Mequinho que se cuide porque o presidente Jair Bolsonaro
aventurou-se na arte do tabuleiro. Mais de uma vez, ele comparou o governo a
uma partida de xadrez, o jogo milenar de estratégia que surgiu na Índia e
dialoga com o que lhe é caro. Em sânscrito, o nome do jogo significa “os quatro
elementos de um exército”: a infantaria (peões), a cavalaria, as carroças
(torres) e os elefantes (bispos).
Autoproclamado Rei, Bolsonaro convocou autoridades para o
seu time e distribuiu-as no tabuleiro. O que está em xeque na política
brasileira é a relação do governo com o Congresso.
O Planalto aguarda o desfecho da reforma da Previdência que
o Senado calculadamente tarda em concluir. Monitora o desdobramento da reforma
tributária, que fatiada em três – a dos deputados, a dos senadores e a promessa
do ministro Paulo Guedes – avançará aos solavancos.
E observa Câmara e Senado, convulsionados pela partilha dos
recursos da cessão onerosa e pela disputa de protagonismo entre Rodrigo Maia e
Davi Alcolumbre. “Há vários dias acontecem fatos que põem em xeque a relação
harmônica entre os poderes que fazem o Legislativo”, reconheceu o líder do PP,
Arthur Lira (AL), após o entrevero com o senador Cid Gomes (PDT-CE).
É como se o Rei encarnado por Bolsonaro vivesse em xeque
permanente. A metáfora do jogo de xadrez surgiu dois dias antes do anúncio do
nome de Augusto Aras para o comando da Procuradoria Geral da República. Um mês
depois ele retomou a comparação, na posse de Aras. “Se fosse um jogo de xadrez,
o Aras seria a Rainha, eu o Rei”, definiu, entre risos e aplausos dos
presentes.
“O Rodrigo Maia seria uma Torre, e a outra Torre o
Alcolumbre. O Cavalo, no bom sentido, o Dias Toffoli. Meus ministros os peões”,
prosseguiu.
Bolsonaro parece entender a dinâmica do jogo, mas erra na
escalação do time. A Rainha, por controlar o maior número de casas, é a
principal atacante do Rei. Mas Bolsonaro não poderia escalar o titular da PGR
para o ataque sob pena de sofrer gol contra.
Recorde-se que o então procurador-geral Rodrigo Janot –
agora protagonista de um dos maiores escândalos da República – ofereceu não
uma, mas duas denúncias contra o então presidente Michel Temer.
E ao menos em teoria, o procurador-geral da República goza
de autonomia e independência institucionais. Uma prerrogativa que não intimidou
o presidente a cobrar publicamente de Aras que seja alertado previamente das
investigações: “por muitas vezes, se nós estivermos num caminho não muito
certo, que muitas vezes estamos fazendo aquilo bem intencionados, nos procurem
para que possamos corrigir”.
Escalar o presidente do STF como Cavalo é manobra arriscada
ou ingênua. O Cavalo é peça que pode ser decisiva nos jogos fechados no centro
do tabuleiro. Num erro tático, o Cavalo pela sua posição pode cercear a rota de
fuga do Rei. A caneta de Toffoli e de seus pares do STF tem tinta para limitar
ou ampliar os passos de todas autoridades com foro: inclusive do filho do
presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), beneficiado com recurso àquela
Corte.
Apesar de todo o esforço de aproximação institucional, é
quiçá perigoso ter Maia e Alcolumbre no papel das Torres. Essas peças são
atacantes velozes porque se deslocam pelo maior número de casas na horizontal e
na vertical. Maia e Alcolumbre comportam-se, todavia, ora como aliados ora
adversários.
Os gestos de aproximação se acentuaram depois que o Planalto
ampliou os espaços do DEM no governo, sigla de Maia e Alcolumbre. O partido que
já controla três ministérios (Casa Civil, Saúde e Agricultura), ganhou postos
estratégicos no segundo escalão: a presidência do Fundo Nacional de
Desenvolvimento da Educação (FNDE), tática na interface com prefeitos, em
indicação atribuída a Maia; a Secretaria Nacional da Receita Federal, em
indicação atribuída a Alcolumbre; a presidência da Companhia de Desenvolvimento
do São Francisco (Codevasf), em indicação atribuída ao líder da bancada,
deputado Elmar Nascimento (BA).
É em meio ao latifúndio do DEM no governo que Rodrigo Maia
declarou há três que Bolsonaro, que no início optara pelo confronto, agora
estaria “conciliador”.
Mas o Congresso não se resume ao DEM ou ao PSD – partido que
tenta ampliar as pontes com o governo – e os parlamentares estão indóceis. “O
governo quer casamento com vida de solteiro. Não pode cobrar fidelidade
distribuindo cargos de segundo escalão”, observa um líder de bancada.
Segundo esta liderança, o acordo de procedimentos dos
partidos de Centro com o governo restringiu-se à reforma da Previdência.
Na última semana, a indefinição da partilha dos recursos da
cessão onerosa foi o estopim para a explosão de nervos. As duas Casas concordam
com o modelo de divisão dos recursos por meio do Fundo de Participação dos
Estados (FPE) e dos Municípios (FPM). Mas um grupo de deputados quer vincular a
destinação dos recursos a obras de saneamento e infraestrutura. O receio é
encher os cofres dos adversários regionais nas eleições municipais.
Ante o impasse que impediu a votação de seu relatório na
Câmara, o relator da matéria no Senado, Cid Gomes, xingou Arthur Lira de
“achacador”. Lira devolveu: “não sei o que ele tem na cabeça, mas não são
neurônios, nem qualquer eletrodo que faça com que o cérebro dele funcione. Ele
é irresponsável, é leviano, é vil, é pequeno, e não merece estar naquela cadeira
[de senador], que é muito maior do que as nádegas dele”, vociferou.
O embate desses dois expoentes do parlamento reflete a
tensão entre as duas Casas. Um deputado da oposição diz que o Senado quer posar
de “bonzinho” com a população. Manteve o valor atual do abono salarial, que os
deputados haviam reduzido a pedido do governo. E retarda a votação do segundo
turno beneficiando aqueles que podem apressar os processos de aposentadoria.
Com o tabuleiro em desordem, melhor Bolsonaro escalar outro time para defender
o Rei. Senão o jogo pode acabar em xeque-mate.

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