Se as curtas férias do ministro Sergio Moro servirão para o
ex-juiz “reenergizar o corpo e prosseguir no combate”, como atestou o porta-voz
da Presidência, a reforma da Previdência, quando aprovada, servirá a Jair
Bolsonaro como a vitamina necessária para que ele caminhe até 2022 e dispute a
reeleição, desejo já exposto sem nenhuma dissimulação pelo presidente.
Tanto Bolsonaro quanto Moro foram abatidos por desgastes
evidentes em seis meses de mandato e tiveram perdas de popularidade
expressivas, mas ambos hoje conservam fôlego para concluir o percurso político
que traçaram a si mesmos.
O mundo jurídico reagiu com muito mais perplexidade que o
mundo real diante das mensagens de Moro com a força-tarefa da Lava-Jato,
vazadas e publicadas pelo site “The Intercept Brasil”. A abordagem jocosa e
criativa com o qual o assunto é tratado nas redes sociais por profissionais do
direito não exime a gravidade. Há, por exemplo, a propaganda do fictício ‘Moro
App’: “Você cadastra o processo e ele te avisa dos prazos. Na versão premium,
ele te lembra de incluir provas e ainda corrige a sua petição. Aproveite!
Descontos especiais para membros do Ministério Público”.
Em três meses, a aprovação pessoal do ministro da Justiça
caiu de 59% para 52%, apontou o Datafolha. Para 58% dos entrevistados, a
conduta de Moro, explicitada na troca de mensagens do então juiz em Curitiba
com procuradores que comandavam a força-tarefa da Lava-Jato, é inadequada. Não
é preciso muita matemática para entender que Moro ainda é idolatrado pela maioria.
Porém, é pouquíssimo provável que advogados, em especial os
especialistas em direito penal e criminal, e também os ministros do Supremo,
não tenham ficado “escandalizados” com o que leram, confidencia um renomado
criminalista. Sabe-se que provas ilícitas não poderão ser usadas contra Moro e
contra os procuradores, explica este profissional, mas obviamente poderão ser
usadas em benefício dos réus – entre eles o ex-presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, para pânico dos profissionais do Ministério Público que atuam em
Curitiba.
Moro e os procuradores não reconhecem a autenticidade das
mensagens, mas nenhuma das partes envolvidas colocou em xeque, e de forma
contundente, a veracidade das conversas via Telegram. A estratégia de defesa do
ministro está corretíssima, ironizam criminalistas, pois reconhecer as
mensagens como autênticas seria esquentar provas (ainda que ilícitas) e fazer a
confissão.
Enquanto Moro aguarda ansioso os dias para descansar com a
família na Europa, ministros do STF mandam recados que não poderiam ser mais
diretos. Curiosamente, as manifestações partem dos citados no Telegram. Nesta
semana foi a vez de Edson Fachin (‘Aha, Uhu, o Fachin é nosso’, disse o
procurador Deltan Dallagnol em uma das mensagens). O ministro é relator dos
processos da Lava-Jato no Supremo e deu as declarações num discurso em
Curitiba, no Tribunal Regional Eleitoral. Nada mais emblemático. Juízes cometem
ilícitos e devem ser punidos, afirmou Fachin. Mas as instituições, acrescentou,
devem ser preservadas. É um jeito pouco sutil de dizer que se Moro foi parcial
e processos terão que ser anulados e sentenças revistas, a responsabilidade
deve ser atribuída somente ao ex-magistrado, e não ao Supremo. Juiz não pode
ter uma Constituição para chamar de sua e tampouco agenda pessoal e partidária,
concluiu Fachin.
O “hedge” feito pelo ministro para preservar o Supremo
difere do tom usado por Nelson Jobim, ex-presidente do STF e ex-ministro da
Justiça. Jobim não é do tipo que adota meias palavras. Em entrevista ao portal
“UOL”, opinou que o Supremo foi “leniente, tolerou exageros e abusos” da
Lava-Jato. Jobim não defendeu anulação de processos e a soltura de Lula. Fez um
reparo, em nota, para enfatizar seu “respeito pelo juiz Moro, a despeito de
eventuais críticas pontuais, como personagem central na construção de um Brasil
mais justo, transparente e livre de corrupção”.
Outro aviso veio do ministro Luiz Fux (do “In Fux we
trust”), na semana passada, em evento da XP Investimentos: “Se impõe que o
magistrado tenha vergonha na cara e prudência na língua”. E assim vão se
construindo os discursos para o que virá no segundo semestre, enquanto o “The
Intercept” começa a divulgar áudios das conversas. Ainda que os conteúdos não
sejam bombásticos (até o momento), a voz tem potencial para um estrago bem
maior do que a palavra escrita. É mesmo aconselhável que o ministro Moro
desfrute de férias.
Previdência
“Por que a Previdência dos servidores precisa mudar? Esta é a pergunta fundamental sobre a qual devemos refletir. Os regimes próprios são estruturalmente deficitários, porque, primeiro, não há teto no regime de repartição, o que, evidentemente, permite toda sorte de distorções; segundo, o benefício é igual à última remuneração. Essas duas regras combinadas distorcem ainda mais o sistema (…). As idades mínimas para se aposentar são baixas, se comparadas com os demais sistemas no mundo. São idades efetivamente inadequadas para o sistema previdenciário. E temos pensões altas e de longa duração.” Não, não foi Paulo Guedes quem disse. Foi o petista Ricardo Berzoini, então ministro da Previdência do governo Lula, em audiência na comissão especial da reforma da Previdência na Câmara, em 25 de junho de 2003.
“Por que a Previdência dos servidores precisa mudar? Esta é a pergunta fundamental sobre a qual devemos refletir. Os regimes próprios são estruturalmente deficitários, porque, primeiro, não há teto no regime de repartição, o que, evidentemente, permite toda sorte de distorções; segundo, o benefício é igual à última remuneração. Essas duas regras combinadas distorcem ainda mais o sistema (…). As idades mínimas para se aposentar são baixas, se comparadas com os demais sistemas no mundo. São idades efetivamente inadequadas para o sistema previdenciário. E temos pensões altas e de longa duração.” Não, não foi Paulo Guedes quem disse. Foi o petista Ricardo Berzoini, então ministro da Previdência do governo Lula, em audiência na comissão especial da reforma da Previdência na Câmara, em 25 de junho de 2003.
A política dá voltas e para no mesmo lugar, e as
contradições à esquerda e à direita reservam poucas surpresas. Dezesseis anos
depois, os próximos dias serão novamente animados na Câmara, com o presidente
da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), fazendo tripla jornada para tentar garantir a
votação da reforma, o PT votando contra, o PDT recomendando a expulsão dos que
não rejeitarem a proposta e o presidente Bolsonaro defendendo regras especiais
para policiais. Em 2003, os rebeldes do PT votaram contra a reforma e dali
surgiu o Psol. Em 2019, os rebeldes do PDT e do PSB querem votar a favor da
reforma. Dali que devem sair expoentes autênticos de uma nova política que
ninguém sabe ao certo o que é e o que será.

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