O cerco à modesta democracia vem de mais quadrantes do que
se tem reconhecido. Os generais do capitão, o próprio e determinadas forças
econômicas não são tudo o que pressiona a democracia. Nem, talvez, a força
portadora de maiores ambições. O movimento liberticida tem uma dimensão
esquecida, que recente arbitrariedade traz à tona.
O impulso de Marcelo Crivella para vetar
repórteres do Grupo Globo em entrevista "coletiva", veio, mais
que do próprio prefeito, do avanço antidemocrático de Bolsonaro nos
ataques à Folha e à Globo. Incluído em investigação sobre
possíveis subornos na prefeitura do Rio, não era ao jornal e sua notícia
objetiva que poderia caber alguma reação do prefeito. Ainda menos uma forma de
censura, inútil embora.
Pastor, Crivella é reservado, mas não há dúvida de que tem
posição muito influente na sua igreja, não só porque sobrinho de Edir Macedo, e
entre os pastores em geral. O ar de desinteresse por seu cargo tornaria
inexplicável a decisão de candidatar-se. E então se nota que Crivella, por uma
infinidade de atitudes e falta de, é um pastor evangélico na prefeitura,
maneiroso na sua antipolítica e nas obstruções aos costumes, aos eventos e
modos pessoais reprováveis por sua igreja. Um pastor em missão. Sem base
política para eleger-se, eleito pela indução (não ilegítima) dos demais
pastores nos seus fiéis.
São muitos assim, serão ainda mais nas eleições de 2020. Não
por um movimento recente, oportunista. É uma construção planejada, minuciosa,
em prosseguimento. Há uns 20 anos, talvez, a repórter Elvira Lobato, da Folha,
ao fazer um trabalho sobre a
igreja de Edir Macedo deparou-se, na cúpula, com o que lhe pareceu uma
estrutura sobretudo política, propriamente dita. Ativa para fora e fechada. Não
havia como apurar muito, mas conversamos bastante, nós dois, sobre o que cada
um sabia e concluía.
Um projeto de poder. Para o predomínio, à parte ambições
pessoais, de uma concepção de ordem social, de moral pública e de sobrenatural.
É o que explica o convívio convergente de tantas igrejas que deveriam
atritar-se na conquista e domínio de fiéis, mas cujos chefes se mostram em
permanente uníssono público —ressalvada alguma dissensão eventual e nebulosa.
Um projeto que não é de uma igreja evangélica, é das igrejas evangélicas.
Religioso, admita-se, para a sua massa de fiéis, e político-opressor para a
outra multidão.
Bolsonaro, que até poucos meses dizia-se católico, e
evangélicos utilizam-se mutuamente. Suas concepções, entendidas as de Bolsonaro
como as características do Exército, assemelham-se em muitos pontos, mas não
distribuem o rigor da mesma maneira. Entre uma corrente e outra, a diferença
indelével: regime militar ou militarizado acaba sempre derrubado, a história não
sabe de exceção; o outro, baseado em massas místicas e incultas, com
crescimento constante causado pela economia, não se sabe ao que pode levar.
Há mais nos conduzindo do que os "especialistas"
percebem.
PS: Bolsonaro não recuou
do ato contra a Folha. Fugiu, isso sim, da derrota certa nas
ações judiciais da ABI (de volta a ser ABI) e da OAB. A fuga também é derrota.
Janio de Freitas
Jornalista

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