Numa sexta-feira 13, há exatamente 51 anos, o AI-5 caiu
sobre o país como um viaduto. O Brasil era outro. Dos brasileiros de hoje,
76,21% não haviam nascido. São 160,2 milhões de brasileiros nascidos depois
daquele dia. Pelo tempo passado e pela renovação populacional, esse deveria ser
um assunto esquecido e pacificado. Mas o AI-5 foi um dos assuntos mais falados
no país este ano, em função do estranho sonho autoritário de pessoas que hoje
ocupam posição de poder.
Há vários mitos sobre a ditadura que andam sendo repetidos
numa demonstração de que é preciso voltar a falar do assunto. Os militares
chegaram dizendo que ficariam pouco tempo e ainda hoje alguns grupos defendem
que o regime foi brando. Não existe ditadura suave e a dinâmica do caminho
autoritário é incontrolável.
O general Castello Branco dizia que o regime seria
temporário e ele durou 21 anos. O primeiro Ato Institucional foi apresentado
como sendo o único e houve 17. O AI-5 duraria um ano, durou 10. O SNI seria
apenas um pequeno serviço de inteligência e, como registra Elio Gaspari, virou
um “monstro” na definição do seu próprio criador, Golbery do Couto e Silva. No
final tinha seis mil funcionários, escritórios em cada ministério, em cada
órgão estatal, envolveu-se em inúmeras maracutaias, do garimpo na Amazônia às
negociatas com café.
O país não estava “indo para o comunismo”, mas sim vivendo
um governo de muita instabilidade e que se aproximava do seu final. No ano
seguinte haveria uma eleição em que se enfrentariam Juscelino Kubitschek e
Carlos Lacerda, com grande chance de vitória do primeiro. Os dois se juntaram
depois na Frente Ampla, que incluiu também João Goulart, uma aliança impensável
entre o golpista Lacerda e o presidente deposto. Eles passaram por cima das
diferenças pela causa comum do retorno à democracia. A frente foi proscrita
pelo governo no interminável ano de 1968.
Na economia, a ditadura começou fazendo um plano
anti-inflacionário e de ajuste das contas públicas. Através do PAEG, a inflação
foi reduzida com um mecanismo de correção salarial pela média dos 24 meses
anteriores e que levou a uma redução de salário real. Após o ajuste, o país
acelerou o crescimento do PIB. Se o país estava crescendo, isso deveria ter
desanuviado o clima político, mas a direita no poder decidiu radicalizar.
A coincidência entre o melhor momento da economia e o pior
período da repressão é até estranha. O crescimento acelerado, em qualquer país,
produz uma taxa maior de aceitação do governo. O PIB cresceu em média 11,2% de
1968 a 1973, segundo André Lara Resende no livro “130 anos da República”. Os
militares queriam mais que apoio, ambicionavam a unanimidade. Para calar todas
as vozes discordantes foi disparada a violência desmedida do Ato Institucional
que fechou o Congresso por quase um ano, estabeleceu a censura prévia contra
alguns órgãos de imprensa, suspendeu todas as garantias constitucionais, cassou
parlamentares, expulsou estudantes e professores das universidades e expandiu a
máquina de tortura e morte.
O crescimento do país era desigual. Segundo Pedro Ferreira de
Souza, a parcela da riqueza nacional apropriada pelos brasileiros que estavam
entre os 1% mais ricos subiu de 17,7% para 25,8% entre 1964 e 1970. Oito pontos
percentuais em seis anos.
O tempo de forte alta do PIB é apenas uma parte dos 21 anos.
Ficou restrito ao final dos 60 e começo dos 70. Houve o período de recessão,
inflação, dívida externa e bagunça fiscal. “Quando, na segunda metade dos anos
1970, os desequilíbrios das contas externas e as pressões inflacionárias
reapareceram, agora combinados com a correção monetária, estava montado o
quadro para quase duas décadas de estagnação e aceleração inflacionária”,
escreve Lara Resende.
Não deveria ser preciso dizer que o AI-5 abriu um tempo
maldito que jamais pode provocar saudosismo nos governantes. Mas também não
deveria ser preciso dizer que torturador não é herói e que presidentes não
falam, com naturalidade, sobre instrumentos de tortura. Não deveria ser
necessário dizer que os problemas da democracia só podem ser corrigidos com
mais democracia. Contudo, ainda é preciso lembrar como foram terríveis aqueles
dias, aqueles anos, que começaram numa sexta-feira 13, há 51 anos.

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