se posiciona em relação a questões de ciência e saúde.

O resultado mais interessante é a correlação entre a desconfiança na ciência e o descrédito de outras instituições: quem duvida do conhecimento científico geralmente desconfia também dos governos, das Forças Armadas ou da Justiça. Além disso, pesa bastante o modo como a população percebe o impacto dos resultados científicos em sua vida cotidiana: pessoas que afirmam ter uma existência confortável confiam mais na ciência do que aquelas que se dizem em dificuldades. Obviamente, a exposição à ciência durante o percurso escolar e o acesso aos meios de comunicação são determinantes para gerar confiança no conhecimento científico. Mas fatores como a distribuição de renda também entram na equação: sociedades mais desiguais tendem a desconfiar mais da ciência.

Você acha que a ciência o beneficia pessoalmente ou beneficia a maioria da sociedade? Quem respondeu “não” foi classificado como “cético”. No Brasil, esse grupo representa 23% da população. Um resultado alarmante, em sintonia com a média da América do Sul, onde dois em cada cinco habitantes percebem uma desconexão entre ciência e sociedade – e isso independentemente de sua faixa de renda. Em nosso continente, a taxa de confiança nas instituições é bem menor do que em outras partes do mundo, o que se reflete num maior descrédito na ciência, em hospitais e clínicas médicas.

Mesmo em países de renda alta, pessoas que dizem ter uma vida difícil têm probabilidade três vezes maior de serem céticas do que aquelas que alegam viver em condições confortáveis. Ou seja, a atitude das pessoas em relação à ciência parece estar ligada aos benefícios tangíveis em suas vidas cotidianas. E o ceticismo é estimulado pela percepção de uma distância entre os resultados da ciência e os problemas enfrentados no dia a dia. Esse é o alerta mais importante, tanto para cientistas quanto para políticos.

A ciência e a tecnologia vão aumentar o número de empregos na sua localidade? “Não, de jeito nenhum” foi a resposta de 42% dos mil brasileiros pessoalmente entrevistados durante a pesquisa, resultado que ajuda a explicar a desconfiança. Mesmo que uma parcela de igual tamanho tenha dito que a ciência e a tecnologia podem criar empregos, é significativa a descrença de que trarão soluções para demandas urgentes.

O fundamentalismo religioso tem inquietado o meio intelectual. Com razão, pois 75% dos entrevistados dizem que, quando a ciência discorda de sua religião, seguem a orientação religiosa. Essa tendência é influenciada pela importância crescente da religião na vida cotidiana de muitas pessoas. O pertencimento à comunidade religiosa gera confiança, fazendo com que pastores, padres ou irmãos de fé sejam mais ouvidos do que figuras públicas, políticos ou cientistas.

A pesquisa mostrou ainda que um terço dos brasileiros não confia muito nos funcionários das organizações não governamentais, sendo que quase metade da população confia apenas em alguns deles. Nos últimos meses, o presidente Jair Bolsonaro e seus ministros atacaram frontalmente as ONGs, principalmente as que atuam na área ambiental, insinuando que poderiam estar por trás das queimadas na Amazônia ou do derramamento de óleo que atingiu as praias do Nordeste. A desconfiança nas ONGs ajuda a entender por que essas alegações sem fundamento não motivaram grande indignação junto à sociedade.

No meio de tantas notícias ruins, um resultado positivo: 80% dos brasileiros acham que as vacinas são seguras. Uma explicação possível é o sucesso das políticas públicas de vacinação, ao menos até 2018. É apenas um palpite, mas ações governamentais bem-sucedidas podem estar conseguindo convencer a população de que instituições, governos e cientistas, nesse caso, trabalham em prol do bem-estar da sociedade. Ainda assim, não podemos baixar a guarda: nos últimos anos, o índice de cobertura vacinal contra várias doenças vem caindo, e o sarampo, que havia sido erradicado do Brasil no passado, voltou em 2019. Ainda falta compreender melhor os fatores por trás desse fenômeno, mas ele talvez indique que movimentos antivacina estejam, neste exato momento, conquistando mais adeptos.

Uma lição a ser tirada dos dados é que precisamos de mais diálogo, melhores estratégias de convencimento e iniciativas de divulgação científica abertas à autocrítica. Não basta defender a ciência a partir de posições de autoridade, calcadas na superioridade ou na neutralidade do saber científico. Sustentar uma verdade afirmando apenas que “é comprovada cientificamente” pode reforçar a indiferença ou mesmo gerar irritação.

Talvez o efeito mais deletério da crise de confiança seja o de abrir espaço para o negacionismo climático. Coincidência ou não, a desconfiança atinge a ciência em um momento crítico, quando se torna urgente ampliar a mobilização social em torno da agenda ambiental. Se quisermos cumprir o objetivo do Acordo de Paris de limitar o aquecimento do planeta a 1,5ºC ou no máximo 2ºC em relação ao período pré-industrial, temos que agir com firmeza desde já.

Admitir a verdade científica sobre a causa humana do aquecimento global implica em transformações radicais na economia e na política, o que exige rever atitudes cristalizadas em nossos modos de vida. Hábitos de consumo e locomoção, padrões alimentares, perspectivas de futuro para os filhos, tudo isso precisa mudar. Como convencer as pessoas de que algum sacrifício vale a pena sem oferecer a elas garantias de que todas essas mudanças poderão criar um mundo melhor? Sem enxergar benefícios tangíveis em suas vidas cotidianas, aqui e agora, as pessoas provavelmente continuarão desconfiadas. E a negação pode se tornar uma alternativa tentadora. Sobretudo porque o negacionismo não se apresenta como tal, e sim travestido de “polêmica”.

Há três décadas, uma ação concertada de organizações negacionistas tenta contestar verdades produzidas pela ciência do clima. Em outubro de 2019, a House of Representatives – o equivalente à Câmara dos Deputados nos Estados Unidos – instalou uma comissão para investigar campanhas que visavam desacreditar afirmações científicas sobre o aquecimento global, bancadas pela indústria do petróleo. Por mais expressivos que sejam os recursos investidos nessas campanhas, seu alcance não pode ser explicado exclusivamente pelos interesses econômicos e políticos dos responsáveis. Talvez apenas hoje possamos medir os efeitos do novo tipo de propaganda inventado na época.

Os “mercadores da dúvida” começaram a agir nos anos 1990, quando se consolidava o consenso sobre o papel do dióxido de carbono e outros gases de origem humana no agravamento do efeito estufa (o termo vem de Merchants of Doubt, um livro essencial sobre o negacionismo climático lançado em 2010 por Naomi Oreskes e Erik M. Conway e sem edição brasileira – a obra inspirou também um documentário homônimo). Naquela década, publicavam-se pesquisas confirmando o alarme e reuniões mundiais buscavam soluções comuns (como a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a Eco-92, realizada no Rio de Janeiro). Essas iniciativas geraram fatos políticos inéditos, produzindo convergência entre adversários – incluindo democratas e republicanos, nos Estados Unidos – em torno da necessidade de combater as causas do aquecimento global.

O consenso incomodava principalmente um setor: as empresas de petróleo, maiores responsáveis pelo efeito estufa. Essas empresas não deixaram barato e adotaram a única estratégia possível para frear o consenso científico que se consolidava: semear a dúvida. O mesmo tipo de propaganda já tinha sido usado pela indústria do cigarro, nos anos 1950, ao tentar disfarçar como polêmica o consenso científico sobre as doenças causadas pelo tabaco. Como era impossível negar o aquecimento global antrópico, a única saída era travesti-lo de controvérsia. Profissionais treinados para polemizar com cientistas conseguiram espaço na mídia, explorando o condicionamento dos jornalistas a “ouvir os dois lados” envolvidos em questões contenciosas. De verdade inconveniente, o aquecimento global antrópico acabou associado na opinião pública a uma “controvérsia” que nunca houve entre os climatologistas.

O debate não era honesto, pois tais campanhas difamavam lideranças da causa ambiental e autores de estudos sérios sobre o efeito estufa, que chegaram a ter suas vidas devastadas. Nesse contexto, surgiu a alcunha de “melancia” para acusar ambientalistas de serem “verdes por fora e vermelhos por dentro”. A brincadeira não foi inócua: de modo jocoso, disseminou-se a acusação de que ecologistas famosos eram, no fundo, comunistas disfarçados. A suspeita fez com que alguns cientistas verdadeiros – especialistas em áreas distantes da climatologia, mas engajados na missão anticomunista – aderissem ao negacionismo climático. Eram poucos, mas ajudaram a legitimar a comunidade dos autodenominados “céticos do clima”. Disseminava-se um argumento similar ao que tem sido defendido por Jair Bolsonaro: sob o disfarce das causas verdes, haveria um complô internacional para diminuir a liberdade de escolha dos cidadãos e o poder de empresas que os beneficiam, pois produzem riquezas e garantem uma posição soberana para o país. No Brasil de hoje, supostos integrantes desse complô ganharam o apelido de “globalistas”.

Éimpressionante o número de ingredientes da atual crise da verdade que já estavam presentes na estratégia dos mercadores da dúvida: falsa simetria na argumentação científica (“ouvir os dois lados”); acusação de complô comunista; proliferação de think tanks para diminuir o poder de universidades e centros científicos legítimos; teorias conspiratórias; formação de especialistas por meio do manejo de mídias alternativas. Nem sempre a atuação dos negacionistas teve sucesso. Na Wikipédia, “aquecimento global” e “mudanças climáticas” alinham-se hoje com os termos estabelecidos pela ciência. Ainda assim, na versão em português houve editores que tentaram apresentar o consenso como controvérsia, o que ainda se nota em verbetes menos acessados, conforme mostrou um estudo feito por Bernardo Esteves, repórter da piauí, e Henrique Cukierman, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Seria exagero dizer que movimentos anticientíficos estejam ganhando o debate. Mas seria autoengano, por outro lado, negligenciar o quanto eles têm minado consensos sobre agendas e políticas públicas. Embora venha sendo fomentado há tempos, o negacionismo ganhou espaço inédito em governos de extrema direita ao redor do mundo. Obviamente, o caráter oficial amplifica seu poder de convencimento. Só que esses governos contam com um apoio razoável da população, que parece não se incomodar com afirmações e atitudes flagrantemente anticientíficas de seus líderes.

O caso do Brasil é exemplar. Uma pesquisa do Datafolha divulgada em dezembro passado mostra que Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente que não considera o aquecimento global um problema prioritário para sua pasta, é considerado ótimo ou bom por 27% dos entrevistados, e regular por 38%. Os números são altos, principalmente depois das queimadas na Amazônia e do vazamento de óleo em nossa costa, sem nenhum plano de contenção à altura. No geral, mantém-se um patamar razoável de aprovação a ministros caricatos, que nos surpreendem a cada dia com declarações absurdas.

A crise de confiança pode ajudar a explicar a indiferença dessa parcela da população em relação à veracidade das declarações de quadros do governo. Não é que tantas pessoas acreditem no que eles dizem, é que boa parte delas não se importa. A fragilização do tecido social e das instituições abre espaço para um ceticismo generalizado, que se traduz em rejeição ao “sistema” como um todo. É nesse terreno fértil que atitudes negacionistas podem proliferar e conquistar mais apoio. Lideranças conservadoras garantem poder político dialogando com o sentimento de deboche que acompanha o ceticismo. Mas, além da descrença, o cético se caracteriza por uma predisposição constante para a dúvida. Assim, a estratégia torna-se ainda mais eficaz quando posicionamentos políticos aparecem disfarçados como “controvérsias”. Há uma ironia nesse fenômeno, pois o “ceticismo” produzido artificialmente, mero eufemismo usado pelos negacionistas, pode se disseminar mais facilmente ao repercutir um ceticismo real. No caso do meio ambiente, as consequências de não interromper desde já a ampliação da esfera de influência de opiniões anticientíficas, mesmo quando parecem apenas suscitar dúvidas, são especialmente preocupantes, pois serão irreversíveis.

No Brasil, é mais do que óbvio que a ascensão da extrema direita tem relação direta com o negacionismo climático, alçado a política de Estado por Jair Bolsonaro. Não faltam exemplos de ações que corroboram esse diagnóstico. Durante a campanha, Bolsonaro prometeu tirar o Brasil do Acordo de Paris, a exemplo do que Trump fizera nos Estados Unidos, com base no temor tão antiquado quanto infundado de internacionalização da Amazônia. O presidente voltou atrás dessa decisão, mas nomeou um ministro do Meio Ambiente que flerta com think tanks negacionistas norte-americanos e um chanceler que considera o aquecimento global (ou “climatismo”, como ele prefere dizer) um complô de inspiração marxista. Em agosto, o presidente pediu a cabeça de Ricardo Galvão, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), por divulgar dados corretos sobre a explosão do desmatamento na Amazônia – no fim do ano, o anúncio da taxa anual divulgada pelo próprio Inpe deu razão a Galvão, com um aumento de quase 30%, o maior registrado neste século. O negacionismo não se restringiu à Esplanada dos Ministérios: em 2019, parlamentares da base de apoio de Bolsonaro convocaram para uma audiência no Senado pesquisadores que contestam o aquecimento global antrópico, embora não tenham trabalhos relevantes publicados sobre o tema e nem sejam reconhecidos como autoridade por especialistas.

Se em países como Estados Unidos, Austrália e Reino Unido o negacionismo climático é alimentado por agentes financiados pela indústria dos combustíveis fósseis, no Brasil é principalmente o agronegócio que ajuda a disseminar as contestações à ciência do clima. Trata-se justamente do setor econômico que mais contribui para o aquecimento global em nosso país: juntos, o desmatamento e a agropecuária que se instala nas terras destituídas de sua cobertura vegetal respondem por dois terços de todos os gases do efeito estufa emitidos pelo Brasil.

O agrônomo Evaristo de Miranda, chefe da Embrapa Territorial, conseguiu espalhar o argumento falso de que a extensão da floresta deixa pouco espaço para a agropecuária. Unidades de conservação, áreas indígenas, assentamentos de reforma agrária e florestas preservadas em imóveis rurais inviabilizariam o desenvolvimento nacional. Além disso, pitadas conspiratórias tornam seu argumento sedutor: a agenda ambiental vigente seria parte de um plano de países desenvolvidos para expandir suas próprias economias agrícolas, bloqueando o potencial competitivo do Brasil nesse setor. As inverdades na argumentação de Miranda já foram amplamente denunciadas (veja, por exemplo, o vídeo Fatos Florestais, produzido pelo Observatório do Clima). Ainda assim, o pesquisador da Embrapa tornou-se o braço direito de Jair Bolsonaro e conselheiro intelectual de Ricardo Salles, que aceitou o posto de ministro depois que o próprio Miranda declinou o convite para ocupá-lo.

Luiz Carlos Molion, meteorologista aposentado da Universidade Federal de Alagoas e um dos mais conhecidos negacionistas brasileiros, no ano passado fez uma série de palestras sobre a Amazônia e o clima global promovida pelo senador Marcio Bittar (MDB-AC), que também o convidou para falar no Senado. Bittar é o mesmo que propôs, junto com o senador Flavio Bolsonaro, o filho Zero Um do presidente, um projeto de lei para acabar com a reserva legal prevista no Código Florestal – a área das propriedades rurais que os produtores são obrigados a manter preservada (o projeto foi retirado pelos proponentes meses depois). Molion se vale de mentiras há muito desacreditadas pela ciência do clima – como a de que o aquecimento é provocado por fatores naturais como os ciclos da atividade solar –, que o público leigo não detecta por serem apresentadas com verniz científico, amparadas por gráficos e jargões técnicos.

Outro negacionista conhecido no Brasil, o geógrafo Ricardo Felicio, da Universidade de São Paulo, ganhou popularidade com uma entrevista que deu em 2012 a Jô Soares, que não contestou seus disparates sobre a mudança climática. Hoje Felicio defende, em diversos veículos da imprensa, que o aquecimento global é uma discussão meramente ideológica. Em 2018, o professor da USP se candidatou à Câmara dos Deputados pelo PSL, mas não se elegeu.

Jair Bolsonaro, seus ministros e sua base de apoio no Congresso reforçam, a cada dia, o poder dessa rede de conselheiros, com papel essencial na conquista de um público amplo que endosse escolhas políticas desastrosas.

Todo esse plano pode parecer invencível se olharmos apenas para o lado conspiratório. Vale a pena lembrar, porém, que estratégias apoiadas no ceticismo frutificam em um tecido social desgastado. Não fosse isso, mesmo com dinheiro, think tanks, falsos cientistas, robôs ou influenciadores digitais treinados, a repercussão poderia ser mais restrita. A prova é que esses “cientistas” negacionistas já atuam há tempos, mas não causavam tanto estrago. O pulo do gato da extrema direita foi vampirizar a desconfiança de parte considerável da opinião pública para legitimar governantes com posições anticientíficas e inserir o negacionismo na máquina estatal.

Como agir diante disso? Antes de tudo, é importante notar que o desinteresse é o problema principal. Não existe – ainda? – uma adesão maciça ao anticientificismo: as pessoas querem ser mais ouvidas e ter suas razões consideradas. Por isso, é um péssimo começo de conversa apontar a ignorância ou a crença religiosa como culpadas pela crise da verdade.

Uma pesquisa feita no Brasil em 2019 indica que a ciência ainda tem crédito junto à população, mas a desconfiança está aumentando. O Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, comparou a opinião de diferentes estratos sociais, analisando também sua evolução no tempo.

A ciência e a tecnologia trazem mais malefícios ou benefícios para a humanidade? Somando as pessoas que responderam “só benefícios” com as que disseram “mais benefícios do que malefícios”, o total é de 72%. E esse percentual não muda significativamente quando focamos nos estratos de rendas mais baixas. No entanto, mesmo que seja importante manter algum otimismo, não podemos relaxar. Entre 2015 e 2019, o percentual de “só benefícios” caiu muito (de 53% para 30%), ao mesmo tempo em que aumentou o percentual dos que dizem trazer “mais benefícios do que malefícios” (de 19% para 41%). Há um dado importante que desestabiliza explicações fáceis baseadas apenas na renda: na faixa dos que ganham mais de dez salários mínimos, a queda do entusiasmo é ainda mais perceptível. A visão positiva ainda é expressa por 77% das pessoas nesse estrato, mas o percentual dos que enxergam só benefícios caiu de 61%, em 2015, para 26%, em 2019. No mesmo período, a dúvida – contida na expressão “mais benefícios do que malefícios” – aumentou de 24% para 51%. Ou seja, a desconfiança não chega a ser majoritária, mas o ceticismo se insinua, independentemente do estrato social dos entrevistados.

Será que os brasileiros se sentem contemplados pelo modo como são tomadas as decisões sobre ciência e tecnologia? Parece que nem tanto. É praticamente consensual, em todas as faixas de renda, a reivindicação de que a população seja ouvida quanto aos rumos da ciência e da tecnologia. A proporção dos que concordam totalmente com essa afirmação, somada a dos que concordam em parte, chega a 83%.

Atender a uma demanda como essa não é simples. Nos meios acadêmicos, aumenta a consciência de que pesquisadores devem se comunicar melhor e fazer mais divulgação científica. É um ótimo começo, porém a população parece querer também participar das decisões. Mas como tornar democráticas escolhas sobre temas complexos abordados na ciência? Lidar com evidências, manejar dados e experimentos, dominar bibliografias e estabelecer colaborações são ingredientes da prática científica que exigem treino, protocolo e dedicação. Por isso, é difícil compartilhar todos esses processos com não iniciados. Simplificando as coisas, o desejo de participação, expresso na pesquisa, pode não ser o de opinar em todas as etapas da produção científica. Talvez reflita uma demanda por mais informação a respeito das consequências das escolhas dos cientistas, permitindo a um público mais amplo interferir na avaliação de prioridades.

A reivindicação por mais participação nas decisões é um indício de que a desconfiança na ciência está ligada à crise da democracia. Durante muito tempo, cientistas tiveram uma espécie de carta branca para enunciar verdades a partir de métodos aos quais poucos têm acesso. É como se existisse um acordo tácito: “Acreditem, pois possuímos os atributos necessários para a realização de verificações consistentes.” Esse acordo não está mais funcionando, ao menos não como antes.

Ocorre algo similar com diferentes profissionais da verdade, cujas afirmações costumavam ser legitimadas a priori, com base na autoridade para lidar com informações não acessíveis a todos. Além de cientistas, jornalistas, intelectuais, professores e experts têm sido questionados, dificultando sua atuação como mediadores entre o poder político e o público em geral. Intermediários sempre tiveram um papel importante no sistema de pesos e contrapesos que faz com que a democracia funcione, o que vai além dos momentos eleitorais.

Atualmente, lideranças desprovidas de qualquer credencial técnica ou acadêmica reivindicam autoridade para enunciar verdades, pois o contato direto com o público, favorecido pelas redes sociais, dispensa mediações. É assim que novos formadores de opinião conquistam seguidores e disputam a prerrogativa de influenciar o poder público. No Brasil, como vimos, chegam a participar ativamente do governo.

Disputar espaço com esses novos atores usando diplomas ou reconhecimento acadêmico não parece a melhor estratégia. A fragilização da democracia decorre também da descrença em soluções tecnocráticas, vistas como elitistas e pouco permeáveis à opinião das pessoas comuns. Portanto, reafirmar verdades científicas a partir de posições de autoridade pode ser um tiro no pé.

O desafio de fazer mais e melhor divulgação científica ganha relevância estratégica em tempos de emergência climática. Entender que há uma desconfiança legítima – que atinge boa parte da população – é essencial para acolher as dúvidas e iniciar uma conversa com quem ainda não se mobiliza pela questão ambiental. O diagnóstico da crise mundial de confiança na ciência, discutido no início deste artigo a partir da pesquisa Wellcome Global Monitor, não menciona as mudanças climáticas. Contudo, os resultados fornecem pistas valiosas sobre os caminhos a seguir. Insistir apenas na reafirmação do consenso científico sobre o aquecimento global antrópico é insuficiente. Ao fragilizar a imagem da ciência – vista como pouco dedicada a obter benefícios para os problemas cotidianos dos cidadãos –, a desconfiança gera dificuldades para a agenda climática.

Depois de décadas realizando encontros e participando ativamente da costura de acordos internacionais pelo clima, é preocupante que a causa ambiental não seja popular no Brasil. Culpar os atuais governantes não basta. O desinteresse de governos, mesmo progressistas, em relação ao tema reflete a indiferença da maior parte da população, confirmada pela ausência desse debate nas campanhas eleitorais. Não é por falta de conhecimento científico que a agenda ambiental não mobiliza os brasileiros. Mesmo entre as organizações que lutam há tempos pela preservação do meio ambiente, nota-se uma dificuldade de tornar essa pauta mais abrangente.

Medidas para evitar o colapso climático precisam ser vinculadas a valores mais amplos do que a preservação da vida no planeta. É essencial que essa agenda consiga apontar saídas para as aflições do presente: só assim poderá ser vista como uma aposta interessante. O papa Francisco, cujo pontificado tem sido marcado pela preocupação ambiental, tem um diagnóstico elucidativo sobre a anestesia que envolve o tema: “Este comportamento evasivo serve-nos para mantermos os nossos estilos de vida, de produção e consumo”, escreveu Francisco em Laudato Si’, sua encíclica de 2015 dedicada à causa ambiental. “É a forma como o ser humano se organiza para alimentar todos os vícios autodestrutivos: tenta não os ver, luta para não os reconhecer, adia as decisões importantes, age como se nada tivesse acontecido.”

Talvez a ofensiva da extrema direita abra caminho para ações mais efetivas também dos setores da sociedade que não se alinham com o governo. Estratégias de divulgação científica, especialmente no caso da mudança climática, precisam partir de novas premissas e abordagens, abertas à constituição de uma imagem da ciência distinta daquela que habitou nosso imaginário durante as últimas décadas. Em outros momentos históricos, a ciência não adquiriu legitimidade de modo automático. A percepção dos benefícios científicos e tecnológicos ajudou a moldar a relação do público com os cientistas. O século XX, por exemplo, com suas bombas atômicas e naves espaciais, associou à ciência uma imagem de força e poder – inicialmente destrutivo, mas logo associado à promessa de um futuro melhor. Já a climatologia tem uma natureza bem distinta, pois lida com simulações de cenários pessimistas para as próximas décadas, construídas por modelos diversos e dependentes de muitas variáveis. Além de ser uma área recente.

O climatologista francês Hervé Le Treut admite que o negacionismo climático desenvolveu-se a partir de fragilidades reais da ciência do clima. “Digamos que a ciência, porque segue uma ética – o que também é sua força –, é fácil de contestar”, afirmou o pesquisador em setembro passado ao jornal francês Le 1. Ou seja, a ciência só afirma algo quando tem certeza absoluta, e a climatologia levou alguns anos para obter resultados seguros. Enquanto havia apenas presunção das mudanças climáticas antrópicas, os cientistas foram cautelosos em suas afirmações, o que é correto, mas tal atitude abriu espaço para a ação dos negacionistas. Mais tarde, entre o final dos anos 1990 e início dos 2000, quando as provas já eram robustas, não foram suficientes para “convencer atores que não queriam ser convencidos”.

A maior riqueza da ciência não são as certezas produzidas ao fim do processo de investigação, e sim o modo qualificado de tratar as dúvidas durante esse processo. Ser cético é o que se exige de todo cientista. Por isso, “ceticismo” é um termo desvirtuado para designar os negacionistas, e a ciência precisa reivindicá-lo. Incertezas, perguntas, problemas e questões em aberto são matérias-primas da ciência e podem ser usadas para valorizar o ceticismo. Faz falta, contudo, explicitar melhor os processos que permitem à ciência extrair, das dúvidas iniciais, algumas certezas.

Em novo livro publicado no final de 2019, Why Trust Science? (Por que confiar na ciência?), sem edição em português, Naomi Oreskes sugere que a confiança na ciência deve ser reconquistada por seu caráter consensual, mais do que por sua autoridade. O método científico e as evidências empíricas são insuficientes: cientistas se autocriticam e criticam uns aos outros antes de tirar conclusões. Por isso, o grau de diversidade e de abertura de uma comunidade é essencial para garantir a confiabilidade do conhecimento obtido. A capacidade de se autocorrigir depende do trabalho coletivo e da possibilidade de desenvolver experiências e simulações reprodutíveis em culturas e contextos diversos. Esses atributos diminuem o peso da autoridade e podem ajudar a mobilizar mais pessoas para apreciar a ciência do clima, para além da comunidade de iniciados.

Ao mesmo tempo, será necessário reforçar os desdobramentos políticos ligados à agenda ambiental. No fim das contas, é preciso que as pessoas efetivamente se importem com o colapso climático para que considerem modificar seus modos de vida, mas também para que vislumbrem desde já algum ganho que compense o esforço. Como a vida não está nada boa para a maioria das pessoas, não parece impossível convencê-las de que vale a pena uma aposta inovadora. Momentos de crise podem suscitar novos arranjos políticos que tenham impacto no presente e ajudem a lidar com os desafios que temos diante de nós. Ações coletivas podem ser mais eficazes do que certezas e verdades contra o negacionismo. Por isso, estratégias científicas e políticas precisam andar de mãos dadas.

TATIANA ROQUE

É professora de matemática, história das ciências e filosofia da UFRJ, e coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura. Também é filiada ao Psol

Bookmark and Share