Passado um ano de governo, um aspecto salta à vista:
Bolsonaro criou um estilo próprio de liderança presidencial. Obviamente que ele
repete certos padrões personalistas anteriores, que se apresentavam em figuras
tão distintas como Vargas, Collor e Lula. Descontadas as semelhanças, o que
fica é um modelo de presidente que busca a todo momento ser o centro da
política brasileira, criando factoides que priorizam as críticas a pessoas,
ideias e comportamentos. Trata-se de um modo basicamente negativo de construção
de projeto de poder. Bolsonaro sempre precisará de um inimigo para governar o
país.
A lógica bolsonarista de liderança é eficaz em vários
sentidos. Primeiro, porque marca uma posição perante uma parcela do eleitorado,
gerando uma forte identidade entre o líder presidencial e os seus
correligionários – é o “eu contra eles”, num tom muito mais radical que o do
petismo. A porção da população que vai ficar neste grupo ainda é uma incógnita.
De todo modo, na pior das hipóteses, Bolsonaro consegue manter pelo menos de 15%
a 20% ao seu lado, o que não garante a reeleição, mas solidifica um nicho de
apoiadores que irão até o fim com o presidente, mantendo-o como um governante
que tem anteparo para digladiar com outras lideranças políticas.
Selecionando inimigos e os atacando a todo momento, muitas
vezes por meio de acusações e temáticas secundárias em relação às políticas
governamentais, Bolsonaro obriga os criticados a se defender constantemente. O
presidente se torna o dono da bola do jogo e faz com que os outros fiquem correndo
atrás da pelota, sem que nunca a tenham por completo. Antigamente, isso tinha
um nome: diversionismo, isto é, a capacidade de evitar o que é central na
disputa do poder e nas políticas públicas. Essa estratégia dificulta ter um
maior foco na crítica ao governo, pois se a cada semana há um assunto novo para
se discutir, o que deve ser priorizado no debate com a população?
É interessante notar que mesmo naquilo que o bolsonarismo
procura trazer de agenda positiva, isto é, de defesa de uma visão comum de
país, ele o faz criticando outros ou reprimindo comportamentos ou ideias que
deveriam ser extirpados. Para ficar nas simbologias religiosas, trata-se de um
modo menos franciscano de pensar a política e mais baseado numa concepção
cruzadista – conquistar corações significa usar a guerra como instrumento.
Bolsonaro é muito parecido com Lula em sua grande capacidade
de falar a linguagem popular e de fazer campanha eleitoral permanente. Porém,
ao construir seu discurso com tonalidade negativa e centrado na busca de
inimigos, ele constrói um tipo de liderança cuja força está em captar o medo e
a raiva das pessoas. Foi esse o espírito predominante nas eleições de 2018,
depois de anos de recessão e da avalanche contra a corrupção produzida pela
Lava-Jato. Ainda há muita gente ligada a esses dois sentimentos, mas em algum
momento muitos desses eleitores vão querer de volta a esperança.
Se o presidente conseguir um bom resultado econômico e
social até 2022, algo realmente robusto, pode estar aí uma novidade em relação
ao seu padrão atual, sustentado na negatividade. Caso contrário, terá que se
basear num modelo em que ele briga contra todos, torcendo principalmente para
ter alguma polarização com o PT. Só que antes de pensar nas próximas eleições
presidenciais, é preciso lembrar a longa travessia, de mais três anos, que
teremos de enfrentar.
Há duas grandes variáveis que podem, em algum momento,
inverter o clima construído pela liderança presidencial de Bolsonaro. A
primeira é de cunho estratégico e a segunda capta as profundezas de um país que
parece ter ficado para escanteio na agenda política. Afinal, o clima azedo do
bolsonarismo disseminou-se e muitos se perguntam se há algum lugar em que isso
não seja dominante hoje no Brasil.
Ao ter de criar a todo momento fatos políticos baseados no
confronto, Bolsonaro abre muitas arestas e possibilidades de problemas,
inclusive porque atua desse modo também no plano internacional.
Esse conjunto de inimigos e disputas vai se acumular durante
quatro anos, e caso a bonança não venha logo, a tendência é que o número de
adversários e eleitores insatisfeitos vai crescer mais do que o contingente de
criticados (pessoas, ideias e grupos sociais) pelo presidente.
Exemplo maior disto é a postura ambiental do país, criticada
recentemente pela Comissão Europeia, que disse abominar as atuais ações do
governo Bolsonaro. O mais provável, conhecendo seu estilo, é que o bolsonarismo
vai continuar nesta toada até que a crise vire algo muito grande. Assim, não
deverá ser aprovado o acordo União Europeia/Mercosul neste quadriênio, o
agrobusiness brasileiro pode perder mercados, megainvestidores institucionais
reduzirão seu ímpeto e não adianta xingar a “pirralha” da Greta. No meio desse
caminho, o governo pode perder apoiadores, deixando o capitão apenas com seu
séquito mais fervoroso, cujo tamanho é pequeno demais para garantir a
governabilidade.
Muitas outras áreas dominadas pelo discurso bolsonarista do
confronto podem ter esse mesmo desfecho, como na política externa ou na
educação. Portanto, talvez seja muito difícil para Bolsonaro manter esse estilo
durante toda a travessia sem ter arranhões muito grandes. Mas, além disso, é
preciso lembrar (quase gritar) que existe um Brasil para além de Bolsonaro. Um
país que, a despeito desse caldo de cultura marcado pelo confronto permanente,
está tendo sucesso em suas ações adotando outra forma de agir coletivamente.
Uma parte importante desse outro país está com políticas
públicas bem-sucedidas no plano subnacional. O bolsonarismo criou o slogan
“Mais Brasil, menos Brasília”, mas poucas vezes olha com a devida atenção para
o que ocorre em vários entes da Federação. Em vez do ministro da Educação ficar
xingando tudo que ocorreu antes dele por conta dos resultados dos alunos
brasileiros no exame internacional do PISA, ele deveria conhecer e disseminar o
que tem dado certo em termos de políticas educacionais estaduais e municipais.
Weintraub deveria parar de criar factoides e começar a
conhecer a experiência de Sobral e, numa escala maior, do Ceará, para ver como
é possível fazer uma revolução no processo de alfabetização. Existe ali um
Brasil que dá muito certo e não segue a lógica bolsonarista. Ao contrário, o
forte do modelo cearense é a montagem de uma governança baseada na confiança
mútua e colaboração entre os mais diversos atores, inclusive de vários partidos
políticos. Deveria, ainda, conhecer a experiência dos Arranjos do
Desenvolvimento da Educação (ADEs), que juntam municípios num processo
cooperativo para resolver problemas educacionais, seja na Chapada Diamantina,
em Votuporanga (SP) ou na Grande Florianópolis. Mais uma vez, a solução aqui
foi um arranjo que reúne pessoas e movimentos os mais variados, em vez de
procurar inimigos em todo canto.
A cultura é um dos grandes patrimônios de qualquer país. No
caso brasileiro, isso é ainda mais marcante porque somos reconhecidos
internacionalmente pelas nossas obras culturais e artistas. Pois bem, e o que
faz o governo Bolsonaro? Coloca em xeque a riqueza cultural e nossa diversidade
em nome de um projeto de purificação de nossa arte. Onde isto deu certo? No Irã
de Khomeini? Na Coréia do Norte?
Fernanda Montenegro e Chico Buarque são símbolos nacionais e
internacionais de um Brasil que dá certo. Eles não precisam de Bolsonaro, mas o
Brasil precisa de gente como eles. E se a nova orientação oficial é procurar a
“verdadeira cultura popular brasileira”, é preciso conversar com os jovens da
periferia das grandes cidades, que produziram cultura como forma de combater a
desigualdade e dar visibilidade a quem não tem espaço no grande “show
business”. Mas o bolsonarismo não vai dialogar com esse pessoal, nem com os
seguidores de Ariano Suassuna.
Existe uma sociedade civil pujante no Brasil, com projetos
coletivos em várias áreas, que melhoram a qualidade das relações sociais em
vários lugares, sobretudo nos mais carentes. Há muitas parcerias entre
universidades e destas com empresas produzindo inovação e desenvolvimento de
longo prazo para o país, usando como principal instrumento a busca de
sinergias. Também há empresas e empreendedores que obtiveram sucesso
internacional porque acreditam que boas ideias e muito trabalho são mais importantes
do que ficar brigando nas redes sociais.
Se quisermos sair do clima de confronto e da mediocridade
impostos pelo bolsonarismo, precisamos lembrar do Brasil que vai além dessa
lógica de guerra. Um país que deveria ter orgulho de Paulo Freire, porque as
melhores universidades americanas o consideram um dos maiores educadores do
século XX, e a Finlândia, aquele país sempre elogiado no PISA, usa claramente o
seu método educativo para formar os jovens que vão compor sua sociedade do
futuro.
Desejo a todos um excelente 2020, que deixe para trás a
lógica do confronto permanente instalada por Bolsonaro. Temos um país em que há
ainda muitos problemas e feridas, como a escravidão, mas cuja saída está em
mais colaboração entre Estado e sociedade, bem como maior tolerância e
negociação entre lideranças políticas diferentes.
*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e
chefe do Departamento de Administração Pública da FGV-SP

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