Vários amigos, embora tenham horror ao atual governo, não se
preocupam muito: pensam que em quatro anos as eleições o substituirão. Alguns
acrescentam que o Brasil assim aprenderá melhor o valorda democracia.
De minha parte, entendo que eles subestimam a destruição do
tecido social e político, a liquidação da
vida inteligente e da vida mesma, que está sendo efetuada prioritariamente nas áreas da educação e do meio ambiente.
vida inteligente e da vida mesma, que está sendo efetuada prioritariamente nas áreas da educação e do meio ambiente.
Debate-se muito o que é fascismo. Porém alguns pontos são
fundamentais nesse regime, talvez o mais antidemocrático de todos, que não é
apenas um exemplo de autoritarismo.
Primeiro, o fascismo conta com ativo apoio popular. Tivemos
uma longa ditadura militar, mas com sustentação popular provavelmente
minoritária e seguramente passiva. Mesmo no auge de sua popularidade —o período
do “milagre”, somando general Médici, tortura e censura, tricampeonato de
futebol e crescimento econômico— não houve movimentos paramilitares ou massas
populares saindo às ruas para atacar fisicamente os adversários do regime.
Hoje, há.
Daí, segundo, a banalização da violência. Elas deixam de
ser, na frase de Max Weber, monopólio do Estado, por meio da polícia e das
Forças Armadas: os próprios cidadãos, desde que favoráveis ao governo,
sentem-se autorizados a partir para a porrada.
O ataque à barca em que estava Glenn Greenwald em Paraty é
exemplo vivo disso.
O que distingue o fascismo das outras formas de direita é
ter uma militância radicalizada, ou seja, massas que banalizam o recurso à
violência. O fascismo já estava no ar uns anos atrás quando um pai, andando
abraçado com o filho adolescente, foi agredido na rua por canalhas que pensavam
tratar-se de um casal homossexual.
Terceiro: essa violência é usada não só contra adversários
do regime —a oposição política— mas também contra quem o regime odeia. Não foca
apenas quem não gosta do governo. Mira aqueles de quem o governo não gosta. No
nazismo, eram judeus, homossexuais, ciganos, eslavos, autistas. No Brasil,
hoje, são sobretudo os LGBTs e a esquerda, porém é fácil juntar, a eles, outros
grupos que despertem o ódio dos que se gabam de sua ignorância (“fritar
hambúrguer” é um bom exemplo, até porque hambúrguer não se frita, se faz na
chapa).
Quarto: o ódio a tudo o que seja inteligência, ciência,
cultura, arte. Em suma, o ódio à criação. Não é fortuito que Hitler, que quis
ser pintor, tivesse um gosto estético tosco, e que o nazismo perseguisse, como
“degenerada”, a melhor arte da época. É verdade que os semifascistas Ezra Pound
e Céline brilham no firmamento da cultura do século 20 —mas são agulha no
palheiro.
Antonio Candido uma vez escreveu um manifesto dos docentes
da USP criticando a “mediocridade irrequieta” que comandava a universidade. Um
colega discordou: a mediocridade nunca é irrequieta! Mas Candido tinha razão. A
mediocridade procede hoje, sem pudor, ao desmonte de nossas conquistas não só
políticas e sociais, mas culturais e ambientais.
A irracionalidade vai a ponto de algumas dezenas de
paratienses tentarem sabotar a Flip, que dá projeção e dinheiro para a cidade.
Essa é uma metáfora de um país que namora o suicídio.
Salvemos a vida, salvemos a vida inteligente! Construamos
alternativas e alianças para enfrentar essas ameaças. Não temos tempo de sobra.
Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação (2015),
governo Dilma) professor titular de filosofia política da USP e professor
visitante da Unifesp

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