A imagem que tinha na cabeça quando comecei a escrever este
artigo estava mais para cabos elétricos soltos do que fios desencapados, mas o
efeito visual é mais ou menos o mesmo. Pensava em postes elétricos caídos e
aqueles cabos chamuscando e soltando fagulhas, perigo para qualquer um que
passe perto. Fios desencapados servem ao mesmo propósito de visualizar perigos
aos quais somos expostos todos os dias e à necessidade de conter os danos
desses fios desarmando-os e refutando argumentos estapafúrdios.
Não falo sobre os terraplanistas, pois esses já se tornaram
folclóricos de tão primitivos que são. Falo dos outros. Falo do susto brutal de
aprender repentinamente que, no Brasil, parte da elite não sabe o que é
trabalho infantil, ou finge que não sabe para proteger o presidente da
República da repercussão de seus tuítes. A Organização Internacional do
Trabalho (OIT) define o trabalho infantil assim: “Nem todo o trabalho exercido
por crianças ou adolescentes deve ser classificado como trabalho infantil. A
participação de crianças e adolescentes em atividades que não afetem sua saúde
ou desenvolvimento e não interfiram nas atividades escolares é geralmente vista
como positiva”. Isso inclui atividades como ajudar os pais nas tarefas de casa,
nos negócios da família, ou algo que possibilite ganhar um dinheirinho extra
durante as férias escolares ou feriados.
O termo “trabalho infantil se refere a atividades que privem
as crianças de sua infância, de seu potencial, de sua dignidade, e que possam
ser prejudiciais ao seu desenvolvimento físico e mental”. Portanto, a
parlamentar que vendia brigadeiros na escola para pagar as aulas de tênis “sem
precisar”, a jornalista que trabalhava no armazém do pai, ou o juiz que aos 12
anos foi trabalhar numa pequena loja da família não foram vítimas de trabalho
infantil. Assim como não foram vítimas de trabalho infantil as centenas de
pessoas que tuitaram suas experiências a pedido do filho deputado do
presidente.
Vítima de trabalho infantil é a meninada que vende bala nos
semáforos das cidades brasileiras, que cata lata nos litorais do nosso País,
que corta cana debaixo de sol escaldante. Vítima de trabalho infantil são as
2,4 milhões de crianças exploradas País afora, segundo os mais recentes dados
da OIT. Cabe lembrar, tuítes à parte, que o Estado brasileiro se comprometeu a
erradicar a violação de direitos da criança e do adolescente por meio da
exploração laboral até 2025 – faltam menos de 6 anos para terminar o prazo.
Nesses tempos de fios desencapados, em que as descargas
elétricas parecem provocar convulsões intelectuais em quem deveria ter preparo
suficiente para separar os mais abjetos absurdos da mera ignorância, está
difícil usar valores morais para convencer as pessoas dos malefícios de certos
argumentos. Valores morais universais foram atropelados pela ideologia e, nesse
momento, estrebucham nos grupos de família de WhatsApp, nas redes sociais, na
briga constante como forma de “diálogo”. Nesse ambiente, a única forma de
trazer alguma racionalidade para a discussão é colocá-la de forma fria,
deixando de lado – pasmem – a moralidade.
De forma fria, a literatura mostra que o trabalho infantil
prejudica o crescimento econômico, ainda que possa auxiliar algumas famílias
miseráveis no curto prazo – e mesmo essa premissa é questionável diante dos
dados. Ao competir com a educação, o trabalho infantil impede que as crianças
cresçam para se tornarem adultos com mais escolaridade, e, portanto, mais
produtivos e com maiores chances de obter empregos que ofereçam salários
melhores do que a renda de seus pais. Ficam essas crianças, quando adultas,
presas em ciclo de pobreza quase perpétuo, o que pode aumentar o grau de
desigualdade de renda de um país, para não falar da falta de acesso a qualquer
outra oportunidade que favoreça o desenvolvimento econômico. Países que
utilizam trabalho infantil geram desincentivos ao investimento e ao
aprimoramento produtivo, já que há um recurso barato em abundância – as
crianças.
Cabe a todos aqueles com espaço nos jornais o esforço de
encapar fios constantemente para que a ignomínia não resulte na regressão
autodestrutiva.
* Economista, pesquisadora do Peterson Institute for
International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University

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