sábado, 31 de dezembro de 2022

FELIZ 2023 !

Caros leitores, amigos, mais um ano termina. 2022 foi um ano de muitas conquistas e recordes para o blog Sou Chocolate e Não Desisto, resultado de muito trabalho nestes 17 anos de existência. 

A cada ano, ganhamos mais repercussão na internet, entre blogs e sites que reproduzem nossas postagens. Nas redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram, o blog tem se destacado.

A todos leitores, amigos, muito obrigado! Desejo um Ano Novo de realizações, saúde, muito amor, paz e esperança. Feliz 2023!. Abraço, Valerio Sobral.

Em 2023 vem novidades aí nos 18 anos do Sou Chocolate e Não Desisto.

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MORRE PAPA BENTO XVI

Do g1

Papa Bento XVI morre aos 95 anos

Primeiro papa a renunciar em quase 600 anos, a saúde de Joseph Ratzinger vinha se debilitando nos últimos anos.

O Papa Emérito Bento XVI morreu neste sábado (31), aos 95 anos, após passar por uma piora repentina de saúde nos últimos dias. O velório está marcado para começar na segunda-feira (2) na Basílica de São Pedro, sendo que o funeral será na quinta-feira (5) na Praça de São Pedro, presidido pelo Papa Francisco, segundo o Vaticano.

"É com pesar que informo que o Papa Emérito Bento XVI faleceu hoje às 9h34 [5h34 no horário de Brasília] no Mosteiro Mater Ecclesiae no Vaticano", escreveu o perfil de notícias do Vaticano no Twitter.

A saúde de Joseph Ratzinger vinha se debilitando nos últimos anos. O Vaticano havia dito nesta sexta-feira (30) em um comunicado sua condição era grave, mas estável, com atenção médica constante. Desde a renúncia, em 10 de fevereiro de 2013, o teólogo alemão vivia em um pequeno mosteiro no Vaticano.

Embora o gesto mais marcante de seu pontificado tenha sido a própria renúncia, os quase oito anos no comando da Igreja Católica também foram marcados por textos teológicos de fôlego, uma linha conservadora nas questões morais, e escândalos de disputas políticas e vazamentos de documentos do Vaticano – os chamados Vatileaks.

“Houve tempos difíceis, mas sempre Deus me guiou e me ajudou a sair, de modo que eu pudesse continuar o meu caminho”, disse Ratzinger no seu aniversário de 90 anos, já aposentado.

Renúncia ao papado

Papa Bento XVI surpreendeu o mundo quando anunciou sua renúncia, em latim, durante uma reunião rotineira com os cardeais presentes em Roma. Muitos papas da era moderna chegaram a cogitar a renúncia por motivos de saúde, entre eles Paulo VI e João Paulo II, mas nenhum deles havia concretizado essa decisão.

Na ocasião, aos 85 anos, Bento XVI disse que o motivo para deixar o cargo era a falta de forças na mente e no corpo.

“No mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor, seja do corpo, seja do ânimo, vigor que, nos últimos meses, em mim diminuiu, de modo tal a ter que reconhecer minha incapacidade de administrar bem o ministério a mim confiado.” – Papa Bento XVI

A diferença de Bento XVI em relação a outros papas que renunciaram no passado é que ele deixou o cargo de forma consciente e voluntária, alegando não ter mais forças para governar. Renunciou quase 600 anos depois de Gregório XII, que renunciou em 1415, em meio a uma divisão política na Igreja. A ideia de Gregório XII era permitir a eleição de um novo pontífice que a unificasse. Ainda mais notável, porém, foi o caso do Papa Celestino V, considerado santo pela Igreja. Em 1294, ele renunciou após apenas cinco meses no trono de Pedro, virou eremita e, no fim da vida, foi mantido prisioneiro de seu sucessor, o Papa Bonifácio VIII.

Diferentemente deles, e por escolha própria, Bento XVI tornou-se o primeiro Papa Emérito da história. Continuou se vestindo de branco e não renunciou à confortável vida no Vaticano, protegida de holofotes e multidões. Mas adotou um estilo simples e, com exceção de algumas aparições públicas e comentários teológicos publicados por escrito, manteve-se isolado. Ao renunciar, ele prometeu obediência ao seu sucessor, que viria a ser o Papa Francisco, eleito em 13 de março de 2013.

“Com um ato de extraordinária audácia, ele renovou o ofício papal, e com um último esforço o potencializou”, disse Dom Georg Gänswein, secretário particular de Bento XVI e Prefeito da Casa Pontifícia, em maio de 2016, num evento em Roma.

“Não é surpreendente que, para alguns, ele seja visto como revolucionário. Outros veem nisso um papado secularizado, mais humano e menos sacro. Outros, ainda, são da opinião de que Bento XVI tenha quase desmistificado o papado", disse Gänswein.

O escândalo Vatileaks

Embora o discurso oficial do Vaticano seja o da falta de forças para governar, até hoje muito se especula sobre os motivos que levaram à renúncia de Bento XVI. Ele mesmo afirma que a decisão foi tomada após sua viagem ao México, em março de 2012, quando levou uma queda e sentiu o peso da idade em um voo intercontinental. Foi quando percebeu que não seria capaz de ir ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) de 2013.

Leia também:

FRASES: Entenda o pensamento do Papa Bento XVI

ANÁLISE: As 5 principais crises do papado de Bento XVI

FOTOS: Reveja momentos da vida de Bento XVI

O momento era difícil para a Igreja Católica: os escândalos do Vatileaks expuseram uma série de problemas na forma como o Vaticano vinha sendo conduzido, entre corrupção, desvios de dinheiro, condutas sexuais contrárias ao ensinamento da Igreja e jogos de poder.

Na época, relatos na imprensa internacional mostravam um Papa isolado no Palácio Apostólico, enquanto a Igreja era comandada, na prática, pelo secretário de Estado, o cardeal Tarciso Bertone – posteriormente envolvido numa polêmica por causa da reforma de seu apartamento de 700 m usando recursos do hospital infantil Bambino Gesù, do Vaticano.

Idoso e pouco popular, Joseph Ratzinger tinha seu poder e influência enfraquecidos. Em vida, ele mesmo reconhecia que a administração não era o seu ponto mais forte e, por isso, delegava boa parte das decisões a pessoas de confiança, como o cardeal Bertone.

Em entrevista ao biógrafo Peter Seewald, autor de “O Último Testamento”, Bento XVI garantiu que jamais abandonaria a “barca de Pedro” em mar tortuoso, como pressões externas ou após a traição de alguns colaboradores. Afirmou que já havia solucionado os problemas ligados ao Vatileaks e vivia “no estado de espírito de quem pode passar o leme a quem vem depois”.

Um dos colaboradores mais próximos a ele, o mordomo Paolo Gabriele, foi condenado por ter vazado documentos pessoais do papa ao jornalista Gianluigi Nuzzi. Após prisão e julgamento, Gabriele foi perdoado por Bento XVI e continuou trabalhando no Vaticano, em outras funções. O mordomo dizia que sua intenção era expor os escândalos para ajudar o pontífice. Além dele, ninguém mais foi condenado.

Dom Gänswein insiste que a renúncia de Bento XVI não está ligada aos escândalos. “É bom que eu diga com toda a clareza que o Papa Bento, no fim, não renunciou por causa do pobre e mal dirigido ajudante de quarto [o mordomo Paolo Gabriele]”.

“Aquele escândalo era pequeno demais para uma coisa do gênero. Foi muito maior o bem ponderado passo de grandeza histórica milenar que Bento XVI realizou.” - Georg Gänswein, secretário particular de Bento XVI.

Defensor da fé

Em seu livro-entrevista com Ratzinger, Peter Seewald defende a ideia de que o principal objetivo de Bento XVI em seu pontificado era demonstrar ao mundo e à própria Igreja, atordoados por tantas mazelas, que a fé ainda é importante e que Deus é essencial para a humanidade.

“Os oito anos de seu ministério foram uma espécie de grandes exercícios espirituais dos quais a Igreja precisava para consolidar o castelo interior e fortalecer a própria alma”, escreveu o jornalista.

Para o padre e historiador italiano Roberto Regoli, a “a questão central do pontificado beneditino é a fé em Jesus Cristo, que no mundo ocidental está em nítido regresso”.

A maioria dos textos que publicou como Papa tinha esse direcionamento. Para muitos, o grande legado de Bento XVI são os seus textos teológicos, que ainda serão estudados por muitas gerações.

Entre seus clássicos acadêmicos está o livro “Introdução ao Cristianismo”, que compila lições universitárias publicadas em 1968. Amante da música clássica, Bento XVI tocava piano e tinha apreço especial pelas obras de Mozart. Já a série de livros “Jesus de Nazaré”, que contou a história da vida de Jesus com toques de história e teologia, foi um best-seller em muitos países.

Além das dezenas de livros que escreveu quando foi professor de teologia, bispo, arcebispo e Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Ratzinger assinou três encíclicas (documento mais importante escrito por um papa) e deixou uma quarta pronta, para ser assinada por Francisco.

Especialistas notam mudanças no tom e nas teses defendidas por ele ao longo da vida. A encíclica Caritas in veritate (“Caridade na verdade”), desafiou o mundo a encontrar modelos de desenvolvimento social e econômico mais humanos, centrado no amor.

“O Papa Ratzinger é um homem de estupenda e belíssima inteligência”, disse o cardeal austríaco Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, amigo e discípulo de Bento XVI, em uma longa entrevista ao canal italiano TV 2000.

“Sua força, no entanto, não é só essa, mas a simples e humilde amizade com Jesus que transparece em todos os escritos e em tantas de suas belas homilias", disse Schönborn.

Críticas

Tanto como papa quanto como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – órgão responsável pela disciplina e os dogmas – Bento XVI foi muito criticado por algumas alas da Igreja. Dois grupos, em especial, viram nele uma espécie de algoz ao menos em alguns momentos de sua vida.

Primeiro, os que pediam mudanças progressistas nas doutrinas morais da Igreja, especialmente no que diz respeito à moral sexual. Assim como João Paulo II, Bento XVI adotou uma linha predominantemente conservadora nessas questões.

Em diversas ocasiões, ele manifestou, por exemplo, ser contrário ao aborto em qualquer circunstância, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, à distribuição de preservativos como política pública, ao fim do celibato dos padres e à flexibilização das normas da Igreja para pessoas em segunda união.

O segundo grupo que criticava o Papa era formado por representantes da teologia dita “de esquerda”, como os chamados teólogos “da libertação”. Esse movimento típico da América Latina nasceu nos anos 1960 e 1970 e conciliava a defesa dos pobres na política com o cristianismo. Parte dos membros dessa linha adotou um viés marxista e, durante o pontificado de João Paulo II, foi alvo de sanções disciplinares. No Brasil, ficou conhecido o teólogo Leonardo Boff.

O padre jesuíta alemão e português Andreas Lind explicou ao g1 que alguns “excessos de mudança radical, próprios dos anos 1960, realizados tanto na sociedade como em alguns setores da Igreja, talvez expliquem a atenção prestada por Bento XVI à continuidade com a tradição do passado”. Segundo Lind, uma das grandes contribuições de Ratzinger foi o diálogo entre fé e razão.

“O senhor é o fim do velho ou o início do novo?”, perguntou o biógrafo Peter Seewald a Bento XVI. “As duas coisas”, respondeu o papa aposentado.

Infância e adolescência

Joseph Aloisius Ratzinger nasceu em Marktl am Inn, município do estado da Baviera, na Alemanha, e cresceu durante o período em que o regime nazista ganhou força na região. Seus primeiros anos de vida, até a adolescência, foram passados em Traunstein, perto da fronteira com a Áustria. Foi na região que o futuro papa começou sua formação cristã e cultural.

Ele chegou a participar da Juventude de Hitler durante a adolescência, o que gerou polêmica após sua eleição – a participação no movimento era obrigatória desde 1939 e o Vaticano justifica que, assim que pôde, o jovem Ratzinger optou pelo seminário.

Em 1943, já mais para o fim da Segunda Guerra Mundial, Ratzinger e seus colegas de seminário foram convocados para os serviços auxiliares antiaéreos. Ele não chegou a participar das batalhas devido a uma infecção em um dos dedos, que não permitiu que ele aprendesse a atirar.

Foi ordenado padre em 1951 e bispo em 1977. No mesmo ano, o Papa Paulo VI o nomeou cardeal. Nunca deixou de escrever e dominava seis idiomas: alemão, italiano, francês, latim, inglês e castelhano, além de ter conhecimentos de português.

Chegou a ser arcebispo de Munique, na Alemanha, e de 1981 a 2005 ocupou o cargo de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, tornando-se braço direito do Papa João Paulo II, no comando das questões morais. O objetivo desse escritório vaticano é justamente prezar pela manutenção das tradições e pela conservação das doutrinas católicas.

Eleição ao papado

Sua proximidade com o Papa fez com que Ratzinger se tornasse o favorito no conclave que o elegeu, em 2005. Muitos diziam que o seu papado seria de transição. No conclave, foram necessárias quatro votações para que um único nome recebesse mais de dois terços dos votos.

Ao aparecer em público como papa pela primeira vez, ele disse:

“Amados Irmãos e Irmãs, depois do grande Papa João Paulo II, os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor.

Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações.

Na alegria do Senhor Ressuscitado, confiantes na sua ajuda permanente, vamos em frente. O Senhor ajudar-nos-á. Maria, sua Mãe Santíssima, está conosco. Obrigado!”

Veja abaixo uma reportagem do Bom Dia Brasil de 2010, quando Bento XVI se tornou o novo Papa:

REVEJA: Cardeal alemão Joseph Ratzinger é eleito novo Papa Bento XVI

O último papa a adotar o nome de Bento havia sido o italiano Giacomo della Chiesa, entre 1914 e 1922, o Bento XV. E São Bento, o fundador da Ordem Beneditina, é o padroeiro da Europa.

Bento XVI visitou o Brasil em maio de 2007, entre os dias 9 e 13, para dar início à 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, em Aparecida, no interior de São Paulo. Foi nesta ocasião que Frei Galvão foi canonizado, tornando-se Santo Antônio de Sant’Anna Galvão, o primeiro santo nascido no Brasil.

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sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

BOLSONARO VAI BRINCAR DE GOLPE COM PATETA, HARRY POTTER E CINDERELA

Helena Chagas, OS DIVERGENTES

Aos 45 minutos do segundo tempo, Jair Bolsonaro parece ter percebido que sua estratégia de sair de fininho, em silêncio, pode lhe custar a liderança da oposição no país. Por isso, fez uma última live antes da fuga anunciada e ensaiou certo recuo: condenou o terrorista George Washington e fez um discurso de quem olha para frente, ao dizer que não partirá para o “tudo ou nada” e que o mundo não vai acabar em 1º de janeiro.

Mas Bolsonaro, nesse último pronunciamento ao país, continua irremediavelmente golpista – e deixa entrever sua estratégia e discurso na oposição nos próximos quatros anos.

Embora tenha dito que não iria contestar as urnas e condenado o terrorismo – medo de ser punido, certamente -, o Bolsonaro quase ex-presidente pegou no colo os golpistas que ainda se aglomeram nas portas dos quartéis. Como se não houvesse elementos suficientes a mostrar que saem desses acampamentos os terroristas que ameaçam a população, o presidente referiu-se à “massa”  de pessoas que foi para as ruas, protestando.

“Essa massa, atrás de segurança, foi para os quartéis. Não participei desse movimento, me recolhi. Acreditava, e acredito ainda, que não falar sobre o assunto para não tumultuar mais ainda. O que houve pelo Brasil foi uma manifestação do povo, não tinha liderança, ninguém coordenando. E o protesto, pacífico, ordeiro, seguindo a lei, tem que ser respeitado, contra ou a favor de quem quer que seja”, disse Bolsonaro.

Com essas palavras, e o argumento de que “não foi uma campanha imparcial”, estruturou o discurso que deve manter na oposição e que servirá para continuar agregado seus golpistas – o de que as eleições não foram justas. Equilibrando-se nas palavras para não ser acusado de cometer crime contra a democracia – o que já fez muitas vezes – , passou a mão na cabeça dos golpistas e indicou que continuará estimulando esse comportamento.

Dados do controle aéreo mostram que o airbus presidencial, com Bolsonaro a bordo, está decolando neste início de tarde para Orlando. Aparentemente, uma viagem só de ida, de quem teme perder o passaporte e quer esperar como é que ficam os inquéritos dos quais é alvo no STF antes de decidir se volta ou se oficializa a fuga. Que Bolsonaro receba bons conselhos do Pateta, do Harry Potter e da Cinderela…

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ADEUS, BOLSONARO

Vera Magalhães, O Globo

Que o Brasil saiba desarmar a bomba do extremismo golpista que ele deixou antes de sair pela porta dos fundos do palácio e da História

O ano termina amanhã e, com ele, o mais desastroso governo do Brasil pelo menos desde a redemocratização. O país precisará, a partir de domingo, ser reconstruído em todas as suas esferas, das relações sociais à economia, passando por direitos humanos, educação, saúde, ciência, cultura, meio ambiente e todas as demais áreas da vida nacional.

Não será tarefa simples fazer as pessoas voltarem a confiar em vacinas e a seguir o calendário de imunização, mesmo de suas crianças. Parece trivial, mas dará trabalho voltar a reunir as famílias para almoçar sem que alguém levante dúvida sobre a segurança das urnas eletrônicas e a regularidade das eleições.

Levará tempo para que pais outrora moderados deixem de enxergar infiltrados comunistas nos professores dos seus filhos ou parem de bradar nos grupos de WhatsApp contra a ideologia de gênero nas escolas caras em que matriculam suas crianças, sem ter a mais pálida ideia de que bobagem estão falando.

A sociedade brasileira foi violenta e rapidamente radicalizada nos últimos quatro anos por Jair Bolsonaro, seus filhos e apaniguados. Alimentada à força com doses diárias e cavalares de teorias da conspiração incubadas no exterior e inoculadas aqui.

O resultado são esses danos graves no dia a dia da sociedade, mas também casos extremos como as células de terrorismo doméstico que estão espalhadas pela deep web ou acampadas em frente a quartéis.

Cada um dos 37 ministros que Lula terminou de escalar nesta quinta-feira terá de lidar, além dos assuntos de sua pasta, com a tarefa de fazer o Brasil voltar a dialogar em torno de ideias que, por mais divergentes, sejam ideias, e não teorias da conspiração ou negacionismo criminoso levados de contrabando para o debate público.

O responsável por degradar não apenas a Amazônia, o ensino e a cultura, mas a simples noção de que é possível dialogar com respeito e tolerância com quem pensa diferente, está prestes a sair de fininho, à francesa, enquanto deixa o circo que armou pegando fogo.

Não se pode dizer que Bolsonaro tenha chegado a governar, no sentido de todos os dias despachar questões administrativas, econômicas e políticas que digam respeito ao conjunto da população brasileira. Não. Foram quatro anos de construção de narrativas políticas, de destruição de instituições e consensos e de obsessão por se manter no poder, proteger a si e aos seus.

São esses os vetores que levaram o ocupante do Planalto até amanhã a se ausentar de maneira inédita e vexaminosa do governo que ainda levava seu nome pelos dois últimos meses inteiros de seu mandato.

Remoendo a derrota, maquinando viradas de mesa ou planejando a saída do país, pouco importa. É inacreditável que centenas de brasileiros ainda estejam dormindo em barracas em louvor a um político que chegou aonde chegou de forma incidental, se portou de maneira vil numa pandemia que ceifou mais de 694 mil vidas e, diante da derrota, age sem um pingo de hombridade.

Não houve nenhum governo impecável na História democrática do Brasil, antes e depois da ditadura militar. Cada um dos presidentes eleitos da República teve suas idiossincrasias, e cada ciclo foi marcado, em maior ou menor grau, por corrupção, fisiologismo, patrimonialismo e outras chagas históricas que o Brasil teima em não erradicar.

Lula, que retorna agora, cometeu erros históricos, imperdoáveis para quase metade da população brasileira, que não reconhece sua vitória e para quem ele terá obrigação de também governar, sob pena de vivermos novo ciclo de interdição da política e de paralisia econômica.

Mas ninguém desde a ditadura havia atuado deliberadamente para conspurcar o Estado Democrático de Direito. Que o adeus a Bolsonaro seja definitivo, e que o Brasil saiba desarmar a bomba do extremismo golpista que ele deixou antes de sair pela porta dos fundos do palácio e da História.

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MORTE DE PELÉ OFUSCA ANÚNCIO DOS NOVOS MINISTROS

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Era a personalidade brasileira mais admirada e reconhecida internacionalmente; sua morte está tendo enorme repercussão mundial.

A Esplanada, com 37 novos ministros indicados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, representa uma coalizão de nove partidos no primeiro escalão. Há 11 ministros sem filiação ou vinculação partidária. Ontem, foram indicados os 16 que faltavam, entre os quais duas estrelas, Simone Tebet (MDB) no Planejamento e Marina Silva (Rede) no Meio Ambiente, ambas ex-candidatas a presidente da República. MDB, União Brasil e PSD levaram nove dos novos indicados, a maioria políticos sem projeção nacional. Agora, Lula administra o descontentamento do Solidariedade, PV e Cidadania, partidos que o apoiaram no segundo turno e ficaram fora do primeiro escalão. Lula pretende ampliar seu governo com indicações dessas legendas para cargos importantes no segundo escalão, mas isso ficará para depois da posse.

Entretanto, o anúncio dos novos ministros foi completamente ofuscado pela morte do Pelé, aos 82 anos, que estava internado em estado grave, no Hospital Alberto Einstein, em São Paulo. Ele era a personalidade brasileira mais admirada e reconhecida internacionalmente; sua morte está tendo enorme repercussão mundial. Foram proféticas as palavras do escritor e jornalista Nelson Rodrigues, ao ver Edson Arantes do Nascimento jogar pela primeira vez e se surpreender com a idade do craque: “É um menino, um garoto. Se quisesse entrar num filme da Brigitte Bardot, seria barrado”, escreveu na coluna intitulada “Meu personagem do ano”, de janeiro de 1958. Pelé tinha apenas 17 anos.

“Mas, reparem: é um gênio indubitável! Pelé podia virar-se para Michelangelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los com íntima efusão: ‘Como vai, colega?’.” Pelé foi coroado rei do futebol pelo cronista em março de 1958, quando Nelson Rodrigues escreveu na Manchete Esportiva: “Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável — a de se sentir rei, da cabeça aos pés”. Manteve a coroa de forma eterna. Para os especialistas, será muito difícil surgir um jogador tão completo quanto ele. Tive o privilégio de vê-lo jogar no Estádio Mario Filho, no Maracanã, contra o Flamengo e com a camisa rubro-negra, ao lado de Zico.

Ele foi personagem marcante do meu primeiro trabalho remunerado, ainda na adolescência. Minha missão era retransmitir os jogos da Copa da Inglaterra (1966) na loja de venda de anúncios classificados dos jornais O Dia e A Notícia na Baixada Fluminense, à na Rua Manoel Teles, em Duque de Caxias. A tarefa consistia basicamente em ligar e desligar o rádio e os alto-falantes, abrir e fechar a loja, que mais tarde viria a abrigar a sucursal dos dois diários de Chagas Freitas na Baixada Fluminense e nos quais comecei minha vida de repórter, em fevereiro de 1969. Ainda não havia transmissão direta por tevê.

A campanha da Seleção Brasileira de futebol foi a mais atabalhoada já feita, apesar de os jogadores chegarem com a aura de bicampeões do mundo. Na preparação, o técnico Vicente Feola convocou 47 jogadores, que se revezavam em quatro times. A equipe passou por Lambari, Caxambu, Teresópolis, Três Rios e Niterói antes de viajar a Londres. Paulo Amaral, o preparador físico, deu lugar ao professor de judô Rudolf Hermanny, cujos métodos eram inadequados para o futebol. Apesar de ganhar massa muscular, a equipe não aguentava os 90 minutos de correria em campo.

Duas Copas

Além disso, a equipe titular somente foi escalada e passou a treinar às vésperas da Copa. Reuniu craques de 1958 e 1962, como Pelé, Garrincha, Gilmar e Bellini, e jogadores que ainda iriam se destacar com a camisa do Brasil na Copa do México de 1970, como Gérson, Jairzinho, Lima e Tostão. Na estreia, o Brasil ganhou da Bulgária por 2 x 0, gols de Garrincha e Pelé. A multidão, que acompanhava os jogos pelos alto-falantes, sorria, urrava e chorava de alegria. Quando o jogo acabou, fechei a loja, fiz um lanche no City Caxias, o bar da esquina, e fui para a rodoviária pegar o Meier-Caxias, de volta casa, no Engenho Novo, no Rio. A sensação era de sócio da vitória da Seleção e de dever cumprido. Pelé era o meu herói, o orgulho da nação.

No jogo seguinte, porém, veio a decepção. Antes de a partida começar, concentrada sob os pilotis do prédio onde ficava a loja, a multidão já estava apreensiva, porque Pelé não entrou em campo contra a seleção da Hungria. O rei havia sido perseguido implacavelmente pelos zagueiros da Bulgária; foi vitorioso, mas acabou contundido. Com ajuda dos camaradas búlgaros, eram dois países da chamada Cortina de Ferro, os húngaros venceram por 3 x 1 e acabaram com invencibilidade brasileira de 13 jogos em mundiais. A última derrota havia sido justamente para a Hungria, em 1954, na “Batalha de Berna”, como o jogo ficara conhecido, por causa da briga entre os atletas das duas equipes.

Pelé entrou em campo no jogo seguinte, e a esperança voltou aos torcedores, que uivavam quando o locutor narrava as jogadas do craque. A vaga para as quartas de final estava sendo disputada com a seleção de Portugal. Entretanto, Pelé jogou contundido, na base do sacrifício; de novo, foi duramente caçado pelos adversários, sem condições físicas de escapar das chuteiras dos marcadores. O Brasil foi derrotado por 3 x 1 e eliminado da disputa. Quando a partida terminou, meu trabalho acabou. Desliguei os alto-falantes, o rádio, fechei a loja e fui para casa chorando, como a maioria dos torcedores. É a mesma tristeza que senti ontem, só que agora é irreparável, ao contrário do que aconteceu em 1966. Na Copa do México, que assistimos ao vivo e em cores pela tevê, quatro anos depois, Pelé e seus companheiros conquistariam o tricampeonato mundial de futebol para o Brasil.

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PELÉ FEZ DO ESPORTE ARTE

Flávia Oliveira, O Globo

Foi um tesouro que ajudou, mais que qualquer outro jogador, a transformar o Brasil no país do futebol

A monarquia no Brasil chegou ao fim na tarde de uma chuvosa quinta-feira, 29 de dezembro de 2022. Cento e trinta e três anos depois de proclamada a República, partiu o Rei Pelé, primeiro e único, reconhecido aqui e mundo afora — Roberto Carlos, rei para nós, seus fãs, não é universal. Aos 53 anos, não carrego memória de assistir ao vivo Edson Arantes do Nascimento em campo, tampouco contestei sua realeza. Inequívoca.

Jornalista, tive por ofício a possibilidade de viajar para alguns países. Em todos, ao me saberem brasileira, as pessoas faziam referência ao Rei do Futebol. Quando não acontecia, citava eu mesma o ilustre monarca. Pelé, para brasileiros no exterior, era cartão de visita, visto, passaporte. Era a senha para escancarar sorrisos, abrir portas. Ainda é. Será.

Por ser compatriota de Pelé, mais de uma vez recebi pedido ou recomendação de levar na bagagem camisas da seleção brasileira, as amarelas, para ofertar a estrangeiros, dos Estados Unidos à África. Em 1969, ano em que nasci, Pelé viajou com o Santos para jogar um amistoso contra uma seleção do Centro-Oeste da Nigéria. A História conta que a região, em conflito, parou a guerra para lotar o estádio e assistir à partida, que terminou 2 a 1 para o time do Rei. Soberano do futebol, o mineiro de Três Corações fez do uniforme instrumento de diplomacia.

Nas últimas semanas, o agravamento do estado de saúde de Pelé me fez visitar sua trajetória. Aydano André Motta, meu marido, comentarista no SporTV, enfileirou em nossa TV um punhado de rankings dos dez gols mais bonitos do homem que sacralizou a camisa 10. Inacreditável nem sempre serem coincidentes. Impossível para mim montar uma lista própria; quase todos a que assisti poderiam estar no topo.

Pelé não foi só o único jogador de futebol a vencer três Copas do Mundo, a primeira com 17 anos, em 1958. Marcou 1.282 gols — o milésimo, por sinal, contra o nosso (dele e meu) Vasco da Gama. Anotou tudo isso num tempo de bola e uniformes sem o mínimo de tecnologia para melhorar desempenho, como sublinhou Ruy Castro em coluna na Folha de S.Paulo. Era um fenômeno. Aos 21 anos, já tinha acumulado 479, quase o triplo dos 167 de Ronaldo, o segundo que mais marcou até a maioridade. Lionel Messi, protagonista do terceiro título da Argentina no Catar 2022, fez um décimo (51); Neymar, 140.

Pelé fez do esporte arte. Ciente do próprio valor, tornou-se marca e abriu caminho para jogadores de futebol fazerem fortuna, não apenas com a bola, mas com a imagem. Não mais de um terço de sua carreira foi registrado em vídeo. E virou rei. Tivesse todas as partidas documentadas, não haveria título de nobreza para classificá-lo.

Pelé era perfeito na profissão, o melhor, o maior. Foi um tesouro que ajudou, mais que qualquer outro jogador, a fazer do Brasil o país do futebol. Foi o atacante dos sonhos, o atleta do século XX. Há quem o considere o maior brasileiro de todos.

Fez-se, por mérito — não por nascimento, que tinha por sobrenome —, o rei negro de uma nação forjada na escravidão, profundamente racista.

Pelé foi de outro mundo no futebol. E humano, com as qualidades e os defeitos inerentes a todas as pessoas. Exibiu como ninguém a potência dos pretos brasileiros, mas não foi o ativista que o movimento negro desejava. Preocupou-se com as criancinhas brasileiras, mas não foi o pai que filhos e filhas de um país de mães solo sonhavam. Não foi o ministro, o cantor nem o comentarista que tantos outros gostariam. Foi Pelé. Não era imune a críticas, mas também é racismo exigir dele na vida a perfeição que exibia em campo.

De todos os lances a que assisti nos dias que antecederam a morte do Rei, me impressionou como ele era capaz de se manter de pé. Havia o talento para driblar e fazer gols. E a capacidade extraordinária de não ir ao chão. Pelé também foi resiliência. Homem, negro, de origem pobre, venceu quase sempre de pé — metáfora encarnada. E coroava seus tentos pulando mais alto, punho erguido, socando o ar. A brasilidade expressa também na capacidade de produzir alegria e, com ela, celebrar. Lição para todos nós, seus súditos.

Valeu, meu Rei.

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BELLA CIAO

Fabio Giambiagi, O Globo

Em breve, voltaremos a tratar de números e outros aspectos frios da realidade. Hoje, porém, é hora de celebrar o ano que vem pela frente

 “O sadismo não pode ser considerado uma estratégia política, mas uma perversão moral” (Procurador Strassera, em “1985”)

Sempre gostei da filosofia de Desmond Tutu, que sugeria: “Não levante a voz: melhore seu argumento.” Em condições normais, encaro esta coluna como um espaço de convencimento, em que a batalha se dá em função da qualidade do raciocínio e não da intensidade do sentimento.

Hoje, porém, irei esquecer tal filosofia. Deixemos então, por um momento, a razão de lado para deixar o sentimento fluir, pois chega ao fim uma época sinistra.

Os historiadores do futuro terão dificuldade em entender como fomos vítimas da praga bíblica que se abateu sobre nós nos últimos anos, com seu legado macabro de tragédias e perdas. Nesta época de trevas, em que o simples exercício da compaixão se tornou malvisto por aqueles que fizeram do desprezo um meio de vida, conhecemos o que o ser humano pode revelar de pior.

Em perspectiva, será preciso lamber feridas profundas e cicatrizar as dores da alma nacional.

Nesse processo, esperanças darão lugar, provavelmente, a novas decepções. Assim é, desde que o homem existe. “A cada dia, a sua agonia”, reza o ditado. Deixemos isso para depois. Hoje é dia de comemoração pelo fim de uma época de pandemia y otras cositas más — comemoração permitida, de vez em quando, até aos economistas... Se estivéssemos na Itália em outros tempos, a multidão entoaria nas ruas a música “Bella Ciao” — em delírio cívico.

Embora a origem da música seja controversa e muitos a situem no século XIX, foi como hino de resistência ao fascismo que ela acabou por se popularizar, convertendo-se em uma espécie de emblema da liberdade, após ser “incorporada” pelos Partigiani da Resistência.

De forma resumida, a música diz: “O bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao/Uma mattina mi son’s svegliato/E ho trovato l’invasor/O partigiani portami via/Che mi sento di morir/E se muoio da partigiano/Tu mi deve seppellir/E seppellire lassù in montagna/Sotto l’ombra di un bel fior.” (O bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao/Uma manhã eu acordei/E encontrei um invasor/Ó resistente me leve embora/Pois sinto que vou morrer/E se eu eu morrer na Resistência/Você deve me enterrar/E enterrar lá na montanha/Sob a sombra de uma flor.)

Recuperando a história da música, contada através das décadas por diversos intérpretes, é possível identificar sua lógica. Ela descreve o encontro com um “invasor” que tomou conta da casa de quem relata os fatos e que, movido pelo desespero, cogita a ideia da própria morte, numa reflexão que se mistura com o ânimo de reagir ao intruso.

Desse ânimo, surgem forças para tentar enfrentar essa atmosfera de crueldade e medo, sabendo que o último ato da peça poderá ser a morte do autor do relato, mas num contexto de euforia e de conclamação à música, vista como um ato de rejeição à brutalidade.

Com um compasso vivace, não é difícil entender por que a música acabou se transformando em uma espécie de símbolo de enfrentamento com o arbítrio. Símbolo esse no qual, nos cânticos, a figura original da chamada dirigida ao ser amado se transforma em uma despedida irônica à entidade (pessoa, partido ou movimento) que encarna aquilo cuja partida passa a ser objeto de festa (uma forma de “Tchau, querida”, adaptada ao gosto do freguês).

Parodiando Galvão, bem se poderia gritar a plenos pulmões, como na Copa de 1994: “Acabou! Acaboooou!”

Há símbolos que são retratos de época. A fotografia da menina fugindo do napalm foi uma marca da guerra do Vietnã. A frase de que “a civilização abandonou o Brasil”, de Yvonne Bezerra, será uma boa definição dos anos que estamos encerrando nestes tristes trópicos, com sua sequela de absurdos.

Em breve, voltaremos a tratar de números e outros aspectos frios da realidade. Besteiras fiscais não faltarão. Hoje, porém, é momento de celebração ao ano que vem pela frente, torcendo que a pandemia et caterva fiquem para atrás — e de gritar, a plenos pulmões: BELLA CIAO, CIAO, CIAO!

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O 2022 DE LULA E BOLSONARO

César Felício, Valor Econômico

Ano para os polarizadores não seguiu o calendário

O ano de 2022, em termos políticos, começou ainda em 2021 e talvez não termine tão cedo. Foi um ano naturalmente dominado pela sucessão presidencial, e a de Bolsonaro foi mais longa que o normal.

Do lado de Lula, é possível situar o marco zero em dezembro do ano passado, no restaurante Figueira, em São Paulo, quando Lula e Alckmin debutaram como parceiros perante a classe política. Foi o primeiro movimento importante de Lula desde que recuperou seus direitos políticos, em março de 2021.

Lula sinalizou com uma aliança partidária ampla, podendo alcançar siglas do centrão, que lá estavam representadas no jantar do Figueira, mas com poucas concessões no campo econômico. Ele reafirmou bandeiras tradicionais da esquerda, como o freio ás privatizações, por exemplo, e não julgou necessário, ou quem sabe não achou útil, divulgar uma “carta ao povo brasileiro”, como fez em 2022.

Esse padrão de fazer concessões ao centro sem que se flanqueie a ele acesso ao núcleo decisório foi seguido na montagem do ministério. Simone Tebet no Planejamento e Geraldo Alckmin no Desenvolvimento terão seu raio de ação condicionado ao espaço que Fernando Haddad na Economia e Rui Costa na Casa Civil lhes proporcionarem.

As pastas reservadas ao PSD, MDB e União Brasil são acima de tudo pagadoras de emendas parlamentares. É um desenho de quem se sabe fraco no Congresso e sem condições de repetir esquemas ilícitos de cooptação parlamentar, como foram o mensalão e o petrolão. Esquemas ilícitos poderão haver, mas dificilmente os mesmos.

Lula nunca deixou de estar na liderança da corrida eleitoral, oscilando entre 40% e 50% nas pesquisas de intenção de voto. Quem cresceu ao longo do ano foi o presidente Jair Bolsonaro. Do ponto de vista estritamente utilitário, pensando no cálculo eleitoral e descartando considerações de ordem moral ou de responsabilidade fiscal, ele errou pouco. Concentrou seus erros, que atingiram o patamar do grotesco, no período pós-eleitoral.

O ano de Bolsonaro também começou em 2021, mas em novembro, com a aprovação do calote nos precatórios para bancar programas sociais. Meses depois, em junho, o Congresso permitiu a ampliação desses programas em pleno período eleitoral, quebrando por completo a paridade de armas. Foram duas demonstrações extraordinárias de força no Legislativo, certamente ajudadas pelo fato do presidente alinhar-se oficialmente ao Centrão, ao se filiar ao PL, também em novembro de 2021.

Bolsonaro contou ainda com o Legislativo para sangrar os cofres estaduais e baixar os preços dos combustíveis na marra, reduzindo a carga tributária. Os preços de derivados de petróleo de fato caíram ao longo do ano e esta queda foi associada a sua atuação.

O presidente foi ajudado ainda pela inconstância de Sergio Moro, que abandonou o Podemos e a disputa presidencial em março, quando disputava o terceiro lugar nas pesquisas com Ciro Gomes. A integralidade da parcela do eleitorado que optava por Moro migrou para Bolsonaro.

O presidente rapidamente recuperou boa parte da popularidade perdida na pandemia. Se em 2018 teve 46% dos votos no primeiro turno, agora foram 43%. Uniu a direita sem nuances em torno de si.

Os demônios que ele despertou contudo, ameaçam o seu destino político.

Bolsonaro desde os anos 80 já demonstrou ter uma lógica terrorista. Teve que enfrentar um processo, por ter, em uma conversa com jornalista, mencionado um plano para explodir banheiros na Aman e na Vila Militar, para protestar contra baixos salários.

Nos últimos anos fez verdadeiras odes ao armamento da militância. “A arma de fogo, mais do que garantir a vida de uma pessoa, garante a liberdade de um povo”, disse no dia em que ganhou as eleições.

Esse ano, houve uma sequência de seis episódios de violência política praticada ou tentada. Bolsonaro tentou se desvincular dos primeiros e não se pronunciou sobre os últimos.

Em julho, um petista foi assassinado em seu aniversário por um bolsonarista, em Foz do Iguaçu. Em 24 de outubro, Roberto Jefferson atirou granadas em policiais que foram cumprir um mandado em sua casa. cinco dias depois a deputada Carla Zambelli, arma em punho, correu atrás de um cidadão nos Jardins.

O pior veio com a derrota eleitoral. Bolsonaristas bloquearam rodovias em todo país, para tentar forçar um colapso econômico e provocar a intervenção militar. Em um vídeo de dois minutos, Bolsonaro pediu para pararem com isso, mas exortou seus apoiadores a continuarem nas portas dos quartéis.

No dia 9 de dezembro, a uma plateia de bolsonaristas na frente do Palácio da Alvorada, Bolsonaro falou por 16 minutos e incentivou a ação direta. “Quem decide o meu futuro, para onde eu vou, são vocês. Quem decide para onde vão as Forças Armadas, são vocês. Quem decide para onde a Câmara e o Senado vão são vocês. Não é ‘eu autorizo não’, é o que eu posso fazer pela minha pátria”.

Em outras palavras, mexam-se. Eles se mexeram. No dia 12, o da diplomação de Lula, Brasília testemunhou carros e ônibus incendiados e uma tentativa de invasão do prédio da Polícia Federal. No fim de semana do Natal veio à tona um complô para explodir bombas no aeroporto e provocar o estado de sítio. O presidente sobre nada se pronunciou.

É possível que os adeptos de Bolsonaro sejam removidos à força das portas dos quartéis em algum momento. Talvez até distúrbios sejam registrados no momento da posse, mas ele poderá estar na Flórida, sem ter esperado “a decisão do povo”, como prometeu.

Uma característica do presidente é a de fazer política sozinho, mas agora até jogar para a arquibancada tornou-se difícil.

A quatro dias do fim de sua gestão, Bolsonaro inovou ao vetar um dispositivo aprovado pelo Congresso pela manhã e recuar do veto no começo da noite, pressionado pela base, enquanto Lula conseguiu aprovar licença para gastar acima do teto em troca de lastro para a reeleição de Arthur Lira na Câmara e espaço para o Centrão no governo. Dono de corações e mentes de milhões de brasileiros e de uma grande bancada no Congresso, Bolsonaro parece não saber o que fazer.

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'COMPANHEIROS' E 'COMPANHEIRAS'

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Lula quis combinar competência, diversidade e equilíbrio político. Vai funcionar?

Luiz Inácio Lula da Silva anunciou cada ministro como “o companheiro” ou “a companheira”, fosse ele ou ela do PT, “que não é fácil”, do PDT do seu feroz adversário Ciro Gomes, do União Brasil do seu algoz Sérgio Moro ou de qualquer um dos nove partidos que vão se alojar – e eventualmente, ou certamente, se digladiar – na Esplanada dos Ministérios. É a “frente ampla”.

O que mais chamou a atenção no anúncio do último pacote de ministros não foi o excesso de 37 pastas, que já se sabia, nem os escolhidos, já esperados, mas, sim, o atraso, a insistência em valorizar as escolhas femininas e a forma de Lula de se referir à sua equipe a três dias de assumir seu terceiro mandato, depois de tudo.

Talvez a única surpresa de última hora tenha sido o “companheiro” Waldez Góes para o Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional, pasta política, promissora e disputada. Governador do pequeno Amapá, Góes é do PDT que fez oposição a Lula, está a caminho do União Brasil, um saco de gatos, e é adversário do senador Randolfe Rodrigues, que será o líder do governo no Congresso. E Lula, provavelmente, não conhecia nem sabia quem era.

Então, por que logo ele? Porque Lula precisava “dar” três ministérios para o União Brasil e estava difícil pinçar alguém da sigla que já não tivesse metido o malho no PT, na esquerda, no próprio Lula. Afinal, o União Brasil une (artificialmente, aliás) o ex-DEM, que sempre foi oposição a eles, e o ex-PSL, nada mais, nada menos, partido de Jair Bolsonaro em 2018.

Entrou em ação o senador Davi Alcolumbre, ex-presidente e líder inconteste do Senado e craque do orçamento secreto. Somou-se o pragmatismo de Lula e o de Alcolumbre, que se sentou ao lado da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, durante o anúncio. Assim, Góes sai do PDT para o União Brasil, tentando disfarçar as velhas guerras e a presença de Moro no partido. E também levam três pastas, cada um, o MDB e o PSD de Gilberto Kassab – que, aliás, garante vagas no governo Lula e a articulação política de Tarcísio de Freitas em São Paulo. Água e azeite!

No mais, são 11 mulheres no total de 37 ministros: Marina Silva, Simone Tebet, Nísia Trindade, Ana Moser, Margareth Menezes, Sonia Guajajara, Esther Dweck, Luciana Santos, Anielle Franco, Daniela do Waguinho e Cida Gonçalves. E as presidências do BB e da CEF também irão para mulheres.

Entre velhos sobrenomes, como Calheiros e Barbalho, e desconhecidos, como Juscelino Filho e André de Paula, Lula tentou combinar competência, diversidade e equilíbrio de forças políticas anti-Centrão. Acertou? O tempo dirá.

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UMA NOVA VISÃO DO GOVERNO QUE ASSUME

Claudia Safatle, Valor Econômico

Pedido para que desoneração dos combustíveis não fosse prorrogada contou pontos a favor da racionalidade econômica de Lula e sinalizou que ele está atento às questões fiscais.

Quando assumir o cargo de presidente da República, domingo, Luiz Inácio Lula da Silva estará buscando implementar uma nova visão de governo na política econômica. Uma ótica que privilegiaria a demanda e cuja sustentação acadêmica encontra-se na Universidade de Campinas. Seria preciso, portanto, aumentar a renda para as pessoas comprarem mais bens e serviços, com isso, colocar-se-ia a economia para rodar. O Estado, ao aumentar o gasto, acabaria gerando mais renda, o que se reflete no orçamento.

Fala-se muito hoje em conflito distributivo e em justiça social, o que é um imperativo urgente, mas é raro ouvir alguém, no governo que assume, discorrer sobre eficiência econômica, produtividade e competição. Essa é uma mudança grande de foco. A visão econômica de que o Estado, ao gastar, produz renda, parece uma leitura parcial de Keynes, que é verdade quando a economia está em recessão ou depressão. Mas quando não está, não dá para desconhecer a reação da oferta.

Há um equívoco quando os políticos dizem que precisamos crescer para resolver os problemas do Brasil. Na verdade, precisamos resolver os problemas do país para crescer. O crescimento é resultado. O gasto do Estado é importante, mas não é suficiente. E sobre isso ainda vem a questão de que não há problema no Estado se endividar na sua própria moeda. Não há risco de solvência. Se o gasto do setor público resolvesse os problemas estruturais, nenhum país os teria.

É até verdade que não haveria risco de insolvência, porque bastaria resgatar a dívida e monetizá-la. Se não houver, porém, expansão da oferta de forma quase que simultânea, duas coisas devem acontecer: haverá aumento dos preços porque a demanda terá aumentado; e uma parte dela vai se extravasar para as importações. Isso aconteceu no Plano Cruzado, quando houve elevação dos salários e teve ainda a queda abrupta da inflação e a demanda explodiu. Ali foi um problemão, pois não havia reserva cambial para sustentar um aumento expressivo das importações. Hoje, essa poderia ser inclusive uma forma de se fazer uma transição para um aumento efetivo da oferta.

Será que este seria o melhor momento para se implementar essa visão econômica no país? Os políticos dirão que não dá para esperar mais. É sustentável? É difícil porque os países competem entre si.

O fato é que o ministério montado pelo presidente da República não conquistou corações e mentes, deixando a dúvida sobre a sua capacidade de executar tão relevante missão.

A China, quando manteve os salários no resto do mundo achatados, fez isso pela concorrência. Não perguntou para ninguém. Eles alegam que tiraram 800 milhões de pessoas da pobreza. Os demais países não tiveram condições de competir.

Há duas formas de se ver o mundo: uma, que a humanidade é colaborativa e solidária; a outra, que é mais dura, considera que o jogo econômico é competitivo. Se a visão dominante é dos que consideram o jogo competitivo, terá que se olhar mais para a eficiência econômica.

Alias, a agricultura no Brasil é o que é hoje porque está exposta a competição internacional das commodities. Ou ela recebe investimentos ou não teria como exportar.

Lula já declarou que não vai privatizar mais e quem quiser se instalar no país terá que criar uma empresa do zero. Quando se compra uma empresa existente, não há criação de novos empregos num primeiro momento, mas se a empresa ficar mais eficiente, competitiva, ela terá que ter investimentos.

Não dá para desconsiderar os problemas sociais que o Brasil acumula. O país já faz, no entanto, bastante transferências (entendidas como pagamentos a pessoas sem que elas produzam ou, ainda, aumento de salários sem ganhos de produtividade).

Nas últimas eleições, quando um dos candidatos apresentou-se com uma visão aparentemente diferente para a política econômica, a taxa de câmbio subiu, e os juros se abriram, mas ao vencer o pleito esse candidato esclareceu quais eram as suas propostas e o cambio voltou e os juros caíram. Agora, isso não aconteceu, e o que se ouviu do governo foi que o mercado gosta de especular.

“Mas se eu vou governar e quero que dê certo eu tenho que reduzir as incertezas e não aumentá-las. Tenho que usar o mercado a favor do meu governo. Mas o que eu estou vendo é as pessoas parando para ver como será o governo”, disse uma experiente fonte do mercado financeiro.

Agora, cada pequeno sinal é observado com lupa. A informação de que o ministro indicado para a Fazenda, Fernando Haddad, pediu a Paulo Guedes que não prorrogasse por mais 30 dias a isenção de impostos sobre combustíveis, por recomendação de Lula, foi contabilizada como pontos a favor da racionalidade econômica do presidente eleito. É um sinal de que ele está atento às questões fiscais. E se é assim porque no discurso Lula tem alimentado as incertezas, fomentado os riscos?

Isso onera mais os custos do seu governo. Só em taxa de juros sobre a dívida mobiliária são cerca de 200 pontos base. Um ônus, em tese, desnecessário.

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LULA DIVIDE O PODER COM ALIADOS

Reinaldo Azevedo, Folha de S. Paulo

Lula contraria predições enfezadas e divide o poder com os aliados

Sai a arruaça de colisão do bolsonarismo; volta o presidencialismo de coalizão

Pronto! Lula indicou os 37 ministros. Talvez haja alguma pacificação "Duzmercáduz", sei lá. Ou o contrário. Não tenho intimidade com essa gangorra e enforcaria o último especulador com a tripa metafórica do último experto (com "x") que tortura os fatos para que caibam em suas apostas. Os olhares analíticos têm lá seus respectivos vieses. O meu é reconstruir o tecido institucional esgarçado e resgatar entes de Estado, como as Forças Armadas, das trevas da fascistização. Nesta quinta, mais uma vez, vimos o Exército servir como "supernanny" de golpistas.

Eis, pois, o meu lado nessa história. "Com responsabilidade fiscal ou sem, Reinaldo?" Ah, com ela! Mas não confundo as minhas próprias contas ou as dos meus amigos e fontes (e seus inevitáveis interesses) com o Evangelho Revelado. Já nem cito o pressuposto, sendo pressuposto, da responsabilidade social. Acrescento aos dois pilares um terceiro: a responsabilidade política.

Não se cumpriu uma das predições dos anjos do Armagedon. Os que andaram fazendo "dumping" do caos asseguravam que o PT voltava ao poder com um apetite de Pantagruel e uma sem-cerimônia de Gargântua ao exibir seus dotes de colonizador do Estado. Pois é... O partido ficará com dez pastas apenas. Terá a Fazenda e a Casa Civil —eixos da política econômica e da articulação com o Congresso—, além de Educação e Desenvolvimento Social, pastas fundamentais, sim, para estruturar ações para os pobres. No mais, petistas assumirão funções ligadas ao assessoramento pessoal do presidente e com áreas que têm mais demandas do que verbas.

Acompanhei, com alguma estupefação, o tom de escândalo que se tentou emprestar à indicação de Fernando Haddad para a Fazenda. Houve quem se indignasse com o fato de ele ser próximo de Lula. Que coisa! Simone Tebet (MDB) no Planejamento pacifica um pouco os inquietos. É escolha que eu não faria, noto. E não porque lhe faltem qualidades, mas porque lhe sobram justas ambições. Há o risco da massa negativa: a soma que diminui. Torço para que assim não seja. A "desfascistização" dispensa ruídos dessa natureza.

Lula conseguiu trocar no ar algumas peças de um avião escangalhado, conduzido por um porra-louca que se esforçava para derrubar a aeronave, ainda que todos, incluindo ele próprio, morressem. É escorpião de fábula. A aprovação da PEC da Responsabilidade Orçamentária foi uma precondição para estruturar uma base de apoio, esforço que teve de passar pelo Congresso que aí está e mirar o próximo, ainda mais povoado de, digamos, exotismos morais, éticos e ideológicos.

Nove partidos ocuparão a Esplanada. No papel, somarão 262 deputados (51%) e 45 senadores (55%), mas há opositores declarados em União Brasil, PSD e MDB. O número de votos com os quais o futuro governo pode contar é menor. Os petistas Alexandre Padilha (Relações Institucionais) e Rui Costa (Casa Civil) terão muito trabalho. No que respeita à divisão do poder, surpresos devem estar os mascates de crise: as três legendas citadas terão ministérios ditos "de entrega", que inauguram obras —Transportes, Cidades e Desenvolvimento Regional— ou respondem pelo financiamento e gestão de áreas essenciais: Agricultura e Minas e Energia. Não estavam na campanha de Lula, mas somarão nove ministérios, um a menos do que o PT.

Aqui e ali, tentações recalcitrantes que remanescem da peste lava-jatista entortam o nariz para a negociação com os partidos. Sabemos no que deu "a alternativa". Ademais, sai Anderson Torres, entra Flávio Dino. Sai Damares Alves, chegam Silvio Almeida, Anielle Franco e Cida Gonçalves. Sai Marcelo Queiroga, vem Nísia Trindade. Camilo Santana ocupará a pasta que já foi de Ricardo Vélez Rodríguez, Abraham Weintraub e Milton Ribeiro. Marina Silva volta ao Meio Ambiente, que ficou exposto à "boiada" de Ricardo Salles. Esqueço as tripas metafóricas e sinto uma espécie de conforto civilizatório que não faz a Bolsa subir ou o dólar cair.

Tiro quatro colunas de férias e, sendo vontade da Folha, volto no dia 3 de fevereiro. O Brasil olhava o abismo, mas conseguiu virar o rosto quando o abismo olhou para ele. O fujão cumpriu a promessa e desconstruiu muita coisa. É preciso reconstruir e avançar. Feliz Ano Novo!

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PROGRESSO NA INCERTEZA

Laura Karpuska*, O Estado de S. Paulo

É possível progredir mesmo em períodos de grande incerteza

Apesar de tudo, é possível enxergar progresso mesmo em períodos de grande incerteza

O que o futuro nos guarda? É fim de ano. Inevitavelmente, refletimos sobre o passado e nos preparamos para o futuro.

O último Relatório de Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas ressalta a dificuldade do nosso tempo. “Vivemos em um mundo de preocupação: a continuidade da pandemia da covid-19, guerra na Ucrânia, temperaturas recordes, incêndios e tempestades.”

Segundo a ONU, há três grandes fontes de incerteza sobre o futuro: a desestabilização planetária causada pelo chamado antropoceno (impacto do homem sobre o planeta), mudanças estruturais sociais e a intensificação da polarização.

Analisando mais de 14 milhões de livros em três línguas diferentes (inglês, espanhol e alemão) publicados nos últimos dois séculos, Bollen e coautores encontram um aumento significativo de linguagem refletindo uma percepção negativa do mundo. As pessoas também vêm reportando mais emoções negativas, segundo uma pesquisa Gallup.

Além de causar frustrações e emancipar sentimentos negativos, as incertezas mencionadas acima, e discutidas no relatório, também podem dificultar a capacidade de uma sociedade em atuar coletivamente. Isto acontece porque períodos de alta incerteza estão correlacionados com maior desconfiança e polarização social. Quem se sente inseguro, confia menos no outro, nos seus representantes políticos e nas instituições.

Esse ambiente reduz o espaço público de debate, que é tão necessário para que se possa discutir abertamente os problemas que enfrentamos no âmbito ambiental, social e econômico. Sem debate, dificilmente encontraremos boas soluções para esses problemas. Os brasileiros sentiram isso na própria pele nos últimos anos.

Apesar do grande alarde, o relatório termina em tom otimista. A incerteza “apresenta oportunidades para testar o pensamento convencional e permitir futuros reimaginados”. O desenvolvimento tecnológico propiciou vacinas durante a pandemia com uma rapidez inimaginável. Fusão nuclear, inteligência artificial e biologia sintética podem abrir novos caminhos para a humanidade.

A melhora é certa? Não, claro. O próprio relatório ressalta a importância de políticas públicas que possam estimular investimento, seguridade, inovação, educação, reconhecimento social – para reduzir a alienação social – e representatividade.

Otimismo parece uma boa recomendação para todo fim de ano. Apesar das dificuldades, é possível enxergar progresso em períodos de grande incerteza.

*PROFESSORA DO INSPER, PH.D. EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK EM STONY BROOK

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O MINISTÉRIO DE LULA E O CONGRESSO

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Com ministério pronto, Lula monta base no Congresso, mas ainda faltam votos

Políticas a que Lula vai dar de fato prioridade, quem vai tocar esses barcos e se são capazes de fazê-lo são as próximas definições

Luiz Inácio Lula da Silva deu nove ministérios, ou praticamente isso, para MDB, PSD e União Brasil. Juntos, esses partidos terão 143 deputados federais a partir do ano que vem.

Como era de esperar, o núcleo da base bolsonarista, PL, PP e Republicanos, não levou nada —até agora. Juntos, têm 187 deputados. Em uma conta simples, a coalizão de apoio a Lula 3 tem 283 deputados.

Não se adquire apoio de partido com porteira fechada, em bloco, como se sabe. Haverá recalcitrantes no centrão luliano. Haverá quem vote com o governo mesmo em partidos como o PL, casamento da extrema direita com a fisiologia mais crua, assim como no PP e no Republicanos. A negociação, de resto, não acabou.

Há cargos para distribuir, alguns até para agraciar uma liderança mais graúda dos partidos bolsonaristas. Haverá acertos para a divisão de postos de poder no Congresso. Há vagas em diretorias, superintendências e outros feudos menores. Há mais trabalho a fazer para obter apoios, por meio de partilha de poder e dinheiros.

Além do trio bolsonarista, há um bloquinho de oposição, partidos miúdos à direita, que contam votos que podem faltar em ocasião importante. É o caso da federação PSDB-Cidadania, do Novo e dos ajuntamentos Podemos-PSC e Patriota-PTB. Somam 43 deputados.

No entanto, nem esse quadro partidário está estabilizado. A formação do governo, a recomposição de poder no Congresso ou as eleições para os comandos de Câmara e Senado, tudo isso pode resultar em apoios novos, defecções e, quem sabe, em até alguma nova fusão partidária.

Logo, a formação da base de apoio do governo no Congresso continua. Obviamente, essa geleia sempre se move, a depender de dinheiros, dos assuntos cruciais em discussão e do prestígio do presidente da República. Mas o primeiro movimento dessa ópera não acabou.

O ministério pode vir a ajudar. Lula nomeou muito político experiente. Governadores, além do ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, são um quarto da equipe. Há ex-ministros e parlamentares com algum calejamento. Note-se, de passagem, que é um gabinete com peso grande de Norte-Nordeste.

Em termos político-partidários, é um time razoável para começar o campeonato da negociação. Em termos de coalizão social, de uma "frente ampla" de fato, bem menos.

De "frente ampla", além dos ministros da barganha política com o Congresso", não há muito mais do que Geraldo Alckmin, que já estava na conta, e Simone Tebet. A ver se o "centro" da sociedade (na prática, as elites civilizadas) vai se sentir representado de algum modo. Parece que não, até por causa do sururu econômico da transição.

Além dos petistas (é um governo liderado pelo PT, certo?), de companheiros de viagem históricos e de partidos vagamente de esquerda (PDT e PSB, por exemplo), Lula colocou no ministério gente representativa de movimentos sociais (é um governo de esquerda, certo?).

Agora, é preciso ver como vai se montar a máquina, os secretários que realmente operam, técnica e politicamente, os ministérios e agências relevantes de governo. É uma escalação em geral menos rumorosa ou simbólica; é então que se definem grupos que podem planejar políticas ou torna-las operacionais. É a partir daí que se pode vislumbrar um pouco do funcionamento real do governo.

São as próximas definições: quais são as políticas a que Lula vai dar de fato prioridade, quem vai tocar esses barcos e se são capazes de fazê-lo. Na política, falta ver como o governo ainda pretende neutralizar o perigo potencial do blocão bolsonarista. Além de grande no Congresso, esse grupo de partidos tem como base um eleitorado extenso de direita ou extrema direita ideológicos.

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UMA BASE ALIADA EM CONSTRUÇÃO

Bruno Boghossian, Folha de S. Paulo

Congresso vai exigir de Lula novos acertos políticos depois da posse

Com sequelas das negociações partidárias, petista precisará manter negociações para ter base sólida

Os lances feitos por Lula para acomodar aliados na Esplanada dos Ministérios deram cara à base governista, mas também devem engordar um time de dissidentes no Congresso. As articulações com a União Brasil, que ganhou três pastas, vão deixar sequelas na relação entre a legenda e o novo presidente.

Quando um partido recebe as chaves de espaços cobiçados no governo e se recusa a vestir o boné de aliado, é sinal de que algo deu errado. Integrantes da União indicaram ministros da Integração, das Comunicações e do Turismo, mas dirigentes dizem que as bancadas do partido serão independentes no Congresso.

O anúncio é resultado de uma divisão que o próprio Lula ajudou a aprofundar. O presidente eleito privilegiou o senador Davi Alcolumbre na escolha dos ministros da União Brasil, deixando de lado outros grupos de poder dentro do partido.

Até alguns integrantes da cúpula da legenda ficaram de fora das conversas. O grande escanteado foi o líder da União Brasil na Câmara, Elmar Nascimento. O deputado chegou a ser convidado para ser ministro da Integração, mas foi desconvidado menos de uma semana depois.

Lula azeitou a máquina do governo para ter o apoio dos 10 senadores da União, mas comprou um problema com o coordenador dos 59 deputados do partido. Nas palavras de um dirigente, Elmar ficará com o veto a seu nome entalado na garganta.

O desarranjo pode pôr em risco a maioria de Lula na Câmara. Se a bancada da União decidir retaliar, o governo terá uma base sólida com apenas 228 das 513 cadeiras da Casa.

O quadro vai exigir de Lula novos acertos políticos em 2023. Um deles será uma negociação no varejo com deputados da União, que serão atendidos na liberação de verba dentro das pastas controladas pela legenda.

Aliados do petista também não descartam uma mudança ministerial precoce para atrair mais aliados, como o Republicanos. Com pouco espaço livre no primeiro escalão, Saúde e Educação já são cobiçados para uma futura partilha de cargos.

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LEI PREMIA A IRRESPONSABILIDADE

Editorial O Estado de S. Paulo

Aprovado pela Alesp, veto à exigência de vacinação contra covid é retrocesso civilizatório e jurídico

O governo do Estado de São Paulo foi exemplar no enfrentamento da pandemia, em especial por seu pioneirismo e protagonismo na obtenção da vacina contra a covid. Frente ao desleixo e às confusões do governo Bolsonaro, a administração paulista foi referência segura, em tempos especialmente conturbados, de compromisso com a saúde pública. No entanto, a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) parece determinada a manchar o histórico de responsabilidade do Estado de São Paulo. Recentemente, os deputados estaduais aprovaram o Projeto de Lei (PL) 668/2021 que proíbe a exigência de cartão de vacinação contra a covid para acesso a locais públicos e privados no Estado, incluindo escolas do ensino fundamental e médio, cursos técnicos e faculdades.

De autoria da deputada estadual Janaina Paschoal (PRTB-SP), o PL 668/2021 reflete uma compreensão rigorosamente equivocada sobre o Estado e a própria vida em sociedade, como se o cuidado com a saúde pública não pudesse gerar restrições a quem não queira se vacinar contra a covid. O texto aprovado pela Alesp, que merece veto integral do governador, não tem nada de defesa da liberdade individual. O que se pretende é algo inteiramente diferente. O PL 668/2021 almeja uma liberdade sem consequências, o que é uma aberração. Não nega apenas a ciência e a legislação federal (em especial, a Lei 13.979/2020), mas a própria dimensão social da vida humana.

O sofisma pretensamente liberal - em nome da liberdade, o poder público não poderia fixar restrições a quem não quer se vacinar contra a covid - produz a antítese do liberalismo: toda a coletividade torna-se refém de quem optou por um comportamento de risco. É sintomático da confusão dos tempos atuais que a ignorância e a indiferença com o coletivo sejam apresentadas como virtudes cívicas, merecendo lei estadual específica para seu pleno exercício.

Mais do que expressar uma efetiva preocupação coletiva – afinal, os paulistas foram exemplares na vacinação contra a covid –, o PL 668/2021 parece orientado a enfrentar uma portaria da reitoria da Universidade de São Paulo (USP), que exige comprovação do esquema vacinal completo contra a covid para o acesso de professores e alunos aos campi da universidade. Trata-se, como já dissemos neste espaço (USP acerta ao cobrar vacina, 5/10/22), de uma medida correta, que visa a enviar uma mensagem claríssima à comunidade acadêmica e, por extensão, ao resto da sociedade: a saúde de todos será realmente protegida se todos se vacinarem. O mínimo que se pode esperar de quem pretende participar da vida acadêmica é respeito à ciência e cuidado com a comunidade.

O Estado de São Paulo tem muitos desafios, que exigem atenção da Alesp. Brigar com a ciência e com a civilidade não é um deles. Não faz nenhum sentido, especialmente agora – quando são evidentes os resultados positivos da responsabilidade paulista no enfrentamento da pandemia –, que a atual legislatura estadual gaste seu tempo com leis que são puro retrocesso civilizatório, jurídico e sanitário. A liberdade merece melhor compreensão.

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REMENDOS CONSTITUCIONAIS

Editorial O Estado de S. Paulo

Emendas à Constituição se tornaram banais. Que os próximos congressistas sejam mais comedidos e façam da Lei Maior um marco de estabilidade, não a ermida de interesses ocasionais

A Constituição de 1988 já nasceu inchada, com 245 artigos, além dos outros 70 artigos constantes do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. O fim da ditadura militar, a premente necessidade de restabelecer direitos e garantias fundamentais tirados à força dos cidadãos e uma nova concepção do Estado explicam a prolificidade dos constituintes originários. A mudança da ordem política levou a sociedade a optar, por meio de seus representantes, por dar guarida constitucional a muitas questões que, em tempos normais, deveriam ser reguladas por leis ordinárias.

Ocorre que mais de três décadas se passaram desde a promulgação da Constituição. Todo esse tempo de amadurecimento da Lei Maior, além da própria compreensão dos cidadãos sobre seus termos, deveria ter servido para suscitar revisões que levassem a uma reacomodação normativa, no sentido de restringir ao máximo o que, de fato, haveria de estar consagrado na Constituição e o que poderia ser rebaixado à legislação infraconstitucional. O que se observou nesses últimos 34 anos, porém, foi o movimento contrário: a hipertrofia da Constituição.

O Congresso já promulgou nada menos que 140 emendas constitucionais (a rigor, 128, se excluídas as emendas de revisão e os tratados internacionais com status de emenda). Desse total, 29 (23%) foram promulgadas na atual legislatura. Particularmente, 2022 foi um ano recorde: os parlamentares aprovaram 14 emendas constitucionais, mais de uma por mês, o maior número para um único ano desde 1988. O recorde anterior, de 2014, era de 8 emendas constitucionais aprovadas, pouco mais que a metade.

Há muitas explicações para essa sucessão de remendos ao texto constitucional, cujas consequências, em vários casos, são péssimas para o País. No que concerne à banalização da Constituição pela atual legislatura, sobretudo este ano, o movimento pode ser explicado pelo empoderamento do Poder Legislativo em detrimento do Poder Executivo durante o governo Bolsonaro. Nos últimos três anos, a harmonia entre os Poderes se converteu numa espécie de rendição do Palácio do Planalto à uma relação de captura pelo Congresso.

A debilidade moral, política e administrativa do presidente da República o tornou refém de parlamentares que, para não fustigá-lo diante da miríade de crimes de responsabilidade que Bolsonaro cometeu, exigiram – e obtiveram – recursos políticos e financeiros inauditos na história republicana. O Congresso se tornou o grande formulador da agenda política nacional, nem sempre tendo como norte o interesse público. Nesse afã, a promulgação de emendas constitucionais aos borbotões foi uma forma de burla do sistema de freios e contrapesos, na medida em que os parlamentares passaram a se esquivar, a um só tempo, dos vetos do Poder Executivo e do controle de constitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pela via da hiperconstitucionalização.

Uma Constituição obesa traz muitos problemas para a saúde institucional do País. A consequência mais óbvia dessa hiperconstitucionalização é o aumento do protagonismo do STF, responsável último pela guarda do texto constitucional. O STF tem sido muito criticado por agir na direção de uma suposta “judicialização da política”. Mas, ora, como a Corte haveria de permanecer inerte diante do fato de que os mais variados – e miúdos – assuntos da vida nacional têm chegado à Constituição com tanta frequência?

Outro problema é o engessamento do Estado. A própria Constituição previu os mecanismos para sua alteração. Contudo, por meio da exigência de um quórum qualificado em dois turnos de votação em ambas as Casas Legislativas, os constituintes originários evidenciaram que essas alterações não deveriam ser banais. Logo, se é difícil aprovar uma emenda à Constituição – sobretudo quando versa sobre direitos, e não deveres –, naturalmente, também é extremamente difícil retirar do texto constitucional os seus excessos.

Uma nova legislatura sempre traz uma nesga de esperança por mudanças positivas. Que os próximos congressistas sejam mais comedidos ao mexer na Constituição e contribuam, assim, para que a Lei Maior seja um marco de estabilidade para o País, não a ermida de interesses ocasionais.

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ELE

Editorial Folha de S. Paulo

Pelé foi a pessoa certa na hora certa; seu nome confundiu-se com o do país

Resultaria difícil para qualquer ser humano dimensionar com precisão o que significava ser Pelé. Trata-se de nome e rosto reconhecidos de imediato ao longo de seis décadas em qualquer lugar do mundo, algo virtualmente impossível para outras pessoas, incluídos aí monarcas, líderes políticos e religiosos, artistas e outros esportistas.

Superexposto muito antes da era da superexposição, Edson Arantes do Nascimento, mineiro de Três Corações morto nesta quinta-feira (29) aos 82 anos, praticamente transmutou-se numa entidade à parte, como ele próprio gostava de dizer, em tom de blague.

A importância dessa entidade atravessou em muito as quatro linhas do campo de futebol.

Do ponto de vista de um país com influência fortemente limitada no plano internacional, é preciso apontar de pronto: Pelé foi o brasileiro que maior notoriedade e importância mundial alcançou em qualquer época. Seu nome confundiu-se com o do Brasil, por vezes impulsionando-o em reconhecimento, quando não o superando.

Para o futebol, criação humana de alcance singular, Pelé foi a pessoa certa na hora certa. Seu período de maior fama coincidiu com um momento de expansão acelerada do esporte por fronteiras de todos os continentes, estimulada pela evolução tecnológica das transmissões pela televisão e pela ação da Fifa, entidade que controla a modalidade.

Afável, ambicioso, inteligente, cidadão do mundo, ele desempenhou com gosto o papel de estrela. Abriu o caminho do então mais importante mercado consumidor do planeta, o norte-americano, para o futebol.

Tornou-se rosto frequente em muitas formas de mídia: nas transmissões esportivas, no jornalismo, na publicidade, no cinema, na música, nos quadrinhos, nas artes plásticas.

Adentrou o terreno da política e ocupou o posto de ministro extraordinário do Esporte de 1995 a 1998, no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Data desse período a chamada Lei Pelé, que, entre outras coisas, atualizou no Brasil a relação trabalhista entre clubes e jogadores, pondo fim ao instrumento conhecido como passe.

Na política da bola, Pelé jogou o jogo que lhe interessava, recebendo por isso merecidas críticas. Aliou-se a um outro brasileiro, João Havelange, que engatava um projeto de poder sobre o futebol mundial que durou 24 anos e serviu a extensa e documentada corrupção. Em troca, o atleta mítico recebeu guarida na propagação de sua imagem mundo afora.

Pelé fez negócios. Envolveu-se num episódio nebuloso com o Unicef, que teve como resultado um montante de US$ 700 mil desviados para uma conta privada, dinheiro que ele prometeu devolver, depois voltou atrás. Ensaiou lançar uma liga independente de futebol no Brasil, frustrada como tantas outras tentativas. Negociou direitos de TV com cartolas.

Foi criticado por desempenhar papel acanhado contra o racismo. Embora legítima, a escolha não ficou imune ao lamento, sobretudo sendo ele oriundo do país que recebeu a maior população de escravos negros nas Américas.

Outro flanco frequente de questionamentos teve origem em opções da vida pessoal, em que Edson viveu amores públicos e dramas conhecidos com filhos.

Nada do acima apaga um fato: esportivamente, Pelé não foi, jamais, uma criação de marketing. Seus feitos falam por si. Único jogador a ganhar três Copas do Mundo e também o mais jovem campeão, com 17 anos em 1958.

Autor de 1.283 gols em 1.365 jogos —e de outros não gols que só ele poderia transformar em históricos. Executor dos fundamentos à perfeição. Criador de jogadas. O esporte simplesmente nunca mais foi o mesmo depois dele.

As frases sobre Pelé são inúmeras, famosas, eloquentes. Três delas, de personalidades de países e profissões diferentes, ajudam a definir uma pessoa tão incomum.

Encarregado de marcá-lo na final de 1970, o italiano Tarcisio Burgnich diria após o jogo: "Pensei: Ele é feito de carne e osso como eu. Eu me enganei". O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade sentenciou: "O difícil, o extraordinário não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé".

Em uma de suas várias visitas à Casa Branca, o tricampeão mundial de futebol ouviu do morador: "Meu nome é Ronald Reagan, sou o presidente dos Estados Unidos da América. Mas você não precisa se apresentar, porque todo mundo sabe quem é Pelé".

A frase de Reagan deriva de um relato do próprio Pelé. Quem a achar exagerada pode conferir, em vídeo, quando os dois saem para o jardim da Casa Branca, que o americano reformula o chiste para uma plateia de crianças. Mas pouco importaria se fosse invenção.

As lendas sobre o brasileiro são tantas e de tal monta que se misturam a uma realidade também inacreditável, de modo que tanto faz. Afinal, é incontestável que todo mundo sabe quem foi Pelé.

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TERRORISMO: O ÚLTIMO LEGADO DE BOLSONARO

Marcos Strecker, ISTOÉ

A descoberta de um plano terrorista em Brasília para tumultuar a posse de Lula, provocar o caos e levar ao Estado de Sítio encerra o governo Bolsonaro com chave de ouro. É como se a saga política do capitão reformado encerrasse um ciclo, muito coerente.

É preciso lembrar que Bolsonaro foi expulso do Exército nos anos 1980 exatamente por planejar atentados terroristas. O argumento dele na época era defender maiores salários para os militares. Na prática, era uma tentativa de arregimentar a caserna para um novo golpe.

Bolsonaro era um dos inconformados com a abertura política. No Exército, os seus ídolos praticaram torturas e tentaram impedir a volta da democracia espalhando o terror nas cidades. Na forma mais patética, queimavam bancas de jornal nas madrugadas. Na mais grave, tentaram explodir uma bomba em um show lotado no Rio de Janeiro, para espalhar o terror e justificar um novo endurecimento do regime.

O atentado do Rio Centro, em 1981, falhou. A bomba explodiu antes da hora no colo de um militar, matando-o na hora. Outro fardado quase morreu e conseguiu escapar. O Exército organizou uma investigação fajuta, uma farsa para encobrir o terrorismo perpetrado pelas próprias forças que se mantinham no poder sob o argumento de manter a ordem. O fiasco acelerou o naufrágio do regime.

Quarenta anos depois, radicais se aglomeram nas portas dos quartéis insuflados por Bolsonaro para exigir que as Forças Armadas executem um novo golpe de Estado. Foi em um desses acampamentos, em frente ao QG do Exército em Brasília, que um obscuro empresário paraense se inspirou para providenciar a ação que deveria paralisar o aeroporto de Brasília, deixar a cidade às escuras, facilitando a execução do putsch.

Para montar seu arsenal, que foi apreendido pela polícia, o criminoso provavelmente se valeu das normas que o presidente baixou para insuflar o armamentismo. A inspiração veio diretamente do discurso do presidente, confessou ele, antes de ser encaminhado para a Papuda. O empresário disse ter gastado R$ 160 mil em armas e R$ 600 em dinamite antes de sair de Xinguara (PA). Reuniu duas escopetas de calibre 12, dois revólveres calibre 357, três pistolas, um fuzil calibre 308, mais de mil balas e cinco bananas de dinamite. Disse que estava “preparado para matar ou morrer”. (No dia 12, dia da diplomação de Lula, é bom lembrar, os apoiadores de Bolsonaro já tinham promovido um quebra-quebra generalizado na capital federal, incendiando ônibus e carros e achacando a população. Ninguém foi preso.)

O golpe de 2022 falhou como o de 1981. Mostrou, infelizmente, que as Forças Armadas ainda são utilizadas para as conspirações. Os acampamentos golpistas que se espalham em frente aos quartéis nesse momento são toleradas pelos generais que deveriam defender a ordem constitucional. Os militares, junto com os representantes da ordem (polícias, ministério público, governadores) têm o dever de desmontar essas “incubadoras de terroristas”, na expressão feliz do próximo ministro da Justiça, Flávio Dino.

Quanto a Bolsonaro, espera-se que seja devidamente processado e julgado pelos seus inúmeros crimes, agora que perdeu o poder. Fomentar o terrorismo doméstico pode ser o último capítulo de sua folha corrida. Para o País, o episódio deveria marcar o enterro definitivo da infâmia bolsonarista: o movimento golpista promovido pelo capitão nunca se conformou com a democracia e ainda ecoa os subterrâneos da ditadura. Que o novo atentado tabajara seja o seu réquiem.

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BOLSONARO DEIXA O BRASIL

Da ISTOÉ

Bolsonaro deixa o Brasil a dois dias da posse de Lula e não passará a faixa presidencial

BRASÍLIA (Reuters) – O presidente Jair Bolsonaro deixou o Brasil nesta sexta-feira rumo aos Estados Unidos, a dois dias da posse de Luiz Inácio Lula da Silva, e quebrará a tradição simbólica de passar a faixa presidencial a seu sucessor, um rito tradicional das cerimônias de posse na democracia.

A confirmação oficial da viagem de Bolsonaro veio por meio da assessoria do seu vice-presidente, que disse à Reuters nesta tarde que Hamilton Mourão é o presidente em exercício. A assessoria negou que Mourão passará a faixa no domingo. O vice-presidente fará um comunicado em rede nacional no sábado.

O site FlightAware, que monitora tráfego de voos, mostrou que o avião presidencial partiu de Brasília pouco depois das 14h com destino a Orlando, na Flórida.

Durante uma transmissão online de 52 minutos mais cedo nesta sexta-feira, o presidente não mencionou a viagem aos EUA, para a qual já haviam sido aprovadas oficialmente as idas de seus assessores.

À CNN, Bolsonaro disse que “volta em breve” ao Brasil. A emissora disse que a primeira-dama Michelle Bolsonaro também acompanhou o presidente na viagem.

Despacho publicado nesta sexta-feira no Diário Oficial da União autorizou auxiliares de Bolsonaro a viajarem a Miami para assessorá-lo entre 1 e 30 de janeiro, já como parte do apoio a que ex-presidentes têm direito por lei.

Pouco depois de o avião presidencial decolar, a conta oficial do presidente eleito Luiz Inácio Lula no da Silva no Twitter publicou link para a música “Tá na Hora do Jair Já ir Embora”, que viralizou durante a campanha eleitoral.

“Sinto como se meu namorado estivesse me abandonado”, disse Deise Casela, de 57 anos, que tocou a bandeira presidencial que foi retirada após saída do Bolsonaro do Palácio da Alvorada.

(Reportagem de Isabel Versiani, Anthony Boadle, Ricardo Brito e Ueslei Marcelino)

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A MISSÃO DE LULA

Pedro Doria, O Globo

Se queremos uma chance daqui a dez ou 20 anos, precisamos resolver o problema da educação básica de massas neste governo

O pesadelo nacional durou quatro anos e se encerra neste domingo com a posse de um novo presidente. Um presidente que, pouco importam seus defeitos, construiu sua carreira política a partir da democracia. Estivemos muito próximos de perdê-la, mais próximos do que muitos se dão conta. Muitos não se dão conta, tampouco, de que Jair Bolsonaro recebeu, neste último segundo turno, mais votos do que teve para elegê-lo em 2018. O eleitorado de Bolsonaro não diminuiu, aumentou ao longo de seu mandato destrutivo, iliberal, anti-iluminista. Daí nasceu o principal desafio para o governo que entra: lidar com a angústia que leva à busca pelo populismo autoritário.

Porque é fácil gritar “fascista”, fazer troça de quem acredita nas mentiras do zap, simplesmente tratar de ignorante quem recusa a vacina, bruto quem compra armas ou com desdém a massa que fez da camisa da seleção a versão contemporânea do uniforme verde-escuro com a braçadeira do Sigma. Por trás de todo esse comportamento que arrasta não só dezenas de milhões de brasileiros, mas também outros tantos americanos que votaram em Donald Trump ou os italianos que elegeram Giorgia Meloni, está a angústia com um mundo em rápida transformação.

Não vivemos mais na Era Industrial. Não são mais as mãos de operários que produzem a riqueza do mundo, como nos últimos dois séculos e meio. Num planeta em que as grandes empresas não são mais petroleiras, bancos ou a GE — que dominaram o século XX —, a origem da riqueza é outra. São cérebros educados com alta sofisticação. E nunca matemática foi tão importante.

Não é a política industrial que será capaz de tirar o Brasil deste lugar menor que ocupamos na economia do planeta. A política industrial poderá ser boa ou ruim, mais ou menos intervencionista, mas dependerá fundamentalmente de quantidade de gente, aqui, apta a trabalhar com o meio digital, com genética ou com energia. Tudo é matemática.

Mais de um estudo sugere que algo como 20% da proficiência em matemática depende da genética que herdamos. É um rolar de dados. Eu, filho de matemático, suo frio de fazer uma conta de somar de três dígitos sem o auxílio de papel ou calculadora. A genética não me foi generosa, mas há outra coisa que sabemos a respeito dela. Não escolhe CEP, cor de pele ou profissão do pai. Os outros 80% da capacidade matemática dependem de expor a criança ao conhecimento desde cedo, desafiá-la a aprender, incitá-la a descobrir prazer no cálculo.

Como não fazemos isso com a massa de brasileiros que nascem nas periferias urbanas, jogamos gente fora todos os anos. Gente é riqueza no século XXI.

Os governos Fernando Henrique, Lula, Dilma e Temer avançaram, mas nem de perto o suficiente. Bolsonaro nem sequer tentou. Se queremos uma chance daqui a dez ou 20 anos, precisamos resolver o problema da educação básica de massas neste governo. É a coisa mais importante que Lula 3 precisará fazer — e, isso, numa lista não pequena de tarefas importantes.

Todo mundo sabe que sua profissão mudou muito nos últimos 20 anos. Que as habilidades antes necessárias hoje são outras. Vale para o advogado e para o eletricista. Para nós, jornalistas, ou para entregadores de aplicativo. Todos somos tocados toda hora por mudanças, mudanças que não param, que geram uma profunda incerteza sobre o futuro. E, sem alguém que desenhe que futuro será esse, que aponte tranquilo para as possibilidades do que virá e mostre como diminuir as dores, os impactos da transformação contínua, sem esse alguém estamos lascados.

O autoritarismo reacionário, nostálgico com um passado que não mais retornará, seguirá vivo enquanto tivermos motivos para temer o futuro.

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