A convite do ministro do Supremo Tribunal Federal Luís
Roberto Barroso participei no último dia 09/12 de audiência pública para
debater a constitucionalidade da candidatura avulsa no sistema político
brasileiro.
Ficou evidente uma grande polarização de preferências entre
os convidados. Os partidos políticos e colegas cientistas políticos presentes
se posicionaram enfaticamente contrários a adoção de candidaturas avulsas.
Acreditam que os partidos políticos seriam os verdadeiros veículos da
representação em uma democracia e, portanto, deveriam ter o monopólio do acesso
ao sistema político. Candidatos avulsos colocariam em risco a própria
democracia, já que seriam representantes deles mesmos.
Por outro lado, os movimentos sociais se manifestaram com
veemência a favor de candidaturas independentes. A despeito do expressivo
número de partidos (30 deles têm pelo menos um representante na Câmara dos
Deputados), os movimentos sociais ali presentes se disseram não representados
por nenhum dos partidos. Argumentaram que as estruturas partidárias são
excessivamente hierarquizadas, viciadas e, muitas delas, corrompidas. A
presença de candidatos independentes, portanto, iria oxigenar e gerar maior
competitividade ao jogo partidário.
Em estudo que investiga os efeitos de candidaturas avulsas
na Índia (Independent Candidates and Political Representation in India),
publicado em 2018 na revista APSR, os pesquisadores Sasha Kapoor e Arvind
Magesan mostram que a presença de candidatos independentes aumenta
consideravelmente o número de eleitores participando do processo eleitoral. Por
outro lado, diminuem substancialmente a probabilidade de eleição de
legisladores que faziam parte da coalizão de governo.
Em que pese a Índia apresentar diferenças institucionais
marcantes em relação ao Brasil (parlamentarismo com voto distrital majoritário
e não obrigatório), os resultados dessa pesquisa podem ser úteis para se pensar
o caso brasileiro, pois sugerem que alterações no sistema eleitoral, como as
candidaturas avulsas, também repercutem na governabilidade de um país ao
reduzir o tamanho da coalizão que dá suporte ao governo.
Não existe sistema político ideal em nenhuma democracia do
mundo, mas sistemas que combinam diferentes elementos que equilibram
governabilidade e representação. Sociedades escolhem o que querem privilegiar e
qual custo querem arcar. Esses dois elementos se complementam. Um não pode ser
pensado sem o outro.
O legislador constituinte de 1988 optou pela inclusão dos
mais variados interesses no jogo político, por meio de sistema eleitoral que
combina representação proporcional com lista aberta. Esta escolha gerou a
formação de muitos partidos, que entretanto são ideologicamente amorfos e
fracos na arena eleitoral, o que em grande parte justifica as críticas a eles
feitas pelos movimentos sociais.
Para compensar esses elementos de fragmentação, o mesmo
legislador constituinte determinou que os partidos teriam o monopólio da
representação e delegou muitos poderes (medida provisória, urgência,
orçamentário, de agenda etc.) ao Executivo para que tivesse condições de
governar. Partidos passaram a ter interesse em apoiar de forma disciplinada
esse Executivo para ter acesso a recursos políticos e financeiros controlados
pelo presidente.
A presença de candidatos independentes, portanto, tem o
potencial de comprometer a governabilidade na medida em que tende a aumentar as
dificuldades de coordenação e os custos de transação do presidente nas suas
relações com legisladores. Não é racional parlamentares agirem individualmente
no Congresso, como também não é racional o Executivo negociar individualmente
com cada parlamentar.
A candidatura avulsa é uma inovação institucional que atende
as demandas de maior representação. Porém, deve-se pensar em um mecanismo que
equilibre a balança em prol da governabilidade do presidencialismo
multipartidário.

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