Editorial O Globo
A polêmica sobre o tema é antiga, estava meio esquecida, mas
foi reativada por um estudo do Banco Mundial sobre a (má) qualidade dos gastos
públicos brasileiros, encomendado ainda pelo governo Dilma. Dele constam
críticas ao fato de filhos de famílias de renda mais alta se beneficiarem mais
da universidade pública, gratuita, do que os de renda mais baixa.
O assunto teve mais repercussão ainda porque, no vácuo da
questão previdenciária, entrou na agenda de discussões nacionais — e já não era
sem tempo — um sério problema subjacente aos sistemas de aposentadorias que é a
sua capacidade de transferir renda de pobres para ricos.
Isso acontece porque a aposentadoria do servidor público é
generosa ao extremo, e, por isso, o déficit do seu sistema é proporcionalmente
muito maior que o do INSS, do qual dependem os assalariados do setor privado.
Aos números: um milhão de servidores federais aposentados geram um déficit
anual de R$ 78,1 bilhões, enquanto 30 milhões de segurados do INSS — trinta
vezes mais — produzem um déficit de R$ 188 bilhões, apenas duas vezes e meia
maior que o resultado do sistema previdenciário do funcionalismo público.
Como é o Tesouro que cobre os rombos, com dinheiro de todos
os contribuintes, entre eles os pobres, o efeito concentrador de renda dos
desequilíbrios da Previdência é indiscutível. Mas há outros no Estado
brasileiro. Um deles, a universidade gratuita.
Os críticos do trabalho do Bird argumentam a partir de dados
de pesquisas do IBGE, em que foram captados avanços importantes do peso de
alunos de renda mais baixa na população universitária. Reflexo de ações
afirmativas. Sabe-se, porém, que, se forem analisadas estatísticas segmentadas,
a situação é diferente em faculdades que exigem uma base escolar sólida, como
Medicina, Engenharia e outras.
Tem-se, portanto, de reconhecer que, mesmo de forma não
generalizada, há, sim, um mecanismo de injustiça social em funcionamento e de
privilégio em favor de estudantes de famílias abastadas. Fundamenta-se, dessa
forma, a necessidade da cobrança, pela universidade pública, de alunos em
condições financeiras de pagar. Aplica-se, de maneira irretocável, o princípio
da justiça social.
O debate do tema se justifica, também, devido à penúria em
que se encontram universidades públicas. Não que a cobrança de quem pode pagar
seja a salvação dos estabelecimentos de ensino. Mas, além de justo, representa
uma contribuição financeira que é preciso levar em conta. Por menor que seja.
A crise fiscal do Estado brasileiro, por inevitável,
espalhou-se pela Federação. As universidades paulistas (USP, Unicamp e Unesp)
recebem 9% do ICMS do estado mais rico do país e, mesmo assim, enfrentam
dificuldades. Num estágio de gravidade mais elevado, está a Uerj, no Rio de
Janeiro. Mais um motivo para o fim da universidade generalizadamente gratuita.

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