Volto ao tema de reportagem publicada nesta Folha nos
últimos dias de 2019 e que, pela importância, deveria ter tido maior
reverberação. Refiro-me à viagem do presidente do STF, Dias Toffoli, à cidade
de Ribeirão Claro (PR), em avião da FAB e comitiva de 11 pessoas. Toffoli teve
como único compromisso na cidade inaugurar o fórum eleitoral local, que recebeu
o nome de seu pai.
Como ninguém é de ferro, esticou o fim de semana em um
resort de luxo e só deixou a região na segunda, em avião da FAB. A reportagem
(de Camila Mattoso, Ranier Bragon e Ricardo Balthazar) mostra um traço
enraizado nos costumes de autoridades no país: o uso de patrimônio público em
compromissos privados.
A imprensa já noticiou inúmeros casos dessa nefasta
interseção. Ocorre-me um, de 2011, também revelado por esta Folha, quando o
então presidente do Senado, José Sarney, usou um helicóptero da Polícia Militar
do Maranhão para ir de São Luís até a ilha do Curupu, sua propriedade
particular. O uso da aeronave —comprada para atuar em emergências médicas—
atrasou o atendimento a um pedreiro acidentado.
As justificativas de sempre, “representação”, “segurança” e
“serviço”, revestem de legalidade o mau uso do patrimônio que deveria servir
apenas aos interesses do Estado e dos cidadãos/contribuintes.
No ótimo livro “Um país sem excelências e mordomias”, sobre
como vivem políticos e autoridades na Suécia, a jornalista Cláudia Wallin conta
o caso de uma deputada que se viu no meio de um escândalo, em 2011, porque, ao
deixar o Parlamento após sessões que se estenderam até tarde da noite, usou o
dinheiro do contribuinte para voltar de táxi para casa em vez de usar o trem.
Maus exemplos no uso do dinheiro público estimulam a
descrença na democracia, nas autoridades e nas instituições. O Brasil tem
muitas reformas à frente. Talvez a mais importante seja estabelecer uma
separação nítida entre interesse público e conveniência de nossas autoridades.
Seremos capazes de tal mudança?

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