quarta-feira, 27 de agosto de 2025

UM NOVO GÁS AO REAL

Fábio Alves, O Estado de S. Paulo

Por que a aposta de corte dos juros nos EUA pode tornar o real a moeda mais atrativa dos emergentes

Voltam à tona operações de ‘carry trade’, quando os investidores tomam dinheiro emprestado em países com juros baixos para investir nos ativos de países com elevadas taxas de rendimento

Desde que as declarações da semana passada do presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, alimentaram as apostas de um corte dos juros na próxima reunião de política monetária nos Estados Unidos, voltou à tona com toda força um tema que sempre beneficia os mercados emergentes: as operações de “carry trade”, quando os investidores tomam dinheiro emprestado em países com juros baixos para investir nos ativos de países com elevadas taxas de rendimento.

A discussão agora é sobre qual país emergente poderá receber um fluxo maior de capital do investidor estrangeiro, dando um novo impulso de valorização à moeda em relação ao dólar. Entre os mercados emergentes, habitualmente os maiores beneficiados das operações de carry trade são Brasil, México e África do Sul.

Na sexta-feira, quando as apostas de cortes de juros pelo banco central americano aumentaram, o dólar caiu 0,97% ante o real brasileiro, para R$ 5,42; cedeu 0,94% em relação ao peso mexicano, para 18,58; e recuou 1,53% ante o rand sul-africano, para o patamar de 17,44.

O principal fator de atratividade do capital estrangeiro em busca de maior ganho é o diferencial de juros entre a taxa básica americana e as praticadas nos países emergentes. Mas, nessa decisão de onde destinar seu dinheiro, o investidor também leva em conta a volatilidade, que pode corroer a rentabilidade da operação. E essa volatilidade pode ser afetada por riscos domésticos, como fiscais e políticos, e externos, como a guerra tarifária do presidente Donald Trump.

Do ponto de vista do diferencial de juros, o Brasil pode levar vantagem sobre o México e a África do Sul. Conforme a pesquisa Focus, o ciclo de corte de juros pelo Copom deve levar a taxa Selic de 15%, hoje, a 12,50% ao fim de 2026. No México, os analistas preveem que o Banxico irá cortar os juros em 0,25 ponto porcentual em setembro, para 7,50%, com o mercado estimando uma taxa a 6,75% no fim do ano que vem. Na África do Sul, a mediana das projeções aponta juros a 6,5% no fim de 2026.

Ou seja, nesse horizonte de tempo o diferencial de juros tornará provavelmente o real brasileiro a moeda mais atrativa entre os emergentes. Nos EUA, a aposta majoritária é de uma redução de 0,50 ponto até o fim deste ano, levando a taxa básica para a faixa de 3,75%/4,0%. Em 2025, o dólar acumula queda de 12% ante o real. Por ora, o investidor vem relevando os riscos fiscais no Brasil. A dúvida é se o ruído político com a eleição presidencial de 2026 fará a volatilidade disparar, sabotando o carry trade. •

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O BONECO DE BOLSONARO

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

O presente que Tarcísio deu para Lula e que nenhum petista sonhava ganhar

Tudo o que o atual presidente quer é colocar nas costas do governador de São Paulo o peso de carregar a imagem de Bolsonaro na eleição

Ao deixar a Academia Militar de Saint-Cyr, o jovem aspirante Charles de Gaulle foi enviado ao 33.º Regimento de Infantaria, em Arras. Ali foi apresentado ao seu primeiro chefe, o coronel Philippe Pétain. “Demonstrou-me o que valem o dom e a arte de comandar.” Essas são as primeiras páginas das Memórias de Guerra do general De Gaulle.

Não é preciso recontar o que se passou nos anos seguintes com a França e os dois personagens desse parágrafo para reconhecer a coragem moral do general diante da capitulação de Pétain ao inimigo. Seu antigo chefe passaria à história como o traidor de Vichy, artífice de um desastroso armistício militar que submeteu seu país não apenas à servidão estrangeira, mas ao nazifascismo. Quando um líder se desvia de princípios e valores que diz defender, não é o subordinado que se torna desleal ao romper; ele apenas reafirma o que aprendeu na caserna.

Se já não bastassem as provas do processo no STF, conversas recém-reveladas entre Jair Bolsonaro e o filho Eduardo reforçam, segundo a PF, que ambos procuraram prejudicar indistintamente o País só para salvar o ex-presidente. Analistas em Brasília consideram que elas deveriam levar as forças políticas que almejam a Presidência a não mais se envolverem com essa família. Se não por convicção, por cálculo e juízo.

Nenhuma perseguição é capaz de desmentir o que foi dito. A Alexandre de Moraes, pode-se lembrar a inscrição no templo de Apolo, em Delfos: “nada em excesso”, como advertência contra a hybris, a arrogância, a incapacidade de respeitar os limites. Mas juristas reafirmam que há fatos e eles devem ter consequências, ainda que só se conheçam as mensagens de uns e não as de todos os políticos do País.

É nesse contexto que uma estranha compulsão tomou conta de alguns governadores: ir até o fim na associação com Bolsonaro. A imagem de Tarcísio de Freitas brandindo um boneco do ex-presidente na Festa do Peão, em Barretos, parece um meme. Feito pelo PT. Lula sorriu no Planalto. Sidônio abriu champanhe. Nem mesmo em seus sonhos mais desvairados, o petismo poderia sonhar com tal favor.

Haddad disputou a eleição de 2018 sob o signo de ser o “poste de Lula”. Pois Tarcísio concede – e de graça – ao lulopetismo a imagem que marcará a sua campanha: o boneco de Bolsonaro. Algum assessor esqueceu de dizer ao governador que quando ele se apresenta ao lado do boneco do Jair não é o Jair que se transforma em governador. Nem o mais delirante petista podia imaginar esse presente de Tarcísio: mostrar que a moderação necessária à pacificação do País pode ser trocada por uma prenda que se carrega diante da plateia de uma festa de peão.

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DO DISCURSO À PRÁTICA NA ESTRATÉGIA DE TRUMP

Fernando Exman, Valor Econômico

Tarifas são usadas como uma alavanca para atingir objetivos políticos

À espera de um provável recrudescimento das relações entre Brasil e Estados Unidos, pode ser útil a leitura de um discurso feito recentemente pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, durante jantar de gala no “think tank” conservador American Compass. Ocorrida em junho, a fala não repercutiu no Brasil. Mas joga luz sobre a estratégia do governo Donald Trump, suas origens e potenciais consequências. É o novo estilo de vida americano.

Rubio se mostra convencido de que uma das razões pelas quais a história se repete é porque a natureza humana não muda. E uma das características do ser humano é o desejo de pertencimento, o qual evoluiu e se vê representado no conceito de Estado-nação. Isso molda cada vez mais como as decisões geopolíticas são tomadas, argumenta.

Criticando o fato de que o fim da Guerra Fria levou muitos a imaginar que o mundo inteiro iria virar uma democracia de livre mercado e que o conceito de nação já não importava mais para a economia, disparou contra a globalização. Chamou de irrealista e destrutiva a ideia de que perder uma fábrica não seria prejudicial, uma vez que os trabalhadores poderiam aprender a programar códigos e ganhar mais dinheiro. Responsabilizou-a por fechar empregos, destruir comunidades inteiras e minar a capacidade industrial americana. Capacidade essa, frisou, que sempre foi uma questão de segurança nacional.

Para ele, depois de décadas de negligência, os EUA vivem uma situação em que não apenas têm uma economia mais debilitada como também apresentam uma posição mais fraca no mundo. Como exemplo, mencionou a dependência de matérias-primas e da indústria de países que podem ser adversários, sobretudo a China. “Isso virou vulnerabilidade geopolítica”, sublinhou, acrescentando que exatamente por isso uma prioridade do governo Trump é reorientar as políticas doméstica e externa para assegurar que os EUA não se tornem reféns em questões essenciais, como alimentos e indústrias estratégicas.

Segundo o chefe da diplomacia americana, no passado os EUA às vezes aceitaram desvantagens comerciais para fortalecer aliados contra o comunismo. Mas isso tornou-se um padrão até mesmo com países desenvolvidos, que agora será corrigido.

Portanto, assim como fazem outras nações, a política externa deve priorizar sempre o interesse nacional dos EUA. “Isso não é isolacionismo. É bom senso”, disse, acrescentando que, quando os interesses dos EUA não se alinharem com os de outros países, que cada um siga seu caminho - de preferência de forma pacífica. “Esse é o trabalho da diplomacia.”

Essas palavras abrem caminho para algumas conclusões.

Sim, como pontuou nessa terça-feira (26) o chanceler Mauro Vieira, a ordem mundial está sendo desmontada pelos EUA. E é isso o que eles querem. Não é porque formularam e sustentaram até agora a ordem vigente que isso significa que o governo Trump se comprometerá a mantê-la. Ele elegeu-se com um discurso contrário a ela, cercando-se de pessoas comprometidas a executar essa plataforma. Já demonstrou disposição de utilizar todos os meios possíveis para moldar a máquina pública a fim de atingir seu objetivo, seja demitindo servidores públicos ou intervindo em órgãos federais.

É um fato que a pressão empresarial, em articulação com a diplomacia brasileira, obteve sucesso ao assegurar a exclusão de quase 700 itens da lista de produtos que passaram a pagar 50% de taxa. Mas não adianta o Brasil argumentar que o tarifaço irá gerar mais inflação nos EUA: o que está sendo perseguido por Washington é um conjunto de resultados de longo prazo, mesmo que surjam durante esse percurso efeitos negativos, como uma alta temporária dos preços. Tudo indica que tentar dar aula de economia à Casa Branca não irá funcionar.

Com uma decisão centralizada no próprio presidente, as tarifas são usadas por Trump como uma alavanca para atingir objetivos políticos. Ele não dá sinais de que irá recuar e, diante da iminência do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a expectativa é que as relações bilaterais se deteriorem ainda mais.

A esquerda menosprezou a capacidade da direita se articular no exterior e não está encontrando espaço para emplacar uma narrativa alternativa que comova a opinião pública. Diante disso, o próprio ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes fez suas investidas ao dar entrevistas, mas a eficácia dessa tática ainda precisará ser observada na prática.

Nesse contexto, é estratégia de quem anuncia sanções fazê-lo de forma genérica. Como era de se esperar, bancos e empresas brasileiros não sabem exatamente o que fazer para cumprir a Lei Magnitsky, aplicada, por enquanto, contra Moraes. E não receberão um manual. Interessa a quem aplica uma sanção que as partes interessadas façam um esforço máximo de “compliance” logo de saída, até porque monitorar mundo afora todos os sancionados demanda tempo e recursos humanos.

Retratação

Na semana passada, esta coluna asseverou que o vento começava favorável para o governo na CPMI do INSS. Como se soube depois, enquanto aquele texto era escrito, uma silenciosa e bem-sucedida articulação era feita pela oposição para tomar o controle da comissão.

Brasília tem enfrentado vendavais capazes de surpreender qualquer meteorologista. Até mesmo a célebre frase do ex-presidente da Câmara dos Deputados Ulysses Guimarães, segundo a qual “CPI a gente sabe como começa, mas não sabe como termina”, tem enfrentado dificuldades para sobreviver às intempéries. Não se sabe mais nem como uma CPI irá começar.

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PEGADINHA DO DESTINO AGUARDA LULA EM 2026

Lu Aiko Otta, Valor Econômico

PLOA de 2026 contará com receitas que podem não ocorrer e há risco de as despesas crescerem acima do orçado

É grande a chance de o governo de Luiz Inácio Lula da Silva chegar ao seu final tendo cumprido as metas fiscais nos quatro anos. O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026, que será enviado ao Congresso Nacional até a próxima sexta-feira, vai apontar nessa direção. Tudo bonito no papel, mas uma “pegadinha do destino” aguarda Lula pouco depois do início da campanha eleitoral, disse à coluna o diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), Marcus Pestana.

No papel, a meta fiscal de 2026, um superávit equivalente a 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB), será alcançada porque o PLOA pode considerar integralmente as receitas esperadas com propostas que estejam em tramitação. Assim, será possível incluir nele os R$ 20,87 bilhões da Medida Provisória (MP) 1.303/2025, ainda que as discussões no Legislativo apontem para sua “desidratação”.

Da mesma forma, o PLOA considerará neutro, do ponto de vista da arrecadação, o Projeto de Lei (PL) 1.087/2025, que eleva o limite de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) para R$ 5 mil. Isso, a despeito de as compensações que equilibram a reforma serem alvo de resistências no Legislativo.

Assim, o PLOA de 2026 contará com receitas que podem não ocorrer. Além disso, há risco de as despesas crescerem acima do orçado. Por exemplo: a recente decisão do Congresso de enquadrar a fibromialgia como deficiência física pode elevar as requisições dos Benefícios de Prestação Continuada (BPC), pagos a deficientes e idosos de baixa renda.

Dessa forma, a peça mostrará ser possível cumprir a meta em 2026. Mas, mesmo tendo alcançado os objetivos fiscais nos quatro anos, o governo seguirá criticado pela condução das contas públicas.

O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Guilherme Mello, explicou à coluna por que, na sua visão, isso ocorre.

“A forma que nós encontramos de equilibrar o Orçamento passou por promover justiça fiscal”, disse. O caminho foi cortar gastos tributários e cobrar de quem paga pouco, explicou. “Obviamente que, quando você faz isso, quem tem o privilégio reclama.”

Um segundo ponto de crítica é o crescimento das despesas obrigatórias. Não é um assunto totalmente resolvido ainda, admitiu. Para ele, trata-se de um processo que está em curso e que ganhou, com o arcabouço, um tempo para ser amadurecido. No momento, o governo pretende priorizar o corte de gastos tributários, informou.

O terceiro ponto é o crescimento da dívida, que “depende muito mais da taxa de juros do que do resultado primário”, avaliou. O resultado das contas públicas é um fator condicionante da dinâmica da dívida, mas sozinho não é capaz de estabilizá-la, argumentou. É preciso produzir superávits fiscais na casa de 1% a 2% do PIB, mas também é preciso que as taxas de juros convirjam para níveis mais próximos do padrão internacional, defendeu.

Hoje, a taxa neutra de juros está na casa dos 4,5% a 5%. No caso do Brasil, deveria ser somada à inflação, que é da ordem de 5%. Assim, uma taxa no padrão seria algo como 8,5%, e não os 15% atualmente fixados pelo Banco Central. “Então, temos um caminho para percorrer no primário e um caminho para percorrer na Selic”, comentou. “Se conseguirmos de maneira consistente ir entregando o fiscal, fica mais fácil também consistentemente trazer a Selic a um patamar mais baixo.”

Na visão do diretor da IFI, a política fiscal do governo é curto-prazista e focada em manter o arcabouço fiscal vivo até 2026. “Não tem nada mais ambicioso”, criticou.

“Eles vão tirar nota 10 com as regras atuais, mas vão continuar sendo criticados, porque há essa distância entre o mundo virtual das leis, das excepcionalizações, de se ancorar em receitas não recorrentes, e o mundo real que vê a insustentabilidade do atual regime fiscal”, avaliou. “Na vida real, todos os agentes econômicos relevantes, investidores, financiadores da dívida, compradores de título do Tesouro, agências de rating, líderes sindicais, empresários, todo mundo sabe fazer conta.”

E é aí que entra a pegadinha do destino.

Em agosto de 2026, quando a capital federal estará respirando campanha eleitoral, Lula precisará enviar ao Congresso o PLOA de 2027. Como o crescimento das despesas obrigatórias foi pouco atacado ao longo destes dois anos de meio de governo, a proposta mostrará um quadro em que praticamente não há espaço para despesas discricionárias. Motor dos palanques na campanha de 2010, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) estará concentrado em saúde e educação, pois essas áreas têm recursos assegurados pela Constituição.

“Até no papel, vai ser difícil fechar a peça orçamentária”, comentou Pestana. “Então, essa questão vai ser explicitada, pelo menos parcialmente, antes das eleições.”

Pestana avaliou que o prometido ajuste estrutural das contas públicas vai se impor em 2027. “Não vai ser por boniteza, vai ser por precisão”, disse, citando a famosa frase de Guimarães Rosa sobre por que o sapo pula. “Se 100% do Orçamento vai ser obrigatório, para que eleger presidente?”

A ver o que Executivo e Legislativo serão capazes de produzir para contornar o quadro de estrangulamento orçamentário.

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IR: CENTRÃO E DIREITA TERÃO QUE DIZER QUE NÃO QUEREM QUE RICOS PAGUEM IMPOSTOS

Míriam Leitão, O Globo

A análise na Câmara do projeto que isenta do Imposto de Renda (IR) quem ganha até R$ 5 mil será uma espécie de hora da verdade. O Centrão e a direita vão ter que dizer que querem que os que têm rendimentos maiores e não são tributados hoje, continuem assim, sem pagar imposto. Quando os partidos, alguns da base do governo, dizem que são contra as compensações e a favor do corte de gastos, eles não estão assumindo exatamente o que estão fazendo.

O primeiro objetivo é minar o projeto que propõe eliminar a tributação até R$ 5 mil, reduzindo alíquotas para quem ganha até R$ 7.350. Para que essa proposta fique de pé, a lei de responsabilidade fiscal determina que haja compensação, e o governo Lula apresentou uma proposta, formulada no Ministério da Fazenda, que, além de compensar a isenção, traz justiça tributária para um país muito desigual como o Brasil. Pelo projeto, quem ganha de R$ 600 mil a R$ 1,2 milhão por ano vai passar a pagar imposto numa alíquota que chega a 10% para quem tem renda de R$ 100 mil mensais não tributada. Isso é importante dizer, quem tem um salário alto numa empresa pode pagar o imposto de 27,5%, que incide sobre rendas do trabalho, e para esses nada mudaria. Até porque eles pagam mais de 10%. O que o governo está propondo é uma alíquota sobre renda que venha de dividendos não tributados de até 10%, um percentual muito menor do que o de outras faixas. E isso é absolutamente justo.

O Centrão e a direita estão alegando que isso vai afetar setores importantes da economia. Por isso, defendem tirar essa compensação do projeto e mandar o governo cortar gastos. Mas será que eles estão dispostos a abrir mão dos mais de R$ 50 bilhões por ano em emendas parlamentares? Não estão, então, é hipocrisia. E é preciso explicar que quando o governo acaba com uma isenção, ao tributar rendas não tributadas, está cortando despesas, despesas tributárias, receitas que o governo renuncia a receber.

Os parlamentares da oposição estão tentando minar o projeto de isenção do imposto até R$ 5 mil, porque acham que o governo Lula será beneficiado politicamente. O problema é que o governo Bolsonaro prometeu essa isenção e não fez, e o governo Lula está fazendo e com essa compensação através da tributação dos mais ricos. E o fato é que não há qualquer razão para que quem recebe essa renda continue sendo poupado.

Cortar gastos todo mundo acha necessário e é preciso mesmo. Mas um dos gastos ineficientes do governo é conceder subsídio ou isenção de imposto a quem recebe muito por rendas não tributadas. Repito, a oposição de direita e o Centrão vão ter que dizer "nós não queremos taxar rico que não paga imposto".

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É PRECISO HAVER CONVERGÊNCIA CONTRA O TARIFAÇO

Ricardo Patah*, O Globo

É o momento de as entidades sindicais se aproximarem ainda mais das empresas para contribuir com seu desenvolvimento

‘O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.’ Essa visão do nosso país em relação aos Estados Unidos foi formulada no contexto do golpe militar de 1964. O autor da frase, Juracy Magalhães, foi embaixador naquele país e expressou o que se pensava por aqui. Agora, depois do tarifaço de 50%, essa visão provinciana seria uma piada de mau gosto, para dizer o mínimo. Ainda somos uma das economias mais fechadas, representando apenas 1% do comércio mundial. Décima economia e quinto país em extensão territorial no planeta, com uma população de mais de 212 milhões, nunca estivemos tão desiguais e desunidos, como mostram as pesquisas recentes.

Só há um caminho: temos de refundar nosso país. É preciso diminuir o custo Brasil (acabar com o emaranhado de tarifas e burocracias), rever a política de subsídios (R$ 678 bilhões por ano) e o protecionismo do Estado. Além disso, é necessário abrir nossa economia para os 193 países registrados pela ONU e investir em educação e ciência. É fundamental criar um projeto de industrialização tecnológica fundamentado na economia do conhecimento, com a participação do governo, de empresários e dos trabalhadores. A quarta revolução industrial, baseada na digitalização e na inteligência artificial, está mudando o mundo com rapidez nunca vista.

A economia atual não valoriza os recursos naturais: os países que mais avançam na esfera global são os que apostam na inovação e produzem bens e serviços de maior valor agregado.

Com o caminhão de limões que Trump jogou sobre nosso país no tarifaço, temos de fazer uma limonada para evitar grandes prejuízos nas exportações, a perda de empregos e os impactos sobre a soberania produtiva e política do Brasil. Mas, infelizmente, nosso poder de barganha é baixo, embora tenhamos, com os americanos, uma relação diplomática e comercial muito antiga. Não temos o poder de fogo da China, que enfrentou os Estados Unidos e obteve adiamento de três meses em suas tarifas.

Temos de impulsionar nossa produtividade, apostando em inteligência artificial. Embora sejamos o país da América Latina que mais investe no setor (US$ 1,1 milhão por ano), perdemos dos Estados Unidos (US$ 78 milhões por ano) e da Ásia (US$ 61 milhões por ano). Nosso grande problema aqui é que 95% das nossas empresas são pequenas e médias, sem dinheiro nem mão de obra qualificada para investir em IA.

A União Geral dos Trabalhadores e o Sindicato dos Comerciários de São Paulo estão prontos para apoiar as empresas. É o momento de as entidades sindicais se aproximarem ainda mais das empresas para contribuir com seu desenvolvimento, pois elas não vivem umas sem as outras. Temos de dar a volta por cima porque, como disse Adam Smith, “nenhuma sociedade pode florescer e ser feliz se a maioria dos seus membros for pobre e miserável”.

*Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores

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O RISCO PARA O STF EM 2026

Paulo Celso Pereira, O Globo

O perfil dos escolhidos nos próximos anos poderá dominar o Supremo por décadas

Em junho de 2022, a Suprema Corte americana, numa virada histórica, reverteu a decisão Roe vs. Wade, que garantia o direito ao aborto nos Estados Unidos. Um ano depois, novamente por 6 votos a 3, definiu que as universidades americanas não poderiam mais usar a raça dos alunos para selecioná-los. A guinada conservadora da Justiça americana não se deu depois de uma ofensiva parlamentar que tenha levado ao impeachment de seus juízes ou aumentado o número de cadeiras, como prega a receita contemporânea de desconstrução das democracias. Foi obra da fortuna e do método do Partido Republicano em, além de usar sua maioria parlamentar para bloquear uma indicação de Barack Obama, apontar nomes ideologicamente leais e jovens, que ficariam décadas na Corte, onde o cargo é vitalício.

O ex-presidente Jair Bolsonaro já cantou em verso e prosa que sua maior missão em 2026 é garantir a eleição de um Congresso abertamente conservador. Mais que isso: deixa claro que o foco está em assegurar, no Senado, uma maioria que permita a seu grupo enquadrar o Supremo Tribunal Federal (STF). O sonho é a votação do impeachment de ministros, Alexandre de Moraes à frente.

A preocupação em evitar o assalto bolsonarista ao Supremo cria, no entanto, uma cortina sobre o que pode mais suavemente redefinir o futuro do sistema judicial brasileiro. A questão não está em quem chegará ao Salão Azul do Senado, mas sim em quem tomará posse no Palácio do Planalto.

No próximo mandato presidencial, três ministros de perfil moderado — Luiz FuxGilmar Mendes e Cármen Lúcia — atingirão a idade-limite de 75 anos e serão obrigados a se aposentar. Os dois mais progressistas do tribunal, Luís Roberto Barroso e Edson Fachin, terão de pendurar a toga em 2033, no mandato presidencial seguinte. Depois desse grupo, as próximas saídas compulsórias só ocorrerão a partir de 2042. O perfil dos escolhidos nos próximos anos poderá dominar o Supremo por décadas.

Desde o segundo mandato de Lula, o STF aproveitou-se muitas vezes da omissão do Poder Legislativo para adotar uma série de decisões históricas em defesa de direitos e liberdades individuais — tendo nos ministros que agora se aproximam da aposentadoria personagens cruciais para essa agenda.

Fux, Gilmar e Cármen votaram alinhados em 2011 e 2012 a favor do reconhecimento das uniões homoafetivas, da liberação do aborto de anencéfalos e da legalidade das cotas raciais nas universidades. Barroso e Fachin ingressaram na Corte e se juntaram ao trio nos julgamentos pela derrubada da tese de Marco Temporal para demarcação de terras indígenas, pela descriminalização da maconha e pela equiparação da homofobia ao racismo.

A polarização política que se acentuou há pouco mais de dez anos mudou a forma de escolha dos ministros. Desde a redemocratização, para chegar ao Supremo o saber jurídico dos candidatos sempre precisou ser acompanhado de boa capacidade de construir apoios políticos ou vínculos pessoais com o presidente. O posicionamento político individual ficava frequentemente em segundo plano. Em seus primeiros governos, Lula indicou oito nomes com os mais diversos perfis, de abertamente progressistas a militantemente conservadores.

Em suas indicações, a presidente Dilma Rousseff deu mais atenção à linha ideológica dos escolhidos, mas deixou a idade deles em segundo plano. Bolsonaro foi cirúrgico na estratégia: ao escolher Nunes Marques e André Mendonça, ambos com 48 anos na época da nomeação, conseguiu criar um enclave de longo prazo em apoio a sua agenda. As entregas vêm sendo feitas não só nos julgamentos ligados à tentativa de golpe de Estado, como foram exibidas nos votos em defesa do Marco Temporal e contra a descriminalização da maconha.

O que ocorreu nos Estados Unidos deveria acender um alerta sobre o cenário que se avizinha para o Supremo. Ainda que a eleição de uma bancada de senadores majoritariamente conservadora seja hoje considerada provável mesmo dentro do PT, a tendência é que muitos nomes sejam ex-governadores e figuras ilustres do Centrão, cujas biografias não servem de incentivo para enfrentar aqueles que julgarão seus processos. Mas, se a trilha para o impeachment é acidentada, a indicação presidencial de nomes ao STF é uma avenida expressa. Há 131 anos um presidente não vê seu nomeado para o tribunal ser rejeitado.

*Paulo Celso Pereira é editor executivo do GLOBO

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LULA E TARCÍSIO PEDEM A BOLA

Vera Magalhães, O Globo

Presidente deixou claro quem imagina que será seu adversário na urna eletrônica, ao citar nominalmente o governador de SP durante reunião ministerial

O momento do jogo político devolveu a posse de bola a Lula, mas a pergunta que nem seus ministros mais próximos arriscam responder é: ela dura até o apito de final da partida, na eleição?

A recuperação, em certa medida ainda tímida, da popularidade dele se deu muito mais por circunstâncias externas que por sua capacidade de armar o jogo. Essa é uma das razões que impedem haver otimismo exagerado no governo com os números das pesquisas e os próximos lances da política.

A outra variável que explica a sensata moderação no otimismo é a economia. Na reunião ministerial de ontem, marcada por recados duros e claros de Lula, o ministro Fernando Haddad fez uma exposição, já na parte fechada à imprensa, sobre o que espera o Brasil neste fim de ano e em 2026. Deixou clara a preocupação com o efeito dos juros altos por prazo prolongado sobre a atividade econômica.

Por mais que o primeiro efeito político do tarifaço tenha sido reaproximar Lula de setores que estavam de mal com o governo e dar a parcelas do eleitorado a percepção de que ele agiu bem ao defender os interesses e a soberania nacionais, no médio e longo prazos as consequências para as exportações podem transformar a empatia em desgaste.

A oposição, que vive seu pior momento desde o início de 2024, quando começaram os dissabores de Lula com o Congresso, conta com solavancos na economia para que ele volte a perder popularidade e, consequentemente, o fôlego eleitoral.

O presidente deixou claro quem imagina ser seu adversário na urna eletrônica, ao citar nominalmente o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, na reunião do primeiro escalão. Ele é um veterano da política, treinado em antecipar a direção do vento, mas nem precisou usar tanto seu instinto, uma vez que, nas últimas semanas, Tarcísio entrou em campo e pediu a bola — metafórica e literalmente, como na partida de futebol com prefeitos que disputou ontem no Pacaembu.

Sua escalação definitiva ainda depende de Jair Bolsonaro, mais pela lealdade atávica de Tarcísio que pela necessidade de aval para que se viabilize. Os últimos levantamentos mostram que o golpismo continuado da família Bolsonaro vai transformando sua chancela em kryptonita, e não em aditivo para aqueles que buscam conquistar o voto do eleitor do espectro que vai da centro-direita à direta. Funciona integralmente, hoje, apenas para a extrema direita bolsonarista.

Ao cobrar, na lata, dos ministros dos partidos do Centrão que decidam em que time jogarão, Lula poderá precipitar o movimento que caciques do União Progressista já começaram a fazer: abandonar o vestiário com a partida ainda em andamento.

Antonio Rueda e Ciro Nogueira, presidentes respectivamente de União e PP, são hoje os maiores cabos eleitorais da candidatura de Tarcísio. Foram os responsáveis por costurar o tombo que o governo levou na composição da CPMI do INSS e estavam em jantar no domingo como avalistas junto a uma plateia de empresários impacientes, garantindo que o governador será candidato ao Planalto.

Leia tambémO pedágio caro de Tarcísio

Passado o julgamento de Bolsonaro, essas definições eleitorais tendem a ganhar ainda mais urgência e dramaticidade. Lula parece ter compreendido que tem de aproveitar o momento levemente favorável para levar adiante projetos que podem reforçar seu slogan “Brasil para os brasileiros”, em que a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil se encaixa perfeitamente.

O nó é que, para isso, terá de contar justamente com aqueles que, hoje, estendem o tapete vermelho para recepcionar seu principal oponente.

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BOLSONARO MAPEOU AO MENOS TRÊS PAÍSES COMO OPÇÃO DE FUGA DO BRASIL

Bernardo Mello Franco, O Globo

Ex-presidente deu razões para ser monitorado pela polícia antes de julgamento no STF

O ministro Alexandre de Moraes determinou ontem que a polícia fique de olho em Jair Bolsonaro. O objetivo é evitar que o ex-presidente fuja do país para escapar da provável condenação por tentativa de golpe.

Em ofício ao Supremo, o procurador-geral Paulo Gonet disse que seria “de bom alvitre” reforçar a vigilância sobre o capitão. Moraes considerou a ideia “adequada e necessária” para a aplicação da lei penal.

O capitão já fez de tudo para melar o julgamento marcado para começar na semana que vem. Sua defesa tentou tirar o caso do Supremo. Não conseguiu. Depois pediu para transferi-lo da Primeira Turma para o plenário. Também não deu certo.

As manobras para deslocar o foro seguiram as regras do jogo. O problema foi quando o ex-presidente deixou de confiar nos advogados para apelar à ajuda da Casa Branca.

Num ataque ao Brasil, Donald Trump elevou tarifas e revogou vistos para tentar acuar o Supremo. Em seguida enquadrou o ministro Moraes na Lei Magnitsky, editada para punir terroristas e ditadores.

O presidente americano tem usado a força bruta para perseguir opositores políticos em seu próprio país. Não pensaria duas vezes antes de conceder asilo a um aliado em apuros na América do Sul.

Bolsonaro também não teria constrangimento em correr para os Estados Unidos. Fez isso no fim de 2022, quando voou para a Flórida no penúltimo dia de mandato.

O capitão já havia mapeado ao menos outras duas opções de fuga. No ano passado, escondeu-se por duas noites na embaixada da Hungria após ter o passaporte apreendido. Com medo de uma ordem de prisão, estava pronto para pedir socorro ao ultradireitista Viktor Orbán.

Na semana passada, a Polícia Federal revelou que o celular de Bolsonaro guardava o rascunho de outro pedido de asilo. Ele apelaria à ajuda de Javier Milei, agora às voltas com suspeitas de corrupção na Argentina.

O ex-presidente diz que nunca pretendeu fugir, mas cumpre prisão domiciliar a 15 minutos de carro do setor que concentra as embaixadas em Brasília. No dia em que foi levado para calçar a tornozeleira eletrônica, ele deu a deixa: “Sair do Brasil é a coisa mais fácil que tem”.

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UM LEGADO DE FÉ E JUSTIÇA

Da CNBB

Há 26 anos, a Igreja Católica no Brasil perdeu um de seus mais notáveis pastores, Dom Hélder Câmara, cujo legado permanece vivo especialmente no Estado do Rio de Janeiro e na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Conhecido como o “Irmão dos Pobres”, Dom Hélder desempenhou um papel crucial na renovação da Igreja e na promoção de seu compromisso social.

Nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro em 1952, Dom Hélder foi um grande articulador da colegialidade episcopal. Sua visão e liderança foram fundamentais para a criação da CNBB, uma instituição que ele ajudou a fundar e onde atuou como Secretário-Geral até 1964. A sede da CNBB foi estabelecida no Palácio Arquiepiscopal de São Joaquim, no Rio de Janeiro, refletindo a importância estratégica da cidade na vida da Igreja no Brasil.

A atuação de Dom Hélder foi além das fronteiras do estado. Ele desempenhou um papel vital na criação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), durante a 1ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, realizada também no Rio de Janeiro. Dom Hélder não apenas articulou essa criação, mas também serviu como Presidente e Vice-Presidente do CELAM, reforçando sua influência no cenário eclesial latino-americano.

O legado de Dom Hélder Câmara é uma inspiração contínua para a Igreja, que, como ele profetizou, passou de esforços isolados e dispersos para uma atuação mais organizada e comprometida com as questões sociais mais agudas da nação. Mesmo após 25 anos de sua morte, sua memória permanece viva, especialmente no Rio de Janeiro, onde suas ações deixaram marcas indeléveis na história da Igreja Católica no Brasil.

Texto publicado pela CNBB em 2024, nos 25 anos sem Dom Hélder Câmara

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terça-feira, 26 de agosto de 2025

BOLSONARO ESTÁ ACABANDO. A FEBRE PASSOU.

Pedro Doria, O Globo

Ex-presidente deixou de ser o candidato mais forte na direita

Viramos a página do bolsonarismo. A afirmação, assim peremptória, a seco, pode parecer exagerada. Afinal, Jair Bolsonaro está muito presente no noticiário, à medida que o julgamento se aproxima. Com exceção do governador gaúcho Eduardo Leite, todos os pré-candidatos à direita do presidente Lula estão em disputa aberta por sua bênção. Quem ouve o discurso de qualquer político à esquerda sai com a impressão de que, no ano que vem, será novamente Lula contra um representante de Jair. Mas quem prestou atenção à última leva de pesquisas vê um retrato muito distinto disso.

Segundo o Datafolha, na virada de julho para agosto, 61% dos brasileiros diziam que não votariam num candidato que prometa anistia a Bolsonaro. De acordo com a última rodada do Ipespe, a proximidade com Donald Trump prejudica um candidato para 53% dos brasileiros. Esse número, a rejeição ao presidente americano, salta para 69% entre os mais centristas, que se põem entre esquerda e direita. São os eleitores que, capazes de votar tanto num lado quanto noutro no espectro, definem a eleição.

Os indícios não estão apenas aí. No final de julho, a Atlas Intel perguntou aos eleitores em quem votariam se a briga Lula contra Bolsonaro se repetisse hoje. Lula venceria, 47,8% a 44,2%. Mas e se a disputa fosse entre Lula e o governador paulista, Tarcísio de Freitas? Aí seria 50,4% para o presidente, 46,6% para Tarcísio. É um empate técnico, na margem de erro. Também Ratinho Junior, governador do Paraná, é um candidato que aparece mais forte, contra Lula, que Bolsonaro.

O ponto aqui é o seguinte: em todas as últimas pesquisas que fizeram a comparação, Bolsonaro deixou de ser o candidato mais forte na direita. É o terceiro em competitividade. E, segundo a Quaest, carrega consigo rejeição de 44%. A de Tarcísio é 17%; a de Ratinho, 21%.

A disputa do ano que vem será difícil para qualquer um que chegue ao segundo turno. O Brasil não deixou de ser um país profundamente dividido entre direita e esquerda. O cenário de 2022, com briga no segundo turno definida por uma nesga de votos, segue bastante provável. Mas o eleitor brasileiro não está procurando um candidato bolsonarista. De novo a Quaest: quase 60% acreditam que Bolsonaro provocou Alexandre de Moraes; 52% acreditam que ele participou da tentativa de golpe de Estado. E apenas 10% questionam que tenha havido tentativa de golpe.

O Instituto Ideia demonstra com mais clareza essa divisão. Em sua pesquisa do início de agosto, identificou que 17% dos brasileiros se consideram petistas. Outros 17% são de esquerda, mas não petistas. É claro que essa turma, no segundo turno, se junta ao entorno de Lula. Mas a esquerda se divide em duas metades. Não é assim com a direita. De acordo com a mesma pesquisa, 12% dos brasileiros se consideram bolsonaristas. E 26% são de direita, mas não bolsonaristas. O corte à direita é de dois terços para um lado, um terço para o outro.

Lula não é um presidente popular. Seus números melhoraram, sim, mas não a ponto de torná-lo mais popular que impopular. Tanto ele, quando brigou pela reeleição, quanto Dilma eram mais bem avaliados que rejeitados um ano antes da disputa. Com Fernando Henrique também foi assim. Lula, neste terceiro mandato, tem rejeição maior que aprovação. De todos os presidentes que buscaram retornar ao Planalto, só Bolsonaro estava em situação equivalente um ano antes da disputa.

Mas, se todas as pesquisas de qualidade mostram que o bolsonarismo está em franca queda, por que continuamos a desenhar a próxima reeleição como se ainda estivéssemos em 2018? Existem algumas razões. A primeira é que interessa ao governo. Justamente porque Bolsonaro é muito mais impopular que Lula, à esquerda interessa manter a impressão de que a briga segue a mesma e de que um golpe militar está ali na esquina. À família Bolsonaro, interessa igualmente posar de dona dos votos de direita. Enquanto emanar essa aura de donos da direita, terão chance de conseguir capturar uma anistia impopular. Bolsonaro, evidentemente, só pensa em diminuir ao máximo a pena a que deverá ser condenado.

Bolsonaro está acabando. A febre passou. É hora de todos começarmos a ouvir o que os brasileiros estão dizendo por meio das pesquisas.

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CASTRO TRANSFORMA PATRIMÔNIO DO RIO EM BACIA DAS ALMAS

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Para prover a caixinha da campanha ao Senado, governador quer negociar até o terreno onde fica a delegacia do Leblon

Em 2021, o ex-ministro Paulo Guedes planejou arrecadar R$ 110 bilhões com leilões de imóveis. Um feirão de oportunidades, do tipo "o gerente enlouqueceu", com 55 mil prédios, tudo realizado 100% online e com a rapidez de quem rouba. Estávamos na época – lembram-se? – de passar a boiada. Apenas no Rio cerca de 2.000 propriedades do funcionalismo federal, entre as quais o Palácio Capanema, foram liberadas para imediata alienação. O objetivo era claro: prover a caixinha da campanha à reeleição de Bolsonaro.

A ideia não foi adiante, mas a bacia das almas pública ou a arquitetura da destruição com o objetivo de fazer dinheiro é um caminho fácil demais para ser abandonado. Não tendo mais a Cedae, o governo do Rio de Janeiro anunciou o plano de vender parte de seu patrimônio. São 47 imóveis, o que poderá render R$ 1,5 bilhão e ajudar nas pretensões de Cláudio Castro ao Senado.

A novidade da lista é o terreno da 14ª DP, no Leblon, bairro mais valorizado da capital. Na cabeça do governador, deve fazer todo o sentido ter menos uma delegacia na cidade onde a segurança pública funciona às mil maravilhas. Também no Leblon, entrou na liquidação o terreno com 35 mil metros quadrados que pertenceu ao 23º BPM e que já foi oferecido à venda, sem sucesso, pelo ex-governador Sérgio Cabral, em 2009.

A maioria das ofertas fica no centro histórico, área cronicamente desassistida. São imóveis com pendências na Justiça ou invadidos. Na rua da Carioca, estão na mira de Castro os prédios do Bar Luiz, em péssimo estado, e do Cinema Íris, mais antigo do Rio, que desde os anos 1980 exibe filmes pornográficos.

Ao mesmo tempo avança o projeto da prefeitura de desapropriar, na região central, imóveis vazios ou subutilizados, para que sejam, em parceria com a iniciativa privada, reformados e negociados em leilão. Os endereços vão da rua do Ouvidor à Lapa.

Em disputa política pela sucessão estadual, Eduardo Paes e Cláudio Castro não se comunicam, mas têm um discurso afinado sobre especulação imobiliária.

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ESTÁ NO FIM A CARREIRA DE SILAS MALAFAIA COMO 'PAPA DOS EVANGÉLICOS' ?

Juliano Spyer, Folha de S. Paulo

Deputado da Assembleia de Deus defende Alexandre de Moraes e diz que pastor bolsonarista deseja ser preso

Está em curso uma disputa sucessória para substituir o pastor Silas Malafaia como a voz e a consciência política dos evangélicos? Um outro pastor de direita o criticou publicamente por se apresentar como alguém perseguido por suas crenças.

Após depor na Polícia Federal, Malafaia voltou a chamar o ministro Alexandre de Moraes de ditador e insistiu que não teme ser preso. Convidado para repercutir o caso, o deputado federal Otoni de Paula, que é pastor da Assembleia de Deus, defendeu que o ministro do STF pode ser criticado, mas não por atacar uma religião.

"Seria perseguição religiosa só se o pastor Silas estivesse no inquérito da Polícia Federal porque estava orando, evangelizando em praça pública, pregando a palavra de Deus. Não é o caso", disse Otoni em entrevista ao programa Estúdio i, da GloboNews.

Ex-vice-líder do governo Bolsonaro e da bancada evangélica no Congresso, Otoni se reposicionou politicamente após ser rejeitado pelo ex-presidente como candidato para disputar a Prefeitura do Rio em 2024.

Pastor do poderoso Ministério Madureira da Assembleia de Deus, Otoni parece contar com o respaldo de suas lideranças para se projetar como uma nova referência nacional, em um esforço de estancar os problemas criados pela associação das igrejas ao bolsonarismo.

Otoni vem apresentando uma narrativa alternativa à de Malafaia para orientar a atuação política dos evangélicos. Afirma ser conservador nos valores e, por isso, se identifica como alguém de direita, mas critica os que substituíram o culto a Jesus pela devoção a Bolsonaro.


Foi a partir desse argumento que Otoni responsabilizou Malafaia por uma eventual prisão. "Eu faço parte da geração que viu o pastor Silas ganhando almas, falando as verdades do evangelho. Mas ele vai ser preso por amor a Bolsonaro, e isso não glorifica Jesus", disse o deputado. E provocou: "Eu não vou atrapalhar o sonho do pastor Silas, que é ser preso".

O posicionamento do deputado reflete a percepção de parte da liderança evangélica de que suas igrejas mais perdem do que ganham ao abraçar o bolsonarismo.

Essa aproximação gerou atritos internos e perseguição a membros que rejeitam o ex-presidente, além de associar ao campo evangélico temas polêmicos, como a defesa do uso de armas. O bolsonarismo também enfraqueceu a representação política evangélica, já que fiéis passaram a apoiar candidatos conservadores sem vínculos religiosos.

O argumento de perseguição religiosa é central para Malafaia. O evangelicalismo brasileiro mantém vínculos estreitos com denominações influentes nos EUA, muitas delas entre os apoiadores mais fiéis de Donald Trump.

Ao levar o embate com Moraes ao campo religioso, Malafaia pode abrir nova frente de pressão para que o governo Trump penalize o Brasil e opositores de Bolsonaro. Já o posicionamento de Otoni sinaliza que parte dos evangélicos começa a contemplar um futuro sem Bolsonaro, que deve ser preso, e sem Malafaia, que perde seu papel de "papa dos evangélicos".

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CHAMA O CENTRÃO !

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Dino acerta no conteúdo, mas joga o Centrão contra o governo, no IR e na CPI do INSS

Paira no Congresso a percepção de que STF e Planalto jogam juntos e devem devem ser combatidos juntos

Fundamental na disputa acirrada entre os dois lados da polarização nacional, o Centrão se descola aos poucos de Jair Bolsonaro, mas não na direção de Lula. Fica a meio caminho, com seus partidos e líderes divididos, uns observando, outros para lá ou para cá e vários já torcendo por Tarcísio de Freitas em 2026.

O grande teste para a articulação política de Lula e para se saber qual a tendência majoritária do Centrão será nesta última semana do Congresso, antes do julgamento de Bolsonaro no STF pela trama do golpe de Estado. No foco, duas pautas essenciais para o governo: a CPMI do INSS e a isenção do IR até R$ 5 mil de renda.

O governo entrou mal e o bolsonarismo abocanhou os dois postos-chave da CPMI. O presidente, senador Carlos Viana (Podemos), chegou ao Congresso na onda bolsonarista de 2018, está no quinto partido e defende anistia para golpistas e impeachment para Alexandre de Moraes. O relator, deputado Alfredo Gaspar (União), está no primeiro mandato e se declara “de direita, com orgulho”.

Logo, o objetivo não é apurar quem e desde quando roubou aposentados e pensionistas, mas, sim, atacar Lula e disputar espaço, nas redes sociais e na mídia, com a abundância de provas contra Bolsonaro no STF. A articulação política do governo, à frente Gleisi Hoffmann, não tem força nem quadros para competir na CPMI. Se há algo que o Planalto possa fazer, é pedir socorro ao Centrão.

Já o projeto do IR foi promessa de campanha de Lula e tem forte apelo na classe média, relevante eleitoralmente. O bolsonarismo vai deixar passar, a quase um ano da eleição de 2026? Improvável. Se não pode votar contra o interesse popular, se organiza para derrubar a compensação para a perda de arrecadação: o aumento nas alíquotas da renda acima de R$ 50 mil. Mais uma cacetada no equilíbrio fiscal. De novo: chama o Centrão!

Mais uma vez, Flávio Dino acerta no conteúdo, sem considerar o contexto. Após causar um terremoto nos bancos com sua decisão óbvia de que brasileiros (leia-se Moraes) não são atingidos pela Justiça de outros países (leia-se Lei Magnitsky), ele agora abre inquérito para investigar R$ 695 milhões em emendas Pix, sem origem, destino e fiscalização.

Dino está certo? No conteúdo, absolutamente. Na oportunidade, nem tanto. Ao mexer no vespeiro das emendas na semana de pautas sensíveis no Congresso e a dias do julgamento de Bolsonaro, o ministro pode ter empurrado o Centrão para o barco bolsonarista, contra governo e Supremo. Afinal, paira no Congresso a percepção de que STF e Planalto jogam juntos. Logo, devem ser combatidos juntos. O governo paga o pato. •

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GANHO DE LULA TENDE A ARREFECER EM 2026

Christopher Garman, Valor Econômico

Politicamente, o que mais fará diferença para o governo Lula é um cenário externo que facilite uma queda dos preços domésticos, particularmente de alimentos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz pronunciamento em rede nacional de rádio e TV (17/07) sobre o "tarifaço" de Trump — Foto: Reprodução

O Palácio do Planalto tem visto a tarifa imposta pela Casa Branca sobre as exportações brasileiras como uma excelente oportunidade política. Evidentemente, há preocupações com as consequências econômicas de um acirramento do conflito entre Brasil e EUA, mas já está claro que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem colhido benefícios junto à opinião pública.

AtlasIntel e Genial Quaest já registraram uma alta de três a cinco pontos percentuais na aprovação do presidente Lula (de 45% para 50%, e de 40% para 43%, respectivamente). Esse movimento pode ser parcialmente explicado pela queda na inflação dos alimentos — mas, principalmente, pelo embate com o governo de Donald Trump. O fenômeno tem precedentes: as aprovações dos governos do Canadá e do México subiram depois que Trump elevou as tarifas sobre ambos; alguns países da Europa viveram situações semelhantes. Tanto lá fora quanto aqui, eleitores veem as medidas norte-americanas como injustas, o que acaba inflando o nacionalismo contra uma ameaça externa.

Aqui, há o agravante de que o governo associa as tarifas ao lobby explícito do deputado Eduardo Bolsonaro para que Washington impusesse sanções contra o Brasil — embora o deputado tenha pedido mais sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal que tarifas. Mas, em termos políticos, isso abre um flanco para que qualquer candidato apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro seja associado a medidas do governo norte-americano que podem prejudicar empregos e renda no Brasil.

Mesmo reconhecendo esses avanços, ainda é cedo para afirmar se esse movimento terá um efeito concreto sobre o resultado das eleições de 2026.

Se o pleito fosse nos próximos três a cinco meses, as tarifas certamente contariam a favor da reeleição de Lula. Uma onda nacionalista e antiamericana tende a beneficiar a candidatura do presidente e enfraquecer qualquer outra associada a um governo que está tirando empregos do Brasil. Ao mesmo tempo, as consequências econômicas de uma guerra tarifária com os EUA tendem a ser sentidas mais tarde, não no curto prazo.

Essa equação muda um pouco com o passar do tempo. Falta um ano e três meses para as eleições, e os efeitos de eventos como esse tendem a se dissipar. Outros temas, mais caros para os eleitores — como renda, custo de vida, segurança — acabam falando mais alto.

Economistas estimam que as tarifas norte-americanas terão um impacto bastante modesto sobre a economia brasileira, reduzindo o PIB nacional entre 0,2% e 0,4% — uma vez que as exportações para os EUA representam menos de 2% do PIB brasileiro, e a produção doméstica deve encontrar novos mercados.

Mas é preciso fazer duas ressalvas.

A primeira é que os mercados provavelmente terão que avaliar os riscos de uma deterioração mais grave na relação bilateral. Se a Casa Branca aumentar de 50% para 100% as tarifas impostas ao Brasil e sancionar ministros do STF com a Lei Magnitsky, cresce o risco de o governo Lula retaliar contra empresas ou importações norte-americanas. A exclusão do Brasil do sistema de pagamentos Swift parece bem improvável (até porque precisaria do aval de países europeus e do G10), assim como medidas para bloquear o uso de GPS no território brasileiro. Mas não é pequeno o risco de uma escalada que possa ter consequências além das tarifas.

A segunda é que toda essa incerteza pode evitar uma apreciação do real. A moeda brasileira se desvalorizou pouco, de R$ 5,40 para R$ 5,56, desde que as tarifas sobre o Brasil foram anunciadas. Mas o real poderia ter feito o movimento inverso se não fosse a crise. Além do mais, um Lula politicamente mais forte nos próximos meses também pode reduzir as apostas de uma mudança de governo em 2026 — o que também tende a evitar uma apreciação cambial.

Não é pequeno o risco de uma deterioração nas relações EUA-Brasil que possa ter consequências além das tarifas

Politicamente, o que mais fará diferença para o governo Lula é um cenário externo que facilite uma queda dos preços domésticos, particularmente de alimentos. A inflação dos alimentos foi um dos principais responsáveis pela queda na aprovação do presidente no primeiro semestre deste ano, exacerbada pela desvalorização cambial. Assim, a percepção de que Lula pode ter vantagem em 2026 (algo que agentes do mercado vinham subestimando), combinada a uma incerteza econômica maior, pode levar a uma desvalorização do real — ou evitar uma valorização. O resultado para 2026 pode ser neutro: Lula ganha um pouco com uma onda mais nacionalista, mas perde com um câmbio mais fraco.

O dado mais relevante da equação pode ser a composição da chapa da oposição. As chances de Tarcísio de Freitas ser o candidato da direita parecem ter diminuído. Ao criticar as tarifas norte-americanas, o governador reforçou a suspeita dos Bolsonaro de que sua fidelidade ao ex-presidente tem limites, e aumentou a tendência de que o Bolsonaro escolha um de seus filhos para disputar a presidência como seu indicado.

Mas é difícil antecipar o impacto até desse quesito nas eleições. Se há um desejo de mudança — seja por causa de custo de vida ou de renda — qualquer candidato de oposição tende a prevalecer. E se a associação de Bolsonaro com um governo Trump impopular afeta negativamente a candidatura de alguém de sua família, abre-se um espaço para mais um candidato no campo da oposição, fragmentando a direita.

Ao fim e ao cabo, é fácil avaliar que Lula tende a se beneficiar do embate com Trump em 2025. Mas fazer projeções sobre o impacto desse conflito nas eleições do próximo ano é um exercício muito mais difícil — e ainda não permite concluir que Lula tende a se beneficiar com o embate em 2026.

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O CRUCIAL E O TERRÍVEL NO DEBATE DOS JUROS

Pedro Cafardo, Valor Econômico

Quinze dias atrás, sugerimos aqui que a discussão do tarifaço não pode silenciar o debate do problema dos juros, que continuam absurdamente altos no país apesar da inflação em queda. Em nome da coerência, então, seguem dois comentários sobre a proposta que a coluna apresentou, feita pelo professor da UnB José Luis Oreiro a pedido da Comissão de Debates e Estudos Estratégicos da Câmara. O economista sugeriu uma reforma na arquitetura institucional da condução da política monetária no país.

Luiz Gonzaga Belluzzo, economista que dispensa apresentações, entende que a coluna tratou de “questões cruciais” e fez as observações abaixo sobre câmbio-juros na configuração da política monetária.

As condições monetárias nos países desenvolvidos - particularmente nos EUA, o gestor da moeda de reserva - determinam o volume de capitais que procuram os mercados emergentes. Às políticas econômicas “internas” cabe o papel de buscar relações entre câmbio e juros atraentes para os capitais em movimento.

Num ambiente internacional de livre movimentação de capitais, os bancos centrais dos países de moeda fraca encontram dificuldades em manter, simultaneamente, boas condições de crédito doméstico e a estabilidade de sua moeda.

O controle da liquidez em moeda forte é, portanto, crucial para a sempre precária combinação entre estabilidade e crescimento nas economias de moeda não conversível. Os países periféricos mais bem-sucedidos, como a China, preferiram manter controles seletivos e pragmáticos de câmbio e de capitais. Acumulam reservas elevadas em moeda forte (dólares ou euros) com o propósito de evitar “choques de desvalorização” que possam afetar negativamente a taxa de juro doméstica.

Nas pegadas da globalização financeira, o Brasil manteve por 20 anos uma combinação câmbio-juro hostil ao crescimento da indústria e amigável à arbitragem sem risco.

Diante de frequentes episódios de aguçamento da instabilidade cambial, as vozes de sempre descarregam as culpas sobre os ombros das “condições internas”. Proclamam - sempre e sempre - os danos do “risco fiscal”, exibido como um pecado irremissível. Ignoram que os países de moeda não conversível se dilaceram entre o objetivo de manter a inflação sob controle e o propósito de não danar o crescimento ou colocar em risco a estrutura industrial e, consequentemente, o “arcabouço” de geração de renda e emprego. No Brasil, a derrocada exportadora da indústria faz parceria com a invasão das importações de produtos manufaturados, prenhes de incentivos e subsídios oferecidos generosamente pelos competidores espertos.

O consultor e economista Felipe Adaime, ex-VP do Banco de Chicago, sugere que o colunista deveria ser “mais cauteloso” na escolha de “especialistas” de esquerda e “mesclá-los” com vozes do mercado. Escoimadas de divagações e alguns insultos, seguem resumidas observações de Adaime, que foi aluno de Maria da Conceição Tavares na UFRJ, mas diz não se orgulhar disso, porque ela lhe teria ensinado “um monte de porcarias”.

Todas essas sugestões [de Oreiro] já foram testadas, especialmente nos governos Sarney, Lula e Dilma, e nenhuma deu certo, nem aqui nem em lugar algum.

O Brasil não caiu em armadilha alguma dos juros e do câmbio - foi levado à situação atual porque a esquerda acha que resolve todos os problemas emitindo moeda e tomando dívida. Se fosse simples assim, não haveria pobreza no mundo. Não dá certo porque o crescimento tem que estar associado à produtividade, à tecnologia e, mais que tudo, ao capital. Também precisa ter estoque de mão de obra, território e recursos naturais. O Brasil tem quase tudo isso, mas é pobre, sem capital. Essa é uma das razões para os juros altos. Como a demanda por capital excede sua oferta, impacta o preço do capital - os juros.

Oreiro começa mal na primeira sugestão. A principal função de qualquer banco central é preservar a moeda, não se envolver com política de crescimento e emprego. É óbvio o conflito de interesses nessas três questões, que não podem ser entregues ao mesmo administrador. Nos EUA, o BC não administra todas essas variáveis. Atua coordenado com o ministro da Economia para que não aconteça o que acontece aqui: cada um puxa a corda para um lado, a Fazenda com política monetária irresponsável e o BC com política de juros superconservadora para mitigar os efeitos danosos sobre a inflação.

A segunda sugestão de Oreiro é a flexibilização da meta de inflação. Se isso ocorrer, o BC perderá toda a sua credibilidade e entraremos numa espiral inflacionária.

A medida número 3 foi plagiada do Plano Real, que precisava de mais um governo do PSDB para se consolidar. O câmbio tinha que ser mantido fixo ou quase fixo por mais tempo até que a inflação estivesse completamente dominada. A crise nos países asiáticos e na Rússia, infelizmente, precipitou a mexida no câmbio.

De fato, ainda temos alguma correção monetária na economia e o principal culpado por isso é o governo federal, que não consegue controlar seus gastos.

A quarta medida envolve a dívida pública, que está chegando numa situação em que não terá mais compradores para os títulos públicos. Uma das razões para os juros estarem tão elevados é o tamanho da dívida e o risco, percebido pelos investidores, de comprar esses títulos. Quem vai querer papéis pré-fixados numa situação de inflação ascendente, como vai acontecer no Brasil, devido ao déficit fora de controle?

Na quinta proposta, ele [Oreiro] está sugerindo câmbio administrado? Isso seria terrível e teria o mesmo efeito de um tabelamento de preços. Basta olhar para a Argentina, modelo de câmbio administrado - ou melhor, subsidiado. O tripé “câmbio flutuante-meta de inflação-equilíbrio fiscal” consertou a economia em pouco tempo e permitiu que o Plano Real sobrevivesse até hoje.

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TARCÍSIO, BOLSONARO, CHURCHILL E O FASCISMO

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Valdemar Costa Neto quer filiar o governador de São Paulo ao PL

“Tarcísio já me disse que se for candidato irá para o PL”. O presidente do partido, Valdemar Costa Neto, se vira nos 30 para manter a lealdade a Jair Bolsonaro sem perder o bonde da história. No evento desta segunda, promovido pelo grupo Esfera em São Paulo, foi o símbolo da barata voa do bolsonarismo. “Estaríamos mortos se [Donald] Trump não tivesse sido eleito. E agora ele, Trump, é a única saída que temos”. Só quando foi indagado se a ação do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos EUA tinha apoio do partido, reconheceu que seu correligionário “faz as coisas por conta própria”.

Costa Neto está prestes a perder o pote de ouro que a filiação do ex-presidente lhe deu em 2022, quando o PL elegeu a maior bancada na Câmara dos Deputados e recebeu a maior fatia dos fundos partidário e eleitoral. Falou da esperança numa candidatura Bolsonaro e depois nem ele mesmo parecia acreditar no que acabara de dizer. Tinha diante de si um auditório que, minutos antes, havia interrompido o discurso do governador Tarcísio de Freitas três vezes com aplausos.

Espera ter um rumo mais definido depois da visita que fará a Bolsonaro na quarta-feira. O único consolo para o desespero do presidente do PL é a recuperação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas. As chances de Lula preservam, no principal polo antilulista, o bolsonarismo, a expectativa de que é possível manter o capital político. Como Eduardo está fora do jogo e a ex-primeira-dama, Michelle, segue por raia própria, nunca absorvida pelo grupo, sobra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

A insistência com a qual a chapa Ricardo Nunes/Melo Araújo, indicado por Bolsonaro, foi lembrada ontem mostra que o lobby por Flávio na vice de Tarcísio é grande. No meio do painel do qual participou, ao lado de Gilberto Kassab (PSD), Baleia Rossi (MDB) e Antonio Rueda (União), Valdemar Costa Neto exibiu dado de uma pesquisa que acabara de receber mostrando que o apoio de Bolsonaro valeria 30% dos votos: “Leva qualquer um para o segundo turno”. A pressão deriva da percepção de que a chance de Lula, dada a profusão de nomes de oposição, está em vencer a eleição no primeiro turno.

Rueda, que tem uma federação com o PP, cita o governador do União, Ronaldo Caiado (GO), e a senadora Tereza Cristina (PP-MS), mas, em virtude da obsessão de seu parceiro de federação pela vice, amplia o conceito. Diz que a federação estará “na chapa majoritária”. É uma concessão ao senador Ciro Nogueira. O presidente do PP mostrou-se embevecido com Tarcísio (“Toda vez que estou ao seu lado me encho de coragem e esperança com o futuro do país”) na mesma proporção com a qual voltou-se contra Lula -“ataca sistematicamente nosso parceiro histórico”. Era de Trump que falava.

Dos presidentes de partidos presentes, Kassab e Baleia foram aqueles mais reticentes a uma candidatura unida do bloco de centro-direita desde o primeiro turno. Kassab se refugia na candidatura do governador do Paraná, Ratinho Jr., enquanto acena para Tarcísio num segundo turno - “provocaria reflexão no PSD”. De sua passagem pelo Palácio do Planalto, no início do mês, deixou a convicção de que o PSD liberará os palanques estaduais. Baleia Rossi lança mão do subterfúgio “Ponte para o Futuro II” para dizer que, mais importante que um nome, é ter um “projeto para o Brasil”.

Por mais que cada presidente de partido tenha seus próprios projetos, todos eles passam pela candidatura Tarcísio, que abriu o evento abertamente abraçado a 2026. Não parece o candidato estreante de 2022, que tropeçava em conceitos e figuras de linguagem. Esmerou-se em frases de efeito (“a palavra conduz e o exemplo arrasta”) e incorporou o personagem: “Um governo de direita entrega este resultado social porque tem criatividade, inteligência e preparo técnico”.

Tarcísio sinaliza que quer driblar a cobrança por se afastar do padrinho incorporando outros personagens ao seu discurso. Ontem falou de quatro: Javier Milei, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Winston Churchill. O presidente argentino entrou como exemplo de redução do tamanho do Estado. O enxugamento de Tarcísio não vai rifar emendas parlamentares. O orçamento vai crescer tanto que - foi o que disse - não vão ser R$ 3 bilhões ou R$ 4 bilhões que vão fazer diferença.

Pela maneira como descreveu Vargas e seu sucessor, JK, começa a construir o ideário de que ele, como sucessor de Lula, repetiria a história. “Lá atrás a gente teve uma pessoa que governou o Brasil pelo maior período de tempo que foi Getúlio Vargas. Teve um acervo de realizações e retornou ao poder em 1950 num período tumultuado abreviado por uma tragédia. Depois daquele líder popular, o Brasil ficou imerso numa confusão. Então vem JK, um líder disruptivo. Ia fazer 50 anos em cinco, mas construiu Brasília em três. A gente hoje precisa fazer 40 anos em quatro”.

Atravessou, então, o canal da Mancha. “Quando o Reino Unido estava imerso na Segunda Guerra, Churchill fez a seguinte pergunta: ‘O que eles pensam de nós?’. A pergunta que temos que fazer é: o que nós pensamos de nós mesmos”. O governador não mencionou Bolsonaro nem o tarifaço. Tampouco deu a referência do discurso ao qual se referia, mas aquele com o qual o primeiro-ministro britânico fez história foi pronunciado em 13 de maio de 1940. “Nada tenho a oferecer senão sangue, trabalho, suor e lágrimas”, disse Churchill ao assumir o governo e a guerra contra Hitler. Foi com o apoio de trabalhistas e liberais que enfrentou a pressão conservadora por um pacto com o fascismo.

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O QUADRO GERAL DOS ATINGIDOS

Míriam Leitão, O Globo

Balanço mostra que oito mil empresas foram afetadas pelo tarifaço. Há boa notícia sobre castanha no Acre e preocupação com setor de máquinas e equipamentos

O número final ainda está sendo refinado, mas em torno de oito mil empresas foram atingidas pelo tarifaço de Donald Trump. Esta crise afeta as empresas de forma diferente e, por isto, a ajuda do governo foi formatada para socorrer mais quem teve prejuízo maior. O economista Guilherme Mello, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, diz que até o dia 8 todos os sistemas de financiamentos estarão prontos e espera para a segunda quinzena as primeiras liberações de crédito.

Há produtos que são facilmente realocados em outros mercados. O presidente Lula foi ao Acre visitar produtores de castanha que vendem para os Estados Unidos e lá ouviu o seguinte: “presidente, já está resolvido o nosso caso, a gente conseguiu outros compradores”. São bens com demanda global, como café e castanha, ou que podem ser vendidos no mercado interno.

— É diferente da empresa que fabrica uma máquina, um equipamento sob medida para uma indústria americana, uma autopeça sob medida para a Ford. Essa vai sofrer mais a transição, por isso precisa de capital de giro.

Em relatório feito a pedido da coluna, o gerente de Comércio Internacional da BMJ Consultores Associados, Josemar Franco, avaliou que o setor de máquinas e equipamentos é o mais prejudicado e pode desempregar 15 mil pessoas. Disse que “beira o impossível” nesse setor substituir os Estados Unidos. As exportações já caíram 8,1% no semestre, e a queda chega a 22,9% na comparação do primeiro trimestre deste ano com o mesmo período de 2024.

Em alguns setores, os números do semestre mostram aumento, mas quando se compara o primeiro e o segundo trimestres, a queda fica evidente. Em frutas, incluindo castanhas e nozes, houve alta de 17,2% no balanço do primeiro semestre. Mas, no segundo trimestre, teve uma queda de 5,7%. Em pescados, a mesma situação: houve alta de 31% no semestre, mas queda de 27% no segundo trimestre comparado ao primeiro. Isso se explica por diversos motivos. Um deles é a antecipação de compra desses produtos já que entraria em vigor o violento aumento do imposto de importação.

E o futuro? Há a possibilidade de que tudo isso se resolva rapidamente, mas pouca gente acredita neste cenário. O mais provável é ser uma crise longa.

— Digamos que não se resolva, esse empresário de máquinas e equipamentos terá que buscar clientes em outros países. Para isso, precisará adaptar a produção e investir. Existe uma linha de crédito específica para esse caso, mas poucas empresas têm grande dependência do mercado dos Estados Unidos — diz Mello.

Em móveis, registrou-se queda de 3% nas exportações, mas houve também uma antecipação de contratos, o que fez as exportações do setor fecharem em alta de 6,8%. Neste caso, há outra má notícia. Na sexta-feira, o presidente Trump avisou que estava iniciando um processo contra móveis importados em geral, que será concluído em 50 dias e pode aumentar a taxação ainda mais contra diversos países. Diante da ameaça, os contratos já estão sendo suspensos.

O secretário acredita que, em algum momento, os Estados Unidos vão querer conversar questões comerciais. Até agora, como se sabe, a exigência feita pelo governo americano é descabida e nada tem a ver com o comércio. É o fim do processo contra Bolsonaro e uma anistia para quem tentou um golpe de Estado no país.

— Os Estados Unidos compram manga do Brasil e do México, mas a produção mexicana acabou em julho. Os americanos podem não comer manga ou pagar muito mais caro pela fruta. Mas é uma bobagem dos Estados Unidos. O café é um caso clássico. O Brasil pode realocar a produção para outros lugares, mas não comprar do Brasil vai ser muito ruim para eles. Podem dizer que comprariam da Colômbia. A produção da Colômbia é muito menor do que a nossa e os americanos tomam um blend, mistura do nosso café ao colombiano — afirma.

Aqui no Brasil, o plano de ajuda tem potencial para socorrer as empresas, mas ainda não está funcionando. Mello disse que o governo corre para implementar e espera ter todos os sistemas prontos no dia 8 de setembro. A partir dessa data, as empresas poderão acessar as linhas de crédito, com as primeiras liberações previstas para meados do mês.

Enquanto o Brasil conta as suas perdas, os governadores da direita ignoram o tema e fazem campanha para 2026, como se nada tivessem a ver com essa bomba que caiu sobre a economia

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TARCÍSIO ACELERA

Merval Pereira, O Globo

O tarifaço de Trump acabou com a família Bolsonaro. Ficou claro que tudo é um arranjo para salvá-los pessoalmente, sem ajuda nenhuma para os “pobres velhinhos e velhinhas” que participaram do 8 de Janeiro

Ao mesmo tempo que reafirma sua lealdade quase suicida ao ex-presidente Jair Bolsonaro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, pisa no acelerador no discurso de candidato à Presidência da República, reproduzindo até o famoso slogan de um dos mais populares presidentes brasileiros, Juscelino Kubitschek. Fazer 40 anos em quatro é uma promessa de palanque de Tarcísio, que nunca antes havia ultrapassado a linha imaginária que separa o sonho da realidade.

À medida que se aproxima a data do julgamento de Bolsonaro, o panorama vai clareando diante do fato consumado. Recentes pesquisas de opinião mostram que o eleitor já se posiciona diante dos desafios que terá de enfrentar nas urnas dentro de pouco mais de um ano. A Quaest aponta que 55% consideram justa a prisão domiciliar de Bolsonaro e 39% injusta; e que 49% não estão de acordo com as sanções do governo americano impostas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, enquanto 39% estão de acordo.

Outra pesquisa, da Atlas/Intel, diz que 49% aprovam a posição do ministro e 51% desaprovam. Moraes representa, assim, a polarização política que vigora no país hoje. É mau sinal, porque o STF passa a ser parte da questão, e é muito ruim — deveria estar acima das disputas políticas. Na verdade, historicamente sempre teve envolvimento político, mas, nos últimos anos, a partir dos julgamentos do mensalão e do petrolão, passou a ser um player político, cujas decisões interferem na disputa eleitoral. Foi assim com Lula, é assim com Bolsonaro.

Não é bom sinal da democracia, mas é um fenômeno que se espraia pelo mundo. Nos Estados Unidos, Donald Trump faz o que quer, e a Suprema Corte atua como apoio, na maioria das vezes presumido, por sua maioria conservadora, enviando mensagens aos poderes regionais. É um reflexo da nossa política atual, de confrontação e do uso do Judiciário para fortalecer o poder político.

Muitos governos controlam a Suprema Corte com manobras e decisões autoritárias, que garantem aparência de democracia, mas no fundo são controladas pelos governos autoritários. É assim que a coisa anda por este nosso mundo conturbado. Após as revelações dos áudios dos diálogos entre Bolsonaros, pai e filho, e das provas de ações antipatrióticas e ilegais no país e no exterior, no momento nenhum político brasileiro pode confrontar o presidente Lula, como mostra outra pesquisa Quaest.

O tarifaço de Trump acabou com a família Bolsonaro. Ficou claro que tudo é um arranjo para salvá-los pessoalmente, sem ajuda nenhuma para os “pobres velhinhos e velhinhas” que participaram do 8 de Janeiro “sem querer, sem intenção de golpe”, embora essa fosse a principal reivindicação dos acampados à beira dos quartéis. Os mais recentes áudios vazados — que a pesquisa não contempla ainda — terminaram por enterrar a relação familiar horrorosa — filho xingando pai com os piores palavrões, Bolsonaro transferindo milhões de reais para contas da esposa, Michelle, e do filho fujão.

É uma família que usa dinheiro público e privado — obtido de seus seguidores — para interesse próprio. A narrativa de que são patriotas não existe. Perderam o maior símbolo que tinham, o verde e amarelo. Haviam tirado da esquerda a bandeira do Brasil e a camisa da seleção, que viraram símbolo do patriotismo. Hoje estão com a bandeira dos Estados Unidos. Continuar apoiando Bolsonaro a troco do antipetismo? Não tem cabimento, o antipetismo tem um limite, que são seus opositores. Em 2018, não se sabia direito quem era e como era Bolsonaro, ou não se queria acreditar nos relatos de suas atuações no Congresso. Em 2022, ele perdeu usando a máquina do Estado, e agora, com todos esses fatos, acho difícil que o bolsonarismo continue representando a centro-direita.

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