Para o Brasil, a notícia mais alvissareira da política
internacional nesta semana foi a declaração do presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump, de que as negociações com a China estão avançando, o que sinaliza
o fim da guerra comercial entre os dois países. O otimismo de Trump tem a ver
também com a preferência do líder chinês Xi Jinping de que ele permaneça à
frente dos Estados Unidos, pois é melhor lidar com a reeleição de um
concorrente previsível do que com um democrata ainda desconhecido, mas que
certamente cobrará dos chineses mais respeito aos direitos humanos e à
democracia em Hong Kong. Um cenário sem guerra comercial entre as duas
potências favorece a expansão da economia mundial. Isso é muito bom para a
economia brasileira.
A atual boa vontade de Trump nas negociações com a China,
depois de tanto arreganhar os dentes para Xi Jinping, é um reflexo direto dos
apuros em que se meteu na Ucrânia, o que pode custar a aprovação do seu
impeachment pela Câmara dos Deputados. Tudo bem que o Senado norte-americano é
controlado pelos republicanos, porém, dependendo das provas que existam contra
Trump, não é uma boa ideia pôr em risco a economia norte-americana numa queda
de braços cambial com os chineses. Tal cenário poderia complicar a vida dele
também no Senado e levá-lo à derrota eleitoral.
Trump é acusado de violar a lei ao pressionar o líder da
Ucrânia a buscar possíveis informações prejudiciais sobre um rival político. Em
agosto, um oficial de inteligência anônimo escreveu uma carta denunciando uma
conversa telefônica de Trump com o presidente ucraniano, em 25 de julho. Dizia
ter uma “preocupação urgente” de que Trump tenha usado seu gabinete para
“solicitar interferência de um país estrangeiro” nas eleições presidenciais de
2020.
Mais tarde, um memorando (e não uma transcrição) revelou que
Trump pediu ao presidente Volodymyr Zelensky que investigasse o
ex-vice-presidente dos EUA Joe Biden, o principal candidato a competir contra
Trump nas eleições do próximo ano, bem como o filho de Biden, Hunter. Alguns
depoimentos ao comitê da Câmara apontaram que havia um “canal paralelo”
diplomático com a Ucrânia, para solicitar as investigações, e há indícios de
que Trump tenha usado quase US$ 400 milhões em ajuda militar para pressionar os
ucranianos.
A sinalização do fim da guerra comercial entre os Estados
Unidos e China somou-se aos resultados positivos do PIB brasileiro no último
trimestre, o que animou o mercado de ações. Teve muito mais peso do que a
notícia de que Trump voltaria a sobretaxar as importações do aço e do alumínio
brasileiros, por causa da desvalorização do real ante o dólar. O principal
índice da Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fechou em alta ontem e renovou
máximas pelo segundo dia seguido. Ao longo da sessão, o Ibovespa subiu 0,29%, a
110.622 pontos. É o maior patamar de fechamento já registrado. Na máxima,
chegou a 111.072 pontos.
Crescimento
O otimismo do mercado foi inflado também por causa das
expectativas de crescimento da equipe econômica do governo: “Já estou
escutando, pelo tipo de investimento e planejamento de algumas empresas, que a
gente pode ter, pelo menos, um crescimento de 2,3%. Pode ser maior. O crescimento
pode tranquilamente ser por volta de 2,3%, 2,5%”, afirmou o secretário do
Tesouro, Mansueto de Almeida, durante evento da XP Investimentos sobre
perspectivas para 2020. “A gente está terminando o ano de 2019 e começando 2020
em um cenário muito melhor do que o governo e o mercado esperavam”, arrematou.
O que ainda atrapalha a economia brasileira, do ponto de
vista externo, é a equivocada política do governo em relação ao meio ambiente e
a radicalização ideológica, principalmente em áreas sensíveis para a opinião
pública mundial, como as dos direitos humanos e da liberdade de expressão. Para
se ter uma ideia de como as coisas funcionam, por exemplo, o Brasil está tendo
dificuldade para conseguir a extradição de criminosos, inclusive de
colarinho-branco, por causa das nossas condições carcerárias. Fundos de
investimentos estão revendo suas operações no Brasil por causa da questão
ambiental. Artistas de todo o mundo começam a se engajar em protestos contra o
governo brasileiro em razão das agressões oficiais ao mundo artístico e
cultural.
Além disso, a nova política externa também não ajuda, é um
jogo de soma zero. Capotou na primeira curva, por causa da reação da China e
dos países árabes ao alinhamento automático com os Estados Unidos e Israel.
Antes, apesar dos problemas, havia boa vontade com o Brasil, quando nada porque
nossos diplomatas estavam empenhados em encontrar parceiros e conquistar a
solidariedade para nos ajudar a resolvê-los. Não era pouca coisa.

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