O ministro Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato
decidiram se defender das acusações que derivam das mensagens divulgadas pelo
The Intercept Brasil desqualificando o seu conjunto. Como os textos teriam sido
obtidos a partir de uma ação ilegal, não mereceriam crédito. Falta combinar com
quem lê os diálogos e não acredita que o fim justifica os meios. O ministro
Edson Fachin pode não ter acreditado na autenticidade do “aha uhu o Fachin é
nosso” atribuído ao procurador Deltan Dallagnol. Mesmo duvidando, Fachin parece
ter-lhe dado uma resposta hiperbólica:
“Juízes também cometem ilícitos e também devem ser punidos.
(…) E assim se aplica a todos os atores dos Poderes e das instituições
brasileiras, incluindo o Ministério Público.”
A estratégia negacionista destina-se a evitar a discussão do
conteúdo das mensagens que se transformaram em denúncia de parcialidade. Coisa
parecida fez o PT quando a Lava Jato começou a expor seus malfeitos. Não só o
fim justificava os meios, como era tudo uma conspiração que chegava ao braço
clandestino do governo americano. Lula acabou na cadeia e continua repetindo a
mesma cantilena. Trata-se de converter todas as questões a um jogo de sim ou
não. Se a pessoa acredita em Lula, deve acreditar numa conspiração. Se uma
pessoa acredita em Moro e no coletivo da Lava Jato, deve acreditar noutra
conspiração. A ideia deu errado para o PT e está dando errado para Moro.
Cinquenta e oito por cento dos entrevistados pelo Datafolha
consideraram inadequada sua conduta. Enquanto isso, a percentagem de pessoas
que consideram justa a condenação de Lula está em 54%, o mesmo patamar de
abril, quando as armações reveladas pelo Intercept eram desconhecidas. Muita
gente concorda com as sentenças e condena o comportamento de Moro. O mundo de
sim e não só existe na cabeça de quem quer receber atestados de onipotência ou
de infalibilidade.
Até hoje não apareceu um só fato relevante que permita
duvidar da autenticidade das mensagens reveladas pelo Intercept. Verificações
parciais confirmaram a veracidade de alguns textos. Num caso, uma procuradora
disse que não se reconhecia num diálogo. O Intercept mostrou de forma
convincente como conseguiu identificá-la.
Até agora o material divulgado reuniu centenas de
informações que poderiam demonstrar uma fraude. Bastaria um conflito
cronológico para que a névoa que hoje paira sobre Moro se mudasse para cima do
Intercept. Em 1983 a revista alemã Stern comprou por milhões de marcos os
“Diários de Hitler”. Um renomado historiador atestou a autenticidade dos
manuscritos. Na primeira hora surgiu uma pergunta: como Hitler poderia ter
escrito as entradas dos dias seguintes ao 20 de julho de 1944, quando sofreu um
atentado e foi ferido no braço? Daí em diante, testes químicos e investigações
paralelas mostraram que o diário era uma fraude.
No caso das mensagens do Intercept não há um manuscrito, e
as conversas poderiam ter sido editadas. Vá lá, que seja. Mas Moro não lembra
de nada, nadinha. Como ministro da Justiça, tornou-se um figurante de eventos,
até mesmo vestindo camisas de um time de futebol. (Apesar da amnésia, Moro
lembrou-se de pedir desculpas ao Movimento Brasil Livre por causa de uma
indelicadeza.) Nenhum procurador se lembra de coisa alguma. O apagão coletivo
zomba da inteligência alheia quando se sabe que diversas pessoas já se
reconheceram nos diálogos. (O PT também não sabia das roubalheiras.)
Nunca é demais lembrar, pode-se fazer de tudo pela Lava Jato
e por Sergio Moro, até mesmo sustentar ele foi imparcial. O que não se pode
fazer é papel de bobo.
*Elio Gaspari, jornalista, autor de cinco
volumes sobre a história do regime militar, entre eles “A Ditadura
Encurralada”.

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