O presidente Jair Bolsonaro é o eixo de mais uma gangorra:
quanto mais o Queiroz some, mais o Adélio aparece. Há um cerco de proteção ao
policial aposentado e pivô das esquisitices no gabinete do então deputado
estadual Flávio Bolsonaro. E há uma frente para reabrir as investigações sobre
Adélio Bispo, considerado inimputável depois de esfaquear o presidente na
campanha.
O mais novo personagem na trama é Augusto Aras, que foi
indicado por Jair Bolsonaro para a Procuradoria-Geral da República, passou com
louvor pela sabatina no Congresso e acaba de assumir o cargo adotando o
compromisso de “independência”, inclusive diante do Executivo.
Ao Estado, Aras defendeu aprofundar as investigações sobre
Adélio Bispo, em busca da “verdade real”. Isso joga um balde de suspeição sobre
o trabalho da Polícia Federal, que investigou a facada e concluiu que Adélio
tem problemas mentais e agiu sozinho – como endossou a Justiça.
Adélio, aliás, é a real causa da implicância de Bolsonaro
com a Polícia Federal, que já levou pelo menos três sapatadas públicas do
presidente. Assim como esperou a posse para se livrar da multa por pesca ilegal
e se vingar do fiscal que o multou, o presidente não vai descansar enquanto o
MP e a PF não concluírem que, como ele disse na ONU, foi “covardemente
esfaqueado por um militante de esquerda”. É uma tese duvidosa, tanto como a de
que o Brasil esteve “à beira do socialismo”. Adélio foi filiado ao PSOL, mas é
muito menos “esquerdista” do que perturbado.
Na entrevista, Aras citou suspeitas que contrariam a PF e
reforçam os advogados de Bolsonaro: o uso de arma branca, possibilidade de
cúmplices na multidão, alguém com o nome de Adélio na Câmara no mesmo dia e
advogados contratados por desconhecidos.
São pertinentes? Especialistas argumentam que já foram
consideradas e que um procurador-geral só deveria fazer uma manifestação assim,
em público, munido do chamado “fato novo”: uma testemunha, uma prova, ao menos
um indício… Na fala de Aras não há isso, o que reforça temores de que ele veio
para fazer o jogo do Executivo, particularmente do presidente.
Do outro lado da gangorra, Queiroz sumiu, ninguém sabe,
ninguém viu, a não ser a chata e implicante imprensa. E sumiu sem prestar um
único depoimento ou esclarecimento sobre movimentações financeiras atípicas e
depósitos dos funcionários do gabinete de Flávio na sua conta. As dúvidas foram
levantadas pelo falecido Coaf, que mudou de nome e de endereço. Salva-se o
Queiroz, pune-se o Coaf.
O presidente do Supremo, Dias Toffoli, concedeu uma liminar
monocrática, a pedido da defesa de Flávio, suspendendo todas as investigações
em curso com base em dados do então Coaf e da Receita, sem autorização
judicial. Depois, o ministro Gilmar Mendes completou o serviço, vetando toda a
investigação contra o próprio Flávio. E não se fala mais nisso?
O caso Queiroz foi jogado numa gaveta, o de Adélio foi
tirado de outra, deixando a sensação de que Bolsonaro quer impor a sua
narrativa sobre a facada. A PF, porém, sempre prestigiou a operação conduzida
pela superintendência de Minas e há até a intenção de fazer uma entrevista
coletiva para, detalhadamente, demonstrar como foram as investigações e
explicar as conclusões.
A dúvida é o quanto uma instituição tão profissional e
respeitada como a PF consegue resistir a pressões para adaptar conclusões
técnicas a interesses políticos, deixando no ar uma versão sobre uma
conspiração de esquerda. De mito, Bolsonaro evoluiria para mártir da direita. E
a PF viraria pó.
PS: As relações entre os paranaenses Sérgio Moro (Justiça) e
Maurício Valeixo (PF) já foram melhores.

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